Denunciada pelo vereador Marcão (PT) desde 25 de novembro de 2014 ao Ministério Público Estadual (MPE), o rombo de R$ 109.819.539,37 nos cofres públicos de Campos, segundo auditoria interna determinada pela prefeita Rosinha Garotinho (PR) sobre sua primeira gestão municipal (do início de 2009 ao final de 2012), rendeu um inquérito civil público e o posterior indiciamento do ex-secretário de Finanças de Campos, Francisco Esquef. As iniciativas foram de Marcelo Lessa, titular da 2ª Promotoria de Tutela Coletiva da comarca. Ele, no entanto, isentou a prefeita de responsabilidade no que chamou de “supostas operações ilegais e prejudiciais ao erário”. Por sua vez, Esquef negou qualquer ilegalidade nas operações, garantindo ainda que estas deram retorno financeiro positivo aos cofres do município, esclarecimentos que ele disse já ter prestado com documentos, em maio deste ano, à Comissão de Tomada de Contas do Município.
Em novembro de 2014, Marcão conseguiu cópias da auditoria, concluída desde 15 de julho de 2013, assinada por Salvadora Maria Ribeiro de Souza, Denilson Amaro Barcelos Paravidino, Roberto Landes da Silva Júnior, Marcos André Hauaji Leal, Otávio Amaral de Carvalho, Calos Augusto Loureiro Martins e João Batista de Oliveira. Ao ser alertado (aqui) pelo blog “Opiniões”, numa postagem de 24 de novembro do ano passado, de que o rombo no primeiro governo Rosinha, identificado por sete auditores nomeados por ela, seria revelado na tribuna da Câmara, o impacto da notícia entre os governistas foi tanto que seus vereadores esvaziaram a sessão do dia seguinte (aqui). O vereador da oposição se empenhou, então, numa romaria para desvendar o rombo de quase R$ 110 milhões na Prefeitura, levando a denúncia documentada da auditoria de Rosinha ao MPE, ao Ministério Público Federal (MPF), à Polícia Federal (PF), aos Tribunais de Contas do Estado (TCE) e da União (TCU), além da Controladoria Geral da União (CGU).
Por enquanto, o único órgão fiscalizador a se manifestar oficialmente sobre o caso foi o MPE, que em 25 de maio mandou oficiar Marcão da abertura do inquérito civil público, aberto em portaria de 13 de janeiro, e do indiciamento de Francisco Esquef, feito num despacho de 20 de maio. O vereador viu com bons olhos a iniciativa por enquanto solitária de investigar, mas fez ressalvas ao entendimento do promotor sobre a responsabilidade da prefeita no rombo identificado por sua auditoria:
— A denúncia se transformou em inquérito civil público. Isso significa que o parquet (promotoria) entendeu que há indícios de autoria e materialidade de crimes praticados contra o erário público municipal, dentro do governo Rosinha Garotinho. Mas o promotor entendeu que a prefeita não tem responsabilidade, do que eu discordo frontalmente.
Para endossar sua discordância, Marcão lembrou as recomendações finais à prefeita feitas pela por sua própria auditoria: “Recomendamos abertura de tomada de contas para apuração de responsabilidades e inscrição dos valores de possíveis danos aos cofres do tesouro municipal, e posterior envio ao TCE-RJ para apreciação e demais órgãos competentes, visando o ressarcimento ao erário e resguardo de responsabilidade da prefeita Rosangela Rosinha Barros Assed Matheus de Oliveira pela administração financeira do município”.
— Como Rosinha não apurou responsabilidades, não correu atrás do ressarcimento dos danos aos cofres públicos, nem tampouco enviou o caso ao TCE e demais órgãos competentes de fiscalização, coisa que só foi ser feita por mim, quase um ano e meio depois da conclusão da auditoria realizada por determinação dela, me parece óbvio que a responsabilidade da prefeita não ficou resguardada — concluiu o vereador do PT
Além do raciocínio de Marcão com base nas recomendações da auditoria aparentemente não cumpridas, na tentativa de isentar Rosinha de responsabilidade, Marcelo Lessa cometeu um grave erro cronológico em sua justificativa. Como pode ser visto ao lado (abaixo), o promotor alegou que a auditoria determinada pela prefeita “levou à exoneração imediata do Secretário (de Finanças)”. Na verdade, Francisco Esquef foi exonerado em 20 de maio de 2011, enquanto a auditoria só foi concluída em 15 de julho de 2013, mais de dois anos depois.
Defesa da legalidade e retorno das operações
“Soube da auditoria pela imprensa, assim como é através de vocês que agora sei desse inquérito civil público e do meu indiciamento. Concordo que quem ocupa função pública tenha que dar satisfação dos seus atos e estou muito tranquilo, pois todos os meus, enquanto estive à frente da secretaria de Finanças de Campos, não só foram absolutamente dentro da legalidade, como geraram retorno financeiro positivo ao município, num total de R$ 34 milhões, dos quais R$ 8 milhões foram especificamente na compra e venda de títulos públicos”. Foi o que garantiu Francisco Esquef, ex-homem das Finanças de Rosinha.
Ele disse que no início de maio foi procurado pela Comissão de Tomada de Contas da Prefeitura, a qual teria prestado no final do mesmo mês todos os esclarecimentos, facilitados pelo hábito de quem ressaltou “guardar as cópias das cópias de tudo aquilo que faço”. No raciocínio sempre lógico e sereno do ex-secretário, essas explicações devem ser repassadas ao TCE-RJ, o que em seu entendimento será suficiente para encerrar a questão. Ele, no entanto, se colocou à disposição do promotor Marcelo Lessa e do vereador Marcão, que ressaltou estarem cumprindo seus papeis, para prestar qualquer esclarecimento sobre o caso:
— A auditoria partiu de pressupostos errados para chegar a conclusões equivocadas. Desses quase R$ 110 milhões, cerca de R$ 100 milhões são de administrações passadas. O resto se refere à primeira administração Rosinha. Até o momento em que dela saí, em 20 de maio de 2011, por um processo de desgaste natural, deixei retorno financeiro positivo. Nessas operações de compra de títulos públicos, que você me diz terem sido citadas pelo promotor, a auditoria se limitou a comparar os preços da compra e da venda dos títulos, se esquecendo de contabilizar os rendimentos, objetivo primário de qualquer investimento. É relativamente fácil explicar.
O despertar de um pesadelo na madrugada o imprime como tormenta pelo resto do dia, até que a poesia o exorcize em catarse. Nele, pareceram claramente impressas a memória de um filme, “Alien, o oitavo passageiro” (1979), do inglês Ridley Scott, e de um livro, “A metamorfose”, publicado a primeira vez em 1915, do tcheco Franz Kafka (1883/1924), que tanto marcaram uma adolescência curiosa de cinema e literatura. Depois, trocando ideia com um amigo, a lembrança ainda que inconsciente, mas como deve ser no terreno dos sonhos, ao quadro “O grito”, pintado em 1893 pelo expressionista norueguês Edvard Munch (1863/1944), pareceu também oportuna.
E assim, no meio de tantas leituras para tentar racionalizar o pavor de um pesadelo, ficou o poema:
A ESPIÃ QUE SABIA DE MENOS — A modificação de títulos originais de filmes estrangeiros no Brasil é uma tradição tão antiga quanto reprovada por críticos. Em alguns casos, até se baseia, de certo modo, no conteúdo da produção — como em “Noivo neurótico, noiva nervosa”, para “Annie Hall”, de Woody Allen, considerando as muitas associações entre quase toda a obra do diretor e a psicanálise; ou em “Os brutos também amam”, para “Shane”, de George Stevens, porque na trama um estrangeiro misterioso e durão mostra-se sutilmente atraído pela mulher casada do sítio no qual se instala, mas não se envolve com ela. Em outros, revela-se um desastre, porque, apesar de tentar indicar de que trata a narrativa, contribui para o público formar ideia equivocada a respeito dela. É o que ocorre com “A espiã que sabia de menos” (“Spy”), uma das estreias da última quinta-feira no Kinoplex Avenida e do Multiplex Boulevard Shopping.
Longa-metragem que inicialmente teria o título de Susan Cooper, “Spy” é sobre a promoção dessa personagem, interpretada por Melissa McCarthy, de agente “de gabinete” à espiã que vai a campo. Funcionária da CIA há anos, Susan abandonou o magistério e ingressou na agência com a expectativa de atuar como os heróis da espionagem. Mas, mulher e gorda, foge aos padrões deles, limitando-se, portanto, a acompanhar as missões arriscadas de seu colega Bradley Fine (Jude Law), monitorado à distância por ela, por meio de um programa de computador que permite identificar a presença de inimigos nos locais invadidos pelo investigador, com quem se comunica por ponto eletrônico e por quem nutre uma paixão recolhida. Em busca de uma ogiva nuclear em poder da bela Rayna Boyanov (Rose Barnes), arma que esta pretende vender para o terrorista Sergio de Luca (Bobby Cannavale), Fine é morto, deixando Susan culpada por falhar como sua monitora. Menos visada que outros integrantes da CIA, como o supostamente valentão Rick Ford (Jason Statham), Cooper convence sua superior Elaine Crocker (Allison Janney) a enviá-la como espiã no caso não resolvido por Bladley. E, embora conheça um registro em vídeo mostrando as habilidades de Cooper com armas e luta corporal, Elaine é incisiva quanto à missão de sua subordinada: esta deve apenas colher informações sobre a negociação da ogiva. Como Rick Ford, desligado da CIA, interfere de forma desastrada no caso, acaba fazendo com que a protagonista se envolva mais do que deveria com os vilões.
Parceiro, atrás das câmaras, da atriz Melissa McCarthy em “Missão madrinha de casamento” (“Bridesmaids”, 2011) e “As bem-armadas” (“The Heat”, 2013), nos quais ela atou como coadjuvante, Paul Feig joga, de novo, com questões de gênero, tanto no sentido cinematográfico (filme de espionagem) quanto no social (masculino/feminino).
Fã desse tipo de produção desde criança, Feig brinca com ela sem a obviedade da paródia. Trata-se mais de uma comédia de ação que de uma gozação com o estilo, questionando a atividade de espionagem como exclusivamente masculina. Daí a armadilha do título no Brasil: “Spy”, em inglês, é substantivo comum de dois gêneros; a protagonista domina bem (sabe demais e não de menos) as funções de gabinete e da rua, sendo tão hábil e tão desastrada – humana, portanto – quanto seus pares homens. Mas o faz de uma forma que certamente oscila bastante entre sutileza e grosseria. Usa não só uma referência refinada ao tema musical de 007, como, de forma atualizada, apela ao recurso manjado de mostrar onde se desenrolarão sequências a partir de planos gerais por tomadas aéreas de cidades de várias partes do mundo, com seus nomes indicados por inserção de créditos digitados sobre as imagens. Surpreende – mas não muito – ao mostrar um personagem de Jason Statham que não simplesmente desconstrói seu estereótipo de ator de filme de ação (algo já bem explorado nas cinesséries “Adrenalina” e “Os mercenários”) e não só aparece quase em toda parte, como em “Velozes e furiosos 7”, mas é um mero contador de vantagens desastrado. Destaca a cumplicidade feminina e os preconceitos dirigidos a mulheres gordas e fora dos padrões de beleza, mas também os incorporados por elas, além dos utilizados pela protagonista contra homens afetados.
Trata-se, ao que parece, de táticas arriscadas de conquistar o grande público, que se limita à superficialidade das piadas e da escatologia, e os cinéfilos, que podem ir mais fundo, buscando as referências cinematográficas e a complexidade da guerra dos sexos, sem panfletarismo feminista politicamente correto. Mas também de uma boa combinação de entretenimento e reflexão no escurinho do cinema. Se fosse possível, ganharia três Matheusinhos e meio.
TROCANDO OS PÉS – De filmes de comédia a terror, como “Se eu fosse você” (1 e 2; 2004 e 2008), de Daniel Filho, e “A chave mestra” (2005), de Iain Sofltey, a criação de roteiros nos quais os personagens trocam de corpos, espécies e personalidade é uma das formas interessantes e atraentes de explorar o mundo da ficção e da fantasia, tanto em cinema quanto nas artes cênicas e literatura. No rito de passagem para novas realidades, o protagonista, geralmente, enfrenta situações adversas que o levam a modificar sua identidade, seja por repetição de palavras – como ocorre nos filmes dirigidos por Daniel Filho – ou pelo uso de fórmulas mágicas, tal como acontece em cenas da obra literária e cinematográfica “Stardust – O mistério da estrela” (2007), escrita por Neil Gaiman e dirigida por Matthew Vaughn. O mais recente longa-metragem que segue o estilo é “Trocando os pés”, estrelado por Adam Sandler e dirigido por Thomas McCarty.
Sapateiro de Nova York, o judeu Max Simkin vive dos lucros gerados por uma pequena loja no Lower East Side. Herdado do pai, o comércio resume o cotidiano do homem, que passa grande parte do seu dia no local. Em casa, onde vive com a mãe idosa, ele passa por momentos carregados de maior densidade dramática do que de comédia e leveza, diferentemente de outros filmes protagonizados por Adam Sandler, como “Zohan – o agente bom de corte” (2008). Abandonados por Abraham Simkin, interpretado por Dustin Hoffman, mãe e filho vivem entre memórias deixadas pelo pai. O único amigo do protagonista é Jimmy (Steve Buscemi), barbeiro que trabalha na loja vizinha à de Max.
Certo dia, durante o horário de expediente, a máquina de costura de sapatos de Max quebra. Com uma encomenda para as horas seguintes, ele se lembra de outra, deixada pelo pai. Ele contava ao filho, quando criança, que aquele objeto era especial e, por isso, só deveria ser usado em poucas ocasiões. A máquina foi dada por um homem sem-teto a seu bisavô, que o abrigou e alimentou. O presente foi uma retribuição ao carinho recebido. Devido ao problema, Max opta por utilizar o aparelho e descobre, a partir de seu funcionamento, que pode vivenciar histórias diferentes das suas e descobrir novas realidades ao usar os sapatos consertados por ela.
Com a troca de personalidades e corpos, Mas vive prazeres e se sente mais vivo à medida que passa por experiências nunca imaginadas. Em cena, Adam Sandler, mais voltado, neste papel, ao drama do que à tradicional comédia, traz fortes expressões faciais e aparência levemente envelhecida e abatida, cabendo adequadamente ao personagem, cujas características vagam entre tristeza e solidão e que atraem mais a atenção do espectador em comparação a outros pontos do filme.
A exploração e mistura de aspectos cômicos e dramáticos, em muitos momentos, deixa confusa, para os espectadores, a real intenção do filme. A trilha sonora, cujo uso se adéqua mais a cenas de comédia, é erroneamente utilizada em passagens de drama. Em uma sequência filmada na casa de Max, o protagonista questiona a mãe sobre o almoço. A idosa responde que está dentro do microondas, basta o homem esquentar a refeição. Ao abrir o aparelho, ele encontra a bolsa dele. Nesse momento, a expressão de Sandler e a canção instrumental são completamente opostas e atrapalham o envolvimento do público com a situação de drama – a mãe idosa e com problemas de memória – pela qual passa o personagem. Devido a esses usos equivocados de recursos, “Trocando os pés” abre diversas portas e se esquece de fechá-las, deixando no espectador a sensação de que o enredo ainda não foi concluído.
Publicado hoje na Folha Dois
Confira o trailer do filme:
Leia aqui a crítica do Gustavo Alejandro Oviedo sobre o mesmo filme
TERREMOTO – A FALHA DE SAN ANDREAS – “Terremoto – a falha de San Andreas” é um filme que só poderia ser produzido nos Estados Unidos. Grande orçamento, muita tecnologia, fraco roteiro e pífia direção. Não nego que as novas tecnologias aproximam o cinema cada vez mais da realidade vivida, sobretudo a tecnologia do 3D. Mas elas também entorpecem os roteiristas e os diretores. Dá pra imaginar um filme de Fellini, de Bergman, de Woody Allen ou de Glauber Rocha em 3D? Brad Peyton, seu diretor, está no meio cinematográfico desde 2001, roteirizando, dirigindo e produzindo alguns curtas e longas para o cinema e para a televisão. Nenhum título lhe deu notoriedade. O roteiro foi escrito por Carlton Cuse com a ajuda de Andre Fabrizio e Jeremy Passmore.
Um filme de aventura e ação com tanta tecnologia não precisa de um bom diretor e um bom roteirista. Bastam um bom estúdio e uma equipe de técnicos. “Terremoto” é um filme perfeitamente previsível. No meio de uma grande catástrofe, insere-se um drama familiar sabendo-se, desde o princípio, de que não haverá surpresa. O terremoto atinge a mais alta magnitude na Escala Richter da história, algo inesperado e esperado ao mesmo tempo, pois, nos Estados Unidos, tudo deve ser maior.
O cinema dos Estados Unidos reflete o complexo de superioridade de um país que se considera o mais poderoso do mundo pela sua série de vitórias desde a independência, em 1776, em relação ao Império Britânico. As sucessivas guerras contra a Líbia (1801), o México (1846-48) e a Espanha (1898) reforçaram esse complexo. É bem verdade que o país sofreu o agressivo ataque japonês a Pearl Harbour, que foi revidado com duas bombas atômica. É bem verdade que ele foi atingido pela Al-Qaeda, um grupo extremista sem um Estado, mas revidou de forma desproporcional no Afeganistão e no Iraque.
Enfim, tudo de bom e de mau acontece nos Estados Unidos. A natureza, os extraterrestres e os monstros odeiam o país. Seus mais virulentos ataques se dirigem ao país. O mundo ou não aparece ou aparece pouco. No final quem salva os Estados Unidos e o mundo são a própria força do país. “Terremoto” tem este caráter: no meio de um desastre natural, o medíocre Dwayne Johnson, Carla Gugino, Alexandra Daddario e Ioan Gruffudd vivem um drama familiar e uma história de amor juvenil que se sabe como irá acabar antes que o filme chegue ao final. Num determinado momento, até a falha de San Andreas pode ser vista como uma longa e profunda vala. Paul Giamatti vive um cientista que descobre um método de prever fortes terremotos no momento em que ocorre o mais virulento do mundo. O artifício de valorizar questões pessoais em meio a desastres ambientais e naturais vem dos primórdios do cinema, com Griffith e Eiseinstein, mas com bastante arte. Por outro lado, os profetas, que sempre advertiram sobre castigos divinos, foram substituídos por cientistas que advertem sobre castigos advindos do espaço, da natureza e de nós mesmos.
Enfim, para quem gosta de entretenimento superficial que não exija pensar e de sentir medo com efeitos especiais e música barulhenta, “Terremoto” acaba agradando.
FILHOS DA TERRA — Elias Januário (educador, antropólogo e historiador) fala que a sociedade ao longo dos anos, em decorrência do modo de vida moderno e industrializado, foi se distanciando gradativamente da natureza, vendo nela um bem de consumo a serviço do capital. Também foi deixando de valorizar o seu caráter espiritual, os seres sobrenaturais que estão diretamente ligados com a natureza e que orientavam gerações passadas, restando apenas poucos grupos sociais tradicionais que ainda praticam a cultura da espiritualidade.
Os povos originais de maneira geral mantiveram, e muitas comunidades ainda mantêm uma estreita relação espiritual com seres que vivem na natureza em locais tidos por sagrados como rios, pedreiras, cavernas e matas.
A entrada de forma avassaladora nos últimos anos de missionários impondo as religiões de matriz judaico-cristã em terras indígenas tem provocado uma ruptura nos conhecimentos tradicionais de uma geração para outra, onde os jovens indígenas estão cada vez mais desconhecendo os valores espirituais de seu povo, fragilizando a identidade étnica e cultural de muitas comunidades tradicionais.
Quando falamos da prática cultural da espiritualidade dos povos originais, é fundamental ressaltar que em muitas aldeias os espíritos, sejam da natureza ou de antepassados, são a base para a realização de inúmeras atividades como os ritos, mitos, caça, pesca, extração de matéria prima para a confecção de adornos, a produção de medicamentos da medicina tradicional, o preparo e a colheita das roças. Todas essas atividades cotidianas estão amplamente interligadas com o mundo dos espíritos.
É o tema que trata o vencedor do Cine Cipó 2014 pelo júri popular e sucesso da Mostra Cenário Socioambiental2015 “Filhos da Terra” (“Hijos de la Tierra”) 2013 (29min). Realizado pela produtora espanhola Ultreia Films com colaboração do INAAC Instituto Navarro de Las Artes Audiovisuales y Cinematografia e direção de Axel O’Mill e Patxi Uriz. Filmado em encantadoras paisagens na Espanha, Brasil, México, Reino Unido e França, com excelente trilha musical étnica de Gorka Pastor, o documentário média-metragem conta com reflexões e depoimentos dos druidas Terry Dobney (Archidruida de Avebury) e Gracia Chacón (Archidruidesa Orden Mogor), dos xamãs Ricardo Awanach (Etnia Xuar) e Ávaro Tucano (Etnia Tucano), curandeiros Josefina Cháves (Mujer Medicina) e Juvenal Becerra (Hombre Medicina), do agricultor Josep Pamies, Juan Gonzáles (Psicólogo e Etnobotânico), Armando Loizaga (Pesquisador Tradições Indígenas) e Llorenç Teixé (Herborista).
É o testemunho de pessoas vinculadas à natureza que abrem seu coração para transmitir à humanidade a sabedoria da Mãe Natureza. O documentário pretende servir como veículo transmissor destes sábios conhecimentos e de conscientizar o espectador do que significa ser “filho da Terra”. E consegue, com enorme encantamento.
Antes do longa de ficção “Freud, além da alma”, de John Huston, que será apresentado pelo psicanalista e ator Luiz Fernando Sardinha, o média de documentário é programa para abrir a noite da próxima quarta-feira, dia 3, a partir das 19h, no Cineclube Goitacá!
A partir do seu próprio blog, o jornalista campista Ocinei Trindade tem dado à luz (aqui) suas literatices em prosa e versos. Estes, quase sempre em tom confessional, se distinguem pela qualidade daqueles que caem na armadilha fácil (e chata) de confundir poesia com divã de analista. Muitas vezes fescenina, num erotismo latente, mas suavizado pela ironia, como ensinou nosso grande barroco Gregório de Matos, a obra de Ocinei não está mal representada no poema que o blog traz ao domingo, subvertendo em sua androginia toda a pompa e circunstância dada ao tema pelo genial Sigmund Freud, pai de todos os analistas.
Confira por conta própria:
ODE AO FALO
Falemos do falo.
O falo fala.O meu falo além de falar, canta.
Tenta encantar também.
Samba no pé, samba na mão, que mal tem?
O falo sabe das coisas “como ninguém”.
Versátil, está na boca do céu de todo mundo.
Boca cheia, boca suja, boca imunda.
Meu falo até em bunda numa quizumba do cacete
Tudo falo entre quatro paredes.Quase tudo.
Quase teso, o tesão, o tesudo.
A língua do falo é animal, é Edmundo.
É meter porrada na vala e na cara do vagabundo.
O falo está em todas, paga geral.
Mas se mete em cada uma já que se acha o tal.
Esqueçam o falo falido.
Falo tem que ser bem sucedido.
Não é mole ser falo!
Isso eu falo de cadeira, porque se falo de cama,
Só de falar, já me dá canseira.
É duro ser falo, pois nem sempre é ereto.
Estar eternamente a ponto de bala, seria o correto.
Mas nem sempre é doce a iguaria.
Falo no cuscuz, na baba de moça, no olho de sogra.
Falo também no brigadeiro,
afinal que graça tem
Comê-lo se não for por inteiro?
E como, como!
Falo é poder,
é aspiração de cumprir dever.
Falo tudo sob pressão.
Se ameaçou, já tô botando pra fora.
É, muita história tem o falo pra contar.
Sabemos que nem tudo é festa.
O falo quase sempre vive uma vida modesta.
Reservado, escondido e humilhado sob camadas de tecidos.
É louco para aparecer, mas tem medo, receio,
Pois não sabe se será bem visto, correspondido.
Todo falo tem na cabeça o desejo de ser grande.
O mal do falo é pensar demais.
Na verdade, muito falo sofre por ser calculista.
Insiste em contar errado, vantagem.
Só aceita a partir de quinze, adora se iludir,
Mas também pra quê ser tão realista?
O falo é o máximo, mas também é o mínimo.
Faz parte do salário do pecado mais ínfimo.
É refém da moral, da mulher, do varal.
É escravo do bacanal, do labirinto vaginal.
Falo também é estuprado pelos apelos da carne,
Pela fúria do ânus,
pelo estranho sexo digital.
Falo é carnal, mas sabe ser inteiramente verbal, espírito.
Em 2008, o voto na então candidata Rosinha Garotinho simbolizava desejo de mudança e esperança em dias melhores para o município, que enfrentava um período difícil politicamente em meio a denúncias que culminaram com uma operação do Ministério Público Federal, que levou preso membros do primeiro escalão do governo Mocaiber.
Fortalecida pelo desejo de mudança, Rosinha lançou-se candidata com uma campanha quase tecnicamente perfeita. Seu programa de governo trazia os pontos que refletiam o que os campistas esperavam do novo gestor, entre eles uma “revolução” na Saúde. Informatização das consultas, medicamentos presentes, desburocratização eram promessa de campanha do governo que prometia por a cidade no rumo do desenvolvimento, com a atenção que o maior município do Norte Fluminense merece.
Quase sete anos se passaram. Para quem argumentar que sete anos é pouco tempo, dá para imaginar quantas pessoas nasceram e morreram nesse período? Uma criança que nasceu em 2008 hoje já aprendeu a ler e começa a ver o mundo com seus próprios olhos.
De lá para cá, não foram poucas as matérias veiculadas em jornais, rádios e tvs mostrando reclamações de pacientes e familiares, a dor de quem precisa de uma resposta no momento mais delicado de sua vida: quando ela está em jogo.
Não houve uma semana, talvez um dia, que não chegasse uma reclamação sobre remédios, uma criança precisando de um exame, um idoso, um diabético…
Mais ainda, em recente entrevista, o presidente do sindicato dos Médicos, José Roberto Crespo, destacou algo que foi tomando forma aos poucos e que parece ter feito Campos andar para trás: Voltaram as filas nas madrugadas para marcação de consultas em muitos pontos.
A resposta comum nesses casos tem sido que Campos é referência no atendimento e que diversos municípios enviam para cá seus pacientes. Pode ser. Mas se é referência não deveria ter um atendimento que primasse pela qualidade? Campos não deveria ter tomado na cabeceira dessa mesa e chamado os outros municípios para uma conversa que, se não resolvesse, ao menos minimizasse o problema?
De 2009 — primeiro ano do primeiro governo Rosinha — até hoje não houve como construir, reconstruir, reformar ou sei lá o que o Hospital São José, que além de atender aos moradores da Baixada ainda poderia desafogar o Hospital Ferreira Machado?
Recentemente, o mesmo Ministério Público Federal tem realizado inspeções em hospitais de municípios da região e mostraram o quão longe da “revolução” prometida está a Saúde de Campos. Medicamentos vencidos, pacientes em macas espalhados por corredores, médicos ausentes, esquipamentos com defeito.
O procurador da República, Eduardo Santos de Oliveira, disse que as inspeções surpreenderam negativamente: E destacou o caso do HFM, onde agentes encontraram (aqui) medicamentos com validade vencida fora da farmácia, já nos setores próximos.
Acompanhadas pela imprensa, as inspeções mostraram uma fratura exposta e que parece longe de uma cura. Talvez porque a culpa é sempre do outro: Ou do médico, ou do gestor, ou paciente ou, até, da oposição, que não administra nada, mas também já foi responsabilizada em alguns momentos.
O que chamou a atenção durante as operações do MPF foi o alívio de pacientes e familiares. Parecia que, enfim, alguém que poderia resolver estava indo ver e solucionar o problema.
Engano. Não pode. O MPF pode recomendar, apurar, fazer um já famoso TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), abrir um inquérito. Pode até prender. Mas resolver, só o governo. E quem manda no governo — salvo engano — é a prefeita Rosinha.
Então, quem deveria fazer uma inspeção nas instituições de Saúde da cidade que administra é a prefeita e seus secretários. Ir a inaugurações, em dias de festa, não retrata a realidade. O maior erro de um administrador público é ver o mundo pelos olhos de seus assessores. É preciso ver o que o MPF viu, ouvir a voz da população. É preciso tentar curar essa ferida. É preciso ver para crer e resolver.
Por Aluysio Abreu Barbosa, Alexandre Bastos e Suzy Monteiro
Quem viu o ex-campeão peso pesado de boxe Myke Tyson no início de carreira, não se esquece da sua postura agressiva, caminhando sempre à frente, sem dar espaço ao adversário. Na política de Campos, poucos encarnaram o mesmo espírito como o ex-vereador Marcos Bacellar (SD). Dos confrontos com seus adversários passados e presentes, não apenas políticos, mas também promotores de Justiça, diz não guardar arrependimento, assim como da sua decisão de não ter concorrido em 2012. Sobre 2016, embora ressalve seu respeito à máquina, acha que podem chegar ao fim os quase 30 anos de garotismo em Campos. Entre as piores heranças do movimento, aponta o Plano de Cargos e Salários (PCS) aprovado por Rosinha ao servidor, sem conceder a reposição das perdas salariais à categoria. Concorra ou não na próxima eleição, Bacellar só garante que, com ele na Câmara, o presidente Edson Batista (PTB) não cassaria sua palavra, nem o secretário de Governo Anthony Garotinho (PR) iria à plenária “falar abobrinha”.
Ex-vereador Marcos Bacellar
Folha da Manhã – Em 2011, mais de três anos antes do vereador Marcão (PT) tornar público (aqui, aqui, aqui e aqui) o resultado da auditoria que apontou as “tenebrosas transações” do primeiro governo Rosinha, que geraram prejuízo de mais de R$ 110 milhões aos cofres públicos de Campos, você denunciou o rombo (aqui) em seu blog. Como teve acesso antes ao fato?
Marcos Bacellar – Na ocasião , falei na plenária, denunciei as “tenebrosas transações” financeiras feita pelo poder municipal, hoje confirmadas e denunciadas pelo vereador Marcão. Tenho minhas fontes dentro da máquina da Prefeitura. Mas, infelizmente, tenho que preservar os colegas. Como denunciei também que os mesmos iam investir sobre as reservas da Previcampos, na “grande” ação com o Mercado Municipal, e tantas outras denúncias que infelizmente não foram apuradas e cairam no esquecimento do povo e da mídia.
Folha – De posse dos documentos que provam o rombo, Marcão denunciou o caso (aqui) à Polícia Federal, aos Ministérios Públicos Estadual e Federal, aos Tribunais de Contas do Estado e da União, além da Controladoria Geral da União. Em seu entender, por que ninguém até agora fez nada?
Bacellar – A morosidade é grande, mas tenho plena convicção que novos ares estão respirando no Judiciário brasileiro. Tenho a esperança que cedo ou tarde o MP, TCE e o Judiciário vão apurar as denúncias.
Folha – Você disse que antes da operação Telhado de Vidro, da Polícia Federal, em 2008, o hoje vereador Edson Batista foi procurá-lo, a mando de Anthony Garotinho, para tentar uma composição após o golpe que mataria em vida o fraco governo Alexandre Mocaiber. No que deram suas denúncias? Afinal, como Garotinho pôde saber? E se soube no passado, pode continuar “sabendo” até hoje?
Bacellar – Disse, repito, provei e denunciei a todas as autoridades em diversas instâncias e até hoje não tivemos nada apurado. Inclusive, à época, coloquei meu sigilo telefônico à disposição. Mas o Chucky é liso, é difícil agarrá-lo. Continuo à disposição para contar tudo novamente, tão bem já relatado no passado revista Somos Assim e a própria Folha da Manhã. Para mim, hoje ele perdeu bastante o cheiro do poder e viu também desmontada a sua rede de influência, mas ainda tem “bola de cristal” espalhada por aí. Logo: todo cuidado!
Folha – Especificamente em relação aos Ministérios Públicos Estadual e Federal locais, você foi condenado pelos crimes de calúnia e difamação contra o promotor Leandro Manhães, além de já ter sido processado pela procurador da República Eduardo de Oliveira. Qual o motivo dessas brigas? E o saldo delas? Arrepende-se de algo? Que juízo faz das duas instituições em Campos?
Bacellar – Não me arrependo de nada. O juízo das instituições em Campos e em todo Brasil é a melhor possível. Porém, ocorre que, como em qualquer instituição, corporação, e esfera de poder, existem os maus profissionais que usurpam de suas funções extrapolando por muito sua autoridade e competência. No tocante ao procurador Eduardo, agi na defesa daquilo que considerava certo. Já quanto ao promotor Leandro, mantive em Juízo tudo que sempre falei e afirmei dele na Câmara, pois assim como a função pública dele, a minha à época, uma vez eleito pelo povo, era também de fiscalizar e assim o fiz. Fui condenado sim em primeira instância, mas tenho a certeza de que o Tribunal de Justiça reformará a decisão, uma vez que, estava amparado pela imunidade parlamentar e apenas no exercício de minha função fiscalizatória.
Folha – Coincidentemente, Leandro e Eduardo tiveram suas ações mais recentes centradas na Saúde Pública. O promotor estadual, à frente da intervenção na Santa Casa de Misericórdia de Campos. E Eduardo na fiscalização do MPF sobre os principais hospitais públicos e conveniados da região. Tem acompanhado essas intervenções? Qual sua opinião sobre ambas?
Bacellar – Parabéns ao MPF na ação da saúde apurando o serviço que é prestado à população da região pelo poder executivo. Espero muito que assim continue, mas já podiam ter feito antes. Quanto ao Ministério Público Estadual, em relação a Santa Casa, não posso avaliar muito bem, pois quando Benedito Marques assumiu a Santa Casa, a mesma estava quebrada e ele conseguiu erguê-la com ajuda de diversas pessoas da nossa sociedade. O que houve e cadê o Definitório do Hospital? Muita coisa tem que ser esclarecida ainda. Na minha existência, já vi passar três provedores na Santa Casa e todos eles no finalmente saíram como ladrões. E os seus pares, são anjos?
Folha – Recentemente, em artigo publicado (aqui) na Folha, você criticou outro promotor estadual, Marcelo Lessa, pela pretensão deste em dar ponto final à discussão do Mercado Municipal, após ter se posicionado a favor do “encaixotamento” do prédio histórico. Ao criticar a postura dele também na greve dos rodoviários, em abril do ano passado, você indagou se ele era promotor de Justiça ou procurador de Rosinha. Por que a dúvida?
Bacellar – Estou acabando de reler o trabalho do professor Carlos Roberto Bastos Freitas, “O Mercado Municipal de Campos dos Goitacazes — A sedução persistente de uma instituição pública”, de quando foi criado o local, praça ou largo, e toda a evolução até praticamente a presente data. Um trabalho lindo, ouvindo feirantes, clientes e cidadãos. Tem dados demográficos do município de Campos, regulamento do Mercado de 1921. Li, gostei, posso elogiar ou criticar, mais nunca fechar a porta de uma discussão que poderá surgir, uma nova idéia que beneficiará muito mais a nossa população. Critiquei, sim, o promotor Marcelo Lessa por querer encerrar esta discussão e falei claramente de outras posturas dele tomadas a frente do direito difuso do MPE, sempre coadunando com a postura e o pensamento do poder Executivo. Friso o Camelódromo, o Mercado Municipal e a greve dos Rodoviários. Mesmo se houver ordem judicial, considero um absurdo invadir uma empresa particular, mandar um motorista pegar um ônibus e colocar na rua para atender a população. Em todos os sentidos, seja para o proprietário da empresa, assim como o risco para a população. São medidas que achei um absurdas e posso criticá-lo, sim, na qualidade de cidadão, por entender que tais situações demonstram que o mesmo está agindo como procurador de Rosinha arbitrariamente.
Folha – Leu o artigo de Marcelo publicado pela Folha na quinta, na qual ele parece ter respondido a você, dizendo que estão tentando politizar a questão do Mercado? Em sua defesa, o promotor disse ter tomado uma “decisão em favor das pessoas, não das coisas”. E você, como define a sua posição?
Bacellar – Ele se diz tão preocupado com os camelôs, os feirantes, sempre favorável às pessoas. Contudo, não vi a atuação dele em favor dos munícipes em outras situações, como greve dos professores, as várias obras denunciadas com grande atraso, a falta de pagamento a terceirizados e tantos outros problemas que acontecem na Saúde, Educação, Transporte e Habitação. Infelizmente, pode até ser ignorância minha ou desconhecimento ou falta de divulgação por parte do MPE ou da própria Folha, mas entendo assim. Mas posso mudar de opinião se me informarem a real situação. O Mercado não era onde hoje está. Se mudou no passado, não pode mudar de outra vez? Acho que a questão é política sim, política pública ou será que Dr. Fachin, mesmo sendo um excepcional jurista, chegou a STF por beleza ou simpatia? Gosto de ler os artigos do professor Lessa na Folha. Porém, só consigo entender com o “pai dos burros” ao lado, pois o mesmo em sua grande capacidade literária, ele usa cada palavra que infelizmente o simples mortal aqui, assim como o povo com o qual ele tanto se preocupa, não conhece e tem a curiosidade de procurar no dicionário para ver o significado, como “vozes obnubiladas”. Fui ver no Google e lá estava “escurecer, que se torna obscuro, como se observado entre nuvens”. Minha posição é clara e acho que logicamente tenho algum respaldo. Disputei três pleitos e o povo me elegeu em dois, sendo um, respeitosamente, como vereador mais votado até hoje no município, e outro que perdi, para deputado estadual, mas no qual tive quase 23 mil votos. Considero que quem votou em mim, me respaldou e conhece muito bem minha posição e colocações. Sabe que foram na Feirinha da Roça da Praça da República, em dia 26 de maio, quando a Postura municipal recolheu dos feirantes ovos, queijos, galinhas, tudo em nome da saúde do consumidor, sem ter um médico sanitário para a prévia vigilância. Como autorizaram a feirinha? Quem vai responder?
Folha – Enquanto foi vereador, você teve o mandato cassado por duas vezes, uma deles em função de suposto desvio de verbas na Campos Luz, em 2010, e outra por abuso de poder político e econômico, em 2012, relativo à eleição de 2008. Para quem questiona tanto, não são dois fortes motivos para ser também questionado?
Bacellar – Justamente… Num processo de cinco mil folhas, sob o Ministério do sempre promotor Leandro, que foi distribuído às 11h20 da manhã de uma sexta-feira e que, pasmem, mesmo com tamanho volume de papel, foi devidamente autuado pelo cartório e analisado pelo juiz à época antes das 14h, eu já estava intimado da decisão liminar que me afastava. Seria leitura dinâmica? Prova desse absurdo é que fui absolvido e reconduzido ao cargo dias depois, sendo comprovado que nada tive com a Campos Luz. Já a segunda cassação que eu sofri, friso que fui o único vereador em todo o Brasil que teve duas vezes o mandato cassado numa mesma legislatura. Ganhei em todas as instâncias superiores e retornei de imediato ao cargo, com o caso encerrado no TSE, que me deu ganho de causa. A cassação partiu de um vereador que me tratava de “Guru”. Maior Presidente que o Legislativo de Campos já teve, para não dizer o contrário. Ele ficou envergonhado, pois me perdoem a falta de humildade, em um único pleito, eu tive mais votos do que as três eleições somadas que ele ganhou. Foi através de muito trabalho, dor, dedicação e coragem que me orgulho de ter sido campeão de votos em Campos: 9,5 mil votos que a população em mim confiou, naquela legislatura tumultuada em que tivemos que enfrentar e peitar tudo, inclusive o governo Mocaiber, ao qual fui oposição até a operação Telhado de Vidro.
Folha – Você foi um dos críticos na época da construção do Cepop, por mais de R$ 100 milhões, e um dos primeiros a chamá-lo de “elefante branco”. Além disso, criticava a falta de valorização do carnaval e a fortuna destinada aos shows do Farol. Como recebeu o cancelamento do carnaval fora de época deste ano?
Bacellar – Uma grande obra poderia ser feito em Campos, um sambódromo ou um estádio municipal? Um novo Mercado? Hospital São José? Orla do Farol? VLT? Duplicação da BR 101, no trecho entre Ururaí e Travessão, entre várias outras obras muito mais importantes. Tem que discutir, o povo tem que ser chamado à responsabilidade e escolher as suas prioridades. Local, onde, por quê? E o Jockey Club, uma linda área, hoje vai acabar? O monumento ao coco (Beira Valão), eles não respeitam Plano Diretor, Lei de Diretrizes, não respeitam nada. Existe lei municipal, se não me engano foi do vereador Dante, que qualquer obra acima de 3% do orçamento tem que ter audiência e aprovação legislativa. Eles respeitam? E o Centro Histórico de Campos, está pronto ou quase? Aguardem, pois assim que retirarem os postes, vai quebrar tudo de novo. Sou contra o carnaval fora de época, acho que temos que respeitar o calendário pagão, mas não vejo motivo para suspender o carnaval deste ano por motivo de economia, cujo valor não alteraria em nada a Saúde e a Educação péssimas de Campos, apenas se Chucky inventar termo aditivo em verba carnavalesca. E ele espeita quem gosta e já gastou por conta do carnaval?
Folha – Na época da inauguração do Portal da Transparência pela Prefeitura, em 2009, você afirmou que o “portal era tão transparente que ninguém enxergava nada”. Agora, seis anos depois, Campos apareceu na 71ª posição entre os 95 municípios do Rio, no ranking da transparência do MPF. Afinal, o que o governo Rosinha parece querer esconder?
Bacellar – Tudo que falamos, e lutávamos contra, o tempo mostra que tínhamos razão, veja agora o ranking da transparência, com Campos na vergonhosa 71ª posição no Estado. Rosinha esconde a sua incompetência e o seu despreparo para administrar o município. Ela só quer cantar, cantar, pintar, pintar, ah ah, e o Chucky firula e joga para a galera na dança do passinho. Escutem bem e aguardem: o Plano de Cargos e Salários Municipal vai ser o maior blefe ao servidor. Esse PCS dos professores, da Guarda, dos médicos, dos fiscais, é uma piada. Usurparam a reposição salarial anual. Nunca mais os servidores terão esse índice inflacionário nos salários. Vão amargar perdas até a morte.
Folha – Após a notícia de que a deputada federal Clarissa Garotinho estaria indo para o PSDB, você cutucou na democracia irrefreável das redes sociais: “A herdeira política da prefeita quer mudar de partido com a intenção de se ver livre da rejeição que tem sua família. Tenho uma sugestão: Mude também o sobrenome que usa na urna”. Acha que a deputada vive um dilema?
Bacellar – O dilema da deputada é o presidente Eduardo Cunha (PMDB), que conhece toda nos mínimos detalhes a maneira de agir da família. Por isso eles não enfrentam ele de forma alguma. E Ronaldo Caiado (DEM), que falou a verdade em plenária, na cara de Chucky, diante de todo o Brasil, e não houve resposta até hoje? Querem se esconder no PSDB e manchar mais um partido, como eles sempre fazem.
Folha – Em 2013, você se filiou ao Solidariedade, muito por conta da boa relação com o deputado estadual Pedro Fernandes. Agora, com a possibilidade de Pedro migrar para o PL, que está perto de ser fundado, você deve acompanhá-lo?
Bacellar – Não sabemos ainda. Estão discutindo no Rio e com vários companheiros em Campos. Graças a Deus, estamos com a porta aberta em vários partidos. Pedro Fernandes é um grande amigo e parceiro. Vamos aguardar.
Folha – Arrepende-se das escolhas de 2012, principalmente por abrir mão da candidatura e apoiar Diego Dias, que acabou não se elegendo? O que 2016 reserva para Marcos Bacellar? Rodrigo, seu filho, conhecedor dos bastidores da política de Campos e do Estado do Rio, pode ser uma opção?
Bacellar – Não há arrependimento. Cada eleição tem sua particularidade, tínhamos saído de uma eleição para deputado estadual, em que ficou muita coisa pendente. Tínhamos que botar a casa em ordem. Diego Dias é um grande parceiro, que infelizmente foi traído por inveja, dentro do seu próprio partido, onde puxaram o tapete dele. Pelo que escuto na rua pelo povo, graças a Deus, acredito que o futuro me reserva um horizonte largo. Conseguimos marcar a nossa passagem na vida sindical e política, pela nossa característica de luta, mas o futuro a Deus e ao povo pertencem. Rodrigo Bacellar, de fato é uma boa opção, assim como outros jovens que habitam em nossa Campos, como Abinho, Silvinho, Alemão, Igor Pereira, Thiago Ampla, Neném, Calabouço, Bruninho Farol, Leal dos Prazeres, Pedro de Santa Maria, Serginho de Baixa Grande e vários outros. Infelizmente tenho mania de citar nomes e logicamente vou esquecer alguém.
Folha – A percepção geral, referendada (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) pelas pesquisas Pro4 e Pappel de abril, é que o governo Rosinha nunca esteve tão mal. Na consulta mais detalhada do Pro4, 65,5% dos campistas disseram que não votarão em nenhum candidato apoiado pela prefeita. A oposição está pronta para colher o que parece ser seu melhor momento em anos? Nela, quem é, em sua opinião, o melhor nome para disputar a sucessão de Rosinha?
Bacellar – Ainda respeito o poder da máquina. Mesmo com a perda dos royalites, o orçamento do município vai chegar à casa dos R$ 2 bilhões e Chucky vai fazer de tudo para não perder o pleito, custe o preço que custar. Como seus fiéis escudeiros estão mortos, ele vai ter que inventar um nome, mas não confia em ninguém. Acho que são 30 anos de poder e eles estão acabando. Temos diversos na oposição, mas temos que fazer um grande chamamento contra esse modelo de governar e assim deixarmos a vaidade e individualidade de lado, escolhendo quem vai assumir esse papel.
Folha – Comparando a bancada de oposição da qual você fez parte, no primeiro governo Rosinha, com a atual, onde ela melhorou ou regrediu? Individual e coletivamente, como analisa Nildo Cardoso (PMDB), Marcão, Rafael Diniz (PPS), Fred Machado (SD) e José Carlos (PSDC)? Vê em algum deles seu estilo combativo, sem nunca se dobrar ou temer as consequências?
Bacellar – Cada um tem a sua particularidade, sua maneira de ser e isso eu sempre respeito, porque é o jeito de cada um. Respeito a todos, e tenho simpatia e amizade por Nildo, Fred, Rafael, Marcão. Mas de fato sou porra louca mesmo. Se estou lá o “Guru” (Edson Batista), não me tira a palavra hora nenhuma e nem Chucky vai para plenária falar abobrinha e fazer espetáculo. Até porque eles sabem bem que comigo o poste não mija em cachorro.