Carol Poesia — Ficou noiva sem saber por que

Anna Paquin e Holly Hunter no filme “O piano” (1993), dirigido por Jane Campion (foto: reprodução)
Anna Paquin e Holly Hunter no filme “O piano” (1993), dirigido por Jane Campion (foto: reprodução)

 

 

Viveu uma única paixão, durante a faculdade, avassaladora e curta. Acabou junto à universidade.

Voltou para a cidade natal. Gostou de quem gostou dela e noivou.

Ela não precisava se preocupar com muita coisa, o futuro já estava pronto, junto ao pacote “noivo”. Seria esposa, mãe e professora. Estava tudo certo. Tudo mais do que certo. Até que ela notou que estava certo demais. Os amigos, a família, a igreja, todo mundo apoiava o relacionamento. Na certa, fora um grande alívio tê-la visto renunciar as loucuras da vida universitária. Se duvidar, até Deus concordava.

Deus. O fantasma do qual ela nunca abrira mão. Levava no pensamento pra onde fosse e como fosse, até mesmo quando bêbada, ou em transe, ou plenamente lúcida. Ela também não podia queixar-se de abandono, foi, mais do que ninguém, protegida “pelo além” enquanto praticava as maiores sandices durantes os quatro anos. Era Deus. Por certo, ele tinha uma preferência por ela, e ela por ele.

Estava tudo perfeito. Não parecia real. E ficou dias a fio pensando na realidade.

Prova do vestido. Vertigem. Desmaio. Falou bobagens — disse que era de plástico, que não era Barbie, que era hipócrita, muito hipócrita, que queria ser cantora, que era Maysa, Edith Piaf, Elis Regina, que era lésbica. As amigas, mãe e lojista olharam-se enquanto a abanavam… Ficou um silêncio de repente… Ninguém entendeu nada, mas depois da palavra “lésbica” finalmente pararam de dizer “calma querida” e tudo ficou calmo. Ficou tudo tão calmo que deve ter passado um anjo na hora, foi quando ela recobrou os sentidos.

Na casa dos pais, deparou-se com o noivo. Ele era perfeito — amigo, compreensivo e cauteloso. Farta de tanta perfeição, tentou achar defeitos nele, fez insinuações, perguntas sobre o passado e sobre o futuro, foi irritante. Tentou colocar ciúmes. Bebeu demais.

No dia seguinte não se viram.

Só na semana seguinte, quando a semana do casamento:

— Agora você já sabe que não sou tão santinha assim.

— Por quê? Porque você bebeu demais?

— É.

— Boba! Por que você não me contou que bebia?

— Antes da faculdade eu não bebia. Quando voltei pra casa não queria mais beber.

— E tomou um porre?

— É…

— Boba…

— É…

— Então você tem muitos segredos?

— Alguns. E você tem?

— Alguns.

— Não vai me contar?

— Só depois do casamento.

— Ah é? Por quê?

— Porque se não você não casa.

(risos)

— É tão grave assim?

— Pior do que tomar um porre nas vésperas do casamento.

— Nossa! Que medo! O que seria pior que isso?

— Muita coisa. Você não gostaria de saber.

— Tipo o quê?

— Tipo… do que você tem medo?

— De ficar sozinha.

— É mesmo? Tão bonita como você… ficar sozinha como?

— Não ficar sozinha no sentido de sem ninguém comigo, mas me sentir sozinha.

— Hum… entendi.

— Você se sente sozinha comigo?

Pela primeira durante todo o namoro tiveram a chance para serem sinceros. Não foram.

— Não.

— Ufa! Que alívio.

— E você? O que sente quando está comigo?

— Me sinto compreendido.

— Como assim?

— Compreendido mesmo, no sentido de entendido.

— Por que você sente isso?

— Porque você me enxerga como eu gostaria de ser.

— Perfeito.

— Isso mesmo.

— Mas às vezes eu gostaria que você não fosse tão bom, para eu me sentir menos culpada.

Foram embora abraçados, como dois amigos que não se viam há muito tempo. Ela sentia uma paz impagável, uma paz que não conhecia e que nunca desejara.

Dias depois essa paz desapareceu, era o dia do casamento. Estava nervosa, ansiosa, querendo que tudo passasse bem depressa. Pensava no ex-namorado, aquela paixão da faculdade, nunca se imaginou cansando de verdade com ele, e de fato, estava a casar-se com outro. Pensava naquela relação da época estudantil — tão intensa, tão sem futuro, tão pólvora e coração. Repetia para si mesma “nunca daria certo”, “era paixão, não era amor”, “não tinha a tranqüilidade e a paz que tenho agora”, “iria acabar independente da faculdade”, “não tinha futuro”.

Tudo pronto. Faltavam três horas para o “grande momento”. Estava em casa, maquiada, penteada e vestida. Tentava se distrair com a televisão. Ouvir música. Estava sozinha, a família no salão de beleza e o pai no salão de festas conferindo a chegada das bebidas e dos garçons.

A espera a agoniava… Quando, de repente, ouviu seu nome na voz do noivo, que chamava do lado de fora. O que seria?

Em poucos minutos, ele confessaria que estava inseguro, confessaria que embora a admirasse muito não estava certo de que a faria feliz. Ele declararia que desistira do casamento. Mesmo vestida de noiva, não hesitou em abrir a porta. E antes que ele pudesse dizer uma palavra sequer, ela chorou copiosamente, ao vê-lo. Abraçaram-se, beijaram-se, sentiram-se. E em silêncio, despediram-se. Perceberam-se cúmplices, afinal.

Tudo cancelado. Foi uma confusão dos diabos. O povo da igreja especulou até não poder mais, as famílias dos noivos não podiam acreditar. Foram histórias e mais histórias inventadas e passadas de convidado a convidado: “Ela deve estar grávida de outro, voltou da faculdade com a cabeça revirada”, “Me parece que ele nunca foi santo, tem um passado muito misterioso”, Ninguém sabe de que igreja ele veio, desceu aqui de paraquedas”, “A família dele é de outra cidade”, “Aposto que foi ela quem desistiu, que vexame”, “Esses jovens de hoje não querem nada com a vida não, olha o dinheirão jogado fora, disseram que só o vestido dela custou quatro mil reais”. Em poucos minutos o casal que era perfeito se tornou suspeito de muitas infrações e pecados. Esse povo de igreja não perdoa…

Dias depois do casamento que não aconteceu, ela viajou para se ver livre do falatório provinciano. E por acaso ou destino, reencontrou seu ex (o da faculdade), sua grande e única paixão:

— Que bom que você veio! Fiquei sem saber o que fazer quando soube que você ia se casar…

— Quem te contou?

— O pessoal da faculdade, um falou pra outro que falou pro outro… Eu vi no face…

— Sei…

— Pensei em impedir…

— Por quê?

— Porque eu acho um absurdo a gente ter deixado tudo morrer junto com a faculdade.

— A faculdade era tudo.

— A gente devia ter ido morar junto, tentar alguma coisa pra continuar perto um do outro… Você não acha? O que você acha? Por que você não se casou?

— Você acha que era amor o que rolava entre a gente?

— Acho. Sempre achei. A gente nunca falou em casamento, mas… Eu pensava que isso ia acontecer com a gente. Eu imaginava isso com você.

— E por que você foi embora?

— Por que você foi embora também?

— Porque não sabia o que fazer depois que a gente se formou.

— Pois é, mas agora eu sei, sei por você e sei por mim.

Eles ficaram juntos por dias, longe de casa, longe da família, longe do trabalho. Até que tiveram que voltar, cada um pra sua casa. Mas voltaram cheios de planos, estratégias para driblar a distância… Transferência de cidade… Viam-se todos os finais de semana e a relação engrenou. Faziam planos, lista de padrinhos, imaginavam os filhos, davam-lhes nomes. A casa estava pronta, os convites também. A família estava contente. Acabou o falatório na igreja. Todo mundo os respeitava por se tratar de uma linda e impressionante história de amor. Afinal, os anos passaram mas o sentimento resistiu e agora iria render frutos. Tudo perfeito! Futura esposa, mãe e professora. Foi quando ela percebeu que estava tudo perfeito demais.

Começou a questionar a própria profissão, a cidade para a qual se mudaria em poucos meses, o que o noivo teria feito no período pós formatura, se encontrara alguma amiga dela, com quem namorou, se teve caso com alguém conhecido… Ela fez um inferno às vésperas do casamento. Mas o noivo, paciente, resistiu e conseguiu acalmá-la. Mantiveram a data.

Chegou o tão esperado dia. Não estava nervosa, mas também não estava feliz. Não se preocupava mais em ser feliz a todo custo… Estava quase na hora. Mas precisava falar com o noivo! Não podia fazer isso sem antes conversar com ele! Queria que ele explicasse porque estava se casando com ela, que ele a desse um motivo, que ele a convencesse:

— Alô?

— Bernardo!

— Miriam?

— É! Sou eu! Preci…

— Não estou te ouvindo direito, a ligação está cortando.

— Preciso que venha aqui em casa!

— Miriam! Como assim? Estou a caminho da igreja.

— Preciso, Bernardo! Preciso muito! É vida ou morte!

— Sua vida e minha morte né? Miriam, se acalma! A gente esperou por isso! Vai dar tudo certo! Temos certeza!

— Preciso que venha aqui! Preciso te ver, falar com você!

— Te espero na igreja.

— Bernardo, eu não vou. Eu não posso ir. Eu não sei o que eu quero da minha vida.

— Mas eu sei. Você quer casar comigo, desde a faculdade.

— Bernardo…

A ligação caiu, ou ele desligou. Não se sabe. O que se sabe é que os sinos tocaram e a noiva não estava lá. Simplesmente não foi. Um inferno pra lá e pra cá. Aquele inferno. Uma tristeza para todos.

Miriam desapareceu.

Bernardo, quando recuperado, refez-se e deixou a raiva pra lá. Sentiu pena de Miriam, julgou-a covarde.

Os parentes mais desocupados deram início a um novo ciclo de fofocas e hipóteses maliciosas.

Miriam, por sua vez, finalmente entendeu que procurar-se é solitário e pela primeira vez na vida se via cheia de coragem para fazê-lo. Foi achar-se.

 

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Arnaldo e Pudim juntos à sucessão de Rosinha?

Ex-companheiros na chapa vencedora da eleição municipal de 2000, Arnaldo e Pudim conversam no Rio (montagem: L. Gomes)
Ex-companheiros na chapa vencedora da eleição municipal de 2000, Arnaldo e Pudim conversam no Rio (montagem: L. Gomes)

 

 

Na vida pública recente de Campos, ficou célebre a frase do deputado federal Paulo Feijó (PR): “Na política, só falta boi voar”. Hoje (25), talvez tenha faltado pouco. Por mais de cinco horas, entre às 14h e 19h, se reuniram no Rio de Janeiro o deputado estadual Geraldo Pudim (PMDB) e o ex-prefeito Arnaldo Vianna (PEN). O primeiro é pré-candidato a prefeito de Campos, o que o segundo também diz ser, embora nem ele mesmo tenha certeza (aqui) se terá condições jurídicas de disputar o pleito.

Embora nada de concreto tenha sido acordado entre os dois líderes políticos, as eleições municipais de Campos em outubro, a formação de suas chapas e coligações dominaram a pauta do debate:

— Do lado do PMDB, acho que o encontro se desenvolveu com muito pragmatismo. Do ponto de vista pessoal, foi também muito bom, porque podemos retomar contato, após alguns anos de afastamento. E Arnaldo é uma pessoa muito querida, não só para mim, como para a grande maioria dos campistas. Seu apoio mudaria o tabuleiro não só em Campos, mas também na política do Estado. Há possibilidade de coligação, mas nada ficou acordado. Vamos conversar até o final — disse Pudim, cuja convenção do PMDB está marcada para dia 29, na próxima sexta, um dia antes da convenção do PEN, dia 30.

Arnaldo e Pudim foram eleitos, respectivamente, prefeito e vice em 2000. Mas o marido e secretário da prefeita atual, Rosinha Garotinho (PR), nos tempos em que ele tinha cacife para se candidatar à presidência da República, rachou com Arnaldo em 2002 e forçou Pudim a fazer o mesmo.

Depois, um pouco antes da eleição municipal de 2004, na qual foi pela primeira vez candidato a prefeito, Pudim chegou a assumir, por decisão judicial, a cadeira de Arnaldo por um dia. Mas saiu no seguinte, pela mesma via, gerando uma das manchetes mais populares dos 38 anos da Folha, com base no slogan de campanha de quem acabaria perdendo aquela eleição no segundo turno: “Chegou Pudim, saiu Pudim”.

Apesar de insistir na sua pré-candidatura duvidosa pelo PEN, Arnaldo tem o filho Caio Vianna (PDT) liderando (aqui) as pesquisas de intenção de voto pela sucessão de Rosinha. No último sábado, dia 23, enquanto a convenção do PDT lançou (aqui) Caio candidato a prefeito com o vereador Gil Vianna (PSB) de vice, Arnaldo postou um vídeo (aqui) para tratar da sua ausência no evento, quando chegou a falar de “estelionato eleitoral”. O ex-vereador Marcos Bacellar (PDT) usou o mesmo termo para atacar o ex-prefeito, enquanto Caio preferiu contemporizar.

 

Leia a cobertura completa amanhã (26) na edição impressa da Folha

 

Atualização às 11h05 de 26/07: Segundo o jornalista Alexandre Bastos informou aqui, a aliança entre Pudim e Arnaldo passaria pela indicação da nova esposa deste, Edilene Silva, que é filiada ao PEN, como vice na chapa à Prefeitura de Campos encabeçada pelo deputado estadual do PMDB.

 

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Artigo do domingo — Os gays, os negros, as lágrimas e o menino português

Ocinei 19-07-16

 

 

Por Ocinei Trindade(*)

 

“Qual homossexual mataremos hoje? E se, de quebra,  a gente espancar e assassinar um negro também? Gays podemos perseguir e matar no Brasil, na Rússia ou em qualquer cidade de qualquer país do mundo. Já os negros, pode ser nos Estados Unidos mesmo, para não fugir tanto da rotina. Mas, quem quiser matar e perseguir preto e pobre no Brasil ou fora, também está valendo”. Há quem chore por estas barbaridades. Há quem não se importe. Há também os que se comovem com a voz embargada do deputado federal Eduardo Cunha ao renunciar o mandato de presidente do Congresso Nacional, queixando-se de perseguição e falta de compaixão para com sua família. Há quem morra de pena de Dilma Rousseff e chore por seu afastamento do governo da nação por “um crime que não é crime e que ela não cometeu”. Há quem prefira que eles se lasquem e apodreçam na cadeia. Abraçar bandidos, criminosos, corruptos ou derrotados alguém consegue? Consolar os que choram em tempos duros e desumanos soa quase impossível. Quase. Amor ainda há em meio à tanta maldade.

O noticiário de todo lugar do mundo costuma destacar as tragédias, catástrofes, acidentes, violências todas, crises políticas e econômicas, desgraceiras em geral (como se a vida fosse boa e perfeita para quase toda gente do planeta). Quando o inusitado ou aquilo que foge da rotina comum acontece, ganha-se uma repercussão às vezes surpreendente. Com tanta informação que passamos a consumir depois do advento da Internet, tenho a impressão que filtrar horrores está ficando cada vez mais difícil, pois quase tudo parece horrendo e abominável. Por uma morbidez qualquer, nós nos apegamos mais ao que é negativo e infernal do que aquilo que é bom, bonito ou agradável. Entre o pavor e a calmaria, há os que prefiram exercer seu lado abutre-morcego-urubu. Estamos tão envolvidos com carnificinas, roubos e corrupções, que quando alguém toma a iniciativa de abraçar uma pessoa, isto parece algo até merecedor de uma nota no jornal: “Menino português consola torcedor da França que perdeu a Eurocopa”, foi a manchete de destaque de vários sites de notícias mundo afora. Houve quem achasse a notícia totalmente banal e dispensável, perda de tempo. Será mesmo?

Ao ler a notícia, fiquei procurando descobrir a identidade do menino, mas ainda não consegui até escrever este texto (12/07). O vídeo do garotinho de dez anos confortando o torcedor francês que chorava a derrota de sua seleção para a equipe de Portugal ganhou a rede mundial de computadores e se espalhou. Fiquei comovido não só pela cena, mas porque alguém que trabalha nas mídias se sensibilizou com aquele gesto simples, puro e amável de uma criança que parecia estar disposta a não humilhar o derrotado, mas sim de ser solidário a ele. Fico intrigado por tanta gente se comover com algo que seria tão natural que é o abraço entre pessoas. O gesto do menino não deveria causar espanto, pois o ideal seria que todos os seres humanos, de qualquer nacionalidade ou classe social,  se tratassem com respeito e cordialidade. O portuguesinho teria dito ao rapaz francês: “Não fique assim, não chore, pois foi apenas um jogo”. Nas imagens, dá para ver a gentileza do nobre menino ao emitir poucas palavras ao perdedor, e também a gentileza e a nobreza do rapaz francês que acolhe o consolo do pequeno, retribuindo-o com um abraço afável e generoso entre adversários no futebol. Creio que anônimos amigáveis ou fraternos, todos, merecessem abraço, O menino português me fez lembrar o Menino Jesus de Alberto Caeiro, heterônimo do poeta português Fernando Pessoa. O sonho de um mundo melhor e infantil não é só poesia ou versos lusos. Gestos também transformam o mundo e os sentimentos vis. Abraçar o adversário ou o inimigo: quem o haverá?

Com tanta notícia ruim que nos deixa atônitos e impotentes, há que se filtrar aquela ou aquelas que precisamos descartar mesmo para não morrermos antes da hora (por infarto, depressão ou enlouquecimento, já que há muita coisa pesada para a gente administrar em termos de notícias). Todavia, há que se eleger fatos que nos agridem e que nos roubam a paz de espírito para podermos combatê-los. Não é possível que nos conformemos com corrupção na política e na sociedade, com assassinatos e mortes de inocentes, com intolerância racial, sexual, política ou religiosa. Há cinco anos, escrevi em meu blog (Ocinei Trindade escreve) um artigo o qual intitulei O mundo é gay, mas também é tristeApesar de datado, constatei ao relê-lo, que o assunto é atual em potencial, e que em meia década, em vez de evolução, tivemos retrocesso sobre os temas homossexualidade intolerância.

Faz poucos dias que as mídias sociais e a imprensa brasileira repercutem a cena de sexo (pioneira?) entre dois homens na televisão brasileira. Foi na novela Liberdade, Liberdade, da Rede Globo. Houve quem aplaudisse e se emocionasse, mas muitos torceram nariz, condenaram, xingaram e se enojaram dos atores Caio Blat e Ricardo Pereira, além da emissora e dos fãs que apoiaram a realização da cena homoafetiva na dramaturgia. Os comentários nas redes nos dão provas do que pensamos, sentimos ou somos. Fico matutando: se a vida imita a arte ou se a arte imita a vida, representação com cenas de beijo, amor e sexo até que ponto nos são úteis para refletir, mudar ou agir? Ou, quando o sexo e o amor encenados são descartáveis ou (in)dispensáveis para nossa excitação masturbatória ou admiração do belo? Nudez ainda é tabu. Sexo então nem se fala (apesar do sexo ser uma das práticas mais exercidas explícita ou veladamente, independentemente da cultura, raça, credo e de qualquer combate ou repressão que se queira fazer).  A Nova Idade Média nunca esteve tão bárbara e evidente nas questões sexuais e religiosas em pleno século XXI. Se pudéssemos retroceder à Antiguidade Grega em termos de democracia, filosofia, sexualidade, cidadania e política, haveria uma barbárie nazista ou neonazista a bloquear o túnel do tempo dos ideais e das utopias. O paraíso edênico, apesar da paisagem, não tem sido aqui (com concordâncias e discordâncias disto ou daquilo, tanto faz). As opiniões são bilhões na Internet, com ou sem argumentação, com achismos ou teses de doutorado fundadas. Não ter uma opinião ou posição bem definida sobre qualquer tema também pode ser um risco social e discriminatório, já pensou nisto?

No último dia 2 de julho, o estudante Diego Vieira Machado foi encontrado morto  no entorno do campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Há suspeitas do crime ter sido cometido por razões homofóbicas, pois existem relatos de perseguição ou ataques verbais e virtuais ao jovem universitário que era gay e negro. Extremistas de direita ou de esquerda têm ocupado os espaços destinados à educação e ao aperfeiçoamento do conhecimento e da ciência, mas a intolerância às diferenças vem promovendo cada vez mais rachas e ondas de ódio. Na Rússia de Vladimir Putin, onde homossexualidade pública é tratada como crime, o adolescente Sergei Casper, de 17 anos, foi morto em Moscou semana passada dentro da sala de aula. O jovem  foi amarrado e asfixiado com saco plástico pelos colegas de classe e diante da professora que nada fez para impedir o ato que acabou em morte. Disseram que seria apenas uma brincadeira para servir de lição para que o estudante gay se tornasse um “homem de verdade”.

Nos Estados Unidos, protestos voltaram a ocorrer por conta da morte de Philando Castile semana passada, em Minesotta. Ele foi morto a tiros por policiais brancos (até quando?), o que gerou uma onda de indignação por lá. Vídeos comprovam que houve excesso e abuso por parte dos “homens brancos da lei”. Curioso isso ainda acontecer depois de discursos e mortes de líderes e ativistas como Martin Luther King e Malcom X, e após Barack Obama, primeiro presidente negro a governar o país por quase oito anos. Estas coisas seguem em práticas frequentes, ganham destaque na imprensa, mas em vez de cessar, parecem alimentar ainda mais a tensão entre brancos e negros. No país mais rico e desenvolvido do planeta, também há muitas misérias humanas. É de chorar.

Em agosto, o mês olímpico, saberemos se Dilma Rousseff será afastada definitivamente da Presidência do Brasil, e se o deputado Eduardo Cunha perderá também o seu mandato. No país do foro privilegiado, resta saber quantas fases virão da Operação Lava-Jato para combater a corrupção e o roubo de dinheiro público, quantos ainda serão denunciados e presos, e quantos farão acordos de delação premiada. Para Cunha, que esboça reagir com choro suas prováveis derrotas de práticas criminosas para a justiça (divina?), fica o seu próprio bordão de palanque demagógico “o povo merece respeeeeito”. Para Dilma, talvez, reste pessoalmente alguma lição moral ou popular com seu provável impedimento por meio de um provérbio português: “quem se mistura com porcos, farelo come”. Provavelmente, eles chorem. Não sei se com a mesma dor que nos tem causado lágrimas diante da crise econômica, ética e moral no Brasil.

Aos corruptos, assassinos, racistas e homofóbicos russos, americanos, brasileiros e de toda parte, quem sabe, um abraço de um menininho português pudesse tocar o coração e a alma da gente. O rumo da história humana poderia ser outro se houvesse mais compaixão e afeto por parte de quem ganha e de quem perde, por aqueles que divergem nas opiniões. Bom seria se a vida não fosse um jogo de sobreviventes apenas, mas que pelo menos, a paz com que tanta gente sonha coubesse em um abraço.

 

(*) Jornalista e poeta

 

Publicado aqui, neste “Opiniões”, e hoje (24), na Folha da Manhã

 

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Picciani convidou Bruno para concorrer a prefeito de SJB

Ponto final

 

 

Perfil de Bruno

Com todas as pesquisas indicando que o campista, como o brasileiro em geral, busca a renovação da sua representação política, há quem lamente o fato do deputado estadual Bruno Dauire (PR) não estar entre os pré-candidatos governistas à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR). Jovem, bem articulado e egresso de família tradicional na política, de fato, o perfil de Bruno lembra muito mais o dos oposicionistas Rafael Diniz (PPS) e Caio Vianna (PDT), do que dos governistas Dr. Chicão (PR) e Paulo Hirano — os dois que (aqui) disputam, com chance, a cabeça de chapa rosácea, cuja definição foi adiada (aqui) de hoje para a próxima quarta (27).

 

Convite de Picciani

Mas se no tabuleiro do marido e secretário de Governo de Rosinha, ainda é cedo para que Bruno seja encarado como peça para o jogo do Executivo, parece já ser a hora para um jogador mais poderoso: o presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Jorge Picciani. Há cerca de duas semanas, ele propôs a Bruno que viesse candidato a prefeito, não de Campos, mas de São João da Barra. Concorreria pelo PR, mas depois da eleição, independente do resultado, migraria ao PMDB — a exemplo do que fez (aqui) o também deputado estadual Geraldo Pudim, pré-candidato peemedebista a prefeito de Campos.

 

Evasivo

Questionada por e-mail, a assessoria de Jorge Picciani se calou. Bruno se elegeu deputado estadual contra a vontade do secretário de Governo de Rosinha, que apoiou Pudim e depois foi desprezado por este em favor de Picciani. O jovem Dauaire chegou à Alerj graças aos esforços de Wladimir Garotinho (PR), impedido pelo próprio pai de concorrer à vaga. Mas como Wladimir pode precisar dela em 2018, o convite de Picciani significaria alternativa. Indagado pela coluna, Bruno foi evasivo. Sem confirmar ou negar o convite, se limitou a dizer: “Converso bastante com o presidente sobre a Alerj, o Estado do Rio e a política da nossa região”.

 

Só dois dias à frente

Líder na mídia de Campos, em versão impressa e depois, virtual, desde que estreou em ambas — na primeira, há mais de 38 anos —, talvez não exista onde essa dianteira da Folha da Manhã seja mais isolada do que na cobertura da sempre agitada vida política de Campos e da região. De fato, em noticiário e opinião, a equipe da nossa editoria de política sobra de tal forma em relação ao mais que há nesta terra de planície, que até a manchete de concorrente passamos, não sem algum constrangimento, a ditar — nem que seja só… dois dias depois.

 

Publicado hoje (23) na Folha da Manhã

 

 

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Fabio Bottrel — A Extinção da Juventude

 

Sugestão para escutar enquanto lê: ArvoPärt – SpiegelImSpiegel e Für Alina.

 

 

 

 

Descartes - glândula pineal
Descartes – glândula pineal

 

 

— Corre, Luís!

Gritou Júnior para seu amigo enquanto brincavam na Praça do Liceu. Num sol escaldante, o peito ofegante, Luís corria e se imaginava um atleta de futebol, afastando as pernas como se driblasse as pedrinhas brancas sobre a terra. Com a bola na mão, olhou para trás e viu o pequeno cachorro de Júnior correr com os olhos vidrados em seu brinquedo enquanto a baba caia sobre o chão, Luís pegava impulso para jogar bem alto o brinquedo a seu amigo e ver o cachorro correr novamente abanando o rabinho em busca da bola. Era costume a praça ficar deserta no domingo à tarde, bela, solitária, ficava só para os dois e o cachorro para ser preenchida com suas passadas batentes.

Quando Júnior jogou a bola bem alto devolvendo a Luís, percebeu apenas o som oco do objeto caindo no chão. Ao lado, Luís colocara a mão nas pernas, abaixara a cabeça, suava feito um porco e apesar de ter estranhado o próprio corpo não foi tempo suficiente para analisar o que estava acontecendo de tão esquisito enquanto sentia as batidas do coração no ouvido, tutumtutumtutum… logo o silêncio tomou seu corpo e o derrubou de costas no chão, com os olhos apáticos para o horizonte, a bochecha sobre as pedras… estava morto.

Há dois quarteirões dali um adolescente de 16 anos caiu enquanto caminhava pela calçada.Também morto.

Crianças e adolescentes até 16 anos começaram a morrer em toda a cidade de Campos dos Goytacazes, aproximadamente 50 mil pessoas faleceram no mesmo dia, sem mais nem menos.

Antes de correr por socorro, ainda tentando reanimar seu amigo, Júnior escutou gritos por todos os lados, correria, desespero, eram as mães, pais e avós dos que também acabaram de morrer. Todas as ambulâncias foram para a rua, o caos se instalou, sirenes de todos os sons, fardas de todas as cores, gritos de todos os timbres, em pouco tempo os hospitais sucumbiram às filas hiperbólicas com os corpos sobre os colos dos que gritavam com a força da morte, com as lágrimas à sorte, forte. As mães deram o último beijo nos corpos frios dos filhos, os pais abraçaram a pele sem poesia, em pouco tempo Campos dos Goytacazes tornou-se uma pilha de crianças mortas.

Os jornais locais logo noticiaram incrédulos com o olhar vazio de quem não entende o mal que lhe assola, com a voz embargada, o que aconteceu à essa terra goitacá matar todas as crianças que pisam em seu solo mafuá? O plantão da emissora em rede nacional entrou no ar, não era a terra goitacá, era terra brasileira que resolveu se vingar e retirar os filhos de seus predadores. Muitas crianças e todos os adolescentes próximos aos 16 anos caíram nesse dia, sem mesmo saber, o ar poluído a respirar era o último suspiro. Logo a notícia correu o mundo e se encontrou com outras, não resolvera se vingar somente a terra brasileira, em todo o mundo as manchetes noticiaram: nossos adolescentes foram extintos.

 

***

 

Em pouco tempo foi constatado, as crianças estavam morrendo de doenças típicas de idosos e os cientistas se assustaram, não conseguiam entender o porquê dessa disfunção do organismo tão abrupta a ponto de envelhecer os órgãos tão rápidos quando o corpo ainda é jovem. O mundo inteiro estava empenhado em descobrir tal fato. As igrejas tentaram explicar, mas os que atribuíam o fato a Deus começaram a questionar, haviam seguido fielmente os rituaisàs missas, os cultos ou recitais; comido as hóstias, tomado os chás, entregado seus cartões a pastores-deputados ou comprado os sabonetes abençoados. E mesmo assim Deus lhe tomou os filhos, essa não pode ser uma boa divindade, no mínimo foi mimada demais.

Desencantados com Deus as igrejas foram perdendo cada vez mais fieis enquanto as crianças ainda vivas estavam morrendo na faixa dos 16 anos, nenhuma completara 17 até então, geralmente chegavam aos 15 tão debilitadas como idosos de bengalas com cataratas e artrites, o corpo já se despedindo ao chegar. Com missas e cultos vazios, as igrejas e templos celestiais na Terra sem os dízimos e indultos foram os primeiros a falir. Tentaram criar novas interpretações de testamentos e explicações para as mortes em massa, mas não teve jeito, a humanidade havia desiludido com esse sujeito, lá no além nem mesmo se preocupara em vir dar uma satisfação.

As grandes construções de ouro, de pratas e de sangue-cruzadas começaram a ruir com o eco do silêncio de padres, pastores, ministros e bispos passados. Logo tiveram que se empenhar em outras atividades, com dificuldades, pois não eram mais bem-quistos, com as crianças morrendo dia após dia, pensaram se Deus não era o Diabo disfarçado.Desse fato a humanidade concluiu, havia uma Deusa na infância, chamaram de Crisânda, na Terra estava bravo com as crianças e assim explicaram a extinção dos adolescentes, Crisânda não dava o luxo da adolescência a quem não tinha a decência.

Júnior havia se tornado uma criança anciã, aos fins dos 16 anos era raro, o máximo a que chegavam. Sua casa ficava perto da praça e o frio soprava pela janela, assobiava pela fresta, que parecia a morte cantando nos seus ouvidos tão crus de vida. Estava deitado, com o edredom bem grosso sobre o corpo cheio de órgãos debilitados que o faziam sentir tanto frio parecendo o pelo ser gelo. Com o olhar estático para o teto, Júnior esperava a sua hora e sussurrava caso a Morte fosse uma senhora:

— Moça, por favor, que não seja tão dolorosa, não tive nem tempo de ser bom ou ruim e meu corpo já não cabe mais em mim, já que alguém me quer fora daqui, que eu vá num simples fechar de olhos.

O quarto estava um pouco escuro e Júnior pensou ter escutado alguma coisa, quando seu pai abriu a porta lhe trazendo chocolate quente e permitindo mais alguns feixes de luz se porem ao lado de sua cama, viu o menino conversando com o vazio e estranhou.

— Com quem está falando, filho?

— Papai, acho que estou conversando com alguém do além.

Com o ar correndo pela boca estática, descendo a garganta até chegar aos pulmões vibrantes com o acelerar das batidas do coração, a xícara de chocolate caiu das mãos e o pai correu como corre o vislumbre. Haviam se convertido para a religião Crisândica e uma profecia rondava de que Crisânda viria à Terra para falar com a criança anciã e se apresentar à humanidade. Júnior era a criança mais velha da cidade, tinha pouco tempo de vida, pois nenhuma chegaria aos 17 anos, como de costume.

Mesmo na cama, em pouco tempo Júniorfoi levado a um enorme templo cópia do Parthenon onde seria erguida a primeira igreja Crisândica. Mesmo com toda a discussão sobre o local, pois antes havia sido usado por pessoas que não mereciam a letra da primeira palavra a ser proferida naquele templo, não poderia um lugar sagrado ser construído onde pisaram pés dos piores bandidos. Mesmo assim, fora decidido, benzeram todo o local para afastar os vestígios dessa gente que aliena, logo depois toda a parafernália e equipe estavam no local para prolongar a vida do adolescente até o último dia dos seus 16 anos. Uma enorme gama de escritores se pôs ao seu lado com folhas de papel sagrado de um livro a ser feito pelas mãos de crianças anciãs. Escutaram a vida de Júnior e transcreveram, mas não tinham tempo, logo queriam escutar de Crisânda suas diretrizes, mas Júnior não sabia, pensou ter escutado algo, mas não entendia. Os escritores faziam perguntas, mas Júnior não sabia, pensou ter escutado algo, mas não entendia. E os escritores escreviam por si próprio as respostas das próprias perguntas. Os líderes do templo crisândico faziam perguntas, mas Júnior não sabia, pensou ter escutado algo, mas não entendia. E os líderes responderam a si próprio as próprias perguntas enquanto os escritores escreviam as respostas dos líderes. Os fiéis pediram a benção de Crisânda a seus filhos, mas Júnior não sabia, pensou ter escutado algo, mas não entendia. E os seguidores abençoaram aos próprios filhos dizendo tê-los curados no dia seguinte enquanto os escritores escreviam os milagres crisândicos.

No dorso de Júnior dormiam as dores do tempo, injusto, ainda não era tempo. Quando o tom da sua cor foi dor, o roxo dos seus lábios contornando o falecido bege apático, evaporou-se o calor, em seu peito havia um livro sagrado escrito pela voz de Crisânda, seria o novo testamento a ser seguido por todos. Milhares de fiéis no entorno do gigantesco templo acompanharam o último suspiro da criança anciã trazedora da voz além-vida. Seu corpo sacralizado fora carregado pelas mãos mais límpidas no meio do templo onde havia um buraco com uma tumba de ouro, onde ficaria seu corpo a ser enterrado em meio aos cânticos transcendentais ecoando pela enorme construção.

Com o livro oficializam a religião e Crisânda passa a ser a Deusa com mais adeptos entre as divindades atuais. Orações e rituais foram criados, mas nenhuma criança viveu para completar os 17 anos.

 

***

 

Em pouco tempo os negócios funerários se tornaram os mais lucrativos do mundo, viam suas receitas crescerem exponencialmente e um lugar no cemitério era negociado a preços absurdos. Devido a assustadora demanda podiam cobrar preços altos que não correspondiam ao serviço prestado, explorando cada vez mais as famílias das crianças mortas. Com a escassez de espaço em cemitérios e os preços intragáveis, que só poucas famílias poderiam pagar por um enterro decente, foi rapidamente criado uma medida paliativa permitindo enterrarem seus entes queridos em local próprio além da cremação ter substituído a principal forma de embalsamento. Logo o mercado estava lotado de novas funerárias para aproveitarem a onda de morte das crianças e gente muito pobre em pouco tempo tornou-se rica, percebendo que a dor do outro era diretamente proporcional ao seu lucro, quanto maior a dor e remorso, maior a necessidade de recompensar o falecido com caixões caros e apetrechos extravagantes, tentando diluir na morte a mediocridade que fora na vida.

Ao longo do tempo cientistas do mundo inteiro trabalharam em conjunto, unindo conhecimentos e estruturas necessárias em prol de um bem comum, conseguiram identificar uma relação do organismo com forças cósmicas lunares. Com um movimento abrupto feito pela lua, deslocando-se da sua órbita natural, desequilibrou a força eletromagnética na Terra a ponto de reativar a glândula pineal no corpo humano em indivíduos de até 16 anos, quando ela ainda não envelheceu tempo suficiente para ser inócua. René Descartes afirmou há quase 400 anos a alma se encontrar com o corpo através da glândula pineal, calcificada no corpo humano quando na infância, mas ainda tida como a antena de um mundo transcendental para os médiuns, cujo o alcance é proporcional aos cristais de apatita nela contidos. Fora comprovado que a reativação abrupta dessa glândula num corpo milenarmente desacostumado com essa tarefa causou um desequilíbrio corporal ao nível celular, resultando numa intensa má-formação mitocondrial acelerando todas as atividades do corpo fadando este à falência em pouco tempo, não mais que 16 anos, quando a glândula já não responderia mais devido à sua estrutura danificada pelo próprio corpo como invólucro despreparado.

Mesmo com a descoberta dos cientistas os religiosos continuaram a crença em Crisânda, sem relevar a pesquisa e comprovação por parte da ciência. Mudaram suas orações, agora pediam para Crisânda consertar a má-formação no corpo das crianças. O mundo estava se tornando velho, os jovens de outrora se tornaram idosos e as crianças morriam quando adolescentes, não havia mais jovens. Na sociedade, um gigante abismo crescia cada vez mais na lacuna onde antes era a juventude.

Os hábitos estavam em mudança, não havia mais infância, amadureciam rápido enquanto se preocupavam com a sobrevivência e tinham de fazer das suas vidas algo que valesse a pena em pouco tempo de existência, ainda cedo já desenvolviam o sentimento de não quererem ser esquecidas após a morte. Logo as crianças passaram a se comportar como adultos, imitavam-nos como uma forma de sobrevivência da própria sociedade mirim. Passaram a substituir bem cedo os pais em suas profissões, pois à medida que foram morrendo não havia mais adultos para as tarefas cotidianas. Ver um adulto se tornou uma raridade, a maior parte da sociedade era composta de crianças que morreriam na adolescência deixando uma prole com igual curta passagem pela Terra. Os ofícios eram passados de pais para filhos e raramente o filho faria outra coisa devido ao curto tempo de vida para aprender uma profissão além da que o pai já detinha e podia ensinar. Portanto o filho do dono da mercearia continuaria a gerenciar a mercearia e assim por diante. Logo todos os estabelecimentos e instituições ficaram sob a tutela das crianças, substituindo o conhecimento passado pelos seus pais e assim por diante. O exército, os bancos, o comércio, escolas, tudo fora reconfigurado e assumido pelas crianças. Não havia mais faculdade devido ao tempo insuficiente para continuar com o arcaico sistema educacional de seus ancestrais. Como também não daria para completar nem mesmo a escola, todo o sistema fora redimensionado e repensado pelas crianças anciãs, que ainda detinham um pouco do conhecimento dos ancestrais e percebera como era um grande erro, tão desgastante e sofrido, muitas vezes com professores estúpidos a serem tomados como exemplos, tornando esse processo ainda mais desprezível. As disciplinas foram remanejadas de acordo com as necessidades maiores da sociedade numa perspectiva a longo prazo, livremente escolhidas por aqueles que tivessem mais afinidade e canalizada para uma determinada necessidade da cidade, como por exemplo a construção de um prédio ou a cura de uma nova doença que não estava nos documentos e livros deixados pelos ancestrais adultos.

As meninas engravidavam com no máximo 14 anos, à essa idade já estavam muito velhas. Como tinham pouco tempo de vida, era raro conseguir criar o filho, geralmente quem criava era um amigo mais novo do casal.

Foi noticiado na tevê quando o último adulto faleceu. Várias câmeras o acompanharam até o último suspiro. Todo o mundo parou para assistir, dentro de um bar as crianças se espantaram como era tão diferente delas, nunca haviam visto um adulto na vida, muito menos um idoso, somente esse pela tevê ou outros em filmes e gravações da humanidade na Era Adulta. Aparentavam tão maiores que eles, a pele era diferente, enrugada e um pouco quadriculada quando a câmera aproximava, também era possível ver alguns pigmentos como pintas que as crianças desconheciam. Laplagne tinha 102 anos e era chileno de raízes indígenas, quando seus olhos se fecharam marcaram o início de uma nova era na humanidade, não havia mais adultos, o mundo estava povoado de crianças.

 

***

 

A vida não é mais efêmera quando se sabe que a morte espera logo à frente, não teriam muito tempo para sorrir se as tristes coisas mundanas lhes perpetuassem os dias num sentimento ingrato. Como o encantamento da criança que descobre as coisas da vida, assim eram os dias, o convívio, a sociedade em busca de sentimentos intensos, algo a valer a breve existência. O próprio estudo sobre ética, moral dentre outros assuntos era dividido por grupos familiares. Como não havia tempo para se inteirar de todos os assuntos, o pai ou mãe estudiosa de um determinado filósofo da Era Adulta, deixava para seu filho o conhecimento e assim a prole em diante continuaria se especializando nesse mesmo filósofo a fim de continuar a pesquisa de seus ancestrais, montando o quebra-cabeça de várias cabeças. Rousseau foi considerado o filósofo mais importante da Era Adulta e a filosofia passou a ser dividida após a sua existência: pré-rousseaus e pós-rousseaus. Em suas colocações sobre as instituições educativas corromperem o homem e tirarem-lhe a liberdade, e sobre o pensamento deque para a criação de um novo homem e de uma nova sociedade seria preciso educar a criança de acordo com a natureza, desenvolvendo progressivamente seus sentidos e a razão com vistas à liberdade e à capacidade de julgar foi tão importante por algo que ele nem poderia imaginar, como nenhum adulto poderia pensar em um mundo só de crianças, mas suas teorias foram de fundamental importância para elas enxergarem a perspectiva da espécie humana e as transformações pelas quais estavam passando.

As crianças pós Era Adulta tinham de aprender a sobreviver rápido e sem a mãe, pois quando atingiam a fase do discernimento de mundo à sua volta, a mãe já havia falecido. As circunstâncias oriundas desse fato criaram uma alteração genética ao longo do tempo, o ser-humano já nascia com algumas funções pré-programadas para sua própria sobrevivência, como os animais, e ao longo da vida perderam a angústia da escolha sobre determinadas ações necessárias para sobreviver, pois se tornaram irracionais, agindo por instinto puramente, tal como respirar. Rousseau foi importante para determinar o que viria a se tornar a espécie humana diante dessas alterações por destrinchare analisar os detalhes calcificados nos animais ao nascer próprios à sobrevivência, eles já nasciam sabendo e o ser-humano estava se animalizando, coisa impensável até então. Na Era Adulta, ao acabar de nascer um bebê, caso ficasse longe da mãe ou da sociedade, era provável que em menos de duas horas estivesse morto. Mas ele teria tempo suficiente para aprender tudo sobre sua sobrevivência bem como as idiossincrasias da sociedade para uma melhor adaptação, coisa inexistente no mundo contemporâneo: o tempo.

Criaram novas maneiras de medir a vida, até os 6 anos de idade era a infância, dos 7 aos 13 anos, fase mais produtiva da criança, correspondia à fase adulta, com suas atribuições sociais mais rígidas; e dos 14 aos 16 anos equivalia ao idoso, onde já debilitados, o que lhes restavam era o repouso. Como essas mudanças são inerentes às atividades sociais ou coletivas, é de se imaginar o tamanho da mudança na sociedade. Logo no final da Era Adulta as crianças tiveram posse dos armamentos pesados dos adultos, assumiram os batalhões de exércitos e polícias, que logo depois seriam descartados pela falta de utilidade. No início houve um grande medo do caos se instaurar no mundo devido aos sentimentos explosivos ainda presente na genética daquelas crianças que conviviam com os adultos e agora estavam em posse das armas. Mas quando houve a primeira morte em Campos dos Goytacazes oriunda de um tiro dado numa briga, o atirador ficou tão assustado não só com o barulho da arma, mas por ter matado a outra criança, que nunca mais houve tiro, além de outras crianças aparecerem de imediato para punir o atirador. Reuniram todas as armas encontradas e esconderam num enorme galpão afastado da cidade, trancadas de todos os modos, e três famílias ficaram responsáveis por cuidar que elas nunca chegassem às mãos de nenhuma criança. Somente essas três famílias sabiam onde encontrá-las e o segredo foi passando de prole em prole.

Ainda não tinham desenvolvido todo o ódio acumulado dos adultos e o mundo passou a ser um lugar mais tranquilo com algumas raras exceções de crianças influenciadas por alguns exemplos deixados pelos ancestrais da Era Adulta. Como a vida era breve, logo faleciam, e o mundo povoado por crianças criadas por outras crianças exauria cada vez mais os sentimentos e exemplos ruins, já injustificáveis no mundo contemporâneo de acordo com a busca pela igualdade social e a negação do sistema dos adultos que necessitava de uma sociedade desestruturada para haver aqueles a se sujeitarem a ser explorado, conflito fonte de todos os sentimentos negativos. No mundo contemporâneo esses sentimentos não faziam nem mesmo sentido. Essa mudança do sistema econômico se deu aos poucos, as crianças não conseguiam deixar umas às outras em dificuldade, muito menos na rua, sem nada. Não era justo enquanto algumas dormiam em casas confortáveis, incomodava àquelas que tinham consciência dessa injustiça. Em pouco tempo não havia mais moradores de rua. Com a tendência a compartilhar, o sistema deixou de ser capitalista, e ficou perceptível que explorar o próximo era um sentimento adulto, inculcado nas cabeça das crianças da Era Adulta.

Quando Rafael nasceu, 300 anos após o último adulto – desse modo ficou a contagem da história, se fosse contar após Jesus, seria 2.316. Rafael almejava ser um desses homens que morrem e o mundo começa uma nova história após sua morte, mas as chances eram muito pequenas, a vida era cada vez mais curta, e todos passavam os anos corridos, afobados, almejando dar um pouco de sentido a sua existência. Não havia tempo para se especializar em algo a ponto de ser um grande destaque a mudar o mundo.

11 anos depois do seu nascimento, Rafael viu o mundo parar, todos os jornais noticiavam, tevês, impressos e digitais, um rapaz na Argentina havia vivido além dos 16 anos e completara 17 anos com a saúde impecável. Nas matérias da imprensa, uma fagulha de esperança de que a vida não fosse tão pequena voltou a acender.

 

***

 

Quando o rapaz chegou à juventude com uma saúde aparentando durar muito tempo todo o mundo o acompanhava, queriam saber o segredo da vida duradoura. O Jovem acostumou-se às regalias que lhe eram atribuídas, mas não era tão diferente dos outros de vida breve, pois o mundo estava socialmente equilibrado e estruturado agora, as empresas tornaram-se cooperativas onde cada trabalhador recebia o que lhe era devido, a renda era distribuída, acabou a mais-valia e ninguém era obrigado a viver uma vida inócua e sem sentido, a existência era breve, mas em sua maior parte, feliz. Mas se o único jovem do mundo carecido de pensamento crítico, ficará na Terra talvez o tempo de quase 8 vidas dos que morriam cedo, quisesse ter uma vida com mais benefícios o sistema não poderia ser tão estruturado assim. Observando o fanatismo ao seu entorno por uma vida longa, resolveu tirar proveito disso. Criatividade não faltou para usar dos esperançosos como seus servos e multiplicar seu patrimônio para viver como o único rei do mundo: começou a vender sabonetes os quais dizia ter usado para o banho e o óleo de sua pele ali impregnado era uma possibilidade de vida longa àqueles que se esfregarem com ele. Vendeu até mesmo a saliva, de tudo fazia. Fundou uma religião, Longa Hermito, em pouco tempo se proliferou pelo mundo com todos os seus indultos e esperanças falsas da sapiência de como a vida seria, até mesmo após a morte. Dizia falar com Crisânda pessoalmente e afirmava, a Longa Hermito é a igreja mais perto dela, as crianças que não a seguissem iriam para um lugar pior que o inferno. Os fieis deviam se confessar com os ministros da Longa Hermito, que mantinham um contato mais estreito com Crisânda e imbuídos da força da absolvição perante o sacrifício dos confessados – ao doarem-se para trabalhos pesados ou financeiramente – o curavam dos males do mundo.

Em pouco tempo a religião do mau-caráter era a mais seguida e as vantagens que ele tirava daqueles ao seu entorno não se limitaram a financeiras, mas também sexuais. E algumas crianças anciãs almejam ter um filho do jovem de vida longa, almejando perpetuar sua prole, mas de nada adiantou, todos os filhos de Hermito morreram cedo, sem nem mesmo saber quem era o pai.

Rafael chegou aos meados dos 16 anos com uma saúde impecável e todos abismaram, saúde de adolescente, de gente que não pensava em envelhecer. Enquanto haviam os fanáticos por saúde se esperançando numa salada com linhaça na prolongação dos dias, Rafael não tinha hábitos saudáveis, na verdade, péssimos hábitos, a ponto de comer bacon com refrigerante no café da manhã. Concluíram perenemente não haver tempo para o corpo se deteriorar com hábitos que não sejam saudáveis, e aqueles se martirizando em dietas estavam deixando de aproveitar o pouco tempo a que lhes eram predispostos na Terra. Deduziram que a resposta para esse feito só poderia ser divina ou uma força ainda desconhecida, tão poderosa a ponto de mexer em suas genéticas num piscar de olhos.

Em exatos 5 anos após o primeiro homem se tornar adulto, Rafael completou 17 anos. A notícia correu toda cidade de Campos dos Goytacazes em questão de minutos. Em pouco tempo a casa onde morava o adolescente se inundou de crianças querendo vê-lo, outras crianças-repórteres, jornalistas, curiosas, carros engarrafaram as ruas, que mais aparentava filme da Era Adulta em Hollywood com toda a cidade na rua correndo em meio ao caos no trânsito para ver de tão perto o segundo jovem do mundo a completar 17 anos. Diante do burburinho que se negava a se desfazer em frente à sua casa, Rafael não pôde sair por alguns dias, mas quando a rua se tornou um pouco menos amontoada, não hesitou em dar entrevistas e falar em público sobre sua condição. Realmente não sabia o que tinha acontecido e falava abertamente o desconhecimento sobre a causa. Doou-se para a ciência, esteve solícito a todos os exames e experiências possíveis, que não lhe causassem dor ou risco de vida. Os próprios cientistas de vida breve tinham receio de colocá-lo a vida em risco, não por uma boa-ação, mas porque era o único exemplar da espécie que se permitia doar à ciência. Crianças-cientistas do mundo inteiro foram para Campos dos Goytacazes, como a vida era curta, os que começaram as pesquisas deixavam tudo delineados para a próxima prole assumi-la desde então, famílias-cientistas foram designadas especialmente ao estudo de Rafael.

O jovem goitacá cresceu e Hermito, já na fase adulta, sentia-se cada vez mais incomodado, pois não era de sua igreja, o que desmereceu muito a sua religião e fez perder credibilidade e fieis também; não comprava os seus produtos, o que fez desmerecer seus negócios além da religião; a vida de Rafael estava fadando ao fracasso as falcatruas de Hermito, havia convidado Rafael a se juntar ao negócio, mas este não aceitou.

Nessa mesma cidade no interior do estado do Rio de Janeiro, uma menina chamada Laís tinha 11 anos quando Rafael completou 17. Ela mal sabia que 5 anos depois também completaria 17 anos e o mundo começou a ficar confuso novamente, percebendo um padrão de 5 em 5 anos para que um ser-humano passasse à juventude. Estudando o corpo de Laís, cientistas perceberam um padrão intrigante junto aos astrofísicos especializados no movimento lunar como influência biológica. Num período de 5 anos a lua se movimentava numa órbita desconhecida de modo que as crianças com determinado número de cristais de apatita na glândula pineal à estrutura exata no dia, hora e minuto do movimento lunar, tinham o processo revertido em suas glândulas, permitindo a passagem do tempo em suas vidas.

Com o estudo sobre Laís e Rafael, a humanidade estava se inteirando à perspectiva de a Terra voltar à Era Adulta, tal como era antes, talvez com toda a ganância e sentimentos negativos acumulados pelos adultos ao longo da vida e estragavam o mundo em que viviam. Hermito se enfurecia a cada nova descoberta, dizendo a verdade residir em sua religião para não perder os fiéis. Marcou uma viagem ao Brasil, era a primeira vez que sairia da Argentina, dizendo ser de suma importância para alertar os brasileiros da vida longa a se encontrar em Crisânda, que fala através de si na sua religião. Hospedou-se no Rio de Janeiro, e uma tropa de crianças armadas e de fardas pretas o acompanhou, coisa que só fazia sentido para ele mesmo, pois não havia tempo para acumular tanto ódio nas crianças e ninguém o faria mal. À essa altura, Rafael e Laís haviam passado tanto tempo juntos e curiosos sobre seus corpos com uma afinidade tão intensa, que aparentava alguém os ter feitos um para o outro. O casamento era coisa corriqueira nesse mundo, não havia tempo para se perder com tantos enfeites, a demonstração da união estava dentro dos entes queridos, com amor e carinho e um momento a sós, não existia mais festa para os outros, a festa era deles mesmos e só para eles, sem a necessidade de fingir ser quem não é.

Hermito vai a Campos dos Goytacazes monta um palco gigantesco na Praça São Salvador onde destilará todo o medo do além e do presente, apenas um disfarce para o que viera fazer de verdade, se encontrar com Laís e Rafael. Os dois recusaram o primeiro encontro, mas duramente ameaçados, se veem sem saída, a não ser enfrentar o monstro de frente, espera-se, verbalmente.

— Não podemos deixar que mais adolescentes cheguem à fase adulta. – Disse Hermito, com as pernas cruzadas numa poltrona confortável dentro de uma sala fechada e vazia. Em frente a ele, numa outra poltrona, Rafael e Laís escutam apavorados a proposta de Hermito de matar todos os adolescentes do mundo que ultrapassarem os 17 anos afim de serem os únicos adultos e governarem o mundo.

— Jamais aceitaríamos isso. Além de ser impossível, os cientistas já comprovaram que em pouco tempo o número de crianças a atingir a fase adulta será muito maior a cada movimento da lua. – Disse Laís.

Hermito já tinha pensado em tudo, manteria um exército em cada local do mundo com acesso a um banco de dados prontamente a fiscalizar a idade de cada indivíduo. Rafael e Laís sabiam que talvez não sairiam com vida daquela sala caso não aceitassem as condições do adulto.

Ao perceber a resistência dos dois jovens e a personificação neles da falência de seus planos, Hermito tira do lado de sua calça um revolver de ouro, brilhando como um espelho e aponta no meio da testa de Rafael, seus dedos escorregam para o gatilho, põe uma leve pressão para puxá-lo quando…

 

***

 

Escutou gritos de uma multidão afora a sala, Hermito guarda a arma, o barulho estrondoso do disparo causaria espanto e dúvidas na multidão afora. Gritavam o nome de Rafael e Laís, eram os protegidos da cidade, queriam saber o que se passava dentro daquela sala. Os dois conseguem sair escoltados pela multidão e um olhar ranzinza de Hermito os acompanhara até sair de vista. Não demorou muito para que arrumasse uma maneira discreta de ir atrás dos dois novamente, mas percebendo que era impossível chegar até eles devido ao exército de crianças que os rondavam não hesitou em usar a força, mostraria a sua cara ao mundo, mas mataria aqueles dois e seria o único adulto.

Hermito persuadiu a todos que esse seria o grande momento da Terra, o apocalipse havia chegado e tropas e mais tropas armadas de seus seguidores atravessaram a Argentina rumo a Campos dos Goytacazes. Percebendo a notícia correr, as três famílias responsáveis pelos armamentos escondidos noticiaram a população d’onde estavam as armas e apetrechos para se equiparem. As táticas de guerra não foram esquecidas, haviam famílias responsáveis por continuar essa pesquisa para caso algo improvável como esse ato acontecesse. A sociedade de crianças campistas não estava despreparada, e outras regiões se juntaram à cidade, estudaram a estratégia, se colocaram à postos e defenderam os seus ombro a ombro. Houve guerra, sangue e muitas mortes. No meio da batalha Hermito foi morto quando descobriram seu paradeiro e os seguidores sobreviventes já não vendo mais sentido em guerrear voltaram para o seu lugar.

Enquanto a sociedade se recupera da guerra, o intervalo de nascença entre um e outro que atingirá a fase adulta se torna cada vez mais curto e como previram os cientistas, o número de nascenças concomitantes aumenta.

60 anos depois em Campos dos Goytacazes, Rafael e Laís se tornam os primeiros idosos pós Era Adulta, e o mundo já estava povoado com adultos, mas dessa vez com uma sociedade muito mais justa e sentimentos muito mais nobres aprendidos com as crianças.

 

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PT de Campos nega um pedido rosáceo, mas pode atender ao outro

Ponto final

 

 

PT rosáceo: chance zero?

“A chance do PT de Campos caminhar junto com o candidato a prefeito do governo Rosinha Garotinho (PR) é zero”. Foi o que afirmaram categoricamente à coluna tanto o presidente do diretório municipal petista, André Oliveira, quanto Hélio Anomal, pré-candidato do partido à sucessão de Rosinha. Assim reagiu em Campos o partido do ex-presidente Lula, ontem denunciado (aqui) pelo Ministério Público Federal (MPF) de Brasília, além da tentativa de obstrução da Lava Jato, por organização criminosa, exploração de prestígio e patrocínio infiel.

 

A revelação

A reação dos petistas locais foi à revelação feita (aqui) ontem (21) nesta coluna, do encontro no dia anterior (20), em Brasília, entre o marido e secretário de Governo de Rosinha e o presidente nacional do PT, Rui Falcão. Nele, o secretário pediu apoio ao candidato rosáceo a prefeito, ainda como “paga” pela ausência que impôs (aquiaqui) à filha, deputada federal Clarissa Garotinho (PR), grávida, na votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Mas ouviu de Falcão que a “dívida” foi “quitada” (aqui) no empréstimo de R$ 367 milhões da Caixa, na terceira “venda do futuro” do município, presente de despedida do governo Dilma, em seu último dia, para Campos pagar até 2026.

 

Sem supresa

O encontro com o presidente nacional do PT, não foi surpresa para o presidente da legenda em Campos. Na verdade, André revelou que o político da Lapa o havia procurado pessoalmente há dois meses. Respondido que não havia possibilidade do PT de Campos caminhar com o governo Rosinha, seu secretário, conhecido pelo estilo arrogante e fanfarrão, avisou que iria tentar a aliança por cima. “E é direito dele conversar com quem quiser”, ressalvou, por sua vez, Anomal.

 

Alvos são Rafael e Caio

Se não conseguir o apoio do PT, que o diretório de Campos afirma ser impossível, o secretário pediu a Falcão que, pelo menos, o partido lance a candidatura própria de Anomal, para não ceder o generoso tempo de propaganda petista (aqui) a pré-candidatos de oposição com chance. Na verdade, a reunião de terça foi a segunda do secretário com o PT nacional para tratar da eleição de Campos. Na anterior, seu objetivo foi minar a possibilidade de apoio (aqui) ao vereador Rafael Diniz (PPS). Já nessa última, foi impedir a aliança que vinha sendo costurada (aqui e aqui) com o PDT, dos poucos aliados que restou ao PT, para apoiar Caio Vianna.

 

Outras conversas

Tanto Rafael, quanto Caio e o também pré-candidato Rogério Matoso (PPL) foram sabatinados pela executiva municipal do PT, que recusou fazê-lo com qualquer rosáceo, ou mesmo um ex, como o deputado estadual Geraldo Pudim, que trabalha para se candidatar a prefeito pelo PMDB. Do Rio, Caio ontem se mostrou tranquilo em relação ao movimento do político da Lapa: “Se ele está conversando com o PT nacional, eu estou fazendo a mesma coisa, assim como com o estadual e o municipal”.

 

E o outro pedido, companheiro?

André é peremptório em relação à impossibilidade de aliança do seu PT com o governo Rosinha: “Fomos oposição a eles por oito anos, sobretudo na Câmara, com os vereadores Renato Barbosa, Odisséia Carvalho e Marcão. Não vamos aderir agora que ele, finalmente, está acabando”. No entanto, ao ressaltar a resolução nacional petista para que o partido lance candidaturas próprias a prefeito nas cidades com mais de 100 mil habitantes, André pode estar, mesmo sem dolo, negando o primeiro pedido do secretário de Rosinha para atender ao segundo. Ainda assim, ele cobra de Anomal as alianças que garantam a eleição de pelo menos um vereador.

 

O formal e o moral

Dono de respeitável tempo de propaganda eleitoral, que o torna tão cobiçado, a despeito da sua grande rejeição, como o PT seria recebido por outra legenda, sua arqui-rival, que já está na aliança rosácea, é cotada para indicar o candidato a vice (vereador Mauro Silva) e é desejada pelos mesmos motivos: tempo de TV? Para Robson Colla, presidente do PSDB em Campos, não haveria problema. Pelo menos não formal: “Temos uma resolução nacional que nos impede de apoiar qualquer chapa encabeçada pelo PT. Mas não diz nada contra integrarmos uma mesma aliança. O problema não é formal, mas moral. Andar com o PT é inaceitável”.

 

Publicado hoje (22) na Folha da Manhã

 

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Por que Tô Contigo tá fora da sucessão de Rosinha Garotinho

Ponto final

 

 

Tô Contigo tá fora

Quem também estava bem nas pesquisas de intenção de voto para prefeito (aqui) era o vereador Tadeu Tô Contigo. Pela mesma pesquisa Pro4, ele estava em segundo lugar, atrás apenas de Caio, nos dois cenários estimulados: 13,4%, com Chicão na corrida; e 14%, com Hirano. Ainda assim, ele ontem (20) postou (aqui) um vídeo nas redes sociais, no qual disse que desistia da pré-candidatura a prefeito para se concentrar na reeleição a vereador.

 

Versão e verdade

Segundo informou (aqui) o blog “Na curva do rio”, da jornalista Suzy Monteiro, primeiro a dar a notícia, Tadeu disse que tomava a decisão acatando a orientação do partido para ajudar a candidatura de outros candidatos em outros municípios. Talvez só não tenha dito que cedia à pressão feita na executiva estadual do PRB pelo marido e secretário de Governo da prefeita Rosinha Garotinho (PR), porque não podia. Afinal foi o mesmo secretário e marido da prefeita que já tinha imposto (aqui e aqui) sua espaçosa presença no programa de Tadeu, negociada pelos interesses comerciais da TV Record com a Prefeitura.

 

Segura para quem?

Pelo perfil popular que alcançou mais como apresentador de TV, que como político, Tadeu seria o candidato de oposição que mais votos tiraria de qualquer candidato de uma máquina municipal movida a DAS, RPAs, Cheque Cidadão, Campos Cidadão e distribuição de cestas básicas. Mas na verdade o PRB, fora da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), nunca teve estrutura em Campos. Após a desistência (aqui) do PSC do vereador Genásio em apoiá-lo a prefeito, Tadeu teve suas duas opções adiantadas (aqui) por esta coluna: ser vice na chapa de Rafael ou tentar se reeleger vereador. Sua opção foi a mais segura — para ele e o governo Rosinha.

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

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Paula Vigneron — Azul turquesa

Pôr do sol de Campos, em 12/07/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Pôr do sol de Campos, em 12/07/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

 

Dez horas da manhã. O relógio apitou duas vezes antes de Estela abrir os olhos. Na juventude, era chamada de Estelinha pelos amigos e parentes. Hoje, poucos usavam o apelido que tanto lhe era caro há anos. A prova de que o tempo passou. Os cabelos esbranquiçados e as rugas de expressão contrastavam com a jovialidade presente no olhar. “Tens a curiosidade em ti, menina”, dizia o avô quando ela era criança. Costumava observar todos os passos, casos e vidas que se desenrolavam ao seu redor.

Novamente, o despertador se dedicava a acordar Estela. Desativou-o. Sempre fazia o mesmo gesto quando o terceiro apito soava, quinze minutos depois da hora programada. Levantou-se. Estava sol. Caminhou até a janela, que oferecia a chance de olhar o jardim antes de sair de casa. Estava bonito. Verde, limpo e bem cuidado. Josias havia preparado-o com carinho no dia anterior. As poucas nuvens combinavam com a nobreza da área externa.

Naquela área, Estela viveu parte da infância e adolescência. Voltou à casa de seus pais somente depois da morte do casal. Era a herança que os dois deixaram para a filha única. Todas as paredes guardavam histórias da menina, que lhes confidenciara amores e maturidade. Elas, silenciosas, escutavam os detalhes narrados sob lágrimas. Outros, entre risos. Sentia-se sozinha. Os pais trabalhavam fora e pouco tempo tinham para dedicar a ela. A mãe, quando podia, ouvia a menina, mas os compromissos levaram-na a se afastar mais de Estela durante a adolescência. E ela tinha necessidade de compartilhar suas vivências.

Seus retratos se mesclavam à tinta encardida da construção. Os recantos da casa escondiam seus segredos, agora desimportantes. Ninguém quer saber. Nem ela. Todas as primeiras vezes registradas: o beijo no quarto, durante os estudos. A transa na casa ao lado, com o vizinho por quem se apaixonara perdidamente. O amor adolescente que parecia ter se desfeito tão rápido quanto surgiu. “Um chato”, contou a uma amiga. Ela concordou. Em pouco tempo, os dois namoravam. O relacionamento magoou Estela, que percebeu a não simplicidade do amor.

“Por que as pessoas nos enganam, mãe?”, perguntou, em um dia de sol como aquele que se apresentava agora. As duas conversaram no jardim, sentada em uma canga sobre a grama, enquanto faziam um piquenique. Era período de férias de Marta, que aproveitava os dias com filha de 15 anos.

“Porque as pessoas nunca vão agir como você espera, minha criança. Nem você agirá de acordo com o que elas querem. E, assim, a vida se torna uma sucessão de erros e decepções.”

A certeza com que a frase fora pronunciada fez com que as palavras nunca saíssem da cabeça de Estela. Mais de 40 anos se passaram, e aquela tarde continuava pintada na paisagem da janela. O sol inundava o quarto quando a mulher se afastou e seguiu em direção ao guarda-roupa. Ele também era parte de seu passado. Ela vestia uma camisola branca. Abriu a porta e pegou o roupão da mesma cor. Dentro do armário, junto aos perfumes, duas fotografias: uma registrava a formatura simbólica da quarta série; a outra mostrava a adolescente sorrindo entre os pais, em seu aniversário de 15 anos. “Tudo parece ter acontecido nessa idade”, pensou. As principais histórias de sua vida. Depois, tudo seguiu o inacreditável marasmo a que estava adaptada: casa, trabalho, afazeres diários e direitos adquiridos.

O único momento diferente ao que estava acostumada aconteceu quando se apaixonou por Orlando. Era alguns anos mais velho do que ela. A amizade se transformou em interesse dos dois lados. Primeiro, o envolvimento sexual. Depois, os sentimentos vieram à tona. Namoraram e se casaram. Do matrimônio, restaram apenas os conflitos.

“Maldita seja a hora em que te conheci”, gritou o então marido, alternando gritos e mãos na arrumação das malas.

“Maldita seja a hora em que aceitei essa merda de casamento.”

“Maldita seja a hora em que subi àquele altar e concordei com o desperdício dos meus melhores anos.”

Orlando segurou a mala em uma mão e abriu a porta com a outra, proferindo palavras misturadas ao rancor. Nunca mais o viu. Soube, poucos dias depois, que ele retornou para a cidade de origem. Estela não chorou. Nem na despedida e nem ao saber da partida. Nesses anos, não se emocionara com o que a vida mostrava a ela. Era considerada fria pelos poucos com quem convivia. Mas, no íntimo, sabia que sentia de forma diferente. Sem sofrimento e ressentimento. Só saudade. Cada canto de sua alma era um resquício das ausências. E a mulher se sentia grata por todas as experiências.

Desistiu do roupão e da camisola. Trocou-os por um vestido azul turquesa que se estendia até a coxa. “Sim. Estou bonita”, e sorriu. A roupa se assemelhava a uma que ganhara em seu décimo quinto aniversário. A diferença estava no comprimento. Usou-o em diversas ocasiões até que ficasse desbotado. Desde então, manteve-o guardado em uma caixa na parte superior do guarda-roupa. Ele era parte de sua história, de seu contato com o passado. Não poderia jogá-lo fora.

Olhou-se novamente no espelho. Os cabelos estavam bagunçados; o rosto; envelhecido; o sorriso, amarelado. Ao lado de Estela, posicionou-se uma jovem. Usava o vestido azul turquesa. Ambas, mulher e menina, sorriam. Os gestos ensaiados. Encararam-se. Deram-se as mãos e rodopiaram no centro do quarto, sobre o tapete marfim. Dançavam. Os passos levavam-nas da esquerda para a direita. Seguiam o ritmo da canção que ecoava entre quatro paredes. Da direita para a esquerda.

Mulher e menina. Olhos nos olhos. Os traços jovens e velhos em perfeita harmonia. Os vestidos balançavam juntos. Rodopiaram outras vezes até pararem. Estela caminhou para frente do espelho. Era menina. Era adolescente. Era mulher. Um misto de todas as Estelas. Da menina curiosa. Da adolescente inexperiente. Da mulher vivida. Das lágrimas vertidas. Do riso frouxo. Contida em certos momentos. Em outros, alvoroço pela casa agora silenciosa.

“E como está a sua vida?”, perguntou a moça.

“Está tranquila. Sempre aqui, sempre à espera.”

“Sei. Conheço seus passos e caminhos. Do passado ao futuro, ando por eles.”

“Sim, querida. Por essas trilhas, já caminhei.”

Abraçaram-se. Estela abriu novamente o armário. Despiu-se. Escolheu o roupão branco. Vestiu-o e retornou à cama. À menina, sorriu em despedida. Mas ela continuaria pelos cantos, no quarto, com seu vestido azul turquesa a clarear os dias.

 

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Da Lapa a Brasília para tirar o tempo do PT de Caio ou Rafael

Ponto final

 

 

Secretário de Rosinha com Rui Falcão

Na terça (19), o marido e secretário de Governo na prefeita Rosinha Garotinho (PR) se reuniu em Brasília com o presidente nacional do PT. Na mesa, o político da Lapa jogou o fato (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) de ter obrigado sua filha, a deputada federal Clarissa Garotinho (PR), mesmo grávida, a se ausentar na votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, cujo afastamento já tinha recebido (aqui) apoio público da parlamentar. E cobrou: quer o PT na coligação Frente Popular Progressista para eleger o candidato da situação a prefeito de Campos. Ironicamente, se aceitar, o PT será o 13º partido da aliança rosácea.

 

Caio, Rafael e propaganda

Falcão argumentou que a “paga” já havia sido dada. Mais precisamente com o empréstimo (aqui) de R$ 367 milhões concedido Caixa Econômica Federal no último dia de governo de Dilma — responsável, além de quebrar o Brasil, por empenhar as receitas de Campos até 2026. O secretário de Rosinha insistiu. Se não puder caminhar com o PR, reivindicou que o PT pelo menos confirme a pré-candidatura própria de Hélio Anomal a prefeito, impedindo (aqui e aqui) um pré-candidato de oposição com chances, como Caio Vianna (PDT) ou Rafael Diniz (PPS), de ficar com o generoso tempo de propaganda petista.

 

Impopular fiel da balança

Caio e Rafael estão (aqui) à frente nas intenções de voto de todos os candidatos governistas — incluindo os dois que disputam de verdade: o vice-prefeito Dr. Chicão Oliveira (PR) e vereador Paulo Hirano (PR). Na última pesquisa feito pelo instituto Pro4, se o candidato for Chicão, ele teria 8,4%, contra os 15,2% de Caio e os 11,3% de Rafael. Se for Hirano, ele teria 1,1%, contra 15,5% de Caio e 11,8% de Rafael. Numa campanha curta de 35 dias, entre 27 de agosto e 30 de setembro, o minuto de propangada eleitoral de TV à tarde e noite, mais oito spots de 30 segundos diários, transformam o impopular PT em fiel da balança — como esta coluna adiantou (aqui) desde o último dia 2.

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

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Arnaldo reafirma candidatura a prefeito e diz contar com apoio de Caio

Arnaldo e Caio Vianna, na inauguração da sede do PDT em maio, quando o ex-prefeito sinalizou apoio ao filho, desmentido dois dias depois (foto: divulgação)
Arnaldo e Caio Vianna, na inauguração da sede do PDT em maio, quando o ex-prefeito sinalizou apoio ao filho, desmentido dois dias depois (foto: divulgação)

 

 

“Vou disputar a eleição para prefeito. Mas é muito pouco provável que haja uma disputa de pai para filho. Tenho certeza que, quando chegar a hora, Caio (Vianna) vai se engajar na minha campanha. Seria até melhor para ele, no sentido de adquirir experiência, do que já querer começar se lançando a prefeito”.  Foi o que disse agora há pouco ao blog o ex-prefeito Arnaldo França Vianna (PEN), que confirmou o lançamento da sua candidatura a prefeito, na convenção marcada para o próximo dia 30, às 10 da manhã, na sede do Sindicato dos Comerciários.

Questionado sobre suas condições de elegibilidade, que  perseguem desde a eleição para deputado federal em 2006, Arnaldo disse que hoje teria “90% dos problemas jurídicos resolvidos”. Quantos aos outros 10%, na sua conta, ele resolverá até a convenção. Cao contrário, garantiu: “Não concorro mais sub judice. É muito desgastante”.

Como o jornalista Alexandre Bastos registrou aqui, no dia 12 de maio, durante a inaugração da nova sede do PDT, seu ex-partido pelo qual Caio é hoje pré-candidato a prefeito, Arnaldo chegou a sinalizar que apoiaria o filho:

— O nosso país vive um momento dramático. Em nossa cidade não é diferente. Os que prometeram a mudança quebraram o município. Por isso, é hora de apostar nos jovens com capacidade para enfrentar grandes desafios. Troquei o PDT pelo PEN, mas deixou o melhor de mim no partido que carrego em meu coração.

No entanto, dois dias seguintes, Arnaldo e diretório municipal do PEN (relembre aqui) desmentiram a desistência do primeiro, reafirmando sua pré-candidatura a prefeito.

 

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Em quem você votaria?

Platão e Rafael, Caio e Aristóteles (montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Platão e Rafael, Caio e Aristóteles (montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Anteontem (18), escrevi aqui sobre os gregos Platão (428/348 a.C.) e Aristóteles (384/322 a.C.), sobre as diferenças básicas entre as escolas de pensamentos dos dois filósofos. O primeiro priorizava o mundo moral das ideias. O segundo, dava mais importância ao mundo físico dos homens. A metáfora se fez em cima de um debate, aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, entre o advogado Gustavo Alejandro Oviedo e o professor da UFF George Gomes Coutinho, mais alguns outros.

Um pouco antes disso, tomado como ponto de partida Tales de Mileto (623/543 a.C), considerado o primeiro filósofo, sua herança em Platão seguiu à teologia cristã de Agostinho de Hipona (354/430 d.C.). Já através de Aristóteles, deixou legado tanto no islamismo de Averróis (1126/1198 d.C.), quanto no cristianismo de Tomás de Aquino (1225/1198 d.C.).

Para quem acredita que o mundo, os homens e as ideias sempre foram como são, ou talvez tenham passado a existir a partir do dia em que nasceram, os nomes podem parecer esquisitos; como os tempos e realidades, muito distantes. Para quem tem noção do que foi e projeta com mais segurança o que é e pode vir a ser, o debate, no entanto, nunca deixou de ser atual.

Um exemplo?

No mundo das ideias de Platão, o vereador e pré-candidato a prefeito de Campos pelo PPS, Rafael Diniz, apalavrou há meses com o também vereador Gil Vianna (PSB), que este seria seu vice. No mundo moral, a chapa de Rafael estaria garantida.

No mundo dos homens de Aristóteles, Caio Vianna, pré-candidato a prefeito de Campos pelo PDT, mostrou habilidade ao costurar por cima sua aliança com o PSB. Pelo partido, Gil rompeu sua palavra pessoal e compôs como vice de Caio. No mundo real, a chapa de chapa de Caio está garantida.

Entendeu?

Então me diga agora, leitor, nessa invenção grega da democracia, em quem você votaria? Platão ou Aristóteles?

 

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PT de Anomal deve ceder seu tempo de propaganda para Caio

 

Ponto final

 

 

PT de Anomal mais para Caio

Ou candidatura própria, ou aliança com a chapa encabeçada por Caio Vianna (PDT) e Gil Vianna (PSB) de vice. Foi isso que o pré-candidato petista a prefeito de Campos, Hélio Anomal, garantiu à coluna que será um dos caminhos do partido do ex-presidente Lula (e da quase ex Dilma Rousseff) na sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR). A 70 dias do pleito, os bastidores dão como quase certo: o PT cederá seu generoso tempo de propaganda eleitoral ao filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PEN), de quem Helinho foi candidato a vice em 2008.

 

Apesar do “golpe”

Ainda assim, além de Caio, os também pré-candidatos a prefeito Rafael Diniz (PPS) e Rogério Matoso (PPL) participaram de sabatinas junto à executiva municipal do PT de Campos. Matoso, inclusive, chegou a oferecer a vice em sua chapa. Quem atraiu mais simpatia pessoal, no entanto, foi Rafael, cujo encontro foi aceito a despeito do seu PPS sempre ter estado à vanguarda do impeachment de Dilma, ainda chamado de “golpe”, entre risos alheios, pelos petistas quem nunca viram tanques na rua, como no golpe sem aspas fracassado na Turquia.

 

Rafael, mas dentro dos limites

Tido como um dos principais simpatizantes de Rafael, o Professor Alexandre Lourenço é uma das apostas de renovação local no PT, que deve sofrer uma nova grande debandada nacional em novembro, tão logo acabem as eleições municipais. Todavia, apesar da identificação com as propostas de renovação no modo de se fazer política do jovem vereador do PPS, Alexandre garantiu que não vai demonstrar isso na campanha além das determinações impostas por seu próprio partido.

 

Transporte coletivo (I)

Um dos muitos problemas apresentados pelo transporte coletivo de Campos é a última saída dos ônibus do Terminal Rodoviário Luis Carlos Prestes. Muitos usuários que chegam ao local quando o relógio ainda sinaliza faltar alguns minutos para a meia-noite são surpreendidos pela informação e que o ônibus que atende seu bairro já deixou o terminal. A solução é seguir caminhando para casa ou ser obrigado a pagar uma corrida de taxi.

 

Transporte coletivo (II)

O próprio terminal rodoviário de Campos precisa ter sua estrutura física revista, no sentido de dar maior conforto ao usuário, em qualquer período do dia. Posicionado às margens do rio Paraíba do Sul, deixa aqueles que esperam as chegadas e partidas dos ônibus muito expostos ao vento forte e até mesmo às chuvas. O terminal possui uma cobertura muito alta, ineficiente, sobretudo no caso de chuva.

 

Com a colaboração do jornalista Antunis Clayton

 

Publicado hoje (20) na Folha da Manhã

 

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