Fabio Bottrel – O Espinho da Rosa








Abriu os olhos. Os primeiros e incômodos raios de sol invadiam as frestas da janela, incidindo sobre ela. Tentou retornar ao sonho. Era encantada por eles. No último desta manhã, andava por um campo florido. Na parte final, uma figura desconhecida a esperava. Não identificou quem era. Um homem. Sem nome e sem rosto. Apenas sentia uma paz vinda daquela imagem. Correu. Quanto mais acelerava, mais o outro se afastava. Acordou cansada, mas queria voltar a dormir para poder alcançar a aparição.
Uma mão tocou seus cabelos. Respirou fundo antes de reabrir os olhos para encarar a realidade. Um sorriso. Um homem. Gestos e atenções direcionados a Clara. Retribuiu os carinhos. Eram vazios. Sem vida. Frios. Mas ele não percebia que o corpo ao seu lado permanecia sem alma. Fazia festas, trazia flores, preparava jantares. Arrumava os cantos da casa. Organizava os papéis. Acumulava tarefas para não precisar fazer o exercício de pensar sobre sua vida.
— Bom dia, meu amor.
— Bom dia, Augusto.
Ele manteve o sorriso. Ficava feliz quando acreditava receber o carinho de Clara. Concentrava parte de seus dias em atos e fatos que pudessem ganhar a aprovação da mulher.
Ela, por outro lado, percebia os esforços. Quanto mais difícil para Augusto, maior o desprezo de Clara. Sentia pena por ver um homem, tão bonito, fracassar em inúmeras tentativas de reverter um processo tragicamente concluído.
O marido se levantou. Caminhou até a porta. Saiu. Enquanto ouvia seus passos, Clara assistia a um filme. Aos 15 anos, os dois se conheceram. A garota vinha de outra escola e entrara na turma dele. O rapaz, o mais atraente da turma, fazia parte de um grupo de meninos bagunceiros, mas tinha algo que o diferenciava. Era educado. Gentil. Conseguia, ao mesmo tempo, irritar e encantar os professores.
Depois de atritos, os dois se tornaram amigos. Preenchiam o dia inteiro juntos, tanto dentro quanto fora da escola. Assim foi durante todo o ensino médio. Quando foram cursar diferentes faculdades, passaram anos sem se encontrar. Com meses de formado, Augusto recebeu a oportunidade de trabalhar na cidade em que Clara morava. Sem analisar efetivamente a proposta, se arriscou.
O reencontro foi bonito. Eram sentimentos sinceros que ambos compartilhavam. Passaram pelos rituais: namoraram, noivaram e casaram. Sete anos. Os passos aumentaram à medida que Clara recobrava a consciência. Todas as cenas foram transmitidas em um segundo, tempo que, para ela, era suficiente para dedicar às lembranças do casal.
— Trouxe um suco para você. Sei que não gosta de comer pela manhã, mas não gosto que saia de casa sem se alimentar de alguma forma. O que fará hoje? — perguntou enquanto entregava o copo à esposa, que agradeceu com um aceno de cabeça.
— Tenho uma consulta com Eduardo. Preciso tomar banho para não me atrasar.
— Não sabia que tinha voltado à análise.
— Ainda não, mas vou voltar hoje. Acho que preciso organizar as coisas dentro e fora de mim — e, agradecendo novamente, após beber o suco, entregou o copo ao marido. Preocupou-o. Temia, sem expor sua opinião, para que caminho o tratamento poderia levá-los.
Clara escolheu um vestido azul e uma sapatilha. Pegou as roupas e as bijuterias. Andou vagarosamente em direção ao banheiro. Ainda se sentia cansada. Trancou a porta. Ligou o chuveiro. Encarou sua imagem no espelho. Estava envelhecida. A pele ressecada, assim como os cabelos. Os olhos inexpressivos. As sobrancelhas bagunçadas. Era uma mulher cuja aparência mostrava uma idade além da real.
Ouviu o carro sair. Era Augusto. Não costumava sair sem se despedir, mas sabia que ele ficara incomodado ao ouvir o nome “Eduardo”. O psicanalista, muitas vezes, parecia querer que os dois se separassem. Era assim que o cansaço de Clara, entediada do marido, poderia ser compreendido pelo homem. A responsabilidade jamais seria dela, a menina romântica com quem escolhera construir uma vida. Não admitiria que o outro não era capaz de influenciar as decisões da mulher.
A partida do veículo foi recebida com leveza por Clara. Fechou o chuveiro. Deixou o vestido em cima do cesto de roupas. As sapatilhas foram lançadas a um canto. Foi, novamente, para o quarto e se deitou. Não existia mais Eduardo. Há meses, havia abandonado o tratamento. Mas continuava a ser a sua desculpa para afastar Augusto. Tentou, desde o término forçado das consultas, não mentir sobre sua vida. No entanto, ela não sabia mais distinguir mentiras e verdades; sua personalidade e a que foi criada para manter o casamento; suas vontades e a vontade da esposa de Augusto; os seus e os outros sonhos.
A palavra lhe trouxe à mente a figura do homem desconhecido. O rosto não visto. Corria. Corria cada vez mais na tentativa de se aproximar daquela imagem. Perturbação e paz. Serenidade e violência. Calmaria e agitação. Mesmo com os olhos abertos, continuava em disparada atrás do estranho a quem procurava, dias e noites, para suprir suas necessidades e desejos.
Voltou para a cama. Antes de se entregar ao sono, uma mão tocou seus cabelos. Respirou fundo. Um sorriso. Um homem. Gestos e atenções direcionados a Clara. Não abriu os olhos. Não queria perdê-lo. Afastou o frio e se sentiu guiada para sua realidade.

Era uma quinta-feira. Dezesseis de junho de 2016. Vinte e três anos antes, a família comemorava o nascimento de uma menina. Branca. Excessivamente branca, para desgosto da mãe morena. A mulher contava que a criança era tão bonita que encantou a médica. A profissional a apresentou à mãe horas depois do nascimento, quando esta se assustou com a cor inesperada.
Naquela noite, o pai foi para a casa de sua tia, tia-avó da bebê, para compartilhar a alegria do segundo filho. O primogênito tinha seis anos e, ao conhecer a irmã, exclamou: “mãe, a sua filha é linda”. O homem estava contente com a nova cria. Falava sobre ela. Tinha orgulho da menina branca e bonita que a esposa acabara de entregar ao mundo. Todos comemoravam a vida dela, que se tornou uma criança alegre e séria, uma adolescente emburrada e uma adulta tida como forte. As graças futuras renderam risadas aos parentes.
Vinte e três anos se passaram. No dia de seu aniversário, acordou satisfeita. Gostava, nesses momentos, de ver o tempo passar. Tinha um dia de trabalho pela frente e uma noite para festejar com os que lhe eram caros. Durante o dia, recebeu uma ligação. Era a tia-avó, uma mulher sincera e de personalidade marcante a quem ela admirava e amava.
Após os desejos de feliz aniversário, saúde e paz, conversaram um pouco antes do término da ligação:
— Você é minha sobrinha favorita. Minha casa sempre estará aberta para você.
— Que honra, tia! Fico muito feliz por saber disso.
Meses antes, a aniversariante havia lançado um livro de contos. A tia compareceu, parabenizou e, tempos depois, comentou com a sobrinha sobre a obra, da qual gostou.
— Até que você dá para escritora — e ambas riram. Havia afinidade, carinho e respeito na relação. Elas conversavam sobre diversos temas: de política ao cotidiano, passando por casos de família e rotina profissional. Mais do que tia e sobrinha, eram amigas.
No dia dos 23 anos, ela comemorou com amigos e família. Mas a data foi marcada pelas palavras sinceramente carinhosas da tia-avó, que também é a sua favorita.

“Venha buscá-las!”
Para quem só conhece Grécia Antiga a partir do filme “300” (2007), de Zack Znyder, pode parecer que a força física, habilidade e coragem individuais fizeram com que um pequeno contingente de helenos, liderado por 300 espartanos, conseguisse resistir por três dias, na Batalha de Termópilas (480 a.C.), à invasão do Império Persa contabilizada em 1 milhão de soldados. Mas quem conheceu o episódio por Heródoto (484/425 a.C.), em sua “História” (livro que batiza a ciência, não o contrário), ou por seus companheiros de lida subsequentes, sabe que a grande responsável pela façanha foi a tática coletiva dos gregos.
Com cerca de 35 kg de bronze sobre o corpo, entre armadura, elmo, caneleiras, braceletes e o escudo redondo (hóplon, daí o soldado de infantaria ser chamado de hoplita), mais a lança longa (sarissa) e uma espada curta, só usada como último recurso, um único soldado grego era pesado, lento e desajeitado. Todavia, a partir da coesão numa mesma linha, cada hoplita tinha o peito protegido pelo escudo erguido pelo braço canhoto do companheiro à sua direita, enquanto fazia o mesmo com quem estava à esquerda. E, a despeito da aparência coletiva de um porco espinho na batalha, unidos no compromisso de defesa das suas cidades, os gregos foram quase imbatíveis.
Treinados desde muito jovens na sua arte da guerra, no atletismo e na filosofia (saber ainda não compartimentado em ciências particulares) todo soldado grego era um cidadão, treinado para lutar e ciente do por quê. E há quem afirme, como o historiador francês Fernand Braudel (1902/85), que a democracia teve parto natural, sobretudo na Atenas cosmopolita e mercantil, quando essa tática de paridade coletiva da linha de hoplitas migrou do campo de batalha à vida civil. Um escudo erguido sobre o peito do companheiro em defesa da cidade na guerra, um voto para definir seus rumos na ágora.
Na última semana, o jornalista e blogueiro Alexandre Bastos se despediu da Folha da Manhã. Agora, responde pela coordenação da Chefia de Gabinete do governo eleito Rafael Diniz (PPS), que assume o poder em 1º de janeiro de 2017. Mas foi neste jornal que, entre vindas e idas, Bastos passou quase metade da sua vida. Em 2001, aos 19 anos, teria sua primeira experiência profissional na Folha, como corretor de anúncios, por indicação da sua tia materna, a saudosa jornalista Ângela Bastos (1946/2007), que fez história no jornalismo campista e na Folha.
Na redação do jornal, Bastos iniciaria em 2004, aos 22 anos. Após ter estreado como jornalista na revista “Caraca”, dos publicitários Gustavo Alejandro Oviedo e José Ronaldo, ele enviou um artigo intitulado “A Terra do Nunca”. O texto crítico sobre a mentalidade tacanha de alguns setores da sociedade goitacá abriu as portas para que se tornasse articulista da Folha, onde passou a opinar semanalmente sobre política, esporte e cultura.
No ano seguinte, em 2005, aceitou o convite para trabalhar como repórter da Folha Dois, onde foi colocado como “foca” do jornalista Aloysio Balbi, com quem já comungava a mesma criatividade superlativa no texto. Sete meses depois, mesmo a contragosto, foi posto na editoria de política, até deixar a Folha pela segunda vez em 2006, ano de eleição municipal suplementar, na qual atuou pela primeira vez como assessor de imprensa.
Em 2007, Bastos voltou ao jornal como editor da Folha Dois, função na qual permaneceu até o fim daquele ano, quando atuou novamente como assessor de imprensa. Por fim, retornou à Folha em novembro de 2008, onde ficou até agora. Nestes últimos oito anos, foi repórter e editor (novamente contra a vontade) de política, repórter e editor interino de esportes, colaborador do “Ponto Final”, colunista social e blogueiro — função na qual se revelou um fenômeno de popularidade inédito e ainda sem par na mídia virtual goitacá.
Piadista talentoso, quase sempre capaz de arrancar uma gargalhada de quem chegaria com uma queixa, Bastos padece assumidamente da mesma contradição do coelho Pernalonga: adora brincar, mas se revela pouco paciente quando alvo da brincadeira. Como jornalista, além da criatividade no texto, tem perspicácia incomum na apuração. Se às vezes “morcega” no meio de campo, como o ex-craque francês Zinedine Zidane, é capaz de sair da aparente letargia, quando a cobrança se impõe, para produzir de relance uma sequência de jogadas inesperadas e, não raro, definir a partida.
Mais do que ele possa ter aprendido em nosso convívio, Bastos foi para mim um “professor” generoso do jogo jogado da política, do qual se tornou antes melhor leitor, apesar de uma década mais novo. Tivemos nossos problemas, sobretudo no entrechoque de vaidades. Mas soubemos superá-los e, penso, construímos uma sólida amizade, sobretudo quando a idade revelou a ambos que produzíamos um melhor jornalismo atuando na mesma linha, um ao lado do outro e de todos os demais — sem ninguém à frente ou deixado para trás.
Sobre seu novo desafio no governo de Campos, respondeu quem antes vivia de indagar: “Agora, quando a nossa cidade vive o fim de um ciclo, vejo que também é o momento de iniciar um novo momento em minha vida. Deixar o papel de narrador e entrar em campo. Unir aquela vontade de mudar o mundo, que estava presente nos primeiros artigos, com o lado mais pragmático de quem já é pai de família e sabe que os grandes feitos dependem mais de transpiração do que de inspiração”.
Da lição final de João Cabral de Melo Neto (1920/99) aplicada da poesia ao jornalismo e à própria vida, agora em campos diferentes na defesa da mesma cidade, redefinida em rumo pela democracia conquistada ao custo de tantas batalhas perdidas e ganhas ao longo da história, desejo, em nome da redação da Folha, toda a sorte do mundo a um dos seus nomes mais talentosos. No que há de particular, destaco: ter atuado profissionalmente ao lado de Bastos é dos orgulhos que levarei destes 26 anos de jornalismo.
Ao futuro, ecoa a resposta do rei Leônidas (540/480 a.C.), comandante espartano morto em Termópilas, ao persa que lhe ofereceu ouro para entregar as armas: “Malon lave!” (“Venha buscá-las!”).
Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

— Há quanto tempo você está trancada neste quarto?
— Oito anos.
— Por vontade própria?
— Sim.
— Tem algum motivo específico?
— Não.
— Fale mais sobre você. Ou prefere que eu pergunte?
— Não fará diferença.
— O que você guarda dentro da caixa?
— Lembranças.
— Posso vê-las?
— Não. Está vazia.
— Onde estão as lembranças?
— Eu preferi apagá-las.
— Por que não as guardou?
— Por que ninguém me guardou?
— Rebater com perguntas. Não funciona comigo.
— Não era para funcionar.
— Quer falar algo? Em que posso ajudá-la?
— Em nada. Procure se ajudar.
— O que são essas frases na parede?
— Eu.
— Você?
— Meus gritos sufocados que ninguém quis ouvir.
— Você tentou dizer?
— Sempre tentei, mas não deu certo.
— Quer falar para mim?
— Você pode ler.
— Eu prefiro te ouvir.
— A leitura é sempre mais prazerosa. Acredite. Li a minha vida toda e me poupei de escutar coisas insatisfatórias.
— Ler é uma ótima opção. Ajudou você?
— Me ajudou a entender mais do que precisava e menos do que gostaria.
— Não é possível entender tudo.
— Não é possível entender nada.
— Vamos dar uma volta?
— Me dê um motivo para isso.
— Vamos observar. Você pode tirar novas conclusões sobre o mundo.
— O tempo passa e coisas mudam, mas minhas conclusões sobre o mundo serão as mesmas.
— Você levou quanto tempo para escrever nas paredes?
— Eu ainda não terminei. E não sei quando terminarei. É uma eterna construção. É a minha saída quando o silêncio me sufoca.
— Por que não experimenta conversar com sua família?
— Porque ela nunca experimentou me ouvir. Não havia tempo para isso.
— Eu posso te ouvir.
— Tarde demais, doutor. Eu não sei mais falar. Não sei empregar as palavras certas fora da minha escrita.
— Eu escuto suas confusões e ajudo você a entendê-las.
— Se eu não as entendo, lamento, mas não será você quem as entenderá.
— Posso te surpreender.
— Ah, não. Eu nem consigo me lembrar da última pessoa que conseguiu me surpreender. Desculpe desapontá-lo.
— E esses CDs? São seus?
— Meus companheiros de melancolia. Se anseio por uma voz, recorro a eles.
— Não sente falta de uma voz amiga?
— Eles são as vozes amigas das quais você fala.
— Por que caneta preta?
— Porque as palavras saem envoltas em um misto de sensações que, para mim, é escuro e impenetrável.
— Suas roupas combinam com a escuridão das paredes.
— Minhas roupas são o reflexo do meu interior.
— É frio aí dentro?
— Muito.
— Nem a luz do sol, quando passa pelo vidro, te aquece?
— Não. Estou afastada dos raios. O frio também é impenetrável.
— Não pensa em voltar ao mundo real?
— Eu estou no mundo real.
— Não. Você está fugindo dele.
— O que é o mundo real?
— É a vida que te espera ali, na saída do quarto.
— Nada me espera. E acredito que você saiba que nada te espera. Nada espera ninguém.
— Você é jovem e tem uma vida toda pela frente. Como acredita que não há esperança?
— Devido às minhas experiências. Repetitivas, vazias e cansativas.
— Mas você tem muitas coisas para viver.
— Não sei. Quem me garante, doutor?
— Pela lógica da vida.
— A vida não tem lógica. Acho que, no fundo, você sabe disso.
— Permita-se viver coisas novas.
— Seu discurso vai de encontro ao que você realmente pensa. É visível a falta de emoção quando fala. Você quer me salvar, mas sabe que, para isso, tem que se entender.
Suspiros invadiram o ambiente.
— Vá, doutor. Pegue a caneta e use a minha parede para dizer suas verdades. Para expressar o que ninguém soube ouvir.

Entre pingos de chuva e gotas de lágrimas, trafego por caminhos interiores, perdidos, escondidos. Isolados. Aquieto-me em um canto escuro, refúgio onde não serei encontrada facilmente. Ando, paro, volto. Olho, analiso. Reflito. Nas retinas, imagens sobrepostas. Diante da expressão aparentemente fria, apática, cética, que guarda casos e memórias, aparências se desfazem e se refazem. Idas e vindas. As dores estampadas em capas e caras, pertencentes a outros, muitos, vários. Elas falam diretamente a mim. Gritam em minha direção nomes, passados, presentes e futuros.
Ontem, éramos crianças que corriam atrás de bolas, bonecas, brincadeiras. Encontrávamos braços quentes à nossa espera em casas de gritos sufocados propositalmente. As histórias transformadas em memórias revisitadas ocasionalmente para que seja possível seguir em frente. Ao meu lado, presencio perdas e ganhos. Perdas e danos. Danos, perdas, ganhos que fazem parte de uma vida que se torna minha por empatia.
“Não pense desta forma, menina. A vida é bonita”, diz um homem ao meu lado, capaz de capturar meus sentimentos a olho nu.
“Só para Gonzaguinha, seu moço. Para mim, a vida é bonita, feia; mãe, madrasta; amor, sangue; Pai, Filho e Espírito Santo.”
Ele apreende cada palavra não saída de minha boca, que, levemente puxada, esboça reações atípicas de um dia nebuloso. Seus olhos conservam espanto.
De volta ao interior, invadido por um estranho conhecedor de mim que desaparece tal qual a neblina, libero-me das amarras e me cedo ao outro, que permanece camuflado em minhas entranhas. Estás refletido em mim, meu caro. Ele claudica. Sigo junto a ele, que não é capaz de me ver. Só sente. Sinto-o com a mesma intensidade. Em seu rosto, enigmas indecifráveis. Em meus traços, oculto está o que arde e clama. Entrelaçamos dedos, carne e ossos em movimentos repetitivos e intensos. Por trás de seus olhos, minhas feições. Reconheço-o em meus pés, mãos, braços, pernas. Pelos, cabelos. Amores. Conflitos. Confrontos. Contrastes, imagens.
Prosseguimos eu e o outro. Caminhos perdidos na solidão.