Desde antes de Cristo — Pornografia, pedofilia, zoofilia ou apenas arte?

 

Na última segunda (09) o artigo do jovem Igor Franco foi publicado aqui, intitulado “Mas, e a criança?”. Falava do caso da menina de 4 anos que teve permissão da mãe para tocar os pés de um homem adulto nu, em performance artística no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo. E gerou acalorado debate no link da postagem (aqui) na democracia irrefreável das redes sociais. A reboque, só no blog, obteve mais de 160 likes.

Escrevendo quizenalmente às segundas-feiras, é o segundo texto seguido de Igor a superar os 100 likes (confira aqui). Além da qualidade do escriba, evidencia também como cresce na sociedade o apoio ao ideário liberal, defendido com verve nas análises do especialista em investimentos financeiros por ofício.

Como, num blog chamado “Opiniões”, se busca o equilíbrio entre as vozes ecoadas, quem optou por escrever ontem (aqui) sobre o ocorrido do MAM de São Paulo, assim como a polêmica exposição de arte anterior do Santander, em Porto Alegre, foi o jornalista, blogueiro e servidor federal Ricardo André Vasconcelos. Em mão ideológica oposta, ele viu nos episódios uma curva do Brasil à direita, naquilo que sinalizou “Nostalgia do obscurantismo”.

O link da postagem nas redes sociais gerou debate (aqui), embora não tanto quanto o texto do Igor. Diferente deste, onde acabei me metendo nos comentários do Facebook mais do que devia, fiz sobre o texto do Ricardo (aqui) um único comentário, anexado de uma imagem. Para abir este feriado de 12 de outubro, reproduzo ambos abaixo, no mesmo respeito às discordâncias que tiveram os dois colaboradores:

 

 

Obra dos escultores Agesandro, Atenodoro e Polidoro, todos da ilha grega de Rodes, datada de 40 a.C. e perdida desde a Antiguidade, até ser achada por acaso em 1506, nos arredores de Roma, Laocoonte (personagem da “Eneida”, de Virgílio) e seus dois filhos estrangulados por serpentes marinhas. Pornografia, pedofilia, zoofilia ou apenas arte? Na dúvida, o conjunto escultório está no Museu do Vaticano, sem restrição etária à visitação.

 

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Amantes de Atafona têm encontro marcado neste 12 de outubro

 

 

 

Neste feriado de 12 de outubro, os amantes de Atafona têm encontro marcado. A centro de arte, pesquisa e memória CasaDuna convida a todos para a exposição Atafona: Museu em Processo.

Com entrada franca, será apresentado o acervo da CasaDuna, composto  do material histórico doado pelo poeta e artesão Jair Vieira, reunindo registros dos últimos 40 anos em Atafona.

Também será apresentado o Projeto Muxuango, coordenado pelos pesquisadores João Almeida e André Pinto. É um trabalho de registro e investigação sobre os antigos moradores da Ilha da Convivência.

Haverá ainda a exposição dos registros fotográficos de Fred Alvim, Jéssica Filipo, Flavio Bacellar, Mariana Moraes, Rodrigo Sobrosa, Elisael Pereira Barros, Renata Lamenza, e Victor Aquino. Além deles, será inicado o Mural Interativo, para receber fotos de família em Atafona, registros pessoais e objetos históricos, que possam ser deixados para a composição do espaço de memória coletiva.

De acordo com Julia Naidin e Fernando Codeço, coordenadores da CasaDuna, a proposta do projeto “Atafona: museu em processo” é “trazer a lembrança de que toda narrativa, cada escombro e cada história dessa praia está no processo de se tornar vestígio. Dar o testemunho e o depoimento do tempo vivido ao tempo que virá”.

A exposição tem a co-curadoria do museólogo André Pinto e se manterá aberto a novas propostas e contribuições.

 

PROGRAMAÇÃO DE INAUGURAÇÃO

 

16h: Abertrura da Casa

 

17h: Programação Dia da Criança

–       Oficina de arte

–       Palestra interativa “Dança da chuva”, com Luís Henrique Araújo (Lulu)

 

20h30: Palestra “Interpretação de paisagens em zonas costeiras à partir de imagens de satélites”, com o geógrafo, pesquisador e professor Gilberto Peçanha

 

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Dicas de filme e livro em debate sobre o futuro do Brasil e do mundo

 

 

 

Por motivos de ordem pessoal, o blog caminhou esta semana sem produção de textos próprios, se sustentando no orgulhoso ecoar dos seus colaboradores. Mas, independente da autoria, todos os textos publicados aqui são linkados na democracia irrefreável das redes sociais, onde geram alguns debates, por vezes tão ou mais interessantes do que as postagens que os ensejaram.

Exemplo disso foi um debate sobre a bipolaridade em que o Brasil e o mundo se encontra divididos, naquilo que parece antecipar a eleição presidencial tupiniquim de 2018, daqui a menos de um ano. A despeito da presença do blogueiro, essa discussão se desenvolveu no Facebook com os professores Aristides Soffiati e José Luis Vianna da Cruz, dois dos pensadores que mais admiro em Campos, pela envergadura da intelectualidade e do caráter.

Para evidenciar que o escritor e semiólogo italiano Umberto Ecco (1932/2016) pode não estar de todo certo quando afirmou “as redes sociais deram voz aos imbecis”, confira aqui ou nas reproduções abaixo:

 

 

De concreto, ficam as dicas do filme “Ele está de volta”, do diretor alemão David Wnendt, e do livro “Só mais um esforço”, do filósofo chileno-brasileiro Vladimir Safatle. Independente da concordância, confira abaixo o trailer do filme e uma entrevista com o escitor sobre seu livro:

 

https://www.youtube.com/watch?v=nLA9J82pHs0

 

 

 

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Ricardo André Vasconcelos — Nostalgia do obscurantismo

 

“A criação do homem”, pintado por Michelangelo no teto da Capela Sistina (Vaticano), entre 1508 a 1512, mostra Adão nu, sendo tocado pelo Criador. A arte iluminando a humanidade que saía do obscurantismo da Idade Média

 

 

 

Num dos filmes do Superman o inesperado acontece: em meio a um terremoto causado pelo vilão Lex Luthor, a jornalista Lois Lene tem seu carro tragado por uma fenda que se abre na estrada e morre. No espanto do silêncio era possível ouvir a mais tênue respiração da plateia decepcionada que lotava o saudoso Cine Goitacá. Clark Kent, disfarce do homem de aço que caiu na Terra ainda bebê, vindo de Kripton, mal tinha se recuperado de sua exposição à kriptonita, e, com seus poderes restaurados, descobre o triste fim de seu amor platônico. Num rompante de desespero, começa a dar voltas cada vez mais rápidas em torno do planeta de forma a fazê-lo girar para trás e, por consequência, o tempo, até segundos antes do acidente e consegue evitar a morte da intrépida jornalista. O cinema veio abaixo em aplausos, gritos e assovios.

A cena da Terra girando em sentido anti-horário é a imagem que me vem à cabeça nesses dias em que a sensação é que o mundo está de fato, e não apenas na ficção, retrocedendo, resgatando discussões e medos que pareciam superados pela marcha da evolução humana. Estávamos enganados. O medo do diverso e de tudo que ameaça tirar do cômodo conforto está fazendo com que muita gente se pinte para a guerra em defesa de um modus videndi que acham o “certo”, mas mantinham-se silentes, em seus protegidos armários, talvez por não quererem ir contra a corrente que se entendia majoritária e/ou por não saberem da existência de outros tantos com as mesmas inquietações.

A internet e o formidável mundo da comunicação instantânea transformaram as redes sociais em tribunas livres (às vezes tribunais), num ambiente que sepultou definitivamente o perigo do pensamento único e do controle absoluto seja pelo Estado, Religião ou outra forma de dominação consentida que venha a surgir com a evolução inevitável. A aldeia global preconizada pelo filósofo canadense Herbert Marshall McLuhan, nos anos 60 do século passado, nunca foi tão real, assim como a consequência por ele prevista, ou seja, enquanto a imprensa teria destribalizado o mundo, a tecnologia iria retribalizar. Todos estão conectados com o mundo, porém com interação cada vez mais restrita às suas tribos, aos seus iguais.

É normal que as pessoas se sintam incomodadas e até constrangidas com certas posições de outras por elas admiradas, assim como certo estou que o inverso é verdadeiro. O dissenso é a essência da democracia. Dito isso, e respeitadas as opiniões dos que se alinham ao movimento conservador que vem ganhando terreno em todo o mundo, é preciso dizer que as pessoas têm o direito de agir e pensar de acordo com seus princípios e assim educar seus filhos. Extrapola desse direito os que querem impor sua visão do mundo aos outros, impedindo ou demonizando quem pensa diferente.

Os recentes casos das exposições sobre diversidade, em Porto Alegre, e o do artista nu no Museu de Arte Moderna de São Paulo trouxeram à tona preconceitos, exageros e medos. É espantoso como a sexualidade alheia incomoda tanta gente. Mesmo onde não há nenhuma conotação de sexo, tem gente que consegue ver as mais terríveis perversões que devem existir só nas cabeças de quem as vê. No caso especifico do MASP, quem levou a menina a tocar os pés do artista nu foi a própria mãe, ela sim a responsável legal pela educação da menor e não cabendo a ninguém substituí-la nos estritos limites da lei, na medida em que não se configurou nenhuma vulnerabilidade. Ver pedofilia em tudo pode ser um distúrbio sério e que precisa ser tratado. O naturista que leva seus filhos a uma praia de nudismo está educando-os dentro de uma filosofia de vida e não cometendo um crime.

Pior é quando a autoridade pública investida na função pelo voto impõe à sociedade a sua visão de mundo em detrimento de um dos mais caros princípios constitucionais, que é a liberdade de expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença, conforme o inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal de 1988. Foi o que o prefeito do Rio, a mais cosmopolita das cidades brasileiras, desrespeitou ao censurar a exposição Queermuseu prevista para o MAR (Museu de Arte do Rio). Em infeliz blague, o prefeito, que é bispo da Igreja Universal, divulgou vídeo em que disse que a exposição poderia ir para o fundo do mar e nunca exposta no MAR. Não gostar, achar de mau gosto esta ou aquela manifestação artística, tudo bem, mas a opção é de quem tem capacidade de escolher o que vê. Para os menores, classificação etária é condição básica, como programas de televisão, cinema e teatro. No caso da exposição do MASP, havia classificação etária, conforme informou o membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB, em entrevista (aqui).

Essa nostalgia do obscurantismo latente na sociedade tem se revelado nas relações sociais e, enquanto ficam restritas aos “costumes” limita-se a reações às mudanças de comportamento, especialmente nas questões de gênero e sexo. O sexo continua sendo o grande bicho-papão que cresceu e ficou mais “perigoso” agora que é possível discernir sexo e gênero. Gênero é o que consta no RG erroneamente como sexo, enquanto este tem relação com o desejo e nem sempre está focado no gênero oposto, ou nos dois ou em nenhum.

O que realmente preocupa não é quem e de que forma sente e realiza seu desejo, porque a receita é cuidar da própria sexualidade da forma que mais se aprouver, até mesmo se o prazer seja policiar a cama do outro. O que acende a luz amarela nessa onda de nostalgia do obscurantismo e a Nação mais poderosa do mundo eleger alguém que pensa como Donald Trump; é o nacionalismo radical em ascensão na Europa e as vivandeiras dos quartéis se assanharem com ideias de (re) intervenção militar no Brasil. Apenas três décadas nos separam daquele período de censura e tortura e já tem gente com saudade! Não aprendemos nada, com a história? E os mortos e desaparecidos nos porões do regime ou pelos guerrilheiros que a ele se opunham?

Nunca é de mais lembrar que o mundo está em evolução. Há menos de 200 anos os negros eram legalmente mercadorias no Brasil. As mulheres só conquistaram o direito de votar em 1932, mas continuaram parcialmente incapazes por mais 30 anos e só poderiam trabalhar fora de casa com autorização expressa do marido. A conquista do voto secreto, direto, periódico e universal é fruto de uma Constituição que tem como um de seus fundamentos a dignidade da pessoa humana. Portanto, nada contra um militar filiar-se a um partido político e disputar uma eleição como cidadão qualquer, mas que nunca mais se prevaleça das armas sob sua guarda para submeter a Nação e não protegê-la. E aos que, com razão, não suportam mais os desmandos dos civis no governo, lembrem-se que sob os militares os casos de corrupção também existiam, não vieram à tona porque nos cinco governos dos generais (1964-1985), a imprensa era amordaçada, o Judiciário acovardado e as policiais eram do regime e não do Estado.

Mais atual que nunca é a surrada frase do ex-primeiro ministro britânico, Sir Winston Churchill: “a democracia é a pior das formas de governo, excetuando-se as demais”.

 

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Orávio de Campos — A arte no espaço urbano

 

 

 

Quando estivemos, com muito orgulho e disposição, à frente da extinta secretaria municipal de Cultura, no governo de Rosinha Garotinho, nos deparamos com diferentes desafios institucionais e o mais interessante deles foi exercitar a compreensão sobre os chamados pichadores anônimos que, em tese, saem por aí (inter) ferindo, com suas tintas negras, na harmonia estética de muros, edifícios, igrejas, viadutos, patrimônios históricos…

Para melhor entender os atos desses artistas não convencionais, na melhor acepção que o termo possa/pode nos sugerir, em princípio preferimos partir da idéia da produção de uma arte marginal aliada aos seus efeitos ideológicos, como é comum nas análises das artes que fluem das culturas populares, logicamente, sem as teorias da cultura erudita divulgadas por Walter Benjamim (1892-1940): um intelectual da (ainda) idolatrada Escola de Frankfurt.

O senso comum tenta ensinar que os “pichadores” não são artistas porque “emporcalham o espaço público”, dando-lhes um aspecto deplorável em prejuízo para os proprietários particulares e, principalmente, para o poder público — encarregado da manutenção de suas prédios e representações históricas e culturais.  Mas aceitar esta hipótese seria a mesma opinião da maioria de uma sociedade entorpecida pelos discursos midiáticos, quando os sabemos descompromissados com a “verdade”.

Em princípio, já que não podemos identificar os autores dessas proezas muralistas, recorremos à filosofia imanente que traduz o sentido da comunicação, como o desejo incoercível de traduzir, com diferentes linguagens, a expressão de pessoas e ou grupos com uma identidade ideológica definida. Realmente, se analisarmos esta arte urbana vamos encontrar hieróglifos eivados de mensagens, na maioria das vezes, envolvidas pelas subliminaridades. Não é diferente do que observamos no campo da Folkmídia, isso para dar razão ao pranteado pesquisador Joseph Luyten.

 

 

Escolhem, os pichadores, onde as mensagens são/serão mais visíveis, como igrejas, patrimônio históricos (como os casos do Obelisco e do Monumento ao Expedicionário, esta obra-prima do artista Modestino Kanto, atualmente limpo graças ao professor Vilmar Rangel), apenas para citar estes exemplos. Mas, apesar de múltiplas ações desses insignes pichadores, podemos, sem susto, afiançar que a cidade de Campos dos Goytacazes é a “menos pichada de todo o interior do Rio de Janeiro”.

Isso credita-se ao trabalho dos grafiteiros, grupos igualmente políticos, mas que transformaram suas vocações na expressividade dos desenhos que, em tese, também, falam das mensagens que querem traduzir no espaço público. E, descobrimos, em nossas boas relações com essas trupes artísticas, com ênfase para o Mestre Andinho Ide e a Anna Franchesca, os princípios da evolução dos desenhos artísticos que, em boa hora, se preparam para adentrar, como já ocorre na Europa, nos grandes museus encarregados de preservá-los. Coisas dos tipos: arte e transgressão.

Como ocorre com outras expressões da mesma raiz, como o funk, os desafios do rap, o street-dance, (integrantes da arte hip-hop), a pichação pode ser identificada como uma trajetória entre a exclusão e a integração, eito radical citado por Michael Herschman no artigo “Por uma leitura político-cultural do espaço público”, publicado no livro ”Nas Fronteiras do Contemporâneo – Território, identidade, arte, moda, corpo e mídia” (Mauad,2001, p.117).

Não temos dúvida. Os pichadores, que respeitam eticamente os espaços dos grafiteiros, numa espécie de costume produzido pela convivência em lugares comuns, através de seus estilos de vida e da experiência social, buscam “retraçar novas fronteiras socioculturais e espaciais”, sem a preocupação ingênua de que estão prestando um trabalho meritório em favor das artes plásticas atuando no cerne do ciberespaço – lugar para onde se concentram todas as tendências da pós-modernidade.

Cremos que as negociações que propusemos nos parcos momentos de apoio ao hip-hop (poderia ter feito muito mais), — dentro de um espaço ainda tenso, porquanto a estética está sujeita à lide de uma análise na maioria das vezes equivocada — produziram a afirmação de diferenças e as hibridações parecem garantir visibilidade, vitalidade e algum poder para esses artistas ciberespacianos.

 

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Empresas de ônibus de Campos pregam a contramão da ilegalidade

 

Vazio da greve dos ônibus de ontem (09) publicada como foto principal da capa de hoje (10) da Folha da Manhã (Foto: Rodrigo Silveira)

 

 

Na contramão da legalidade

Por José Maria Matias (*)

 

O serviço regular de transporte de passageiros de Campos vem enfrentando graves dificuldades em consequência de práticas ilegais e irresponsáveis intensificadas nos últimos três anos. Ações que comprometeram a saúde financeira das empresas legalmente instituídas e que colocam em risco o serviço prestado à população.

Apesar dos colossais obstáculos impostos — como a atuação das lotadas e a tarifa defasada —, as empresas de ônibus tentam sobreviver e garantir o serviço à população, sem incentivo econômico do poder público, a exemplo da Auto Viação São João, que para participar da licitação do setor fez um alto investimento, refletido principalmente na aquisição de mais de 60 ônibus, custo que vem sendo pago mensalmente pela empresa, juntamente com as demais despesas, como a folha de pagamento e combustível, indispensáveis para a sua atuação.

A contrapartida, no entanto, não foi cumprida. Apesar de atender a todas as exigências, a empresa tem seu serviço comprometido pela invasão de lotadas nas ruas da cidade, que impõem uma concorrência desleal e cuja atuação é irresponsável, criminosa e não traz qualquer benefício ao município. Há a (pertinente) cobrança da sociedade por um serviço de qualidade, porém, as empresas não encontram ambiente salubre para trabalhar. O transporte pirata se estabeleceu na cidade de Campos como o câncer do setor de transporte de passageiros e do trânsito.

Ninguém sai ganhando com o comprometimento da saúde financeira das empresas, nem no setor de transporte nem em qualquer segmento. As empresas perdem com o acúmulo de dívidas, a população perde com a queda na qualidade dos serviços, os funcionários perdem com o atraso no pagamento dos salários e o município perde com o estabelecimento da ilegalidade, falta de arrecadação e desemprego.

Em tempo: Antes mesmo da realização da licitação no setor de transporte, a Prefeitura estabeleceu o Programa Campos Cidadão — mantido entre 2009 e 2017 —, um benefício oferecido à população em forma de subsídio de parte do valor da passagem de ônibus. As empresas, entretanto, apenas passaram a receber do governo municipal o valor que antes era pago à vista pelo usuário no ato da prestação do serviço. Portanto, não houve qualquer benefício direcionado às empresas de ônibus e sim aos cidadãos inscritos no programa. Se houve qualquer irregularidade no período de validade do programa, deve ser apurada e os responsáveis punidos. O que não pode ocorrer é a generalização ao se apontar (aqui) ilegalidades.

 

(*) Proprietário da Auto Viação São João

 

Publicado hoje (10) na Folha da Manhã

 

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Igor Franco — Mas, e a criança?

 

 

A mais recente polêmica ocorreu no Museu de Arte Moderna de SP, em que um sujeito nu era tocado por pessoas da plateia. Tudo caminhava dentro do script: uma performance sem sentido para espectadores que afetavam profundidade, devidamente bancada com dinheiro público. Eis que entrou em cena uma criança que, estimulada pela mãe, passou a tocar no corpo nu do homem. Os brasileiros não pareceram dispostos a tolerar essa nova imoralidade.

O assunto já esfriava quando surgiu Dona Regina, do alto de sua singela bravura e humilde altivez. Claramente fora do script, entrincheirada nos confins do Projaquistão — nome alternativo para a Terra do Nunca, realidade paralela onde vivem encastelados artistas e outras celebridades — uma típica avó da família tradicional brasileira discordou publicamente da narrativa uníssona que vigorava na imprensa. Após ser fuzilada por olhares arrogantes dos presentes e ter de ouvir tergiversações a respeito da liberdade, tabus e sobre o papel da arte, nossa brava heroína devolveu uma pergunta que inverteu o protagonismo e matou de raiva aqueles que foram chamados para concordar entre si: mas, e a criança?

Deslocar a discussão para um debate sobre liberdade artística é uma estratégia intencional para criar confusão. A não ser por justiceiros sociais ávidos por demonstrar apoio inabalável a qualquer erro, há pouca gente disposta a defender o que se passou — pouco importa se num museu e sob supervisão. Dias mais tarde, um menino de 13 anos, ainda analfabeto, seria encontrado na cela de um estuprador levado pelos próprios pais. Pela lógica progressista, como houve consentimento dos responsáveis, não poderíamos falar de pedofilia ou negligência.

Qualquer sociedade convive com a chaga do abuso infantil. Em muitos casos, a intenção do abuso é dissimulada através de atos progressivos, com o objetivo de não despertar a surpresa da vítima e envolve-la numa relação. Indefesa e incapaz de perceber a malícia dos atos, muitos menores caem na armadilha de relacionamento abusivos que duram por muitos anos e causam danos perenes ao desenvolvimento da personalidade. Sob qualquer perspectiva — psicológica, sociológica, pedagógica, legal — a tentativa de normalizar o contato entre uma criança e um estranho nu é, no mínimo, irresponsável e reprovável.

Calados durante mais de uma década enquanto o país era destruído em várias frentes, a classe artística tem se mostrado especialmente ativa de um ano e meio para cá. Agora capitaneados por uma ex-paladina da censura de biografias até anteontem, embarcam mais uma vez numa já fracassada expedição, supostamente em defesa da liberdade de expressão, que navega contra os anseios da maior parte da população brasileira, que jamais chancelou sua pauta. Há uma clara divisão entre os anseios de uns poucos e os do restante do país.

Empurrado contra a parede pela atuação em bloco das vozes tradicionais que o trata como um tipo de ser inferior, incapaz de alcançar as virtudes de certas medidas contrárias à sua visão de mundo, o brasileiro médio acumula um sentimento de frustração muito comum ao observado em outras regiões como EUA e Europa. Apesar de panos de fundos diferentes, a discrepância entre a percepção do homem de carne e osso e a opinião predominante nos meios tradicionais tende a transbordar das redes para encarnar em agentes públicos que compartilhem de sua visão. A emergência de Jair Bolsonaro, após os fenômenos do Brexit, Marine Le Pen, Trump e o recente resultado eleitoral alemão não são fenômenos desconectados.

Há quase dois meses, num programa televisivo, ouvi com certa desconfiança um cientista político descartar a hipótese de radicalização ideológica nas eleições de 2018. Embora nosso histórico eleitoral rejeite apostas em candidatos mais estridentes, me parece claro que a temperatura nas redes sociais, que teve súbito aquecimento em 2014 e, desde então, arde em chamas cada vez mais altas, refletirá de alguma maneira no “mundo real”.

Não tenho dúvidas que, em algum desses debates dirigidos e previsíveis, de algum modo alguém haverá de lembrar da pergunta que dividiu o campo: mas, e a criança?

 

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Alexandre Bastos — O silêncio dos bons

 

 

 

Atribui-se a Martin Luther King uma frase de valor inquestionável: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Quando os bons se calam, a maldade triunfa. E em nossa planície goitacá, esse silêncio foi determinante para a colocação em prática de um modelo político personalista e ultrapassado.

Nos últimos anos o município de Campos teve todas as oportunidades de se desenvolver e buscar sua independência. Entre 2009 e 2016 entrararam cerca de R$ 20 bilhões nos cofres da Prefeitura. Porém, o que vimos em nossa cidade foi um projeto pessoal de poder acima de um planejamento sério e estratégico. Não houve investimento na diversificação da economia, não houve diálogo com a sociedade civil organizada e nossas vocações históricas foram ignoradas. E tudo isso acontecia sem que houvesse uma forte manifestação contrária. Certa vez, a deputada Clarissa Garotinho chegou a ironizar, afirmando que este grupo contrário ao casal Garotinho não “fazia nem cosquinha”.

Muita gente já se cansou de ouvir que os problemas atuais foram gerados pela irresponsabilidade da gestão anterior. Mas sabe de uma coisa, esse discurso realmente precisa ser reformulado. Pensando bem, será não não cabe a seguinte reflexão: nós também não temos uma parcela de culpa? Quem se calou quando o casal Garotinho vendeu o futuro, contraiu empréstimos, e deixou dívidas milionárias, não tem culpa? Quem ficou em silêncio quando a cidade foi transformada em balcão de negócios, não tem culpa? Quem aplaudia a cantoria de Rosinha enquanto o marido mandava e desmandava, não tem culpa? Quem viu em silêncio a Prefeitura torrar R$ 100 milhões para construir o Cepop, não tem culpa? E quem viu calado, em 2014, o maior orçamento da história de Campos desaperacer, coincidentemente quando um senhor disputava o governo do estado, não tem culpa? Quem jamais participou de uma audiência pública na Câmara de Campos, não tem culpa?

Mas esse silêncio foi rompido e as urnas gritaram em 2016. A vitória histórica de Rafael Diniz uniu as mais variadas correntes e, após o resultado, nasceu uma expectativa gigantesca. Mais do que uma mudança entre governos, era esperada uma imediata troca de modelo. Mas será que após décadas de descaso, é possível reconstruir uma cidade apenas apertando aquele botão no dia 02 de outubro de 2016. Os cidadãos são parte determinante deste processo de transformação, com um papel que vai além de curtir, compartilhar ou questionar. É hora de decidir em conjunto, como já ocorreu este ano na elaboração do novo Código Tributário, do PPA e ocorrerá no debate sobre o orçamento de 2018 e outros temas fundamentais para adaptar o município a uma nova realidade. Não podemos nos esquecer que a troca do silêncio dos bons pela participação ativa é a melhor maneira de calar o grito daqueles que defendem o retrocesso.

 

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Encontro entre militantes de Garotinho e Rafael pelo olhar da crônica

 

Encontro de militantes de Garotinho e Rafael, ontem (06), diante à Prefeitura de Campos (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

“Olha a água!”

Por Paula Vigneron

 

Durante a semana, os campistas se depararam, por meio de redes sociais, com informações sobre uma grande manifestação que paralisaria o município contra o prefeito Rafael Diniz. A data: seis de outubro. Horário: oito da manhã. Manifestantes se espalhariam por diversos pontos da cidade, impedindo entradas e saídas. E, consequentemente, indo de encontro ao direito de ir e vir.

Na manhã, a concentração, ao contrário do que foi veiculado, em clima de terrorismo, aconteceu em frente à Prefeitura de Campos, localizada na Rua Coronel Ponciano de Azeredo Furtado. Dezenas de manifestantes pró-governo se aglomeraram na entrada da sede do Executivo. Policiais militares e guardas municipais circulavam entre as pessoas para garantir a segurança. Aproximadamente duas horas após o início da reunião, os primeiros protestantes antigovernistas começaram a realizar seus atos.

Gritavam contra Rafael. Diziam que ele ia pagar por vidas perdidas devido a problemas relacionados à área de saúde. Reclamaram por demissões e falta de pagamento aos RPAs (confirmando, inclusive, que o impasse começou em dezembro, ainda durante o governo da ex-prefeita Rosinha Garotinho). Em resposta, os que se posicionam a favor de Rafael criticaram as colocações. Entre atritos, discussões e acusações mútuas, fogos de artifício estouraram nos ouvidos dos presentes, assustando-os. Intervenções pontuais dos responsáveis pela segurança foram necessárias para conter os ânimos de ambos os lados.

“Cadê Rafael?”, questionou um participante antigovernista, sob a sombra de uma árvore e distante da movimentação.

“Está em Cabo Frio”, respondeu o outro, do mesmo grupo, enquanto o prefeito participava de diferentes eventos realizados dentro de Campos.

Afastados das distensões, três homens conversam. Um deles sai para falar ao telefone. Em sua caminhada, aconselha o interlocutor: “Venha de boné e pulseira. Estou de boné e óculos escuros para não saberem que é a gente”. E ficou por um tempo distante dos atos, então mais controlados.

Após minutos de calmaria, com conversas paralelas divididas em críticas e explicações sobre as decisões recentes tomadas pelo governo municipal, homens, segurando a faixa “Tudo muda quando você muda. Deixe o prefeito Rafael Diniz trabalhar”, pegam o microfone e gritam e cantam em apoio a Rafael. Do outro lado da rua, o grupo adversário briga e critica e acusa a postura do líder do Executivo.

No momento do confronto verbal, um vendedor de água estaciona sua bicicleta no meio da rua, entre palavras raivosas proferidas pelos manifestantes. Com camisa amarela e boné, ele sorri, observando os dois lados da moeda. No isopor marfim, está estampado o preço do seu produto, agora esquecido pelo comerciante que se concentra nas pessoas. Entre os gritos e sussurros, o homem bate no isopor para atrair a atenção. Sem sucesso. Ainda assim, inicia o seu discurso, dirigindo-o aos momentaneamente surdos: “Olha a água! Olha a água! Vamos tomar água, gente”. E ali permanece, distribuindo sorrisos à espera de uma boa venda.

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Protestos esvaziados e negação da realidade

 

 

 

Charge de José Renato publicada hoje (07) na Folha

 

 

Das duas, uma

Convocados durante a semana (aqui) em grupos de rede social ligados ao garotismo, os protestos de ontem contra o governo Rafael Diniz (PPS) podem ser interpretados de duas maneiras. Ou o descontentamento com os nove primeiros meses da nova administração municipal não é tão grande assim, ou esse sentimento de insatisfação popular soube identificar e não aceitar a tutela de quem saiu pela porta dos fundos da Prefeitura na eleição de outubro passado, após quase 30 anos no comando de Campos. Mesmo com áudios denunciando (aqui) o pagamento de R$ 100,00 por manifestante, os três protestos registrados ontem não arrebanharam 200 pessoas.

 

Na BR 101

Na manifestação que conseguiu reunir mais gente, cerca de 100 pessoas fecharam (aqui) a BR 101, no trecho Campos/Vitória, na altura do Parque Bela Vista II, em Guarus, dizendo fazê-lo em protesto contra os cortes nos programas sociais do município. Por volta das 10h30 da manhã, atearam fogo em pneus e galhos, gerando um engarrafamento que se estendeu por mais de um quilômetro da rodovia mais importante do país. Durou cerca de uma hora. Depois, por volta das 11h30, outro grupo, com cerca de 50 manifestantes, fechou a mesma BR 101 na altura de Travessão. Mas esse protesto só chegou a durar alguns minutos.

 

Tiros no pé e pela culatra

O terceiro protesto foi em frente à Prefeitura. Mas neste, quando os cerca de 40 militantes do garotismo chegaram (aqui), por volta das 10h, lá encontraram (aqui) mais do que o dobro de manifestantes em defesa do governo Rafael. E entre os cerca de 100 simpatizantes do prefeito, estavam 16 dos 17 vereadores da situação. Apenas o edil Cláudio Andrade (PSDC), por demanda pessoal, não pode estar presente. Se a iniciativa garotista foi um tiro no pé, ao não conseguir mobilizar nem 200 pessoas em manifestações que prometiam se multiplicar para fechar todas as entradas e saídas da cidade, foi também um tiro pela culatra: uniu a base governista.

 

Momento hilário

Além das suas consequências políticas, o encontro entre os grupos de Rafael e do ex-governador Anthony Garotinho (PR) produziu também a cena mais hilária dos protestos de ontem. Homônimo do pai, o jovem Anthony Matheus, que se tornou conhecido pelo sonho de se tornar astronauta, ficou chateado ao ver as fotografias de Garotinho e Rosinha num caixão levado pelos militantes do governo. E foi pedir a eles que tirassem as fotos. Ao que foi respondido: “Tudo bem, Anthony. A gente vai atender o pedido de um filho. Afinal seus pais acabaram com a cidade, mas você por enquanto não tem culpa”.

 

Impressões digitais

Além das digitais indisfarçáveis do pai na presença do filho no protesto contra o governo, a ligação de Garotinho com as ações de ontem ficou também evidenciada na presença do ex-vereador Albertinho (PMB) nos dois protestos que fecharam a BR 101. Condenado a oito anos de inelegibilidade na mesma Chequinho que condenou Garotinho a nove anos e 11 meses de prisão, Albertinho já foi flagrado tanto nos protestos de motoristas de vans e lotadas que só este ano pararam Campos (aqui, aqui, aqui, aqui e aqui)  por cinco vezes, quanto na paralisação dos rodoviários (aqui) de 4 de setembro, que pediam fiscalização às vans e lotadas.

 

“Por que será?”

Diante da carência de lógica nas ações do liderado, não é de se estranhar a nova tentativa de negação da realidade, ontem, por parte do líder. Em seu blog, Garotinho negou ter participação nas manifestações esvaziadas, depois de antecipadas por esta coluna (aqui) desde o último dia 28, seguinte ao ex-governador conseguir recorrer em liberdade da condenação criminal na Chequinho, após 14 dias de prisão domiciliar. Na oportunidade, foi lembrado que, enquanto Garotinho esteve confinado e incomunicável na famosa “casinha na Lapa que papai deixou”, Campos não teve nenhum protesto. Ao que foi indagado: “Por que será?”

 

O motivo

O ex-governador também criticou a antecipação dos protestos pelo “Ponto Final” e noticiou uma ação contra os diretores deste jornal no Ministério Público Federal (MPF). O motivo foi aventado (aqui) pelo jornalista Esdras Pereira: “Condenado a quase 10 anos de cadeia (…) e gozando de uma precária liberdade à força de um habeas corpus, Garotinho parece ter protocolado essa denúncia como uma tentativa de ‘fabricar’ um salvo conduto para si próprio, caso membros da facção rosa sejam presos durante a ação terrorista dessa sexta-feira, e seus depoimentos e as investigações policiais o apontem como o suposto mandante”.

 

“Rindo à toa”

Toda a postagem de Garotinho em seu blog se resume em frase própria: “Chega a ser ridículo”. De qualquer maneira, como entre os diretores da Folha acionados está o blogueiro Christiano Abreu Barbosa, pertinente o que este escreveu (aqui) em 8 de abril de 2015, em nota intitulada “Intimidação patética”: “A Folha já foi alvo de enxurrada de processos infundados do governo Rosinha. Ganhou todos. Deve-se lembrar que na derrota, honorários advocatícios são devidos ao lado vitorioso. Só em uma ação perdida mês passado, Rosinha foi condenada a pagar R$ 8.000,00 de honorários advocatícios. Os advogados do escritório jurídico da Folha da Manhã estão rindo à toa”.

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

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Guiomar Valdez — Bruxas e hereges de todos os mundos: uni-vos e distribui-vos!

 

 

 

Inspirada e instigada pelos recentes artigos neste blog de Vanessa Henriques (“Afinal, o que é feminicídio?”) e de Carol Poesia (“Foto bebendo de perna aberta”), venho contribuir no tempero das questões que envolvem a MULHER e o FEMININO, neste mundo HUMANO, incorporando uma ‘pimenta’, que para muitos ainda é ‘forte’, para outros, é ‘apenas de cheiro’, e, para tantos demais, ‘não é palatável’ – a superação do sistema capital, como condição estrutural da emancipação da Mulher e da dimensão do Feminino.

Minha reflexão está impulsionada por este Outubro/2017, que é Rosa – campanha sobre o câncer de mama, mas, também, é Vermelho – 100 anos da vitória da Revolução Russa! Não consegui desvencilhar, os dramas, as barbaridades e a opressão que sofrem as Mulheres e a dimensão Feminina, muito bem exemplificadas pelas companheiras no blog, com a utopia e com a caminhada para superação, deixadas como herança pelas Mulheres revolucionárias de 1917. Isso mesmo! Adiante voltaremos a este assunto.

Olhando a realidade da luta das Mulheres por Direitos, sem nenhum romantismo, concluo que avançamos, sim! Não há como negar. Mas, velhos e novos limites continuam neste movimento, nos espaços públicos e privados, na imanência e no espírito! No balanço, rupturas não aconteceram, e, elas, são imprescindíveis para a emancipação! Não me contento com o que conquistamos, não me deslumbro com discursos, com leis, com projetos específicos, com esta presença feminina nos espaços de poder/institucionais, etc!

No final, estamos reproduzindo muito mais, e, preocupante, de maneira fragmentada, de maneira excludente. Isso porque lá no fundo, não propomos e nem vivenciamos para dentro e para fora, uma nova Cultura, entendida aqui, como visão de mundo! Historicamente o patriarcado predominou sobre o matriarcado (sinceramente, não sou afeita a nenhum desses ‘arcados’), ambos, promovendo a divisão social do trabalho em gênero, em sociedades desiguais e de classe. O patriarcalismo na sociedade moderna (capitalista, burguesa), muitos pensam que este foi extinto, alça o machismo como sua face mais destruidora e permanente até os dias atuais.

A ‘Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade’, elementos da cultura política, econômica e social da nossa Sociedade Moderna, não chegaram às mulheres de maneira plena. Fomos incorporadas formalmente ao sistema produtivo, sim. Mas de maneira desigual, inferior, hierarquizada, discriminatória e preconceituosa. Atualizando a opressão com um novo diferencial – ACUMULANDO O TRABALHO PRODUTIVO COM O TRABALHO REPRODUTIVO, a centralidade do trabalho das Mulheres nesta ordem moderna, torna-se imprescindível, perfeito, para a reprodução social, econômica e cultural do status quo.

E, assim, se dará em todos os outros espaços sociais, da ‘nova’ família (tipo burguesa – que será o ‘símbolo’, o ‘sonho’ dos oprimidos) aos espaços de poder; dos ‘novos tipos de família’, com forte domínio e direção das Mulheres às questões que envolvem ‘minorias’, etnias, raça, sexualidade, gênero, através da alienação total das razões estruturais que alimentam a opressão, às vezes, entendida e ressignificada como conquistas no âmbito da Liberdade e da Igualdade.

Nossas conquistas foram e são mergulhadas de machismos, de exclusão, de competição, portanto, dos valores hegemônicos da sociedade em que vivemos, incrivelmente, razão das nossas dores. Muitas de nós, reproduzimos nos espaços públicos e privados o machismo, a desigualdade, a cultura da dimensão masculina, no pior que construiu historicamente. Ouso afirmar, que nos espaços organizados de poder/institucionais denominados ‘progressistas’, tidos como de lutas por direitos, de conquistas, de transformação, etc, etc, como os partidos políticos e sindicatos, predominam ainda o machismo, o preconceito e os valores hegemônicos. Quantas situações já vi, já assisti…quantos discursos de homens a favor das Mulheres, já ouvi, como vi a dualidade de vida e ação em suas vidas privadas!

Imagina, somar a isso, toda a dor presente da opressão, repressão e violência, para além dos espaços formais de lutas por Direitos? Nas relações mais íntimas, mais particulares, estampadas e publicizadas pelos meios de comunicação? Opressão, repressão e violência, vividas cotidianamente física ou psicologicamente, como apresentados nos artigos de Vanessa e Carol?

Nós, Mulheres, lutamos muito no âmbito privado e público, é bem verdade. Lutamos como mães, esposas, irmãs, avós, trabalhadoras, desafiamos estruturas autoritárias, demos abrigos, pegamos em armas. Foram incontáveis nossas formas de resistências. Mas, ainda não é suficiente. Morrer do machismo/feminicídio, uma, duas, dez, milhares de vezes ainda não é suficiente! Ainda não se tornou verdadeiramente uma ação intolerante pela sociedade, mesmo sendo hediondo, enquanto crime. Ao saber que, por exemplo, o feminicídio pode ser evitado, revela para mim a conivência social e institucional, de homens e mulheres; garantir Direitos, quando o Estado falha em defender a Vida, para onde vamos?

É preciso lembrar sempre: NÃO É A VIOLÊNCIA QUE CRIA A CULTURA, MAS É A CULTURA QUE DEFINE O QUE É VIOLÊNCIA. De acordo com Luiza Bairros, ‘ela (cultura) é que vai aceitar violências em maior ou menor grau, a depender do ponto em que estejamos enquanto sociedade humana, do ponto de compreensão do que seja a prática violenta ou não’.

Falta ‘algo mais’ em nossas lutas e conteúdos da vitória! NÃO É SUFICIENTE o que já fizemos! Para início de conversa, ouso sugerir alguns pontos:

CONHECER a História e RECONHECER os limites, as idas e vindas; ATENTAR para as permanências do machismo e da opressão em nossos espaços públicos e privados de atuação, incluindo aí, a família; realizar uma CATARSE em nossa visão de mundo, contaminada pelos valores hegemônicos da pós-modernidade (burgueses), expulsando na prática o individualismo exacerbado, a competição, a fragmentação, a atomização, os fundamentalismos, a fluidez, a mercantilização da Vida e da Morte, etc

ALIMENTAR e VIVENCIAR os elementos e a ética da dimensão humana do FEMININO – cuidado, unidade, solidariedade, articulação, coesão, etc; RECONHECER que na luta da Mulher é imprescindível o Homem – é conjunto, não apartado. Não podemos recriar uma nova forma de dualidade, ela reproduzirá os horrores da opressão, da repressão e da violência. É de uma nova MULHER e de um novo HOMEM, que forjaremos uma nova HUMANIDADE.

Daí que retomo ao ‘Outubro Vermelho’- 100 anos da vitória da Revolução Russa. Lições, atuações, conquistas e experiências das Mulheres revolucionárias da Rússia de 1917, não apenas porque foi a partir da ação das Mulheres operárias que precipitou este movimento, mas, muito mais, pelo vigor, profundidade e amplitude de suas formulações e militância, bem como, as utopias, muitas das vezes invisíveis, para nós, Mulheres!

Com a licença dos leitores, reproduzo aqui, um trecho do livro – “A revolução das mulheres – emancipação feminina na Rússia soviética: artigos, atas, panfletos, ensaio”, uma antologia, organizada por Graziela Schneider Urso (Boitempo/2017), que qualifica o quanto precisamos revisitar a História, articulando o passado e o presente:

“Aleksandra Kollontai, Maria Pokróvskaia e Nadiéjda Krúpskaia, entre outras, reorientaram os eixos da revolução iniciando um profundo e complexo processo de emancipação feminina. É possível acompanhá-lo por meio da leitura de uma produção intelectual e política pouco conhecida não só pelas circunstâncias desfavoráveis em que foi produzida, mas pelas suas consequências e prolongamentos na contemporaneidade: mostrar que no início do século XX as russo-soviéticas alcançaram direitos que ainda nos parecem impossíveis representa uma ameaça à ordem vigente. Quais estruturas de pensamento e ação se moveriam se fosse amplamente divulgado que o aborto foi legalizado na União Soviética em 1920? Ou que o programa do Partido Comunista Revolucionário garantiu igualdade de cargos e salários entre homens e mulheres?

Foram mulheres como Krúpskaia – infelizmente, mais conhecida por ter sido companheira de Lenin – que construíram respostas para problemas que, embora fossem próprios de sua época, persistem ainda hoje. Questões consideradas insolúveis, como a divisão sexual do trabalho, têm soluções tão simples como revolucionárias. Por exemplo, a construção de restaurantes, creches e lavanderias populares. Parece que a revolução mais difícil é aquela que está ao nosso alcance.
É preciso ressaltar que todo esse processo se deu em um dos períodos mais sombrios da história russa: em 1917, as mulheres representavam um terço dos operários de Petrogrado. Enfrentavam jornadas de trabalho extenuantes, recebiam menos da metade do salário dos homens e não tinham condições mínimas de segurança. Se nas fábricas eram claramente exploradas, no campo eram escravizadas e vendidas. Em ambos os contextos estavam sujeitas aos mecanismos capitalistas inseridos em estruturas patriarcais, ou seja, viviam o aprisionamento dentro do aprisionamento. Foi nesse cenário que as mulheres russas tomaram a palavra e as ruas.

O resgate deste tema não representa apenas uma reconstituição histórica necessária – visto que mulheres são vítimas de um constante apagamento –, mas a possibilidade de olharmos para nós hoje de uma perspectiva radicalmente outra. É possível enxergar no pensamento dessas mulheres um horizonte para além das propostas de inclusão na ordem existente e de liberações parciais. Escutar essas vozes é desconfiar de que o esforço tão em voga de tratar a revolução como um evento impossível é parte do funcionamento dos mecanismos de dominação vigentes.”

Assim, queridas Vanessa e Carol, Mulheres em luta, fui instigada e inspirada pelos seus escritos, propondo incorporar uma reflexão em nossas lutas, onde, para além das reivindicações e denúncias de curto prazo (o tempo da reprodução), necessárias e urgentes, avancemos com a Utopia (o tempo de médio e longo prazos) que articula todas as Mulheres e todos os Homens, na busca de uma nova Humanidade, de uma nova sociabilidade ‘para além do capital’ (Mészáros) .

Se assim compreendermos e concordarmos, seremos, já aqui e agora, verdadeiras BRUXAS, porque desnudaremos e incorporaremos questões INTOCÁVEIS em nossos movimentos; seremos as HEREGES DO FUTURO, porque sabemos e poderemos provar que:

“Não é inteiramente verdade que as bruxas foram mortas e caçadas em nome de um ‘obscurantismo religioso’. Não! Elas foram queimadas também em nome de um futuro. Um futuro fabril, assalariado, masculino e moderno. Um futuro cromado, veloz e imponente… Somos hereges do novo mundo moderno. Hereges do regime assalariado. O capitalismo não seria possível sem esses dois cercamentos fundamentais: o das terras e da possibilidade comunal por um lado, e por outro, o cercamento dos nossos corpos e a transformação deles em um terreno inesgotável de apropriação de trabalho. Somos hereges do futuro.” (Alana Moraes)

A ‘pimenta’ foi colocada no tempero!

 

[1] Lamento profundamente o falecimento nesta semana, deste grande pensador marxista – István Mészáros.

 

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O que está por trás e à frente dos protestos hoje em Campos

 

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (06) na Folha

 

 

Promessa de caos vigiada de perto

Campos viverá hoje um dia de caos, com quase meio milhão de habitantes sitiados num município com todas suas entradas e saídas fechadas em protesto contra o governo Rafael Diniz (PPS), desgastado pela crise na Saúde e medidas impopulares, como a suspensão da passagem social? Ou, apesar dos áudios denunciando pagamento de R$ 100,00 por cabeça nas manifestações articuladas em grupos de redes sociais ligados ao garotismo, os novos protestos repetirão o fracasso do desfile de 7 de Setembro? Na dúvida, uma certeza: as forças de Segurança e o Ministério Público estão cientes e acompanharão tudo de perto.

 

Limites ao protesto pago

Procurador-geral do município, José Paes Neto revelou à coluna que na última quarta (04), numa reunião previamente marcada no Ministério Público Estadual (MPE) de Campos, aproveitou para conversar com os promotores sobre o protesto que pretende parar a cidade, então já arquitetado pelo garotismo. José Paes entende que qualquer ato de protesto é válido e tem que ser respeitado dentro do estado democrático de direito. Mesmo o ato de se pagar aos manifestantes, não seria crime. A não ser, lógico, em caso de dano a patrimônio ou a terceiros. Aí, o pagamento poderia até configurar formação de quadrilha.

 

PM atenta

O procurador do município também revelou que foi o próprio comandante do 8º BPM de Campos, tenente-coronel Fabiano Santos, quem revelou ao prefeito Rafael Diniz a movimentação para tentar parar hoje a cidade. Antes mesmo das convocações para os protestos viralizarem nas redes sociais ligadas ao garotismo, o comandante estava ciente dos seus preparativos. Da mesma maneira que já tinha feito no desfile de 7 de Setembro, quando o serviço de inteligência da PM foi fundamental para evitar transformar em baderna o evento cívico no Cepop, símbolo maior da gastança nos oito anos do governo Rosinha Garotinho (PR).

 

Ficha do garotismo (I)

Quem não se esqueceu da gênese do Cepop, também deve se lembrar que protestos cerceando o direito de ir e vir dos campistas são um hábito antigo do casal da Lapa. Em 02 de julho de 2010, na primeira cassação da prefeita Rosinha, seus militantes fecharam a BR 101 ateando fogo em galhos e pneus. Na segunda cassação da hoje ex-prefeita, em 28 de setembro de 2011, cerca de 300 rosáceos fecharam a av. XV de Novembro, diante do Fórum Maria Tereza Gusmão. Liderados por Rosinha, de lá saíram para a sede da Prefeitura e a ocuparam durante três dias, enquanto parte deles voltou a fechar a BR 101 em protesto, no dia 29.

 

Ficha do garotismo (II)

Encerradas as cassações de Rosinha, seu governo seria marcado por mais manifestações como a que seu grupo político pretende promover hoje em Campos. Em 08 de novembro de 2011, por determinação dos Garotinho, seus militantes fecharam novamente a BR 101, desta vez em manifestação contra a divisão dos royalties do petróleo. Em 07 de março de 2013, militantes liderados por Rosinha invadiriam ainda o heliporto do Farol, novamente em protesto contra a redivisão dos royatlties — os mesmos que o casal cederia três vezes consecutivas, nas conhecidas “vendas do futuro” de Campos, a última delas a ser paga até maio de 2026.

 

Contas e comunicação

Talvez quem hoje aceite R$ 100,00 para protestar contra os cortes sociais promovidos pelo atual governo, não saiba (ou queira) fazer as contas. Mas com os R$ 3 milhões que Campos é obrigada a pagar todo mês de juros pela última “venda do futuro” dos Garotinho, daria para Rafael manter o Restaurante Popular, o Cheque Cidadão e a passagem social. O que não exime o prefeito e sua equipe, por vezes tomada de soberba técnica, do pecado político de não ter comunicado os cortes prévia e didaticamente à população. E, pela fluidez da comunicação que definiu a campanha de 2016, mas falta à administração de 2017, o governo sangra.

 

Tempo da reação

Acuado nas cordas por quem nocauteou (aqui) no voto, o governo Rafael carece de reação. Mesmo porque, independente do que houver hoje na cidade, a assembleia dos médicos que definirá se a categoria entra em greve ou não, será dia 17. E, salvo novidade, não há dado animador na área, que consome 50% do orçamento de 1,6 bilhão do município. Há previsão de que possa chegar a R$ 2 bilhões em 2018, puxado pelos royalties. Mas se esperar até lá para reagir, como o ano novo eleitoral só começa após o carnaval de fevereiro, o governo terá só cinco meses até a campanha de agosto. Pode ser pouco tempo para correr atrás do que se perde agora.

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

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