João Noronha — Um jornalista e um jornal

 

Entre o final da madrugada e início da manhã da última quarta-feira (5), por volta das 5h30 da manhã, enquanto nascia o sol ainda forte de abril, morreu aos 67 anos o jornalista João Noronha Neto. Ele foi vítima das complicações de um AVC hemorrágico, na UPA de São João da Barra, onde tinha se internado duas semanas antes, para tratar de uma pneumonia. Fez sua passagem às margens da BR 356, que tantas vezes cruzou desde a primeira infância. Em uma vida, mais que de repartida, completa nos dois sentidos entre Campos e Atafona.

Como pesquisador e escritor, João dedicou a Atafona seus dois livros: “Uma dama chamada Atafona”, de 2003; e “Atafona: sua história, sua gente”, de 2007. Que lhe valeram em 2019 a eleição como membro da Academia Campista de Letras (ACL), da qual tinha se licenciado para tratar da saúde. Como jornalista, após experiências na TV Norte Fluminense, como repetidora da Rede Globo e da Band, e no extinto jornal A Cidade, ele teve duas passagens marcantes pela redação da Folha da Manhã, entre 2005 e 2016. Onde deixou amigos e admiradores da sua correção de caráter, grande coração, zelo e dedicação profissional.

Em 12 de janeiro de 2018, quando trabalhava na assessoria de comunicação do município vizinho de Quissamã, Noronha escreveu um texto sobre os 40 anos da Folha, 11 deles também contados por ele, que foi publicado em um caderno pelo aniversário do jornal que batiza o Grupo Folha. Que, ao eco grave da sua voz inconfundível, republicamos abaixo. Na homenagem mais que devida de um jornal a um grande jornalista, tomadas de empréstimo as suas palavras: obrigado sempre, João!

 

João Noronha (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)

 

Folha, marca de sucesso e qualidade

Por João Noronha

 

Uma revolução na história da imprensa em Campos. O 8 de janeiro de 1978 foi o dia mais esperado por todos nós, jornalistas, lotados em outras redações, que sonhávamos com os avanços tecnológicos da época, quando foi às bancas o primeiro jornal offset da região. Impressão e fotografias de qualidade, matérias bem elaboradas e editadas, que conquistaram a confiança da população.

A experiência profissional de Aluysio Cardoso Barbosa aliada à visão empresarial de Diva dos Santos Abreu Cardoso Barbosa não poderia ter uma receita de sucesso diferente. Empresa sólida e bem-sucedida, vitoriosa em movimentos importantes que nortearam o progresso da nossa Campos dos Goitacazes e na promoção de eventos que depois se tornaram marca registrada. Nascia a Folha, a minha segunda casa entre 80/84. E, depois de passar por outros veículos de informação, retornei entre 2005/15 sob o comando de Aluysio Abreu Barbosa, que implementou o jornalismo investigativo, atendendo às exigências do mercado editorial.

O nosso admirável mundo novo seguia os passos da modernidade, com o serviço noticioso da agência Jornal do Brasil (via telex), que só era possível até então através de escuta de rádio e com dificuldades dada à distância da capital. O jornal inovava a cada ano, com lançamento de cadernos especiais voltados para os públicos infantil, estudantil, agronegócios, e diversos segmentos representativos da sociedade goitacá. O profissionalismo cresceu tanto, que a Folha reuniu durante décadas os melhores nomes da comunicação regional, uma espécie da Rede Globo impressa.

Sempre preocupada em oferecer qualidade e informação de primeira mão aos seus anunciantes e assinantes, a Folha se agigantava com projetos gráficos e investimentos profissionais. O primeiro jornal também a informatizar sua redação e criar editorias que o tornaram o maior e melhor impresso do Norte Fluminense. Perto de completar meio século de informação, a Folha marca de sucesso e qualidade vai ser mantida ainda por muitos anos. Vida longa aos seus diretores pela dedicação e a seriedade na condução da empresa, da qual me orgulho por ter passado dois longos períodos, nestes 35 anos de profissão.

Obrigado sempre, Folha!

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

“Babilônia” e o cinema adorado pelo avesso

 

Há filmes que são odes de amor ao cinema. Mesmo que pelo viés ácido da crítica, como no final das relações mais intensas entre sentimento e carne, ainda assim amor. “Te adorando pelo avesso”, como no verso de Chico Buarque em “Atrás da porta”.

É o caso de “Babilônia” (2022), vencedor de três estatuetas do Oscar, entregues mês passado: melhor trilha sonora original, figurino e direção de arte. Dirigido pelo roteirista e cineasta estadunidense Damien Chazelle, o mesmo do sucesso “La La Land” (2016), seu novo filme tem como chamarizes as estrelas Brad Pitt e Margot Robbie. E pode ser alugado pelos assinantes do canal de streaming Amazon Prime, como boa opção para o feriadão da Páscoa.

 

Wlliam Holden e Gloria Sawnson em “Crepúsculo dos deuses”, clássico do mestre Billy Wilder

 

ׅ“Babilônia” se arrisca ao contar uma história já imortalizada por clássicos talvez insuperáveis, dos quais Chazelle bebe assumidamente: “Crepúsculo dos deuses” (1950), de Billy Wilder; e “Cantando na chuva” (1952), de Stanley Donen e Gene Kelly. Tratam da passagem do cinema mudo ao falado, no final dos anos 1920. Que foi tão rápida, avassaladora e traumática quanto é a comunicação de massas com a redes sociais, nestes anos 2020.

 

Numa das cenas mais icônicas da história do cinema, Gene Kelly em “Cantando da chuva”

 

 

O CINEMA

A quem nasceu e viveu com o cinema falado, e supõe que o mundo e o cinema nasceram junto consigo, necessário o flashback. A primeira exibição de cinema, pelos irmãos Auguste e Louis Lumière, se deu na Paris de 1895. “A saída da fábrica Lumière em Lyon” era um documentário de curta-metragem, de 45 segundos. Mas foi nos EUA que a invenção, ainda muda, se popularizou.

 

 

Em 1903, a ficção “O grande roubo de trem”, de Edwin S. Porter, foi o primeiro grande sucesso de público do cinema. Que levou à abertura de salas de exibição em todo o país: os “nickelodeons”. O nome era referência ao preço do ingresso: 5 centavos de dólar, moeda cunhada em níquel.

 

 

Ainda sem som, que não dos pianos ao vivo nos nickelodeons, a novidade ganhou caráter industrial com a demanda de filmes o ano inteiro. Cuja produção passou a ser sediada no início dos anos 1910 em um distrito de Los Angeles, Hollywood. Tinha terra barata, tempo bom e condições de filmagem o ano inteiro. Diferente da já cara Nova York, com seu inverno rigoroso.

Com a participação na 1ª Guerra Mundial (1914/1918) na Europa, mais a pujança da sua economia, os EUA passaram de potência regional a mundial. E levaram junto seu cinema, já em escala industrial. Com base na divisão de tarefas entre especialistas em cada fase da produção. Na linha de montagem criada por Henry Ford para fabricar, baratear e popularizar automóveis.

 

Erguido nos anos 1920 no Monte Lee, ainda como Hollywoodland, o letreiro famoso do cinema era originalmente propaganda de loteamento de terrenos

 

Na sequência, os anos 1920 retratados em “Babilônia” seriam, segundo o crítico e historiador Arthur Soffiati, o auge do cinema. Porque foi quando este, ainda mudo, se afirmou como arte, sétima e última. Mesmo vista com desdém elitista pelas seis anteriores, por ser um fenômeno da cultura de massas. Que lhe conferiu um retorno pecuniário ainda desconhecido às artes.

A 5 centavos de dólar pago por cada um dos milhões de espectadores, os executivos dos estúdios e seus principais atores e diretores se tornaram milionários. Com uma vida suntuosa como a do rei Nabucodonosor e sua corte na Babilônia da Antiguidade.

Ditado pelas massas que pagavam ingresso, esse universo literalmente nababesco virou de ponta à cabeça em 6 de outubro de 1927. Com o imenso e imediato sucesso de “O cantor de jazz”, de Alan Crosland. Até hoje mais conhecido como “o primeiro filme falado” e estrelado pelo cantor Al Jolson, a fala mais famosa da sua personagem, Jakie Rabinowitz, nunca mais se calaria: “Espere um minuto, espere um minuto. Você ainda não ouviu nada”.

 

Consiserado o primeiro filme falado, “O cantor de jazz” foi um sucesso de público imenso e imediato em 1927, a despeito de trazer o branco Al Jolson com o rosto pintado de negro, o que era comum à época e hoje é condenado como racista

 

 

O FILME

Junto com Leonardo DiCaprio, Brad Pitt e Margot Robbie já haviam estrelado outra ode de amor ao cinema, “Era uma vez em… Hollywood”, de Quentin Tarantino

Nos últimos dias do cinema mudo, ao som do jazz e antes de “O cantor de jazz”, “Babilônia” traz o galã e a musa do cinema dos anos 2020 como um galã (Jack Conrad) e uma musa (Nellie LaRoy) do cinema dos anos 1920. Sem coincidência e com spoiler, as personagens de Brad Pitt e Margot Robbie não têm relação carnal em “Babilônia”. Como em outra ode de amor recente ao cinema que os dois estrelaram: “Era uma vez em… Hollywood” (2019), de Quentin Tarantino.

Se não entre si, Conrad/Pitt e LaRoy/Robbie não economizam na penca de relacionamentos com outros. O primeiro, com vários casos, noivas e esposas. Que se sucedem como a clássica animação Tom & Jerry: de maneira acelerada e sempre com o mesmo fim.

A protagonista feminina não fica atrás, mas tem duas relações mais marcantes. Ainda como aspirante a atriz, em meio a uma orgia da Hollywood/Babilônia, a primeira é ironicamente platônica. Com o ainda aspirante mexicano a produtor Manoel “Manny” Torres, na pele de Diego Calva. Que é o protagonista, de fato, do filme. A outra, já após o estrelato, é lésbica. Com a cantora chinesa Lady Fay Zhu (Ji Jun Li), que faz legendas para filmes mudos.

A aparente contradição entre arte e pop é explorada pelo diretor e roteirista no tenso diálogo de Conrad/Pitt com uma de suas esposas, a atriz de teatro Estelle Conrad (Katherine Waterston). Com soberba, ela tenta ensiná-lo como colocar suas falas nos filmes. Enquanto a tragédia anunciada com o produtor e amigo George Munn (Lukas Hass), em seu romantismo incurável, representa tudo que não tinha mais volta após a estreia de “O cantor de jazz”.

Protagonista de “O cantor de jazz”, o exemplo real de Jolson, imigrante judeu nascido na Lituânia, é retratado em “Babilônia”. Noves fora o significado de depravação moral que a Bíblia confere à cidade homônima da antiga Mesopotâmia (atual Iraque), pela Babel étnica da qual Hollywood é fruto.

Iluminadas parcialmente pela luz da projeção e hipnotizadas por seu reflexo na tela, as faces brancas, pretas, latinas e orientais do público do cinema, ao final de “Babilônia”, é o retrato do sucesso. Como no slogan do cigarro Hollywood nos anos 1980. Banido pelo mesmo “politicamente correto” que hoje cobra diversidade.

 

A METALINGUAGEM

Um dos pontos mais polêmicos de “O cantor de jazz” é o fato de que o branco Jolson pinta o rosto de negro para se apresentar no palco. Comum nos anos 1920 e hoje amplamente condenada como prática racista, é o blackface que o produtor mexicano Manny Torres impõe em “Babilônia” ao trompetista negro Sidney Palmer (Jovan Adepo).

Com seus anacronismos dos anos 1920, “O cantor de jazz” tornou o cinema mudo anacrônico da noite para o dia. É o beco sem saída contra o qual batem de cara as personagens de “Babilônia”. Assim como em “Cantando na chuva”, não por acaso exibido na tela de cinema como epílogo do filme mais recente.

Quem não se adaptou virou um dos “bonecos de cera” retratado em “Crepúsculo dos deuses”. Cuja protagonista, a então esquecida estrela do cinema mudo Gloria Swanson, brilhante ao se interpretar na personagem Norman Desmond, também não surge ao acaso em “Babilônia”.

Em diálogo por telefone, Swanson tenta cavar um papel com o Conrad de Pitt. É um pouco depois deste cair bêbado da varanda à piscina da sua mansão. Onde boia por instantes como o Joe Gillis interpretado por William Holden, “Brás Cubas” do clássico de Billy Wilder.

 

Referência para o Jack Conrad de Brad Pitt em “Babilônia”, o Joe Gillis interpretado por William Holden em “Crespúsculo dos deuses” está para a narrativa de Billy Wilder como Brás Cubas para a de Machado de Assis

 

Sessenta e cinco anos após o sucesso de “O cantor de jazz” ferir de morte o cinema mudo, Quentin Tarantino revolucionaria o falado. Foi logo em seu filme de estreia, “Cães de Aluguel”, de 1992. Onde dialogou com tudo que veio antes para produzir algo absolutamente original.

 

Com “Cães de aluguel”, de 1992, Quentin Tarantino provocou um impacto que o cinema só tinha sido sentido antes, no primeiro filme de um diretor, com Orson Welles e “Cidadão Kane”, em 1941

 

Também roteirista e produtor, Chazelle não tem e dificilmente terá essa mesma gravidade. Mas tem uma carreira original. Muito baseada no jazz, como mostrou desde “Whiplash: em busca da perfeição” (2014), antes da afluência dessa fonte em “La La Land” e “Babilônia”.

 

Em “Whitplash: em busca da perfeição”, Miles Teller e J. K. Simmons, em papel que lhe valeu o Oscar de coadjuvante em 2015

 

O elefante e o batismo do novo filme de Chazelle em “Bom dia, Babilônia” (1987), dos irmãos Taviani

No elefante real do começo do novo filme, antes de o paquiderme se revelar só um adereço à vertigem de sexo, drogas e jazz dos anos 1920, numa Hollywood muito antes do rock and roll, “Babilônia” evoca seu batismo em outra ode de amor ao cinema: “Bom dia, Babilônia” (1987), dos irmãos Vittorio e Paolo Tavianni. Que, por sua vez, é uma homenagem italiana ao cinema do seu primeiro grande mestre nos EUA, David W. Griffith.

A exemplo de Tarantino, Chazelle usou e abusou da metalinguagem em “Babilônia”. Mergulhou até “Intolerância” (1916), de Griffith, para emergir com seu cinema sobre cinema. Com o snorkel natural de suas trombras, elefantes são excelentes nadadores.

 

“Intolerância” (1916), sua Babilônia e seus elefantes, de David W. Griffith, primeiro grande mestre do cinema dos EUA

 

 

O SALDO E O SAMBA

Pela poderosa atuação de Margot Robbie, como a inevitável identificação de Brad Pitt com quem interpreta, dá para não conhecer cinema e gostar de “Babilônia”. Como saber um pouco mais dos EUA e do mundo naqueles “loucos” anos 1920, sem nunca ter lido F. Scott Fitzgerald ou Ernest Hemingway. Só não dá para mergulhar. Nem reconhecer o fundo. Pelo avesso.

Como o carioca Noel Rosa cantaria em 1933, logo ao primeiro verso do samba “Não tem tradução”: “O cinema falado é o grande culpado da transformação”.

 

 

Abaixo, o trailer de “Babilônia”:

 

 

Lula e a diversidade de um homem branco por outro no STF

 

O artigo da Madeleine Lacsko no UOL é de ontem (6). Mas vale hoje, nesta Sexta-Feira Santa, quanto depois que o presidente Lula consumar a indicação do seu advogado pessoal, Cristiano Zanin, à vaga de Ricardo Lewandowski, velho companheiro de São Bernardo do Campo, ao Supremo Tribunal Federal (STF). Quando um homem branco sucederá um homem branco na mais alta Corte do país, que tem duas mulheres e nenhum negro entre os 11 ministros.

Agudo como adaga, o texto da craque Lacsko é antídoto ao capachismo de político. Imuniza tanto às paquitas que ainda se prestam a defender um contrabandista internacional de joias, quanto à hipocrisia de boa parte da nossa intrépida esquerda identitária:

 

Cristiano Zanin, próximo ministro do STF, e seu cliente, o presidente Lula (Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação PT)

 

Madeleine Lacsko, jornalista e escritora

Diversidade era para valer ou teremos mais um homem branco no STF?

Por Madeleine Lacsko

 

O presidente Lula não se comprometeu a indicar uma mulher, um negro ou a primeira mulher negra para o Supremo Tribunal Federal. Eu, pessoalmente, não entendo que esse método seja inclusivo.

Concordo com o líder do governo no Senado, Randolfe Rodrigues, que analisa a questão menos pelos símbolos e mais pela prática. Na prática, promovemos inclusão se a visão de mundo do escolhido for inclusiva. Ele pode ser de uma minoria e contra a inclusão, isso existe.

A escolha de mulheres e negros para posições de destaque não garante inclusão de mulheres e negros, é mais simbólica do que prática. Não faltam exemplos recentes que não nos deixam mentir.

Eu não vou questionar que o presidente Lula escolha para o STF seu advogado pessoal, que lhe tirou da cadeia e está relacionado à narrativa enganosa de que não houve corrupção nos governos petistas. Confundir os exageros da Lava Jato com a existência de corrupção foi uma jogada de mestre. Para paquitas de político, pouco importa que muita gente tenha devolvido milhões ao governo e dito que foi fruto de corrupção.

Mesmo assim, não questiono o presidente. Se ele manda essa e ainda tem gente que se agacha, numa olimpíada nacional de capachismo, tem mesmo de seguir em frente. Eu faria. Se Bolsonaro indicasse Frederick Wassef e a reação fosse a mesma, ele teria feito. Enquanto houver otário, malandro não morre de fome.

Antes que alguma paquita de político – bolsomínion ou luloafetiva – lance a carta mágica da “falsa simetria”, eu sei que Zanin e Wassef são diferentes. Também sei que Bolsonaro e Lula são diferentes. Igual seria a ação de indicar o advogado que defende criminalmente o presidente.

A imagem do STF foi monumentalmente abalada nos anos de bolsonarismo. Toda espécie de jogo sórdido de desinformação foi feita para levar a crer que a Suprema Corte era um puxadinho do petismo, agia apenas politicamente, se submetia a Lula e, sobretudo, perseguia Bolsonaro e os bolsonaristas. É uma narrativa que colou para muita gente, principalmente entre quem não faz ideia do que é ou como funciona o STF.

Agora o STF começa a tentar reverter essa crise de imagem e se aproximar do cidadão. Bem no meio disso, Lula pensa em mandar para lá, para ser integrante da Corte, seu advogado pessoal. Quem já via o STF como puxadinho do petismo vai se aferrar à posição e, se bobear, convencer quem não pensava isso mas também não sabe como o STF funciona.

Os Três Poderes funcionam num sistema de freios e contrapesos. Acirrar a opinião pública contra o STF deixa o Judiciário mais fraco. Isso é bom para o presidente da República, o contrapeso fica mais leve e ele mais livre e poderoso. Só que é excelente também para nossos probos políticos que circulam tanto no Congresso Nacional quanto nas páginas policiais, muitos deles réus no STF.

Compreendo a manobra política, mas agora temos algo importante a tratar. Diversidade e inclusão não podem ser perfumaria, discurso para dar dinheiro a influencer ou sinalizar vitude. Tem de ser algo sério e definitivamente não está sendo tratado dessa forma.

Quando interessa bater em adversários, perseguir críticos ou sinalizar virtude, se adota o discurso de que colocar mulheres e negros em posições de destaque é a coisa mais importante do mundo. A reação contra qualquer questionamento é implacável. Mas, quando interessa atender a vontade de Lula, esse axioma é relativizado.

Quando as ações seguem esse padrão, fica claríssimo que inclusão e diversidade não são a coisa mais importante. A prioridade é usar esse discurso para ações de marketing. É a era do justiceiro social do tipo Justo Veríssimo.

 

Definidos os 17 vereadores para aprovar contas de Rafael

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Como este blog adiantou desde o início da madrugada, as contas do ex-prefeito Rafael Diniz (Cidadania), relativas a 2020, devem ser votadas e aprovadas daqui a pouco, na sessão da Câmara Municipal. Como o parecer do Tribunal de Contas do Estado (TCE) foi pela reprovação, são necessários 2/3 do Legislativo, ou 17 votos, para aprovação. Serão 10 votos do grupo dos Bacellar e sete dos governistas. Votarão a favor:

No grupo dos Bacellar:

1 – Marquinho Bacellar (SD)

2 – Helinho Nahim (Agir)

3 – Fred Machado (Cidadania)

4 – Raphael Thuin (PTB)

5 – Bruno Vianna (PSD)

6 – Igor Pereira (SD)

7 – Marquinho do Transporte (PDT)

8 – Rogério Matoso (União)

9 – Dandinho Rio Preto (PSD)

10 – Luciano Rio Lu (PDT)

 

E no grupo do governo:

11 – Juninho Virgílio (União)

12 – Edson Batista (Podemos)

13 – Abdu Neme (Avante)

14 – Fred Rangel (PSD)

15 – Paulo Arates (PDT)

16- Bruno Pezão (PL)

17 – Nilso Cardoso (União)

Governança e preservação no Folha no Ar desta quinta

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O consultor em estratégia Orlando Thomé Cordeiro e o secretário de Cultura de Miracema, Eduardo Tostes Botelho, são os convidados para fechar a semana do Folha no Ar desta quinta (6), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Eles falarão do Seminário de Boas Práticas de Governança que acontece no Rio de Janeiro, próximos dias 11 e 12, com apoio do Grupo Folha, e do bom exemplo de Miracema na preservação dos seus prédios históricos.

Por fim, apenas com Orlando, o assunto será a visão carioca da política de Campos, do estado do Rio e do Brasil, nestes três primeiros meses de governo Lula (PT). Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Morre, aos 67, o jornalista e escritor João Noronha

 

João Noronha, jornalista e escritor

O centenário jornalismo de Campos acordou nesta quarta mais triste. Morreu, às 5h30 da manhã de hoje o jornalista e escritor e imortal da Academia Campista de Letras (ACL) João Noronha Neto, aos 67 anos. Ele foi vítima das complicações de um AVC hemorrágico, que sofreu na UPA de São João da Barra, onde tinha se internado há cerca de 15 dias, para tratar de uma pneumonia. Seu corpo será velado na capela do Cemitério do Caju, em Campos, onde será sepultado às 16h de hoje.

Figura humana das mais corretas, de caráter pessoal e profissional inquestionável, tinha também uma personalidade forte, como grave era o tom inconfundível da sua voz. Trabalhou na Folha da Manhã de 2005 a 2016, onde colecionou amigos e marcou época na redação.

Numa das brincadeiras que também marcam esse ambiente de muito trabalho, lembro que certa vez promovi um concurso para saber quem era o melhor da redação: Noronha ou Alexandre Bastos, hoje subdiretor de Comunicação da Alerj. Além do talento, os dois se marcavam pelo mesmo tom grave da voz. E fiz lobby escancarado para o primeiro, que acabou vencendo o pleito de voto aberto. Brincadeiras à parte, o resultado correspondeu à verdade: Noronha era o melhor de todos nós.

Campista, João dedicou a sua obra enquanto pesquisador e escritor à praia de Atafona, em São João da Barra. Que frequentou desde a infância e onde residiu por muito tempo na vida adulta, antes de se mudar há cerca de 15 anos para a casa que constriu no balneário vizinho de Chapéu de Sol. Seus dois livros, no entanto, foram sobre Atafona: “Uma dama chamada Atafona”, de 2003; e “Atafona: sua história, sua gente”, de 2007. Que lhe valeram a eleição à ACL, da qual tinha se licenciado por motivos de saúde.

Abaixo, alguns depoimentos sobre João:

Diva Abreu Barbosa

— Uma perda muito sentida para o jornalismo de nossa região. Profissional sério, trabalhou na Folha da Manhã por mais de 10 anos, onde deixou gravado em nossa redação o seu estilo, o seu caráter, o seu modo de ser, a sua autenticidade, além da sua forte voz. Lamentável a sua partida. Mas “as coisas findas, muito mais que lindas, estas ficarão”, como nos disse o poeta. E você, João Noronha, permanecerá presente não só em nossa redação, mas em nossa história. Ave, João Noronha! — registrou a professora de História Diva Abreu Barbosa, diretora presidente do Grupo Folha.

— A Associação de Imprensa Campista lamenta profundamente o falecimento do jornalista João Noronha nessa quarta-feira. Profissional que passou por diversos veículos de comunicação, como o extinto jornal A Cidade e o jornal Folha da Manhã, como também por assessoria de comunicação de prefeitura como a de São João da Barra, onde residia ultimamente. Deixou uma marca de brilhantismo na atuação profissional, sendo um jornalista dedicado e corajoso. Enfrentava cada desafio com maestria a paixão pela profissão. Campos perde, São João da Barra perde. O Jornalismo perde. A AIC expressa solidariedade e as mais sinceras condolências a seus familiares e amigos — registrou o jornalista Wellington Cordeiro, em nome da Associação de Imprensa Campista (AIC) que preside.

Christiano Fagundes

— O talentoso jornalista e escritor João Noronha foi empossado na Academia Campista de Letras no dia 18 de novembro de 2019, passando a ocupar a Cadeira de número 27. A ACL está de luto. Já sentimos a falta do confrade Noronha. O que nos conforta é que temos e teremos as suas obras, que o imortalizam — ressaltou o advogado e escritor Christiano Fagundes, presidente da Academia Campista de Letras.

Frânio Abreu

— João Noronha era uma pessoa muito verdadeira, se tivesse que falar, se tivesse que desagradar, ele desagradava, mas sempre tinha como princípio a verdade. Isso causava uma certa polêmica, mas era da natureza dele. Sempre muito sozinho, mas muito próximo de quem estava com ele em termos de amizade. Quem conviveu com ele, como eu, sabe como ele era humano, como ele era uma pessoa boa, como ele ajudou muita gente. Em Atafona, onde passou parte de sua vida, ele é muito querido. Vão ficar as lembranças boas, as parcerias, as amizades, as viagens. Tudo o que ele aproveitou do resto da vida depois que ele se aposentou. É lamentável! — testemunhou o jornalista Frânio Abreu.

Joseli Matias

— De personalidade forte, João Noronha era um profissional muito responsável e comprometido e um colega com quem podíamos sempre contar. Na redação, estava sempre disponível e movimentava o ambiente com seu jeito alegre e sua voz inconfundível. Deixará saudades, como deixou na redação da Folha — lamentou a jornalista Joseli Matias.

Suzy Monteiro

— João Noronha era uma pessoa ímpar e um profissional correto, profundo conhecedor de Atafona e suas histórias. De voz forte, defendia suas opiniões com veemência. Mas tinha um coração sensível. Nunca esqueci de um dia que, em meio a uma brincadeira de minha filha comigo na redação, ele começou a chorar, falando da falta que sentia dos pais. Ficará gravado em nossa memória — recordou a jornalista Suzy Monteiro.

Luiz Costa

— Ainda ouço sua voz forte, intensa como a personalidade que seduzia e, por vezes, assustava. “Luiz Costa, seu gordo safado” era a frase em que me desejava um bom dia assim que nos encontrávamos no início de nossa jornada de trabalho. Foram muitos anos de convívio, principalmente nas redações. Na Folha, foi companheiro responsável e competente. Em Quissamã, esse contato foi ampliado e Noronha acabou permitindo que um lado doce e terno se revelasse, em especial quando meus filhos Ana Luiza e Adriano participavam de nossas conversas. O italiano, “segundo maior tesão de São João da Barra”, como eu respondia às suas saudações, partiu sem se despedir. Eu, Ana e Adriano sentiremos saudades! — comungou o jornalista Luiz Costa.

Alexandre Bastos

— Dia triste para o jornalismo da nossa região. João Noronha: timbre de voz forte, coração enorme. Um ser humano afetuoso até para dar seu “choque de ordem” na redação. Do jeitão bravo para um sorriso era questão de segundos. Nos últimos anos, mesmo distantes, estávamos sempre nos falando por WhatsApp. Lembrando da nossa parceria na redação da Folha e reforçando nosso amor por Atafona e o vento nordeste. Vai com Deus, amigo! — desejou o jornalista Alexandre Bastos.

— O dia começou bem triste com a notícia da perda de um amigo, trabalhei com Noronha na redação da Folha por alguns anos, um bom amigo, um profissional compromissado, empenhado com suas funções. Que Deus conforte a todos amigos e familiares. Descanse em paz! — fez votos Eliabe de Souza, editor de Arte da Folha.

Ricardo André Vasconcelos

— Profissional competente e excessivamente rigoroso com suas responsabilidades, João Noronha era, no campo pessoal, uma pessoa até difícil para quem não entendesse sua compulsão pelo trabalho. Dono de fortes convicções, com as quais geralmente divergíamos, nunca deixamos de nos respeitar apesar disso. Lamento sua passagem precoce e me associo aos colegas e amigos nesse momento em que a sua querida Atafona perde um de seus mais fiéis devotos. Descanse em paz! — disse o jornalista e advogado Ricardo André Vasconcelos.

Ségio Cunha

— Eu trabalhei com o João na Folha por anos. Ele era sempre sério, porque era dedicado e profissional demais, mas era sempre leve e de bom humor, porque era uma pessoa boníssima. Eu tenho na memória a forma de se brincar, respeitosa dele, com quem gostava, e a gente retribuir, quase falando sílaba por sílaba o sobrenome dele, demorada e sonoramente o nome dele. Uma pessoa distinta sempre — relatou o jornalista Sérgio Cunha.

Antunis Clayton

— Conheci João Noronha na Folha da Manhã quando este ocupou a posição de chefe de reportagem, uma espécie de “gerente do dia-a-dia” na apuração e produção de notícias. Por ser eu radialista e apaixonado por rádio desde menino, tenho como principal elemento no reconhecimento das pessoas a voz. E a voz de Noronha era singular, com um grave perfeito, aquela “voz de locutor”, marcante. E já me era familiar pelas suas participações em programas de rádio, muitas vezes como correspondente da sua amada São João da Barra. E a precisão e correção no seu falar se dava também no trato com os compromissos da notícia e companheiros de trabalho. Era incentivador dos mais jovens e fazia questão de dar a eles a noção de importância dos caminhos “quebrados a facão” pelos mais experientes. Deixa uma lacuna e muita saudade — testemunhou o jornalista Antunis Clayton.

Channa Vieira

— Noronha foi uma das primeiras amizades que fiz na redação da Folha da Manhã. Logo que cheguei, ainda muito jovem e cursando a faculdade de jornalismo, sua voz imponente, personalidade, e um jeito único de fazer jornalismo, me ensinaram muito sobre o que era estar em uma redação. Criamos laços fortes, assim como nossas personalidades, que sempre fizeram a diferença para o nosso convívio. João Noronha é referência, não só para nós jornalistas, mas também para tantas pessoas que tiveram a honra de conhecer sua trajetória, através dos seus textos, livros, ou das suas histórias hilárias, contadas em “seu gabinete”, e que sempre vinham acompanhadas de uma gargalhada incomparável. Hoje, o “choque de ordem”, seu famoso bordão na redação, se cala. Mas, mesmo com o silêncio, sua voz é eterna. Em nossos ouvidos, é impossível esquecer do seu “até amanhã, colegas!”. Que ele esteja ao lado de Deus, e em paz! — desejou a jornalista Chana Vieira.

Mário Sérgio Junior

— Tive a oportunidade de trabalhar diretamente com Noronha, assim que entrei para a Folha em 2012. Um profissional sério, reservado e de muito comprometimento. Aprendi muito com ele, tanto no profissional quanto no pessoal, ouvindo suas experiências de vida entre uma pauta e outra. Até para dar os seus “choques de ordem”, tinha um certo senso de humor. Vão ficar as lembranças boas — registrou o jornalista Mário Sérgio Junior.

Rodrigo Gonçalves

— Tive a oportunidade de conviver alguns anos diariamente com o Noronha na redação da Folha, mas já nutria uma admiração ao trabalho dele pelos seus livros sobre Atafona. Apesar de ter sido criado em Grussaí, outra praia de São João da Barra, desconhecia em detalhes, tão bem colocados por Noronha, a história da vizinha Atafona. A veia jornalística pulsa na publicação, o que só aumentou o meu interesse pelo trabalho dele. Na redação, Noronha contribuiu com sua experiência nos anos 2000 com uma galera que estava iniciando no jornalismo, como eu, e também se mostrou receptivo a aprender com a nova geração. Uma troca muito bacana que vou carregar para sempre. Que ele siga um caminho de paz guiado por Nossa Senhora Penha, santa de sua devoção e protetora de Atafona — desejou o jornalista Rodrigo Gonçalves.

Arnaldo Neto

— Antes de integrar a equipe da Folha, era leitor assíduo do “Vento Nordeste”, blog assinado por João Noronha. Eram assuntos corriqueiros de São João da Barra, sobretudo da praia por ele adotada e minha de nascença. Apesar de morarmos em Atafona (nos extremos: eu no Pontal, ele em Chapéu e Sol), não tínhamos contato antes da redação. Quando cheguei à Folha, em 2014, logo fui para o “fumódromo” com Noronha. Como ele dizia, era o seu gabinete e quase todos os colegas já foram chamados para um “choque de ordem”. As divergências sobre assuntos de SJB vieram à tona e até esquentaram debates na redação, mas de maneira respeitosa. Pude contar com o apoio e a experiência dele quando estivemos juntos na editoria de Geral e na Folha na Foz. Hoje, por uma amiga em comum, recebi a triste notícia do seu falecimento. Sem dúvidas João Noronha fica marcado na história da imprensa campista. Que descanse em paz! — narrou o jornalista Arnaldo Neto.

Júlia Maria de Assis

— Jornalista talentoso, pesquisador dedicado e um grande colega com quem tive o privilégio de conviver no dia a dia agitado e divertido das redações. Sempre admirei seu amor por Atafona e seu empenho em contar a história deste lugar que também tanto amo. A partida de João Noronha nos deixa um grande vazio, mas seu legado não será esquecido — lembrou a jornalista Júlia Maria de Assis.

Cilênio Tavares

— Conheci João Noronha no início de carreira, lá pelos idos de 1990, quando eu trabalhava na Rádio Cultura, que integrava o Diário Norte Fluminense, e ele editava um dos noticiários televisivos do grupo. A gente se cruzava vez ou outra pelos corredores. Os contatos eram esporádicos, mais por força da profissão. Anos mais tarde, na minha segunda passagem pela Folha da Manhã, trabalhamos juntos na Editoria de Geral, que, à exceção do período eleitoral, é a mais movimentada, por motivos óbvios. Ocorre que na ocasião, havia uma preocupação do diretor de Redação, Aluysio Abreu Barbosa, com o temperamento forte dos dois editores. Mas foi justamente o oposto que aconteceu, com um entrosamento pra lá de bacana. Isso sem falar que Noronha era muito competente e de vez em quando, a despeito do seu comportamento sisudo, tinha umas tiradas que davam leveza ao seu entorno. A última vez que o vi depois que saí da Folha, em 2015, eu estava num caixa eletrônico do Bradesco no Centro e ele, parado na saída do Boulevard. Tentei agilizar a operação para colocar o papo em dia, mas foi eu abaixar a cabeça e não vê-lo mais. De lá para cá, poucos contatos por redes sociais, que foram ficando mais escassos, até não ocorrerem mais. Hoje soube que Noronha não está mais neste plano de vida. É mais um que deixa o Jornalismo órfão de bons profissionais. Daqui, meu abraço aos amigos que ele certamente deixa pelo caminho e também aos familiares. Que ele siga na paz! — testemunhou o jornalista Cilênio Tavares.

Genilson Pessanha

— Triste noticia hoje pela manhã. Lembro dos tempos em que trabalhamos juntos. O João era sempre muito antenado e comprometido com as matérias. Mas, ao memso tempo, brincalhão e irrevernte. O jornalismo perde um grande profissional — lamentou o repórter-fotográfico Genilson Pessanha.

Sebastião Carlos Freitas

— A triste notícia da morte do jornalista João Noronha chegou para mim, aqui em Minas Gerais, através de mensagem de Aluysio Abreu Barbosa. Nesta quarta-feira de Semana Santa, perdi um Amigo. A convivência foi de 5 anos, na redação do jornal Folha da Manhã. Mas a amizade, mesmo à distância e com poucos contatos, não deixou de existir. Fui colega de editoria e editor de João Noronha, mas, acima de tudo, fomos amigos. Sempre muito respeitoso, João gostava de dizer que eu escolhi muito bem as cores do meu time de coração. Sou Atlético-MG e ele Botafogo, clube pelo qual também torcia meu saudoso pai Mazinho e pelo qual tenho simpatia no Rio de Janeiro. Fica aqui meu agradecimento por ter conhecido e pela oportunidade de ter sido colega de trabalho de João Noronha — registrou o jornalista Sebastião Carlos Freitas.

Juliana Mérida

— Noronha foi um querido companheiro de muitos anos na Folha da Manhã, onde já comandou uma equipe e marcou toda uma geração de jovens jornalistas com seu conhecimento, seu senso de humor e profissionalismo. Na vida pessoal, era uma pessoa carinhosa, de opiniões fortes, e perseverante em superar todos os (muitos) obstáculos na sua vida, mas sempre na busca incessante de felicidade, que foi a lição que mais me marcou. Que ele descanse em paz e sempre nas nossas memórias —  desejou a jornalista Juliana Mérida.

Simone Fraga

— O céu o receba com bondade. Tambem atuei com Noronha na redação da Folha da Manhã, sempre gentil e de forte personalidade. Demos boas risadas e tivemos excelentes debates… Grande perda. Que descanse em paz — disse a jornalista Simone Fraga.

Rodrigo Silveira

— A morte é uma certeza, mas continua nos surpreendendo quando chega sem aviso e leva uma pessoa tão querida. Meu amigo na redação era uma pessoa alegre. Gostava de brincar comigo sempre me chamando de Chimbinha — lembrou o repórter-fotográfico Rodrigo Silveira.

Aldir Sales

— Quando as portas da redação da Folha da Manhã se abriram para mim pela primeira vez, João Noronha foi um dos primeiros a me acolher. Entre boas risadas e histórias, Noronha sempre primou pelo bom e correto jornalismo, com a apuração em primeiro lugar. Não convivemos por muito tempo na redação, mas esses são princípios que pude aprender ainda mais com ele e levo para sempre na minha vida desde então. Fará muita falta, mas seu legado ficará para sempre — pregou o jornalista Aldir Sales.

Dora Paula Paes

— João Noronha. Pronuncio seu nome imaginando sua voz poderosa sempre me chamando “Dora Paes”, dentro ou fora da redação da Folha da Manhã. Parceiro de editoria, parceiro das tretas, parceiro do café, das brincadeiras, por muitos anos. Vá em paz meu amigo. Já sinto sua falta — lamentou a jornalista Dora Paula Paes.

Antônio Filho

— João Noronha também ajudou a escrever a história da televisão local. Foi editor de texto dos telejornais da extinta TV Norte Fluminense, nos tempos da retransmissão da Rede Globo. Segundo o próprio João me relatou, foi sua a descoberta do repórter Clayton Conservani, que chegou a atuar na sucursal da TV Norte de Macaé, posteriormente transferindo-se para a TV Lagos e, há anos, um dos grandes nomes do esporte da Globo. Nos tempos da TV Norte com a bandeira da TV Bandeirantes, em 1995, Noronha foi o editor do telejornal “Primeira Hora”, apresentado pelos grandes mestres Giannino Sossai e Celso Cordeiro Filho. Como dá para perceber, Noronha deixou marcas positivas em todos os veículos nos quais trabalhou — registrou o jornalista Antônio Filho.

Jô Siqueira

— O jornalismo perdeu hoje um grande profissional, o nosso querido João Noronha. Eu o conheci quando comecei a fazer estágio na Rádio Cultura, que funcionava no prédio da antiga TV Norte Fluminense, onde João era um dos redatores da Rádio. Um ser humano prestativo e super inteligente. João me acolheu com todo carinho, já que era aluna da Faculdade de Filosofia de Campos. Depois fui para o jornal Folha da Manhã, onde foi e continua sendo uma das melhores escolas de jornalismo. Recentemente, o reencontrei já aposentado, dizendo que queria aproveitar mais a vida, viajando. É essa imagem que quero guardar, além da sua voz tão marcante — destacou a jornalista Jô Siqueira.

Lívia Nunes

— Quando cheguei à Folha da Manhã, ainda estagiária para essa moradia que duraria anos, e João Noronha estava lá. Não éramos das mesmas editorias, mas ele sentava comigo no sofá e fazia perguntas: “Você pensa sobre isso?”, “Tem que pensar sobre aquilo”, “O que você lê?”. Sua “brabeza” nunca me atingiu negativamente; acho que a ninguém. Ele queria o melhor resultado. Afinal, é de jornalismo que estamos falando. Ele queria excelência e, para isso, dá-lhe “choque de ordem”, como chamávamos suas exaltações para cumprir uma pauta. Era um homem meigo e gentil. A casca dura quebrava mole, mole. Sua partida dói e nos lembra da finitude das coisas, da finitude da vida. Que tenha se sentido pleno e que fique em nossa memória, história e corações — testemunhou a jornalista Lívia Nunes.

 

Wladimir e Rodrigo devem aprovar contas de Rafael na Câmara

 

Wladimir Garotinho, Rodrigo Bacellar, Rosinha Garotinho e Rafael Diniz (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Contas de Rafael aprovadas hoje?

As contas do ex-prefeito Rafael Diniz (Cidadania), referentes ao ano de 2020, devem ser aprovadas hoje na Câmara Municipal de Campos. Com o parecer do Tribunal de Contas do Estado (TCE) pela reprovação, contrariá-lo requer 2/3 do Legislativo, ou 17 vereadores. Pelos mesmos motivos, era o que a ex-prefeita Rosinha Garotinho (União) precisava para aprovar suas contas de 2016. E conseguiu no último dia 15, com os 13 vereadores governistas, mais quatro dos 12 que têm os Bacellar. O argumento do governador Cláudio Castro (PL), fiador daquele acordo, deve prevalecer também agora: “político não reprova conta de político”.

 

Como votarão edis dos Bacellar?

Até a noite de ontem, a dificuldade na conta de somar para chegar hoje aos 17 votos estava no grupo dos Bacellar. Sete dos seus edis já teriam se comprometido com a aprovação: Marquinho Bacellar (SD), Bruno Vianna (PSD), Igor Pereira (SD), Marquinho do Transporte (PDT), Helinho Nahim (Agir), Raphael Thuin (PTB) e Fred Machado (Cidadania). Fred foi líder de governo e presidente da Câmara na gestão passada, que Helinho e Thuin integraram. Os quatro em dúvida seriam Rio Lu (PDT), Dandinho Rio Preto (PSD), Maicon Cruz (sem partido), Anderson de Matos (Rep) e Rogério Matoso (União). Este, também foi secretário de Rafael.

 

Wladimir é rede sob Rafael

Um dos principais nomes do governo Rafael, o jornalista Alexandre Bastos é hoje subdiretor de Comunicação na Alerj. Onde é um dos principais assessores do deputado Rodrigo Bacellar (PL), presidente do Legislativo fluminense. Leal ao ex-prefeito, Bastos vem trabalhando com Rodrigo pela aprovação das contas de 2020 na Câmara de Campos. Que tem como rede embaixo do trapézio do neto do ex-prefeito Zezé Barbosa, numa ironia do destino, o filho do ex-governador Anthony Garotinho (União): Wladimir. Os edis do grupo dos Bacellar que não seguirem seu líder darão lugar aos edis governistas para se chegar ao mínimo de 17.

 

Contas de hoje e amanhã

Se os 12 vereadores do grupo de Rodrigo votarem hoje pela aprovação, os cinco governistas que os acompanharão serão Juninho Virgílio (União), Edson Batista (Podemos), Paulo Arantes (PDT), Fred Rangel (PSD) e Abdu Neme (Avante). Mas, se algum dos edis dos Bacellar for contra, será substituído por algum dos oito colegas restantes da base, para se chegar aos 17. Podem ser até aqueles mais marcados, na Legislatura passada ou atual, pela crítica a Rafael. A posição de Wladimir não só reforça a postura apaziguadora que o diferencia do pai. É também pragmática: se aprovar as contas de Rafael hoje, trabalha para aprovar as suas amanhã.

 

Pacificação atacada

A opinião sobre a pacificação entre Garotinhos e Bacellar, da qual Rafael deve se beneficiar hoje, não é unânime. “Faz falta na política, realmente, você fazer uma discussão, questionar. É por isso que nós temos hoje uma situação atípica. E eu lamento muito estarmos assistindo a esse melancólico cenário que resolveram chamar de ‘pacificação’. Que não tem nada. Existem muitos interesses dentro desse contexto, que não vale a pena a gente ressaltar aqui”, disse no início da manhã de ontem José Alves de Azevedo Neto. Economista da Uenf e professor da Universo, ele foi o entrevistado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3.

 

Vanguarda do atraso?

Defensor da pré-candidatura do seu irmão, o reitor do IFF, professor Jefferson Manhães de Azevedo, a prefeito de Campos em 2024 pelo PT, José Alves criticou também o bolsonarismo dominante no município. Que se confirmou no segundo turno da eleição presidencial de 2022. “A cidade nossa deu 65% dos votos a Bolsonaro (63,14% dos votos válidos, contra 36,86% do presidente eleito Lula). Vamos fazer uma mudança em Campos? Com essa sociedade extremamente conservadora, eu garanto que a gente não vai mudar nada. Essa cabeça do campista é virada para trás; é a vanguarda do atraso”, disparou o economista.

 

Aprovação de Lula

Outro fruto do polo universitário que Campos se tornou, o geógrafo William Passos, com especialização doutoral em Estatística pelo IBGE, analisou para a coluna os números da nova pesquisa Datafolha sobre a avaliação dos três primeiros meses do novo governo Lula. Feita com 2.028 eleitores entre 29 e 30 de março, foi divulgada na noite de sábado (1º). “Considerada a margem de erro de 2 pontos para mais ou menos, os 38% de aprovação aos 90 dias de Lula não diferem muito dos 39% de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), no mesmo período de 1995. Nem do primeiro governo Lula: 43%, em março de 2003”, comparou.

 

Reprovação de Lula

Após uma eleição definida pela grande rejeição aos dois candidatos que foram ao segundo turno presidencial, onde Lula bateu Bolsonaro por apenas 1,8 ponto, William deu o outro lado da moeda. “Fernando Henrique iniciou abril de 1995 com 16% de ruim ou péssimo, enquanto Lula registrou 10% de desaprovação em abril de 2003. Na pesquisa Datafolha de 2023, o líder petista abriu seu quarto mês de governo com 29% de ruim ou péssimo. Além da polarização política de outubro passado e da alta rejeição confirmada nas urnas por uma vitória apertada, a desaprovação de Lula hoje é cerca de três vezes superior”, alertou o estatístico.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Campos, RJ, Brasil e jornalismo no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Os jornalistas Celso Cordeiro Filho e Ricardo André Vasconcelos são os convidados do Folha no Ar nesta quarta (5), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Eles analisarão o governo Wladimir Garotinho (sem partido), a pacificação do prefeito com o presidente da Alerj, deputado Rodrigo Bacellar (PL), e projetarão as urnas municipais de 2024.

Celso e Ricardo também falarão sobre o governo Cláudio Castro (PL) no RJ e os primeiros três meses do terceiro governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil. Por fim, os dois analisarão o papel e a relevância do jornalismo profissional no tempo das redes sociais.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Economia e eleição a reitor da Uenf no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Economista da Uenf e professor da Universo, José Alves de Azevedo Neto é o convidado do Folha no Ar desta terça (4), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele analisará a economia de Campos, Norte Fluminense e estado do Rio de Janeiro.

José Alves também analisará o projeto de “arcabouço fiscal” do ministro da Fazenda Fernando Haddad, a taxa de juros do Banco Central e os três primeiros meses do governo Lula. Por fim, falará da contribuição da Uenf ao desenvolvimento regional e da eleição a reitor este ano na universidade.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Bernardo Mello Franco e o óbvio: Lula precisa se ajudar

 

Aos petistas e “não sou petista, mas…”, qualquer crítica a Lula é recebida como “heresia antidemocrática”. Quando o presidente erra como o ex, então, é uma festa! Os defensores acríticos do primeiro, na impossibilidade de responder à crítica, a atacam com a parcialidade de Sergio Moro: “é falsa a SIMETRIA”. E cometem aquilo que, antes de Cristo, os gregos antigos chamavam de sofisma da parte, falácia em que se pretende aplicar ao todo a característica da parte.

Muita gente considera o jornalista Bernardo Mello Franco o mais “petista” dos colunistas fixos de O Globo. Sem passação de pano inútil, como era e segue sendo a dos bolsonaristas e “não sou bolsonarista, mas…” ao seu contrabandista de joias preferido, o jornalista fez hoje mais um alerta (confira outros aqui e aqui) sobre as besteiras que Lula anda dizendo e fazendo. Enquanto quem finge não vê-las, bali como ovelha ao abate: amém!

Na transcrição abaixo, o artigo de Mello Franco publicado neste domingo em O Globo, que sempre faço questão de ler no impresso:

 

(Foto: Ricardo Stuckert/PR)

 

Bernardo Mello Franco, jornalista

Lula precisa se ajudar

Bernardo Mello Franco

 

Na semana passada, um velho aliado entregou uma carta a Lula. Em tom de alerta, o texto enumerava tropeços no início do governo. E sugeria que o destinatário maneirasse para evitar novos conflitos e esfriar a temperatura política no país.

Para o conselheiro, o presidente erra ao alimentar a polarização em vez de combatê-la. Isso daria fôlego ao bolsonarismo e produziria efeitos negativos sobre a popularidade dele.

O novo Datafolha confirma que Lula começou pior do que em seus dois mandatos anteriores. Às vésperas de completar cem dias no cargo, o petista é aprovado por 38% e reprovado por 29% dos brasileiros. Em abril de 2003, ele tinha 43% de bom e ótimo e apenas 10% de ruim e péssimo. Em 2007, após a reeleição, os índices eram de 48% e 14%.

Todos sabiam que a nova largada seria mais difícil. O presidente venceu uma eleição muito apertada, que refletiu a divisão do país. E enfrenta uma oposição barulhenta e radicalizada, sem paralelo com a dos tucanos de duas décadas atrás.

Ainda assim, Lula teve a chance de virar a página e criar um clima de união nacional após os atos golpistas de 8 de janeiro. Ele acertou na reação imediata aos ataques, mas depois se atrapalhou com a própria incontinência verbal.

É consenso entre aliados que o presidente derrapou ao chamar Jair Bolsonaro e Sergio Moro de volta para o ringue. O capitão estava no córner após o escândalo das joias, e o ex-juiz sofria um nocaute por semana desde a sua estreia no Senado.

Os ataques ao mercado e o Banco Central também foram golpes ao vento. Não resultaram na queda dos juros e reacenderam a má vontade da elite econômica com o petista.

Na campanha, Lula se aliou a rivais históricos e prometeu voltar ao poder sem ressentimentos. Chegou a se comparar a Nelson Mandela, que amargou 28 anos de cadeia e depois liderou um governo de reconciliação na África do Sul. Ao abandonar o figurino “paz e amor”, o presidente reabilita adversários caídos e põe obstáculos em seu próprio caminho.

Nos próximos dias, o Planalto lançará uma ofensiva publicitária com o mote “O Brasil voltou”. A ideia é capitalizar a retomada de programas sociais que haviam sido desmontados pelo bolsonarismo, como Bolsa Família, Mais Médicos e Minha Casa, Minha Vida.

A propaganda pode melhorar o humor do eleitorado, mas o presidente também precisa se ajudar.

 

Veja bem, seu delegado…

A vida já foi mais leve para para Donald Trump e Jair Bolsonaro. Depois de serem apeados do poder, os ex-presidentes agora enfrentam problemas com a polícia.

Nesta terça, o americano terá que se explicar sobre a acusação de suborno para silenciar a atriz pornô Stormy Daniels. Na quarta, o brasileiro será ouvido pela PF sobre o escândalo das joias sauditas.

Como sempre, Trump está um passo à frente de seu imitador. O magnata já prestará depoimento na condição de réu.

 

Bolsonaro não bate a meta no dia de Haddad

 

Adversários no segundo turno presidencial de 2018, Fernando Haddad e Jair Bolsonaro na última quinta-feira (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O Lula 3 dará certo? No Brasil, é lugar comum dizer que o ano só começa, de fato, após a quarta-feira de cinzas. Que este ano foi em 22 de fevereiro. No mundo, a partir da sentença de James Carville, estrategista do ex-presidente dos EUA Bill Clinton, virou lugar comum a receita para o sucesso ou fracasso de um governo: “é a economia, estúpido”.

Na junção dos dois lugares comuns, é correto dizer que o novo governo Lula começou, de fato, na última quarta, 29 de março. Naquele dia, o ministro da Fazenda Fernando Haddad apresentou e teve de Lula o sinal verde para a sua proposta de “arcabouço fiscal”. Que, no mesmo dia e em ato contínuo, Haddad levou ao presidente da Câmara dos Deputados, Artur Lira (PP/AL). De quem busca apoio para a aprovação da sua proposta no Congresso.

Da quarta de cinzas à quarta desta semana, foi mais de um mês. O atraso se deu pelas divisões internas do PT e do governo Lula, sobre o que e como substituir o teto de gastos. Que foi instituído em 2016 no governo Michel Temer. E foi arrombado no governo Jair Bolsonaro, sob o “liberalismo” de Paulo Guedes, na tentativa de compra de voto mais escandalosa da História do Brasil. Que, fracassada nas urnas, deixou o rombo de R$ 300 bilhões nas contas públicas.

O que determinou o sucesso de Lula 1 e Lula 2, entre 2003 e 2010, foi a economia. Assim como o fracasso de Dilma 1 e Dilma 1 e ½, entre 2011 e 2016. E o que elegeu o Lula 3 em 2022, na resiliência do eleitor com renda até 2 salários mínimos, foi a sua lembrança econômica: o carrinho de compras. Na comparação com o que cabia nele mais de uma década antes, o brasileiro pobre ignorou o Auxílio Brasil anabolizado de R$ 600,00 e o empréstimo consignado de Bolsonaro/Guedes. Tomou esse dinheiro com uma mão, votou e elegeu Lula com a outra.

Para os eleitores de classe média (2 a 5 salários mínimos), classe média alta (5 a 10 salários) e alta (acima de 10), sobretudo se da iniciativa privada, “a cervejinha e a picanha” de Lula podem parecer populismo demagógico. Por quê? Podem bancar sua cerveja e churrasco no final de semana com as coisas como estão.

E há contrapartida em setores tradicionalmente petistas. Por exemplo, os servidores públicos. Têm vida econômica ativa e seguridade garantidas, com opção a cerveja e churrasco no final de semana, a partir da meritocracia do concurso. Mas, não raro, consideram que o ressentimento dos empresários obrigados a demitir, diminuir ou fechar seus negócios na condução do país por Dilma à maior recessão econômica da sua História, ou na pandemia da Covid-19, é só populismo demagógico do “deus mercado”.

Os dois nichos estão errados ao não compreender o outro como semelhantes em condições econômicas distintas. Mas se assemelham, para garantir sua cerveja e seu churrasco, no mesmo “farinha pouca, meu pirão primeiro”.

O fracasso do governo Dilma foi fruto da “nova matriz econômica” do seu ministro da Fazenda, Guido Mantega. Esticaram até estourar a política anticíclica de Lula para enfrentar a crise econômica mundial de 2008, chamada pelo então presidente de “marolinha”. Na sua sucessão, Dilma e Mantega superdimensionaram o papel do Estado na economia, para fazer da exceção a regra. Como a nossa última ditadura militar (1964/1985), que legou aos civis a hiperinflação dos anos 1980 e 1990. Foi a ressaca do “Milagre Econômico” de 1968 a 1973.

Antes de Dilma repetir os erros econômicos de uma ditadura que tomou em armas para combater, para instalar no Brasil outra ditadura de viés ideológico oposto, a ressaca só parou de latejar à têmpora com o Plano Real. Estabilizou a economia do país em 1994 no governo Itamar Franco, capitaneado por seu ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso. E elegeu este presidente duas vezes em primeiro turno. Feito que nem Lula conseguiu repetir, ao se eleger três vezes, sempre em dois turnos. Literalmente, foi “a economia, estúpido”!

O Real, no entanto, tinha problemas. Que se agravaram com a crise econômica de países emergentes como o Brasil. A dos Tigres Asiáticos em 1997; a da Rússia, em 1998. A solução só viria após o economista Armínio Fraga assumir o Banco Central em 1999. Ao introduzir o câmbio flutuante com o dólar à busca da meta de inflação, ele adicionou a ela um novo instrumento, compondo o tripé macroeconômico: as metas fiscais. No que todo gestor do seu orçamento pessoal sabe de cor e salteado: não gaste mais do que arrecada.

É isso que Haddad promete fazer com seu projeto de “arcabouço fiscal”. E deveria, pois foi a receita do bolo de FHC 1 e 2, chamada de “neoliberal” e “herança maldita” pelo PT, que gerou o sucesso econômico a Lula 1 e Lula 2. Quando Dilma e Bolsonaro se afastaram do tripé meta de inflação/câmbio flutuante/meta fiscal, o resultado foi igualmente desastroso. Sempre lembrada pelos bolsonaristas como desculpa, a pandemia da Covid não serve. Entre 24 países emergentes, o Brasil ficou em 18º em desempenho de PIB no período da gestão do capitão.

Além do Congresso de maioria conservadora, o maior problema do Lula 3 é que a proposta do seu ministro da Fazenda vincula as despesas ao aumento da receita. Todavia, na coletiva de quinta (30), Haddad disse também que não vai aumentar impostos. Quando se prega que gastos em saúde, educação, assistência social e infraestrutura não são gastos, mas investimento, o discurso ecoa. Mas, sobre questão semântica, sempre haverá a econômica: de onde sairá o dinheiro? Quando ninguém diz, a conta no final é sempre paga pelos mais pobres.

Um dia antes do 31 de março dos 59 anos do golpe civil-militar de 1964, dois do 1º de abril, a piada da eleição presidencial de 2018 se inverteu. O poeta advertiria: “ainda é cedo”. Mas, pelo menos na quinta da volta de Bolsonaro ao Brasil, onde foi recebido no aeroporto e na sede do PL em Brasília por um público muito longe de bater a meta, o dia foi de Haddad.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.