Hoje, completaria 80 anos o criador desta coluna e deste jornal, Aluysio Cardoso Barbosa, morto (aqui) a 15 de agosto de 2012. Vítima do tabagismo que marcou o jornalismo clássico, sem computador ou internet, foi nele o primeiro a noticiar no Brasil e no mundo a descoberta de petróleo na Bacia de Campos. Homem à frente do seu tempo, introduziu os conceitos de pauta e lead na imprensa goitacá, sendo pioneiro também ao dotar o interior fluminense do seu primeiro jornal em impressão off set: a Folha. Mais que a técnica ou a tecnologia, não envelheceu na didática que melhor aprendeu e lecionou: jornalismo é trabalho coletivo.
Aluysio Barbosa, o Bom (II)
Apaixonado por sua terra, deixou uma carreira de sucesso no Rio como repórter do Jornal do Brasil, à época o maior do Estado, para voltar como correspondente e fundar o próprio jornal. Ao lado da esposa, Diva Abreu, e um bando de outros sonhadores, batizou e fez da Folha da Manhã o maior jornal de Campos com apenas dois meses — liderança mantida nos 38 anos seguintes. Foi figura de proa na luta pela criação dos royalties do petróleo e pela implantação da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Projetou sua profissão, sua empresa, sua cidade e sua família ao futuro. E viveu a vida presente como poucos.
Com seu busto no fundo, à esquerda, rscritório da casa de Trotsky na Cidade do México, onde ele foi assassinado pelas costas, com golpes de picador de gelo contra seu crânio, pelas mãos de Ramon Mercader, em 1940 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Alguns comentaristas do blog se notabilizam, além da frequência, pela insistência. Alguns, quando se contrapõem à lógica, tentam levar a discussão não pela variedade e valor dialético dos argumentos, mas pelo número de vezes que são capazes de repetir a mesma coisa, com um mantra, ad nauseam.
Foi o caso recente do leitor identificado como Paulo Henrique, após fazer várias intervenções recentes pró-PT, nem que seja pra dizer que “foi culpa do FHC”, nos comentários de algumas postagens. A última (aqui), naquela em que o blog reproduziu a carta póstuma fictícia do assassino do líder russo Leon Trotsky (1878/1940) ao ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, condenado a 15 anos de prisão na Lava Jato.
Escrito na verdade por Elio Gaspari, o decano jornalista usava da sua fina ironia para aparentemente antecipar uma delação que prometeria ser a (última?) pá de cal sobre o ex-presidente Lula e o que restou do PT, já que quanto ao governo afastado de Dilma Rousseff, ninguém que consiga respirar e falar sozinho tem ainda alguma esperança.
Mas o fato foi que nosso Paulo Henrique comentou aqui a postagem:
— Bezerra da Silva dizia que “Era caguete sim”. Podemos dizer que temos a indústria bem lucrativa no Brasil. O indivíduo pode roubar a vontade, se for descoberto faz as contas, devolve um certo valor, seleciona alguns ex-companheiros e entrega, sua pena é reduzida em 90%, usa uma tornozeleira em uma casa de campo e etc.
Ao que o blogueiro tentou aproveitar a ritmo para não atravessar e responder aqui:
— (…) Daqui a ainda mtas delações e operações, qd a Lava Jato estiver pelo menos próxima do fim, o que por ora parece mt distante, para o desespero de Cunhas, Lulas, Dilmas, Aécios, Renans, Cabrais e Garotinhos, veremos quem cantará com mais propriedade os versos mais famosos de Bezerra da Silva: “Malandro é malandro/ E mané é mané/ Diz aí!/ Podes crer que é…”
Bezerra da Silva, que nunca foi santo, e seu mais famoso lema
Pois se escrevi isso ontem, hoje a Odebrecht, maior empreiteira do país, saiu na frente da concorrente OAS e se anunciou prestes a fechar o acordo de delação premiada de seus executivos, entre eles o ex-presidente Marcelo Odebrecht, preso desde 19 de junho de 2015 e condenado a 19 anos e 4 meses de prisão, com o Ministério Público Federal. A assinatura do acordo, porém, depende de acertos finais, entre eles que a Odebrecht recupere e apresente arquivos digitais da empresa contendo provas do pagamento de propina a políticos e autoridades — confira todos os detalhes aqui, na matéria de O Globo.
Para quem já se esqueceu das extensões da corrupção muito além do PT evisceradas pela Lava Jato, basta atentar como ela pode chegar ao ex-governador Sérgio Cabral e ao governador licenciado Luiz Fernando Pezão (ambos do PMDB), como hoje anunciou aqui a “Coluna do Lauro Jardim”, de O Globo, replicada aqui pelo jornalista Alexandre Bastos na blogosfera goitacá.
Nota de hoje (19) da coluna do Lauro Jardim (reprodução)
Sempre atento, foi o mesmo Bastos que também repercutiu aqui, no último dia 9, a nota da coluna “Radar Online”, da revista Veja, na qual anunciou aqui que a “munição” de outro ex-presidente da Odebrecht, Benedicto Barbosa da Silva Júnior, além de atingir Cabral e Pezão, pode causar também grandes estragos em Anthony Garotinho (PR), marido e secretário de governo da prefeita Rosinha.
Nota do Radar Online de 09/07/16 (reprodução)
Para que não se lembra, Benedicto foi quem assinou aqui), junto com Rosinha, o contrato da primeira etapa do programa “Morar Feliz”, em 1º de outubro de 2009, para a construção de 5,1 mil casas, no valor total de R$ 357,4 milhões — numa licitação cujo resultado favorável a Odebrecht foi antecipado (aqui) pela coluna “Ponto final”, da Folha, em quase quatro meses.
Página 2 da edição de 03/04/16 da Folha, com a cópia do contrato do “Morar Feliz” assinado por Rosinha e Benedicto
E, coincidência ou não, foi também na residência de Benedicto que a Polícia Federal (PF) apreendeu (aqui), em 22 de fevereiro, na 23ª fase da Operação Lava Jato, as hoje famosas planilhas com nomes de mais de 300 políticos, de 22 partidos, que recebiam doações da Odebrecht — incluindo Garotinho (aqui), sua mulher, a prefeita Rosinha Garotinho (aqui), e filha e deputada federal Clarissa Garotinho (aqui).
No inquérito assinado pelo delegado federal Filipe Hille Pace, fica claro (aqui) o papel de Benedicto como elo do dinheiro que circula entre a Odebrecht e os políticos:
— É possível verificar que Benedicto é pessoa acionada por Marcelo (Bahia Odebrecht) para tratar de assuntos referentes ao meio político, inclusive a obtenção de apoio financeiro — disse o delegado da Lava Jato.
Após fazer companhia ao chefe Marcelo na carceragem da PF em Curitiba, Benedicto foi solto pelo juiz Sérgio Moro em 26 de fevereiro, ao término dos cinco dias da prisão temporária, com a condição de não deixar o país ou mudar de endereço.
A nota da Veja revelou que, mesmo tendo Benedicto sido igualmente flagrado nas constrangedoras fotos do então governador Sérgio Cabral (PMDB) em Paris, no episódio que popularizou como “Gangue dos Guardanapos”, Garotinho nunca ousou publicar a imagem de Benedicto. Por que será?
Num mês de definições de chapas, cujo prazo finda em 5 de agosto, esta penúltima semana de julho começou cheia de novidades. A mais relevante delas, foi antecipada (aqui) pelo blog “Opiniões”, desde o dia 8: Gil Vianna (PSB) roeu mesmo a corda com o vereador e pré-candidato a prefeito Rafael Diniz (PPS), trocando-o por Caio Vianna (PDT), de quem será vice na luta pela sucessão do governo Rosinha Garotinho (PR). Apesar da palavra empenhada anteriormente com Rafael, Gil seguiu a orientação estadual do seu PSB, cujo presidente e senador Romário posou ontem (18) no Rio, entre os dois campistas, como padrinho do casamento com o PDT.
Chance real?
Das outras novidades anunciadas também nesta coluna, se o ex-vereador Rogério Matoso (PPL) prometeu (aqui) uma “surpresa partidária”, ela não deixou de se confirmar com revelação da aliança com a ex-candidata a prefeita e atual pré-candidata a vereadora Odete Rocha (PC do B), anunciada (aqui) e confirmada (aqui) no blog “Na curva do rio”. Se vai ser ou não suficiente para dar alguma chance real na eleição de um, outra, ou ambos, o tempo dirá. Mas, por enquanto, a relevância não parece exceder a do anúncio (aqui) do Psol em desistir de lançar candidatura à sucessão da prefeita Rosinha.
Nildo reagiu
Quem reagiu rápido à ameaça de perder o DEM, e com ele uma pré-candidatura a prefeito que ainda pode ser usada para cacifar sua tentativa de reeleição a vereador, foi Nildo Cardoso. Após já ter perdido (aqui) o PMDB de Campos ao deputado estadual Geraldo Pudim, bastou este se reunir (aqui) em Brasília, no dia 14, com o recém-eleito presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia, para Nildo ir ao Rio (aqui) no dia 16 e também posar aos fotógrafos com o filho do vereador carioca César Maia (DEM).
O que resta a Tô Contigo
Enquanto o governo não revela se lançará o vice-prefeito Chicão Oliveira (PR) ou o vereador Paulo Hirano (PR), a única novidade com a mesma importância da confirmação de Gil na chapa de Caio é o destino do vereador e pré-candidato a prefeito Tadeu Tô Contigo (PRB). Num partido sem estrutura, minado politicamente pelo interesse comercial da emissora de TV na qual trabalha e com a desistência do PSC do vereador Genásio numa aliança, como anunciou (aqui) o “Blog do Bastos”, as chances do apresentador parecem bifurcadas entre vir de novo à Câmara Municipal, ou aceitar (aqui) ser vice na chapa de Rafael — o que daria um gás também à pré-campanha deste.
PT para Caio ou nada
Bem verdade que, além de anunciar o apoio do PC do B de Odete, Rogério também foi sabatinado pela executiva municipal do PT, no último sábado, como tinham sido nos anteriores, respectivamente, Caio e Rafael. Embora este tenha causado boa impressão pessoal, por ser filiado ao PPS, deve no máximo levar (aqui) o apoio pessoal de algum pré-candidato petista a vereador, como o Professor Alexandre. O tempo de propaganda de TV, real interesse (aqui) na sucessão de Rosinha, ou vai ficar também com Caio, por conta (aqui) do PDT, ou servirá para nada numa candidatura própria de Hélio Anomal a prefeito.
Um dos maiores erros do jornalismo, sobretudo na vertigem da velocidade digital, é aceitar como verdade a informação passada pela fonte, sem questionamento crítico. Se o erro pode atingir até jornalistas mais experientes, o que dizer quando se trata de alguém mais jovem que, por simples ingenuidade, pode cair no Ctrl+C/Ctrl+V do que uma autoridade pública de Saúde, por exemplo, afirma quando associa a boatos uma doença contagiosa, transmissível pelo ar, cujo ciclo até a morte é rápido e atinge preferencialmente crianças?
Bem, para quem leu ou não a obra do jornalista e escritor britânico George Orwell (1903/50), orgulha topar aqui, na democracia irrefrreável das redes sociais, com a dialética irretocável em defesa da vida humana por parte de uma jovem colega de trabalho, como é o caso da subeditora da Folha Online Camilla Silva. Na paráfrase a outro “coleguinha” mais velho e famoso, o carioca Millôr Fernandes (1923/2012): “Isso é jornalismo, o resto é armazém de secos e molhados”.
Confira abaixo:
Joyci e Ana Vitória, de 6 e 1 ano, mortas na UPA de Campos após serem atendidas e liberadas no HGG (foto: arquivo da família)
Jornalista Camilla Silva
Tentando entender o significado de “espalhar boatos” — O responsável por um setor da saúde municipal vai a público dizer que a morte de duas meninas de meningite foi causada porque os pais das mesmas foram negligentes e não estavam em dia com o cartão de vacinação. Os pais são hostilizados na rua, procuram a Folha e mostram o cartão em dia. Alguns dias depois, a autoridade em questão volta atrás. Mas isso não é boato. Boato é outra coisa.
Chegamos, 1984. O idioma oficial de Campos é a Novilíngua.
“Qual homossexual mataremos hoje? E se, de quebra, a gente espancar e assassinar um negro também? Gays podemos perseguir e matar no Brasil, na Rússia ou em qualquer cidade de qualquer país do mundo. Já os negros, pode ser nos Estados Unidos mesmo, para não fugir tanto da rotina. Mas, quem quiser matar e perseguir preto e pobre no Brasil ou fora, também está valendo”. Há quem chore por estas barbaridades. Há quem não se importe. Há também os que se comovem com a voz embargada do deputado federal Eduardo Cunha ao renunciar o mandato de presidente do Congresso Nacional, queixando-se de perseguição e falta de compaixão para com sua família. Há quem morra de pena de Dilma Rousseff e chore por seu afastamento do governo da nação por “um crime que não é crime e que ela não cometeu”. Há quem prefira que eles se lasquem e apodreçam na cadeia. Abraçar bandidos, criminosos, corruptos ou derrotados alguém consegue? Consolar os que choram em tempos duros e desumanos soa quase impossível. Quase. Amor ainda há em meio à tanta maldade.
O noticiário de todo lugar do mundo costuma destacar as tragédias, catástrofes, acidentes, violências todas, crises políticas e econômicas, desgraceiras em geral (como se a vida fosse boa e perfeita para quase toda gente do planeta). Quando o inusitado ou aquilo que foge da rotina comum acontece, ganha-se uma repercussão às vezes surpreendente. Com tanta informação que passamos a consumir depois do advento da Internet, tenho a impressão que filtrar horrores está ficando cada vez mais difícil, pois quase tudo parece horrendo e abominável. Por uma morbidez qualquer, nós nos apegamos mais ao que é negativo e infernal do que aquilo que é bom, bonito ou agradável. Entre o pavor e a calmaria, há os que prefiram exercer seu lado abutre-morcego-urubu. Estamos tão envolvidos com carnificinas, roubos e corrupções, que quando alguém toma a iniciativa de abraçar uma pessoa, isto parece algo até merecedor de uma nota no jornal: “Menino português consola torcedor da França que perdeu a Eurocopa”, foi a manchete de destaque de vários sites de notícias mundo afora. Houve quem achasse a notícia totalmente banal e dispensável, perda de tempo. Será mesmo?
Ao ler a notícia, fiquei procurando descobrir a identidade do menino, mas ainda não consegui até escrever este texto (12/07). O vídeo do garotinho de dez anos confortando o torcedor francês que chorava a derrota de sua seleção para a equipe de Portugal ganhou a rede mundial de computadores e se espalhou. Fiquei comovido não só pela cena, mas porque alguém que trabalha nas mídias se sensibilizou com aquele gesto simples, puro e amável de uma criança que parecia estar disposta a não humilhar o derrotado, mas sim de ser solidário a ele. Fico intrigado por tanta gente se comover com algo que seria tão natural que é o abraço entre pessoas. O gesto do menino não deveria causar espanto, pois o ideal seria que todos os seres humanos, de qualquer nacionalidade ou classe social, se tratassem com respeito e cordialidade. O portuguesinho teria dito ao rapaz francês: “Não fique assim, não chore, pois foi apenas um jogo”. Nas imagens, dá para ver a gentileza do nobre menino ao emitir poucas palavras ao perdedor, e também a gentileza e a nobreza do rapaz francês que acolhe o consolo do pequeno, retribuindo-o com um abraço afável e generoso entre adversários no futebol. Creio que anônimos amigáveis ou fraternos, todos, merecessem abraço, O menino português me fez lembrar o Menino Jesus de Alberto Caeiro, heterônimo do poeta português Fernando Pessoa. O sonho de um mundo melhor e infantil não é só poesia ou versos lusos. Gestos também transformam o mundo e os sentimentos vis. Abraçar o adversário ou o inimigo: quem o haverá?
Com tanta notícia ruim que nos deixa atônitos e impotentes, há que se filtrar aquela ou aquelas que precisamos descartar mesmo para não morrermos antes da hora (por infarto, depressão ou enlouquecimento, já que há muita coisa pesada para a gente administrar em termos de notícias). Todavia, há que se eleger fatos que nos agridem e que nos roubam a paz de espírito para podermos combatê-los. Não é possível que nos conformemos com corrupção na política e na sociedade, com assassinatos e mortes de inocentes, com intolerância racial, sexual, política ou religiosa. Há cinco anos, escrevi em meu blog (Ocinei Trindade escreve) um artigo o qual intitulei O mundo é gay, mas também é triste. Apesar de datado, constatei ao relê-lo, que o assunto é atual em potencial, e que em meia década, em vez de evolução, tivemos retrocesso sobre os temas homossexualidade e intolerância.
Faz poucos dias que as mídias sociais e a imprensa brasileira repercutem a cena de sexo (pioneira?) entre dois homens na televisão brasileira. Foi na novela Liberdade, Liberdade, da Rede Globo. Houve quem aplaudisse e se emocionasse, mas muitos torceram nariz, condenaram, xingaram e se enojaram dos atores Caio Blat e Ricardo Pereira, além da emissora e dos fãs que apoiaram a realização da cena homoafetiva na dramaturgia. Os comentários nas redes nos dão provas do que pensamos, sentimos ou somos. Fico matutando: se a vida imita a arte ou se a arte imita a vida, representação com cenas de beijo, amor e sexo até que ponto nos são úteis para refletir, mudar ou agir? Ou, quando o sexo e o amor encenados são descartáveis ou (in)dispensáveis para nossa excitação masturbatória ou admiração do belo? Nudez ainda é tabu. Sexo então nem se fala (apesar do sexo ser uma das práticas mais exercidas explícita ou veladamente, independentemente da cultura, raça, credo e de qualquer combate ou repressão que se queira fazer). A Nova Idade Média nunca esteve tão bárbara e evidente nas questões sexuais e religiosas em pleno século XXI. Se pudéssemos retroceder à Antiguidade Grega em termos de democracia, filosofia, sexualidade, cidadania e política, haveria uma barbárie nazista ou neonazista a bloquear o túnel do tempo dos ideais e das utopias. O paraíso edênico, apesar da paisagem, não tem sido aqui (com concordâncias e discordâncias disto ou daquilo, tanto faz). As opiniões são bilhões na Internet, com ou sem argumentação, com achismos ou teses de doutorado fundadas. Não ter uma opinião ou posição bem definida sobre qualquer tema também pode ser um risco social e discriminatório, já pensou nisto?
No último dia 2 de julho, o estudante Diego Vieira Machado foi encontrado morto no entorno do campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Há suspeitas do crime ter sido cometido por razões homofóbicas, pois existem relatos de perseguição ou ataques verbais e virtuais ao jovem universitário que era gay e negro. Extremistas de direita ou de esquerda têm ocupado os espaços destinados à educação e ao aperfeiçoamento do conhecimento e da ciência, mas a intolerância às diferenças vem promovendo cada vez mais rachas e ondas de ódio. Na Rússia de Vladimir Putin, onde homossexualidade pública é tratada como crime, o adolescente Sergei Casper, de 17 anos, foi morto em Moscou semana passada dentro da sala de aula. O jovem foi amarrado e asfixiado com saco plástico pelos colegas de classe e diante da professora que nada fez para impedir o ato que acabou em morte. Disseram que seria apenas uma brincadeira para servir de lição para que o estudante gay se tornasse um “homem de verdade”.
Nos Estados Unidos, protestos voltaram a ocorrer por conta da morte de Philando Castile semana passada, em Minesotta. Ele foi morto a tiros por policiais brancos (até quando?), o que gerou uma onda de indignação por lá. Vídeos comprovam que houve excesso e abuso por parte dos “homens brancos da lei”. Curioso isso ainda acontecer depois de discursos e mortes de líderes e ativistas como Martin Luther King e Malcom X, e após Barack Obama, primeiro presidente negro a governar o país por quase oito anos. Estas coisas seguem em práticas frequentes, ganham destaque na imprensa, mas em vez de cessar, parecem alimentar ainda mais a tensão entre brancos e negros. No país mais rico e desenvolvido do planeta, também há muitas misérias humanas. É de chorar.
Em agosto, o mês olímpico, saberemos se Dilma Rousseff será afastada definitivamente da Presidência do Brasil, e se o deputado Eduardo Cunha perderá também o seu mandato. No país do foro privilegiado, resta saber quantas fases virão da Operação Lava-Jato para combater a corrupção e o roubo de dinheiro público, quantos ainda serão denunciados e presos, e quantos farão acordos de delação premiada. Para Cunha, que esboça reagir com choro suas prováveis derrotas de práticas criminosas para a justiça (divina?), fica o seu próprio bordão de palanque demagógico “o povo merece respeeeeito”. Para Dilma, talvez, reste pessoalmente alguma lição moral ou popular com seu provável impedimento por meio de um provérbio português: “quem se mistura com porcos, farelo come”. Provavelmente, eles chorem. Não sei se com a mesma dor que nos tem causado lágrimas diante da crise econômica, ética e moral no Brasil.
Aos corruptos, assassinos, racistas e homofóbicos russos, americanos, brasileiros e de toda parte, quem sabe, um abraço de um menininho português pudesse tocar o coração e a alma da gente. O rumo da história humana poderia ser outro se houvesse mais compaixão e afeto por parte de quem ganha e de quem perde, por aqueles que divergem nas opiniões. Bom seria se a vida não fosse um jogo de sobreviventes apenas, mas que pelo menos, a paz com que tanta gente sonha coubesse em um abraço.
Casario no entorno da foz do Paraíba do Sul, no último sábado (16), em Atafona (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Eu e as torcidas juntas do Olympiakos e do Panathinaikos, principais clubes gregos de futebol, já escrevemos sobre a diferença básica entre as escolas de pensamento do ateniense Platão (428/348 a.C.) e seu discípulo de Estagira, Aristóteles (384/322 a.C.).
Muito marcada pela influência do seu mestre Sócrates (469/399 a.C.), na filosofia de Platão o principal era o mundo das ideias. Daí sua grande influência no Cristianismo, já na Antiguidade Tardia (300/ 476 d.C) e por toda a Idade Média (sécs. V a XV d.C.), a partir do neoplatonisno aproximado com a religião pelo teólogo e santo católico Agostinho de Hipona (354/430 d.C.).
Já a Aristóteles se deve a própria segmentação da filosofia grega em ciências particulares, a partir da enciclopedização do conhecimento produzido desde Tales de Mileto (623/543 a.C.), considerado primeiro filósofo. Filho de um médico, o pensamento de Aristóteles era mais voltado ao homem que à alma. Ainda assim, foi nele que outro santo católico e pensador da fé, Tomás de Aquino (1225/1274), buscou basear sua teologia cristã, tomando por exemplo o que Averróis (1126/1198), dentro da Europa, já havia feito no islamismo.
Dia considerado sagrado para muitos, o domingo, ontem, reservou uma boa surpresa para quem acha que política e fé devem jamais se misturar em conteúdo, tampouco em forma. Se o advogado e publicitário Gustavo Alejandro Oviedo, argentino caído em Campos, tem se revelado na circunscrição goitacá das redes sociais um defensor do liberalismo político e econômico, além de crítico contumaz dos regimes de esquerda na América do Sul, ele encontrou aqui, nos cometários das suas postagens, um respeitável (em todos os sentidos) adversário: George Gomes Coutinho, professor de Ciências Sociais da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos.
Naquilo de melhor que as redes sociais têm reeditado da ágora grega, berço da democracia que sempre destaco como “irrefreável” em sua expressão virtual, lendo atentamente cada um dos comentários de Gustavo e George, em dado momento fui involuntariamente teletransportado à ágora real de Atenas.
Afinal, quem falava era Alejandro, mas soava (aqui) a Aristóteles:
— eu justifico o existente, você justifica o que não existe.
E respondeu Coutinho, como se ecoasse (aqui) Platão:
— eu prefiro o não existente por uma questão moral.
A discussão não teve fim na Grécia Antiga, logo depois esticada pelo rei Alexandre da Macedônia (356/323 a. C.), aluno de Aristóteles, até o rio Indo, na Índa. E, mais de 23 séculos depois, convenhamos, seria uma pretensão amazônica se conhecesse sua foz conosco, nesta terra de planície parida e cortada pelo Paraíba do Sul.
Mas enquanto seguir seu curso no nível mantido por Gustavo, George e alguns outros participantes, num debate instigante que afluiu em dezenas de outros comentários, também pelo dia de hoje, ainda há esperança de que possamos atravessar essas águas agitadas sobre as quais navegam o Brasil e o mundo, desembarcando no porto do outro lado como naquele em que entramos: diferentes, mas juntos.
O artigo publicado (aqui) na postagem anterior, da lavra do jornalista Rodrigo Gonçalves, não carecia de companhia domingueira. Aborda com lucidez a sequência de erros do governo Rosinha Gartinho (PR) até os boatos de surto de meningite no município, gerados a partir da omissão de quem depois mostrou desespero (e despreparo) ao negar. Mas da planície ao Planalto, acabei de ler só agora o texto principal da coluna dominical do decano Elio Gaspari, em O Globo, e fiquei igualmente impressionado sobre as várias caras que essa questão da negação é capaz de assumir.
Já disse mais de uma vez que tenho o jornalista brasileiro nascido na Itália como o (ainda) maior na mídia escrita por tupiniquins viventes sob a última for do Lácio. Pela contudência sem maniqueísmo, memória impressionante, criação de personagens impagáveis, como “Eremildo, o Idiota”; pelo estilo quase literário, ainda que sempre objetivo; uma das coisas que Gaspari gosta de fazer é “psicografar” missivas de personalidades históricas falecidas para remetê-las aos ainda carnados que parecem demandar conselhos do além.
A carta “póstuma” publicada hoje é “assinada” pelo catalão Ramon Mercader (1913/78). Espião a soldo do genocida soviético Joseph Stálin (1878/1953), ele assassinou covardemente, pelas costas, com golpes de picador de gelo sobre o crânio, o ex-líder da Revolução Russa (1918) e criador do Exército Vermelho, Leon Trotsky (1879/1940), dentro da casa deste, em exílio na Cidade do México.
Mercader cumpriu 20 anos de cadeia sem contar o que todos sabiam (que Stálin lhe mandara executar seu opositor) e sua história pode ser melhor conhecida no bom livro “O homem que amava os cachorros”, do cubano Leonardo Pandura. Redivivo na coluna de hoje do Gaspari, o assassino de Trotsky “escreveu” para aconselhar ao ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, condenado a 15 anos de cadeia na Lava Jato, mas com tendência de aumentar a pena, a falar o que todos também já parecem saber, sobretudo os poucos que ainda insistem negar.
Se você ainda não leu, vale a pena investir alguns minutos desse início de noite de domingo para conferir abaixo:
Com seu busto no fundo, à esquerda, escritório da casa de Trotsky na Cidade do México, onde ele foi assassinado pelas costas, com golpes de picador de gelo contra seu crânio, pelas mãos de Ramon Mercader, em 1940 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Jornalista e escritor Elio Gaspari
De ramon.mercader@edu para j.vaccari@pol
Por Elio Gaspari
Companheiro Vaccari,
Você não é Ramon Mercader. Como eu, houve poucos no mundo. Matei o Leon Trotsky em 1940, passei 20 anos na cadeia e não contei o que todos sabiam: acabei com o velhote a mando do Stálin. Quando saí da prisão, você tinha dois anos e quando morri, em 1978, você tinha acabado de se filiar ao sindicato dos bancários de São Paulo. Eu era um velho de 65 anos e você, um garoto de 20. Não vou tomar seu tempo contando minha história porque se você não leu “O Homem que Amava Cachorros”, do cubano Leonardo Padura, peça-o a sua família. O final do livro não presta, mas de resto é coisa fina, sobretudo para quem está preso.
Vaccari, eu era do aparelho de segurança soviético, você era do braço do sindicalismo bancário petista, coisas inteiramente diversas. Daqui, já percebi que você, o José Dirceu e dois diretores da Petrobras (Duque e Zelada) estão em silêncio. No seu caso, a condenação está em 15 anos e deve aumentar. Se você tiver que pagar cinco anos em regime fechado, sairá da cela, em 2020, aos 62 anos. Admiro sua resistência e seu vigor ideológico, mas escrevo-lhe para dizer que são fúteis.
Na cadeia, eu sabia que tinha sido condecorado com a Ordem de Lênin. Ao sair, fui proclamado “Herói da União Soviética”. Vivi bem em Moscou e em Cuba. Você nunca será um “Herói do PT”. Sua família sofre com sua prisão, enquanto minha mãe estimulava meu silêncio.
Tudo o que o PT pode lhe oferecer são algumas visitas discretas de parlamentares. Não ouvi ninguém louvar publicamente seu silêncio.
Durante os 20 anos que ralei, eu sabia que no dia 1º de Maio a União Soviética desfilava seus foguetes na praça Vermelha. Graças a artes do PT (e suas), o presidente do Brasil chama-se Michel Temer e Dilma Rousseff vai morar em Porto Alegre.
Os empreiteiros que atendiam teus pedidos disseram coisas horríveis a teu respeito. Estão no conforto de suas tornozeleiras eletrônicas e posso supor que as solícitas OAS e Odebrecht colocarão mais cadeados nas tuas grades. Todos viverão com patrimônios superiores ao teu.
Eu morri com saudades de Barcelona, a cidade onde nasci, mas quando os comunistas espanhóis ofereceram-me ajuda para visitá-la, queriam que eu contasse minha história. Morri em Cuba sem rever a Catalunha e minhas cinzas foram para Moscou.
Valeu a pena? Não sei, mas garanto que no teu lugar, eu chamaria o Ministério Público para uma conversa exploratória.
Joyci e Ana Vitória, de 6 e 1 ano, mortas na UPA de Campos após serem atendidas e liberadas no HGG (foto: arquivo da família)
Jornalista Rodrigo Gonçalves, editor-geral da Folha
Por Rodrigo Gonçalves
Uma das práticas mais comuns nas administrações públicas é colocar cadeado após a porta arrombada. E a de Campos deu mais um exemplo disso ao responder tardiamente sobre os casos de meningite ocorridos no município. Só depois de o medo ter se espalhado é que a Prefeitura resolveu intensificar o trabalho de orientação para afastar o “boato” de um possível surto da doença. Para isso, tem contado com profissionais independentes, já que nem mesmo as declarações da própria prefeita Rosinha Garotinho (PR) surtem o efeito necessário.
O fato é que o município já tem confirmados sete óbitos pela doença, entre os 23 casos diagnosticados. Por mais que os números estejam dentro da média anual, conforme informa a secretaria de Saúde, a morte de duas irmãs que estavam vacinadas contra o tipo C, imunização disponível pelo SUS, colocou muito em dúvida a eficácia. Por mais que tecnicamente isso seja possível, para nenhum pai isso é intelegível facilmente, principalmente quando não se sabe ainda de fato que tipo de meningite matou as meninas.
O resultado disso foi uma busca por vacinas contra meningite de outros tipos nas clínicas particulares, além da elaboração de um abaixo-assinado feito por mães que buscam a imunização gratuita para os tipos de meningite A, B, C, W, e Y através da rede pública de Saúde. Bom ressaltar que a exigência não é feita só à Prefeitura, já que cabe ao ministério da Saúde a implantação de vacinas em caso de necessidade real.
Se as mortes já registradas e a preocupação da população não podem ser mais evitadas, a própria prefeita Rosinha, como mãe e avó, foi a primeira a se manifestar publicamente sobre o “boato de surto” de meningite. Talvez não tenha feito isso tão bem ao tentar politizar o assunto, misturando, inclusive, com o “boato da Polícia Federal na Prefeitura”. Ela perdeu uma boa oportunidade, que tem com a abrangência da sua rede social, de tranquilizar os pais, sem tirar o foco do que realmente interessava.
Agora, o grupo rosáceo, que nega o surto de meningite, informou que levou o caso para a polícia. Em programa de rádio na manhã deste sábado, o marido da prefeita informou que há interesse comercial por trás das informações sobre um suposto surto, que ganharam as ruas e redes sociais. Com cada vacina custando cerca de R$ 700,00, ele alega que foram vendidas mais de seis mil doses em 15 dias no município.
Charbell Kury, responsável técnico da Vigilância em Saúde, disse que muita gente está se aproveitando do pânico. “Essa é uma estratégia antiga. E tudo começou após o caso das meninas em maio (cuja mãe foi orientada por ele para não falar com a imprensa). São muitas fofocas e poucos fatos concretos. Eu desafio qualquer pessoa. Se há fundamento, entrego o cargo”, frisou, ressaltando que teve gente deixando de comer para comprar a vacina.
Mas até onde isso também não é fruto da falta de informação e também de descredibilidade deste governo? Tanto que agora para tentar minimizar à proporção que o assunto ganhou a Prefeitura recorre a especialistas independentes para tentar tranquilizar a população. Exemplo disso é que amanhã, às 11h, no Hospital Ferreira Machado, o secretário municipal de Saúde, Geraldo Venâncio, concederá entrevista coletiva sobre meningite, com a presença do médico infectologista Nélio Artiles, do neurocirurgião Mackoul Moussalem e outros especialistas.
A Prefeitura também está intensificando as publicações em seu site oficial desde a última sexta-feira com especialistas para contornar a situação. Numa delas, o depoimento do infectologista e professor Nélio Artles é o que mais chama a atenção: “Sou infectologista há 30 anos e uma das pessoas que atende casos de meningite na rede de urgência e emergência de Campos sou eu. Não tenho nenhum cargo político e não trabalho na secretaria municipal de Saúde. Sou um servidor público e afirmo categoricamente que não existe, neste momento, surto ou epidemia de meningite em Campos”.
Ao ressaltar a independência do profissional, a Prefeitura só confirma a falta de credibilidade de seus gestores, não por incompetência de quem está na pasta de Saúde, mas por quem os comanda e que por muitas vezes é visto como mentiroso.
Música: Camargo Guarnieri – Violin Concerto nº2, 2º Movimento
Escrito por
Fabio Bottrel
Rio de Janeiro/RJ
Maio de 2013
01 INT. ATELIÊ – TARDE 01
Mulher coberta parcialmente por um tecido leve posando para seu marido, que pinta a sua imagem.
No ateliê, belos quadros, livros e uma janela grande com vista para a cidade.
João (pintor) é acometido por uma forte dor de cabeça e sua
visão começa a escurecer. Vemos sua esposa vir acudi-lo.
ESPOSA
João! João!
02 INT. CORREDOR DO HOSPITAL – NOITE 02
João está deitado em uma maca em movimento. O ambiente é
confuso. Pessoas correndo em volta, Esposa continua
chamando seu nome.
03 INT. QUARTO DO HOSPITAL – DIA 03
João deitado com uma faixa nos olhos e estático, de repente faz um pequeno movimento e ESPOSA ao lado percebe.
ESPOSA
Enfermeira!
04 INT. CONSULTÓRIO MÉDICO – NOITE 04
João sentado em uma cadeira, médico tira a faixa de seus
olhos. Sua visão embaçada começa a voltar ao normal.
MÉDICO
Olá, João.
JOÃO
O que está acontecendo? Eu nãoconsigo enxergar direito.
Médico pinga gotas de um remédio nos seus olhos.
MÉDICO
Sua visão voltará ao normaldentro de instantes.
Médico pondera junto com Mulher as próximas frases.
MÉDICO (CONT)
Infelizmente as notícias que tenho para lhe dar não são boas, João.
JOÃO
Que notícias?
MÉDICO
Você sofreu uma degeneração macular aguda. É uma doença que tem propensão a atingir pessoas da sua idade.
Médico usa uma cópia palpável de um olho para explicar.
MÉDICO (CONT’D)
A degeneração macular é causada pelo dano na área ao redor dos vasos sanguíneos que abastecem a mácula.
JOÃO
Eu continuarei enxergando?
Médico mostra uma lauda do exame.
MÉDICO
O que aconteceu com você foi uma raridade. Apareceram também hemorragias e acúmulo de líquido devido ao surgimento de vasos sanguíneos anormais sob a retina…
JOÃO
(Corta)
Você não respondeu a minhapergunta.
MÉDICO
Você perderá a visão completamenteem breve.
JOÃO
Em breve quando?
MÉDICO
Três dias, no máximo.
Após um silêncio.
JOÃO
(À Mulher)
O quadro…
ESPOSA
Você não precisa…
JOÃO
Essa é a minha maior obra. Eupreciso terminá-lo.
MÉDICO
O importante é não deixar se abaterpela doença e…
JOÃO
(Corta)
Você não entendeu, doutor. Não meabati pelos meus olhos. Estes são apenas uminstrumento para a minha arte, a decepção de nunca concluir minha maior obra, essa destruiria a minha vida mais que qualquer doença conhecida.
05 INT. ATELIÊ – DIA 05
Mulher em pose. João de frente para ela, observando minúcias:
Os poros, o suor, a lágrima, os olhos, o bater do coração, o cabelo levantado suavemente pelo vento, as rugas, a murches dos lábios.
MULHER
João, você não vai conseguir pintarapenas com a lembrança.
JOÃO
Não é com a lembrança que eu ireipintar.
João continua a observar. Esposa abaixa a cabeça, parece desistir.
JOÃO (CONT)
Você quer continuar viva para mim?
MULHER
Sim.
JOÃO
Então não desista, essa é a última vez que olharei o seu sorriso, suas lágrimas,seu peito inflar ao respirar…
Esposa retorna à pose.
Os traços observados por João aos poucos vão se transformando em pinceladas. Dias e noites passam e João permanece de frente para sua esposa, observando-a. Até que a imagem se transforma completamente em pinceladas e tudo se apaga.
06 INT. ATELIÊ – NOITE 06
Cena em que percebemos João cego.
Sugestão para direção:
João, de costas para a câmera e de frente para a janela, como se observasse a cidade iluminada afora.
Vira-se e percebemos que está cego.
07 INT. ATELIÊ – NOITE 07
João de frente para o quadro. Tenta continuar a pintura.
Treme, sente insegurança. Mão de Mulher se põe sobre sua mão e tenta guiá-lo em alguns traços. Até que ele se exalta, derruba algumas coisas e tem uma crise misturada com melancolia.
08 EXT. TERRAÇO ATELIÊ – NOITE 08
João aparenta observar a cidade iluminada mesmo cego, como se estivesse em sua janela. (Direção) Logo após vemos que ele está na ponta de um precipício, apenas um passo o separa da queda. O vento bate forte em seu corpo.
09 INT. ATELIÊ – NOITE 09
Esposa entra no ateliê e não encontra João.
ESPOSA
João? João?!
Esposa sobe as escadas que termina no terraço e vê João de costas na ponta do precipício. Se põe ao seu lado e segura
sua mão. Os dois estão a um passo da queda.
João começa a sentir a mão de Esposa, vira-se para ela, seu
pé passa no vazio. Ela também se vira para ele, um de frente para o outro. João apalpa Esposa lentamente, como se
sentisse cada detalhe do seu corpo.
10 INT. ATELIÊ – NOITE 10
Esposa posando para João, mesmo cego. João pintando o quadro, para de pincelar, um sinal de término.
Esposa se levanta e vai olhar o quadro. Emociona-se.
Vemos o quadro, alguns borrões coloridos se juntam à imagem antiga que jazia na tela, tornando-se uma pintura abstrata.
Pudim e o presidente da Câmara Federal eleito na madrugada de onem (14), Rodrigo Maia (foto: divulgação)
Por Aluysio Abreu Barbosa
Eleito na madrugada de ontem como novo presidente da Câmara Federal, numa vitória significativa (aqui) do governo do presidente interino Michel Temer (PMDB) sobre seus opositores e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o deputado federal fluminense Rodrigo Maia teve uma agenda agitada depois de dormir um pouco. E entre os primeiros que recebeu, já como um dos homens fortes da República, foi (aqui) o deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB), que depois dali ainda estaria com Temer, numa reunião do presidente com representantes de assembléias legislativas de todo o Brasil.
Provocando inveja em quem chega a dedicar um blog à política estadual e nacional, mesmo com atuação política hoje encolhida à secretaria de governo de Campos, Pudim colocou o município administrado pela prefeita Rosinha Garotinho (PR) na mesa de discussão com Rodrigo Maia. Para o político campista, é necessária a união das legendas de oposição contra o grupo do qual ele mesmo fez parte e que governa a cidade desde 1989:
— Fui deputado federal com Rodrigo Maia de 2007 a 2010. Falei da importância de se ter um presidente da Câmara que é do Rio de Janeiro e como isso poderá produzir efeitos benéficos para o Estado, sobretudo nas negociações com Governo Federal. Neste sentido, Campos só teria a ganhar, se também estivesse integrada a esse alinhamento, no qual o PMDB e o DEM, pela força que representam, poderiam caminhar juntos na eleição de outubro.
Rodrigo, cujo DEM tem como pré-candidato a prefeito de Campos o edil Nildo Cardoso, ouviu Pudim, mas não se manifestou — nem contra, nem a favor. Mesmo tendo sido o vereador mais votado em Campos na última eleição municipal, Nildo tem enfrentado dificuldades para manter sua pré-candidatura à Prefeitura. Primeiro, teve que deixar o PMDB (aqui), após o próprio Pudim nele se integrar pela mão do próprio presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Jorge Picciani (PMDB), para ser pré-candidato à sucessão de Rosinha.
Sem espaço no PMDB, ele acabou migrando ao PSD. Quando o partido depois foi oferecido (e quase aceito aqui e aqui) ao deputado federal Paulo Feijó (PR), Nildo se refugiou no DEM, tirando o partido (aqui) do controle do empresário Helinho Nahim, pré-candidato. Após perder o DEM para Nildo, Helinho acabou encontrando abrigo (aqui) no PPS do vereador e pré-candidato a prefeito Rafael Diniz.
Depois de “vender seu peixe” na eleição municipal junto ao novo presidente da Câmara Federal, Pudim foi cumprir protocolo pela Alerj, representando-a como seu primeiro-secretário, junto ao presidente Temer. Na pauta de discussão, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 47, que visa ampliar o poder de legislação das assembleias estaduais em todo o Brasil.
Página 2 da edição de hoje (15) da Folha
Publicado hoje (15) na Folha da Manhã
Aqui, o jornal carioca O Dia noticiou hoje (15) a mesma coisa
Pudim e o presidente da Câmara Federal eleito na madrugada de hoje, Rodrigo Maia (foto: divulgação)
Eleito (aqui) na madrugada de hoje novo presidente da Câmara Federal, o deputado federal fluminense Rodrigo Maia (DEM) recebeu durante o dia um velho conhecido. Deputado estadual e pré-candidato a prefeito de Campos, Geraldo Pudim (PMDB) falou sobre vários coisas com o novo homem forte da República, inclusive da necessidade de união na eleição à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR) em Campos. Com o vereador Nildo Cardoso como pré-candidato a prefeito pelo seu DEM, Rodrigo só ouviu.
Depois, representando a Alerj como seu primeiro-secretário, Pudim também se reuniu com o presidente interino Michel Temer (PMDB), num encontro com representantes das assembleias legislativas de todo o país, para tratar da PEC-47.
Confira amanhã (15) a reportagem completa na edição impressa da Folha
Primeiro foi o Núcleo de Organização Social (NOS), depois as prévias, depois a desistência dos áulicos — como bem lhes definiu em entrevista à Folha, o saudoso ex-governador Leonel Brizola (1922/2004) —, depois o conselhão. Agora eis que surge uma pesquisa para dar “precisão” à definição do candidato governista à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR). Para quem gosta de bater palma para maluco dançar, esse roteiro de ópera bufa é um prato cheio. Já para quem não vê graça na insanidade alheia, como esta coluna tem adiantado (aquie aqui), são dois os nomes de fato: o vice-prefeito Dr. Chicão (PR) e o vereador Dr. Paulo Hirano (PR).
Chicão na pesquisa
Se o candidato fosse definido por pesquisa, ele seria (aqui) Chicão, desde a consulta do instituto Pro4, feita entre 8 e 10 de junho, com 620 eleitores das sete zonas eleitorais do município. Além de liderar (aqui) entre os pré-candidatos rosáceos na espontânea, o vice-prefeito foi o único, em cenário estimulado, a empatar na margem de erro com os três prefeitáveis de oposição que lideram a corrida: Caio Vianna (PDT) e os vereadores Tadeu Tô Contigo (PRB) e Rafael Diniz (PPS).
Rosinha nas pesquisas
Encomendada e divulgada homeopaticamente pela Folha, em suas edições dominicais de 12, 19 e 26 de junho, os números do Pro4 sobre a corrida à Prefeitura teriam sido muito semelhantes aos de uma pesquisa do instituto Precisão que, segundo fontes governistas, foi feita no mesmo período. Mas estes não foram divulgados tanto pelo dolo de não dar vantagem a Chicão, quanto por terem sido ainda mais catastróficos do que os do Pro4 (aqui), no que se refere à avaliação do governo Rosinha — fato depois referendado (aqui) pela pesquisa do instituto Pappel, feita entre 14 e 22 de junho, com 3.150 campistas das sete zonas eleitorais.
Dividir para reinar
Diante do impacto dos números favoráveis a Chicão, houve uma reação dos vereadores governistas. Estimulado por Edson Batista (PTB), presidente da Câmara e primeiro (aqui) a pular fora da disputa à Prefeitura, correu um documento (aqui) entre os edis rosáceos no sentido de pleitear que o candidato governista à sucessão de Rosinha fosse um vereador do PR. Se não há dúvida lógica de que o movimento foi feito (aqui) para beneficiar Hirano, pode existir alguma sobre quem deu a determinação a Edson? Ou de quem tem o prazer patológico de colocar seus seguidores uns contra os outros e depois posar de Salomão capaz de dividir a criança para reinar?
Mauro briga na vice
Há ainda o vereador Mauro Silva (PSDB). Mas ele só teria chance de encabeçar chapa se o governo lançasse duas candidaturas. Diante não só da liderança de Caio, Tô Contigo e Rafael, quanto dos 70,8% dos campistas que o Pro4 identificou dispostos a votar num candidato de oposição, “para que ele faça as mudanças que Campos precisa”, a vice na chapa única governista passou a ser a melhor aposta para Mauro. Neste sentido, suas fichas estão todas empilhadas no generoso tempo de propaganda do PSDB, imprescindível aos governistas, sobretudo numa campanha curta.
Caio “adoçou” João
Enquanto o governo não se decide entre Chicão ou Hirano, com ou sem Mauro na vice, os oposicionistas se movimentam. Bem perto de pegar (aqui, aquieaqui) o PT e seu tempo de propaganda ainda mais generoso que do PSDB, Caio também está a um passo de consumar a aliança com o PSB, tendo o vereador Gil Vianna na sua vice. E o que é ainda melhor ao filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PEN): sem perder o apoio do deputado estadual João Peixoto (PSDC). Após ensaiar (aqui) um “dá ou desço”, Peixoto revelou (aqui) ao jornalista Alexandre Bastos, em matéria na página 3 desta edição, que aceita ceder a vice de Caio a Gil e ainda assim caminhar com os dois na campanha.
Rafael e Rogério
Num encontro casual na ExpoAgro, foram vistos conversando Rafael e o ex-vereador e também pré-candidato a prefeito Rogério Matoso (PPL). Após um estranhamento em redes sociais, pelo qual se chegou a cogitar Matoso como candidatura de apoio aos rosáceos, o papo entre os dois fluiu muito bem, num momento em que Rafael parece ter perdido o vice, Gil, para Caio. À coluna, o ex-vereador reafirmou estar na briga pela Prefeitura, prometeu surpresas partidárias e deixou claro sua posição política nesta eleição: “Gosto muito de Chicão, Hirano e Mauro. Mas como pessoas. Politicamente, esse governo deles é indefensável”.