Alguns dos colaboradores deste “Opiniões”, por motivos pessois e acúmulo profissional, optaram por encerrar suas participações. Foram os casos recentes do jornalista e servidor federal Ricardo André Vasconcelos e da professora, escritora e atriz Carol Poesia. A eles fica o agradecimento em nome deste “Opiniões” e no seu, leitor.
Mas é hora de dar espaço a outros para escreverem aqui quinzenalmente. Amanhã, quem estreia sua colaboração, terça sim, terça não, é o jornalista e escritor Saulo Pessanha.
Abaixo, em palavras póprias, um resumo do que Saulo pretente fazer neste blog e um pouco de quem é e do que já fez:
Saulo Pessanha
Acolhi convite do jornalista Aluysio Abreu Barbosa para escrever, quinzenalmente, no concorrido blog “Opiniões”. Vou dar, portanto, uns pitacos no espaço que agrega outros colaboradores, sem deixar de estar produzindo o meu próprio blog, também hospedado no Folha 1.
A colaboração no “Opiniões” envolverá a inserção de crônicas, com um foco sobre Campos, suas coisas, sua gente. Daí que, inclusive, estarei registrando “causos” que envolva os nossos políticos e afins. São histórias divertidas, irreverentes, que, de alguma forma, resgata a memória política da cidade sob o viés do humor.
Ao falar de humor, recordo de observações feitas pelo saudoso jornalista Prata Tavares. Ele dizia que o (bom) humor se apóia no ridículo das situações e que fossem os humoristas mais inteligentes jamais se preocupariam em inventar anedotas — precisariam apenas olhar em torno de si para colher os mais hilariantes casos.
E citava o genial Charles Chaplin. As gafes do seu personagem nunca eram obras de ficção, mas fatos reais, a maioria tirados do cotidiano e colhidos nos embraçados gestos dos homens.
Saulo Pessanha nasceu em Campos, em 1950. É jornalista e começou em 1969, em A Notícia, como repórter esportivo.
Ao longo da carreira, foi correspondente da revista Placar, do Jornal dos Sports e da Última hora. Também atuou em O Fluminense, de Niterói, no Monitor Campista e O Diário.
Foi redator noticiarista nas Rádio Cultura, Jornal Fluminense, Campista Afonsiana e Nova Campos (FM) e exerceu a chefia de Jornalismo nos anos 80 na TV Norte Fluminense.
Em 1991, lançou o Economia Rural, com circulação regional. Na Folha da Manhã, é colunista. Mas já foi repórter da editoria de Política.
Fora do jornalismo, foi proprietário do Bar Doce Bar, que marcou época na noite campista nos anos 1970 por duas características básicas: a informalidade do ambiente e a excelência musical, com predominância da música popular brasileira.
Nossos vizinhos do norte dão ao político que está em decadência, perdendo poder e que, em razão disso, já não é muito respeitado e ocupa o cargo mas não tem influência na cena, o apelido de pato manco (lame duck).
A paralisação dos transportadores rodoviários nos evidencia uma série de verdades.
O país é refém do modal rodoviário e qualquer dificuldade referente a essa via de transporte gera enorme transtorno no já tenso gargalo logístico tão conhecido de nossos exportadores, notadamente os agroexportadores.
O brasileiro detesta política, mas ama o Estado. A solução mágica da caneta do executivo transfere ao ente abstrato, governo, o custo de benesses direcionadas a uma e outra categoria. Os mais organizados e poderosos acumulam benefícios, aos demais cabe a conta aplicada na forma de impostos, taxas e contribuições majoradas e coincidentes com ineficiência no que se espera de retorno como papel do Estado Moderno, prestador de serviços. Uma espécie de Estado condomínio.
O modelo político, presidencialismo de coalizão, brasileiro falhou. Essa espécie de semiparlamentarismo torna o executivo refém do legislativo e governos fracos acabam por se arrastar por meses a fio trazendo prejuízos incalculáveis a nação. Creio que melhor seria termos a aplicação de modelo parlamentarista com voto distrital misto, mas quem sabe que jabuticaba pode surgir aqui no futuro.
Passada a crise, é provável que o futuro repita o passado e uma vez mais continuemos a viver como se nada houvesse a ser corrigido. Em todos as esferas de governo (federal, estaduais e municipais) vivemos uma bela “safra de patos” a falta de representatividade é clara e as eleições que se aproximam não nos trazem grande alento.
Lá vai o pato, manca aqui, manca acolá. Lá vai o pato sem saber para onde irá!
Os ratos continuam à espreita. Já no terceiro dia da “greve” dos caminhoneiros (coloco entre aspas porque greve de patrão é outra coisa, é locaute), o deputado e líder sindical Paulinho da Força e outros parlamentares à esquerda, à direita e do Centrão sugeriram a demissão do presidente da Petrobras Pedro Parente, a mais recente Geni do cenário político nacional, pois tem sido responsabilizado (junto com a Globo, sempre ela…) por coxinhas, mortadelas e outros espécimes jabuticabas de alta complexidade por uma crise que não inventou.
A crise, na verdade, começou a ser gestada lá no governo JK, quando o então presidente com fama de progressista adotou o slogan “50 anos em Cinco” e iniciou a desconstrução da infraestrutura centenária do modal ferroviário que funcionava bem desde o Império, a fim de transformar o país em uma imensa rodovia — hoje com mais buracos e lama que asfalto. Por uma triste coincidência, um país realmente desenvolvido se reconhece pela qualidade e extensão de suas ferrovias.
Estavam inauguradas no final da década de 1950 a era das carretas e a categoria dos chantagistas sobre quatro rodas. Décadas depois, já tri-campeões mundiais nos gramados, quebraríamos o recorde global de acidentes automobilísticos, com mortos, feridos e deficientes físicos comparáveis a uma guerra civil, ranking ampliado no dia-a-dia pelos milhões de motociclistas que trafegam por nossas ruas e rodovias. E mais recentemente, após os relatórios do IPCC sobre mudanças climáticas, despontamos entre as principais lideranças dos poluidores da atmosfera. Nessas modalidades, nosso país continua imbatível. Viva os combustíveis fósseis! Viva o Século XX!
Nos meus 67 anos bem vividos, preservei poucas certezas, mas uma dela é inarredável: se Paulinho da Força & Cia. são a favor, soy contra! Aliás, nunca vi nem ouvi deste e de outros personagens conhecidos ou nem tanto nada que lembrasse alguma crítica a ex-presidentes e ex-diretores recentes da estatal queridinha dos nacionalistas contra a rapinagem sistêmica cometida por eles, em conluio com a elite da corrupção no Congresso e nas empresas.
Na verdade, o que leio ultimamente são verdadeiros tratados complexos e sofisticados descrevendo as estratégias globais e os nebulosos bastidores do mercado internacional do petróleo, “dominado pelos interesses imperialistas que colocam em constante risco as nossas ricas reservas do pré-sal”. Nem uma linha sobre os R$ 40 bilhões de prejuízos sofridos pela Petrobras em conseqüência da política de preços demagógica e irresponsável, como também a respeito dos bilhões desviados da empresa pela corrupção. É uma crítica seletiva com claro verniz “ideológico”, mas com um novo “bode expiatório” da vez.
Enquanto essa turma insiste em preservar as narrativas do século passado tendo o devido “escrúpulo” de, sutilmente, perpetuar o ranço escravagista do século anterior, outros países cujas riquezas não são tão “cobiçadas” como as nossas — mas que optaram por priorizar o conhecimento e a informação ao invés da safadeza —, já lançaram o carro elétrico, devem lançar nos próximos dois anos, o carro autônomo e outras inovações que certamente custarão a chegar até nós. A Alemanha, por exemplo, estipulou um prazo máximo de 10 anos para proibir totalmente a circulação de veículos movidos a diesel. Aqui, continuamos sonhando com o pré-sal, seu potencial quase infinito de poluição, seus milhares de empregos prometidos e nunca cumpridos, seus milhares de cidadãos exilados nas periferias desta riqueza ilusória e, como sempre, poucas dezenas de “meia-dúzia” de espertos no topo da pirâmide.
Lembra Macaé? Pois é…
Concluindo: por que Pedro Parente, representante de uma diretoria nomeada por um governo altamente suspeito e com credibilidade quase zero, mas que adotou o “compliance” para blindar a empresa das ratazanas públicas e privadas, passou a ser a Geni deste conturbado cenário nacional, a ponto de parlamentares em quem eu não confiaria a vigilância de meu galinheiro pedir a sua saída? Ora, porque no obsceno imaginário político-institucional do país, a Petrobras continuaria sendo a eterna “vaquinha das tetas de ouro”, cuja “generosidade” viabilizada pelos impostos escorchantes cobrados aos consumidores “na bomba” alimenta o apetite voraz da União, dos estados e dos municípios, materializando a compra de votos no Congresso e nas campanhas eleitorais, os jantares em Paris e os shows superfaturados. Sem contar, é claro, com o sonho de consumo de todo político corrupto: “aquela diretoria que fura poço”.
E tudo isso financiado pela imensa legião de otários conformados que sacam seus cartões de crédito como se fossem ingressar no Paraíso. Alguns deles até brilhantes no esforço de explicar o inexplicável.
A esquerda moderna no Brasil, que compreende a organização dos trabalhadores em movimentos de luta por direitos econômico-sociais associados a correntes ideológicas de viés socialista, nasce em meio à confluência, na passagem do séc. XIX ao XX, da industrialização propiciada pela acumulação dos excedentes econômicos da cafeicultura paulista, da urbanização incrementada pelo fim da escravidão e do incentivo governamental à imigração europeia visando o aumento da produtividade do trabalho.
É daí que surgem as primeiras greves e organizações sindicais que iriam colocar em xeque a Primeira República por meio de inéditas reivindicações político-sociais que abarcavam do direito de organização política à regulamentação da jornada de trabalho, passando por melhorias salariais e de condições de trabalho; reclamos inassimiláveis pelo Estado liberal-oligárquico de então.
A reação conservadora-liberal a tais movimentos, que se seguiu, com repressão violenta das greves, perseguição aos líderes e deportação de estrangeiros anarquistas, acabou, ao contrário do que se esperava, impulsionando o ideário revolucionário entre os indivíduos mais ativos das classes trabalhadoras e camadas médias. A partir do bloqueio ao diálogo e à participação, emergem, de um lado, o anarcossindicalismo como força mobilizadora de greves nos maiores centros industriais – cujo ápice foram as greves de 1917-1918 – e, de outro, os tenentes, jovens oficiais subalternos do Exército com capacidade de organização e liderança para deflagrar rebeliões políticas nos quartéis, a partir de 1922, contra o domínio oligárquico-liberal.
O fracasso de ambas as vertentes propiciará a convergência de classe entre operários e setores médios a partir da criação do PCB (1922) e das repercussões da Coluna Miguel Costa-Prestes (1925-1927) dentro e fora da caserna. Os comunistas aparecem, então, em meio aos impactos da Revolução Soviética (1917) — que populariza o marxismo entre nós pela chave russa do “marxismo-leninismo” —, deslocando a influência anarcossindicalista para o segundo plano, influência esta já abalada pela deportação de seus líderes, a partir de 1921, e pelo isolamento político ocasionado por uma radicalização que propunha destruir as instituições vigentes por meio da ação direta de indivíduos de uma classe ainda em formação, e que, ademais, era preponderantemente católica e de engajamento sindical majoritariamente moderado.
Do lado dos tenentes, a situação não era melhor, pois sua filosofia positivista, de caráter elitista, estabelecia uma relação vertical-civilizatória com a massa popular a partir de sua submissão aos cânones da sociedade industrial — vulgarmente traduzidos em termos de fé (Religião da Humanidade) —, o que tornava o engajamento político da massa subalternizada não só um contrassenso, mas uma temeridade.
Miguel Costa e Luís Carlos Prestes, engajados na Revolta Militar de 1924, é verdade, rompem com essa perspectiva ao iniciarem sua marcha pelo interior do país — maior em extensão e tempo de duração do que a famosa Grande Marcha dos comunistas chineses de 1934-1935 —, conscientizando os camponeses sobre as razões político-econômicas de sua pobreza e a necessidade da revolução para dar fim a esta opressão e à dominação das oligarquias agrárias sobre o país. Todavia, sem serem derrotados militarmente, os revoltosos se dispersariam pelo país e pelo exterior após verem seus esforços frustrados pela inação política do campesinato e o temor das populações rurais pelos saques e violência que sua passagem provocavam.
Enquanto as formas radicalizadas de ação se viam prejudicadas por sua inspiração utópica, permeada tanto por equívocos político-doutrinários como tático-estratégicos, com seu consequente isolamento social, os comunistas, liderados por Astrojildo Pereira e Octávio Brandão, inauguravam uma nova radicalidade ao romperem com a perspectiva antipolítica dos anarquistas e estabelecerem alianças político-eleitorais com segmentos moderados da esquerda para a exploração dos (poucos) espaços democráticos existentes na República Velha (1889-1930), ao mesmo tempo que procuravam atrair os tenentes para uma aliança democrático-popular. Mas, por esses azares da história, perto de colherem os frutos de sua estratégia mais consistente e colada à realidade do país, os comunistas seriam atropelados por seus camaradas da Internacional Comunista (IC), que, sintonizados com a guinada stalinista ocorrida na União Soviética após a prisão de Trótsky, em 1929, pressionaram o PCB a mudar sua direção partidária, tida como excessivamentemoderada (bukharinista).
Morto Lênin, em 1924, a russificação do comunismo internacional se completaria nos anos 1930, agora sob a égide do orientalismodespótico do cristianismo-ortodoxo, em oposição ao ocidentalismolibertário do materialismo-histórico, com reflexos também no Brasil, onde a IC iria iniciar um período de expurgo das lideranças “reformistas” em proveito daquelas que considerava aptas à “ação revolucionária” e mais diretamente ligadas à classe operária (obreirismo). Com isso, a interessante experiência comunista brasileira seria desperdiçada, impondo-se, a seguir, a filiação ao PCB dos tenentes convertidos ao comunismo, que, a partir daí, se empenhariam na preparação do Terceiro Levante Tenentista (1935) sob a liderança de Prestes – filiado ao partido, por pressão de Moscou, em 1934 –, cuja derrota marcará o recuo, mas não o abandono, do radicalismo pequeno-burguês no interior do PCB.
A substituição do novo radicalismo democrático-popular pelo radicalismo militar-popular (prestismo), está na raiz da sinuosa trajetória da esquerda radical brasileira desde então, que se tornará hegemônica — confundindo-se com a própria noção de esquerda — dada a incapacidade do sistema político, reformado pela Revolução de 1930 e pela Constituição de 1946, de institucionalizar as organizações intersindicais e partidárias dos trabalhadores, bloqueando, assim, a difusão da cultura democrática em seu seio e reforçando a internalização do putschismo em sua cultura política.
O blanquismo — que é como o putschismo se propagou na tradição revolucionária internacional — voltaria a jogar um papel fundamental entre nós a partir da Revolução Cubana (1959), em especial depois do golpe de 1964, possibilitando o aparecimento de inúmeras dissidências comunistas revolucionárias que viriam, na fase da abertura geiselista — de intensa repressão ao PCB —, somar-se ao PT; mas isto é assunto para um próximo artigo.
No verão de 2010, Yve Carvalho na montagem de “Pontal”, no Pontal
Morreu por volta das 9h da manhã de hoje (26) o ator e professor Yve Carvalho. Ele tinha 54 anos e estava internado há cerca de 70 dias no Hospital Ferreira Machado (HFM), por conta de insuficiência renal. O velório ocorre no Teatro Trianon, a partir da meia-noite, cujo palco foi um dos tantos ocupados pelo talento de Yve. O enterro será às 16h deste domingo, no Campo da Paz.
Yve começou no teatro nos anos 1980. Sua primeira peça foi “Blue jeans”, encenada no Teatro de Bolso (TB) sob a direção do também já falecido Félix Carneiro. A partir daí, ele fez várias peças em Campos, chegando a dividir elenco com a então atriz e depois governadora do Rio e prefeita de Campos, Rosinha Garotinho. Foi em “O auto do lavrador”, sob direção de Orávio de Campos.
A partir da sua atuação na peça “O Noviço”, de Martins Pena, em 1986, Yve saiu de Campos, como o primeiro ator pago da planície goitacá nos palcos do Rio. Lá, ele investiu na sua formação acadêmica. Após se formar como técnico em ator na Escola de Teatro Dirceu de Mattos, também se graduou em licenciatura em teatro na Unirio. Nos anos 1990, ele trabalhou como secretário de uma musa daquela década, a atriz global e ex-modelo Isadora Ribeiro.
Aprovado em concurso como professor de arte da rede estadual e ainda morando no Rio, Yve integrou o elenco da peça campista “Auto do Ururau”, dirigida por José Sisneiro, que arrebatou o prêmio Shell, um dos mais importantes do teatro brasileiro, em 2005. No mesmo ano, ele venceu como intérprete o FestCampos de Poesia Falada, no hoje fechado Palácio da Cultura. O poema que Yve defendeu também ganhou aquele FestCampos, do qual participei como júri: “Goya Tacá Amopi”, do poeta, diretor teatral e turismólogo Antonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi (1950/2015).
O reconhecimento na terra natal, a amizade e intensa parceria artística com Kapi, além de ter passado em concurso como professor de arte também na rede municipal de Campos, trouxeram Yve de volta em 2006. Como eu já tivera alguns poemas dirigidos por Kapi, mas com outros intérpretes, em FestCampos anteriores, formou-se uma nova parceria ator/diretor/autor que estreou com bastante sucesso no FestCampos de 2007. Naquele ano, sob direção de Kapi, Yve interpretou “muda”, poema sobre Atafona, que acabou tirando o primeiro lugar.
O fato da obra ter vencido, mas não seu intérprete, revelou a mim e ao público o imenso compromisso de Yve com sua arte. Após o poema ter passado sem nenhum deslize pela semifinal, Yve esqueceu o texto no meio, na final do dia seguinte. E a culpa pode ter sido também minha, pois estávamos numa tremenda ressaca, após bebermos até amanhecer o dia, comemorando a classificação.
O grande ator não se fez de rogado, pediu desculpas, saiu de cena e voltou de imediato ao palco do auditório do Palácio da Cultura, retomando o poema do início. Se o erro na primeira tentativa acabou lhe impedindo de ganhar como intérprete, sua coragem fez com que a obra fosse a vencedora daquele FestCampos.
A parceria ainda colheria mais frutos em 2008. Novamente com a interpretação de Yve, sob direção de Kapi, outro poema, “conversão a mais de uma atmosfera”, acabaria vencedor do 11º Concurso Nacional de Poesia Francisco Igreja, em 2008. O palco, não poderia ser mais honroso: a sala Machado de Assis, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Além da obra, Yve ganharia como melhor intérprete daquele festival, seu maior prêmio como ator em terras cariocas.
Ainda em 2008, Yve faria sua primeira experiência no cinema. Sob a direção do campista Carlos Alberto Bisogno, ele protagonizou o curta “Efígie”. O filme seria lançado em 2009. Enriquecido pela experiência, retornaria aos palcos no mesmo ano, para encenar no TB seu primeiro monólogo: “Meu querido diário”, do dramaturgo, poeta e professor Adriano Moura. Novamente sob direção de Kapi, foi um ato de resistência. Encenada já em setembro, foi apenas a segunda montagem de artistas locais naquele ano triste para o teatro de Campos.
Após a estreia da peça, escrevi sobre seu protagonista numa resenha crítica publicada na Folha Dois:
— Podemos também notar um intérprete superior, que soube pontuar sua conhecida visceralidade com um timing de comédia quase casual, servindo as deixas do texto ao riso do público numa fruição espontânea, sem fazer força, mesma caudalosa.
No verão de 2010, Kapi passava uma temporada em Atafona, quando teve uma ideia. Juntaria poemas sobre Atafona, meus, dele, de Artur Gomes e Adriana Medeiros, que seriam adaptados como causos contados entre pescadores, numa peça chamada “Pontal”. O palco não poderia ser mais apropriado: o bar do Bambu, como Neivaldo Paes Soares passou a ser conhecido após ocupar no Pontal de Atafona a antiga casa de barco da família Aquino, proprietária do Grupo Thoquino, transformando-a em bar e sua residência.
O primeiro ator pensado foi Yve, que já conhecia alguns poemas. A ele se juntaram o campista Sidney Navarro e o gaúcho Mairus Stanislawski. Administrar o conflito entre personalidades fortes como Kapi, Neivaldo e Yve não foi fácil, mas valeu a pena. A peça acabou sendo um inesperado sucesso de público, apesar do acesso ao local só pela areia e ausência de energia elétrica. E talvez tenha sido o último grande momento de um lugar mágico, entre o Paraíba do Sul e o Atlântico.
O avanço do mar levaria o bar do Bambu em julho de 2012, enquanto Neivaldo desapareceria misteriosamente na foz do rio em 21 de junho de 2015.
Cerca de dois meses antes de Neivaldo, Kapi também partira em navegação ao desconhecido. Um dos maiores artistas de Campos, foi condenado ao ostracismo nos oito anos da gestão municipal da ex-atriz Rosinha, vítima de ressentimento mesquinho por ter gravado um vídeo de apoio à oposição, na eleição de 2008. Em 2 de abril de 2015, Kapi também não resistiria a um quadro de insuficiência renal.
Com a morte de Kapi, Yve se assumiu também como diretor. Trabalhando com a produtora Oráculo, do odontólogo, psicólogo e ator Luiz Fernando Sardinha, ministrou cursos sobre tragédias gregas para jovens. E os dirigiu em clássicos como “Édipo Rei”, de Sófocles; “Medeia”, de Eurípedes; e “Prometeu acorrentado”, de Ésquilo. Depois de montar os três do TB, levou o último também ao palco do Trianon.
Passado o sucesso no verão de 2010, Yve também assumiu a direção de “Pontal” com a morte de Kapi. E a encenou em palcos como o Cais da Lapa, o auditório do Porto do Açu, o Sesc e o Sesi de Campos, além da praça do Liceu, durante a primeira edição do Festival Doces Palavras (FDP). Vários outros atores compuseram o elenco, sempre ao lado de Yve: Artur Gomes, Toninho Ferreira, Saullo Oliveira e Jota Z.
Após sua estreia num pedaço do Pontal que não existe mais, foi por iniciativa de Yve que “Pontal” teve outra montagem muito emblemática. Durante a ocupação do Teatro de Bolso pelos artistas de Campos, no movimento Ocupa TB, entre maio e junho de 2016. A peça foi exibida no palco fechado há mais de dois anos. Com os mesmos Yve, Saullo e Jota Z, “Pontal” teria uma reestreia no Teatro de Bolso já reaberto, com casa lotada, em 30 de junho de 2017.
Mesmo que eu tenha escrito 17 dos 22 poemas que compõem a peça, Yve era o capitão de “Pontal”. Ao longo dos anos, nossa parceria nasceu na afluência entre poesia e teatro. E a amizade foi irrigada com cerveja e cachaça, dos festivais e peças às mesas de bar de Campos, Rio e Atafona.
Como ator, Yve era dramaticamente visceral, sem ser hiperbólico, ou baixar a pulsação da veia cômica. Ninguém precisava lhe dizer isso, pois ele já sabia, fazendo questão de deixar claro em alto e bom som, sempre que possível. Era uma estrela com consciência do seu brilho; um artista e pessoa por vezes difícil, mas absolutamente necessário.
Se seu desbordar era capaz de preencher as vidas ao redor, com sua morte ficam muitos vazios. O teatro de Campos perde seu maior ator. Eu e outros tantos, um amigo.
Com versos familiares, me despeço. Até o reencontro em outra foz, meu irmão!
Charge do José Renato publicada hoje (26) na Folha
Greve ou locaute?
A paralisação dos caminhoneiros e a crise de desabastecimento em todo o país são locaute? A palavra é a versão aportuguesada do inglês “lock out” (“trancar”), que no dicionário Aurélio é assim definida: “Qualquer paralisação de um setor ou unidade produtiva determinada pelos proprietários, como instrumento de pressão”. Pelo fato de não ter na pauta o aumento do preço do frete, apenas o subsídio federal ao diesel, muitos especialistas têm considerado como locaute o movimento que ontem entrou no quinto dia, mesmo depois do governo federal ter garantido na noite de quinta o congelamento do litro do diesel a R$ 2,10 por 30 dias.
Esquerda denuncia farsa
A paralisação dos caminhoneiros tem contado com a simpatia de setores da esquerda brasileira, pelos danos que causa ao moribundo governo Michel Temer (MDB). No entanto, uma das referências do pensamento de esquerda no país, o jurista e professor de direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Afrânio Silva Jardim foi categórico ao afirmar desde o início do movimento, no dia 21: “Na verdade, não se trata de greve de caminhoneiros e, sim, uma paralisação determinada pelas empresas que exploram este tipo de atividade econômica. Trata-se de um verdadeiro ‘Lock Out’”. E concluiu: “Vamos denunciar essa farsa!”.
Brasil 247 e O Globo
A opinião de Afrânio foi repercutida pelo site Brasil 247 — números que, somados, dão 13, em referência clara ao PT. E não é diferente do que ressalvou o jornalista Bernardo Mello Franco, em artigo publicado ontem na “mídia corporativa” d’O Globo: “A crise de desabastecimento não foi provocada por uma mera greve de caminhoneiros. Há participação explícita de grandes empresários de transportes na paralisação. Greve apoiada por patrões não é greve, é locaute. Nem sempre se limita a buscar vantagens financeiras. Pode embutir outros fins, como desestabilizar governos e tumultuar eleições”.
Intervenção militar (I)
Mello Franco contrastou em seu artigo o apoio à paralisação entre esquerda e direita: “Parte da oposição festeja o caos. A direita amalucada volta a pedir ‘intervenção militar’, um eufemismo rasteiro para golpe”. A esquerda que simpatiza com o movimento dos caminhoneiros parece desconhecer que eles também fizeram exigências políticas. A primeira reivindicação da União Nacional dos Transportadores Rodoviários e Autônomos de Carga é: “cumprimento integral da lei do voto impresso em urnas eletrônicas ou adoção do voto impresso em urnas de lona, com apuração a cargo das Forças Armadas”. E ameaçou: “em caso de descumprimento, nos somaremos ao clamor popular por intervenção militar”.
Intervenção militar (II)
Na verdade, os militares “defendidos pelos caminhoneiros foram o elemento de dissuasão da sua paralisação. Após fechar o acordo com representantes da categoria, na reunião de quinta, Temer ficou contrariado com a permanência da paralisação na sexta. E, em pronunciamento na TV, disse: “Para superar os graves efeitos comunico que acionei as Forças Armadas para desbloquear as estradas. Atendemos todas as reivindicações prioritárias dos caminhoneiros que se comprometeram a encerrar a paralisação”. Preocupados com conflitos entre soldados e caminhoneiros, os líderes destes ontem pediam a suspensão dos bloqueios nas estradas.
No quinto dia da paralização dos caminhoneiros, só ontem apareceu na BR 101 em Campos a faixa com apoio à intervenção militar (Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)
Intervenção militar (III)
Apesar dos apelos pelo fim da paralisação, a reportagem da Folha ouviu ontem os manifestantes no trecho da BR 101 que corta o município. Eles informaram que 80% dos caminhoneiros, ali parados há cinco dias, são de Campos. E garantiram que, independente do que está sendo divulgado, eles irão aguardar o Exército, mas não pretendem entregar as chaves dos seus veículos a nenhum militar. Na contradição flagrante entre discurso e prática, ontem apareceu uma novidade no ato: um caminhão com uma faixa gigantesca escrito: “Queremos intervenção militar já!!!”.
Na saúde
Além do desabastecimento em todos os postos de combustível, supermercados, feiras, escolas, portos, aeroportos e transporte público do país, o quadro preocupa também na saúde. Os manifestantes afirmam que caminhões com remédios e insumos hospitalares são liberados, o que é impossível de ser fiscalizado. A secretaria de Saúde de Campos informou que não chegaram novas remessas esperadas para ontem. A situação real será averiguada em levantamento na segunda (28). Já de acordo com hospitais como Álvaro Alvim, Plantadores de Cana, Unimed e Beda, a situação por enquanto é estável. Resta saber até quando.
A paralisação dos caminhoneiros nas estradas cerceia o direito de ir e vir? Chama o Exército! A criminalidade explodiu em Campos? Chama o Exército! Ontem, em decisão da 4ª Vara Federal de Niterói, foi determinada a desobstrução da BR 101 entre a ponte Rio/Niterói e a divisa com o Espírito Santo, com apoio do Exército no cumprimento da decisão. Também ontem, o delegado da 146ª DP de Guarus e o comandante do 8º BPM anunciaram que esperam a ajuda do Exército no combate ao crime em Campos, como anunciado pelo general Richard Nunes, secretário estadual de Segurança Pública, em visita ao município na terça (22).
Caminhoneiros e sociedade
Motivada pelos consecutivos reajustes no preço do diesel, a causa dos caminhoneiros parece justa. Mas é consequência das altas do barril de petróleo e do dólar. Se não pode ser corrompida para financiar projeto político, como foi nos governos petistas de Lula e Dilma, a Petrobras tem também uma função estratégica nos rumos do país. Entre uma coisa e outra, quem paga o pato é a sociedade. Em Campos e municípios vizinhos, como em todo o Brasil, os efeitos do desabastecimento são sentidos pelo cidadão em seu cotidiano, seja nos postos de combustível, nos supermercados, nas feiras, nas escolas e no transporte público.
Deficiência estratégica
Ouvidos ontem pela Folha, os caminhoneiros parados no trecho da BR 101 que corta o município já se mostravam cientes da decisão judicial e da possibilidade do Exército desobstruir a rodovia. E, pelo menos no discurso, não se intimidaram e garantiram que vão manter o movimento até que a redução no preço do diesel seja realidade na boca das bombas. Se isso de fato acontecer, ficará cada vez mais evidenciada a falta de pensamento estratégico em um país continental como o Brasil, refém dos caminhões pelo transporte de cargas ineficiente por ferrovias, vias fluviais e navegação marinha de cabotagem.
Crime em Campos
Por outro lado, o Exército é esperado pelas Polícias Civil e Militar de Campos como aliado na luta contra a violência, que explodiu com a guerra do crime organizado pelo controle do tráfico de drogas em Guarus. Ontem, um jovem de 20 anos foi preso e apresentado como o “matador de Nolita”. Como esta coluna contou em detalhes (aqui) na edição do último dia 17, Francio da Conceição Batista, o Nolita, seria o chefe do tráfico no Parque Santa Rosa. Mesmo ligado à facção Amigos dos Amigos (ADA), que controla o tráfico Baleeira, ele seria contrário à união com o Terceiro Comando Puro (TCP), que comanda o tráfico na Tira Gosto.
Pelinca aguarda?
Nolita foi preso em 8 de março, após comandar uma série de invasões armadas em residências. Só que depois disso, no lugar de atenuar, a violência se intensificou. Em maio, Campos já teve 15 homicídios. Em 2018, foram 105, 65 deles (ou 61,9%) em Guarus. Na noite de quarta (23), a nova vítima não foi fatal, mas prova como os criminosos não respeitam mais ninguém, nas duas margens do Paraíba. Um soldado da P2, serviço reservado da PM, foi baleado de raspão em frente a Tira Gosto. E a sociedade parece esperar que alguém tenha menos sorte na Pelinca, para se revoltar contra o que banaliza enquanto Guarus é o foco.
Fada-madrinha
Após sair da nossa última ditadura militar (1964/85) desgastado, o fato é que o Exército vem reassumindo papel de protagonismo no país. Egresso das suas fileiras, o ex-capitão e deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) lidera todas as pesquisas para presidente nos cenários sem o ex-presidente Lula, preso e que dificilmente poderá concorrer. Tirar as Forças Armadas da cartola, seja na intervenção federal no Estado do Rio, desobstruir a BR 101 ou combater a explosão do crime em Campos, parece estar virando hábito. Mas, ainda que seja hoje cioso do seu devido papel constitucional, o Exército não é fada-madrinha. Ninguém é.
Crítica
O deputado federal Wadhi Damous (PT), ex-presidente da OAB/RJ, foi citado criticamente (aqui) na edição desta coluna da última quarta, por seu apoio público ao governo Nicolás Maduro na Venezuela. Responsável pela ruína financeira daquele país, que exportou mais de 3 milhões de refugiados (10% da sua população) pelos países vizinhos, numa grave crise humanitária da América do Sul, Maduro foi reeleito no último domingo. O pleito teve forte suspeita de fraude e foi condenado por vários países, incluindo Brasil, EUA, Canadá, México, Argentina e Chile. Damous respondeu ao “Ponto Final”. Em nome do contraditório, publicamos abaixo:
Resposta
“Os direitos humanos são os mesmos no mundo todo. Grande parte da responsabilidade pelo desabastecimento de produtos básicos ao povo venezuelano é da própria elite daquele país, aliada ao maior responsável de todos: o governo dos EUA. Ambos investem no quanto pior melhor, cada qual a seu modo: uns com sabotagem, outros com aplicação de sanções econômicas contra a economia venezuelana. Mesmo assim, Maduro venceu as eleições por ampla margem de votos, cerca de 70%. Com toda a crise, cerca de 30% dos eleitores foram às urnas, percentual similar a várias eleições norte-americanas”.
Ontem (22) em Campos, o secretário fluminense de Segurança Pública na intervenção federal no Estado do Rio, general Richard Nunes, não descartou o uso de tropas do Exército no combate ao crime no município. Como a manchete da capa da Folha ressaltou no dia da visita, na véspera (21) de consumou a morte da adolescente Andreza Viana Costa no Hospital Ferreira Machado. Grávida aos 16 anos, ela estava no portão de casa, no Parque Cidade Luz, quando foi baleada no sábado (19). Socorrida ainda com vida e internada, morreria no dia seguinte com seu filho no ventre.
General não vai a Guarus
O homicídio de Andreza foi o 14º registrado em Campos só no mês de maio. Em 2018, já foram 104 assassinatos, 64 deles (61,5%) em Guarus, sem contar Travessão, Santa Maria e outras localidades mais distantes, mas também atendidas pela 146ª Delegacia de Polícia (DP). Como esta coluna relatou com detalhes (aqui) em sua edição da última quinta (17), vários bairros à margem esquerda do Paraíba vivem uma verdadeira guerra civil, com origem no Parque Santa Rosa, numa disputa de facções criminosas pelo controle do tráfico de drogas. Ainda assim, após visitar o 8º Batalhão de Polícia Militar e a 134ª DP do Centro, o general-secretário não foi à 146ª DP de Guarus.
Planície no Planalto
Ontem (22), o prefeito Rafael Diniz (PPS) não pôde receber o general Richard Nunes na planície goitacá. Ele estava no Planalto Central, assim como as prefeitas de Quissamã e Carapebus, respectivamente Fátima Pacheco (Podemos) e Cristiane Cordeiro (PP). O evento promovido na XXI Marcha a Brasília em Defesa dos Municípios contou com a presença do impopular presidente Michel Temer (MDB) e de alguns pré-candidatos a substituí-lo nas eleições de outubro. Entre eles, compareceram e falaram aos prefeitos a ex-senadora Marina Silva (Rede), o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e o senador paranaense Álvaro Dias (Podemos).
PCdoB ausente
Outra presidenciável, a deputada estadual Manuela d’Ávila (PCdoB) era esperada, mas não compareceu. Sua ausência ao evento dos prefeitos foi no dia seguinte ao seu partido soltar uma nota intitulada “Vitória retumbante do povo venezuelano”, relativa à reeleição no último domingo (20) de Nicolás Maduro a presidente da Venezuela. Por denúncias de fraude, o pleito foi condenado pelo Brasil e outros 13 países do Grupo de Lima, entre eles EUA, Canadá, México, Argentina e Chile. Com uma inflação de 897,2% em abril e projetada em 14.000% para 2018, mais de três milhões de venezuelanos (10% da população) já deixaram o país.
Critérios, doutor?
Mesmo culpado pela falta de comida, remédios e material de higiene que gerou uma grave crise humanitária na América do Sul, o regime venezuelano ainda coleciona defensores entre militantes de esquerda nos países vizinhos, que recebem seus refugiados. Só no Brasil, já são 50 mil. Ontem, o deputado federal Whadi Damous (PT/RJ) comparou Maduro ao ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Como este ano é de campanha eleitoral também no Brasil e o deputado Damous já foi presidente da OAB-RJ, se ele vier a Campos, será o caso de se perguntar quais critérios de direitos humanos defende. E se estes têm diferença quando aplicados a Venezuela ou ao Brasil.
Rafael gostou de Ciro
De Brasília, na noite de ontem Rafael Diniz falou à coluna sobre quem falou no encontro nacional de prefeitos. Considerado conservador pela esquerda goitacá que apoia ou finge ignorar Maduro, o prefeito de Campos disse ter gostado mais de um nome progressista entre os presidenciáveis que palestraram ontem: “Ressalvadas as questões partidárias e eleitorais que acontecerão lá na frente, o discurso de Ciro Gomes se mostrou muito técnico, firme e realista”. Hoje, estão programados para participar do evento os pré-candidatos a presidente Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB) e Guilherme Afif Domingos (PSD).
Cadeia Velha
A Justiça Federal deu início à instrução processual em ação que envolve o presidente afastado da Alerj, Jorge Picciani, e os deputados Paulo Melo e Edson Albertassi, os três MDB. Investigados na operação Cadeira Velha, eles são acusados de receber propina para garantir a aprovação de medidas em favor de empresas dos setores de construção civil e transportes públicos. Na primeira audiência, foram ouvidas duas testemunhas listadas pelo Ministério Público Federal (MPF).
Ilustração de Carybé para a edição brasileira de “Cem Anos de Solidão”, da Editora Record
Durante quatro ou cinco internações hospitalares a que fui submetido por causa de caprichos de um coração rebelde, recorri a expedientes da memória para passar o tempo em dias e noites geladas das UTIs. Na primeira vez fui recuando no tempo em busca dos nomes dos prefeitos de Campos e só consegui chegar até a eleição de José Alves de Azevedo em 1958. Na verdade, foi a segunda eleição de José Alves, eleito pela primeira vez em 1950, mas só descobriria depois da alta hospitalar e mais interessado em conhecer os antecedentes até Rodrigues Peixoto, que inaugurou a galeria de alcaides em 1904. Por mais incrível que possa parecer, tarefa menos difícil foi puxar a fila de ex-presidentes dos Estados Unidos, onde religiosamente se realizam eleições de quatro em quatro anos, sem casuísmos e com mandatos de tempo invariável. Sem papel ou caneta, cheguei ao primeiro mandato de Franklin Delano Roosevelt, em 1932, sendo ele reeleito em 1936, 1940 e 1944. Depois dele os americanos limitaram a reeleição a apenas um mandato.
Enquanto isso, na volátil legislação eleitoral brasileira, o tamanho dos mandatos variou de quatro, dois e seis anos para nossos prefeitos eleitos neste período entre 1958 e 2018. Em 1970, por exemplo, a pretexto de coincidir as eleições seguintes com a escolha de integrantes do Congresso Nacional, os prefeitos foram eleitos para um mandato-tampão de dois anos. Em Campos, foi eleito Rockfeller de Lima, então filiado à Arena. Finda a experiência, os alquimistas políticos da ditadura que comandava o país resolveram acabar com a coincidência e espichou os mandatos dos prefeitos eleitos em 1976 e 1982 para seis anos, sendo vencedores, respectivamente, Raul Linhares — que acabou renunciando após cinco anos e deixando o último para o vice, Wilson Paes — e Zezé Barbosa, que viveu terceiro e último mandato até a última gota, sem deixar o vice, Waldebrando Silva, um dia sequer à frente da Prefeitura.
Como o tempo no leito de um hospital passa mais lento do que aqui fora, principalmente com uma trava na virilha imobilizando todo o corpo pelas primeiras 48 horas depois da cineangiocoronariografia, é insuficiente buscar na memória nomes de prefeitos, presidentes dos EUA ou do Brasil, se bem que no caso deste últimos a tarefa é mais fácil: república velha (Deodoro, Floriano, Prudente de Moraes, Campos Sales, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha, Hermes da Fonseca, Wenceslau Brás, Rodrigues Alves (eleito de novo, mas morreu antes da posse), Epitácio Pessoa, Artur Bernardes, Washington Luis, Júlio Prestes, este não tomou posse por causa do golpe de 1930 que inaugurou a era Getulista que durou até 1945, quando outro golpe derrubou Vargas. Redemocratizado, o Brasil elegeu o general Eurico Gaspar Dutra, como apoio de Vargas, que voltaria em 1950 pelo voto direito até sair da vida para entrar na história com um tiro no peito em 1954. Um ano depois começou uma curta e nova era, com Juscelino Kubitscheck, sucedido por Jânio, que renunciou oito meses após a posse e deu munição para o golpe três anos depois contra o sucessor João Goulart. Veio o ciclo militar com Castelo Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel e Figueiredo. Com a redemocratização, mais um presidente morto antes da posse — Tancredo — e os eleitos, Collor, FHC, Lula e Dilma, o primeiro e a última, impedidos e substituídos pelos vices, Itamar e Michel Temer.
O passatempo mais prazeroso encontrado na UTI, no entanto, foi “viajar” pela Macondo, onde choveu, sem parar, “por quatro anos, onze meses e dois dias”, com a quase impossível tarefa de traçar a árvore genealógica dos Buendía, cujos 17 filhos, netos, bisnetos da fantástica saga parida da genialidade de Gabriel Garcia Márquez se repetem por cem anos em Aurelianos. Além do coronel Aureliano, que depois lutar e perder 32 guerras passava o tempo confeccionado peixinhos de ouro, o mundo mágico de Garcia Márquez tem outros personagens inesquecíveis com suas verdades cortantes. O próprio coronel, “já taciturno, silencioso, insensível ao novo sopro de vitalidade compreendeu que uma boa velhice não é outra coisa senão um pacto honrado com a solidão”. E Rebeca, a que “tinha necessitado de muitos anos de sofrimento e miséria para conquistar os privilégios da solidão e não estava disposta a renunciar a eles em troca de uma velhice perturbada pelos falsos encantos da misericórdia”.
Cem anos de Solidão, publicado pela primeira vez em 1967 e que em 1982 deu o Prêmio Nobel de Literatura ao escritor colombiano, foi o primeiro de quase uma dúzia que li e reli do autor que morreu em 2014. É neles que me refugio de quando em quando, como que adiando o inevitável momento de me pôr “a salvo dos tormentos da memória”.
Em tempo 1 – Felizmente não frequento uma UTI desde 2012.
Em tempo 2 – Lamento o falecimento, nesta terça-feira, dia 22, do jornalista Alberto Dines, autor de um dos melhores livros sobre jornalismo, “O papel do jornal”.
Em tempo 3 – Agradeço ao amigo Aluysio o honroso convite para escrever aqui em seu Blog, compromisso quinzenal cumprido com prazer desde janeiro do ano passado, mas que peço licença para interromper a partir de agora. Obrigado também aos me honraram com a leitura de minhas reflexões.
Registrado, pela sua importância no campo da teatralidade, pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, entidade fundada em 1838, o livro “O Theatro no Brasil” (Editora Moderna, Rio de Janeiro, 1936) de autoria de Múcio da Paixão (1870-1926), é caminho obrigatório para quem deseja pesquisar, desde suas origens, o desenvolvimento da dramaturgia brasileira, a partir do evento que a história oficial resolveu denominar de “descobrimento” das terras de Santa Cruz.
Aliás, a não ser outro livro com o mesmo título, de Galante de Souza, com visível diálogo com o original para alcançar seus objetivos, sem que fosse necessário, é a única referência disponível, embora poucas bibliotecas do país o possua em seu acervo de raridades históricas, justificando-se, por essas razões, sua reedição como um presente às novas gerações para as quais Múcio não passa de um nome de rua, situada no bairro do Turfe Clube, segundo registro do historiador Waldir Pinto Carvalho.
Autor, também, de outros livros históricos, sendo os mais expressivos “Espírito Alheio – Episódios e Anedotas de Gente de Teatro” (1917); e “Movimento Literário em Campos (1924), o preclaro professor do Liceu, teatrólogo, crítico teatral, jornalista de fôlego e deputado pelo Partido dos Operários na primeira eleição republicana, dentre outras ações no avir de seu tempo, foi o fundador do Sindicato dos Empregados no Comércio, que à época era uma Associação de Caixeiros.
Ainda sobre “O Theatro no Brasil”, cujo registro exordial refere-se à cena portuguesa nascida em 8 de junho de 1502, “ (…) dia em que o cômico e actor Gil Vicente se apresentou no paço do Rei D. Manuel, e ahi foi até à câmara da Rainha D. Maria, então aliviada do parto em que dera à luz o príncipe que foi D. João III, perante a qual recitou o Monólogo do Vaqueiro (…), o autor campista, filho de lusitanos de Guimarães, não teve recursos para editar a obra, quando foi finalizada, em 1917.
A publicação, com edição limitada, só foi possível, postumamente, a partir do esforço de seu filho mais velho, René de Castro Soares, em 1936, que, na primeira página assina uma declaração afirmando que o custeio ficou por conta do grande ator Procópio Ferreira, ao qual faz um sentido agradecimento, aclarando que “o lucro que houver será revertido para o Sindicato dos Trabalhadores de Teatro em São Paulo e para o Retiro dos Artistas em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro”.
Ao propomos a reedição do livro, pode parecer, hoje, uma contradição, uma vez que presidimos, enquanto secretário de Cultura do Governo Rosinha Garotinho, o Conselho Editorial da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, que, naquele período, editou e reeditou cerca de 40 títulos, por ocasião das bienais do livro nos anos de 2010, 12, 14 e 16, iniciativa auspiciosa do saudoso professor Lenilson Chaves, por inspiração feliz do grande escritor e seu amigo Ziraldo.
É que em sendo descendente direto de Múcio não nos sentíamos bem em propor a reedição, até porque, com exceção da igualmente saudosa conselheira Maria Helena Gomes, atualmente residindo nas paragens do Itaoca — Olimpo dos artistas desta terra cujo céu azul não há igual no mundo (Azevedo Cruz) —, os demais integrantes preferiram Alberto Lamego (pai), Manuel Martins do Couto Reis e edições históricas no campo da antropologia e da arqueologia representada pelo “Sitio do Caju”.
Não estamos arrependidos por não usarmos a força política para alcançar o pleno “desideratum”. Foi melhor assim. Mas, distante do sistema e claramente (hoje) seu opositor no campo das idéias, voltamos a pensar no assunto. E vale a declaração da importância da reedição de “O Theatro no Brasil”, uma síntese histórica da dramaturgia luso-brasileira, entre 1501 a 1917. Quem sabe, sensibilizado, não aparece algum mecenas, como ocorreu com Procópio Ferreira, em 1936?
Representantes do debate bipolar que tormou de assalto o país desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a esquerda e a direita mostraram recentemente sua força em Campos. No dia 8, uma palestra do deputado estadual Flávio Bolsonaro (PSL) lotou o auditório da Faculdade de Direito de Campos (FDC). Exatos 10 dias depois, foi a vez de outro deputado estadual, Marcelo Freixo (Psol), lotar o mesmo auditório da FDC em outro evento. No mesmo dia 18, na última sexta, os dois visitaram a Folha da Manhã e lá concederam entrevistas exclusivas, publicadas (aqui e aqui) com igual espaço e destaque na edição de domingo (20).
Bolsonaro e Freixo
Flávio Bolsonaro é pré-candidato a senador e lidera com folga a disputa segundo pesquisa Paraná feita entre 4 e 9 de maio, primeira sobre as eleições majoritárias de outubro no Estado do Rio. Marcelo Freixo é pré-candidato a deputado federal e dele também se espera uma boa votação. Com os dois foi adotada a mesma toada de outra entrevista exclusiva anterior, dada (aqui) à Folha pelo ex-presidente ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 6 de dezembro de 2017. Publicada (aqui) no dia seguinte, depois de viralizada (aqui e aqui) em toda a mídia nacional, sua regra foi contrastar as posições do entrevistado, mas dar a ele a chance de falar.
Lula e Moro
Citado por Lula na entrevista, o juiz federal Sérgio Moro foi procurado em dezembro para também se manifestar. Ele respondeu (aqui) à Folha, mas preferiu declinar. O magistrado já havia condenado o ex-presidente a 9 anos e meio de prisão, em 16 de julho, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no caso do triplex do Guarujá. Em 24 de janeiro, os crimes seriam confirmados por 3 a 0 no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), que aumentou a pena para 12 anos e um mês. Após ter o habeas corpus negado por cinco ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e sete do Supremo Tribunal Federal (STF), Lula foi preso em 7 de abril.
Narrativas
A chamada “guerra de narrativas” que incendeia os debates no país, ficou clara no contraste das entrevistas de Flávio Bolsonaro e Marcelo Freixo. Filho do ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro (PSL), para o primeiro o Brasil não viveu uma ditadura militar entre 1964 e 1985, mas seu eufemismo: um “regime militar”. Por sua vez, para Freixo, o impeachment de Dilma foi “golpe”. Opinião externada na disputa do 2º turno a prefeito do Rio, ele não a considera responsável por sua derrota para Marcelo Crivella (PRB) em 2016. Ainda assim, fez questão de relativizar as consequências às eleições de dois anos depois: “Ninguém pensa mais em Dilma”.
Revelações
Nas dúvidas entre ditadura militar ou “regime militar”, ou entre impeachment ou “golpe”— talvez inexistentes para quem não pensa por dogmas —, o fato é que as duas entrevistas foram publicadas no domingo, na Folha da Manhã e no blog “Opiniões”, hospedado no Folha 1. E até às 20h40 de ontem (21), a feita com Freixo tinha recebido 77 curtidas, enquanto a com Bolsonaro, apenas 10. A diferença de mais de 700% deixa abertas duas possibilidades: ou a esquerda atrai mais leitores em Campos e região do que a direita, ou os simpatizantes desta não são muito de ler jornal. De um jeito e do outro também, são alternativas reveladoras.
Síria da esquerda
Enquanto a direita brasileira vive com suas idiossincrasias, a esquerda não fica para trás. Nela, quem ainda apoia ou tenta relativizar o regime de Nicolás Maduro na Venezuela, perdeu qualquer contato com a realidade. Ele foi reeleito no último domingo como presidente de um país que reprime com violência, prende e mata opositores, em meio à escassez de comida e remédios, com uma economia devastada. A inflação venezuelana de abril fechou em 897,2%. E a projetada para 2018 são inimagináveis 14.000%. São escombros que nem a Guerra Civil da Síria conseguiu produzir na economia daquele país do Oriente Médio.
Golpe sem aspas
Por denúncias de fraude, a reeleição de Maduro foi condenada pelo Brasil e outros 13 países americanos do Grupo de Lima, entre eles EUA, México e Argentina. Governadas por líderes vitalícios, Rússia, China e Bolívia reconheceram o resultado. No pleito da Venezuela não puderam concorrer os dois opositores mais populares: Henrique Capriles e Leopoldo López, preso desde 2014, acusado de liderar os protestos daquele ano no país. Considerar o resultado como “vitória retumbante do povo venezuelano”, como fez ontem o PCdoB da presidenciável Manuela d’Ávila, é como chamar ditadura de “regime”. É um golpe sem aspas na verdade.
Se a direita impressionou pela presença de público no auditório da Faculdade de Direito de Campos em evento do dia 8, a esquerda não deixou por menos, lotando o mesmo espaço 10 dias depois, em evento com o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol). À Folha, o pré-candidato a deputado federal repetiu questionamentos que vem fazendo sobre os vazamentos na investigação dos assassinatos da vereadora carioca Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março. Ele considera o caso como um dos mais complexos que a Polícia fluminense já teve e contesta prazos à sua apuração, como o fixado pelo deputado federal e seu correligionário Chico Alencar. Freixo também falou do avanço da direita no Brasil, que para ele sempre existiu, analisou sua derrota na eleição a prefeito do Rio e o golpe que considera ter havido no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).
(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)
Folha da Manhã – A vereadora Marielle Franco (Psol), assassinada a tiros com o motorista Anderson Gomes em 14 de março, começou na política partidária na sua campanha vitoriosa em 2006 a deputado estadual. Nomeada sua assessora, ela esteve à frente da coordenação da comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj. No pleito de 2016, ela se lançou à Câmara Municipal do Rio e, com mais de 46 mil votos, foi a segunda mulher mais votada a vereador no Brasil. O que pode dizer sobre ela?
Marcelo Freixo – A Mari, ela é isso que você já disse na pergunta. Eu conheço a Mari há muitos anos, muito antes da campanha de 2006, na verdade. Eu tinha uma relação familiar com a Mari. Eu dei aula para a Anielle, irmã dela. Eu sou professor de história e estive 20 anos em sala de aula. Eu fui professor da Anielle no ensino médio. Então, a Anielle se formou, se não me falha a memória, em 2002. E aí eu vi a festa de formatura. Fui o professor homenageado da turma da Anielle. Então, ali, eu conheci a Marielle. Depois, nós nos reencontramos em um projeto de educação popular, organizado, inclusive, pelo Leon, que está aqui me acompanhando. Ele é professor de geografia e organizava um debate com alunos de pré-vestibulares comunitários, que era chamado “Domingo é dia de cinema”. Acontecia no Cine Odeon, que é um cinema histórico na Cinelândia, no Centro do Rio. E, uma vez por mês, no domingo, ele passava um filme e tinha debate depois. Aí, ele passou “Ônibus 174”, que é um filme, por acaso, do José Padilha. O mesmo Zé Padilha do “Tropa de Elite” depois. Foi quando eu conheci Zé Padilha, inclusive.
Folha – E da série “O Mecanismo” também.
Freixo – E de “O Mecanismo”. Eu conheci o Zé Padilha ali, no “Ônibus 174”, que, aliás, é um brilhante documentário. Para mim, um dos melhores da história do cinema brasileiro. E reencontrei a Marielle nesse debate. Deviam ter umas 600 pessoas. Isso me surpreendeu muito porque era um domingo, 9 horas da manhã, um cinema e só alunos de pré-vestibulares comunitários. E a Marielle tinha sido aluna de pré-vestibular comunitário, no pré-vestibular da Maré. Ali, a gente se reencontrou e conversou. Logo depois, veio a minha campanha de 2006, que é essa a que você está fazendo referência. Ela se envolveu bastante na campanha, assim como outras pessoas da Maré. Muitos deles ligados aos pré-vestibulares. Quando a gente ganhou a eleição e foi formar a equipe do mandato, a gente tinha um critério, que era de formar por setores de trabalho. A gente queria que tivesse um setor para pensar as favelas. Que viesse das favelas e que fosse para pensar política de direitos conduzida nas favelas. Aí, a gente separou duas vagas no mandato para duas pessoas da Maré. Aí, a Marielle e a Renata Souza foram as escolhidas, pelo próprio Psol da Maré. E a Marielle trabalhou todos esses anos comigo. Chegou o momento em que eu assumo a presidência da Comissão de Direitos Humanos. A gente reestrutura toda a Comissão. Amplia muito a ação da Comissão de Direitos Humanos. Por exemplo, trabalhando com familiares de policiais, que era algo que a Comissão nunca tinha feito e algo novo na concepção de Direitos Humanos no Brasil. Geralmente, o trabalho de Direitos Humanos é com as vítimas da violência do Estado. Aí, a gente começou a entender que esses agentes do Estado também eram vítimas da violência do Estado. A Marielle foi muito importante nesse trabalho. Assim como a ampliação para outros temas. A gente foi alargando muito a capacidade de atendimento da Comissão. Até que ela se elege vereadora, faz um mandato que é muito continuidade do trabalho que ela já fazia na Comissão. O próprio perfil da montagem do gabinete da Mari é muito a cara dela. Teve pouco mais de um ano de mandato. Um ano e três meses. Até que vem esse brutal assassinato. Então, a Mari tem uma coisa importante, que eu sempre falo: a Mari passa a ser muito conhecida do mundo depois que ela é negada ao mundo. A Marielle não foi conhecida pelas razões que deveria ter sido. A Marielle é conhecida pela negação da Marielle, que é sua morte. Então, agora é a hora de a gente entender que ela tem que, realmente, virar semente, como as meninas estão dizendo. Acho que outras Marielles vão surgir como resposta a isso. A Mari era uma pessoa especial. Ninguém vai trazê-la de volta. O lugar dela, ninguém vai substituir porque era um afeto pessoal, que é diferente do que o mundo está sentindo. O mundo está sentindo vontade de ter conhecido a Marielle. De ter mais Marielles na política, na sociedade brasileira, em qualquer lugar. Isso é bom. As pessoas entenderam que chegamos a um limite também. Isso é importante. A gente espera que algo diferente desta lógica tão violenta aconteça.
Folha – Em entrevista à Folha, publicada (aqui) em 10 de abril, o deputado federal Chico Alencar (Psol) estabeleceu um prazo de 60 dias, a contar do crime, para que ele fosse desvendado. Ele usou como referência a elucidação do assassinato da juíza Patrícia Acioli, da 16ª Vara Criminal de São Gonçalo, assassinada, em 2011, com 21 tiros, na porta de casa, por policias militares ligados à milícia. O prazo dado por Chico venceu na última segunda (14). Como fica?
Freixo – Esse prazo não existe. Esse prazo é um desejo do Chico, que é um desejo muito razoável. Mas é um desejo da nossa angústia. É o tempo da nossa angústia. Isso não é o tempo da investigação. O caso da Patrícia Acioli, mencionado, é um caso que era muito mais simples do que o da Marielle. Só para você ter uma ideia: os policiais que mataram a Patrícia Acioli foram condenados pela Patrícia Acioli no dia da sua morte. Então, era muito óbvio que tinha uma linha de investigação imediata no caso da juíza. Eles usaram a arma da PM com a munição da PM. Eles usaram celular e passaram em frente à câmera de filmagem da casa. E saíram do carro. Então, o nível de complexidade do crime não se compara. Se levaram 60 dias para descobrir ou para fechar o caso da Patrícia Acioli, é evidente que não é em 60 que vão desvendar o caso da Marielle. Isso não quer dizer que eu não quisesse que descobrissem em 30. O meu desejo tem a ver com a minha saudade, com minha angústia, com meu sentimento de justiça. A gente precisa ter calma para não atrapalhar as investigações. Então, a gente sabe que é o crime mais complexo da história da Delegacia de Homicídios do Rio de Janeiro. Disso, eu não tenho a menor dúvida. Isso é dito pelos delegados. Eu estou acompanhando o caso muito de perto. Não tem um dia em que eu não me reúna com alguém sobre o caso. Eu estou acompanhando o caso. Acompanho a família. Estive ontem (quinta-feira) com a dona Marinete (mãe de Marielle). Sobre o meu mandato, tem uma responsabilidade muito grande sobre todos nós. Claro, é um mandato muito mais antigo, mais experiente, com muita relação com a Marielle. Então, nós absorvemos muito da responsabilidade. Mas não adianta querer dar um prazo que não seja real e querer criar ampliação de cobrança. Cobrança, tem que haver. Nós temos que ir para a rua, que cobrar, que falar sobre isso, como você está me questionando. Agora, nós não podemos fazer com que isso vire uma irresponsabilidade de querer que qualquer um assine esse crime. Como a gente tem dito sempre: a gente não quer vingança. A gente quer justiça. A gente não quer o que parece ter sido. A gente quer a certeza do que foi. Então, se tem vereadores suspeitos, que se investigue. “Ah, mas o vereador era miliciano.” Então, que ele responda pela milícia. Mas, pelo crime da Marielle, tem que ter provas sobre isso. Então, a gente tem que ter prudência também.
Folha – Pelo menos ao público, as maiores novidades sobre o caso não vieram da Polícia, nem dos militares do Exército que assumiram a Segurança Pública fluminense com a intervenção federal no Estado do Rio. Mas da reportagem de O Globo, que no último dia 8 revelou o depoimento de uma testemunha apontando como suspeitos de mandantes outro vereador carioca, Marcelo Siciliano (PHS), e o ex-PM e miliciano preso Orlando Curicica. O motivo teria sido o avanço da atuação social de Marielle em áreas da Zona Oeste controladas por Siciliano. Outro deputado federal do Psol, Jean Wyllys disse que “o cerco está se fechando”. Está?
Freixo – Não sei. Só os investigadores podem dizer. Nenhum deputado, ninguém tem informações específicas sobre a investigação. Nem deve ter. Não é papel de deputado ter informações das investigações. Mesmo os deputados mais queridos, mais próximos a Marielle, os deputados do Psol. Nenhum de nós tem que ter informação da investigação. Quem tem que ter essa informação são os investigadores. A gente tem que ter o resultado final. Essas informações relacionadas ao vereador, ao Orlando Curicica, são frutos de um vazamento. É grave. Deveria gerar punição, inclusive. É muito ruim que o ministro da Segurança Pública (Raul Jungmann) venha a comemorar e dizer que o cerco está se fechando baseado em um vazamento. Vazamento é crime. Atrapalha. Quem vaza, vaza por alguma razão, que também precisa ser investigada. Então, a gente não vai comemorar vazamento de informação. Acho muito grave um jornalista participar de um interrogatório. Eu espero, inclusive, que isso seja apurado. A gente vai esperar a investigação ser concluída para ter a clareza do que aconteceu. Se o Marcelo Siciliano tem vínculo com a milícia, que ele responda por isso. Mas, se ele vai responder pelo crime da Marielle, que se apresente provas sobre isso. Não estou, com isso, dizendo que ele seja inocente ou culpado. Estou dizendo que a gente não pode se basear em vazamento de informação, que tem outros interesses que eu não sei quais são, para dizer se o caso está sendo concluído ou não. Não há nada, nada concreto que diga que o caso está sendo concluído.
Folha – Também na entrevista à Folha, ao ser indagado se as execuções de Marielle e Anderson tinham sido uma resposta das milícias à intervenção federal, Chico Alencar respondeu: “Não, eu acho que foi mais um recado para o Marcelo Freixo, de que a vingança é um prato que se come frio, às vezes”. Segundo a testemunha do caso, Siciliano teria dito a Curicica: “Marielle, piranha do Freixo. Precisamos resolver isso logo”. Chico está certo?
Freixo – Não sei se o Chico está certo. Isso, é a conclusão da investigação que vai dizer. Eu acho muito difícil que o Siciliano tenha dito isso que está na informação vazada. Eu nunca encontrei o Siciliano. Não o conheço. Nunca vi. Certamente, ele sabe quem eu sou. Ele já pode ter estado em algum lugar em que eu estava. Ele acabou de ser eleito vereador. Eu não tinha escutado falar dele até o momento da eleição. E ele conhecia a Marielle. Estava há um ano convivendo com a Marielle. Eu acho muito pouco provável que ele, em uma mesa de bar, tenha falado o meu nome, que não é um nome comum, alto. Não é Silva. É um sobrenome que, evidentemente, se associa a alguém especifico no Rio de Janeiro. Não acredito que ele tenha falado o meu nome, em uma mesa de bar. Uma pessoa que ele nunca encontrou e se referindo a alguém que ele conhecia. Então, isso não bate para mim. Essa informação, para mim, é fantasiosa desse vazamento. Acho muito pouco provável que esse diálogo tenha existido. Mas está lá no vazamento.
Folha – Também na entrevista, Chico disse: “O Marcelo anda muito bem protegido, como tem que andar mesmo. E a Marielle não. Como qualquer um de nós do Psol, que denunciamos as mesmas coisas que ela, a gente nunca se preocupou em ter carro blindado, segurança. Talvez, tenha que se preocupar agora”. Tem agora ou já teria que ter antes?
Freixo – A Marielle não recebeu nenhuma ameaça. Eu falei com Marielle um dia antes de ela morrer. Marielle morreu em uma quarta. Na terça à noite, eu conversei longamente com ela. A gente, na sexta e no sábado, ia ter atividade juntos o dia inteiro. Eu pedi para ela não viajar para a gente fazer uma atividade juntos. Não tinha nada acontecendo que gerasse a ideia de que corria algum risco. Eu só tenho carro blindado e escolta porque eu recebi uma quantidade gigantesca de ameaça por conta da CPI das Milícias. Diversidade de ameaças ao longo do tempo. Então, óbvio, tem um elemento concreto. E não pensem que é um privilégio. Não é. Você não ter vida pessoal com um mínimo de autonomia. Este ano, eu tive uma conversa com minha companheira e meus filhos, dizendo que, no final do ano, eu pretendia diminuir a segurança porque não aguentava mais. Já são 10 anos de cerceamento, limitações. E eu achava que já não precisava mais. Afinal de contas, já tinha passado muito tempo. Eu sou pré-candidato a deputado federal. Se for eleito, vou passar um pedaço da minha vida em Brasília. Então, pensava em diminuir. Eu falei isso um mês antes. Essa conversa com minha família foi em fevereiro. Em março, a Marielle morre e muda tudo. Óbvio que não posso pensar em diminuir segurança agora. Quem matou a Marielle matou por uma razão que a gente não sabe qual é, mas não matou só pela Marielle. Isso está muito evidente. Porque, se fosse só pela Marielle, ela teria recebido alguma ameaça. Não queriam que ela parasse de fazer alguma coisa só. Se fosse isso, teria ameaça, como eu tenho. Aliás, na verdade, ameaça direta, eu nem tenho. O que eu tenho são diversos planos para me matar, que foram descobertos pela inteligência da polícia, através de grampos ou de infiltrados. Ameaça direta, eu tive pouquíssima. O que eu tive foram planos para me matar. Muitos. Uma pasta inteira. Então, é evidente que eu ando com blindado e com escolta. Agora, ninguém mais do partido. Porque ninguém se meteu onde eu me meti. As pessoas têm vida parlamentar como tantos no Brasil têm. De outros partidos, inclusive. Agora, se rompeu uma fronteira no Rio de Janeiro. A fronteira da barbárie foi rompida. O histórico de morte, de homicídios na política, tinha muito a ver com território, com lugares, com praticas que essas pessoas estavam envolvidas para além do parlamento. Crime político, com este perfil, o da Marielle é absolutamente inédito. Como você ia prever um negócio desses? Nem ela, nem nós. Ninguém. Ninguém imaginou isso.
(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)
Folha – Inegavelmente, o avanço da direita ocorre não só no Brasil, como no mundo. Entrevistei antes de você o Flávio Bolsonaro (PSL). Entre outras coisas, ele afirmou: “a direta saiu do armário”. O pai dele, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) lidera todas as pesquisas presidenciais nos cenários sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). De onde veio e até onde pode chegar essa onda?
Freixo – Bom, que bom que ele saiu do armário. No sentido de estar mais feliz com o que ele pensa. Eu torço para ele ser feliz. Mas, na verdade, sempre existiu uma direita brasileira. Nós tivemos o Integralismo em grande parte do século XX. Nós tivemos uma ditadura civil-militar que durou…
Folha – Integralismo com o Estado Novo, o que é quase um pleonasmo.
Freixo – Estado Novo. Exatamente. E nós tivemos uma ditadura civil-militar durante 21 anos. De 1964 a 1985. Uma ditadura violenta. Essa ditadura só durou tanto tempo porque havia uma base conservadora de direita, de opinião pública, inclusive, que sustentava essa ditadura. Isso foi até 85. Então, não dá para achar que o Brasil descobre que tem uma direita. Eu acho que, de 85 para cá, principalmente pelos efeitos da década de 80, da Constituição de 88, que, de todas elas, é a Constituição mais avançada. A Constituição que precisava sair do armário. Essa, sim, precisava ser colocada em prática. Aquela, sim, vive no armário há muito tempo. Uma parte importante dela nunca saiu para ser efetivada enquanto uma Constituição Cidadã para o conjunto maior das pessoas. Então, houve um período de redemocratização em que houve certa timidez desses valores mais conservadores, mas nunca deixaram de existir. Nunca. Não à toa o perfil do Congresso, das Assembleias nunca foi um perfil hegemonicamente progressista. Mesmo no período de redemocratização, com todas as falhas que tem. O que a gente tem hoje em curso é a cristalização de uma extrema-direita muito personificada pela família, que também olha com senso de oportunismo eleitoral muito grande. Entende isso. Inclusive com algumas coisas que são curiosas. Por exemplo, todo o ímpeto da família Bolsonaro de denúncia da corrupção, o que eu acho que é importante. Mas eles foram do mesmo partido do Paulo Maluf a vida inteira. Eles foram do PP durante décadas. Nunca denunciaram o Paulo Maluf. Nunca. Foram da base do Cabral nesses anos inteiros. Votaram em Picciani para presidente da Assembleia Legislativa em todas as votações.
Folha – Você fala isso em relação ao Flávio?
Freixo – Em relação ao Flávio na Alerj e ao Jair, no PP, no Congresso Nacional. Eu estou falando do Paulo Maluf, mas poderia citar vários do PP. Aliás, o PP é o partido com o maior número de indiciados na Lava Jato. Partido do Jair Bolsonaro a vida inteira. Quem ele denunciou dentro do PP? Para quem ele pediu Conselho de Ética dentro do partido? Quando ele fez alguma frase, ao longo da sua vida, contra os corruptos que estavam no mesmo partido que ele? Nunca. Nunca fizeram. Então, tem um senso de oportunismo, nesse momento, que é válido, faz parte da política, mas não é tão novo assim. Essa direita não é tão nova. Tem uma pesquisa da Ester Solano, que eu não sei se foi publicada ainda e eu tive acesso, sobre o perfil do eleitorado da extrema-direita. Um estudo interessante e muito bem feito. Mostra o quanto tem relação com o medo, com o descrédito político, com a desesperança e o quanto isso alimenta um discurso, muitas vezes, de ódio. E aí é perigoso. No momento em que você tem uma vereadora brutalmente assassinada com quatro tiros, é muito grave a consequência de algum discurso de ódio. Porque há o medo, e ele é legítimo e materializado. Tem razão para ter medo quem vive no Rio de Janeiro, quem vive em qualquer cidade nordestina que, aliás, é mais violenta que o Rio de Janeiro. Qualquer capital nordestina tem índices de violência piores do que os do Rio de Janeiro.
Folha – Campos teve 103 homicídios em 2018, 13 só em maio.
Freixo – Paraty é a cidade mais violenta do Estado do Rio de Janeiro.
Folha – Campos é a 45ª cidade mais violenta do mundo.
Freixo – Então, é evidente que as pessoas têm medo, e esse medo é real. Então, como você responde a esse medo no momento em que a política não te representa? Você tem um medo. Esse medo é real, concreto. Todo mundo conhece alguém que foi assassinado, assaltado. Ao mesmo tempo, você não se enxerga na política. Há uma crise partidária, uma crise de identidade. Então, você busca algo que a política não te oferece. Nesse vácuo de república, aparece algo que dialoga com seu medo e que propõe algo que, supostamente, se diferencia dessa política, sem que a sua história comprove essa diferenciação. Mas diferente da política. É a história do outsider, do mito, do herói, de alguém que vai ser diferente de tudo isso. E a história não é nada diferente do que já foi feito até hoje. E, aí, ele dialoga com o ódio, que é o ódio que responde com mais armas, com mais violência. Enfim. Isso tem um prazo de validade. Qual é esse prazo, que é a origem da tua pergunta, não dá para saber.
Folha – Vai até outubro?
Freixo – Não sei, não sei. Já está fugindo dos debates. Eu acho que, nos debates, terá dificuldade de sustentar minimamente as suas ideias. Porque tem fragilidade. Mas certamente vão cristalizar uma votação de uma extrema-direita que nós não tivemos até hoje. Qual vai ser o tamanho disso? Não sei.
Folha – Já está na casa dos 20%.
Freixo – Está em 17%.
Folha – Segundo o Datafolha de abril. Em pesquisas mais atuais, feitas em maio, ficou em 20,5% na Paraná e 18,5%, na CNT.
Freixo – Está entre 17% e 20%. A gente vai concluir que entre 17% e 20% do eleitorado brasileiro é fascista? Não, não é. Se for, a gente está perdido. Mas não é. Agora, tem o medo, que reproduz uma leitura política no voto imediato. Mas isso pode mudar.
Folha – Na disputa do segundo turno pela Prefeitura do Rio contra Marcelo Crivella (PRB), uma atitude considerada importante na sua derrota foi ter dito que sua passagem pelo primeiro turno havia sido “um recado ao partido golpista”, em referência ao MDB do então prefeito Eduardo Paes, hoje no DEM. Insistir na narrativa de que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) foi golpe, naquele momento, não o impediu de conquistar eleitores de centro? Você já disse que “não se arrepende de nada”. Não falta autocrítica?
Freixo – Não, não falta autocrítica. Eu só não posso ter autocrítica em cima do que não aconteceu. Em nenhum momento da minha fala no segundo, eu disse isso. Isso foi fruto de uma entrevista quando acabou a minha fala. Uma entrevista com o repórter André Trigueiro, do jornal O Globo. A pergunta dele era: “a sua vitória é uma resposta ao golpe?”. E eu respondo: “é, claro”. Isso não estava na minha fala no palanque. Só para deixar claro. Isso sempre aparece e atribuem a isso uma derrota. Isso não tem cabimento. Nós perdemos uma eleição para algo que a gente não conhecia direito, que era o poder da Universal e o poder da Record somados. Não foi fácil ir para o segundo turno com um oito segundos de tempo de televisão. A gente derrotou o Pedro Paulo, que tinha três minutos e uma estrutura inteira de campanha. Então, chegar ao segundo turno foi um mérito muito grande, coletivo de quem estava na campanha. Era um momento muito difícil para a esquerda, tanto que a esquerda perdeu no Brasil inteiro. Era o momento em que você tinha o auge da condenação de qualquer coisa da esquerda que se identificava ao PT. Nós nunca fizemos parte do governo do PT. Nós pagamos a conta. Isso é verdade. Passei boa parte da minha vida na Zona Norte e na Zona Oeste da cidade do Rio. Eu moro perto de um ponto de táxi onde há vários taxistas. Eu conheço todos eles pelo nome, inclusive. E, no primeiro dia do segundo turno, quando eu desço de casa, às 6h30 da manhã, achei que o clima estava meio estranho ali. Achei que pudesse ter acontecido alguma coisa. Não associei a mim. Aí, o dono do bar que fica embaixo do meu prédio disse: “os taxistas estão chateados com você”. Quando eu cheguei lá, falei: “o Zé falou que vocês estão chateados comigo. O que houve?”. “Ah, você não podia falar o que falou dos taxistas.” Aí, eu disse: “eu falei dos taxistas? Será que eu dei alguma entrevista sobre taxista e falei bobagem?”. E eu não me lembrava de jeito de nenhum. Aquela pergunta de Uber e táxi, eu devo ter respondido umas 500 vezes por dia. Mas eu falei a mesma coisa. Já não aguentava mais. Eu disse: “desculpe, não sei qual entrevista é essa”. E, aí, eles me mostraram um áudio de uma voz imitando a minha, de forma tosca, inclusive, e dizendo: “está vendo? Fui para o segundo turno. Manda dizer para esses taxistas burros que não adiantou votar no Crivella”. Era um áudio imitando a minha voz. Alguém ligava para mim e dizia: “e aí, Freixo? Foi para o segundo turno”. E, aí, eu dava o recado. Todos os taxistas do Rio de Janeiro receberam esse áudio às 6h da manhã do primeiro dia do segundo turno. Esse é o nível da política que foi feita no Rio de Janeiro no segundo turno. À tarde, eu estava em Bonsucesso, na praça, fazendo atividade política. Vem um senhor para mim e diz: “votei em você, mas não vou votar no segundo turno”. Aí, eu falei: “já sei, o senhor é taxista”. E ele falou: “não, não. Eu sou da igreja e achei um absurdo o recado que o senhor mandou para a igreja dizendo que vai permitir a troca de sexo em criança nas escolas”. Aí, eu falei: “meu senhor, é óbvio que eu não falei isso. Não estou propondo trocar sexo em criança, muito menos na escola”. Aí, ele me mostrou o áudio e era a mesma voz. Com esse subterrâneo, essa lixeira política, a gente não sabia lidar. A gente perdeu a eleição para isso. Não perdeu a eleição por uma declaração que eu dei para o André Trigueiro n’O Globo. Não foi isso que fez a gente perder. A gente fez todas as autocríticas do mundo em relação às falhas, aos erros. A gente fez e deve continuar fazendo.
Folha – Feita entre 4 e 9 de maio, a pesquisa Paraná foi a primeira ao governo estadual e às duas vagas fluminenses ao Senado. Nesta, Flávio Bolsonaro apareceu na liderança isolada, com 32,3% das intenções de voto, seguido do ex-prefeito do Rio, César Maia (DEM), com 20,6%. A mesma pesquisa apontou o senador Romário (Podemos), com 26,9%; Eduardo Paes, com 14,1%, liderando a corrida a governador. Depois da vitória de Crivella a prefeito do Rio, isso não sinaliza que o eleitor fluminense, tradicionalmente mais progressista, está virando à direita?
Freixo – O eleitor do Rio de Janeiro nunca foi progressista. Não sei de onde vocês tiraram isso. É só pegar o histórico de resultado eleitoral do Rio de Janeiro. A eleição no Rio de Janeiro é conservadora.
Folha – A opinião contrária à sua pode ser tirada das últimas quatro eleições presidenciais, nas quais o Estado do Rio ficou duas vezes com Lula e duas vezes com Dilma.
Freixo – Sim. Mas para os resultados internos, que é a base da pergunta. De governador, senador. Quem são os senadores eleitos pelo Rio de Janeiro?
Folha – Lindbergh? Benedita?
Freixo – Qual outro? Você falou dois nos últimos 50 anos.
Folha – Puxei pela memória.
Freixo – É porque só tem os dois. Não tem outro (em período mais recente, teve também Darcy Ribeiro e, por três mandatos, Roberto Saturnino, sem contar Luís Carlos Prestes, eleito senador em 1945). O eleitorado efetivamente progressista do Rio de Janeiro está em torno de 25%. Isso historicamente. E tem outro eleitorado em disputa. E eu acho que a campanha sempre pedagógica, política sempre pedagógica. Porque tem margem de conversa. Agora, eleitorado de valores progressistas, no sentido de esquerda, 25% classicamente. Isso não quer dizer que você tenha 75% de conservadores. Não. Você tem uma margem pequena de conservadores e uma massa no meio, em disputa. É verdade. O que pode eleger gente de esquerda, desde que consiga ter um patamar de diálogo com a sociedade. Hoje, é muito difícil fazer qualquer cálculo nesse sentido, se a guinada eleitoral está para a direita ou para a esquerda. A gente está vivendo um período de intervenção. A gente viveu a morte da Marielle, que mudou a percepção das pessoas sobre política, mas a gente não sabe ainda o que vai acontecer. Há uma fronteira que se cruzou, com a morte da Marielle. As pessoas olharam de uma maneira diferente para a política, evidentemente. Em que isso vai resultar? Não sei. Teve um golpe. Olha eu repetindo “golpe” de novo. Porque eu acho que foi.
Folha – O impeachment de Dilma.
Freixo – Claro. Você não precisa de Exército para fazer golpe. Basta ter o parlamento. E eu não estou, com isso, defendendo o governo da Dilma. Achei o governo da Dilma muito ruim. Quero deixar claro isso. Mas estive em todos os protestos contra o golpe porque eu acho que a Dilma tinha que ser derrotada no voto. E eu esperava derrotá-la, inclusive. No voto. Mas não imputando um crime que não aconteceu e não rompendo com o processo legal, colocando um governo ilegítimo. Eu tive uma conversa com um dirigente do jornal O Globo, uma vez, um café. Foi muito curioso. Ele me disse que não foi golpe. Mas como não foi golpe? Ele falou: “mas passou por todas as etapas legais”. Eu falei: “sim, um golpe legal. Um golpe parlamentar, como teve no Paraguai e em outros lugares. Não precisa mais de Exército para dar golpe”. Ele: “não. Então, eu concordo que não foi moral, mas foi legal”. Esse resumo é genial. “Eu concordo que não foi moral, mas foi legal”. Então, é isso. Você dá legalidade a uma imoralidade. Aí, se você vai chamar de golpe ou não, é o de menos.
Folha – Pode ter consequência na urna.
Freixo – Vai ter consequência. Claro que vai. Mas não sei mais se é a mesma consequência. Porque uma coisa era quando o centro de avaliação política para saber se houve golpe ou não era o desastroso governo da Dilma, no qual as pessoas, na verdade, se apegaram a nenhuma legalidade para dizer “esse governo está uma droga e nós vamos apostar em qualquer coisa que possa melhorar”. Eu entendia isso também.
Folha – Perdeu apoio popular, perdeu apoio parlamentar. Perdeu as ruas em 2013.
Freixo – Perdeu apoio popular, perdeu apoio parlamentar, não tinha projeto. Perdeu as ruas. Havia impaciência muito grande. Havia falta de capacidade de diálogo muito grande. O governo não era bom. Era um governo que tinha muitos erros, na avaliação dos setores do próprio governo. Então, é isso. Aí, óbvio. A população não se apegou à ética legal para garantir o processo democrático. E abriu mão disso, o que é caro para a história do Brasil. O problema é que a avaliação se foi golpe ou não, em 2016, tinha um peso gigantesco. Por quê? Porque isso te associava à imagem e avaliação do governo Dilma. Não é o que acontece em 2018. O Temer é uma margem de erro, né? Tem 3% de aprovação. Pode ser só ele defendendo o governo, se for três a menos. Então, é diferente hoje. Hoje, quando você fala golpe ou não, você fala em um contexto em que as pessoas estão pensando em Temer. Ninguém pensa mais na Dilma. Aí, o Temer carrega, além da sua incompetência, a sua origem: golpista. A ideia de que você falar “é golpe”, hoje, gera uma grande polêmica? Não gera mais. Não acho que isso seja um definidor de campos políticos, como foi em 2016. Vocês têm toda a razão. Hoje, não. Hoje, as pessoas não estão mais preocupadas com isso. Essa pauta passou para boa parte dos brasileiros. Essa eleição busca voltar a dar legitimidade ao governo. Disso, ninguém discorda.
Folha – Em entrevista à jornalista Maria Fortuna, publicada por O Globo em 2 de abril, você descartou a possibilidade de disputar a eleição para governador:
Freixo – Vocês pesquisaram a minha vida mesmo.
Folha – Você disse: “Preciso ser candidato a deputado federal para superar a cláusula de barreira (que restringe o funcionamento do partido que não alcançar determinado percentual de votos). Há um desafio para que eu seja o mais votado e isso ajuda na disputa à Prefeitura daqui a dois anos. Se eu não tiver cumprindo mandato, com essas ameaças que sofro, terei que sair do Brasil e não estou disposto”.Motivos à parte, você não seria o nome mais competitivo do partido ao Palácio Guanabara?
Freixo – Eu acho que minha resposta já está aí. O partido tem vários quadros. O Tarcísio Motta, que é o nosso candidato ao governo, cumpriu um papel extraordinário há quatro anos. Ele foi candidato há quatro anos. Hoje, ele é pré-candidato porque a candidatura é só em agosto. O Tarcísio foi o vereador mais votado do Psol. É um parlamentar de grande destaque na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro hoje. Foi muito bem na última eleição. É um quadro preparadíssimo. Ele é menos conhecido do que eu? Pode ser. Mas a gente constrói quadros também. Quando a gente lançou o Tarcísio, há quatro anos, ninguém o conhecia. Aí, sim. Tarcísio tinha feito história comigo, era meu amigo de sindicato. Quando a gente lançou o Tarcísio, a gente sabia do potencial dele. Foi uma grande surpresa. Uma grande novidade. Foi o melhor nos debates, disparado. Fez uma campanha lindíssima. Na cidade do Rio de Janeiro, ele chegou à frente do Lindbergh. Ele teve uma votação extraordinária para quem era candidato pela primeira vez. Se consolidou. Foi o vereador mais votado do Psol, com 98 mil votos. Então, cabe a um partido construir seus quadros.