Sete balas, 32 contos — Paula Vigneron lança livro hoje no Sinasefe

Aos 22 anos, Paula Vigneron lança hoje seu primeiro livro, com contos que escreve desde os 15 (foto de Tércio Teixeira - Folha da Manhã)
Aos 22 anos, Paula Vigneron lança hoje seu primeiro livro, com contos que escreve desde os 15 (foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

 

Sete balas ao luarPor Aluysio Abreu Barbosa

 

“Compartilhando segredos, aventuras, paixões tão passageiras quanto um sopro de vento”. Desde o seu primeiro conto, “Solidão”, escrito por uma adolescente de 15 anos, Paula Vigneron impressiona pela maturidade da prosa ao compor o prefácio que não há para o seu livro de estreia, cujo lançamento com noite de autógrafos acontece hoje, às 20h, no Espaço Cultural Fulinaíma do Sinasefe, na rua Álvaro Tâmega, nº 132, Centro. Reunidos em ordem não cronológica pela editora carioca Autografia, são 32 contos escritos entre 2008 e 2015, fechados com aquele que, pela força do título, a autora escolheu para batizar também seu livro: “Sete balas ao luar”.

Jornalista e crítica de cinema, lidas desenvolvidas como ramos da mesma raiz de escritora em semeadura precoce, Paula apresenta muitas influências em seus contos; e não só literárias. Do cinema, por exemplo, a jovem escritora assumidamente ecoa do sueco Ingmar Bergman (1918/2007) e do estadunidense Woody Allen — o diretor de drama, não o comediante — alguns questionamentos existenciais primários da humanidade: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Quanto tempo tenho? Que diabos estou fazendo aqui?

Com a cara de Woody Allen impressa às máscaras opostas (e complementares) da comédia e da tragédia, é esta segunda o alvo dos disparos de “Sete balas ao luar” — inclusive no conto que dá nome ao livro, ambientado no sertão de Sergipe, com as bênçãos de “São Lampião”. Quase sempre ácido, algumas vezes mórbido, há humor aqui e ali. Mas é a realidade na qual Virgulino Ferreira da Silva foi executado a tiros que prevalece na ficção de vida e morte de Zé do Cangaço:

— Segurou, novamente, as munições que trazia em seu bolso. Pediu a Lampião que não precisasse usá-las contra si na tentativa desesperada de calar os gritos interiores (…) Ao seu lado, colocaram a sua carabina e sete balas, em forma de cruz, para protegê-lo nas noites de luar.

E mesmo “lá para as terras do Sudeste”, onde “a forte estiagem havia atingido a todos, independente de classe e cor”, a coisa não parece não independer tanto assim. Algumas páginas antes, em cenário talvez familiar aos campistas, um menino de rua se levanta e deita no papelão, “seu companheiro de dias e noites assustadoras”, para encarnar o “Invisível” dentro de uma sociedade que desfila sua ânsia de consumo no “calçadão do Centro da cidade” — qual seria?

Se o final feliz passa longe das histórias de fôlego curto e pegadas fundas de Paula Vigneron, a leveza bate ponto em seu processo de criação, quase sempre emprenhado de música. Da MPB de Chico Buarque, Elis Regina e Milton Nascimento ao suingue jazzístico de Frank Sinatra. Este, aliás, conhecido como “A Voz”, tem a sua vencendo o limite entre realidade e ficção ao entoar “The way you look tonight”, no conto “A primeira dança”.

Além de inspiração, quem também dá as caras como personagem é Woody Allen. O cineasta novaiorquino faz uma ponta no conto “1975”, quando pisca à protagonista atônita. Vinda de uma viagem no tempo e no espaço para uma Manhattan imaginária, ela baila sem respostas ao som de “Cause I was Born to the blue”, após ser convencida pelo conselho do seu par:

— Pare de se questionar, querida. Você pensa muito. Sinta mais e reflita menos.

Recurso utilizado desde o primeiro conto adolescente, a narrativa retroativa em flashback bate ponto em boa parte do livro. A partir dela, um passado geralmente mais feliz é contraposto ao presente de desencanto, causado por alguma perda ou traição, algum tipo de tragédia humana quase sempre fadada a gerar outra, tão grave ou mais, ao final. E, única certeza da vida, a morte parece estar à espreita nas esquinas dos parágrafos.

Todavia, no lugar de ponto final, é posta a possibilidade de (re)começo. Em “Condenados”, terror e humor negro se misturam numa história deliciosa de voyeurismo e vendeta:

— Sem dúvida, a vingança é um prato que se come frio. Frio, assim como meu corpo inerte que, agora, apodrecia sob a terra (…) Permaneceríamos juntos como juráramos diante do padre quando nos casamos. Na alegria e na tristeza. Na saúde e na doença. Na riqueza e na pobreza. Mas nem a morte nos separa.

Em alguns contos, personagens e autora parecem unidos por laços semelhantes. Em “Ilhas”, difícil não pescar algo de autobiográfico na Marina, em quem Fábio acaba por fim acreditando ter “deixado marcas nas terras quase intocáveis em que a doce garota estava escondida e isolada pelas águas furiosas que a atormentavam”.

Neste istmo capaz de transformar qualquer ilha em península, ligando-o a outra ilha ou ao continente, também é possível avistar a prosista real refletida no fictício escritor Daniel, na maré baixa do conto “Comunhão literária”:

— As palavras eram suas companheiras. Refugiava-se nelas para encontrar o destino que lhe cabia (…) acreditava na independência delas e suas ações. O rapaz, no fundo, era guiado pelas letras (…) Comovia-se com a dor do outro, que passava a ser sua até conseguir transformá-la em palavras.

Do lado de cá das páginas, a moça também!

 

Folha Letras de hoje, na contracapa da Folha Dois
Folha Letras de hoje, na contracapa da Folha Dois

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

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Poema do domingo — As meninas de Adriana

Conheci Adriana Medeiros, se não me falha a memória, no FestCampos de Poesia Falada de 2004. Eu era jurado e ela concorria com dois poemas, defendendo-os com brilho como intérprete. Nunca lhe disse, mas me impressionei à primeira vista com sua intensidade dramática, com aquele desabrir uterino com jeito de coisa casual, oximoro refletido também em seus versos. Se foi eleita, com endosso do meu voto, a melhor intérprete daquele festival, ela perpetraria a façanha de vencer como poeta outras duas edições: de 2006, com “Descobrimento de mim”, e de 2009, com “Imagens e versos”.

Falando aqui sobre Castro Alves (1847/71), nosso maior romântico e para quem o ritmo era o “talismã da verdadeira poesia”, disse que via em Campos dois poetas reverberados ao eco da mesma oralidade, tão egressa dos palcos quanto Apolo e Dionísio: Antonio Roberto Kapi e Artur Gomes. E tenho dito!

 

“La hamaca” (1956), óleo e têmpera sobre tela de Diego Rivera (1886/1957)
“La hamaca” (1956), óleo e têmpera sobre tela de Diego Rivera (1886/1957) – foto de Aluysio Abreu Barbosa

 

“La hamaca” (1956), óleo e têmpera sobre tela de Diego Rivera (1886/1957)
“La hamaca” (1956), óleo e têmpera sobre tela de Diego Rivera (1886/1957) – foto de Aluysio Abreu Barbosa

 

As Meninas

 

Como quem

Convém a dois

Estavam as duas

Quase nuas

Em primícias

De carícias

Estavam elas

Duas e uma

Completamente

Ausentes

Pareciam únicas

As meninas

Douradas

Escancaradas

Sem vergonha

De serem

Inocentes

Como convém

A Deus.

Era um recreio

Meninos empinavam

Suas pipas

Como quem só queria

o céu

E elas estão… lá

Elas… como nuvens

Que no céu flutuam

Estacionando

Nos desejos do meu

Emblema

O que significa

Farme em Ipanema

As meninas juntas

Eram a minha

Incapacidade

De lhes escrever

Um digno poema.

 

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Poema do domingo — Antonio Roberto Kapi

Kapi 5
(Foto de César Ferreira)

 

 

ACENOS

 

Quem parte

deixa saudade,

deixa acenos,

esquece livros.

Deixa tolhido

um mundo de desejos,

vida desarrumada

e a gente sem prumos.

Quem fica

fica de lembranças,

fica mais criança,

fica solidão.

Quem parte,

parte inteiramente,

parte de repente

sem um avisar.

Quem fica

fica de inocente

regando as sementes

de um tal regressar.

Quem fica

fica sem despedida

fica sem guarida

e morre um pouco em vida

pois quem parte

parte corações

mata as ilusões

e parte.

 

Kapi, Antonio Roberto. “Manual da criação de ratos”, com Eloah Marconi de Souza, edição de Carlos Araújo, Edições Clarear (1984), pág. 18

 

 

 

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Um beijo pelo dia

“La columna rota” (1944), óleo de Frida Kahlo (1907/54) — Museu Dolores Olmedo
“La columna rota” (1944), óleo de Frida Kahlo (1907/54) — Museu Dolores Olmedo (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

No meu primeiro poema feito para uma mulher, lá se vão quase 20 anos, quando para mim elas ainda eram menos carne que imaginação, o desejo do melhor dos dias a todas…

 

beijo

 

beijo beijado na mente mil vezes

em década de desejo resignado

consumado quando menos se espera

sem saber se de alô ou adeus

sem certeza ou finalidade

apenas línguas roçando nervosas

como pipas cruzando no espaço

 

campos, 12/01/96

 

 

 

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Do meu amor

Poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920/99)
Poeta e diplomata João Cabral de Melo Neto (1920/99)

Os três mal amados

Por João Cabral de Melo Neto

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

Ícaro na ágora
Ícaro Abreu Barbosa, em julho de 2009, na ágora de Atenas

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés.  Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

 

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Manoel de Barros voou passarinho ao reino da despalavra

 

Poeta Manoel de Barros (1916/2014)

 

 

O fotógrafo

 

Difícil fotografar o silêncio.

Entretanto tentei. Eu conto:

Madrugada a minha aldeia estava morta.

Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.

Eu estava saindo de uma festa.

Eram quase quatro da manhã.

Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.

Preparei minha máquina.

O silêncio era um carregador?

Fotografei esse carregador.

Tive outras visões naquela madrugada.

Preparei minha máquina de novo.

Tinha um perfume de jasmim num beiral de um sobrado.

Fotografei o perfume.

Vi uma lesma pregada mais na existência do que na pedra.

Fotografei a existência dela.

Vi ainda azul-perdão no olho de um mendigo.

Fotografei o perdão.

Vi um paisagem velha a desabar sobre uma casa.

Fotografei o sobre.

Foi difícil fotografar o sobre.

Por fim cheguei a Nuvem de calça.

Representou pra mim que ela andava na aldeia de braços com Maiakóvski — seu criador.

Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.

Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa mais justa para cobrir sua noiva.

A foto saiu legal.

 

Este foi o primeiro poema de Manoel de Barros que li, pertencente ao livro que de certa forma batizou, “Ensaios fotográficos”, de 2000. E é até hoje o que mais gosto, considerando-o entre os mais belos já produzidos por qualquer língua que, no eco a Caetano, já tenha roçado à de Luís de Camões. A de Manoel deixou de bater-lhe ao palato na manhã de hoje, aos 97 anos, em Campo Grande, capital do seu Mato Grosso do Sul. Mas como observou outro poeta, o campista Adriano Moura: “nossa sorte é que voz poética não se cala”.

De qualquer maneira, é curiosa essa sensação doída de perda, como de um amigo ou parente, esses olhos infiltrados e a garganta árida pela perda de alguém cujo conhecimento pessoal nunca excedeu a leitura dos versos. Uso a inutilidade dos meus para me despedir de quem tanto os influenciou e que agora, finalmente, atingiu apenas o “reino das imagens, o reino da despalavra”. Vá com Deus, em seu sopro no vento, poeta! Muito obrigado por tudo!

 

ladrões

 

o vento entrou pela janela

parecia ladrão o vento

trazia os cheiros roubados de outro lugar

de um tempo que já não existia

dissimulado, ele assobiava

 

flagrei o vento, que se assustou

quis reagir, bateu a porta

mas roubei para mim seus cheiros

que guardei entre duas folhas de um livro

e a chuva que caiu benzeu perdão

 

cambuci, 28/05/2000

 

Para quem já conhece a obra manoelina, mas pode sabê-la melhor, ou para quem não conhece, mas deveria, invista uma hora e 21 minutos da sua vida no excelente documentário “Só dez por cento é mentira”, com direção e roteiro do Paulo Cezar, a quem devemos essa necessária desbiografia oficial do poeta, exibida e debatida em Campos pela jornalista e produtora cultural Luciana Portinho, no Cineclube Goitacá, em 14 de maio deste ano (aqui):

 

 

Amanhã, confira a matéria sobre a vida e a obra de Manoel, na visão de poetas e literatos campistas, na Folha imprensa e online, em matéria da jornalista e também escritora Paula Vigneron.

 

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Artigo do domingo — Lágrimas na chuva

 

“Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?

Será essa, se alguém a escrever,

A verdadeira história da humanidade”

 

(Álvaro de Campos/ Fernando Pessoa)

 

 

“Vi coisas que vocês nem imaginariam.

Vi naves em fogo na encosta de Orion.

Vi raios cósmicos cingindo o espaço em Tanhauser Gate.

E esses momentos ficarão perdidos para sempre…

como lágrimas na chuva!”

 

(Do filme “Blade Runner”)

 

Heróis do meu pai: Em pé: Barbosa, Augusto, Danilo, Juvenal, Bauer e Bigode; agachados: Friaça, Zizinho, Ademir Menezes, Jair Rosa Pinto, Chico e o massagista Mário Américo
Heróis do meu pai: Em pé: Barbosa, Augusto, Danilo, Juvenal, Bauer e Bigode; agachados: Friaça, Zizinho, Ademir Menezes, Jair Rosa Pinto, Chico e o massagista Mário Américo

 

Sou filho de um adolescente de 14 anos, cuja grande frustração foi não ter ido, junto com seu pai e irmão mais velho, à final da Copa de 50, em 16 de julho, no recém-inaugurado Maracanã. Daqui de Campos, pelo rádio, o garoto (?) vibrou com o primeiro gol do jogo, de Friaça, que certamente abriria a contagem para mais uma goleada, igual a dos dois últimos jogos — 7 a 1 sobre a Suécia, campeã olímpica de 48, e 6 a 1 diante da Espanha, quando um coro demais de 200 mil pessoas cantava “Touradas de Madri” das arquibancadas.

O belo gol, emendando de primeira, de Juan Alberto Schiaffino — cracaço da Celeste Olímpica, integrante da lista oficial dos dez maiores camisa 10 que o mundo já viu, mesmo 50 anos após sua maior conquista — fez com que meu velho (?) e toda uma nação despencassem de nuvens soberbas com a cara no chão, passando a torcer como doidos pelo empate que garantiria o título. Dez minutos mais tarde, aos 34 do segundo tempo, após uma arrancada pela direita, veio aquele chute fatal de Ghiggia, quase sem ângulo, entre Barbosa e a trave, selando a história que todo brasileiro já ouviu falar e que os uruguaios, chamando-a “Maracanazzo”, até hoje se ufanam ao contar.

Com a dimensão, desde muito novo, desse fantasma do imaginário nacional, “tragédia maior que a de Canudos”, nas palavras de Nelson Rodrigues, me interessei pela história até esgotar as narrações de meu pai. Além, passei a ler o que me caísse à mão sobre aquele grande time marcado pela fatalidade. Tomei ciência, por exemplo, de que nosso scratch — para usar um anglicismo recorrente à crônica da época — era regido por um meia direita que a crítica internacional, aqui presente pela Copa, elegeu como jogador mais completo que já havia surgido no mundo até então: Zizinho, o Mestre Ziza.

E olha que naquela Copa ainda jogaram, além de Schiaffino, craques do porte dos também uruguaios Alcides Ghiggia e Julio Perez, do iugoslavo  Rajko Mitic, do inglês Stanley Matthews, além dos próprios brasileiros Jair Rosa Pinto, Ademir Menezes, Danilo e Bauer. Como disse nosso tacanho Felipão e o Fernando Calazans vive satirizando em sua coluna: eram aqueles (bons) tempos em que se amarrava cachorro com linguiça.

Quando Péris Ribeiro, amigo daquele adolescente de 50, lançou seu “O Brasil e as Copas”, em 86, me presenteou, além dele, com um livro sobre a vida do Mestre Ziza, cujo título e autor não recordo, pois fiz a besteira de depois emprestá-lo. O primeiro livro me deu a base histórica de todo deslumbramento que colhi em 82, nos injustos gramados de Espanha, com Zico, Sócrates, Falcão, Leandro, Júnior, Luisinho, Cerezzo e cia. — “Maracanazzo” da minha geração. Já o segundo, me proporcionou a dimensão completa daquele grande mestre do futebol de que tanto ouvira falar.

Além da tragédia épica de 50, descobri ter sido Zizinho o grande ídolo de Pelé e, muito mais importante, herói da primeira grande conquista de meu time, construída ao lado de gente como Domingos da Guia, Jurandir, Biguá, Valido e Vevé: o tri estadual do Flamengo de 42/43/44. Vendido ao Bangu numa dessas imutáveis sacanagens dos cartolas, foi depois, já velho, jogar pelo São Paulo, ao qual conduziu ao título estadual de 57.

Algum tempo depois, quando Péris lançou seu “Didi, o gênio da folha seca”, em 93, numa livraria do Leblon, fui ao Rio prestigiar o amigo. Comigo foram Luiz Costa — que cobriu o evento pela Folha — e Adelfran Lacerda, todos conduzidos pelo hábil volante de (de carro) Leonardo Moreira. Pegando chuva desde Rio Bonito, chegamos ao Rio e paramos em Copacabana, para apanhar Christiano, meu irmão, então estudante universitário da PUC/RJ.

Ouvindo as impagáveis histórias de Leonardo, fui durante a viagem me preparando psicologicamente para o encontro cara a cara com o campista Didi, maior jogador da Copa de 58, na Suécia, nosso primeiro Mundial; bicampeão pela Seleção, em 62, no Chile; e, não fosse mais nada, herdeiro de Mestre Ziza. Aí eu entro na livraria e vejo não só Didi, mas também Ademir Menezes, Jair da Rosa Pinto, Nilton Santos, Vavá, Belini, Gerson, Afonsinho e… Zizinho.

Num dos poucos momentos em que despertei do meio transe no qual permaneci durante quase todo o coquetel, em meio a todos aqueles semi-deuses da bola, vi Luiz Costa indagar a Zizinho: “Você foi tido em sua época como o maior jogador do mundo e muitas pessoas hoje não têm essa dimensão. A que credita isso?”.

Ele respondeu: “O Brasil não sabe preservar sua história. Os jovens de hoje só querem saber de ouvir música americana no rádio e ver televisão. E eu não joguei na época da televisão!”.

A amargura do ídolo entrou pelo meu ouvido e ficou como fel salivando na boca. Talvez por isso não tenha tirado os olhos dele até que saísse do evento, acompanhado da esposa. Passaram pela porta, e, enquanto ela abria a sombrinha para protegê-los da chuva, enfrentei a timidez, saí também, me dirigi a eles e gritei: “Zizinho!”

Ele se virou. Eu disse: “Ouvi o que você falou lá dentro para o repórter. Pois eu sou jovem, gosto de música americana, mas ouvi e li muito sobre você. Você foi o melhor do mundo, jogou no meu time e foi campeão por ele. Nunca te vi jogar, mas você é um dos meus ídolos no futebol”.

Em meio à chuva fina, olhos marejaram e sorrisos se revelaram. Nos demos as mãos e o cumprimento virou um abraço. Após, ele deu um tapinha paternal na minha face e disse: “Valeu, garoto!”. Virou-se pela última vez, se abraçou à mulher, que também sorria com olhos infiltrados, e juntos saíram pela noite chuvosa, caminhando com a mesma classe que sempre atribuí, em minha imaginação, às suas passadas nos campos.

O Mestre morreu, mas nunca vou esquecer essa tabela que a vida nos deu.

 

(Publicado na edição de 17/02/2002 da Folha da Manhã, nove dias após a morte do Mestre Ziza)

 

Republicado hoje na edição impressa da Folha

 

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Seleção não aguentou a pressão da “pátria de chuteiras”, nem da Alemanha

 

(Capa da edição de hoje da Folha, com edição de Rodrigo Gonçalves, foto de Valmir Oliveira, concepção gráfica de Aluysio Abreu Barbosa e diagramação de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Ontem, desde o apito final do árbitro mexicano Marco Rodríguez, começou uma nova Copa do Mundo no Brasil. De um lado, entre os que acham entender de futebol, para ver quem mais repete: “Eu avisei!”. Do outro, entre quem não entende nada, mas ainda pensa tirar proveito político da maior tragédia da história do futebol brasileiro, a disputa será para saber quem mais ecoa: “Fizemos a Copa das Copas, só faltou time!”.

O fato é que na maior goleada sofrida pela Seleção Brasileira em 100 anos, a Alemanha massacrou o Brasil por 7 a 1, ontem, no Mineirão. E o mais triste talvez tenha sido assistir a uma geração de jogadores tão comprometida não ter forças para reagir à pressão do clima de “pátria de chuteiras”, no qual foi envolvida desde o início da campanha, assim como foi ontem por um futebol baseado no toque de bola, que já foi nosso, mas mudou de pátria há alguns anos e foi ditado diante do mundo em fluente alemão.

Antes da semifinal de ontem, os três gols até então sofridos pela Alemanha da Copa haviam saído pelo lado esquerdo da sua defesa, onde o zagueiro Benedikt Höwedes atuava improvisado como lateral. Por isso a crônica esportiva foi quase unânime ao saudar a coragem de Felipão quando, depois de mistério nas escalações dos dois times, uma hora antes do jogo foi anunciado que quem entraria na vaga de Neymar seria o jovem Bernard, justamente para jogar no lado direito do ataque brasileiro — e envergando a camisa 20, a mesma usada pelo campista Amarildo para entrar no lugar de Pelé e ajudar na conquista da Copa de 1962. Por outro lado, o técnico alemão Joachim Löw, além de Höwedes na esquerda, confirmou a escalação do veterano centroavante Miroslav Klose, de 36 anos, no comando do ataque germânico, numa formação mais conservadora.

 

Primeiro gol da Alemanha, marcado por Thomas Müller, que surgiu sozinho na área brasileira
Primeiro gol da Alemanha, marcado por Thomas Müller, que surgiu sozinho na área brasileira

 

Marcada desde a Copa das Confederações, vencida em 2013 pela pressão no campo adversário nos minutos iniciais, a esperança de que a coragem brasileira surtisse resultado durou exatamente 10 minutos. Foi quando Marcelo perdeu a bola na ponta esquerda e gerou um contra-ataque rápido com Sami Khedira e Thomas Müller, que acabou em escanteio. Grande nome do jogo, o meia Toni Kroos bateu pela direita e Müller apareceu sozinho dentro da área para abrir o placar, num erro de toda a defesa brasileira, mas sobretudo de David Luiz que marcou a bola.

Mas o pior estaria porvir…

 

Aos 36 anos, Klose marcou o segundo gol da Alemanha, se tornando o maior artilheiro na história das Copas, com 16
Aos 36 anos, Klose marcou o segundo gol da Alemanha, se tornando o maior artilheiro na história das Copas, com 16

 

Dos 21 aos 27 minutos, num espaço de apenas seis, a até então sólida defesa brasileira tomaria nada menos que outros quatro gols. Aos 21, Fernandinho furou uma bola na entrada da área, que sobrou para Kross achar Müller dentro da área. Ele serviu a Klose, que chutou à defesa parcial de Júlio César, mas pegou a sobra para fazer o segundo gol alemão no jogo e seu na Copa, chegando aos 16 marcados em todos os Mundiais, deixando para trás o recorde de Ronaldo.

 

Nome do jogo, o meia Kroos comemora seu primeiro gol, o terceiro da Alemanha
Nome do jogo, o meia Kroos comemora seu primeiro gol, o terceiro da Alemanha

 

Aos 23, o meia Mezut Özil enfiou o lateral Philipp Lahm no apoio, que cruzou da ponta direita. Novamente solto dentro da área, Müller furou a bola, mas não Kroos, que bateu no canto direito de Júlio César. Aos 27, novamente Kroos apareceu para roubar a bola de Fernandinho, tabelar com Khedira e receber dentro da área, para bater forte e marcar seu segundo gol no jogo.

 

Após roubar a bola de Fernandinho e tabelar com Khedira, Kroos marcou seu segundo gol, o quarto da Alemanha
Após roubar a bola de Fernandinho e tabelar com Khedira, Kroos marcou seu segundo gol, o quarto da Alemanha

 

Para acabar de fechar a tampa do caixão brasileiro ainda no primeiro tempo, o zagueiro Mats Hummels roubou uma bola na raça e lançou Khedira, que tocou para Ozil dentro da ártea, na direita. Ele devolveu para Khedira marcar totalmente à vontade o quinto gol.

 

Em outra linha de passe alemã, Khedira comemora o quinto gol da Alemanha
Em outra linha de passe alemã, Khedira comemora o quinto gol da Alemanha

 

Diante do quadro praticamente irreversível, alguns torcedores brasileiros começaram a deixar o estádio, enquanto os que ficaram perderam a paciência aos 39, quando começaram a vaiar o Brasil. Até que, no minuto seguinte, ecoou das arquibancadas do Mineirão o mesmo coro ofensivo que gerou tanta polêmica na abertura da Copa, no Itaquerão: “Ei, Dilma, vai tomar no c(…)!”

No segundo tempo, com Ramires e Paulinho nos lugares de Hulk e Fernandinho, o Brasil tentou novamente pressionar, mas esbarrou no goleiro Manuel Neuer. Aos 5, aos 6 a aos 7 minutos, em duas conclusões de Oscar, e em outras duas de Paulinho, na mesma jogada, Neuer faz quatro grandes defesas consecutivas.

Aos 12, substituído pelo atacante André Schürrle, Klose saiu aplaudido por alemães e brasileiros como o maior artilheiro da história das Copas. Em contrapartida, no minuto seguinte, o centroavante brasileiro Fred bateu de fora da área e foi vaiado sonoramente pela torcida, que depois repetiu contra ele o coro da presidente Dilma: “Ei, Fred, vai tomar no c(…)!”. E não ficou sozinho, quando aos 17 o telão do Mineirão mostrou Ronaldo, que assistiu seu recorde ser batido por Klose, enquanto comentava o jogo pela Globo, e também foi vaiado pela torcida.

 

Em respeito ao Brasil, desde o final do primeiro tempo, a Alemanha pareceu querer diminuir o ritmo, mas não Schürrle, que entrou no jogo querendo mostrar serviço, ao marcar o sexto
Em respeito ao Brasil, desde o final do primeiro tempo, a Alemanha pareceu querer diminuir o ritmo, mas não Schürrle, que entrou no jogo querendo mostrar serviço, ao marcar o sexto

 

Dentro do campo, Lahm lançou Khedira pela ponta direita e correu para receber de volta e cruzar para Schürrle marcar o sexto da Alemanha, aos 23. Felipão aproveitou enquanto a torcida ainda tentava contar quantos gols tinha tomado, para tirar Fred, que era tão perseguido pelas vaias da torcida da casa, quanto foi o brasileiro Diego Costa nos três jogos que fez na Copa pela Espanha.

Aos 33, num contra-ataque, Müller cruzou da ponta esquerda. David Luiz, que tentava apoiar o ataque, chegou atrasado na marcação de Schürrle. O alemão dominou dentro da área de perna direita e emendou uma petardo de canhota, no ângulo de Júlio César: Alemanha 7 a 0.

 

Num bomba de canhota, que ainda bateu no travessão antes de entrar, Schürrle fez o seu segundo gol na partida, o sétimo da Alemanha
Num bomba de canhota, que ainda bateu no travessão antes de entrar, Schürrle fez o seu segundo gol na partida, o sétimo da Alemanha

 

Em outro contra-ataque, aos 44, Özil saiu cara a cara com Júlio César, na entrada da área brasileira. O meia alemão tocou com consciência, mas a bola saiu pela linha de fundo, rente à trave. Aos 45, Marcelo lançou Oscar, que recebeu na área, dominou, driblou o zagueiro Jérôme Boateng e bateu na altura da marca do pênalti, sem chance para Neuer. Foi o gol de honra, naquela que pôde existir na maior derrota da Seleção Brasileira em todos os tempos.

 

Depois de levar sete gols da Alemanha, Oscar marcou o gol de honra do Brasil
Depois de levar sete gols da Alemanha, Oscar marcou o gol de honra do Brasil

 

Na dúvida do que será ainda pior, entre ter que assistir a Argentina disputar a final do dia 13 no Maracanã, ou enfrentá-la na disputa pelo terceiro lugar, dia 12, em Brasília, uma certeza: ninguém tem o direito de repetir nessa tragédia do futebol brasileiro o mesmo feito em outra, há 64 anos, com os ex-jogadores Barbosa, Juvenal e Bigode, responsabilizados pela derrota brasileira na final da Copa de 1950. E isso vale tanto para os que rapidamente se converteram no culto de martirização midática de Neymar, quanto para os que cerraram fileiras na “caça às bruxas” virtual contra o lateral colombiano Juan Zúñiga, responsável pela contusão do craque brasileiro numa disputa imprudente.

Nesse mesmo oba-oba patriótico que só surge entre os brasileiros de quatro em quatro anos, todos da crônica esportiva do país da Copa acusados de sofrer de “complexo de vira latas” por apontar críticas táticas e técnicas ao time, ou à maneira como ele tentou ser descaradamente utilizado para fins políticos em ano de eleição presidencial, também não devem ceder à nenhuma pequenez. Nela, dá de goleada a grandeza demonstrada pelo zagueiro David Luiz, símbolo maior desse time, que mesmo sem ter feito grande partida deu sua cara a tapa ainda na saída do campo:

— Eu só queria poder dar uma alegria ao meu povo, à minha gente que sofre em tantas outras coisas. Infelizmente não conseguimos. Desculpa a todo mundo. Desculpa a todos os brasileiros. Eu só queria ver meu povo sorrir. Todo mundo sabe o quanto seria importante para mim ver o Brasil feliz pelo menos por causa do futebol. Eles foram melhores (…) É um dia de muita tristeza, mas de muito aprendizado também (…) Eu, na minha vida, aprendi a ser homem em todos os momentos. Não vou fugir de nada. Vou assumir tudo. E nunca vou desistir. Uma dia ainda vou alegrar esse povo de alguma forma.


No futebol, a primeira coisa a ser assumida diante da belíssima exibição de futebol dada ontem pela Alemanha, que agora fará a final no Maracanã como favorita contra o vencedor entre Argentina e Holanda, não veio de nenhum analista ou cronista esportivo, mas de um torcedor anônimo saindo do Mineirão, entrevistado a esmo por uma das redes de TV que cobriu a partida:

— É até uma vergonha dizer isso, mas o Brasil tinha que ter entrado com mais medo. Não temos mais futebol para enfrentar a Alemanha de igual para igual.

Fora do futebol, entre os muitos outros erros revelados nesta Copa, cada um assuma o que quiser.

 

Súmula Alemanha 7 x 1 Brasil

 

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Escrita do Brasil contra fase da Colômbia por uma vaga à semifinal da Copa

Daniel Alves e Neymar apertam a marcação sobre James Rodríguez, no último jogo entre Brasil e Colômbia, em 15 de novembro de 2012, em Nova Jersey (EUA), que terminou empatado em 1 a 1. Os gols foram de Cuadrado e Neymar, que depois perdeu um pênalti
Daniel Alves e Neymar apertam a marcação sobre James Rodríguez, no último jogo entre Brasil e Colômbia, em 15 de novembro de 2012, em Nova Jersey (EUA), que terminou empatado em 1 a 1. Os gols foram de Cuadrado e Neymar, que depois perdeu um pênalti

 

Os únicos números que ganham um jogo de futebol são aqueles marcados no placar final. No caso de jogo eliminatório, como o que Brasil e Colômbia disputa hoje por uma vaga a semifinal da Copa do Mundo, eles podem ser definidos após os 90 minutos, ou mais 30 de prorrogação ou ainda disputa de pênaltis. Mas antes da bola começar rolar, a partir das 17h, na arena Castelão, em Fortaleza, todos os números indicam um confronto clássico entre uma seleção que atravessa um momento melhor, contra outra de mais tradição e vantagem esmagadora nos confrontos diretos.

Entre os oito times que chegaram às quartas de final deste Mundial, a Colômbia tem o maior número de vitórias (4, junto com a Holanda), o segundo melhor ataque (11 gols, atrás da mesma Holanda, com 12), o melhor saldo de gols (9), a defesa menos vazada (apenas 2 gols sofridos, junto com França, Bélgica e Costa Rica), o artilheiro isolado (James Rodríguez, com 5 gols) e o melhor passador (Juan Cuadrado, com 4 assistências a gol) da competição. Por sua vez, com uma campanha irregular e gerando dúvidas sobre sua própria estabilidade emocional, a Seleção Brasileira ostenta na sua história diante dos colombianos um cartel de 14 vitórias, cinco empates e apenas duas derrotas. Destas, nenhuma dentro de casa. E nesse total de 21 jogos, nunca por Copa do Mundo.

Sem o primeiro volante Luiz Gustavo, suspenso pelo segundo cartão amarelo, é quase certo que o treinador Luiz Felipe Scolari vá promover a volta de Paulinho ao time titular, como segundo volante. Fernandinho, que havia roubado na Seleção a vaga do jogador do Tottenham, será recuado para primeiro volante, posição em que atua no Manchester City. Embora, no treino coletivo de quarta-feira, Felipão tenha também a opção de jogar sem centroavante, dada a péssima fase do titular Fred e a incapacidade do reserva Jô de fazer-lhe sombra, isso só deve ser usado como opção no correr do jogo, caso o atacante do Fluminense seja novamente figura nula em campo.

Nesse esquema tático alternativo, que o técnico brasileiro só deixou para treinar às vésperas da quarta de final da Copa, o reserva Henrique seria adaptado à função executada por Edmilson em 2002, num misto de primeiro volante e terceiro zagueiro, quando o Brasil foi pentacampeão com o mesmo Felipão. Todavia, diferente de 12 anos atrás, quando tinha Ronaldo Fenômeno como centroavante, além de Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho também em grande fase, a possível novidade tática só seria adotada para que a Seleção de hoje jogasse sem homem fixo de área.  Neymar, craque solitário do presente, atuaria como falso 9.

Outras duas possibilidades testadas no coletivo da Granja Comary foram a entrada do volante Ramires e do lateral Maicon. O primeiro, seria uma opção mais defensiva pela direita, para o lugar do atacante do atacante Hulk, alteração já testada sem grande êxito no empate sem gols contra o México. Já a substituição de Daniel Alves por Maicon é uma mudança que já havia sido cogitada para o jogo com o Chile, por conta do baixo rendimento do titular da lateral direita, mas até agora não se consumou.

Bom, e a Colômbia? Apontado como um dos craques da Copa, o artilheiro James Rodríguez costuma habitar a faixa de campo entre as linhas de defesa e meio campo, justamente onde o Brasil tem apresentado problemas crônicos na saída de bola, como no gol de empate do Chile. Foi nesse espaço que o camisa 10 da Colômbia recebeu o passe pelo alto e de costas para o gol, nas quartas de final contra o Uruguai, matou no peito, girou o corpo e, sem deixar a bola cair, emendou de canhota o chute certeiro.

Um dos mais belos gols da Copa, o que a maioria talvez não tenha notado é que, antes de chegar a Rodríguez, o time da Colômbia já tinha contabilizado 15 trocas de passe, numa posse de bola de 50 segundos. Esse trabalho coletivo revela a mão do treinador argentino José Pékerman, que chega pela segunda vez às quartas de final de uma Copa do Mundo. Em 2006, no comando da seleção de seu país, ele empatou no tempo normal e na prorrogação contra a Alemanha, antes de perder na disputa de pênaltis.

Para tentar melhor sorte no jogo de hoje, outra das armas de Pékerman é o habilidoso Juan Cuadrado, que nesta Copa já empatou em número de passes a gol com legendas como Tostão (1970), Zico (1982) e Riquelme (2006, naquele time de Pékerman). Meia que joga como ala pelos lados do campo, preferencialmente pela direita, deve dar grande trabalho aos laterais Daniel Alves e sobretudo Marcelo, que não são conhecidos por suas virtudes defensivas e precisarão da cobertura dos volantes e zagueiros.

Diante do Brasil, a Colômbia deverá ceder a posse de bola, mas diferente da sua brilhante geração de 1994, de Freddy Rincón, Carlos Valderrama e Faustino Asprilla, hoje não faz questão de mantê-la, explorando os contra-ataques com rapidez e objetividade, concluindo até pouco a gol, mas com excelente pontaria até aqui. O Brasil, cujo meio de campo parece incapaz de fazer a bola chegar ao ataque, abastecido apenas na ligação direta dos chutões desde a defesa, tem na retomada de bola no seu setor ofensivo a melhor maneira de tentar surpreender os colombianos, cuja defesa, embora pouco vazada, não inspira assim tanta confiança.

Apesar da boa campanha, inclusive diante de um Uruguai combalido pela suspensão do atacante Luisito Suárez, a Colômbia não teve ainda um teste de peso. Se não tremer hoje, continuar jogando bem e bater pela primeira vez o Brasil, dentro do Brasil, dará um passo fundamental à construção de uma tradição no futebol mundial. Não só para manter a sua, como para evitar o que todo o mundo considerará um vexame dentro da sua própria casa, ao Brasil não resta alternativa se não vencer os colombianos hoje — o que não consegue fazer desde 7 de setembro de 2003, há mais de 10 anos.

Depois, que venha Alemanha ou França!

 

Brasil x Colômbia

 

 

Publicado hoje, na edição impressa da Folha.

 

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Ilíadas nos campos da Copa

No salto mortal, Klose comemorou o gol em seu primeiro toque na bola, que empatou o jogo para a Alemanha e igualou seu atacante a Ronaldo como o maior artilheiro de todas as Copas (foto: Reuters)
No salto mortal, Klose comemorou o gol em seu primeiro toque na bola, que empatou o jogo para a Alemanha e igualou o recorde de Ronaldo como maior artilheiro de todas as Copas (foto: Reuters)

 

Tecnicamente, esta Copa teve até aqui três grandes jogos: o Espanha 1 x 5 Holanda (dia 13), o Inglaterra 1 x  2 Itália (14) e o Alemanha 4 x 0  Portugal (16), todos na primeira rodada.

Encerrada hoje a segunda rodada, tivemos nela os dois jogos mais épicos do Mundial: o Uruguai 2 x 1 Inglaterra (16) e o Alemanha 2 x 2 Gana de ontem.

Por jogo técnico, entenda-se aquele definido na qualidade de um time, na habilidade de seus jogadores.

Por épico, aquele de maior dramaticidade, onde as chuteiras parecem ser estar amarradas não com cadarços, mas às veias das pernas de cada jogador, como heróis clássicos a compor uma Ilíada.

Sobre Uruguai e Inglaterra, no qual o artilheiro Luisito Suárez saiu de uma astroscopia no joelho, há menos de um mês, para resgatar com dois gols a mística da Celeste, já escrevi aqui.

Ontem, foi o dia de uma Alemanha favorita na teoria e no campo encontrar uma igual na Gana, melhor seleção africana nesta Copa.

Após um primeiro tempo disputado, mas sem gols, Mario Götze completou de cabeça um cruzamento da direita para abrir o placar e a expectativa por outra goleada alemã.

Ledo engano!

Para provar a igualdade entre aqueles homens de pele pálida e retinta em busca da mesma glória, foi também no arremate preciso de um cruzamento pela direita que Andre Ayew empatou o jogo.

De igual para igual, os ganeses provaram que poderiam ser superiores, depois que Philipp Lahm perdeu a bola no meio e Asamoah Gyan recebeu um passe em profundidade para entrar na área, tocando na saída de Manuel Neuer.

Quando tudo parecia perdido, no fracasso de mais um favorito, os alemães foram buscar suas esperanças no banco de reservas. Seu craque Bastian Schweinsteiger e seu veterano atacante Miroslav Klose entraram em campo.

Na primeira jogada de Schweinsteiger, uma trama pela esquerda do ataque germânico gerou um escanteio.

Cobrado, após um desvio no primeiro pau, Klose aproveitou a oportunidade para completar de pé direito e se tornar o maior artilheiro de todas as Copas, com 15 gols, igualando o recorde do brasileiro Ronaldo.

Na celebração daquele homem maduro de 36 anos, o salto mortal do moleque que acabara de conquistar a imortalidade nos campos.

Homens brancos e negros iguais no placar, no talento, na entrega, na glória vermelha de sangue não derramado dos irmãos Boateng, Jérôme da Alemanha e Kevin-Prince de Gana, filhos da África como todos os homens.

 

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Artigo do domingo — Além do rio, nada

Foz do Paraíba
Foz do rio Paraíba do Sul

 

 

Charles Frederick Hartt

O primeiro a estudar a formação da planície goitacá a partir da ação do rio Paraíba do Sul foi o geólogo canadense Charles Frederick Hartt (1840/78). Ele veio ao Brasil integrando a famosa expedição Thayer, entre 1864 e 1865, comandada por seu mentor, o zoólogo suíço Louis Agassiz (1807/73), defensor científico do Criacionismo e grande opositor do naturalista inglês Charles Darwin (1809/82) e sua Teoria da Evolução.

De qualquer maneira, foi nas pesquisas de Hartt reunidas em “Geologia e Geografia Física do Brasil” (1870), nas quais o avanço do mar em Atafona é pela primeira vez descrito, que nosso Euclides da Cunha (1866/1909) se baseou para escrever “A Terra”. Este apanhado da formação geológica do sertão brasileiro é o capítulo inicial de “Os Sertões” (1902) e principal motivo para a maioria abandonar a leitura, ainda no começo, deste necessário clássico da literatura nacional.

Alberto Ribeiro Lamego

Dentro desta mesma literatura, talvez maior herdeiro de Euclides na mestiçagem tanto entre ciência e romance, como do homem com seu meio, o geólogo campista Alberto Ribeiro Lamego (1896/1985) externou em “O Homem e o Brejo” (1945) grande parte das suas teses sobre o protagonismo do rio Paraíba na formação da planície. Mais recentemente, os brasileiros Kenitiro Suguio, Jean-Marie Flexor e José M. L. Dominguez se uniram ao francês Louis Martin, para comporem a oito mãos “Geologia do Quaternário Costeiro do Litoral Norte do Rio de Janeiro e Espírito Santo” (1997). Nela os renomados geólogos contemporâneos reviram grande parte das teses de Lamego, mas permaneceram endossando o papel quase monoteísta do Paraíba na gênese da planície em que deságua.

Desde quando a ciência ainda achava existir para afirmar a criação divina, até nossos dias, apesar das revisões naturais que o tempo impõe às teorias, ninguém que tenha se dedicado a estudar esta planície e o rio que a corta, foi capaz de afirmar que a primeira existiria, não fosse a ação direta do segundo. Os mesmos campistas, sanjoanenses e são franciscanos que adoram reclamar da cor marrom das suas praias, talvez nunca tenham percebido: o barro que lhes escurece o mar é o mesmo que, carreado pelo Paraíba ao longo dos milênios, formou o próprio chão sobre o qual caminham suas vidas, desde quando aprenderam a pisar.

Sem o rio, o mar provavelmente seria azul, mas avançaria sobre nossas cabeças até reencontrar a Serra do Imbé.

Reservatórios secos do sistema Cantareira
Reservatórios secos do sistema Cantareira

Ameaçado pelo projeto de desvio das suas águas na represa de Jaguari, para atender à Grande São Paulo no sistema de Cantareira, o Paraíba conseguiu confluir em sua defesa (aqui) lideranças fluminenses tão impermeáveis entre si quanto o governador Sérgio Cabral (PMDB) e o deputado federal Anthony Garotinho (PR). Bem verdade que o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB) pareceu não se importar muito com a reação de ambos, chegando a afirmar depois que poderia fazer a obra, estimada em R$ 500 milhões e num prazo de 18 meses, mesmo com a discordância do Estado do Rio.

Procurador Eduardo Santos de Oliveira
Procurador Eduardo Santos de Oliveira

E a revelação (aqui) na sexta, por parte do procurador da República em Campos, Eduardo Santos de Oliveira, de que o governo estadual de São Paulo estudava desde 2008 o desvio do Paraíba para atender sua zona metropolitana em períodos prolongados de estiagem, tendo depois chegado a informar oficialmente ao Ministério Público Federal goitacá, em 2011, que não tinha nenhum projeto de transposição do rio federal, apresentado agora por Alckmin à presidente Dilma Rousseff (PT), reforça a impressão de que os paulistas estão pagando para ver.

Para um Estado que ostenta o maior PIB e o maior colégio eleitoral do Brasil, chamar transposição de “captação”, pode ser até além de um mero “jogo semântico”, como bem definiu Eduardo.

Talvez com o beneplácito do governo federal em ano de eleição, aquela que vence quem receber mais afluentes em voto e dinheiro, oxalá o jogo não seja “ou dá, ou desce”. Tanto pior na São Paulo que, apesar de berço petista, é dominada pelo PSDB de Alckmin. E diante dos 15 milhões de paulistas atendidos pelo sistema Cantareira, como ficar à míngua na simpatia enquanto se hidrata seu principal adversário nas urnas?

Barragem de Santa Cecília, que desvia 2/3 da água do Paraíba para atender o Grande Rio no sistema Guandu
Barragem de Santa Cecília, que desvia 2/3 da água do Paraíba para atender ao Grande Rio no sistema Guandu

Na dúvida, até que haja um estudo técnico e apolítico de toda a Bacia do Paraíba, nos três Estados que a integram, só a insanidade aconselha mais um sangramento em seu curso de água doce, que já registrou língua salina quilômetros adentro, à altura de Barcelos. Já na divisa dos municípios de Campos e São João da Barra, é a vanguarda do avanço do mar em Atafona, intensificado a partir dos anos 1950, quando outro desvio fluvial foi feito, para atender outra região metropolitana.

A partir da barragem de Santa Cecília, em Guandu, que até hoje serve de água o Grande Rio, já se perdeu a conta de quantas casas e ruas hoje só servem aos peixes, na foz de um rio em queda de braço com o Atlântico e tendões cortados pelo homem.

Com  1.137 km de extensão e 56.500 km2 de bacia, o Paraíba é um grande rio. Acima do Equador, com 2.320 km de comprimento e bacia de 632.000 km2, o rio Colorado é muito maior. Escultor do famoso Grand Canyon, como o Paraíba da planície goitacá, o Colorado foi alvo de várias intervenções para captação d’água e geração de energia elétrica, entre elas a Barragem Hoover, erguida nos anos 1930 e tida ainda hoje como a grande obra de engenharia dos EUA.

Foz do rio Colorado, completamente seca em boa parte do ano

Durante muito tempo, o modelo de transposição de águas adotado no Colorado para irrigação de terras secas foi considerado exemplo a ser seguido, inclusive no rio São Francisco, no Nordeste brasileiro. Mas nem seu gigantismo bastou para saciar a sede humana e hoje o rio está morrendo. Durante boa parte do ano, o Colorado sequer consegue mais atingir sua foz, no Golfo do México.

Se o mesmo acontecer aqui, será um desastre maior do que a perda dos royalties, já que o mal causado pela consequente salinização de toda a Baixada do Paraíba, inviabilizando a agropecuária e as indústrias sucroalcooleira e cerâmica, certamente durará mais do que as jazidas de petróleo no fundo do mesmo mar que, sem a oposição do rio, prevalecerá outra vez sua poderosa ação sobre a planície. Ademais, a captação d’água em diversos municípios teria que ser feita a partir da dessalinização, ou de fontes alternativas também já degradadas pela ação humana, como Lagoa de Cima.

Pela pena do seu heterônimo e mestre Alberto Caeiro, o poeta português Fernando Pessoa (1888/1935) escreveu:

 

“Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia”

 

Quem, por sensibilidade e gratidão, ainda não pensou no que há para além do Paraíba, que o faça por necessidade. Para quem habita a planície goitacá, além do rio da aldeia, não há nada.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha

 

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Calcinhas, blues e rock and roll

Um meeiro negro e pobre do Mississipi, que migrou para Chicago e lá descobriu que o violão acústico, perfeito para ecoar seu lamento nas amplidões silenciosas do meio rual, não era mais suficiente para fazer prevalecer sua música em meio ao caos sonoro de um grande centro urbano, levando-o a amplificar o blues com uma guitarra elétrica. Esse foi Muddy Waters (1915/83), cujo verso “pedras que rolam, não criam limo”, da música “Catfish Blues” (literalmente “Blues do Bagre”), seria depois usado por alguns garotos brancos da Inglaterra para batizar sua banda, uma tal de Rolling Stones.

A música mais famosa do repertório de Muddy, “Hoochie Coochie Man”, curiosamente não é dele, embora escrita para ele por outra lenda do blues egressa do Mississipi: Willie Dixon (1915/92). Nela, na descrição do fascínio sobre as mulheres que o mestre bluseiro exercia, já estão todos os elementos que mais tarde um outro negro, Chuck Berry, descoberto por Muddy, misturaria ao country para fundar o rock and roll — e os garotos brancos como Elvis (1935/77) ficarem com o crédito.

A diferença, como gostava de definir Dixon, muito antes do nosso Wando (1945/2012), é relativamente simples: “A primeira vez que uma moça tirou a calcinha e a jogou no palco, foi por causa de um sujeito que cantava blues, mas quando as brancas também começaram a fazê-lo, virou rock and roll”.

Para conhecer essa rica gênese da música que mudaria o mundo entre os anos 50 e 70 (no Brasil, notadamente nos 80), uma boa dica é se assistir ao filme “Cadillac Records”, de Darnell Martin, que conta um pouco da história de Muddy, Dixon, Berry, entre outras lendas como Little Walter (1930/68), Howllin’ Wolf (1910/76) e Etta James (1938/2012), todos reunidos no período áureo da Chess Records. Para quem assina a Sky, as próximas exibições estão programadas para às 14h50 do dia 14 e às 9h30 do dia 24, sempre no canal 77 e, em HD, no 277.

Abaixo, a tradução em português e a execução por Muddy Waters, em seu auge, da música que Willie Dixon fez para descrevê-lo, sempre viva no repertório dos grandes mestres atuais do gênero, como Eric Clapton, que a entoou em um dos pontos altos da sua última apresentação no Rio, na HSBC Arena, em outubro passado…

 

(Eu Sou Seu) Homem Hoochie Coochie

A cigana disse à minha mãe
Antes de eu nascer
Eu tenho um garoto vindo
Ele vai ser um filha da mãe
Ele vai fazer garotas bonitas
Pular e atirar
Então o mundo quer saber
sobre o que é isso tudo
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Bem você sabe que eu sou o homem hoochie choochie
Todo mundo sabe que eu sou ele

Eu tenho um osso preto de gato
Eu tenho um mojo também
Eu tenho o conkeroo do Johnny
Eu vou mexer com você
Eu vou pegar suas garotas
Leve-me pela minha mãe
Então o mundo irá saber
O homem hoochie coochie
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Oh você sabe que eu sou o homem hoochie coochie
Todos sabem que eu sou ele

Na sétima hora
No sétimo dia
No sétimo mês
Os sete médicos disseram
Ele nasceu por boa sorte
E que você verá
Eu tenho setecentos doláres
Não mexa comigo
Mas você sabe que eu sou ele
Todo mundo sabe que eu sou ele
Bem você sabe que eu sou o homem hoochie coochie
Todo mundo sabe que eu sou ele

 

 

 

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