Artigo do domingo — Estranha atitude a favor do encaixotamento do Mercado

Após o promotor Marcelo Lessa desconsiderar o apelo do Inepac para aguardar, as polêmicas obras no Mercado Municipal foram imediatamente retomadas pelo governo Rosinha (foto de Valmir Oliveira – Folha da Manhã)
Após o promotor Marcelo Lessa desconsiderar o apelo do Inepac para aguardar, as polêmicas obras no Mercado Municipal foram imediatamente retomadas pelo governo Rosinha (foto de Valmir Oliveira – Folha da Manhã)

 

 

Sindicalista e ex-vereador Marcos Bacellar
Sindicalista e ex-vereador Marcos Bacellar

Mercado Municipal

Por Marcos Bacellar (*)

 

Como cidadão campista, sempre admirei o prédio do Mercado Municipal, sempre discutimos com amigos a necessidade de reformar este prédio histórico, de tirarmos o Mercado e o Camelódromo e deixar à vista o prédio para que todos que passam pela Avenida José Alves de Azevedo possam admirá-lo. O Mercado seria recuperado e o local transformado em museu, escola de formação musical ou de pintura.

Concordávamos com o amigo Tatão (Campos Tintas) que no prolongamento da Princesa Isabel, que uma ponte deveria ser construída sobre o Valão, onde seria erguido o novo Mercado, climatizado, com peixaria, açougues e área frutas e verduras, praça de alimentação, boxes azulejados, saneamento básico, estacionamento para 1.500 carros.  Neste nosso sonho de mudar o Mercado de local sabíamos que seria necessário que esta discussão fosse levada ao conhecimento dos camelôs e dos feirantes e sabíamos da reação que teriam os mesmos por esta mudança, aproveitando da amizade que temos com Maria, Ananias, Leandro da Dora e Zé do Alho os mesmos não aceitavam discutir tal hipótese. Zé do Alho pedia pelo amor de Deus que não deixassem vazar esta conversa dentro do Mercado, pois poderíamos perder votos dos feirantes.

Explicava a Zé do Alho da falta de higiene, que as bancas que davam movimento eram só as que estavam na beira da calçada. Falta de estacionamento e outros problemas. Mostramos que os mesmos iam perder muito com a chegada dos hortifrutis. Isto tudo independente do rodízio que pode ser feito nos parques e bairros de nosso município de feiras itinerantes com apoio do poder Executivo.

Para os trabalhadores autônomos, os do Camelódromo. Tínhamos sugestões tais como o prédio antigo do Legislativo, onde hoje é a Justiça Eleitoral, onde daria para fazer mais de 100 boxes, seria um Camelódromo central e vertical na Avenida Alberto Torres ou outro no Novo Mercado, bem como também desapropriar alguma área perto do antigo Mercado e construir um novo espaço para os camelôs.

Não podemos encerrar qualquer discussão e acabar com o contraditório, senão não surgem novas ideias e as soluções para os novos problemas.

Envio este texto, não para que seja publicado, mas porque acredito que tenho esse direito e essa obrigação como cidadão, ex-presidente do legislativo campista que aprovou em nossa administração o Plano Diretor que esta em vigor em nosso município e como assinante da Folha da Manhã. Acompanho pelo jornal o debate sobre o empastelamento do Mercado Municipal, muito bem promovido e muito interessante e benéfico para os campistas.

O Plano Diretor foi promulgado em nossa época, criamos uma comissão na Casa Legislativa, presidida pelo companheiro vereador Geraldo Venâncio, este que me ajudou a administrar como vice-presidente, e que julgo uma pessoa capaz, inteligente e preparada e que contou com a contribuição de outros colegas vereadores e com todo apoio externo solicitado por ele para desenvolver, analisar e alterar o que fosse necessário no plano que tinha sido enviado pelo Executivo à Casa Legislativa. O Plano Diretor que foi promulgado em 31/03/2008 pela Câmara Municipal de Campos, visto que o prefeito interino devolveu tanto este documento e várias outras leis à Casa Legislativa sem nenhuma análise. Sendo que o procurador legislativo Dr. João Paulo Granja, conforme a lei orgânica do município, caberia ao presidente do legislativo promulgar ou não a lei.

Respeito muito as idéias e colocações e tenho na conta de uma das maiores autoridades no município em termos de conhecimento, estudo e cultura e  de preservação do patrimônio histórico e meio ambiente de Campos o professor e historiador Aristides Soffiati (aqui). Não o conheço pessoalmente, mas ouço de meus amigos que ele é radical em suas colocações, o que não me surpreende pela dificuldade de assumir publicamente ideais ecológicos e de preservação.

Infelizmente acho estranha a atitude do promotor Marcelo Lessa na última greve dos rodoviários em Campos (aqui), como também a sua colocação a favor do encaixotamento do Mercado (aqui), colocando como ponto final (aqui) a sua opinião.

É procurador do município?

E por falar em Mercado e Camelódromo, como anda o Cepop que custou mais de R$ 100 milhões? E o rombo de (Francisco) Esquef (ex-secretário de Finanças da prefeita Rosinha Garotinho) que custou mais de R$ 100 milhões? Com estas verbas seria possível fazer algo mais útil ao povo de Campos dos Goytacazes?

 

(*) Ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de Campos

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Entrevista do domingo — “Rosinha tem avaliação melhor que a maioria dos prefeitos”

Na entrevista, lê-se uma deputada federal Clarissa Garotinho evasiva ao falar da saída do PR ao PSDB. Para quem sabe ler além, como não negou, a possibilidade (aqui) existe. Entre Brasília, Rio e Campos, ela não se negou a falar do resto, nem que tenha sido para contestar as pesquisas que revelam o momento ruim do governo Rosinha, a idoneidade dos institutos e a divulgação dos resultados. Ela também considerou ousadia, não erro, a candidatura do pai ao governo do Rio, em 2014, mesmo que seu resultado prático tenha sido a volta dele a Campos. Enquanto chamou a oposição da cidade de irresponsável, ela ressalvou que a renovação no seu grupo tem que ser dos personagens, mas na defesa do mesmo legado.

 

Clarissa Garotinho

 

Folha da Manhã – Seu nome já surge nas pesquisas para Prefeitura do Rio em 2016. Em 2012, na aliança entre PR e DEM, com você como vice na chapa encabeçada por Rodrigo Maia, o resultado eleitoral foi decepcionante. Acha que poderia ser diferente no ano que vem, diante de pré-candidaturas fortes como Romário (PSB) e Marcelo Freixo (PPS)?

Clarissa Garotinho – Sobre a eleição passada é importante esclarecer que o vice pode agregar, mas ninguém vota em vice. Eu mesma nunca disputei uma eleição majoritária, mas me preparo para isso algum dia. É cedo para falar sobre as eleições municipais. Minha prioridade agora é fazer um bom trabalho na Câmara dos deputados. Romário sem dúvidas é um forte candidato, mas até agora ninguém sabe se ele vai disputar ou não.

 

Folha – Após a derrota de Anthony Garotinho no primeiro turno da eleição a governador de 2014, em outro resultado eleitoral frustrante, restaram apenas Pros e PT do B na aliança estadual. Basta? Como ampliar esse leque para 2016?

Clarissa – Cada eleição é uma eleição. E a política é muito dinâmica.

 

Folha – Você tem se destacado pelas posições contrárias ao presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB). Chegou a chamar de “vergonhoso” (aqui) o depoimento dele na CPI da Petrobras, quando acabou elogiado pelos colegas. A intenção é repetir, em Brasília, o início do seu pai em Campos contra o ex-prefeito Zezé Barbosa, polarizando com quem é maior para tentar crescer?

Clarissa – Não. A sessão da CPI, uma comissão de inquérito, se transformou em sessão de homenagens ao presidente Eduardo Cunha, denunciado na Lava-Jato e acusado de preparar requerimentos para outros parlamentares assinarem com o objetivo de pressionar empresas e forçar o pagamento de propinas. Foi vergonhosa mesmo a CPI.

 

Folha – Cunha afirmou em rede nacional que seu maior erro foi ter se aliado no passado a Garotinho. Como avalia o desempenho dele na presidência da Câmara, capaz de impressionar mesmo veteranos, como seu colega de bancada Paulo Feijó (PR), pelo ritmo de trabalho imposto à Casa?

Clarissa – Realmente o ritmo da Câmara está bastante acelerado. Mas os fins não justificam os meios. Acho importante que a Câmara seja um poder independente e harmônico com os demais poderes da República. Mas isso tem que ser real, e não objeto de chantagem.

 

Folha – Enquanto deputada federal que vai discutir e votar a reforma política, qual sua posição sobre questões como voto distrital, financiamento de campanha, redução do mandato de senador, cláusula de barreira e reeleição?

Clarissa – A Reforma Política será uma mini reforma eleitoral. Não acredito em grandes mudanças. O presidente quer adotar o sistema distritão, onde entram os mais votados. No discurso fácil parece muito bom. Mas não é. Favorece quem já tem mandato e personalidades. Dificulta a renovação, torna as campanhas mais caras e a política ainda mais personalista. Infelizmente o sistema proporcional, que é o mais democrático, está fracassando pela enormidade de partidos políticos e pela falta de identidade de cada um deles. Acho que o sistema proporcional com o fim das coligações seria o melhor para o momento. Existe uma última tentativa de um acordo em torno do sistema distrital misto, que seria minha segunda opção. Agora o distritão é considerado uma aberração pela maioria dos cientistas políticos.

 

Folha – O PR e, sobretudo, seu pai, tem se marcado por posições dúbias, integrando a bancada governista, mas com críticas fortes ao PT e à administração de Dilma Rousseff (PT), isolada em sua pior crise de popularidade desde que foi eleita presidente a primeira vez em 2010. Particularmente, o que acha não só de Dilma e seu governo, mas dos últimos 13 anos do Brasil sob comando do PT?

Clarissa – Não há nenhuma dubiedade. O Garotinho é sempre muito claro nas posições dele, às vezes até sofre críticas por isso. O PR nacional tem agido com imensa fidelidade à presidente Dilma. Mas o fato relevante é a imensa insatisfação de um número de parlamentares e filiados que não concordam com muitas medidas apoiadas e implementadas pela presidente que contrariam suas promessas de campanha, como a regulamentação da terceirização para atividade-fim e as novas regras que dificultam o acesso ao seguro desemprego. Eu faço parte deste grupo.

 

Folha – Na edição de quinta de O Globo, o colunista Ancelmo Gois deu (aqui) como certa sua saída do PR, especulando que seu destino mais provável é o PSDB, numa costura com o líder dos tucanos na Câmara Federal, deputado Carlos Sampaio. Sua saída é certa? E o novo destino?

Clarissa – Outra hora falamos sobre isso.

 

Folha – Sobre a sucessão de Rosinha em 2016, você disse (aqui) em entrevista ao Blog do Bastos: “Em 2016, o PR só precisa escolher o candidato certo, que o una o partido e dialogue com a sociedade”. Diante das dificuldades históricas do garotismo junto ao eleitor de maior escolaridade e renda, esse diálogo seria mais fácil com candidatos como o vice-prefeito Dr. Chicão (PP) ou o vereador Mauro Silva (PT do B)?

Clarissa – Interessante você falar em garotismo. Isso só amplia a relevância do Garotinho na política do nosso Estado. Já ouvimos falar em lacerdismo, getulismo, brizolismo, chaguismo… Mas nunca ouvimos falar de cabralismo, moreirismo e tampouco teremos o pezismo. Continuo achando que é cedo para definir nomes e que o melhor candidato é aquele que conseguir unir o maior número de virtudes: competência, lealdade, capacidade administrativa e de diálogo com a sociedade.

 

Folha – Na mesma entrevista, você disse que sua mãe conseguiu se reeleger porque teve o primeiro governo bem avaliado. Por essa lógica, as coisas se dificultam para 2016, quando as duas últimas pesquisas junto ao campista, feitas em abril por Pappel e Pro4, deram (aqui) ao governo Rosinha, respectivamente, 43% e 39,7% de ruim e péssimo, diante de só 19,9% e 26,3% de bom e ótimo?

Clarissa – Queda de avaliação é natural neste momento de crise nacional e nós ainda fomos afetados com a crise do petróleo que nos fez perder 40% da arrecadação. Não existe mágica matemática. Diminui receita, é preciso fazer cortes. E todo corte produz insatisfações. Além disso, o sentimento geral do país é negativo. Com o aumento da inflação, o poder de consumo fica reduzido. Estamos sofrendo o reflexo de tudo isso. Ainda assim, somos aprovados por mais da metade da população. Aquela que entende que a prefeita mudou a cara da cidade, que estamos buscando preservar as principais conquistas sociais e que torcem pra que a cidade supere este momento difícil.

 

Folha – Mais detalhada, a pesquisa da Pro4 aferiu (aqui) que 65,5% do eleitorado hoje não votariam no nome apoiado por Rosinha em 2016. E essa rejeição a qualquer candidato governista chega a 90% entre os que têm curso superior e 92,9%, naqueles que ganham mais de cinco salários mínimos. Como reverter números tão negativos nos próximos 16 meses?

Clarissa – A pesquisa de boca de urna no Estado, quando todos já tinham votado, indicava Garotinho e Pezão no segundo turno com uma diferença de apenas 6 pontos. Me diga você: devo acreditar em pesquisas? Tem pesquisa séria, tem eleição estranha, tem instituto que vende pesquisa… não sei qual é a função de divulgar pesquisa. Influenciar o eleitor? Fazê-lo mudar de opinião?

 

Folha – Em 2012, antes de sua mãe disputar e vencer a reeleição ainda no primeiro turno, você desdenhou, mas acertou ao afirmar (aqui) que “a oposição em Campos não faz nem cosquinha”. Diante dos números de avaliação popular hoje desfavoráveis (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui), a mudança se deve mais a acerto dos opositores ou erros do governo?

Clarissa – Se você insiste em falar de pesquisa e números eu te digo uma coisa: Rosinha tem avaliação melhor que a maioria dos prefeitos do Rio e do país. O momento é de crise nacional, a avaliação de todo mundo sofreu impactos. A oposição da cidade é ruim, por que não é oposição responsável. Eu votei a favor do governo várias vezes quando fui deputada estadual, porque os interesses coletivos devem estar acima dos interesses pessoais. Nunca fiz oposição ao Estado, embora discordasse veementemente do Governador. Aqui misturam as coisas e acabam fazendo oposição à cidade.

 

Folha – Falando sinceramente, o maior erro recente do seu grupo não foi ter insistido na candidatura de Garotinho a governador, sem conseguir chegar ao segundo turno, além de neste ter apoiado Marcelo Crivella (PRB), perdendo (aqui) para Luiz Fernando Pezão (PMDB) em cinco das sete zonas eleitorais de Campos? 

Clarissa – Ganhar e perder faz parte do processo político e da vida. Erro é não defender suas ideias e buscar seus sonhos. Ele sabia que enfrentaria uma forte estrutura econômica e que o campo popular estaria dividido em três. Mas quis correr o risco, e a diferença pro Crivella foi muito pequena. Se Garotinho não fosse ousado jamais teria saído da rádio Continental de Campos e chegado a ter seu nome entre os principais candidatos à presidência da República, com mais de 15 milhões de votos. Há pessoas que ficam estacionadas na vida, observando e até criticando a trajetória dos outros. Nem sempre tudo dá certo, mas o que vale é a coragem e disposição para enfrentar a vida e seus desafios.

 

Folha – Militante histórico do garotismo, o deputado estadual Geraldo Pudim tem declarado entender que um ciclo do movimento se esgotou, desde que tomou as rédeas de Campos em 1989, e precisa agora se reciclar para ter êxito em 2016. Concorda? Por quê? 

Clarissa – Fico feliz de saber que ele pensa assim. Renovação não significa desconsiderar a importância de cada pessoa que ajudou a construir uma história, significa apenas que ela precisa de novos formatos, nova linguagem e novos personagens que vão defender o mesmo legado. A política é feita de ideias. Os líderes formulam essas ideias, que inspiram outras pessoas, em várias gerações e abrem espaços para elas. E essas pessoas tem o dever de dar sequencia, de atualizar as ideias, de traçar novas estratégias. E também de serem respeitosos e leais com aqueles que os inspiram.

 

Folha – Wladimir (PR) e o deputado estadual Bruno Dauiare (PR), apoiado por seu irmão e você na última eleição, fazem parte dessa reciclagem? Quem mais? Você representa a renovação do garotismo apenas no Rio e Brasília, ou pensa em um dia também sê-la em Campos?

Clarissa – A renovação é reconhecida, não deve ser auto-intitulada.

 

Folha – Campos lhe deu 47.470 votos na última eleição, equivalentes a impressionantes 19,89% dos votos válidos parta deputado federal. Como pretende honrar essa votação na Câmara Federal e o que isso é capaz de projetar ao seu futuro no município?

Clarissa – A minha cidade sempre poderá esperar de mim dedicação e trabalho. Em Brasília já me reuni com o ministro dos Portos para acelerar os estudos para a implementação da segunda fase do Porto de Barra do Furado. Já estive no DER cobrando respostas sobre a licitação que emperrou as obras que ligam Campos a Quissamã, nos reunimos com a Companhia aérea Azul para tentar a volta dos voos para o Santos Dumont, estamos monitorando a execução das emendas parlamentares para a cidade e trabalhando incansavelmente pela aprovação no Senado do projeto que cria o Fundo de Recuperação Econômica dos Municípios Produtores de Petróleo. Sei o tamanho da confiança que a minha cidade me cofiou e sei o tamanho da responsabilidade que isso representa.

 

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Crítica de cinema — O falso mentiroso

Cinefilia

 

 

O vendedor de passsados

 

Mateusinho 3O VENDEDOR DE PASSADOS — Numa de suas muitas críticas à cultura do simulacro, o saudoso livre pensador Jean  Baudrillard (1929-2007) propôs uma reflexão de “Perdidos de vista”, reality show francês dedicado à busca de pessoas desaparecidas, programa que faria de seus  telespectadores os verdadeiros sumidos, à espera de serem arrancados do anonimato a que estão condenados do outro lado da tela. Foi assim que imaginou a história de um ilusionista, como David Copperfield (o famoso no Brasil, pela tevê, nas décadas de 1980 e 1990; não o personagem de Charles Dickens), que – capaz de fazer sumir, por prestidigitação, animais e objetos –, sem querer, desaparece com a assistente de palco, mulher que o mágico nunca mais consegue trazer de volta.

Na mesma semana da estreia cinematográfica em Campos da nova versão de “Poltergeist – O fenômeno”, que leva a protagonista mirim da trama para o outro lado do televisor, por obra de forças sobrenaturais, eis que chega também por aqui um filme nacional em que o personagem principal tem como função inventar e vender passados a certas pessoas que, sem eles, talvez não conquistassem tão fácil e rapidamente os futuros com que sonham.

É desse jeito que “O vendedor de passados” Vicente (Lázaro Ramos) consegue uma noiva para Ernâni (Anderson Muller), homem rico, mas ex-gordo, virgem de (mais) de quarenta anos, porque sem habilidade com as mulheres e criado por mãe que apanhava do pai. Em parceria com o médico Jairo (Odilon Wagner), responsável por submeter Ernâni a uma cirurgia bariátrica, Vicente se incumbe de elaborar um álbum em que o personagem de Muller ostenta fotos de um falso casamento com uma falsa ex-mulher. Fisicamente recauchutado e economicamente endinheirado, um solteirão na idade dele conseguiria sem grande embaraço uma pretendente se somasse a seu currículo a condição social de divorciado. Como que por inspiração de ideias freudianas e frankensteinianas, a ex de papel do cliente em questão é materializada, a partir da manipulação de imagens no computador, com traços físicos da genitora dele — e não poderia parecer-lhe mais adequada.

Não é bem assim que o hábil Vicente recebe o desafio lançado pela personagem de Alinne Moraes. Contrariando todos os protocolos desse vendedor de passados, ela chega ao estúdio dele sem avisar e não revela nada de seu passado (nem mesmo seu nome), a não ser cicatrizes que traz nas costas. A moça faz apenas uma exigência a esse frequentador e consumidor de produtos da Feira de Antiguidades da Praça XV do Rio de Janeiro: que faça dela a responsável por um assassinato.

Órfão que só conhece seus pais adotivos, Vicente tem por hábito recriar não só vidas alheias, mas a sua própria. Conquista mulheres que leva para seu apartamento, apelando para a comoção delas. A cada uma mostra um novo passado, em registros em VHS de reportagens de TV conduzidas pelo pai de criação falecido — matérias que fazem desse charlatão um sobrevivente recém-nascido de toda sorte de tragédias que teriam vitimado seus supostamente verdadeiros genitores (chacina, incêndio). Depois de dar à personagem de Alinne Moraes o nome de Clara — agora a assassina de um falso pai adotivo, um torturador portenho de uma das ditaduras da Argentina —, Vicente a inclui na lista das seduzidas. Mas, ao contrário das outras, ela não só não acredita numa das versões em vídeo para o passado do embusteiro, como o passa para trás (usando a história que compra a ele e transforma num livro de sucesso) e o leva a buscar, com a mãe adotiva, sua verdadeira e ignorada origem. Que, em meio a uma trama de tantas mentiras, pode muito bem não ser a mostrada a ele (e ao público) em certa altura deste longa-metragem. Como o ilusionista de Baudrillard, Vicente já não tem controle sobre sua especialidade.

Primeiro drama de Lula Buarque de Hollanda (documentarista que, no campo da ficção, dirigiu “Casseta & Planeta – A taça do mundo é nossa”), “O vendedor de passados” é uma adaptação livre de um romance homônimo do escritor angolano José Eduardo Agualusa. Com uma abertura para um número de questões inversamente proporcional à duração relativamente curta do longa (não chega a hora e meia) e um desfecho menos imprevisível para cinéfilos que para o grande público. O que não é pouco, em termos de produções da Globo Filmes e, sobretudo, em meio a tanta comédia nacional  no padrão da Vênus Platinada que chega aos palcos do Trianon ou às salas de cinema de Campos (sentada numa cadeira atrás da ocupada pelo autor destas linhas, uma senhora que certamente esperava do filme algo como o que encenam seus atores em telenovelas reclamou: “Ah, que palhaçada!”).

 

Mateusinho viu

 

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Confira o trailer do filme:

 

 

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Quer aprender sobre cinema e teatro? Então vá ao Sesi!

Sesi 30-05

 

Enquanto boas produções locais, como o filme “7Solidões” (2015), de Carlos Alberto Bisogno, evidenciam aqui o quanto o cinema de Campos ainda precisa evoluir em muitos aspectos, iniciativas como as do Sesi-Campos, capitaneadas pelo incansável diretor teatral Fernando Rossi, dão chance para que isso aconteça. No próximo sábado (30/05), às 10h da manhã, o espaço promove o worshop “Cadeia produtiva do mercado audiovisual”, ministrado pelo Victor Lotte, com vagas limitadas, ao custo individual de R$ 15,00.

Antes disso, com entrada franca, às 20h da próxima quarta (27/05) a peça “Apoptose”, do Teatro Universitário da UFF (Tuff), leva ao palco a apresentação de técnicas teatrais e expressões corporais para discutir questões sociais, políticas, filosóficas e estéticas, passeando pelas máscaras opostas e complementares da tragédia e da comédia. Após a encenação, rola um bate papo com o diretor Luiz Esparrachiari.

Acima e  abaixo os cartazes dos dois eventos:

 

Sesi 27-05

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Crítica de cinema — Uma comédia para ficar triste

De olhos bem abertos

 

 

Divã a 2

 

Mateusinho 1Divã a 2  — “O Divã”, filme de José Alvarenga Jr. lançado em 2009, contava a história de uma mulher de meia idade, aparentemente feliz, que acudia ao psicanalista tentando descobrir a causa de certo desconforto emocional. No processo, a personagem iria descobrir o seu ‘outro lado’, passando a questionar valores aparentemente sagrados como o matrimonio, a fidelidade, a devoção ao lar, etc.

“Divã a 2”, por sua vez, se apresenta como uma seqüência desse primeiro filme, ao utilizar a mesma arte visual no seu título e tratar sobre personagens que contam suas vidas perante um psicólogo. Entretanto, as similitudes param por ai. E não apenas porque sejam atores e situações diferentes, mas principalmente porque suas ‘mensagens’ diferem completamente. Além disso, o primeiro longa funcionava como comédia, enquanto o segundo não apenas  falha estrondosamente na tarefa de provocar sequer um sorriso, como nos apresenta um falso final feliz que na verdade é profundamente desolador.

Eduarda (Vanessa Giácomo) é uma médica ortopedista casada com Marcos (Rafael Infante), produtor de eventos. Embora ambos sejam profissionais bem sucedidos, a relação entre eles não anda muito bem, revelando o desgaste de um casamento prematuro. De comum acordo, o casal decide ‘dar um tempo’ no relacionamento, e assim cada um irá se aventurar na procura de novos parceiros amorosos, enquanto lidam com os problemas derivados da separação, especialmente no que diz respeito ao cuidado do filho de 10 anos.

O segundo ato do filme, assim, se dedica a mostrar os encontros românticos que cada um deles experimenta com terceiros. Enquanto Marcos parece encarar essa nova etapa da sua vida sem nenhum tipo de peso na consciência, a Eduarda se revela reticente em abrir seu coração, mas a sua melhor amiga (Fernanda Paes Leme) dará a ela alguns conselhos sobre como ‘se soltar’ e começar a curtir a sua nova vida de desimpedida.

Até esse ponto, o longa poderia ser qualificado como uma comédia romântica medíocre: as cenas carecem do timing adequado; o desempenho dos atores é bastante desigual (destaque para Giácomo, pela beleza e pelo talento) e as situações são previsíveis e ligeiramente engraçadas. Surpreende, pelo descaro, o ‘merchand’ que é realizado de certos produtos: a câmera passa a focar neles interrompendo a narrativa grosseiramente.

Todavia, o pior está por chegar. O terceiro ato é um desastre na narração, na direção (uma constrangedora cena de Fernanda Paes Leme que destoa de seu aceitável desempenho até esse ponto) e, no pior de tudo, na ‘moral’ da história. Pois, se até o final do segundo ato a ideia que se passava era a importância de Eduarda procurar a felicidade sem se importar com os convencionalismos impostos pela sociedade e pelo machismo, na terceira parte o roteiro força a barra para que uma série de eventos a obriguem a decidir o seu futuro da forma menos voluntária que poderia acontecer.

Um filme, assim como qualquer narração, é um caminho a ser atravessado por um personagem. Quem determina o percurso é o personagem, mas o próprio caminho também faz mudar, em algum aspecto, o indivíduo. Em “Divã a 2” a Eduarda percorrerá um trajeto circular, e a maior angústia que terá o espectador será perceber que nem a personagem, nem os realizadores, se deram conta disso. A imagem congelada da última cena, supostamente feliz, é tão perturbadora quanto o sorriso de Rafael Infante. Nos créditos finais aparecerá o único lance engraçado de “Divã a 2”, mas virá tarde demais.

Tomei o (leve) trabalho de contar, no inicio do filme, as logomarcas das entidades privadas e públicas que cooperaram na realização: foram 15. Para ser um longa que se limita a mostrar pessoas falando frente à câmera, cabe perguntar qual o destino, e o sentido, de tanto apoio, patrocínio e colaboração

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Pré-estreia de “A Matrioska” nesta sexta no Sesc

Depois de convencer como dramaturgo num universo do qual é íntimo, entre as desventuras das salas de aula, o professor e poeta Adriano Moura tem ambientado suas últimas peças fora dos muros escolares. Talvez o equilíbrio da comédia dando fluidez à tragédia do sistema educacional (e manicomial) brasileiro, em peças como “Diário de classe” e “Meu querido diário”, não tenha se repetido em “O julgamento de Lúcifer”, entre o céu e o inferno superficiais de um talk show.

Por isso mesmo, importante conferir o novo trabalho desse talentoso e múltiplo artista das letras campistas, cuja nova peça, “A Matrioska ou o jogo da verdade”,  premiada no Festival Nacional de Dramaturgia da Federação de Teatro do Estado do Rio de Janeiro (Faterj), tem pré-estreia marcada para esta sexta  (22/05), às 20h, no Sesc-Campos. No palco, nas palavras de Adriano: “Já imaginou um médico que pensa como Jair Bolsonaro, recebendo em sua casa uma atriz decadente usuária de drogas e um advogado gay e seu namorado, para beber, comer e assistir a um jogo do Brasil enquanto as ruas estão tomadas por pessoas protestando contra a taxa de iluminação? As coisas às vezes são o que não parecem”.

Com direção de Fernando Rossi, o elenco traz Caio Paes de Freitas, Daniel Azeredo, Katiana Rodrigues, Liana Velasco e Mayko Gente Boa. Pelo autor, diretor e atores, naquilo que o segundo definiu como “uma comédia corrosiva”, vale a pena a conferida.

 

(Foto de Valmir Oliveira - Folha da Manhã)
(Foto de Valmir Oliveira – Folha da Manhã)

 

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“É a economia, estúpido!” — Correlação entre inflação e popularidade de Dilma e Lula

Em meio do exercício fútil de vaidades, dos “pastores” de auto-ajuda e demais baboseiras que pululam diuturnamente na democracia irrefreável das redes sociais, felizmente existem aqueles que utilizam a valiosa ferramenta com inteligência na taba goitacá. Um deles é o economista e analista político Ranulfo Vidigal, que divulgou aqui uma correlação interessante, colhida junto aos cariocas pelo instituto de pesquisas GPP, entre a percepção da inflação e a erosão na popularidade da presidente Dilma Rousseff (PT) e do seu antecessor (e criador), Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Como sentenciou James Carville, estrategista eleitoral de Bill Clinton, na campanha vitoriosa deste à presidência dos EUA em 1992: “É a economia, estúpido!”. Na dúvida, confira:

 

GPP

 

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Ranulfo Vidigal

Pesquisa GPP na cidade do Rio de Janeiro – 1200 entrevistados entre 9 e 10 de maio.

1. A avaliação geral de Dilma: ótimo+bom 7,6%, e ruim+péssimo 71,6%.

2. Quando é feito o cruzamento com a Percepção da Inflação os resultados mudam. Os que acham que a inflação anual é superior a 10% dão a Dilma 4,8% de ótimo + bom e 78% de ruim+péssimo. Os que acham que a inflação está perto de 10% dão a Dilma 6,5% do ótimo+bom e 72,2% de ruim+péssimo.

3. Porém, os que acham que a inflação está em 5% ou menos dão a Dilma 23% de ótimo+bom e 46% de ruim+péssimo.

4. Ou seja: elas por elas, a inflação no Rio está tirando uns 30 pontos da avaliação de Dilma.

5. De forma geral, o crescimento da inflação tem impactado negativamente em Dilma e Lula. Ou seja, a inflação é um componente significativo da impopularidade de Dilma e Lula.

 

 

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Crítica de cinema — O retorno de Mad Max

Cinematógrafo

 

Mad Max

 

Mateusinho 3Mad Max: estrada da fúria — Depois de três filmes da série “Mad Max” (1979, 1981, 1985), George Miller, aos 70 anos de idade, retorna dirigindo “Mad Max: estrada da fúria”. Sua volta às telas com o personagem que o projetou e a Mel Gibson lhe permitiu se valer de toda a tecnologia que a arte cinematográfica desenvolveu nos últimos 30 anos. O novo “Mad Max” foi filmado em 3D. Nele, as correrias, as perseguições, as lutas são tantas que, confesso, senti falta de um pouco de calma para refletir melhor. É preciso, por um momento, suspender a ação em 3D para pensar mais sobre o roteiro coescrito pelo próprio Miller.

Como os anteriores, “Mad Max” é uma distopia, ou seja, uma concepção pessimista de futuro. Distopia é o oposto de utopia, concepção otimista de futuro. As utopias foram muito frequentes na Europa dos séculos XVI e XVII, mas a tecnologia, que prometeu dias melhores à humanidade, está estimulando distopias, principalmente depois das duas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos sobre o Japão em 1945, encerrando a Segunda Guerra Mundial. Vários são os motivos para a germinação de distopias, no mundo atual, e uma guerra nuclear não é tanto um deles. A superpopulação do planeta, as pandemias e a crise ambiental são campos mais férteis para elas.

“Mad Max” é uma distopia ambientada num futuro em que a humanidade, ou o que restou dela, vive em situação de extrema escassez de terras férteis, de água, de Estado, de governo, de leis e de tudo aquilo que nós ainda denominamos civilização. “Mad Max” é fruto da destruição da civilização pela civilização, que vem, de fato, provocando a esterilidade do solo  e a escassez de água. A civilização ocidental globalizada fabrica desertos e esgota as águas. “Mad Max” pode advertir o Oriente Médio e a Rússia, onde os desertos se ampliam, ou o Sudeste Brasileiro, onde a água, outrora abundante, torna-se cada vez mais rara.

Em 1981, o escritor brasileiro Ignácio de Loyola Brandão publicou a distopia “Não verás país nenhum” sobre o Brasil do futuro. Na minha opinião, trata-se do melhor romance futurologista que conheço. E, neste terreno infértil, tenho lido quase tudo que sai no Brasil e no exterior. O romance de Brandão é mais detalhista que “Mad Max”. Na minha avaliação, ele só peca por mostrar que este futuro sombrio está restrito ao Brasil. Nos Estados Unidos, ele já teria se convertido em filme.

Embora distopia, “Mad Max” abriga uma utopia chamada Vale Verde. O herói solitário, sem querer, acaba se juntando a um grupo de mulheres liderado pela imperatriz que persegue este paraíso no meio do caos. Contudo, o herói convence as mulheres que o futuro promissor está no passado, no lugar de onde eles partiram. O filme é também um manifesto feminista que não convence muito num mundo dominado por homens rudes minimamente organizados em classes sociais constituídas por pessoas estropiadas, por guerreiros criados como formigas e por uma elite formada por figuras teratológicas e violentas, sob a égide de fanatismo religioso. Invocando as fábulas fabulosas de Millôr Fernandes, num mundo assim, não há lugar para os bons sentimentos. Todos são seres vivos lutando pela sobrevivência. No máximo, são reconhecidos mulher e homem como seres para os quais o sexo é uma necessidade básica. Mas não há cenas de sexo no filme.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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