Artigo do domingo — Para quem lutou lado a lado na mesma linha

Criança em Termópilas (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Menino diante a Leônidas em Termópilas (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

“Venha buscá-las!”

 

Para quem só conhece Grécia Antiga a partir do filme “300” (2007), de Zack Znyder, pode parecer que a força física, habilidade e coragem individuais fizeram com que um pequeno contingente de helenos, liderado por 300 espartanos, conseguisse resistir por três dias, na Batalha de Termópilas (480 a.C.), à invasão do Império Persa contabilizada em 1 milhão de soldados. Mas quem conheceu o episódio por Heródoto (484/425 a.C.), em sua “História” (livro que batiza a ciência, não o contrário), ou por seus companheiros de lida subsequentes, sabe que a grande responsável pela façanha foi a tática coletiva dos gregos.

Com cerca de 35 kg de bronze sobre o corpo, entre armadura, elmo, caneleiras, braceletes e o escudo redondo (hóplon, daí o soldado de infantaria ser chamado de hoplita), mais a lança longa (sarissa) e uma espada curta, só usada como último recurso, um único soldado grego era pesado, lento e desajeitado. Todavia, a partir da coesão numa mesma linha, cada hoplita tinha o peito protegido pelo escudo erguido pelo braço canhoto do companheiro à sua direita, enquanto fazia o mesmo com quem estava à esquerda. E, a despeito da aparência coletiva de um porco espinho na batalha, unidos no compromisso de defesa das suas cidades, os gregos foram quase imbatíveis.

Treinados desde muito jovens na sua arte da guerra, no atletismo e na filosofia (saber ainda não compartimentado em ciências particulares) todo soldado grego era um cidadão, treinado para lutar e ciente do por quê. E há quem afirme, como o historiador francês Fernand Braudel (1902/85), que a democracia teve parto natural, sobretudo na Atenas cosmopolita e mercantil, quando essa tática de paridade coletiva da linha de hoplitas migrou do campo de batalha à vida civil. Um escudo erguido sobre o peito do companheiro em defesa da cidade na guerra, um voto para definir seus rumos na ágora.

Na última semana, o jornalista e blogueiro Alexandre Bastos se despediu da Folha da Manhã. Agora, responde pela coordenação da Chefia de Gabinete do governo eleito Rafael Diniz (PPS), que assume o poder em 1º de janeiro de 2017. Mas foi neste jornal que, entre vindas e idas, Bastos passou quase metade da sua vida. Em 2001, aos 19 anos, teria sua primeira experiência profissional na Folha, como corretor de anúncios, por indicação da sua tia materna, a saudosa jornalista Ângela Bastos (1946/2007), que fez história no jornalismo campista e na Folha.

Na redação do jornal, Bastos iniciaria em 2004, aos 22 anos. Após ter estreado como jornalista na revista “Caraca”, dos publicitários Gustavo Alejandro Oviedo e José Ronaldo, ele enviou um artigo intitulado “A Terra do Nunca”. O texto crítico sobre a mentalidade tacanha de alguns setores da sociedade goitacá abriu as portas para que se tornasse articulista da Folha, onde passou a opinar semanalmente sobre política, esporte e cultura.

No ano seguinte, em 2005, aceitou o convite para trabalhar como repórter da Folha Dois, onde foi colocado como “foca” do jornalista Aloysio Balbi, com quem já comungava a mesma criatividade superlativa no texto. Sete meses depois, mesmo a contragosto, foi posto na editoria de política, até deixar a Folha pela segunda vez em 2006, ano de eleição municipal suplementar, na qual atuou pela primeira vez como assessor de imprensa.

Em 2007, Bastos voltou ao jornal como editor da Folha Dois, função na qual permaneceu até o fim daquele ano, quando atuou novamente como assessor de imprensa. Por fim, retornou à Folha em novembro de 2008, onde ficou até agora. Nestes últimos oito anos, foi repórter e editor (novamente contra a vontade) de política, repórter e editor interino de esportes, colaborador do “Ponto Final”, colunista social e blogueiro — função na qual se revelou um fenômeno de popularidade inédito e ainda sem par na mídia virtual goitacá.

Piadista talentoso, quase sempre capaz de arrancar uma gargalhada de quem chegaria com uma queixa, Bastos padece assumidamente da mesma contradição do coelho Pernalonga: adora brincar, mas se revela pouco paciente quando alvo da brincadeira. Como jornalista, além da criatividade no texto, tem perspicácia incomum na apuração. Se às vezes “morcega” no meio de campo, como o ex-craque francês Zinedine Zidane, é capaz de sair da aparente letargia, quando a cobrança se impõe, para produzir de relance uma sequência de jogadas inesperadas e, não raro, definir a partida.

Mais do que ele possa ter aprendido em nosso convívio, Bastos foi para mim um “professor” generoso do jogo jogado da política, do qual se tornou antes melhor leitor, apesar de uma década mais novo. Tivemos nossos problemas, sobretudo no entrechoque de vaidades. Mas soubemos superá-los e, penso, construímos uma sólida amizade, sobretudo quando a idade revelou a ambos que produzíamos um melhor jornalismo atuando na mesma linha, um ao lado do outro e de todos os demais — sem ninguém à frente ou deixado para trás.

Sobre seu novo desafio no governo de Campos, respondeu quem antes vivia de indagar: “Agora, quando a nossa cidade vive o fim de um ciclo, vejo que também é o momento de iniciar um novo momento em minha vida. Deixar o papel de narrador e entrar em campo. Unir aquela vontade de mudar o mundo, que estava presente nos primeiros artigos, com o lado mais pragmático de quem já é pai de família e sabe que os grandes feitos dependem mais de transpiração do que de inspiração”.

Da lição final de João Cabral de Melo Neto (1920/99) aplicada da poesia ao jornalismo e à própria vida, agora em campos diferentes na defesa da mesma cidade, redefinida em rumo pela democracia conquistada ao custo de tantas batalhas perdidas e ganhas ao longo da história, desejo, em nome da redação da Folha, toda a sorte do mundo a um dos seus nomes mais talentosos. No que há de particular, destaco: ter atuado profissionalmente ao lado de Bastos é dos orgulhos que levarei destes 26 anos de jornalismo.

Ao futuro, ecoa a resposta do rei Leônidas (540/480 a.C.), comandante espartano morto em Termópilas, ao persa que lhe ofereceu ouro para entregar as armas: “Malon lave!” (“Venha buscá-las!”).

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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Paula Vigneron — Entre quatro paredes

 

Atafona, 16/07/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, aurora de 16/07/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

— Há quanto tempo você está trancada neste quarto?

— Oito anos.

— Por vontade própria?

— Sim.

— Tem algum motivo específico?

— Não.

— Fale mais sobre você. Ou prefere que eu pergunte?

— Não fará diferença.

— O que você guarda dentro da caixa?

— Lembranças.

— Posso vê-las?

— Não. Está vazia.

— Onde estão as lembranças?

— Eu preferi apagá-las.

— Por que não as guardou?

— Por que ninguém me guardou?

— Rebater com perguntas. Não funciona comigo.

— Não era para funcionar.

— Quer falar algo? Em que posso ajudá-la?

— Em nada. Procure se ajudar.

— O que são essas frases na parede?

— Eu.

— Você?

— Meus gritos sufocados que ninguém quis ouvir.

— Você tentou dizer?

— Sempre tentei, mas não deu certo.

— Quer falar para mim?

— Você pode ler.

— Eu prefiro te ouvir.

— A leitura é sempre mais prazerosa. Acredite. Li a minha vida toda e me poupei de escutar coisas insatisfatórias.

— Ler é uma ótima opção. Ajudou você?

— Me ajudou a entender mais do que precisava e menos do que gostaria.

— Não é possível entender tudo.

— Não é possível entender nada.

— Vamos dar uma volta?

— Me dê um motivo para isso.

— Vamos observar. Você pode tirar novas conclusões sobre o mundo.

— O tempo passa e coisas mudam, mas minhas conclusões sobre o mundo serão as mesmas.

— Você levou quanto tempo para escrever nas paredes?

— Eu ainda não terminei. E não sei quando terminarei. É uma eterna construção. É a minha saída quando o silêncio me sufoca.

— Por que não experimenta conversar com sua família?

— Porque ela nunca experimentou me ouvir. Não havia tempo para isso.

— Eu posso te ouvir.

— Tarde demais, doutor. Eu não sei mais falar. Não sei empregar as palavras certas fora da minha escrita.

— Eu escuto suas confusões e ajudo você a entendê-las.

— Se eu não as entendo, lamento, mas não será você quem as entenderá.

— Posso te surpreender.

— Ah, não. Eu nem consigo me lembrar da última pessoa que conseguiu me surpreender. Desculpe desapontá-lo.

— E esses CDs? São seus?

— Meus companheiros de melancolia. Se anseio por uma voz, recorro a eles.

— Não sente falta de uma voz amiga?

— Eles são as vozes amigas das quais você fala.

— Por que caneta preta?

— Porque as palavras saem envoltas em um misto de sensações que, para mim, é escuro e impenetrável.

— Suas roupas combinam com a escuridão das paredes.

— Minhas roupas são o reflexo do meu interior.

— É frio aí dentro?

— Muito.

— Nem a luz do sol, quando passa pelo vidro, te aquece?

— Não. Estou afastada dos raios. O frio também é impenetrável.

— Não pensa em voltar ao mundo real?

— Eu estou no mundo real.

— Não. Você está fugindo dele.

— O que é o mundo real?

— É a vida que te espera ali, na saída do quarto.

— Nada me espera. E acredito que você saiba que nada te espera. Nada espera ninguém.

— Você é jovem e tem uma vida toda pela frente. Como acredita que não há esperança?

— Devido às minhas experiências. Repetitivas, vazias e cansativas.

— Mas você tem muitas coisas para viver.

— Não sei. Quem me garante, doutor?

— Pela lógica da vida.

— A vida não tem lógica. Acho que, no fundo, você sabe disso.

— Permita-se viver coisas novas.

— Seu discurso vai de encontro ao que você realmente pensa. É visível a falta de emoção quando fala. Você quer me salvar, mas sabe que, para isso, tem que se entender.

Suspiros invadiram o ambiente.

— Vá, doutor. Pegue a caneta e use a minha parede para dizer suas verdades. Para expressar o que ninguém soube ouvir.

 

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Paula Vigneron — O outro

 

Fogueira acesa para a roda de jongo em Machadinha, comunidade quilombola de Quissamã, em 27/10/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Ao pôr do sol, fogueira acesa à roda de jongo no terreiro diante da igreja de Machadinha, comunidade quilombola de Quissamã, em 27/10/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Entre pingos de chuva e gotas de lágrimas, trafego por caminhos interiores, perdidos, escondidos. Isolados. Aquieto-me em um canto escuro, refúgio onde não serei encontrada facilmente. Ando, paro, volto. Olho, analiso. Reflito. Nas retinas, imagens sobrepostas. Diante da expressão aparentemente fria, apática, cética, que guarda casos e memórias, aparências se desfazem e se refazem. Idas e vindas. As dores estampadas em capas e caras, pertencentes a outros, muitos, vários. Elas falam diretamente a mim. Gritam em minha direção nomes, passados, presentes e futuros.

Ontem, éramos crianças que corriam atrás de bolas, bonecas, brincadeiras. Encontrávamos braços quentes à nossa espera em casas de gritos sufocados propositalmente. As histórias transformadas em memórias revisitadas ocasionalmente para que seja possível seguir em frente. Ao meu lado, presencio perdas e ganhos. Perdas e danos. Danos, perdas, ganhos que fazem parte de uma vida que se torna minha por empatia.

“Não pense desta forma, menina. A vida é bonita”, diz um homem ao meu lado, capaz de capturar meus sentimentos a olho nu.

“Só para Gonzaguinha, seu moço. Para mim, a vida é bonita, feia; mãe, madrasta; amor, sangue; Pai, Filho e Espírito Santo.”

Ele apreende cada palavra não saída de minha boca, que, levemente puxada, esboça reações atípicas de um dia nebuloso. Seus olhos conservam espanto.

De volta ao interior, invadido por um estranho conhecedor de mim que desaparece tal qual a neblina, libero-me das amarras e me cedo ao outro, que permanece camuflado em minhas entranhas. Estás refletido em mim, meu caro. Ele claudica. Sigo junto a ele, que não é capaz de me ver. Só sente. Sinto-o com a mesma intensidade. Em seu rosto, enigmas indecifráveis. Em meus traços, oculto está o que arde e clama. Entrelaçamos dedos, carne e ossos em movimentos repetitivos e intensos. Por trás de seus olhos, minhas feições. Reconheço-o em meus pés, mãos, braços, pernas. Pelos, cabelos. Amores. Conflitos. Confrontos. Contrastes, imagens.

Prosseguimos eu e o outro. Caminhos perdidos na solidão.

 

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Paula Vigneron — Espelho

Atafona, 31/07/14 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, 31/07/14 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

O sol atingia indiscriminadamente as bancas do mercado. Frutas, legumes e verduras, espalhados por balcões, pareciam frescos. “Foi tudo colhido ontem e hoje, dona moça. Pode ficar despreocupada”, informou o feirante ao perceber os olhares de Paula. A mulher sorriu em agradecimento e selecionou o que precisaria.

Sábado era dia de cozinhar para Jorge. O marido gostava de saladas criativas, segundo suas próprias palavras. E ela se sentia disposta para satisfazer os desejos do homem. Moravam juntos há 15 anos. Optaram pela não assinatura de papéis e festas para iniciar a nova fase. As comemorações foram a dois, com viagens, jantares e presentes. Viviam em um apartamento próximo ao rio que cortava a cidade. Ali, eram felizes.

Ambos atuavam no ramo da hotelaria, mas estavam de férias. Este era o primeiro dia de descanso. Paula se dedicava a fazer as vontades do homem. Cuidava dos detalhes para que os dias corressem conforme os planos dele. Sentia ser essa a sua missão de esposa. E gostava de assumir o papel com dedicação e carinho. A mãe costumava lhe dizer que, sim, ela poderia trabalhar fora de casa, mas sua verdadeira função era ser mulher.

Após selecionar os produtos que queria comprar, foi ao caixa e pagou a mercadoria. O final da manhã correra exatamente como planejado. No caminho para casa, sorria e cumprimentava os vizinhos. Todos a olhavam com expressões respeitosas e comovidas. A mulher não entendia o porquê. Abriu o portão e foi recebida por Nina, a cadela adotada há 10 anos. Mesmo cansada, sempre ia para a escada acompanhar os donos.

Acariciou a cabeça de Nina e entrou. O cheiro de limpeza indicava que Flávia havia chegado. Ela trabalhava na casa do casal desde os primeiros meses. Era uma grande amiga com quem Paula dividia segredos e histórias. Cuidadosa, passava a maior parte do dia com o casal.

“Oi, Paula.”

“Oi, Flávia. Como estão as coisas?”

“Tudo ótimo. E você? Precisa de ajuda por aí?”

“Não. Está tudo certo. Vamos cozinhar juntas?”

“Claro. Quero companhia para conversar. Vou fazer a salada que Jorge gosta. O que acha? Ele vai ficar feliz”, disse, sorrindo, enquanto se dirigia à cozinha. Flávia seguiu-a, observando seus passos. Às vezes, pensava em qual poderia ser a melhor saída.

No cômodo, a mulher já organizava o material que usaria. Por não terem feito festas e tradicionais chás para a montagem da casa, o casal comprou tudo. Poucos amigos colaboraram. Apesar do tempo, quase todos os objetos estavam bem conservados. Os dois eram caprichosos e se orgulhavam disso.

“Quando estivermos velhinhos e nada mais nos servir, vamos guardar todas as lembranças. Cada uma delas é parte de nossa história”, disse Jorge, em uma noite de jantar. E sorriu. O marido tinha um jeito peculiar de sorrir. Malandro e terno. Ela ainda se encantava com esse traço.

“O que acha de fazer aquele molho adocicado, Flávia? Ele adora!”

“Ele adora, eu sei. Adora tudo que vem de você. Mas e você, Paula?”

A mulher retornou aos afazeres, cortando os ingredientes. Acendeu o fogo e levou as panelas. Sentia-se plena. Cada detalhe exigia atenção máxima para não desandar. Embora Jorge não cobrasse, ela tentava ser impecável no que fazia para o marido. Esticou a mão e alcançou o rádio, que ecoava canções brasileiras. Suas preferidas.

As duas dividiam as tarefas. O almoço estava quase pronto quando Paula foi arrumar a mesa. Três pratos, três garfos e facas e três copos. Ajeitou papéis, canetas e contas espalhadas pelo vidro. Colocou a toalha e distribuiu os objetos. Sorria. A foto dos dois estava a poucos metros dela. Andou, segurou o retrato. A emoção que ainda sentia por ter o marido era incomum. Parecia uma adolescente apaixonada. Olhou-se no espelho, que estava posicionado próximo à mesa. Nem as rugas faziam diferença na expressão de menina que conservava ao se lembrar de Jorge.

A amiga trouxe a salada e o molho. Paula ajudou-a, reorganizando o espaço.

“Ficou ótimo. Bonito e atraente. O que achou, Jorge?”

Flávia olhou para a mulher, que sorria.

“Que bom que gostou, querido. Sente-se ao meu lado. Não. Você está ótimo. Verifique no espelho. Ficarei aqui, em direção a ele.”

E se posicionou na cadeira ao lado da de Jorge. Os três comeram enquanto Paula comentava sobre o dia. Acordara mais cedo do que o previsto para ir à feira. Flávia ouvia as palavras, mas não erguia a cabeça. Sua voz também não era ouvida.

“Então, nosso almoço está aprovado, meu amor? Isso me deixa satisfeita. E que seja apenas um feliz começo das nossas esperadas férias.”

Inclinou-se para beijar o marido. O espelho refletiu a imagem de Paula.

 

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Após nocaute das urnas de Campos, onde está Michael Spinks?

 

Onde está Michael Spinks?

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Tyson vs Spinks 1Era 27 de junho de 1988, poucos meses antes do garotismo chegar ao poder em Campos pela primeira vez. Foi quando um jovem de então, com apenas 28 anos, derrotou nas urnas a velha liderança do ex-prefeito Zezé Barbosa (1930/2011). Já em Atlantic City, alguém ainda mais jovem deveria enfrentar seu grande teste.

“Iron” Mike Tyson já tinha impressionado o mundo, ao ser o campeão de boxe peso pesado mais jovem da história. Tinha apenas 20 anos, quando derrotou o campeão Trevor Berbick (1954/2006) em 22 de novembro de 1986, em Las Vegas. A agressividade do estilo de Tyson fez com que o Berbick tivesse quatro quedas consecutivas no mesmo nocaute final, caindo e tentando se levantar para cair de novo, bêbado pela potência destruidora de uma força da natureza.

Conquistado o cinturão do Conselho Mundial de Boxe, Tyson trabalharia no ano seguinte para unificar o título da categoria mais importante do boxe profissional. Em 7 de março de 1987, contra James “Quebra Ossos” Smith, e em 1º de agosto do mesmo ano, contra Tony Tucker, o jovem campeão se tornou dono também dos cinturões da Associação Mundial de Boxe e da Federação Internacional de Boxe.

Mas, nos dois combates, o “baixinho” Tyson (1,78m) teve sua temida fúria em parte contida pela envergadura maior dos oponentes. Ganhou de Smith (1,93m) e Tucker (1,96m) por pontos, na decisão dos jurados, não com os nocautes brutais pelos quais se notabilizara.

Não por outro motivo, com apenas 21 anos, Tyson começou a ser questionado por parte do público e da mídia especializada. Ambos iniciaram uma campanha para lembrar ao jovem fenômeno que ainda havia outro campeão na categoria, igualmente invicto: Michael “Jinx” Spinks.

Campeão olímpico em Montreal-1976, na verdade Michael Spinks não só nunca havia perdido uma luta em sua carreira profissional, como sequer tinha sofrido uma queda, até seus 31 anos. Pugilista técnico, veio da categoria dos meio pesados. Era considerado o irmão “ajuizado” do errático Leon Spinks, que por sua vez ganhara e perdera o cinturão dos pesos pesados em 1978, em dois combates decididos por pontos, contra o legendário campeão Muhammad Ali (1942/2016), maior lutador de todos os tempos.

Por conta do seu respeitável cartel de 31 lutas, 31 vitórias e 21 nocautes, Michael Spinks se tornou um mantra na boca dos detratores de Mike Tyson. Até entrar no ringue naquela noite de junho de 1988, para defender seu cinturão, Tyson teve que ouvir durante todo o ano anterior a advertência, transformada em campanha para provocá-lo: “Mas tem o Michael Spinks! Mas tem o Michael Spinks!”.

No Trump Plaza Cassino, com a presença do proprietário Donald Trump, hoje candidato republicano a presidente dos EUA, espécie de “Bolsonaro” acima do Equador, o clima era de tensão e expectativa. E, soado o gongo inicial, a luta durou exatamente 91 segundos.

Após aguardar um ano por aquele combate, transmitido ao vivo pela TV para todo o mundo, o desavisado saiu da sala para pegar uma cerveja na geladeira da cozinha. E se surpreendeu quando voltou para constatar, incrédulo, um Spinks humilhantemente atirado fora das cordas do ringue, com as órbitas perdidas dos olhos em direções opostas ao mesmo nada.

Após encerrar a luta com um gancho de direita devastador contra a testa do desafiante, ainda na metade do primeiro assalto, Tyson abriu os dois braços e repetiu ao mundo sua indagação: “Where’s Michael Spinks? Where’s Michael Spinks?” (“Onde está Michael Spinks? Onde está Michael Spinks?”).

Depois do resultado das urnas de Campos no último domingo, com uma vitória avassaladora de Rafael Diniz (PPS) nas sete Zonas Eleitorais do município, ainda no primeiro turno, na qual o jovem neto de Zezé Barbosa derrotou 28 anos depois o envelhecido algoz do seu avô, tem muita gente até agora perguntando a mesma coisa.

 

Publicado hoje (09) na Folha da Manhã

 

Confira no vídeo abaixo o massacre de Tyson sobre Spinks:

 

 

 

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Paula Vigneron — Memórias

Atafona, 2 de março de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, 2 de março de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Mataram minhas lembranças.

Drenaram-nas de mim a pouco custo. Barato. Por quase nada. Arrancaram sonhos, ilusões, tempestades que me eram caras. Levaram os prantos, os risos e os cantos. De todos os cantos. Sorrindo, invadiram espaços, tetos, sobrados. Sombras. Lendas e histórias. As vozes, silêncios. As vezes. Trás, frente. Das costas, os idos. Os regressos. Fatos e dados. Comeram narrativas jamais criadas. Casos não contados. Vidas não vividas. Recordações de um passado ainda desconhecido e pronto a ser desbravado.

Mataram minhas lembranças.

Tiraram de minha boca o gosto de um doce sorriso que eu me lembro de ter dado na infância. Era parte de mim. Metade. Uma das mais importantes construções do meu ser. Derrubaram os tijolos que me ergueram. As paredes formadas por tatos e retratos de alguém que já não sei. Quem? Ninguém. Entre outros tantos que, de mim, fizeram abrigo. Destruíram os desejos, anseios. Até os medos. Os pavores da menina que temia as noites escuras. Que não suportava os dias de sol. Que admirava o cinza do céu nublado. Gargalharam a cada face transfigurada. Desfigurada. Remodelada. De cada risada deixada na estrada. Vícios perdidos em esquinas tortas. Vias mortas. Amores, ardores.

Mataram minhas lembranças.

Apossaram-se de nomes e sobrenomes. Sem autorização. Em atos vis, mortais, infames. Imorais. Regaram mato em vez de flores. Todos secaram. Ansiaram por dominar. Ambicionaram. Sem resgates. Tomaram como suas cada parte de minha estrada. Tombaram muros, pedras, casas. Mitos. Fito-os, agora, com ares longínquos. Estranhos a mim.

Estranhos.

Mataram minhas lembranças.

E eu? O que fiz?

E eu, que sou o que fizeram de mim?

E eu?

 

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Paula Vigneron — Vanda

Ruínas de Atafona, 06/08/14 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Ruínas de Atafona, 06/08/14 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

“Ah, se essas promessas se cumprissem”, pensou Heitor, enquanto, caminhando pelas ruas, encontrou um anúncio de milagres amorosos para o qual olhavam algumas mulheres desconcertadas. Retornos em até sete dias. Descobertas sobre amantes com relatos de trabalhos bem sucedidos.

E se lembrou de Vanda. Bonita. Charmosa para andar. Tinha um passo meio saltitante, como se comemorasse algo. Ele queria fazer parte daquela festa desde a primeira vez em que a viu. Os cabelos vermelhos escorriam pelas costas e se movimentavam de diferentes maneiras a cada passo dado por ela. Às vezes, iam da direita para a esquerda, lentamente. Em outros momentos, batiam contra a coluna, como se estivessem agredindo-a. Mas de modo delicado.

Vanda era tão contraditória quanto seus cabelos.

— Posso me sentar? Estou dançando há algumas horas. Meus pés estão doendo tanto que não resisti a essa cadeira convidativa — pediu, calorosamente, a ele. Aceitou, claro. Era oportuno o momento.

Conversaram por intermináveis minutos. Os caminhos dos garçons tinham paradas obrigatórias nas mesas dos dois. Eles enchiam os copos, já cansados dos gestos repetitivos e dos pedidos incessantes.

“Não, não temos mais esta cerveja”.

“A vodka acabou mais cedo, como falei com a senhora. Sim, falei. Mais de três vezes, senhora. Não, não tenho como providenciar.”

— Lugar mal servido, não acha? — e ele concordou. Na situação em que estava, discordância seria sinônimo de briga. E era tudo que Heitor não desejava naquele momento.

Seguiram a noite em um diálogo que beirava a incompreensão. A mulher contava os casos de sua vida, misturando-os a histórias de pessoas conhecidas dela. Ele não estava conseguindo acompanhar a sucessão dos fatos, mas ria quando era necessário e fazia expressões de total comunhão. Vanda parava o discurso, ocasionalmente, para esperar as reações do interlocutor. O homem manteve uma boa atuação até o final do encontro.

Desejou, em certos momentos, permanecer ao lado dela por todos os dias de sua vida, embora soubesse que sua paz se transformaria em um eterno turbilhão de palavras soltas, euforias e chateações. Era fácil deduzir, apesar de terem ficado juntos por pouco mais de quatro horas. Deixou-a em casa. Trocaram telefones e abraços como se fossem parentes ou amigos que se reencontraram, por acaso, depois de anos. Vanda era um mistério. Ele ainda não sabia se ela era a professora ou a coordenadora da escola em que disse trabalhar.

No dia seguinte, uma mensagem:

“Oi, Heitor. Não sei muito bem como foi a noite de ontem, mas torço para que tenha terminado bem. Alguns flashes passam por minha cabeça. Lembro que você me ofereceu uma carona. Obrigada pela gentileza e por ter acompanhado minha prosa torta sem questionar ou reclamar de tédio.”

Ela sabia exatamente como era seu comportamento quando misturava o álcool ao diálogo. Heitor se surpreendeu. Respondeu, educadamente, que o encontro foi ótimo e gostaria de repeti-lo para definir, em sua cabeça, se ela tinha estudado matemática ou letras.

O segundo dia de conversa desdobrou-se em três, quatro, sete, dez e um namoro. Tal como previra, Vanda era o furacão. Dormiam e acordavam em constantes tensões. Descobriu que era professora de geografia. Nas madrugadas, os gritos eram ouvidos por vizinhos. Ele pedia discrição, mas ela não se continha. Geralmente, um passeio pelo elevador, durante a manhã, representava minutos de constrangimento reforçados por adolescentes debochados ou idosos irritados.

Quando voltava para casa, encontrava-a instalada na cama. Aprendera a não se surpreender com as alterações de humor. Ora, estava alegre, contando os casos do dia, da família e os sonhos que construíra, sozinha, para ambos. Ora, discutia ideias para mudar completamente a sua vida. Ele se sentava, na beira da cama, e a ouvia silenciosamente. Sabia os momentos de pausa nos quais deveria interferir e os tons que precisariam ser usados. Vanda tinha prazer, que acreditava ser oculto, de transferir suas criações para a realidade.

Em uma manhã de folga, a mulher acordou mais cedo. Esperou Heitor despertar do sono pesado e ficou encarando-o por longos minutos. No começo, ele interpretou como carinho o gesto da namorada. Mas a forma de olhá-lo não era a mais simpática. A sonolência o deixava com os pensamentos vagarosos. Demorou a compreender. Sentou-se para tentar descobrir o que a afligia. O movimento dos lábios foi interrompido por uma enxurrada de reclamações.

“Falta amor, falta carinho, falta conversa. Você não tem tempo para mim. Eu não aguento mais ter que esperar para receber de volta aquilo que dou. Não, você não pode falar nada. Você pode ficar quieto e ouvir. Eu sei disso. Não precisa jogar na minha cara que você dormiu tarde porque ficou me escutando. Meus assuntos nunca te interessam, não é? Eu cansei do pouco que você tem para me dar.”

Ela, em discussões, usava poucas vezes o pronome “eu”. Mas abusava da segunda pessoa do discurso. Juntou os pertences e, assim como veio, foi. Ele lamentou por uns dias. Por outros, sentiu uma saudade lancinante. Depois, sonhou com ela. Acordava sentindo o cheiro. Buscou, por meses, um sinal. Mas ela havia ido.

Quando se esqueceu de Vanda, recebeu uma mensagem. “Continuo a te ver por todos os lados. Sei que corri de você, mas sempre te encontro onde não quero. Preciso me livrar.”

Ele não respondeu. Imaginou que era mais uma de suas maluquices fora de hora e na contramão. No dia seguinte, outro recado. “Não faça comigo o que fiz com você. Se te procurei, é porque preciso que me ajude. Não estou gostando do seu sumiço.”

Novamente, Heitor preferiu o silêncio. Rapidamente, Vanda avisou. “Você não muda, não é? Egoísta. Saiba que nada de bom te espera. Cuidado por onde anda.” E, outra vez, sumiu.

A caminho do trabalho, depois de tempos passados do último contato virtual, Heitor observava homens e mulheres que passavam a seu lado. Sem perceber, foi agarrado em uma das mãos por uma cigana. Saia e blusa coloridas em uma mistura atípica.

“Vejo o seu futuro. No seu futuro, uma mulher. Mas essa mulher te traz sofrimentos. E os sofrimentos são causados por uma forma de magia…”

O tédio das palavras consumindo o tempo do ouvinte.

“… Magia poderosa, menino. Magia do amor. Nunca vi nada tão forte. Mas, com uma ajuda, posso te ensinar a reverter.”

“Olha, senhora, pode ser que você esteja certa. Mas, como bom alvo, prefiro esperar que as coisas se manifestem sozinhas.” E deixou a cigana. A poucos metros, passou por Vanda, dominada por um olhar furioso. Parecia um sinal. Sentiu arrepios. Direcionava a ele as piores expressões. Podia ouvir os pensamentos dela, a voz ecoando críticas ao seu mau comportamento. À falta de carinho. A nenhuma parceria. Ao descaso. A tantas coisas que ele nem seria capaz de se lembrar.

Foi o último encontro dos dois. Soube, tempos depois, que a outro homem se destinavam as pragas de Vanda. Com ele, viveu nova paixão intensa, eterna e calorosa, com juras de amor transformadas em arrepios e ameaças transcendentais nunca materializadas. Conjuradas em um mesmo solitário quadro.

 

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Paula Vigneron — Ela

Campos, aurora de 26/08/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Campos, aurora de 26/08/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Os olhos pareciam confundir realidade e ficção. A seu lado, uma idosa dormia profundamente. Estava fraca, Há quantos dias estava ali? As paredes brancas se transformaram em uma câmara densa. Sufocavam. Ou seria o descompasso de sua respiração? Ora, transparecia serenidade. Ora, tensão. Quem passava gostava de analisá-lo. Alto, magro, belo. Em outros tempos, havia conseguido unir inteligência e beleza na medida certa para atrair as pessoas. “Ele é diferente dos demais”, diziam as meninas apaixonadas. Bobas. Não sabiam que, no fundo, todos são iguais.

Será?

Antônio, hoje, observa no espelho o que restou de sua plenitude. Agora, no entanto, não podia se levantar. Restaram somente as lembranças da passagem do tempo. As palavras ditas. As bocas beijadas. Os olhares trocados com outras, tantas, muitas mulheres. Os olhos dela. Ela. A mulher que ainda permanecia em pé a seu lado desde o dia em que dera entrada naquele quarto de hospital.

Onde?

Ao redor, rostos, vozes, gestos e observações desconhecidas. E ela continuava por perto, em algum canto distante. Ele não podia vê-la nem tocá-la. Mas seria capaz de descrever, com riquezas de detalhes, a sua sonoridade. Nos atos, nas palavras e no jeito. “Uma pluma que acaricia nossa alma”, comentava com os amigos. Diziam que era fase. Besteira. Ninguém confiava em sua fidelidade. “É só mais uma, rapaz. Você sabe. Quantas outras fazem parte da sua lista de achadas e perdidas?” E os homens gargalhavam das piadas. Antônio analisava, buscava a graça. Mas eles estavam errados. Todos eles.

E ele?

Esticou a mão para tocá-la. Em foto, em carne, em osso, em alma. Os dedos perderam a sensibilidade. “Por isso, não a sinto”, tentava se convencer. E conseguia. Misturava cenas do passado para desenhar o presente e ter a sorte, quem sabe, de traçar um futuro. Ela corria em sua direção para anunciar uma conquista. Comemoravam. Beijos, abraços, histórias. Por vezes, ficava brava. “Tem um gênio de cão”, desabafou com o irmão mais velho, que ria e se espantava com as mudanças do caçula. “Em outros tempos, não restaria nada além de sua impaciência.” O casal gostava de contar seus casos. As impressões de amigos e familiares rendiam risadas e comentários irritadiços. Pela voz, Antônio sabia, com precisão, o que se passava no interior dela.

E a voz?

Era doce. Direta. Ríspida. Agressiva. Cortante. Era? Chafurdava os compartimentos de sua memória para buscar o tom exato da frase que ela diria. Perdia-a. O avanço dos minutos resultava em completo afastamento. Sua mãe lhe contou isso na infância. “Quando uma pessoa morre, esquecemos aos poucos todos os detalhes. É como uma fotografia que o tempo trata de envelhecer e apagar vagarosamente. Ficam os traços do sorriso, o fundo da imagem e, no final, o nada.”

O nada.

Mas, com ela, não. Não poderia ser assim. Uma recordação qualquer. A tarde no parque. O encontro com os parentes. As idas ao cinema que terminavam em discussões quase filosóficas sobre os filmes vistos, inclusive os mais superficiais. Ela encaixava uma teoria para explicar decisões e opções de diretores e produtores. “Como você não entendeu a referência?”. Ela brigava quando tinha que explicar algum ponto obscuro. Os tons. A voz. As frases surgiam em sua cabeça como as frases de um livro de literatura. Um filme mudo. Era nisso que ela se transformara. Em silêncio. Ao lado, a máquina mostrava, agora, o descompasso de seu coração.

A perda definitiva.

Pessoas, vestidas de brancos, posicionaram-se ao redor dele. Via as luzes provenientes de todos os cantos daquele quarto. “Vocês estão me sufocando”, disse. Mas a voz não saia. E seu tom? Mesclavam-se, aos poucos, o homem e a mulher. Os sons desaparecendo. “Aja com cautela”, lembrou-se do conselho do irmão. Dissera isso em vários momentos de sua vida. “Ajo, Sandro. Mas o que faço agora?” A boca aberta ecoava o vazio. Buscava o timbre exato para cruzar com o dela.

Cautela.

O sorriso. Os dentes levemente amarelados devido aos maus hábitos. E Antônio gostava. Sentia prazer ao ver as imperfeições dela. Estava acostumado à rouquidão que, no início, havia estranhado. “E agora, Sandro?” Mãos diversas, cores diferentes, tocavam o peito dele. As luzes pareciam mais fortes. Sentia-se leve como há tempos não conseguia. Paz. Nirvana. Atrás daquela confusão de dedos e expressões, o sorriso dela. A voz tomou conta do ambiente. Límpida. Clara. Sonora. Sorriu em compreensão. Desejou encostar os lábios nos dela, mas aguardaria. Não demoraria muito mais. Passado e presente em comunhão para traçar, com sorte, o futuro.

 

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Saulo, Paula, Camilla e Helô — Novos blogueiros da Folha Online

Folha Online 1

 

 

Três jornalistas e uma professora de educação física. A partir da próxima quinta, dia 1º de setembro, Saulo Pessanha, Paul Vigneron, Camilla Silva e Helô Landim, sucederão o historiador Aristides Soffiati (aqui) como os novos blogueiros hospedados pela Folha Online.

Abaixo, em palavras próprias, um pouco de cada um, bem como o que eles pretendem trazer a você, leitor, nesses novos pontos de encontro virtual. Para começar a conferi-los, basta clicar sobre o layout de cada blog:

 

 

Saulo Pessanha - blog Saulo Pessanha

 

O jornalista Saulo Pessanha, 66 anos, está há algumas décadas militando na imprensa de Campos. Ele assina duas colunas na Folha da Manhã. Na blogosfera, está voltando, depois de quase dois anos fora do ar. Saulo debutou na profissão em A Notícia, então sob o comando de Hervé Salgado Rodrigues, em 1969. Ao longo da carreira, foi correspondente da revista Placar, do Jornal dos Sports e da Ùltima Hora. Fora do jornalismo, foi dono de bar — o Bar Doce Bar, ponto de boêmios e intelectuais na noite de Campos, nos anos 1970. Também escreveu livros: “A Imprensa de Campos pelo avesso — 400 gafes e pérolas” e “Anedotário Político — 400 casos de Campos e adjacências”, volumes I e II.

 

 

 

Paula Vigneron - blog Vigneron

 

Trabalho, há aproximadamente dois anos, como repórter da Folha Dois, caderno de cultura da Folha da Manhã. Junto a essa tarefa, publico, quinzenalmente, contos no blog Opiniões. E, agora, também a convite de Aluysio Abreu Barbosa, compartilharei com os leitores textos, jornalísticos e literários, por meio do blog Vigneron.

Diante da avalanche de notícias a que somos submetidos diariamente, a ideia é que a página virtual, que estará no ar em breve, possa ser um meio de filtrar e analisar fatos do cotidiano sobre assuntos diversos, principalmente quanto à área cultural. O espaço será utilizado, também, como meio para divulgação de interessantes produções, tanto locais quanto nacionais, relacionadas à literatura, música, teatro e cinema.

 

 

 

Camilla Silva - blog Preto no Branco

 

A nossa opinião pode ter inumeráveis tons de cinza. Nós podemos defendê-la com todos os argumentos que tivermos. Os argumentos podem ser variados, às vezes, até antagônicos e inteiramente válidos. Eles só não podem ser falsos. O blog Preto no Branco nasceu com a intenção de desfazer boatos, mentiras criadas e difundidas, respostas duvidosas de assessorias, entre outros. A ideia é que ele também tenha um espaço para opinião, devidamente identificado. É bem certo que verificar informações é a função básica do jornalismo. O blog é, portanto, apenas uma extensão do trabalho da redação de todos os dias.

 

 

 

Helô Landim - blog Vida Ativa

 

Graduada em Educação Física ,docente I do Governo do Estado do Rio de Janeiro .  Especialista em Gerenciamento de Projetos — MBA Gerenciamento de Projetos pelo Isecensa, expertise na gestão de programas de atividade física e saúde com ênfase na Gestão do Envelhecimento Saudável.  Especialista em Qualidade de Vida e Gerontologia pela Faveni e aluna de Iniciação Científica do Mestrado em Educação Física da Uerj.

O blog Vida Ativa, hospedado na Folha da Manhã, tem por objetivo difundir e dialogar com os leitores sobre as questões que cercam envelhecer no mundo , no Brasil e especificamente em campos dos Goytacazes. Conversaremos sobre envelhecimento ativo, a importância da atividade física para a longevidade e as políticas públicas que são realizadas com essa finalidade, além é claro do exercício da cidadania no cumprimento da legislação que envolve o idoso no país.

 

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Paula Vigneron — Quase vida

 

Pista de corrida do Estádio Olímpico do Engenhão, Rio, noite de 16/08/16 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Pista de corrida do Estádio Olímpico do Engenhão, Rio, noite de 16/08/16 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

 

A primeira pontada foi naquela manhã. Era o sinal de que seu menino, que já demonstrava ser bagunceiro, estava prestes a chegar. Lembrava-se da recomendação médica: “você pode me ligar quando começarem as contrações. A qualquer dia e hora”. Mas ela queria sentir mais um pouco a dor de ser quase mãe. Quase. Ansiava pelo momento de se dizer mãe. Palavra curta e forte. Desde que soubera que estava grávida, pensava muito no verdadeiro sentido da maternidade. Relativamente jovem, sabia que ainda não conhecia o significado da fase em que iria entrar.

Segunda pontada minutos depois. Não sabia exatamente o tempo entre uma e outra. “Ela vai ficando cada vez mais forte. Não hesite em me procurar”, recomendava o médico. “Eu sei, doutor. Pode ficar tranquilo. Eu sei como agir”, dizia, consciente de que não havia verdade em sua frase. Ela não sabia como agir. Para lidar com a gravidez, antes de contar à família, passou uns dias isolada. Precisava ficar em silêncio para aceitar que deixaria de ser filha para se tornar mãe. Responsável por um frágil ser, cuja única forma de contato com ela seria o choro. Ou o riso. Gritos. Sem verbalização de sentimentos, dores e emoções. Sem vozes. Só reações facilmente confundíveis.

“E agora?”, perguntou a si mesma nos dias de afastamento da realidade. Não havia respostas. Era hora de encarar-se como adulta.

Terceira pontada. Mas acostumou-se à ideia de ter um pequeno ser ao seu redor, com lágrimas, risos, cólicas e amor puro. Na verdade, estava ansiosa para conhecer o rosto do menino que habitava sua barriga há nove meses. Queria ver gestos, traços, expressões. Queria, acima de tudo, ver seu reflexo nele. Quarta pontada. O intervalo entre as contrações diminuía. Era hora de telefonar. Quinta pontada. O médico a recomendou que corresse ao hospital. Honesta, a mulher contou que demorara a entrar em contato por desejar sentir um pouco mais as dores de ser quase mãe. Quase. Faltava pouco.

Sexta pontada. Telefonou para o marido. Rapidamente, o homem chegou ao apartamento, organizou as malas da esposa e do filho e desceu. A tensão era grande. Ele sentia o corpo tremer. “Pai de primeira viagem, hein?”, ouvia dos amigos. E morria de medo da responsabilidade que se materializaria em breve. Ainda bem que tinha a companheira. Sétima pontada. Um líquido começou a escorrer pelas pernas da mulher. Era a tal bolsa estourada. Sim. O processo estava próximo ao fim. Sentia-se feliz e plena. Agora, seria mãe. O confronto com a maturidade. Ida para um tempo sempre temido. Ainda assim, prevalecia a alegria.

A intensidade do incômodo crescia. Deitada na maca, era encaminhada com rapidez para a sala de parto. Optara pela cesariana. Não queria sofrer mais do que o necessário. A família concordou. A expressão do médico era de preocupação. Ela não entendia. “Deve ser normal”, pensou. “Não é possível estar angustiado diante de um momento de tanta felicidade”. A conclusão a que chegou parecia ser diferente da dos demais. Havia urgência em todos os olhos que pousavam sobre ela.

Anestesia. Seu corpo adormecia vagarosamente. O tato perdia-se. Os pés já não balançavam. Ficaria acordada. Os primeiros cortes. Sentia um leve ardume na barriga. A dor de ser quase-quase mãe. Cada vez mais perto de seu menino. Seu garoto. Seu guri.

“Corra. Não temos muito tempo”, disse a enfermeira. A quem foi dirigido o alerta, ela não sabia. Todas as palavras tocavam seus ouvidos com certo atraso. Não conseguia compreender o significado do que era dito. A movimentação aumentava em seu entorno. Mãos, braços, dedos e instrumentos cirúrgicos confundiam-se diante dela. O decorrer dos minutos trazia afastamento da realidade. Longe, escutou os primeiros ruídos do que parecia um choro. Uma agulha foi enfiada em sua veia. “Ai”. Exclamação quase inaudível.

“Quase. Quase a perdemos”, comentou o médico, trêmulo. Havia um quê de alegria por tê-la trazido de volta.

A seu lado, havia um pequeno embrulho. Depois da injeção, ela o enxergava bem. Era tão pequeno. Tão indefeso. Tão amado.

“Meu menino. Meu querido. Meu curumim”, disse. Lágrimas embaçavam um pouco a visão da mulher.

Novamente, o corpo adormecido. Sentia incômodo, mas não sabia de onde vinha a sensação. Tentava chamar os médicos com as mãos, mas elas não respeitavam a sua vontade. O mal estar aumentava. Não conseguia pedir ajuda. Seus olhos estavam presos à criança recém-nascida. Queria dizer que logo estariam em casa, mas as palavras escorriam pela boca junto à saliva. O descontrole tomava conta da mulher. Tudo estava denso. Pesado. Respiração lenta.

O menino estava distante. Fugia de seus toques. Logo, seria homem. Antes, quase-quase homem. E bonito. Grande e forte, era assim que tentava imaginá-lo. E seria pai. Primeiro, um quase pai. Depois, seria avô. Seria pleno. Seria o reflexo dela em todos os rostos. Sua fiel representação e protetor de sua memória. Seria o que quisesse. Seria o que ela quase foi. Curumim.

“Fique em paz, meu filho. Cuide-se. Por ti. Cuide-se por mim.”

 

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O homem e o mar — Atafona de dentro do Atlântico

Nadinho 1
Sobre as águas azuis do oceano, o “Paleta de Ouro” recebe visita (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Atafona vista do Atlântico (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona vista do mar barrento já próximo da foz (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

O pescador se chamava Nadinho. Alto, ombros largos, alourado, pele clara curtida de sol, era um muxuango descrito por Alberto Lamego em “O homem e a restinga”. Levava os genes de corsários holandeses e ingleses que, em passado remoto, teriam encalhado próximos à foz do rio Paraíba do Sul.

No vingar desse sangue europeu setentrional pelas gerações, mesmo misturado ao de portugueses, negros e índios, a Ilha da Convivência passaria a ser também conhecida como “Ilha dos Olhos Azuis”. Foi nela que Nadinho nasceu e aos 10 anos aprendeu a pescar com o pai, Arnaldo — que lhe deu nome, repetido depois no neto, e ofício.

Às 4 da manhã, na escuridão do inverno antes do sábado nascer, o pescador levava passageiro ao navegar mais uma vez pela foz do Paraíba rumo ao Atlântico, na lida à qual se acostumou com menos companhia:

— Só eu e Deus! E quem está com Deus, não está sozinho!

Nadinho conduzia com segurança a roda do leme do “Paleta de Ouro”, dentro da cabine do barco de madeira de 11,2 metros, homônimo a um barco antigo do pai — como o filho era deste. O passageiro, atrás da cabine, olhava sobre esta e a proa para o oceano enegrecido de noite. Sentia na face o vento frio e úmido, enquanto aferia a linha do horizonte pelas luzes dos barcos saídos antes.

Com mar muito mexido a partir da pororoca — gerúndio em tupi do verbo estrondar — na boca da foz, as ondas grandes eram literalmente surfadas, uma a uma, com habilidade, pelo condutor do barco. Com um passado de intimidade com Iemanjá, o passageiro foi salgado no presente pela onda que lhe molhou a face e a máquina fotográfica pendurada ao pescoço.

Sentou-se na entrada da cabine e abriu o casaco impermeável para expor a malha de algodão da blusa. Enquanto limpava com ela a câmera, seus olhos agora voltados à popa fotografavam as aparições do dorso negro das grandes ondas deixadas para trás. Eram desveladas por instantes no contraste com as luzes do continente, que se distanciavam lentamente no mesmo sentido.

Após uma hora e 10 minutos surfando ondas, chegaram num ponto para pesca de peroá (Balistes capriscus) conhecido de Nadinho, como se fosse qualquer outro lugar de terra em Atafona. Jogou a âncora de 20 kg, cuja corda revelou a profundidade de 10 metros.

Antes do dia nascer, lançadas da popa, já estavam nas águas ainda escuras três linhas de nylon 0,100 mm, cada uma com doze anzóis, seis de cada lado. Espetados neles eram intercalados metades de siris, como engodo para atrair os peroás, e camarões, aos quais os peixes morderiam para iniciar uma luta de vida e morte contra a fisga trespassada à própria boca.

Nos dois cantos extremos da popa, iam linhas cujas boias de garrafa pet, pela forma e função, lembravam os barris arpoados ao aterrorizante grande peixe do filme “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg. Do lado direito do “Paleta de Ouro”, na altura da porta traseira da sua cabine, ia mais uma linha de fundo.

Quando o sol nasceu, parido pelo mesmo horizonte em que pescador e seu passageiro balançavam como crianças impotentes no berço, se deram a ver, algumas centenas de metros adiante, dois grandes cargueiros dos mares do mundo. Ancorados, esperavam a vez para se abastecerem de minério de ferro no Porto do Açu.

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Algumas centenas de metros adiante, após as aves marinhas, os cargueiros do mundo (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Com o dia, vieram os primeiros peroás negros, embora apresentem cor cinza. O pescador explica que, embora ele próprio goste mais do sabor da carne destes, não são tão valorizados quanto os azuis e geralmente mais graúdos peroás do leste.

A maioria dos peixes era puxada do mar pela linha com boia da esquerda:

— Nunca que vou entender isso. Como pode com a linha do lado da outra, uma pegar tanto peixe e a outra não? — questionou Nadinho.

— Vai ver os peroás gostam mais de guaraná Tobi do que de Coca-Cola! — brincou o passageiro, em referência ao rótulo que ainda sobrevivia na garrafa pet verde da sortuda linha canhota, em contraste com a similar de plástico transparente e tampa vermelha, sinalizando como boia o azar da direita.

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Linha sortuda da esquerda com cinco peroás fisgados de vez (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Enquanto os peroás eram fisgados, às vezes cinco na mesma linha, o passageiro não pôde deixar de notar o constrangedor contraste entre sua própria movimentação dentro do barco e a do pescador. Enquanto o primeiro só conseguia caminhar, ao balanço das ondas, se apoiando com as mãos, Nadinho o fazia com tanta naturalidade dos passos, equilíbrio do tronco e liberdade dos punhos, que lembrava um pugilista de maturidade técnica dentro do ringue.

Embora os peróas compusessem a grande maioria do pescado que foi enchendo as caixas de frigorífico, dois baiacus arara (Lagocephalus laevigatus) também foram capturados. Um deles após cortar a tal linha esquerda e arrancar com suas poderosas mandíbulas o lombo de um xarelete (Caranx hippos) fisgado ao anzol.

Após limpar o baiacu arara, separando sua parte comestível da cabeça e vísceras, Nadinho exibe na mão esquerda a glândula venenosa de cor verde que, se cortada, envenena a carne do peixe (Foto : Aluysio Abreu Barbosa)

Por experiência própria, o passageiro já sabia que aquela espécie de baiacu era não só comestível, desde que corretamente limpo, como delicioso. Conhecimento que Nadinho acresceu da malandragem de pescador:

— Tem dono de peixaria que compra baiacu e vende em posta, dizendo ser garoupa (Epinephelus marginatus), porque têm a mesma carne branca. A nós, não conseguem enganar. Mas para quem não conhece direito…

Entre um peroá e outro, sobrou espaço para o pescador falar sobre sua experiência com outro tipo de vida marinha. Do peixe mais temido do mar, disse que nunca cruzou com um tubarão branco (Carcharodon carcharias), personagem do filme de Spielberg.

Mas, com malhão (rede de malha larga, para prender peixes maiores), já pescou outras espécies de tubarão bastante agressivas, como o cabeça chata (Carcharhinus leucas), responsável pelo maior número de ataques a seres humanos no litoral brasileiro, e o tigre ou tintureira (Galeocerdo cuvier).

Da última espécie, lembra já ter pescado um tubarão tigre que deu 198 kg depois de limpo:

— Mas foi até difícil de vender, porque o tintureira não tem a carne boa — ressalvou, ao esclarecer que a maior parte do cação vendido em Atafona vem daquele que ele e os demais pescadores chamam de “torce torce” (pelo hábito de rodar sobre seu eixo quando capturado, como todo tubarão), também conhecido como caçonete (Mustelus norrisi).

Nadinho cabine
Com a mão na roda do leme e o corpo para fora da cabine, Nadinho conduz o “Paleta de Ouro” na reentrada pela foz do Paraíba (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Uma história violenta com tubarões foi vivida não por Nadinho, mas por um primo que é seu vizinho no Pontal de Atafona, para onde se mudou ao sair da Convivência, há quase 30 anos:

— Uns 10 anos depois, meu primo, o Genilto estava recolhendo uma rede mijuada (ancorada). Um cação marimbondo (Lamna nasus, conhecido como marracho), que eles já tinham recolhido, estava no chão do barco. Quando ele cruzou na frente, o cação deu o bote e arrancou a barriga da perna dele. Quando abriram o bicho, acharam o pedaço da perna dentro do seu bucho. E Genilto ficou com aquela roda pra dentro da perna.

Já com o maior de todos os peixes, o encontro foi pacífico. Apesar de atingir até 20 metros e 13 toneladas, o dócil tubarão baleia (Rhincodon typus) se alimenta só de plâncton (microorganismos) e outros invertebrados, que filtra na água com sua boca imensa, enquanto nada lentamente:

Nadinho limpa alguns dos peroás maiores ainda dentro do barco (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Nadinho limpa alguns dos peroás maiores ainda dentro do barco (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

— Estava no “Paleta de Ouro”, mais dois companheiros, pescando de caída (rede para peixes que fica flutuando ao sabor da corrente marinha), no mar de Quissamã. Ele era um pouco maior que o barco (11,2 m). Devia ter uns 12 metros. Nadava devagar, com as costas todas pintadas de branco (característica do dorso do animal). Um amigo encostou nele com o bicheiro (haste com um anzol grande na ponta, usado para ajudar a trazer os peixes ao barcos) e ele afundou.

Foi também no seu próprio barco que Nadinho encontrou os maiores seres do mar, as baleias de verdade, mamíferos, não peixes, que costumam aparecer no litoral de Atafona nos meses invernais de junho e julho. Um desses encontros, poderia ser narrado nas páginas de “Moby Dick” (1851), clássico romance de Herman Melville (1819/91):

— Estava com mais dois companheiros, pescando de malhão. De repente uma baleia se embolou na rede e começou a puxá-la, arrastando o “Paleta de Ouro” com se fosse um barco de papel. Durou cinco minutos, mas foi muita tensão. Acho que elas nem sabem a força que têm. Aí, quando íamos cortar a corda da rede, para nos soltar, a baleia pocou ela.

Entre histórias do mar, seus homens e outros seres, três caixas de frigorífico foram cheias, cada uma com 25 kg de pescado. Vendida por R$ 3 o quilo para os frigoríficos, chegam ao consumidor final, nas peixarias de Atafona, a R$ 9; ou R$ 10, no Mercado de Campos. R$ 225 pelas três caixas de peixe, menos R$ 100 do diesel e das iscas, dão um lucro líquido como o mar — mas bem menor — de R$ 125.

 

Cara-ventos de Gargaú nascem na parte direita da proa (Foto; Aluysio Abreu Barbosa)
Cara-ventos de Gargaú florescem entre céu e mar, à direita da proa (Foto; Aluysio Abreu Barbosa)

 

Foi o que deu, até por volta das 14h, quando os peroás pararam de bater, mesmo na linha sortuda da esquerda, da boia verde de guaraná Tobi. Após Nadinho recolher linhas e âncora, com mar bem mais calmo, o retorno durou 40 minutos. Cada segundo deles na proa, a ver nascerem e crescerem lentamente no horizonte os cata-ventos da usina eólica de Gargaú, à direita, e Atafona, à esquerda, com suas ruínas e casuarinas.

Num cenário tão íntimo ao pescador, o passageiro viu pela primeira vez a foz do Paraíba e seu litoral de dentro do Atlântico. Era fisgada para desaguar a vida inteira.

 

Nadinho Atafona 1
No caminho de volta, Atafona nasce à esquerda do horizonte (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

 

Página 5 da edição de hoje (14) da Folha
Página 5 da edição de hoje (14) da Folha

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

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Paula Vigneron — O escritor e a ficção

 

Ruínas de Atafona, 06/01/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Ruínas de Atafona, 06/01/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

O escritor brinca de Deus a cada palavra escrita, a cada frase formada, a cada texto acabado. Em prosas inacabadas. Em páginas perdidas. E isso tem a ver com a sua impotência diante de seu próprio destino. A incapacidade de, em certos momentos, traçar os caminhos. Suas vontades, por vezes frustradas, são refletidas nas ações e reações dos personagens. Os sonhos esquecidos, deixados para um depois que nunca chega, são realizados na ficção. É uma maneira de alcançar a sensação de plenitude. Irreal, sim, mas trazida para a vida como se dela fizesse parte.

O autor se transfigura e figura como Destino. Com “dê” maiúsculo. Personagem que ninguém vê ou ouve, mas que também está ali, presente nas narrativas. E, nesse momento, o escritor se torna parte de sua invenção. Escolhe os caminhos a partir do que gostaria de viver. Deixa as palavras fluírem por seus dedos, enquanto a emoção e a razão, cansadas da monotonia, se unem e constroem uma história que, por vezes, o autor gostaria que fosse a sua.

Quantos personagens largaram suas vidas em busca de algo que julgaram que lhes fosse dar prazer? Quantos finais de possíveis tragédias deram lugar à felicidade, nunca imaginada por aqueles que acompanharam a obra? Quanta coragem carrega um ser humano na ficção? Faz-se isso, afinal, para anestesiar o cansaço; os momentos de luta por causas vãs; o arrependimento de deixar para depois e perder; o não poder escolher livremente o caminho e se livrar de amarras invisíveis. Para trazer paz às mentes fragilizadas pelo cotidiano.

O escritor não escreve para o público. Ele escreve para si. Para acalmar seus conflitos. Cria universos, pessoas, histórias, sentimentos e vidas para dar vazão aos mais complexos sentimentos. Desliza os dedos sobre os teclados para não se descontrolar e perder a razão em nome da emoção. Inventa para alimentar a sua alma, carente de novidades e prazeres. Abre mão da racionalidade e se entrega à sensibilidade por meio de um mergulho na ficção para suprir o vazio causado pela não-ficção. Dá aos personagens rumos que não podem ser os de sua realidade.

O autor, ao final de mais uma história, é forçado a retomar as demais atividades a que se dedica, deixando de lado o exercício de criação. Contudo, outras narrativas invadem a sua cabeça para lembrar-lhe que a vida no mundo real continua, mas a ficção estará ao seu lado, pronta para entrar em cena quando o cotidiano se tornar denso e mecânico. Quando a sensibilidade estiver prestes a escapar. A ficção diz, com cumplicidade característica, que estará pronta a abraçá-lo e oferecer-lhe outras vidas para refazer seus próprios caminhos.

 

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