PDT trabalha para dar a Caio Vianna o vice de Rafael Diniz e o PT

Ponto final

 

 

Caio Gil Vianna?

“Se o vice na chapa de Caio Vianna (PDT) for Gil Vianna (PSB) o acordo está feito. Não é nem nome de dupla, mas de uma só candidatura a prefeito de Campos: Caio Gil Vianna”. Falando ao telefone, ao lado do senador Romário, foi o que garantiu ontem (aqui) um integrante da executiva estadual do PSB, que confirmou os contatos há uma semana com os dirigentes do PDT, tendo à frente o ex-ministro do Trabalho Brizola Neto, sobre a aliança entre os dois partidos na sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR) em Campos.

 

E João Peixoto?

Procurado pela reportagem da Folha para falar sobre o assunto, Caio Vianna não retornou as ligações. Além de indicar a existência do movimento, o silêncio evidencia também que o jovem político ainda não tratou da sua aliança com o PSB, e seus termos, com o deputado estadual João Peixoto (PSDC). Antigo aliado do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PEN), pai de Caio, João tinha um acordo com este para que fosse vice quem estivesse atrás do outro nas pesquisas.

 

Acordo de antes (I)

Antes deste mês de convenções para formar as chapas, a última pesquisa sobre a sucessão de Rosinha foi feita pelo instituto Pro4, registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), encomendada e divulgada (aqui, aqui e aqui) pela Folha. Como nela Caio ficou à frente de João (e todos os demais pré-candidatos) tanto na consulta espontânea, quanto nos dois cenários estimulados, o acordo garantiria que o deputado fosse o vice do filho de Arnaldo em outubro.

 

Acordo de antes (II)

Por sua vez, Gil Vianna vinha sustentando oficialmente a pré-candidatura a prefeito do PSB, quando todos que acompanham os bastidores sabiam do seu acordo para ser vice na chapa majoritária do também vereador Rafael Diniz (PPS). Ouvido ontem pela Folha, Gil admitiu o acordo antigo com Rafael, assim como a aproximação recente costurada por cima com o PDT de Caio. Mas garantiu que seguirá a decisão da executiva estadual do seu PSB: “Se não fosse para ser assim, por que eu teria saído do PR?”

 

Bônus de João

Enquanto Caio silenciou, Gil admitiu que a costura PDT/PSB ainda não havia sido revelada “para não melindrar João, para ele não abandonar o barco”. Eleito cinco vezes deputado estadual, com os três últimos mandatos consecutivos, Peixoto é considerado, não sem motivo, como um dos maiores conhecedores de eleição em Campos, com sólida votação na periferia do município. Sua presença na eventual campanha do debutante Caio, agregaria ainda mais experiência, ao lado dos nomes de Arnaldo e do ex-vereador Marcos Bacellar (PDT).

 

Bônus do PT

E a disputa pode ser menos difícil se Caio conseguir atrair também o PT, legenda que hoje goza de grande rejeição popular, mas terá (aqui) um minuto na propaganda eleitoral de TV à tarde e noite, mais oito spots de 30 segundos em rádio e TV, todo dia dos 35 de campanha, entre 27 de agosto e 30 de setembro — invulgares 10% do tempo total. As conversas também estariam adiantadas neste sentido, até porque o PDT é um dos poucos aliados que sobrou ao PT da presidente afastada Dilma Rousseff. E nunca é demais lembrar que, pré-candidato petista a prefeito sem nenhuma chance real, Hélio Anomal foi vice de Arnaldo em 2008.

 

Rafael e Tadeu?

Sem saber se João aceitará apoiar Caio, caso seja preterido como vice na chapa deste, fica outra pergunta: quem será o vice de Rafael? Indagado sobre a duplicidade do movimento de Gil, sabedor da negociação recente com o PDT, mesmo já tendo um acordo prévio com o pré-candidato a prefeito do PPS, o integrante da executiva estadual do PSB bateu de primeira, como seu líder Romário: “Mas Rafael também estava negociando por fora com Tadeu Tô Contigo (PRB)”. Na certeza de que esta chapa seria fortíssima, resta a dúvida: quem aceitaria ser vice?

 

Publicado hoje (09) na Folha da Manhã

 

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Virá impávido que nem George Steiner

Sujeito que conheci pessolmente há muito pouco tempo, mas que não dá para deixar de causar (boa) impressão pelo brilho da carreira acadêmica e envergadura do raciocínio, mesmo quando diametralmente oposto ao nosso, o sociólogo Brand Arenari, estreou hoje como colaborador da Folha. A partir desses contatos, ele me enviou pela democracia irrefreável das redes sociais uma entrevista com George Steiner, feita pelo jornalista Borja Hermoso e publicada em El Pais.

Escritor, filósofo e professor das universidade de Cambridge e Genebra, judeu francês de 87 anos, criança refugiada da expansão no nazismo (1933/45) pela Europa, Steiner não perdeu o humor, tratando grandes gênios da história como referências cotidianas, para falar de questões muito sérias. Daquilo que Sigmund Freud (1856/1939) não previu na sexualidade humana, à gangrena do dinheiro no caráter do homem antevista por Karl Marx (1818/83), sem perdoar os grandes erros da espécie contra si no nazifascismo e no comunismo, ele centrou fogo na péssima formação cultural que o atual sistema de ensino impõe universalmente aos nossos filhos e netos.

Por motivos pessoais, de memória afetiva, mas também da razão, por endossar um raciocínio próprio sobre o qual cheguei a escrever (aqui) antes de lê-lo nas palavras do mestre, segue abaixo um pequeno trecho — na intersecção entre as ditas “baixa” e “alta” culturas — da entrevista que merece ser lida na íntegra aqui:

 

George Steiner em sua casa em Cambridge (foto de Antonio Olmos - El Pais)
George Steiner em sua casa em Cambridge (foto de Antonio Olmos – El Pais)

 

P. O senhor diferencia a “alta” cultura e a “baixa” cultura, como fazem alguns intelectuais de renome, visivelmente incomodados com formas da cultura popular como os quadrinhos, a arte urbana, o pop ou o rock, para as quais se chegou a criar o rótulo de “civilização do espetáculo”?

R. Vou lhe dizer uma coisa: Shakespeare teria adorado a televisão. Ele escreveria para a televisão. E não, eu não faço esse tipo de distinção. O que realmente me entristece é que as pequenas livrarias, os teatros de bairro e as lojas de discos estejam fechando. Por outro lado, os museus estão cada vez mais cheios, as multidões lotam as grandes exposições, as salas de concerto estão cheias… Portanto, cuidado, porque esses processos são muito complexos e diversificados para se querer fazer julgamentos generalizantes. O senhor Muhammad Ali era também um fenômeno estético. Como um deus grego. Homero teria entendido perfeitamente Muhammad Ali.

 

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Perto da vice de Rafael, Gil Vianna fica a um passo de ser vice de Caio

Rafael, Gil, Caio e João (arte de Vitor Marques)
Rafael, Gil, Caio e João (arte de Vitor Marques)

 

 

Estava enganado quem pensava que as surpresas no tabuleiro da sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR) estavam restritas (aqui) à definição da chapa governista — hoje quase definida em favor do vereador Paulo Hirano (PR), após estar bastante inclinada ao vice-prefeito Dr. Chicão (PR).

Embora fosse oficialmente pré-candidato a prefeito pelo PSB, todos que acompanham os bastidores da política goitacá sabiam que, na verdade, o vereador Gil Vianna tinha um acordo (aqui) para ser o vice na chapa de prefeito do vereador Rafael Diniz (PPS).

Bem, como no caso rosáceo de Chicão a Hirano, as quase certezas da semana passada se inverteram nesta semana. A partir de uma costura por cima, entre as executivas estaduais do PDT e PSB, Gil passou a ser seríssimo candidato a vice em outra chapa de oposição, encabeçada por Caio Vianna (PDT), no pleito majoritário que definirá a sucessão de Rosinha daqui a menos de 90 dias:

— As conversas sobre a eleição de Campos estão bem avançadas entre os diretórios regionais do PSB e PDT. Se Gil for o vice na chapa de Caio, a aliança está fechada — garantiu ao blog um integrante da executiva estadual do PSB, falando do celular ao lado do senador Romário, pré-candidato do partido a prefeito do Rio.

Ou seja, para tirar o PSB da base de Rafael Diniz e garantir para si o partido, Caio terá que ter Gil como vice na sua chapa. O problema é que a vaga era dada como certa para o deputado estadual João Peixoto (PSDC). Considerado, não sem justiça, como um dos maiores conhecedores de eleição em Campos, com sólida base eleitoral na periferia do município, João vai reforçar a campanha de Caio a prefeito sendo Gil, não ele, o candidato a vice?

E Rafael, se perder a força de Gil, buscará a quem como vice para perder musculatura na chapa?

 

Confira as informações completas amanhã (09), na edição impressa da Folha

 

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Paula Vigneron — Marionetes

Terraço do Museo Casa Estudio Diego Rivera y Frida Kahlo, na Cidade do México (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Terraço do Museo Casa Estudio Diego Rivera y Frida Kahlo, na Cidade do México (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

O barulho da chuva confundiu-se com o do batente. A porta acabara de ser fechada. Em seguida, passos foram escutados por Anna, que mantinha os olhos cerrados. O corpo, retesado sob as colchas, precisava demonstrar a serenidade inexistente. Raios clarearam o quarto azul da mulher. Optara pela cor porque, desde a infância, ouvia que ela acalmava. A despeito da crença, crescia sua tensão. Pés firmes se aproximaram da porta do quarto. O coração desassossegou-se. Sentia em seus lábios o gosto da despedida.

Luciano repetiu o gesto anterior: tocou a maçaneta com as mãos suadas e frias. Os dedos trêmulos, ansiosos por retrocessos e recomeços, obedeceram, com dificuldade, ao comando do cérebro. Seguraram o objeto e o puxaram para baixo. Os olhos do homem perderam-se sobre a cama alva. A luta interior dominava seu corpo. Acelerado, o coração poderia ser ouvido de longe, junto aos compassos dos batimentos de Anna. Não sabiam, mas estavam em total comunhão.

Caminhou vagarosamente em direção à mulher adormecida. Ela, por sua vez, se entregou à escuridão ao fechar as pálpebras trêmulas. Sabia que ele perceberia o disfarce. Luciano continuou observando-a. Por crer que não a conhecia, ficou em dúvida sobre a veracidade de seu sono. A respiração descompassada, paradoxalmente, tirou a tensão do homem. Por breves e fugidios segundos, a vida pareceu estar normalizada: a casa escura, o quarto azul, a cama branca, a mulher quase despida e o desejo latente. Um suspiro, e a paz se desfez diante de seus olhos.

“Eu me cansei de estar sempre aqui, mas não ter você aí. Eu estou farta da ausência preenchida por filmes, livros e músicas cuspidas por um aparelho envelhecido e enferrujado que se assemelha ao retrato de nós dois. As poesias jogadas pela casa. A esperança de você enxergá-las. E, por meio delas, me encontrar. E você sempre ocupado com seu mundo. Horários, ritmos, corridas. Almoços, jantares. Nestas idas e vindas, Luciano, você se esqueceu de compartilhar histórias com quem está ao seu lado.”

O discurso, gritado naquela manhã, continuava a ecoar em sua cabeça. Não tivera força para admitir, mas reconhecia os erros acumulados e repetidos que se transformaram em muros sobre a cama. Era humano. E, como tal, falho. Talvez tenha se esquecido de ver-se como homem. Esperava que as situações ruins fossem se ajeitar sem que ele precisasse intervir ou tomar decisões. No fundo, pensava que Anna, depois de dizer todas as sinceras barbaridades, pudesse voltar atrás e oferecer o colo como abrigo. Mas não. Desta vez, ela fora firme e inatingível. As palavras batiam nele com todas as forças da esposa.

Ouvindo o silêncio, ela tentava descobrir o que Luciano fazia parado e sentado à beira do colchão. Não podia se mover. Se houvesse movimento, ele se certificaria da péssima atriz que era a mulher. Parada, imaginava dar mais veracidade à grotesca cena. Os pensamentos difusos deixavam Anna ainda mais angustiada. Não saber o que se passava ao seu redor era estranho para quem sempre manteve o controle sobre todas as situações. Vagarosamente, sentiu uma mão tocar seus cabelos. O corpo tremeu. O marido, então, notou que Anna estava acordada. Teve vontade de gritar ao perceber. Era hábito fugir de uma discussão criando outras. Mas, pela primeira vez, agiria de maneira diferente.

“Temos que conversar”, disse Luciano, mantendo a voz firme e serena. Ela estranhou.

“Desde quando conversar faz parte do nosso cotidiano? É sobre o quê? Alguma conquista que ainda não partilhou com quem não costuma te escutar?”

“Anna, não complique a situação. Tenho pessoas que me ouvem e que não me ouvem. E você, que julga estar entre as primeiras, faz parte das segundas.”

Os olhares se cruzaram. A mulher carregava mágoas. O homem, medos. Sentimentos e sensações veladas conduziam o casal a um caminho ainda oculto. Ela teve ânsia de gritar por todos os anos que considerava perdidos. Calou-se com lágrimas escorrendo involuntariamente. Ele desejou abraçar a mulher. Abaixou a cabeça em respeito ao inesperado choro. Estrondos de trovão embalavam a cena.

“Nunca sei para onde poderemos seguir. Desde o começo, nossas vidas foram construídas por impulsos impensados. Acho que desaprendi a usar a razão em relação a você”, disse Luciano, observando os olhos marejados de Anna. Ela balançou a cabeça em concordância. Pela primeira vez, ambos se enxergaram. A olhos e almas nus, não souberam decifrar pensamentos, vontades, sonhos, intenções e desejos. Despiram-se das capas ilusórias com as quais costumavam se apresentar para o outro. O impacto dos rostos crus deixou-os sem reação.

“Creio que nunca tenhamos sido sinceros conosco, Luciano. Fiz de você o que ambicionei, o que desejei. Enquanto, na verdade, deveria ter te deixado ser o que és, sem intromissões ou pedidos exagerados. Eu te moldei a mim, e você, em sua fraqueza, permitiu. Agora, desconheço-o.” Havia sinceridade e verdade nunca antes demonstradas na palavra da mulher, cuja expressão de indiferença tomou lugar da suposta fragilidade pela qual o marido tinha se enternecido anos antes. Ela era uma estranha deitada em sua cama. Ele era o passado extinguindo-se diante de seus olhos.

“Todas as suas reclamações, então, foram vãs? Não sentia o que afirmou te incomodar?” Dentro dele, pulsava incredulidade. A mulher que acabara de se revelar era completamente diferente daquela com quem dividia os espaços do pequeno apartamento. O menino assustado transparecia nos traços masculinos.

“Não sei responder. No fundo, o meu maior desejo era sentir e me angustiar com as bobagens que gritava para você. Mas não fazia muita diferença. Nunca fez.” As palavras cortantes vazavam pelos lábios da mulher com naturalidade. Agora, ele estava começando a conhecê-la. A frieza do olhar ainda deixava-o sem ação, mas Luciano se adaptaria à nova realidade. Sempre se moldava.

“Vamos dormir, querida. Amanhã será um longo dia. Quando amanhecer, revelarei os planos para o próximo final de semana. Tenha uma ótima noite.” Tal como ocorria cotidianamente, ambos trocaram beijos, carinhos e gestos mecanicamente repetidos. Com as mãos entrelaçadas e olhares longínquos, acomodaram-se na cama. Mais um dia. “Boa noite, querido.”

 

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Ações e reações no sentido de definir Hirano candidato a prefeito

Ponto final

 

 

Acão e reação

Toda ação provoca uma reação igual e em sentido contrário. Há quem encare a assertiva como ameaça. Na verdade, é uma lei da física, terceira e última elaborada pelo inglês Isaac Newton (1643/1727) para entender os comportamentos estáticos e dinâmicos dos corpos materiais. Se Newton usou da matemática para decifrar o universo, foi da mesma ciência que o instituto Pro4 fez uso, numa pesquisa feita entre 8 e 10 de junho, com 620 pessoas das sete zonas eleitorais de Campos, para indicar (aqui) o vice-prefeito Dr. Chicão (PR) como corpo mais destacado no universo dos pré-candidatos governistas à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR).

 

Pesquisa indicou Chicão (I)

De fato, na consulta estimulada do Pro4, o desempenho de Chicão nas intenções de voto foi tão superior aos demais governistas, que ele chegou (aqui) a empatar tecnicamente, na margem de erro de 3,9% para mais ou menos, com os pré-candidatos de oposição que lideraram a pesquisa: Caio Vianna (PDT) e os vereadores Tadeu Tô Contigo (PRB) e Rafael Diniz (PPS). Isto, somado (aqui) à avaliação ruim do governo Rosinha e pela necessidade de mudança nos rumos da cidade, mesmo após a entrada dos R$ 367 milhões da terceira venda do futuro, acenderam a luz amarela entre os rosáceos.

 

Pesquisa indicou Chicão (II)

Encomendada pela Folha, a pesquisa Pro4 foi divulgada homeopaticamente pelo jornal em suas edições dominicais de 12, 19 e 26 de junho, gerando (aqui) uma reunião de emergência entre os governistas na noite do dia 27. Estendida por boa parte da madrugada do dia 28, nela ficou tabulado que Chicão seria o nome eleitoralmente mais viável para, com a força da máquina, superar as grandes dificuldades de qualquer candidato governista.

 

Vereadores reagiram

Sem coincidências, foi naquele mesmo dia 28 que o presidente da Câmara, Edson Batista (PTB), considerado como aliado mais fiel do secretário de Governo Anthony Garotinho (PR), abandonou a pré-candidatura a prefeito. Junto a outros vereadores governistas aquinhoados na farra dos RPAs e DAS no Núcleo de Organização Social (NOS), ali começou a ser articulada a reação à ação de definição por Chicão. E na reação igual em força, mas em sentido contrário, na última terça (05), correu abertamente pela Câmara um documento em busca de assinaturas rosáceas, como esta coluna divulgou (aqui) ontem, com exclusividade.

 

Teatrinho do Garotinho

Todos os 12 partidos que integram a Frente Popular Progressista reunida pelos Garotinho para o pleito de outubro assinaram (aqui) o documento, assim como 14 dos 16 vereadores governistas. O endosso foi à imposição de dois critérios à definição rosácea: 1) que o candidato a prefeito seja um vereador; e 2) que ele seja do PR, partido líder da aliança. São os termos que serão entregues hoje, na reunião do NOS, a Garotinho. A partir do recebimento das assinaturas, num movimento de reação urdido debaixo dos panos, o líder que se dobrou democraticamente à vontade da maioria será o personagem interpretado quando forem abertas as cortinas.

 

Reação no mesmo sentido

Embora, além de Hirano, haja outro pré-candidato vereador e do PR, ninguém dentro do grupo governista leva a opção a sério, a não ser quando se trata da temerária contratação de RPAs a toque de caixa. Além de Miguelito (PSL), vereador governista que não assinou o documento, só para reforçar o teatro de Garotinho, o outro, Mauro Silva (PSDB), talvez seja hoje o mais sentido, por ter sido sempre considerado pré-candidato a prefeito com chances reais. Mais pela amizade do que pelas leis da física, a reação de Chicão será caminhar no mesmo sentido de Hirano.

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Vereadores e partidos governistas querem Hirano candidato a prefeito

Paulo Hirano como samurai, na chage do José Renato
Paulo Hirano como samurai, na chage do José Renato

 

 

Como a coluna “Ponto Final” adiantou aqui, com exclusividade, em sua edição de hoje na Folha, o documento que circulou ontem entre os vereadores e 12 partidos na Frente Popular Progressista, pelo qual o candidato governista a prefeito disputará a eleição de outubro, definiu que a cabeça de chapa terá que ser preenchida por um pré-candidato que seja vereador e do PR. Como apenas Paulo Hirano e outro pré-candidato menos cotado preenchem esses pré-requisitos, tudo indica que o primeiro será o candidato dos Garotinho à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR).

Rosinha nunca escondeu sua preferência pessoal por Hirano, seu ex-líder na Câmara Municipal, para sucedê-la na Prefeitura. Por sua vez, amanhã, numa reunião do Núcleo de Organização Social (NOS), o secretário de Governo e prefeito de fato Anthony Garotinho (PR) receberá o documento dos partidos e vereadores, no sentido de simular ter sido forçado pela maioria à escolha de Hirano, mesmo que certamente soubesse previamente da iniciativa e talvez tenha sido ele mesmo seu idealizador.

Mas, para reforçar o teatro, o vereador Miguelito (PSL) não assinou o documento, alegando que só poderia fazê-lo com a autorização de Garotinho. Quem também não assinou foi Mauro Silva, alegando que seu PSDB, oficialmente, ainda não faz parte da Frente Popular Progressista.

Em contrapartida, assinaram os vereadores Paulo Hirano (PR), Abdu Neme (PR), Fábio Ribeiro (PR), Thiago Virgílio (PTC), Edson Batista (PTB), Jorge Rangel (PTB) Neném (PTB), Albertinho (PMB), Magal (PSD), Auxiliadora (PHS), Álvaro César (PRTB), Dona Penha (PT do B) e Cecíclia Bainha (PT do B).

 

Alteração às 23h56: Segundo informou aqui o leitor Nalto Muniz, o vereador Ozeais, do PSDB de Mauro, não assinou o documento pró-Hirano que será entregue a Garotinho.

 

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Jogo pesado para formar chapa governista à sucessão de Rosinha

Ponto final

 

 

Mauro continua

Conforme adiantado ontem (aqui) por esta coluna, com apenas uma candidatura governista à Prefeitura de Campos, diminuem sensivelmente as chances do vereador Mauro Silva (PSDB) de encabeçá-la. Todavia, Mauro não confirmou as fontes que ventilaram (aquiaqui) seu abandono da disputa, ciente de que é real a possibilidade dos tucanos ficarem com a vice na chapa governista, por motivos de tempo de propaganda pouco desprezíveis e também externados no “Ponto Final” de ontem.

 

Vereadores exigem

Enquanto a oposição caminha no sentido da convergência tanto em São João da Barra quanto em Campos, neste último município o jogo mais pesado (e intestino) é disputado sem pudores entre os governistas. Ontem, por iniciativa do presidente do Legislativo goitacá, Edson Batista (PTB), circulou na Câmara um manifesto para colher assinaturas de vereadores rosáceos no sentido de exigir, junto ao secretário de Governo Anthony Garotinho (PR), que seja um deles o candidato a prefeito da situação.

 

Cabo de Hirano

Ciente de que a tentativa de reeleição a vereador não seria fácil, Edson foi o primeiro governista a abandonar (aqui) sua pré-candidatura a prefeito, desde o início da semana passada. E, de lá para, não tem escondido de ninguém que seu objetivo agora é tentar ser candidato a vice-prefeito. Em outras palavras, na luta por sua sobrevida política, Edson Batista passou a ser o principal cabo eleitoral de Paulo Hirano (PR) à sucessão de Rosinha Garotinho (PR).

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

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Movimentos de oposição e governo na sucessão de Rosinha

Ponto final

 

 

Rafael e Gil, Caio e João

Como esta coluna de opinião informou (aqui) em sua edição de ontem, a proximidade das definições das chapas à eleição majoritária vai fechando o leque, cuja abertura extremada, sobretudo na oposição, já foi alvo (aqui) de tantas críticas. O fato de que os vereadores Rafael Diniz (PPS) e Gil Vianna (PSB), assim como Caio Vianna (PDT) e o deputado estadual João Peixoto (PSDC), caminham para formar cada par uma chapa a prefeito e vice, é tendência conhecida há algum tempo por todos que acompanham a política goitacá com um pouco de proximidade.

 

E Tadeu?

Entre os “independentes” (como Gil), ex-governistas migrados à oposição após o fracasso de Anthony Garotinho (PR) ainda (aqui) no 1º turno da eleição ao governo estadual, quem tem destino ainda incerto nessa bacia de alianças é o vereador Tadeu Tô Contigo (PRB). Popular apresentador da TV Record, ele aparece entre os líderes nas pesquisas à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR), mas seu partido, encarado como braço político da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), carece de envergadura laica para uma campanha como à Prefeitura de Campos.

 

Tá com Garotinho?

Embora seja hoje considerado opositor dos rosáceos, também não é segredo que, numa disputa a prefeito, Tadeu atrapalharia mais aos candidatos do governo do que os concorrentes politicamente mais próximos do vereador “independente”. Seu programa, onde popularizou o bordão associado ao nome, lidera audiência nos mesmos nichos de periferia em que valem voto os programas assistenciais dos Garotinho. Não por outro motivo, o próprio secretário de Governo fez questão de (aqui) colar sua imagem, e imensa rejeição entre os campistas, junto ao popular Tadeu, em inserções ao vivo no programa de TV deste, todas negociadas por cima.

 

Duas vagas, uma chapa

Passada a vista sobre a oposição, o que pode ser feito de maneira mais detida (aqui) na página 2 desta edição, na matéria intitulada “Oposição apostando em diálogo”, do jornalista Alexandre Bastos, e o governo? Com a faraônica pretensão de se lançar duas candidaturas, cogitada (aqui) meses atrás, reduzida pela realidade das pesquisas que apontam (aqui) grandes dificuldades para se eleger qualquer governista, permanecem duas as disputas reais no seio do garotismo: à vaga única de candidato a prefeito, assim como à do postulante solitário a vice.

 

Edson x Mauro

Desde que foi o primeiro a abandonar a pré-candidatura a prefeito, o presidente da Câmara Edson Batista (PTB) não tem feito nenhuma questão de esconder, entre seus correligionários, que a vaga de vice foi onde passou a mirar. O problema é que, embora diga que continue apontando para a candidatura a prefeito, o líder rosáceo na mesma Câmara, vereador Mauro Silva (PSDB), reduz muito sua chance com apenas uma candidatura governista. Esta, em contrapartida, perderia razoável força sem o tempo de propaganda dos tucanos, que dificilmente aceitariam apoiar uma chapa sem compô-la.

 

PSDB x PTB

Na prática, não se deve comparar Edson e Mauro, mas PTB e PSDB.  Na propaganda eleitoral de TV à tarde e à noite, entre 27 de agosto e 30 de setembro, o primeiro partido terá cerca de 25 segundos, contra quase um minuto dos tucanos. Isto, enquanto estes deverão dar à sua aliança o direito a seis spots de 30 segundos em rádio e TV a cada um dos 35 dias de uma campanha curta, número reduzido à metade, na oferta do PTB. Como não há vice de vice…

 

Chicão x Hirano

Considerada a pesquisa Pro4 feita (aqui e aqui) entre 8 e 10 de junho, com 620 eleitores das sete zonas eleitorais do município, restaria pouca dúvida que a cabeça de chapa governista deveria caber à calva simpática de Dr. Chicão (PR). Ocorre que outro médico, Paulo Hirano (PR) também está forte no páreo, mais pelo apoio dos colegas vereadores que controlam a farra dos milhares de RPAs e DAS, do que pelo número real de eleitores. Pelo Pro4, num universo de cerca de 354,7 mil eleitores, se Chicão teve 8,4%, em comparação ao 1,1% de Paulo Hirano, significa dizer que o vereador tem hoje 25,8 mil intenções de voto a prefeito a menos do que o atual vice.

 

Corrida por fora

Com popularidade dentro e fora do governo numa disputa cabeça a cabeça, mesmo ao espectador mais experiente, convém não desgrudar o olho da curva final da definição rosácea, que será percorrida em menos de 15 dias. E que ninguém se espante se Thiago Godoy, ex-subsecretário de Governo de Garotinho, surgir (aqui) na ponta correndo por fora. Jovem como Caio e Rafael, seria o “azarão” governista preferido do dono do “hipódromo” — e da banca de apostas.

 

Publicado hoje (05) na Folha da Manhã

 

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Ocinei Trindade — A separação, a (in)dependência e as ilusões

(foto: reprodução)
(foto: reprodução)

 

 

O Reino Unido pediu para sair da União Europeia e está aprontando as malas, apesar da surpresa de muitos que votaram e que não votaram. Uma das alegações para a saída: ameaça do emprego dos britânicos. Em 1822, o Brasil se separou de Portugal. Recentemente, o Sul do Brasil também teve ou tem vontade de separação. O Nordeste já sinalizou algumas vezes. O Acre saiu, mas deixou foi a Bolívia há um século e se anexou ao Brasil por meio de compra e venda. Mato Grosso e Goiás se dividiram e tem funcionado, apesar das deficiências e mazelas todas brasileiras. Em fatos mais regionais, no norte fluminense, Italva e Cardoso Moreira deixaram de pertencer a Campos e se tornaram municípios autônomos. Os distritos de Guarus, Santo Eduardo e a Baixada Campista também já cogitaram virar cidades independentes. Assim foi em Rio das Ostras que se desligou de Casimiro de Abreu, além de Arraial do Cabo e Búzios que deixaram Cabo Frio e, por fim, Quissamã e Carapebus que não pertencem mais a Macaé faz anos. Tanto no Reino Unido, como nos municípios citados, um plebiscito decidiu a vontade da maioria. Pergunto se a separação de um território é que nem divórcio; há garantia de felicidade, realização, soberania e independência? Nem no Reino Unido há.

A aldeia global, expressão cunhada pelo filósofo canadense Marshall McLuhan nos anos 1960, se tornou mesmo pequena sob as óticas tecnológica e comunicacional, é verdade. A Internet vem se popularizando cada vez mais e as proliferações de ideologias, opiniões, imagens, discursos e palavras pela rede são quase impossíveis de impedir. Todavia, a desigualdade e a violência entre as nações, regiões e cidades do mundo afora e do Brasil adentro se acentuam a cada estação. A cultura do lucro e do descarte empurra um número reduzido de pessoas poderosas e blindadas pelo capital para cima e uma imensa maioria de pobres e miseráveis para baixo ou para fora. A expulsão se dá pelas vias econômicas, onde desempregados crescem como poeira;  das guerras sangrentas que não cessam; das perseguições religiosas que ainda apavoram; da sanha da dominação de homens que ainda exploram e escravizam outros homens, sejam estes de sua terra natal ou estrangeiros por inúmeros motivos. Aliás, ser forasteiro ou estrangeiro é crime ou ameaça para algumas sociedades. A xenofobia e a intolerância humana se fundem e confundem dentro e fora de qualquer território.

Em 1998, estive em Londres durante quatro dias. Uma realização estar na terra da rainha mais pop e reinante de todos os tempos que desbanca qualquer Madonna, Lady Gaga ou Beyoncé. Vemos que Elizabeth II reina absoluta desde 1952,  mesmo sem mandar em nada na política. Ela chegou muito bem aos 90 anos de idade, e está firme em meio a todos os escândalos e fofocas de sua família. A rainha viu o império britânico e o mundo se transformarem de diversas formas. Sobreviveu para ver o Reino Unido entrar e se desligar de um projeto ambicioso: unir o continente europeu econômica e politicamente desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Logo após a minha visita à Inglaterra, veio a adoção da moeda única para os países da UE, o euro. Só que o Reino Unido permaneceu com sua tradicional, valorizada e cara libra esterlina. Eu tive que suar e economizar bastante para sobreviver por quatro dias na caríssima Londres. Imagina um sujeito sair do Parque Guarus, periferia de Campos dos Goytacazes, bater no portão do Palácio de Buckingham e tentar entrar na Abadia de Westminster, Conto de fada adaptado para proletariado terceiromundista rende aventuras e boas histórias, pelo menos.

Cresci vendo a Inglaterra pela televisão, filmes e livros de história. Desde meus nove anos de idade, Margaret Thatcher era “minha” primeira-ministra e Elizabeth II “minha” rainha (acho que muitos habitantes do planeta se identificam com ela e se sentem um pouco seus súditos, afinal mania de grandeza é o que não falta entre nós brasileiros), e uma outra mulher me deixava fascinando com as histórias que enviava de lá, a ex-correspondente da TV Globo, a jornalista Beth Lima. Quando lá estive, não consegui ver a rainha Elizabeth,  mas a repórter Elizabeth, sim. E fiquei bem feliz em poder conversar um pouco com quem entendia tudo de Londres e realeza britânica, uma cronista de moda e cultura que muito me ensinou como telespectador e repórter de televisão. Beth Lima é autora do livro Londres, modo de usar, dona de um texto enxuto, irônico e refinado. Eu queria imitá-la, e às vezes conseguia. A capital inglesa me encheu os olhos não só pelos monumentos, parques e jardins impecáveis, transporte público de primeira e gente educada, pubs and teas mas pela diversidade humana. Um caldeirão cultural maravilhoso,

Naquela época, o século XX quase se despedia em uma Londres cosmopolita e agregadora. No mesmo vagão do metrô eu viajava com  punk tatuado e casais gays; com o indiano, o paquistanês e o sikh com turbantes enormes; com negros de variados tons de pele e penteados vindos das colônias e ex-colônias;  árabes típicos, judeus ortodoxos e muçulmanos conservadores; latinos como eu querendo um lugar na bruma (já que sol por lá é coisa rara), todos os ruivos nativos, além de velhinhos engravatados e velhinhas ultramodernas fashionistas. Lembro de uma especialmente que poderia ser avó da Vivienne Westwood, coberta de estampas diferentes de xadrez, saia colorida, meias pretas, cabelo vermelho armado com algumas mechas verdes, chapéu vindo direto de alguma página literária da obra de Lewis Carrol e um baita piercing no nariz. Creio que Elizabeth II, ao se encontrar com esta velhinha feliz e livre com argola nas narinas, descolada no modo de ser e de se apresentar em público, a monarca acenaria com olhar atento e um discreto sorriso nos lábios. Há alguns dias, nacionalistas britânicos idosos estão rindo escancarados, enquanto a outra metade da população jovem chora e se aflige com o futuro que pode ser sombrio devido à saída do Reino Unido do bloco comum.

Fico pensando sobre as vantagens em fazer parte do Mercosul, por exemplo, um acordo que nunca vi funcionar na prática para o cidadão comum, a não ser poder entrar nos países membros sem passaporte utilizando a carteira de identidade brasileira. A Unasul é outra organização que inventaram por aqui e que não vejo benefício para quem é sul-americano. Contudo, a livre circulação para os cidadãos da União Europeia, a possibilidade de se instalar em qualquer cidade dos vinte e sete países membros, ter uma moeda única, ter oportunidades de emprego e estudos iguais parecem interessantes e atraentes. Mas, e quem não nasceu nessa Europa de aparência branca e loura anglo-saxônica-caucasiana teria o mesmo direito e privilégios? Os refugiados de guerras e imigrantes muçulmanos vêm assustando essa Europa “rica e segura” mesmo em crise econômica. Pouco mais da metade do Reino Unido pareceu se incomodar ainda mais com estrangeiros e preferiu a ilha só pra si. Mas, contraditória e curiosamente, os londrinos dão lição de vanguarda e jovialidade ao elegerem em maio último, seu primeiro prefeito muçulmano, o trabalhista Sadiq Khan de 45 anos, filho de um motorista de ônibus paquistanês. Resta saber como será sua gestão.

Se e o futuro da Grã-Bretanha é incógnito, o futuro do governo do Brasil ainda é um mistério também. Se isso nos incomoda do lado de cá da aldeia, em outras partes do globo há aqueles investidores inquietos com dinheiro, ávidos para aplicar aqui e obterem lucros intercontinentais. Políticos também querem lucrar. Crise e rupturas podem ser oportunidades nos negócios, nos governos e na vida pessoal. Thatcher teria dito uma vez sobre o Brasil: “Parece-me bem claro que o Brasil ainda não teve um bom governo, capaz de atuar com base em princípios, na defesa da liberdade, sob o império da lei e com uma administração profissional”. Se ela estivesse viva, talvez não se surpreendesse ao saber onde o Brasil descambou nesta segunda década do século XXI. Entretanto, para brasileiros, britânicos e povos de qualquer nacionalidade, o lendário premiê Winston Churchil afirmou: “A democracia é o pior dos regimes políticos, mas não há nenhum sistema melhor que ela”. Democracia produz até alguma independência e e novas ideias, dizem.

Nos início dos anos 1980, ainda sob o regime militar, a cantora Elba Ramalho gravou a canção “Nordeste Independente”, de Bráulio Tavares e Ivanildo Vilanova, que foi censurada pelo governo brasileiro, pois estaria fazendo apologia ao separatismo do território nacional, pondo em risco a soberania do país. Eu era adolescente quando ouvi a canção pela primeira vez, já no governo Sarney. A cantora que é uma excelente intérprete deu voz a uma ideologia que faz parte da história de diversos povos e nações, a possibilidade de se tornar independente de governos opressores, injustos , corruptos ou equivocados. O primeiro verso da extensa letra diz: “Já que existe no sul esse conceito que o Nordeste é ruim, seco e ingrato, já que existe a separação de fato, é preciso torná-la de direito. Quando um dia qualquer isso for feito, todos os dois vão lucrar imensamente, começando uma vida diferente da que a gente até hoje tem vivido, imagina o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente…”

O Brasil é uma República Federativa, os 27 estados possuem constituições próprias, deveriam ser autônomos social, política e economicamente, mas  vivem com pires nas mãos, reféns de verbas e cargos oriundos do governo central em Brasília. Se os estados são assim, imaginem os 5570 municípios. Uma contradição. O mesmo não ocorre nos Estados Unidos, onde cada unidade da federação americana vive com o máximo de autonomia, independentemente do que pensa o presidente do país. Imaginemos, pois, se os 27 estados brasileiros ou as 50 unidades federativas estadunidenses resolvessem se tornar soberanos e independentes. Como seriam nossa realidade e o o nosso futuro? Bem, por aqui, na terra brasilis, a começar por nossa educação como eleitores, já estaríamos bem mal, pois se somos ruins como pessoas-cidadãs, dificilmente elegemos representantes superiores a nós. É muita pretensão queremos políticos honestos e nobres quando somos desonestos em maior ou menor grau. Já nos Estados Unidos e em muitos lugares da Europa, votar nem obrigatório é. Quando o bolso está cheio de dinheiro, não costumamos nos preocupar com o coletivo e as necessidades alheias. Não deveria, mas assim é. País bom de se viver é onde tem trabalho, liberdade e segurança. Contam-se nos dedos lugares assim, cá entre nós. Uma ameaça surge com homem-bomba explodindo ou epidemias de vírus letais se espalhando. E às vezes, uma sociedade  e políticos descontentes ou ambiciosos querendo separatismo.  É complexo o modo de sobrevivência globalizado,

Ao visitarmos os municípios vizinhos que se emanciparam, constatamos uma coisa comum em todo o Brasil: a pobreza e as limitações nas áreas da saúde, educação e segurança pública são bastante expressivas, crescentes e preocupantes. A corrupção parece se multiplicar e a dependência dos serviços de outros municípios e de verbas estaduais e federais para se manterem só aumenta. Sendo Campos dos Goytacazes o maior município em extensão territorial do estado do Rio de Janeiro, tendo recebido bilhões de dólares (ou reais) nos últimos anos em royalties do petróleo, dispondo de tanto ou mais dinheiro que cidades petrolíferas como Dubai, nos Emirados Árabes, já pensou se Campos decretasse sua soberania e separação do resto fluminense e da nação, se tornando uma cidade-estado? Poderia ser um principado feito Mônaco, Liechtenstein, San Marino ou o Vaticano. Bem, soberanos já temos, barões na política e em negócios monopolizados, feudos que seguem sob o chicote escravocrata; “barões, príncipes e reis” com bastante poder e influência nas favelas e agremiações religiosas. Somos uma quase tonta  monarquia anglo-luso-africana-ortodoxa-goitacá. Falamos português, mas nos comunicamos e nos entendemos muito mal. Também gastamos muito mal o dinheiro público que é de todos. Aliás, nossos governantes gastam mal.  Queremos independência?

Cada distrito e bairro do extenso município de Campos tem suas lideranças ora omissas, ora suspeitas de relações perigosas. O direito de ir e vir garantido pela Constituição Federal, na prática, não funciona muito bem, nem tranquilamente. A cidade está sitiada nos condomínios e prédios de luxo armados sob vigilância particular, ou nos guetos e comunidades cada vez mais envolvidos em crimes, assassinatos, queimas de arquivo, comércio de drogas. Refém, a polícia também não dá conta. Os palácios do Executivo, Legislativo e Judiciário também andam cercados e com difícil acesso para o cidadão comum e desinformado. Entre poderosos e influentes, interesses pessoais parecem ter mais importância que os interesses coletivos. Se nos sobram “monarcas”, autoridades e justiceiros, faltam-nos líderes e heróis como pais conscientes, professores e educadores reconhecidos e comprometidos com uma verdadeira revolução. Nenhum Sergio Moro por aqui brotou até então para nos dar sensação de limpeza da impunidade. Independência ou sorte, já que mortos estamos quase todos,

Na última estrofe da canção interpretada por Elba Ramalho, segue uma reflexão sobre a sugerida separação nordestina do Brasil: “Eu não quero, com isso, que vocês imaginem que eu tento ser grosseiro. Pois se lembrem que o povo brasileiro é amigo do povo português. Se um dia a separação se fez, todos os dois se respeitam no presente. Se isso aí já deu certo antigamente nesse exemplo concreto e conhecido, imagina o Brasil ser dividido e o Nordeste ficar independente”.  Observo que pertencer a um lugar ou deixar de pertencer a ele não é uma coisa simples e confortável. Faz tempo que constato a divisão do mundo entre ricos e pobres apenas. Ou entre opressores e oprimidos. No Brasil então, a opressão é ainda mais cruel e cínica, pois há uma Suíça minúscula dentro do território nacional, cercada e ocupada em sua maioria esmagadora por toda a miséria da África, Ásia e América Latina.

O Brasil continental é um disparate descomunal em termos de desigualdade. Para quem não conhece bem o país, basta visitar a cidade de Campos para refletir sobre o que acontece desde a ocupação e possessão portuguesa. A Ilha de Vera Cruz ainda não evoluiu o bastante para garantir soberania ao seu povo. Continuamos optando por vivermos ilhados, separados em tribos de ricos e pobres, senhores e servos, negros e brancos, mouros e cristãos. Mistura eventual e tolerada talvez somente no Carnaval. A Grã-Bretanha não é aqui, mas poderia ser um dia, no futuro ou no passado de reinos desunidos que teimam resistir. A monarquia brasileira foi extinta no fim do século XIX, mas há em vigor um império de novos reis travestidos de democratas e homens de bem a nos roubar e a nos exterminar. Imaginem nos livrarmos disto um dia. Ilusão ou utopia, viver não tem garantia, mas há quem aposte na esperança de dias melhores. God save the World. 

 

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José Eduardo Pessanha da Silva e Brand Arenari estreiam na Folha

Por conta das restrições da Justiça Eleitoral, os vereadores Marcão Gomes (Rede) e Rafael Diniz (PPS) se despediram momentaneamente dos espaços semanais que ocupavam como colaboradores da Folha da Manhã. Sempre na página 4 do primeiro caderno, Marcão tinha seus textos publicados na terça, e Rafael, na sexta. A partir desta semana, em seus respectivos lugares, escreverão o advogado José Eduardo Pessanha da Silva, que já começa amanhã (5), e o sociólogo Brand Arenari, cuja estreia se dará na próxima sexta (8).

Membro concursado do Jurídico da Petrobras, com atuação no ramo jurídico há 23 anos,  com especialização em Direito Penal/Processo Penal, Direito Civil/Processo Civil, Direito do Trabalho, Processo do Trabalho e Previdenciário, José Eduardo também atua como consultor jurídico-parlamentar. Já Brand fez doutorado em Sociologia pela universidade Humboldt de Berlim, na Alemanha, após concluir na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) a graduação em Ciências Sociais e o mestrado em Cognição e Linguagem, tendo atuado como diretor do Instituto de Economia Aplicada (IPEA) e consultor na área de sociologia.

Ambos também atuam no magistério. Enquanto José Eduardo é professor nas áreas de Direito do Trabalho, Portuário e Marítimo, Brand inicia na próxima semana como professor da UFF-Campos. Abaixo, respectivamente, o que cada um pretende trazer semanalmente aos leitores da Folha, às terças e sextas:

 

Advogado José Eduardo Pessanha da Silva
Advogado José Eduardo Pessanha da Silva

 

 

“Os artigos estarão sempre voltados para temas do cotidiano, com enfoque jurídico e em políticas públicas, sociais e administrativas, visando esclarecer e comentar vicissitudes locais, sempre no contexto de agregar e possibilitar uma discussão mais profícua e democrática, sem conotação político partidária”.

(José Eduardo Pessanha da Silva)

 

 

 

 

Sociólogo Brand Arenari
Sociólogo Brand Arenari

 

“Pretendo tratar de temas do momento relacionados à política, sociedade e cultura, ao tecer relações entre filmes e grandes séries de sucesso ao universo prático da política, revelando, de alguma maneira, o conteúdo sociológico ou político presente neles. Nosso mundo vive um tempo de bruscas mudanças, tais como ressurgimento da extrema direita, colapso da velha esquerda, as grandes tensões que vivemos, sem esquecer dos temas locais”.

(Brand Arenari)

 

 

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Fabio Botrrel — O Balé Inconsciente do Consciente

 

Sugestão para escutar enquanto lê: On The NatureofDaylight – Max Richter

Balé de David Dawson

 

 

 

Bottrel 02-06-16

 

 

— Uma palavra escrita com sangue d’alma preenche a vida sem fin-à-idade, sai do corpo como sai a semente da terra, jamais aceitaria ser costela da letra o.

Arte.

Com essa palavra gostaria de começar essa palestra. — Bruno pigarreou baixinho virando um pouco o rosto longe do microfone. Tentava se orientar com alguns tópicos escritos nas folhas à sua frente, mas não as levantava da mesa com receio de perceberem suas mãos tremulando a ponto de fazer aqueles barulhinhos que os papéis fazem quando encontram mãos nervosas. Encostou os dedos frios na testa e percebeu ligeiramente úmida mesmo com o grande ar condicionado do auditório no Museu Histórico de Campos dos Goytacazes. Atrás de si estava o estandarte da Academia Pedralva de Letras e Artes ao lado do convite que aceitara — 80 anos do filme Tempos Modernos de Charlie Chaplin.

Voltou a olhar para a plateia, confuso, aparentava conhecer todos os presentes, mas não lembrava de nenhum e um sentimento de angústia lhe preencheu o corpo, como quando tinha o nome de uma pessoa na ponta da língua e sentia embaraço de tê-lo esquecido. Reconheceu nos rostos suas próprias expressões, uns estavam sorrindo enquanto ele não proferia as próximas palavras, outros com traços contorcidos de uma vida pesada, alguns com a postura ereta como um campeão arredio, outros com a postura dobrada como um cão vadio. Bruno abriu a boca fosca de ar frio, seus dentes colavam na parte interior dos lábios secos d’um nervoso bravio, d’um, d’um, d’um, sentia o coração, d’um, d’um, d’um, meu deus que provação!

– Entre os convidados estava JaschaHeifetz, o célebre violinista. Todos insistiam em que Heifetz se apresentasse; ele pegou o violino de Chaplin e começou a tocar, mas ficou petrificado, como todos os presentes, quando percebeu que das cordas saíam apenas desarmonias insensatas.

Chaplin sorriu, tirou o violino das mãos de Heifetz e tocou um trecho de Bach com a mão esquerda. Todas as cordas estavam montadas no sentido inverso.

“Entenda bem”, disse Chaplin, “eu sou uma pessoa feita ao avesso e de cabeça para baixo. Quando, na tela, dou-lhe as costas, o senhor vê algo expressivo como um rosto. Sou principalmente um dorso.” – Ecoou a voz de Bruno no microfone enquanto lia um artigo publicado em dezembro de 1920 no The New York Times, traçando o peculiar perfil do gênio cuja obra será o foco de sua apresentação. Enquanto falava, observou no meio da plateia um homem com um terno fora de tamanho e antigo como nos filmes retratando o início do século XX. Não conseguia ver seu rosto, apenas um chapéu de coco que apontava acima das cabeças no centro do auditório, seu portador era baixo e se encolhia dentre os presentes.

— Tempos Modernos oferece uma experiência peculiar ao combinar elementos do cinema mudo com os do cinema falado. — Continua Bruno percebendo o interesse do público em conhecer o dorso expressivo como um rosto. — A transição do cinema mudo para o cinema sonoro teve muita resistência, Chaplin mesmo não usaa própria voz no filme Tempos Modernos, outro canta ao final. Apesar de ter boa voz para gravar, por que então Chaplin esperou até 1940 para falar em um filme, em O Grande Ditador?

Ao terminar de lançar a pergunta um telão atrás de si iluminava-se com a presença de um dos maiores gênios do cinema subindo num palanque que não lhe pertence, construído com sangue e sonhos de milhares de cães vadios impossibilitados de descobrirem serem campeões arredios. Bruno viu seu rosto na bandeja que apoiava o copo d’água ao lado e se espantou quando olhou para os presentes no auditório, todos tinham o seu rosto, todos eram Brunos em roupas diferentes, em posturas diferentes, em sorrisos e tristezas, apenas o homem de chapéu de coco, deixando aparecer rente à cadeira uma bengala que balançava como um cipó continuava o mesmo. Os olhos de Bruno não se moviam tentando entender a cena que via, os lábios se distanciavam um do outro sem que ele percebesse. Imersas na brisa fria, em câmera lenta, as ondas sonorascomo arco-íris foram carregadas até baterem na sua nuca, espalharem para os lados, escorregarem no caracol das aurículas, adentrarem o conduto auditivo e chegarem ao tímpano.

“Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar a todos — se possível —, judeus, o gentio… negros… brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo — não para o seu infortúnio. Por que temos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.

O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém, desviamo-nos dele. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da produção veloz, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz em grande escala, tem provocado a escassez. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade; mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura! Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo estará perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessa aproximação é um apelo eloquente à bondade do homem… um apelo à fraternidade universal… à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora… milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que oprime seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir, eu digo: “Não desespereis!”

A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia… da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbirão e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, mesmo que morram homens, a liberdade nunca perecerá!

Soldados! Não vos entregueis a esses homens violentos… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação racionada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquinas. Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossa alma! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os desumanos.

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem — não de um só homem ou de um grupo de homens, mas de todos os homens! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder — o poder de criar máquinas… o poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de fazê-la uma aventura maravilhosa! Portanto — em nome da democracia —, usemos esse poder, unamo-nos todos nós! Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém, escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à aventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

Hannah, está me ouvindo?! Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah?! O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo — um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da violência. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!”

Ao terminar o soar da voz imponente, os olhos de Bruno estavam fixos num ponto do teto quando viram um de seus braços enérgicos cortar o ar de maneira brusca com o dedo apontado para a eternidade, sentiu a boca sossegar, os lábios pararem de dançar e apenas tremerem como tremem as pernas após uma maratona. Percebeu que todo o discurso d’O Grande Ditador fora proferido por ele mesmo enquanto o telão estava apagado, era o ditador e os súditos na sua própria cabeça. Quando voltou a si, olhou para a plateia e não havia mais ninguém, todos os Brunos haviam desaparecido, restou apenas o homem de chapéu de coco, bengala engraçada e um bigode fino. O homem olhou para Bruno com tanta força, os olhos brilhavam como o céu interiorano de estrelas mortas, mas que não deixam de brilhar. Rente às pálpebras formou-se uma pequena poça como um oceano retido na alma, refletindo a poluição do jovem palestrante.

Bruno sentiu o corpo adormecer, não sentia mais suas funções vitais e tudo se concentrou na garganta. Tentou descobrir das sombras o homem à sua frente, mas nada saia, as palavras paravam na garganta e se aglomeravam, tapando sua respiração.

Não consegue respirar, respirar, ele quer respirar, palavras, deixem-me respirar!

Começou a roxear, seus lábios de vida tornaram-se tristes, para onde fora meu sangue? Olhava com os olhos vermelhos esbugalhados o homem à sua frente, como se esse pudesse ajudar.

— Não é a morte que deve temer, Bruno, mas nunca começar a viver, já sabia o imperador, esse é o pretexto da vida, todo homem deve morrer.

O homem bateu algumas palmas sinceras e espaçadas, os ecos das suas próprias palmas preencheram o ambiente vazio como se houvesse ali uma multidão.

— Só a verdade e a beleza podem convencer o público, há morte em seus olhos, mas a sua alma é bela como o reflexo na água límpida.

Bruno procurava algo para agarrar, já estava desesperado com a falta de ar enquanto o homem calmamente tirava do bolso um relógio.

— Se não conseguir tirar essa palavra da garganta, quando esse relógio apitar, você morrerá.

Colocou a mão sobre a garganta, queria gritar, a voz não saía, havia algo travando o ar.

— Não sairá com a força, somente a alma pode empurrá-la.

Bruno tentava se concentrar e entender o que ele dizia,como telepatia o homem sabia os pensamentos.

— A resposta está na sua própria apresentação, perceba o que eu já houvera dito, os melhores filmes foram feitos com pedaços de vida, na sua garganta estão pedaços da vida entalada, a carne crua que apodreceu debaixo da máscara.

Pense nos sonhos, Bruno. Quantos se perderam, quantos queria ser e deixou de ser em prol de um sistema que tem em si a essência da sua própria destruição, eu mostrei isso em Tempos Modernos. Pense, rapaz, quantas máscaras por vergonha de mostrar a própria face, deixou-te a face apodrecer.

Uma lágrima sufocada desceu no rosto de Bruno, banhando os minúsculos pelos nascidos entre os poros, imperceptíveis a olho nu. Como tsunami a lágrima desceu – ácido na máscara, carregando as angústias, todo o ser e não ser. Levou a vida da pele podre, lavou n’alma o pesadelo p|o|bre. Chegou à quina do queixo, se agarrou a um pequeno fio de barba com um pouco de caspa, e se jogou, como toda pessoa se joga no abismo entre a vida e a morte. Quando Bruno escutou sua lágrima se quebrar como vidro na mesa, olhou para a madeira pintada de branco com pequenas rachaduras por onde os pedaços da lágrima se escondiam, voltou a sonhar, lembrou de sua infância, desejou ver o mar, onde os pedaços não separavam. O oceano do palco, era um marinheiro conduzindo a multidão, logo as luzes da ribalta se apagaram, acreditou nos arrotos, seu sorriso não merecia o risod’arte. O sentimento cresceu dentro de si, mar|inan|do, mar|inhan|do, mar|ina|do decidiu domar o que é do|mar.

Sentiu o remexer involuntário da garganta, seu nó desabotoando para cima e para baixo, algo estava subindo, sentiu um gosto estranho e controlou a vontade de vomitar.

Cuspiu uma poça de sangue sobre a mesa.

Um zumbido muito agudo veio ao ouvido enquanto observava o sangue coagular sobre a mesa como se fervesse. Aos poucos o sangue tornou-se vermelho-escuro e se moldou até tomar forma da letra V. Bruno conseguiu respirar um pouco, mas logo a sua garganta travou de novo e o desespero voltou, não conseguia entender o que estava acontecendo com a sua boca coberta de sangue vivo, passou os dedos sobre os lábios e viu o sangue correndo para debaixo das unhas, como se tivesse medo de si próprio.

— Esse sangue que coagula tem a sua essência, se tens coragem para a lágrima, terá para dá-la sentido, só assim sua breve existência valerá|à pena, só assim se tornará a essência inventiva, e quando for o intérprete de si próprio, deixará de ser a imitação da vida. Se não se emocionar com quem és, rapaz, nenhuma lágrima correrá por ti. Entenda, a minha morte é o fracasso da humanidade, faça com que sua vida amenize a dor dos que suportam o peso dessa sociedade estúpida.

Bruno já estava muito roxo quando o homem proferiu as últimas palavras, sua vista aturvou, seus dedos incharam e os sentidos anestesiaram, pensava na morte, ainda não sabia se aquele homem era a morte ou a vida.

— Se deixares o sonho morrer serás mais um personagem de Tempos Modernos, agora que expulsou um dos pedaços de vida entalado dentro de si, dê-lhe sentido.

Ar, ar, ar, era tudo que Bruno queria, ar, ar, não conseguia se concentrar! A vista começou a escurecer, pensou em morrer, reviu o mar, no palco, oceano de ar, lá, lar, representar a vida, a verdade escondida, a alienação embutida, libertar os sonhos escravizados. A mão do marinheiro puxou forte a corda morta no palco, gritou, o pano abaixou, a mão do marinheiro puxou forte a voz morta na plateia, o punho, cerrou.

A vista começou a clarear com o vermelho subindo pela garganta, Bruno cuspiu outra poça de sangue que se debatia como um feto em carne viva, logo coagulou-se fervendo na mesa e formou a letra I.Seu corpo estava pálido como o cinza do cimento e as olheiras fundas tão fundas como o abismo dentro de si. A pele estava fria e úmida, ainda não virara poesia.

— Viva, rapaz, viva… tens o sonho e o sentido da vida, não estrague tudo com esse terno de vida finda. És alma, o corpo é apenas uma ferramenta. — Enquanto o homem falava, Bruno vomitava sangue e olhava diante de si formar mais uma letra, D.

— Se eu pudesse voltar a vida, sorriria mais, choraria mais. O riso e as lágrimas são os antídotos contra o ódio e o terror. Sorria, Bruno, é o que faz a vida valer a pena.

Quando Bruno cuspiu a última poça de sangue, sua garganta sentiu uma grossa camada de ar percorrer seu corredor levando o interior ao exterior. O zumbido deu lugar a um forte barulho de ventania entrando em seu corpo. Na mesa estava escrito com sangue a palavra VIDA. Quando olhou para frente, não havia mais ninguém, todas as cadeiras estavam vazias, apenas o barulho do ar condicionado, ao lado uma funcionária empurrava a porta com uma bandeja de café e pães para os convidados que hão de chegar, ainda faltava meia hora para sua apresentação. Bruno sabia não ter sido um sonho, o sangue da sua boca estava na mesa. O inconsciente reclamou ao consciente, e já não sabia mais em qual fantasia da vida vivia. Não conseguiu se conter dentro do terno, tirou e largou ali mesmo. Correu pelo corredor do museu até sair na praça São Salvador, correu! Seu peito se debatia ofegante, correu! Rasgou os botões da camisa branca lhe tapando o vento, correu! Passou pelos escravos modernos deixando seus engenhos às 18h, correu! Chegou ao Teatro de Bolso vazio, subiu no palco frio, e gritou com a alma:

 

VIDA!!!!

VIDA!!!!!!!!

VIDA!!!!!!!!!!!

 

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