A partir das 7h da manhã desta segunda, o vereador Anderson de Matos (Republicanos), também pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, abrirá semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3. Ele comentará as críticas que sofreu por sua declaração sobre a pandemia da Covid, na análise feita por seis especialistas da ciência (confira aqui) em matéria da Folha da Manhã.
Anderson também falará sobre a polêmica envolvendo seu projeto turístico para Lagoa de Cima, acusado por ambientalistas (confira aqui, aqui, aqui e aqui) de tentar reduzir a área de proteção da margem da lagoa. Por fim, o vereador fará uma análise dos 130 dias do governo Wladimir Garotinho (PSD) e da nova Câmara Municipal.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Arthur Soffiati, eco-historiador, professor e escritor
Três lagoas de Campos e o turismo
Por Arthur Soffiati
Um documento redigido em 1995 por Mônica Miranda Falcão e Verônica da Matta, pesquisadoras da extinta Superintendência Estadual de Rios e Lagoas (SERLA) mostra que o estado do Rio de Janeiro conta com o total de 105 lagoas, das quais 67 se encontram no recorte que recebeu sucessivamente os nomes de Distrito dos Campos Goytacazes, Comarca de Campos e Região Norte-Noroeste Fluminense (Relação das lagoas do estado do Rio de Janeiro. Superintendência Estadual de Rios de Lagoas, 1995). Embora tenha sido um levantamento superficial, pois baseado apenas na Carta do Brasil 1:50.000, lançada em 1968, e sem confirmação no terreno, trata-se de um levantamento pioneiro que confirmou o norte fluminense como a verdadeira Região dos Lagos. Um levantamento histórico revelaria número maior de lagoas, extintas por drenagem e por aterro.
Provavelmente, não existem mais essas 67 lagoas. Várias já devem ter sido drenadas nos 25 anos que se passaram desde o levantamento das duas pesquisadores. Dentre as lagoas levantadas, pelo menos três apresentam ou apresentavam atrativos turísticos. Entre elas, não está a grande lagoa Feia, que sempre impressionou por suas dimensões, mas não por sua beleza, embora seja bela aos olhos de estudiosos. A mais famosa lagoa com potencial turístico é, sem dúvida, a lagoa de Cima, desde o século XVIII elogiada por sua encanto. Com a serra do Imbé ao fundo e com águas aparentemente cristalinas, a lagoa de Cima fascina.
Em 1992, o prefeito Anthony Garotinho sancionou uma lei que a transformou em Área de Proteção Ambiental (APA), mas ele mesmo favoreceu dois hoteleiros a iniciarem a construção de um hotel em área proibida às margens da lagoa. A iniciativa não foi adiante por pressão dos ambientalistas. Recentemente, o subsecretário de meio ambiente de Campos anunciou que vai encaminhar o plano de manejo da APA da lagoa para debate e aprovação. Quase 32 anos após a criação da APA por lei, ainda não existe um plano de manejo em vigor. Enquanto isso, a faixa marginal de proteção com largura de 300 metros foi invadida por pobres e ricos, que, no interior dela, consolidaram suas edificações.
Agora, um vereador de Campos empenha-se em revogar uma lei estadual através de um deputado do seu partido a fim de reduzir essa faixa para 50 metros. Tomando como base os 30 metros definidos genericamente pelo Código Florestal para todo o Brasil, ele ainda se gaba de aumentar essa faixa mínima em 20 metros. Basta uma enchente igual, menor ou maior que a de 2008-9 para afogar todas as casas construídas numa faixa de 50 metros.
A intenção do vereador é promover o turismo com a permissão de construção de hotéis próximos à lagoa. Segundo ele, Campos não pode desperdiçar a oportunidade de auferir rendas com o turismo, já que a situação econômica e financeira do município é crítica. De fato, Campos perdeu a oportunidade de caminhar com as próprias pernas, montando uma estrutura econômica que lhe desse autonomia quando os recursos dos royalties do petróleo jorravam pelas torneiras. O desperdício foi irresponsável. Foi atitude de um novo-rico que não sabe o que fazer com o dinheiro.
Diante da nova situação, não há de ser a lagoa de Cima nem a atividade turística que vão salvar ou atenuar a situação financeira de Campos. Como já dissemos no artigo da semana passada, a região não apresenta atrativos turísticos que tragam pessoas de outras regiões para cá. A região não tem sequer a capacidade de reunir os governantes municipais para traçar um plano de turismo voltado para o turismo interno regional. Dentro da região, quem tem dinheiro e mora em Campos não sairá de sua casa para se hospedar num hotel às margens da lagoa de Cima. Quem mora em outros municípios da região, visitará a lagoa de Cima e se hospedará num hotel da cidade. Quem é pobre e mora longe vai se contentar com algum atrativo no seu município. O pobre que mora em Campos dispõe, no máximo, de recursos para chegar à lagoa de Cima de ônibus. Hospedar-se em hotel é inviável para ele.
Assim, reduzir a faixa de proteção para atrair hoteleiros é um salto no escuro. Construir hotéis na orla da lagoa é um risco financeiro duplo: o hotel pode ser atingido por uma enchente ou falir por falta de hóspedes.
A segunda lagoa é a do Vigário, a mais conhecida lagoa de tabuleiros de Campos. O plano urbanístico Coimbra Bueno, de 1944, pretendia transformá-la num parque para os moradores da cidade de Campos pelo menos. Para tanto, o escritório de urbanismo previu a sua proteção com um anel rodoviário ligando as margens direita e esquerda do rio Paraíba do Sul. Mas o prefeito José Carlos Vieira Barbosa cortou-a ao meio com um aterro para ligar as duas margens por meio da avenida Salo Brandt, hoje Tancredo Neves. Brandt foi prefeito interventor de Campos e, na sua gestão, foi concebido o Plano Coimbra Bueno.
Hoje, a lagoa foi densamente ocupada por edificações e perdeu qualquer atrativo turístico, por mais que a prefeita Rosinha Garotinho tenha maquiado metade do rosto dela para a recreação local. Faltou falar do Lagamar, mas também faltou espaço.
Engenheiro, economista, primeiro reitor da Universidade de Brasília (UNB) eleito após a nossa última ditadura militar (1964/1985), ex-governador do Distrito Federal pelo PT, no qual implantou o Bolsa Escola em 1995, depois adotado no governo federal Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e ampliado como Bolsa Família no carro chefe dos 13 anos petistas no comando do país, Cristovam Buarque foi também ministro da Educação de Lula. E senador duas vezes: uma pelo PT e reeleito pelo PDT, pelo qual disputou a presidência da República em 2006. Como educador e político, é um currículo nacional de destaque. Que se aproxima de Campos nesta sexta (14), no debate virtual “A política econômica do desenvolvimento: de Vargas aos nossos dias”, entre 16h e 19h, promovido pela Fundação Astrojildo Pereira e com transmissão ao vivo pela Folha FM 98,3 e Plena TV. Nesta entrevista, Cristovam falou do seu rompimento com o PT, que o levou a votar como senador pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. De quem reafirma a prática de crime de responsabilidade, contrária à narrativa de “golpe”. Progressista, criticou uma “esquerda brasileira (que) nunca lutou pelo fim das mordomias, privilégios, desperdícios”. A classificou de “exquerda” e acusou de “negacionista” no “vício de considerar o Tesouro como ilimitado”. Ainda assim, prega a aliança entre as forças de oposição contra o que considera o objetivo principal em 2022: “vencer Bolsonaro”.
(Foto: Divulgação)
Folha da Manhã – Governador de Brasília, quando ainda estava no PT, o senhor implantou o Bolsa Escola em 1995, que seria adotado em 2001 pelo governo federal Fernando Henrique Cardoso. Em 2003, no governo Lula, o programa foi incorporado a outros no Bolsa Família, carro-chefe dos 13 anos do PT no poder. Que saldo faz do programa?
Cristovam Buarque – O Lula não acreditava no Bolsa Escola, tanto que não aceitou colocá-lo como proposta no documento “Educação Já”, publicado em nome dele e meu, em 1990, como produto do governo paralelo (ao do presidente Fernando Collor de Mello, eleito em 1989, batendo Lula no segundo turno). Quando assumiu o governo (federal, em 2003), eu disse (a Lula) que o Fome Zero não era necessário. Bastava espalhar e ampliar o valor do Bolsa Escola Federal que o FHC tinha criado, cinco anos depois de Brasília e por muita insistência minha. Quando percebeu a importância da ideia, por influência do Duda Mendonça (publicitário que criou o “Lulinha Paz e Amor” vencedor da eleição de 2002), Lula agarrou-a como seu grande programa, coisa que FHC nunca fez, como se sentisse vergonha diante do mundo de que o Brasil precisasse pagar para as crianças estudarem. Apesar disto, em sua autobiografia (“Minha Vida”, lançado em 2004), Bill Clinton (ex-presidente dos EUA) fez elogios, mantendo o nome Bolsa Escola em português. Mas ao adotar o programa, Lula provocou três deformações que levaram um programa educacional a ficar assistencial. Trocou o nome, o que faz com que uma mãe receba o dinheiro pensando que é porque sua família é pobre, antes era porque seus filhos iam à escola. Tirou do MEC e colocou no ministério da Assistência Social, que se chamava Desenvolvimento Social. E misturou beneficiários de filhos na escola com todos que precisavam de ajuda. Melhorou a gestão e elevou de 4 para 12 milhões de beneficiários. Tirou o Brasil do mapa da fome, mas não fez a mudança estrutural que, graças à Bolsa Escola, a educação teria feito.
Folha – Primeiro ministro da Educação de Lula, o senhor foi demitido por ele por telefone em janeiro de 2004. Mas só saiu do PT em 2005, com críticas ao “desprezo” do partido pela educação. Que foi a bandeira da sua candidatura a presidente pelo PDT em 2006, ficando em 4º lugar. De lá para cá, qual o lugar da educação na agenda de desenvolvimento do país?
Cristovam – Continua menosprezada. Quando me demitiu, Lula disse que queria um ministro dedicado a aumentar o número de alunos na universidade. De fato, minha preocupação maior era com a erradicação do analfabetismo e iniciar um processo de maior cuidado federal com a educação de base. Até hoje deixamos a educação de base para os pobres entregue às prefeituras pobres e desiguais. E financiamos a universidade com dinheiro federal. Há 50 anos melhoramos a passo de tartaruga, mas ampliando três brechas: entre pobres e ricos, entre o Brasil e o resto do mundo, e entre o que ensinamos e o que é preciso ensinar. Melhoramos ficando para trás e por conta disto estamos nos tornando um país de quarta classe. Já fomos emergentes, estamos caminhando para submergentes. São muitas razões, mas o atraso e a desigualdade educacional são as principais. Pior que não podemos colocar a culpa nos portugueses ou nos escravocratas ou nos latifundiários ou na ditadura militar. Nós, democratas progressistas, ficamos 26 anos no poder, 13 deles com o PT, e não fizemos o que sempre prometemos. Deixamos o país com 35 milhões sem água, 100 milhões sem esgoto, 12 milhões de analfabetos, recessão, desemprego, recessão e corrupção.
Folha – Em 2010, ainda no PDT, seu partido apoiou Dilma Rousseff (PT) a presidente. Em 2014 seu apoio foi para Eduardo Campos (PSB) e, após a morte dele, para Marina Silva. Ela foi a chance eleitoralmente mais viável para um progressista romper com a polarização entre PSBD e PT?
Cristovam — Além da origem e biografia, que o Lula também tem, Marina trazia os dois compromissos centrais para o futuro: educação e meio ambiente, com responsabilidade fiscal. E era uma posição de avanço nas propostas e comportamentos dos governos do PT, sem o aparelhamento da máquina do Estado e submissão ao corporativismo de trabalhadores e de empresários.
Folha – Em 2014, a disputa presidencial ferveu. Dilma se disse disposta a “fazer o diabo” para se reeleger, Lula chamou Aécio e o PSDB de “nazistas”, e a campanha do PT contra a ex-petista Marina seria classificada de fake news, termo criado em 2016, pelo presidente do TSE, ministro Luiz Fux. Se não era novidade, o “nós contra eles” radicalizou demais a partir dali?
Cristovam – A esquerda tem tendência a esta divisão com respeito à democracia, Bolsonaro radicaliza nesta posição, sem respeito à democracia. Mas a esquerda tende a se sentir dona da verdade e única defensora dos interesses populares, não aceita facilmente a alternância no poder. A derrota eleitoral é vista como derrota histórica. Por isto os partidos comunistas se perpetuam. Evo Morales tentou quatro mandatos sucessivos e tentaria o quinto, Chávez e Maduro nem sabemos quantos. Verdade que vencendo eleições, mas, como disse a Dilma, fazendo o diabo, porque a derrota do partido é vista como escravidão para o povo e derrocada do país. Some-se a isto o gosto de muitos pelo poder e pela fortuna.
Folha – O senhor é até hoje criticado pelos ex-companheiros petistas por ter votado, após trocar o PDT pelo PPS (atual Cidadania), pelo impeachment de Dilma no Senado. Assim como a favor da PEC do Teto dos Gastos Públicos e da proposta de reforma trabalhista do governo Michel Temer (MDB). Se pudesse voltar atrás, mudaria algo? Por quê?
Cristovam – Quanto à PEC do Teto e reforma trabalhista, não tenho a menor dúvida que eram necessidades. Não sou negacionista e acredito que 2 mais 2 é igual a 4 também nas finanças. Vejo que a inflação sempre empobrece ainda mais os pobres. E que o vício brasileiro de considerar o Tesouro como ilimitado, da mesma maneira que as florestas, tem servido para esmorecer as forças progressistas que reivindicam novos direitos sem cortar velhos privilégios. A esquerda brasileira nunca lutou pelo fim das mordomias, privilégios, desperdícios, subsídios. Prefere reivindicar a lutar, aumentando os déficits públicos, comemorando vitórias e deixando o povo pagar a conta com inflação e juros altos. Também não sou negacionista na realidade dos avanços técnicos e suas consequências nas relações entre capital e trabalho nos tempos atuais, comparados com o tempo da CLT. Naquele tempo não havia nem elevador sem ascensorista, hoje tem avião sem piloto. Não votei a lei da reforma previdenciária porque estava fora do Senado, mas afirmo que nisto também não sou negacionista: nascem menos crianças, os velhos vivem mais e o Estado se esgotou. Teria votado a favor. Quanto ao impeachment, a resposta é mais complicada. Foi um erro lógico diante do que perdi e sofri. Até netas minhas de menos de 10 anos foram atacadas por cartazes em Brasília. Não foi um voto inteligente e lamento ter sido obrigado a votar para manter minha coerência. Foi um voto decidido por razões morais. Passei dois anos alertando a presidente Dilma do crime de responsabilidade que ela cometia e das trágicas consequências de recessão e desemprego e inflação. Votar contra seria inteligente, mas não seria coerente. Fui prisioneiro de minha biografia moral, que arranhou bastante minha biografia política, porque meus eleitores, leitores e amigos se afastaram. Fiquei só com minha consciência e a sensação de ter sido corajoso e coerente. Eu continuei de esquerda, mas para ser de esquerda você não pode ser negacionista, nem covarde e tem que ser contemporâneo da contemporaneidade. Nossa esquerda ficou saudosista e não vê a história passar. Por isto chamo de “exquerda”.
Folha – Apontado em 2018 como alternativa progressista ao PT e à extrema-direita de Jair Bolsonaro (então, PSL), Ciro Gomes também sofreu críticas suas. Em 2015, quando se disse “rifado” do PDT, o senhor falou do cearense: “Não é um quadro que me entusiasme. O PDT está tão ruim, que nem a entrada do Ciro consegue piorar”. Qual era a opção em 2018?
Cristovam – Eu pensei ser o candidato à presidência pelo PPS, repetir a candidatura de 2006 pelo PDT. Mas Roberto Freire (presidente do PPS, hoje Cidadania) não quis e eu, recém ingressado no partido, abri mão em uma reunião do diretório. Ele queria apoiar (Geraldo) Alckmin (PSDB). Os deputados (Arnaldo) Jordy e Rubens Bueno até hoje reclamam dessa minha posição. O PPS apoiou Alckmin que nem ao menos apoiou minha candidatura ao Senado no DF (na qual ficou em terceiro lugar e não se reelegeu ao terceiro mandato). Eu explicitei que meu apoio era outra vez a Marina Silva, como tinha sido em 2014, depois da morte de Eduardo Campos.
Folha – Após o plenário do STF anular as condenações de Lula na Lava Jato de Curitiba, ele voltou com força ao tabuleiro eleitoral de 2022, no qual vem liderando todas as pesquisas ao primeiro turno e batendo Bolsonaro nas projeções do segundo. Como os 30% de intenções de voto de ambos podem ser alcançados por uma terceira via, a menos de 17 meses da urna?
Cristovam – Nossa tragédia é que acho difícil qualquer um chegar ao segundo turno sem apoio do PT e Lula, mas o PT poderá ter dificuldade no segundo turno para vencer Bolsonaro na disputa para ver quem tem menos rejeição. Além disto, a disputa no primeiro turno gera muito antagonismo, que é levado ao segundo. Temo que a luta entre os antibolsonaristas no primeiro turno leve muitos democratas a anularem o voto, viajarem, votarem em branco e o Bolsonaro vença da mesma forma que venceu ao Haddad, um candidato muito melhor e mais qualificado, técnica e moralmente. Tenho defendido que os candidatos atuais se unam logo no primeiro turno, e o eleito se comprometa a ficar um único mandato. Os outros candidatos de hoje adiariam a disputa para 2026. O ideal seria que o PT ajudasse a escolher um candidato sem rejeição. Mas se o PT não perceber que o momento deve colocar o Brasil e a democracia na frente, se não encontrarmos um candidato que unifique, melhor ir com o PT do que o suicídio nacional com um Bolsonaro reeleito, formando o “seu” exército oficial ou não oficial das milícias. Nem Lula, nem Ciro, nem (Luciano) Huck (sem partido), nem (João) Doria (PSDB), nem Tasso (Jereissati, PSDB) tem o direito de abrir caminho para este suicídio. Melhor que abram mão de suas candidaturas e escolham um deles em um esforço para vencer Bolsonaro. Mas parece que cada um está colocando mais a chance de ser presidente e de beneficiar seus partidos com o Fundo Partidário do que salvar o país. Uma das provas de que nossa geração não está à altura do momento é termos feito em nome de fortalecer a democracia um fundo partidário que ameaça afundar o país.
Folha – Os petistas têm encarado o reinício dos processos de Lula como sua inocência. Em seu livro “Por que falhamos — O Brasil de 1992 a 2019”, o senhor lista os erros da esquerda que levaram a Bolsonaro. E diz: “Nossos intelectuais toleraram de maneira subserviente a corrupção explícita”. Se essa leniência voltar ao poder, onde o Brasil pode parar?
Cristovam – Não será um bom destino, mas melhor do que Bolsonaro. Além disto, o PT e Lula devem ter aprendido com os erros. Apesar de que nunca reconhecem isto publicamente.
Folha – Refém do Centrão no Congresso, com mais de 100 pedidos de impeachment na Câmara, CPI da Covid no Senado, 420 mil brasileiros mortos pela pandemia, volta da inflação, desemprego e dólar em alta, e sem nenhum apoio internacional desde a derrota de Donald Trump nos EUA, Bolsonaro ainda mantém cerca de 30% de apoio popular. Collor e Dilma só caíram quando tinham 1/3 disso. O que projetar?
Cristovam – Projeto que Bolsonaro manterá seu núcleo fanatizado e os outros divididos ajudarão para que ele chegue ao segundo turno. A ideia de dois turnos é formidável: no primeiro, o eleitor escolhe o candidato mais próximo, no segundo, o menos distante. Mas em tempo de radicalismo, o primeiro turno elege os extremos que mantêm seus núcleos aguerridos. E, no segundo turno, os não extremos elegem um dos extremos com menor rejeição.
Folha – Quais são suas expectativas para o debate virtual “A política econômica do desenvolvimento: de Vargas aos nossos dias”, junto ao também professor e economista Bresser Pereira, que será promovido pela Fundação Astrojildo Pereira, das 16h às 19h da próxima sexta (14), com transmissão ao vivo pela Folha FM 98,3 e a Plena TV?
Cristovam – Vou me concentrar menos no que os economistas erraram e mais no que eles esqueceram: os limites ecológicos que desde os anos 60/70 já se percebiam; vetor educacional que outros países já percebiam nos anos 60/70, como mais do que um direito de cada pessoa, a alavanca do progresso econômico e da justiça social; a pobreza como um entrave ao crescimento; a perspectiva histórica que cobra a conta da modernidade apressada; e o esgotamento do Estado, fiscal, gerencial e moralmente. Qualquer que fosse o partido no poder nos últimos quase 100 anos, seus economistas não perceberam essas lacunas no pensamento econômico. Concentraram-se em caminhar rápido, sem perceber que estavam em um rumo errado.
Como a Folha foi a primeira a noticiar (confira aqui), Campos recebeu hoje mais 17.220 doses de vacina contra a Covid-19. Mas como foram 15.720 da AstraZeneca e apenas 1.470 da Coronavac, continua o problema de falta da última vacina para aplicar a segunda dose em pessoas que já receberam a primeira, ampliando o prazo para além do indicado ao processo de imunização. A falta de Coronavac no município a partir da última terça (27) foi alertado com exclusividade por este blog (confira aqui), desde a noite do dia anterior (26).
Prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (PSD) falou hoje sobre o problema: “No caso de Campos, precisamos de 14 mil doses de Coronavac para terminar a segunda dose e só recebemos 1.470 no dia de hoje (02)”. A causa do problema, como ressaltou o secretário estadual de Saúde, Carlos Alberto Chaves, está na aquisição e repasse de vacinas aos estados pelo governo federal Jair Bolsonaro (sem partido), bem inferior à demanda dos municípios, na ponta da linha no processo de imunização.
A frase “Campos é o espelho do Brasil” é creditada ao ex-presidente Getúlio Vargas. E a semana foi movimentada nos dois lados do reflexo. No que é refletido, o país ultrapassou na quinta (29) os 400 mil mortos por Covid-19. É um número sem precedentes em meio milênio de História do Brasil. Enquanto esta ciência existir, morramos ou não pela pandemia, assombraremos a memória dos que souberem quem fomos. Mesmo aos cegos que vivem entre nós e ainda fingem se ver coisa melhor. E, por isso, são cúmplices do crime.
Maior conflito armado da América do Sul e nosso evento anterior mais fatal, a Guerra do Paraguai (1864/1870) demorou seis anos para matar cerca de 50 mil brasileiros. Com a primeira baixa tupiniquim em 12 de março de 2020, a Covid precisou de pouco mais de quatro meses para ultrapassar os mesmos 50 mil óbitos na Terra de Vera Cruz. Foi em 20 de junho do ano passado. Exatos 15 dias após o coronavírus ter igualado os 35 mil mortos que a gripe espanhola (1918/1920), pandemia anterior, levou dois anos para matar no país.
Patrono do Exército Brasileiro, Duque de Caxias só tinha negros em sua guarda pessoal na Guerra do Paraguai
Num piscar de olhos da História, tudo que conhecíamos como tragédias nacionais em 500 anos ficou para trás. No darwinismo social imposto por um governo federal disposto a arriscar as vidas de 211 milhões na busca da imunidade de rebanho. Com 30% deles assumindo seu papel de “gado”. Que, ruminando defesa do tratamento precoce com combate ao uso da máscara, conduziram os outros 70% do país ao abatedouro. Em 8 de agosto, chegamos aos 100 mil mortos. Naquele mês, Bolsonaro recusou a oferta de 70 milhões de doses de vacina da Pfizer.
Com as festas de final de ano, dezembro traria presentes de grego. Celeiro da pandemia com a livre circulação do vírus, o Brasil identificou naquele mês sua primeira variante. A P1 de Manaus teria sua carga viral até 10 vezes maior depois confirmada. Dezembro traria ainda o primeiro caso brasileiro de reinfecção da doença. Que erodiu o mito da imunidade de rebanho do “mito”. Se adquiridas por ele em agosto, as vacinas da Pfizer chegariam em dezembro. Ao todo, foram 11 ofertas de imunizantes recusadas. No jogo do bicho, 11 é dezena do burro.
Sem vacinas e com a expansão da P1 rápida e mortal, como Sharon Stone no auge, chegamos aos 200 mil mortos em 7 de janeiro. A primeira brasileira só seria vacinada 10 dias depois, com a Coronavac. Foi um triunfo político do governador de São Paulo, João Doria (PSDB), na parceria do Instituto Butantan com o laboratório chinês Sinovac. Antes recusada seis vezes por Bolsonaro, foi por ele chamada de “vachina”. Assim como por seu rebanho imune apenas aos fatos, “valentes” das redes sociais que na vida real correram como “maricas” para tomá-la.
Em 23 de janeiro seriam vacinados os primeiros brasileiros com a AstraZeneca, fruto do consórcio da Oxford com a Fiocruz. Mas sem o lockdown nacional adotado pela maioria dos países junto à imunização, levaríamos só 76 dias para pular dos 200 mil aos 300 mil mortos de 24 de março. Foi um dia após batermos 3 mil mortos em apenas 24 horas. Treze dias depois, em 6 de abril, ultrapassaríamos pela primeira vez a marca dos 4 mil mortos em um único dia. Ao todo, foram apenas 36 dias para pularmos dos 300 mil aos 401 mil mortos de quinta.
Na mesma quinta, o general da reserva Eduardo José Barbosa divulgou uma carta como presidente do Clube Militar do Rio de Janeiro. Na qual pregou usar o controvertido Art. 142 da Constituição para um golpe militar no Brasil. Tentou refletir um leão, urrando contra a convocação do general Eduardo Pazuello como ex-ministro da Saúde para depor na CPI da Covid, instalada no Senado na terça (27). Como vai lá nesta quarta (05) na condição de testemunha, se mentir, vai preso. CPI não é um tribunal, onde se tem a prerrogativa de não produzir prova contra si.
Do outro lado do espelho, a manifestação antidemocrática miava como gatinho. Refletiu o governo se borrando de medo na caixinha de areia. Após mostrar sua incompetência política na série de derrotas na CPI. Na qual tudo tentou, sem conseguir nada, para impedir Renan Calheiros (MDB/AL) de assumir a relatoria. O presidente do Clube Militar reflete melhor outro general do governo, Luiz Eduardo Ramos, ministro-chefe da Casa Civil. Apelidado de “Maria Fofoca” pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo “Passando a Boiada” Salles, Ramos foi flagrado dizendo a verdade. Em reunião na mesma terça em que a CPI era instalada:
— Tomei (a vacina) escondido porque a orientação (do governo) era não criar caso, mas vazou. Mas tomei mesmo, não tenho vergonha não. Eu tomei e vou ser sincero porque eu, como qualquer ser humano, eu quero viver. Eu tenho dois netos maravilhosos, eu tenho uma mulher linda, eu tenho sonhos ainda. Então, eu quero viver, pô. E se a ciência, a medicina, fala que é a vacina, quem sou eu para me contrapor? (…) E tenho tentado convencer o presidente de que essa cepa, eu tive Covid em outubro do ano passado, ela é uma variante muito violenta que está ceifando vidas e próximas da gente.
Pela toada da manifestação do presidente do Clube Militar, difícil considerá-la além do pastiche de pastor neopentecostal: “O Brasil é a pátria do evangelho! Natural, portanto, que o poder das trevas queira destruir nossa nação (…) bastou a eleição de um presidente que acredita em Deus para que todo o inferno se levantasse contra ele”. Mas, se fosse o caso de levar a sério, bom lembrar o editorial do jornal Washington Post de 2 de abril. Que dificilmente faria a advertência sem saber como pensa quem hoje comanda a Casa Branca:
— As democracias dos Estados Unidos e da América Latina devem prestar atenção à medida que as eleições (presidenciais do Brasil) do próximo ano se aproximam. E deixar claro para Bolsonaro que uma interrupção da democracia seria intolerável. O presidente brasileiro já contribuiu muito para o agravamento da pandemia da Covid-19 em seu próprio país e, por meio da disseminação da variante brasileira, pelo mundo. Ele não deve ter permissão para destruir uma das maiores democracias do mundo também.
Na sentença imortalizada por Pazuello, que será posta à prova na próxima quarta: “Um manda e o outro obedece”. Sobre o desespero do governo refletido nas “ameaças” do Clube Militar do Rio, é como cantou Cazuza. Foi nos anos 1980 da redemocratização do país, ao final de uma ditadura que só se sustentou enquanto durou o apoio dos EUA. Ao final da Guerra Fria que só continua a existir para quem crê em ameaça comunista, cloroquina e Saci Pererê: “Copacabana, você não me engana/ Com seus travestis e generais de pijama”.
Em 14 de maio de 2019, em Dallas, no Texas, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro bate continência à bandeira dos EUA (Foto: Reporudução de vídeo)
Enquanto isso, pela desorganização do governo federal, Campos está desde a terça da CPI sem aplicar a Coronavac. No comando do combate à Covid no município, os médicos infectologistas Charbell Kury e Rodrigo Carneiro têm serviços prestados à saúde pública. Mas talvez não devessem levar tão a sério as promessas do ministério da Saúde. Como em todos os demais municípios em que a “vachina” teve a segunda dose reservada. Medicina, como qualquer ciência e a própria democracia, é feita de tentativa e erro. Outro ex-presidente, Juscelino Kubistchek aconselharia: “Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro”.
“É preciso ficar claro que a nossa guerra não é só contra um vírus, mas principalmente contra pessoas que se negam a ver o essencial através da ciência. Nossa luta, além da doença, deve ser contra gestores irresponsáveis frente a uma situação grave e preocupante”. O alerta do médico Nélio Artiles, professor da Faculdade de Medicina de Campos (FMC) e com 34 anos de experiência só em infectologia, talvez seja o melhor resumo das análises sobre as declarações de alguns vereadores campistas sobre a pandemia da Covid-19. E as formas de combatê-la no município, onde até quinta (29) já tinha tirado 1.116 vidas humanas. Isto, no mesmo dia em que o Brasil ultrapassava a casa dos 400 mil mortos pela doença. Com 2,7% da população global, o país deveria ter cerca de 86 mil óbitos, se seguisse as recomendações da ciência e a média de perdas do mundo. Pelo que fizemos e continuamos a fazer diferente do resto da Terra, 315 mil brasileiros morreram desnecessariamente. Tragédia sem precedentes e que se agrava pelo ritmo lento da vacinação — Campos e diversos outros municípios do território nacional suspenderam a aplicação da Coronavac desde terça (27), por falta do imunizante.
Sobre como lidamos com a pandemia, os edis Beto Abençoado (SD), Anderson de Matos (Republicanos), Raphael Thuin (PTB), Leon Gomes (PDT), Helinho Nahim (PTC), Rogério Matoso (DEM) e Nildo Cardoso (PSL) se posicionaram publicamente. Os seis primeiros, na tribuna da Câmara Municipal, quando nela celebraram a reabertura do comércio não essencial de Campos, enquanto o sétimo se posicionou sobre a Covid e o governo Jair Bolsonaro (sem partido) em matéria recente da Folha. As declarações de cada um foram analisadas por especialistas das ciências. Em ordem alfabética: o biólogo Carlos Bacelar, com 49 anos de Plínio Bacelar, maior laboratório de exames do interior do estado do Rio; o cientista político e sociólogo George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos; o historiador João Monteiro Pessôa, professor do IFF; o economista José Alves de Azevedo Neto, professor da Universo; e o biólogo Leandro Monteiro, professor da Uenf; além do médico infectologista Nélio Artiles. A reabertura do comércio goitacá contou com apoio de José, foi questionada por George, João e Leandro, sendo condicionada por Carlos e Nélio.
Vereadores Beto Abençoado, Aderson de Matos, Raphael Thuin, Leon Gomes, Helinho Nahim, Rogério Matoso e Nildo Cardoso (Montagem: Joseli Mathias)
Beto Abençoado – “Temos que socorrer os comerciantes nesse momento de dificuldade. As mortes por Covid são metade do que é falado no Brasil. E as outras doenças? Ninguém morre de outras doenças. Um parente meu morreu outro dia, ele tinha histórico de outros problemas, e colocaram como suspeita de Covid. Isso é algo que esses esquerdopatas querem fazer para derrubar nosso presidente”.
Carlos Bacelar – Segundo o Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), a queda do número de mortes em 2020 pelo histórico não Covid foi ligeiramente menor que nos outros anos. Então se sabe que pode ter havido notificação errada de morte por Covid, mas não altera o resultado total de óbitos.
George Gomes Coutinho – A primeira frase aponta à necessidade de termos políticas de crédito subsidiado para um grupo econômico específico. A demanda é legítima, necessária e quase um palavrão sem os rearranjos tributários necessários. Sobre o restante pode-se entrar em jogos discursivos de baixa qualidade, como dizer que o HIV jamais matou ninguém no mundo; morre-se de doenças oportunistas. Opera no maniqueísmo ao imputar aos “esquerdopatas” o alerta sobre a pandemia, ignorando que diferentes setores do lado direito do espectro político concordam com as análises que indicam que o Covid é mortal.
João Monteiro Pessôa – Aqui temos um exemplo descarado de negacionismo misturado com a politização da pandemia. Não tem nenhuma base factual a insinuação de que as mortes por Covid estão sendo superdimensionadas, até porque isso implica em médicos estarem assinando atestados de óbito falsos por motivações políticas! A pergunta que fica é: à esta altura do campeonato, nós vamos achincalhar os médicos? Me lembra a velha prática dos déspotas da Pérsia, que matavam os mensageiros que traziam más notícias!
José Alves de Azevedo Neto – É uma declaração inapropriada para o momento. De pessoas que querem politizar numa hora em que deveríamos estar unidos no combate à Covid-19, visando prioritariamente mitigar o crescente número de óbitos e o sofrimento das famílias enlutadas. Concordo apenas com a primeira parte da colocação, onde ele ressalta que os comerciantes devem ser socorridos, e eu acrescento, sobretudo, os micro e pequenos empresários que estão sofrendo mais na atual conjuntura, por falta de crédito barato no mercado financeiro para se financiarem e salvarem os seus negócios.
Leandro Monteiro – Mostra a preocupação com o destino dos comerciantes que precisam ser socorridos neste momento. No entanto, percebe-se que a intenção do declarante não é criticar a falta de ação, que caberia ao governo federal, mas sim promover um argumento falso sobre a Covid-19. Há o negacionismo em aceitar o volume de mortes e a gravidade da doença. Certo é que o número de mortes deve ser maior, por conta da subnotificação. Na sequência, cita um exemplo pessoal, que por mais doloroso que seja, não tem relevância sobre o número de pessoas que morreram em decorrência dos erros do governo federal na pandemia. Por último, ele identifica a motivação do seu negacionismo: proteger o presidente.
Nélio Artiles – É uma afirmação contaminada pelo negacionismo com bases em influências políticas. Concordo com a necessidade de assistência aos comerciantes, mas discordo em relação à questão do número de mortes. Há a possibilidade de majoração do número de óbitos por Covid, contabilizando alguns casos que tinham outra doença de base. Porém, a quem está na linha de frente e conhece análise epidemiológica, a situação infelizmente é muito grave.
Anderson de Matos – “Queria falar do artigo científico que diz que o lockdown não diminui o número de mortes por Covid-19. O artigo publicado na revista Scientific Reports, do grupo Nature, por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, teve repercussão internacional ao afirmar que o lockdown não diminui o número de mortes por Covid-19 em diversos países do mundo. Antes, o cientista Michael Levitt, da Universidade de Stanford, vencedor de um Nobel de Química em 2013, também falou contra o lockdown. E há também quem deixou de ser tratado por outras doenças. Existe uma série de estudos científicos de pessoas renomadas na ciência que comprovam que é um tipo de medida que desencadeia uma série de outros problemas, sem contar a questão econômica”.
Carlos – Segundo também a Nature (revista científica britânica), em trabalho publicado por Wu-Yi-Hsiang (matemático chinês da universidade de Berkeley), “as medidas de redução do contágio em 1,7 mil localidades da Ásia, Europa e EUA sugerem que 140 milhões de infecções haviam sido evitadas ou adiadas graças às restrições”. Evidente que lockdown diminui o contágio, a ciência vem mostrando isso com evidências indiscutíveis. O exemplo de Portugal é claro: dois meses de lockdown pleno, com vacinação em massa, testagem em massa, ajuda econômica em todos os níveis. O resultado? A média de 300 mortes dia em março passou a zero de mortes esta semana. Valeu o sacrifício? Se Bolsonaro fosse presidente do mundo, faria intervenção em Portugal, porque o governo local tinha decretado “estado de sítio”.
George – Argumento curioso. Faz apropriação seletiva do argumento de autoridade, o Nobel em química, mas ignora que outros tantos laureados com o Nobel e demais cientistas apresentam justamente o oposto! Há a “nossa autoridade”, a que se adequa e nos é conveniente, e há a dos outros. Para estes outros talvez caibam termos como “globalista”, “esquerdopata” e afins. Só pode ser argumento de alguém sem treinamento científico em qualquer campo. E, se tem treinamento, é desonestidade intelectual pura e simples. Ignora que, salvo as mortes e sequelas dos pacientes, os danos provocados pela pandemia são reversíveis e a recuperação mais ágil se as medidas reconhecidas forem seguidas: isolamento social, assepsia quando ocorrer a exposição no espaço público, testes e vacinação em massa.
João – Espero que esse comentário tenha sido feito no início da pandemia em 2020, pois desde então essa retórica contra o lockdown caiu em descrédito no mundo inteiro. Basta observar que os países que adotaram medidas restritivas mais rigorosas e organizadas estão voltando à normalidade primeiro. O lockdown não é desejo de ninguém e causa problemas, mas é a única solução temporária até a vacinação em massa. Criticar o lockdown nesses termos é equivalente a criticar um tratamento de quimioterapia por fazer o paciente sentir náusea e perder cabelos. Os efeitos colaterais existem e devem ser minorados como possível, mas a alternativa a esse tratamento é a morte.
José – Respeito muito a ciência e não vou entrar no mérito para discutir a publicação dos cientistas na revista. Todavia, acho, sim, que deve ter uma saída equilibrada para conciliar os aspectos relativos à saúde e à economia. E, em algumas situações, até mesmo fazer o lockdown de forma organizada. O grande problema do combate à pandemia no Brasil está relacionado à falta de uma coordenação nacional do governo federal, que subestimou a crise sanitária através das declarações infelizes do presidente da República, que inclusive, afirmou com todas as letras em março de 2020 que morreriam somente duas mil pessoas e na quinta (29) ultrapassamos a marca dos 400 mil brasileiros mortos.
Leandro – No site da Scientific Reports, o artigo aparece com uma nota dizendo que está sujeito a muitas críticas, que estão sendo consideradas pelos editores. A declaração também menciona Michael Levitt, químico ganhador do Nobel, não especialista em epidemiologia. Esta alusão a um pesquisador renomado é a chamada falácia do apelo à autoridade irrelevante. O fato de um pesquisador ser renomado em uma área não quer dizer que seja competente para ter uma opinião sobre qualquer assunto. As previsões de Levitt em março de 2020 se mostraram completamente equivocadas. Infelizmente, o estrago feito quando estes erros são apropriados por negacionistas é grande. A discussão posterior que esclarece o problema não importa aos negacionistas. Importa apenas a perspectiva da confusão para dar a impressão de que existem argumentos “científicos” dos dois lados da discussão.
Nélio – É uma afirmativa que não tem um embasamento científico adequado, pois é um relato observacional sem levar em conta avaliações comparativas, randomizadas e multicêntricas. O distanciamento social extremado pelo lockdown, apesar de ser danoso em vários aspectos, é a única forma comprovada de redução da circulação do vírus em meio a uma epidemia. Não tivemos lockdown aqui em Campos e no país. Estamos no momento observando o reflexo de uma redução de atividades no comércio e no lazer, propostas pelos municípios e estados, com uma tendência a redução do número de casos e melhora do quadro epidemiológico.
Raphael Thuin – “Sou um defensor declarado do comércio, do desenvolvimento econômico, da reabertura… Também sou contra o lockdown. Não posso deixar de agradecer a sensibilidade do prefeito, de todo o setor do combate à Covid, por causa da flexibilização do comércio, das academias, da qual todos nós votamos como atividade essencial. Espero que não feche mais daqui para frente. A gente sabe da importância da atividade esportiva e da importância do comércio. A CDL, Acic, Carjopa, todas as instituições estavam implorando para volta, claro, seguindo todos os protocolos de segurança. E, lógico, criticando as pessoas irresponsáveis que não estão se cuidando, que estão indo pra rua e fazendo festas clandestinas. Mas eu vim aqui falar de um setor específico, que continua sofrendo muito. A Liga Gastronômica de Campos fez uma carta ao prefeito pedindo a reabertura dos restaurantes, bares e lojas de conveniência. Venho pedir ao poder público que olhe com atenção aos restaurantes e aos bares, lógico, aqueles que seguem os protocolos. Vamos penalizar quem realmente está fazendo a propagação desses vírus, que a gente sabe que não é o comércio, restaurantes e academias, são as festas”.
Carlos – Durante a primeira onda, o governo (federal) tomou medidas econômicas necessárias ao cumprimento do lockdown: empréstimos bancários a juros baixos e com carência, renegociação de dívidas, reorganização salarial para as empresas, mais o gigantesco auxílio financeiro aos menos favorecidos. Essas medidas deveriam fazer parte da cobertura na segunda onda e não houve. Fora as demonstrações desastrosas do presidente com seu negacionismo desagregador e a catastrófica ação do ministério da Saúde.
George – O argumento ignora que qualquer ambiente de convivência coletiva, como restaurantes, bares, templos religiosos, não pode impedir a entrada de possíveis infectados e tampouco reconhece a incapacidade de fiscalização 24 horas por dia de todos os frequentadores e funcionários. “Sou um defensor do comércio”, enquanto epidemiologistas treinados seriam, por óbvio, contra o comércio e a sociedade de mercado. Opera com a rusticidade do argumento do maniqueísta. O problema é sempre os outros, no caso, os que fazem as festas. Desconhece a própria população com que lida cotidianamente.
João – Primeiramente: quem é contra o comércio e o desenvolvimento econômico? Defender medidas restritivas não é igual a ser inimigo da livre iniciativa ou opositor do desenvolvimento. Segundo, eu teria vergonha de ouvir esse elogio se estivesse no lugar do prefeito, pois sua “sensibilidade” poderia ser confundida com leniência e hesitação diante de uma decisão óbvia, porém impopular. Por fim, vem o truque de defender a reabertura de bares e restaurantes, enquanto se lança a culpa em festas clandestinas, como se estas fossem sozinhas responsáveis pela escalada da pandemia em 2021. Fica um tanto evidente que a declaração foi feita por alguém com interesse específico na reabertura do setor.
José – É uma declaração relevante e de uma voz que, tudo indica, está preocupada com um dos segmentos que mais geram empregos na economia local. Eu também acho que o comércio e o setor gastronômico da nossa cidade estavam seguindo os protocolos predeterminados pela Vigilância Sanitária. No início da pandemia, eram a rede bancária e as casas lotéricas que estavam aglomerando sem seguir as normas. E não verificamos o mesmo rigor em relação a essas atividades. Restringir só o comércio e os restaurantes é injusto. Temos que flexibilizar.
Leandro – Vemos o falso dilema de que as medidas sanitárias impedem a recuperação econômica, quando na realidade é exatamente o contrário. Um estudo publicado na revista Science em fevereiro mostrou que as medidas de restrição mais eficientes na redução da transmissão do vírus são as limitações a eventos com aglomeração, fechamento de escolas, universidades e negócios não essenciais com grande contato, como bares e restaurantes. Um livro foi publicado no último dia 22 por professores da Universidade de Michigan e Fundação Getúlio Vargas: Coronavirus politics: the comparative politics and policy of Covid-19. E mostrou como os países exitosos na contenção da pandemia chegaram lá: iniciativas de proteção social, linhas de crédito a empresas, redução de impostos aos vulneráveis. A restrição feita de maneira correta, amparada por medidas de auxílio do governo federal, teria nos colocado em situação muito mais favorável, como aconteceu nos países que tinham líderes responsáveis.
Nélio – É uma afirmação coerente dentro do contexto que vivemos, desde que haja fiscalização ao cumprimento das recomendações e uma melhora no cenário epidemiológico. A questão não é ser contra ou a favor do lockdown, mas agir de acordo com o cenário de uma epidemia, considerando a baixa imunização de nossa população.
Carlos Bacellar, George Gomes Coutinho, João Monteiro Pessôa, José Alves de Azevedo Neto, Leandro Monteiro e Nélio Artiles (Montagem: Joseli Mathias)
Leon Gomes – “A todo momento vemos gente gritando que é preciso intervenção militar. Talvez, sim. Estamos em uma guerra contra esse vírus e eu sou a favor que se tenha intervenção militar, sim, se for preciso, para entrar nessas festas clandestinas. Se queremos, de fato, combater o vírus, não será possível parar a cidade com um novo lockdown, parar o comércio, os restaurantes e tantos outros que não estão levando o vírus para dentro de casa. Se queremos combater o vírus, de fato, temos que ir no foco. Peço encarecidamente às autoridades, sejam militares, polícia ou Guarda Municipal… O efetivo é pequeno para atender tanta demanda. Se os poderes municipal e estadual não têm efetivo suficiente, precisamos recorrer ao federal. Não podemos aceitar que esses atos de terrorismo se repitam. Pessoas sem nenhum compromisso com a vida humana que se reúnem em uma festa clandestina fazendo com que esse vírus se propague”.
Carlos – Quem prega intervenção militar é o presidente e seu séquito. Não existe o menor motivo para isso. Delírio, vontade ditatorial de permanecer ad aeternum no poder.
George – O argumento do “choque de ordem” se apresenta no Brasil como solução desde o século XIX. Um delírio. Porém, embora considere que o argumento diz mais sobre quem o anuncia do que sobre qualquer tipo de solução, o que se nota nestes indivíduos e grupos é a ausência de imaginação política para que essa solução seja de fato inclusiva, reduza danos econômicos, sociais e afins, sem expor amplas camadas da população ao vírus. Protege com zelo maternal o topo da pirâmide subtaxado sob qualquer parâmetro que utilizemos, inclusive o da OCDE. Se essas pessoas fossem policy makers (“decisores políticos”) em outros países, nem na Nova Zelândia conseguiriam qualquer tipo de sucesso no enfrentamento à pandemia.
João – Essa me lembrou a famosa frase do marechal Castelo Branco (primeiro presidente da ditadura militar brasileira instalada com o golpe de 1964), criticando políticos que se comportavam como “vivandeiras alvoroçadas que vêm aos bivaques bulir com granadeiros e estimular as extravagâncias do poder militar”. Então aqui temos a repetição do truque anterior, defender a abertura de bares e restaurantes criticando exclusivamente as festas clandestinas, com um elemento adicional: o fetiche pela intervenção militar! Chega a ser irônico como esses defensores da intervenção militar não se dão conta de como sua retórica é aviltante para as próprias Forças Armadas, reduzidas nessa perspectiva a fiscais de festa!
José – Discordo totalmente das pessoas que na atual conjuntura defendem a intervenção militar como uma possibilidade de resolver os problemas de ordem política, social e sanitária do país. No período em que os militares estiveram no poder, deixaram muito a desejar. Como, por exemplo, o triste legado da maior dívida externa do Brasil com o FMI e a hiperinflação. Essas duas anomalias afligiam a sociedade brasileira e foram resolvidas pelos governos civis. Basta apenas recorrer aos registros históricos para maiores esclarecimentos.
Leandro – Esta declaração também culpa as festas clandestinas pela disseminação do vírus e isenta o comércio. Vai além de modo ainda mais confuso, misturando intervenção militar com o que deveria ser a atividade normal de garantia da lei por autoridades com poder de polícia. Me parece que pode haver também um componente social nas declarações que procuram culpar apenas festas clandestinas. Será que quando o declarante pensa em festa clandestina com aglomeração, sua motivação é para que o Exército invada as festas que estão acontecendo nos condomínios de luxo ou apenas nas comunidades?
Nélio – Não é através da força física ou da pressão emocional e política que esta situação se resolverá. Intervenção militar é perigosa e ineficaz para uma ação de saúde pública. É preciso ficar claro que a nossa guerra não é só contra um vírus, mas principalmente contra pessoas que se negam a ver o essencial através da ciência. Nossa luta, além da doença, deve ser contra gestores irresponsáveis frente a uma situação grave e preocupante.
Helinho Nahim – “Nós recebemos milhares de pessoas e queremos dar nossa opinião. Se o prefeito vai voltar com bar e restaurante, se vai aumentar ou diminuir o lockdown, é uma decisão dele e cabe a nós apoiarmos, independente do que acontecer porque é uma decisão dele. Se vou concordar ou não é outra coisa. Nós somos cobrados pelas pessoas, pelos donos de comércio. Eu sou um deles e vários outros vereadores também são comerciantes e são cobrados. Já é público e notório que a maioria dessa Casa não é a favor da manutenção do lockdown e que haja uma flexibilização maior do comércio”.
Carlos – Correto! Cabe ao governante tomar as medidas de acordo com o comitê de crise e aos donos de bares e restaurantes terem bom senso em sua execução, com todas as normas sendo rigorosamente obedecidas e com fiscalização eficaz.
George – Indica falta de conhecimento sobre o que é o funcionamento de sociedades complexas e a natureza da democracia representativa liberal. O promotor Marcelo Lessa, em recente crônica sobre (o filósofo alemão Jürgen) Habermas na Folha, indicava este problema: a discussão pública só tem sentido onde os melhores argumentos, na disputa racional do mercado de ideias, se apresentam. A mera discordância dada a partir de interesses privados, corporativos, sempre deveria ser insuficiente. Não caberia ser calada, evidentemente. Interesses privados não necessariamente coincidem com bem-estar coletivo, o que é o caso.
João – Discordo totalmente! O cargo de prefeito não torna ninguém o líder supremo que devemos apoiar incondicionalmente. As decisões do prefeito, e de qualquer outro ocupante de cargos eletivos, não são a verdade escrita na pedra, podem ser criticadas e contestadas. Pior, parece que o entusiástico apoio ao prefeito não é tão incondicional assim, mas fruto do interesse e motivado pela “sensibilidade” do alcaide ao lobby de bares e restaurantes.
José – Acho que está faltando por parte das nossas autoridades mais diálogo com a sociedade civil organizada. Ouvir os diversos segmentos e não somente a área da saúde, a despeito dela ter um peso maior por tratar-se de saúde pública. Agora, fechar a economia a todo o momento tem um preço alto. E já estamos sentindo ele através do crescente desemprego no município e a desorganização de diversos segmentos produtivos. E quem está pagando a conta são os micro e pequenos empresários. Inclusive foi publicada pelo ministério da Economia no caderno de economia do jornal O Globo, no último dia 12, uma estatística: mais de um milhão de empresas faliram ou fecharam as portas em 2020. No momento em que o país for retomar o crescimento econômico não haverá os CNPJs para alavancar o sistema econômico.
Leandro – Pelas frases, é um interlocutor da Prefeitura com interesse direto na reabertura do comércio por também ser comerciante. Essas pessoas têm uma preocupação legítima com seu sustento. Seria muito importante que reconhecessem o real motivo de estarem nesta situação: a falta de ação do governo federal com a implementação das medidas de proteção social em conjunto com as sanitárias para que pudéssemos retornar às atividades o mais rápido possível. As medidas tomadas deliberadamente pelo governo federal para maximizar a disseminação do vírus e tentar chegar a uma imunidade coletiva nos colocaram nesta situação precária.
Nélio – É uma afirmação coerente dentro do contexto que vivemos, desde que haja fiscalização ao cumprimento das recomendações e uma melhora no cenário epidemiológico. A questão não é ser contra ou a favor do lockdown, mas agir de acordo com o cenário de uma epidemia, considerando a baixa imunização de nossa população.
Rogério Matoso – “Esse é o assunto que todos nós temos que estar concentrados, justamente porque perdemos, nesse período de mais de um ano, vários comércios, muitos empregos. São pessoas passando fome na nossa cidade, assim como no Brasil inteiro. Teremos uma reunião do comitê da Covid, no qual, muitas vezes, fico lá por quatro horas ouvindo todo mundo, os representantes do Ministério Público dizendo que não pode, a ciência dizendo outras coisas. Nesse período, estamos vendo a ciência se contradizer. Inclusive, dizendo que a vacina não vai garantir que as pessoas não se contaminem. Temos que equilibrar esse debate. Temos que fazer reverberar as insatisfações das ruas”.
Carlos – Desde a crise econômica desencadeada pelo governo lulopetista de Dilma, o comércio vem sofrendo com o fechamento de inúmeras lojas no país. Em Campos não é diferente. A pandemia só veio a piorar muito essa situação. Não é abrindo o comércio que tudo vai melhorar se o povo não tem dinheiro para consumir. Medidas econômicas e ajuda financeira terão que reverter esse quadro.
George – A ciência não obedece aos mesmos princípios valorativos e normativos de uma religião fundamentalista, com verdades irrefutáveis. A vacina não produziria, como é o caso em outras doenças, a imunidade total. A vacina da gripe não produz e nem por isso deixa de ser recomendável. Causa espécie a popularidade do argumento que coloca as medidas de contenção do vírus como contrárias a uma economia saudável. É essa resistência a aderir aos princípios das políticas públicas de saúde em todo globo que produzirá uma maior lentidão ao Brasil reentrar plenamente no circuito global de circulação de bens, mercadorias e serviços.
João – Essa lembrou a declaração da ministra (da Mulher, Família e Direitos Humanos) Damares: “deixamos a ciência muito tempo nas mãos dos cientistas”. Então descobrimos que é incômodo ficar ouvindo cientistas e membros do MP se posicionarem para pessoas que acham que podem tomar decisões sozinhas, sobre coisas que não entendem. Só cabe esclarecer que a ciência não está se contradizendo, está dando uma resposta relativamente rápida para a pandemia e apontando as saídas para quem quiser ver. Menos para quem já despreza os cientistas de saída, se eles não disserem exatamente o que se quer ouvir.
José – Realmente, concordo que a consequência tem sido nefasta tanto do ponto de vista econômico, com o fechamento e a falência de várias empresas, como mencionei na análise anterior. Que também afeta do ponto de vista social, com o crescente desemprego e a fome retornando. Apenas para ilustrar e lembrar, o Brasil há 10 anos havia saído do mapa da fome da ONU. E atualmente voltou com muita força, por conta da pandemia e também por conta de uma política macroeconômica desastrosa do governo federal, que privilegia somente a concentração econômica e a formação de riquezas para uma minoria da nossa sociedade.
Leandro – A declaração tem elementos clássicos do negacionismo, beirando a anticiência. Temos de um lado pesquisadores dizendo que medidas sanitárias associadas a medidas de proteção social seriam o caminho mais apropriado. Do outro lado, pessoas sem conhecimento sobre o assunto sendo guiadas por um líder com ainda menos conhecimento; e intenções a serem investigadas pela CPI da Covid. Os pesquisadores não estão se contradizendo. Quem tenta contradizer a ciência são os negacionistas, que tentam disseminar incerteza e confusão. Nenhuma vacina é 100% eficaz, mas quando aplicada em uma porcentagem alta da população, tem o efeito de conter a disseminação. É importante sim, que as ruas mostrem insatisfação, mas não pelas mentiras diariamente divulgadas nos grupos de WhatsApp.
Nélio – É uma afirmação de quem não conhece ciência e muito menos vacinas. Nunca existiu vacina que tivesse 100% de eficácia e sim uma redução importante da expressão clínica de uma doença, evitando evoluções piores. Exemplo importante é a vacinação contra a gripe, que reduz bastante a mortalidade e as internações de idosos e crianças, mas não impede a infecção. Todas as ações de saúde pública devem se basear na ciência.
Nildo Cardoso – “Com a aproximação do processo eleitoral, é normal que cada grupo exponha suas opiniões e interprete as situações de cada maneira. Sou fiel aos meus princípios, ao meu voto, e votaria novamente em Bolsonaro. Existem questionamentos a serem feitos e que serão revelados mais à frente sobre a Covid. Não se morre mais de câncer, acidente de trânsito, de diabetes, infarto? Tudo agora é Covid. Mas vamos confiar na Polícia Federal, que irá fazer seu trabalho”.
Carlos – A resposta foi dada por Fabio Wanjngarten (ex-chefe da secretaria especial de Comunicação do governo Bolsonaro) à revista Veja, que lhe perguntou: “A pandemia pode fragilizar o projeto de reeleição do presidente?”. Ele respondeu: “Você tem duas questões fundamentais para responder a essa dúvida. Primeiro, o enlutado esquece a morte de seu ente querido? Dois: a família do enlutado credita ao governo Bolsonaro a morte de seu ente querido? Se a segunda resposta for não, o presidente segue firme rumo à reeleição”.
George – O argumento ignora um dado importante. A elevação do quantitativo de mortes ano passado em um contexto de pandemia seguiria sem explicação por essa vertente. Trata-se de um exemplar típico de negacionismo atrelado a um elemento conspiracionista paranoico. Todas as autoridades em todo o planeta estariam ocultando algo? A imprensa mundial profissional, idem? Apresentar dados que indicam uma gestão irresponsável da pandemia só pode ter por objetivo ganhos eleitorais em 2022? As perdas humanas, claro, não importam.
João – Quem primeiro politizou e mais politiza o tema é o próprio governo federal e seus torcedores. Seria útil que as pessoas, tanto eleitores como ocupantes de cargos públicos, deixassem de abordar as questões políticas como tratam o seu “time do coração”. O papel de um cidadão não é torcer e apoiar incondicionalmente qualquer governo que seja. Só a paixão ideológica é capaz de explicar como as pessoas podem perder o senso crítico e a noção da realidade dessa maneira. Por fim, a própria Polícia Federal virou alvo da autofagia bolsonarista. Então caberia um apelo do torcedor para que o próprio governo deixe a PF trabalhar.
José – Estamos numa democracia e cada um vota em quem quiser. Isso é muito bom. Mas as estatísticas sobre as outras mortes sem ser pela Covid estão sendo catalogadas, sim. E discordo totalmente do governo Bolsonaro, porque o Brasil nesses dois últimos anos regrediu em várias áreas: educação, saúde, meio ambiente, direitos humanos, cultura, economia. Hoje somos pária internacional. O Brasil só anda no agronegócio, porque é um segmento econômico que caminha independente de qualquer governo. Outro setor do governo federal que está timidamente apresentando alguma coisa é o da infraestrutura com pequenas obras.
Leandro – Há questionamentos a serem feitos. Não sobre a incerteza da mortalidade da Covid-19, mas sobre dolo nas ações do governo federal e do próprio Bolsonaro, que levaram à disseminação do vírus e um excesso de mortalidade absurdo no nosso país. Esperamos que a CPI da Covid esclareça se as ações do presidente envolveram intenção ou foram apenas resultado de sua incompetência. A intransigência em rejeitar a ideia de que a pandemia seja um problema sério e que seu líder seja responsável pelo fracasso do país em lidar com ela é um caso de raciocínio motivado. Enquanto ignora a realidade da mortalidade na pandemia, insere um elemento de conspiração contra seu líder. Provavelmente, é apenas uma narrativa que circula no WhatsApp para alimentar o raciocínio motivado dos grupos bolsonaristas.
Nélio – É uma afirmativa de quem não tem conhecimentos epidemiológicos. As doenças continuam acontecendo sim e matando muito no Brasil, inclusive com um grande complicador, que é o colapso em nosso sistema de saúde, que já vinha muito doente, sucateado e cheio de problemas. Apesar de termos o SUS como um elemento positivo no atendimento universal das pessoas, com extremas dificuldades, expostas agora com a demanda excessiva, a condução da pandemia no país foi caótica, sem uma liderança positiva e sem um ministério da Saúde que pudesse traçar normas e diretrizes nesse enfrentamento. Faltou gestão e responsabilidade. Inclusive devemos esperar uma outra onda de doenças reprimidas que ficaram sem acompanhamento adequado, como câncer e as diversas doenças cardiovasculares.
A partir das 7 da manhã desta sexta (30), quem fecha a semana do Folha no Ar, da Folha FM 98,3, é a vereadora oposicionista de Quissamã Alexandra Moreira (PSC). Ela falará sobre a denúncia, evidenciada em vídeo do dia do pleito de 2020, que levou (confira aqui) o vereador governista Janderson Chagas (DEM) a ser feito réu pela Justiça.
A parlamentar também falará sobre o atual estágio e as perspectivas para o Complexo Logístico de Barra do Furado. E analisará a atuação, nestes pouco mais de 100 dias de mandato, da Câmara Municipal que integra e do governo reeleito de Quissamã.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Deputados estaduais André Ceciliano e Rodrigo Bacellar (Foto: Divulgação)
Na tarde de hoje (28), na sessão online em que a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) debatia a privatização da Cedae, como quer o governador Cláudio Castro (PSC), esquentou o clima entre o presidente da Casa, André Ceciliano (PT), e seu aparentemente agora ex-aliado: Rodrigo Bacellar (SD), deputado de Campos. Se ainda é cedo para cravar a ruptura, a discussão entre os dois parlamentares passou longe do tempo em que Ceciliano declarou mais de uma vez que apoiaria “o candidato de Rodrigo” na eleição a prefeito de Campos de 2020.
O diálogo entre os dois hoje ficou bastante tenso, após Ceciliano ter falado em “ameaças” a deputados para votar pela privatização da Cedae:
— As pessoas precisam saber a verdade, senhor presidente. O senhor me perdoe, mas vossa excelência está errado! — disse Rodrigo a Ceciliano. Que respondeu ao deputado de Campos:
— Estava errado porque confiei em vossa excelência. Por isso que eu estou errado! — disse Ceciliano a Rodrigo. Que contra-atacou:
— Quem está ameaçando o Parlamento é vossa excelência!
A partir das 7h da manhã desta quinta (29), a convidada do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, será a historiadora Rafaela Machado, diretora do Arquivo Público Municipal. Ela tentará analisar em perspectiva história a pandemia da Covid, sobretudo no Brasil. Falará também do Arquivo público que dirige e da História de Campos. Por fim, a historiadora avaliará os pouco mais de 100 dias do governo municipal Wladimir Garotinho (PSD).
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Além das respostas (confira aqui) do prefeito Wladimir Garotinho (PSD) e do presidente da Câmara Municipal, vereador Fábio Ribeiro (PSD), as críticas do professor e eco-historiador Arthur Soffiati (confira aqui) ao Folha no Ar da manhã de ontem (26), mereceu hoje a resposta de outro vereador de Campos, Anderson de Matos (Republicanos). Ele confirmou o encontro pessoal com o ambientalista por conta do projeto que lidera no Legislativo goitacá, para exploração do turismo em Lagoa de Cima. Soffiati denunciou que o edil pretende avançar sobre a área de recuo na margem da lagoa, determinado pela legislação ambiental, o que Anderson contesta.
No respeito ao contraditório, confira abaixo a resposta do vereador aos questionamentos do eco-historiador:
Vereador Anderson de Matos e eco-historiador Arthur Soffiati (Montagem: Joseli Mathias)
Anderson — “O professor Soffiat é uma pessoa de grande e valiosos conhecimentos, pude recebê-lo em meu gabinete para discutirmos sobre a Lagoa de Cima. Porém, sobre a Lagoa de Cima, é imprescindível destacar que a FMP da Lagoa foi em tese definida pela Lei Estadual 1130 de 1987, e que conforme conhecimento público e notório não pode ser revogada pelo legislativo municipal. Porém, segundo o ordenamento jurídico atual a FMP/APP devem ser de 100 m, 50 m e 30 m, conforme as zonas nas quais estejam inseridas.
A Lagoa de Cima fica localizada a 28 Km do centro urbano de Campos dos Goytacazes, 15 hectares de espelho d’água e 18 Km de perímetro (margem). Deste total, aproximadamente 5 Km encontra-se ocupado por mais de 400 edificações, entre moradias e estabelecimentos comerciais, todos irregulares perante à legislação, todavia consolidados. Ou seja, à luz da legislação, podemos considerar que em futuro próximo a esses 5 quilômetros poderão ser considerados área urbana. E, portanto, a FMP/APP será de 30 m. E em todos resto será 100 m.
A ideia é que o município seja mais restritivo e mantenha a FMP/APP em 50 m. Valendo destacar ainda dentro da questão ambiental a questão do saneamento, água e esgoto como mecanismo de proteção à saúde e ao meio ambiente. Diante disso podemos utilizar de forma sustentável e legal a Lagoa de Cima para geração de riqueza, emprego e renda em nossa cidade. Uma cidade que se encontra em calamidade fiscal e financeira com 45.628 famílias na extrema pobreza, ter um local com o enorme potencial turístico como a Lagoa de Cima, e não utilizá-lo para o desenvolvimento econômico local sustentável, é no mínimo incoerência”.
A partir das 7h da manhã desta quarta, o convidado do Folha no Ar, da Folha FM 98,3, será o advogado André Barros. Autor da notícia-crime no Supremo Tribunal Federal (STF) que pede o afastamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) pelo crime de genocídio, ele explicará em que se baseia sua ação e quais suas expectativas em relação a ela.
André também falará sobre o atraso da vacinação da vacina no Brasil, inclusive em Campos, que esgotou (confira aqui) suas doses da Coronavc, e sobre a turbulenta instalação hoje da CPI da Covid no Senado Federal. Por fim, tentará analisar Campos a partir dos seus ciclos econômicos e da volta dos Garotinho ao poder.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Fonte do mais alto escalão do governo municipal garante: nesta terça (27) já faltam vacinas Coronavac em Campos. Fruto do consórcio do laboratório chinês Sinovac com o paulista Instituto Butantan, ontem (25) o munícipio recebeu (confira aqui) 2.030 doses do imunizante contra a Covid. Hoje já aplicou cerca de 1.800 doses. E amanhã restam apenas outras 240, que não darão para atender a demanda. A previsão é de que novas doses só cheguem, sem confirmação ou data certa, neste final de semana. Enquanto isso ser perde o prazo clinicamente indicado para as pessoas que já tomaram a primeira dose e terão a segunda adiada, sem saber ainda para quando.
A ausência de vacinas não é restrita a Campos. E se repetirá, mais cedo ou mais tarde, em todos os estados da União. Em off, todas as fontes municipais da região que lidam diretamente com a vacinação não têm dúvida ao afirmar: a culpa é da total desorganização do governo Jair Bolsonaro (sem partido), que amanhã terá instalada contra ele a CPI da Covid no Senado Federal. Oficialmente, a desculpa da falta da Coronavac será a “falta de insumos”.
Campos recebeu no domingo também 12.670 doses da vacina Oxford/AstraZeneca. Desde que começou a imunização, foram no total 98.911 doses de Coronavac, vacina que começa a falta nesta terça. E que corresponde a 66% de um total de 149.663 das doses recebidas pelo município. Apenas 44%, ou 50.752 doses, são de AstraZeneca.