Fabio Bottrel – O Espinho da Rosa

“Como afirmou Lévi-Strauss, o encontro dos sexos é o terreno em que a natureza e cultura se deparam um com o outro pela primeira vez.”
Ao ler esse pensamento no livro Amor Líquido – Sobre a fragilidade das relações humanas, de ZygmuntBauman, unindo às palavras do autor no vídeo acima, foi inevitável a reflexão: eu sou de uma geração incapaz de amar.
Essa impotência amorosa talvez engane logo após algum certame, mas não dura nessa “sociedade do espetáculo”, título do livro de Guy Debord pensando essa inversão de mundo, onde o verdadeiro é um momento do falso. Nesse grande teatro os personagens são julgados pelos figurinos aquém dos textos, pelo cenário além dos mesmos, nunca pelo que és, mas pelo que conseguem carregar no corpo e no viés de seus destinos. Somos frutos de uma relação frágil, superficial, construímos nossas vidas à distância através de rede social, crescemos achando que um “delete” é a solução do nosso desgosto, tão simples e fácil como amanhã terá outro a preencher o posto de uma ponte pro vazio.
“E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço.” (Bauman)
Com a delicadeza desses laços humanos que aparentam solidez, constroem-se relacionamentos com o pensamento utópico baseado numa cultura que reprime a tristeza a ponto de negá-la a sua existência, criando uma imagem falsa da vida, vangloriando uma linha do tempo só de sucessos como se não houvesse uma contrapartida nem mesmo como parâmetro. Esquece-se que a felicidade são momentos e a maturidade é capacidade de aproveitar as oportunidades que a vida lhe proporciona ser feliz, apenas o idiota ou alienado é feliz o tempo inteiro. Mas o cinismo virtual não faz mal a ninguém, não é o mesmo do relacionamento, que fere a confiança e desrespeita o outro.
Nesse padrão há exceção, gosto de acreditar, talvez só os tolos amem ou talvez no amor seja onde os fracos de fato não tenham vez, pois apesar de tudo quem ainda acredita no amor foi feito para durar e não apenas passar pela vida, como os frios que não choram, não amam e não vivem.
O amor é belo tal como uma rosa, enquanto sente o doce perfume os espinhos sujam de sangue as mãos de quem a colhe.

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Guilerme Carvalhal – Vergonha

 

Andando pela estrada de ladrilhos coberta pelo acúmulo de areia dos anos sem uso sedimentando um assoalho compactado e liso, o guia explicou:
“Por aqui saíram correndo em fuga. Pegaram os objetos mais simples e hábeis, as roupas, e partiram sem nenhuma plano. Evadiram e seus pertences de ouro, suas máquinas caras e tudo mais permaneceram para os salteadores futuros”.
Continuamos adiante. O ar pesado me causava calafrios. De alguma forma os espíritos do passado sussurravam em meu ouvido, cantando as lástimas de seus momentos de agonia. Por entre o alto matagal ladeando a passagem poderia surgir um não-sei-o-quê assustador e eu vasculhava por cada canto, vigilante.
Diante do pórtico, o guia detalhou:
“Os viajantes de antigamente logo se vislumbravam diante da opulência da cidade. Ali, ao lado, vocês veem as duas pernas que restaram do colosso que espantava os bandoleiros e impunha o respeito e a ordem. Os moradores queriam que quem nessas bandas pusesse um pé baixasse a cabeça diante de sua superioridade. Daí a pompa efusiva logo na entrada”.
Logo adiante das pernas de mármore revestidas por uma camada viscosa de limo predominava a decadência. Sobre o chafariz de azulejos descorados desfilavam filas de ratazanas. As antigas luminárias das ruas jaziam podres de ferrugem. Das casas restavam seus alicerces de madeira e pedras, umas poucas com as colunas, tetos e paredes preservados apesar do total aspecto de ruína. Andar dentro de uma deles consistia em atitude de grave perigo, pois os tremores de passos poderiam afetar os caibros e comprometer definitivamente a estrutura.
Virando à direita, uns bons metros em seguida, havia uma praça com coreto. A armação metálica havia se desprendido e as varas de ferro retorcido formavam um mosaico surreal apavorante. As folhas cobriam todo o piso cimentado da praça e qualquer pessoa com bom senso evitaria pisar ali, tão evidente a presença de animais peçonhentos camuflados no tapete ressecado.
“Aqui deram o anúncio. Diante das palavras apocalípticas do prefeito, a multidão debandou em prantos. Quem conseguiu carregar alguma coisa, carregou. Cuidaram dos detalhes derradeiros e sumiram para nunca mais retornar”.
A caminhada desenrolou um tanto quanto a esmo. Contemplávamos o esfacelamento em uma experiência extática. Contrariando a atmosfera fúnebre, certa alegria nos contagiou, empolgados com o espírito arqueológico da empreitada. Posávamos para fotos e apontávamos com vivacidade para os utensílios antigos como o ferro de passar a carvão.
Quando nos cansamos de rir, pedimos ao guia que nos acompanhasse até o ponto fundamental desse roteiro. Taciturno, ele caminhou batendo com uma vara ao chão, ao estilo de quem marca o ritmo tocando gado. O clima de enlevo dos últimos instantes se converteu em cumplicidade, mutuamente assumindo um risco consciente.
Ali, ao fundo da vila, avistamos o grande armazém sobre o qual tanto se comentava. Ao contrário do restante das construções locais, mantinha-se inteiro e resistente, corroído apenas pela voracidade dos cupins formando alguns buracos. Na lateral, em uma enorme pichação se lia a palavra “vergonha” em letras garrafais, obra de um bando de adolescentes revoltados.
À porta, paramos todos reticentes, amedrontados. A área externa já assustava o suficiente e muitos deram um passo atrás, negando-se a assistir o espetáculo que nos aguardava. Integrei o grupo dos ousados, daqueles que desejavam atravessar o corredor de martírio apesar da promessa de automutilação.
Entramos no armazém. Os pés vacilavam, as mãos tremiam. Fazíamos ideia do que encontrar, mas não imaginávamos o desespero e o arrependimento seguintes. Ali, as ossadas de dezenas de crianças, todas com menos de dez anos, jogadas pelos cantos, os crânios que sustentaram uma expressão de pavor quando a morte veio as ceifando, tão pequenas, tão inocentes e já encararam os infortúnios dignos dos velhos.
“Quando todos fugiram da peste, deixaram para trás as crianças, o principal vetor da doença. Elas foram a primeiras a apresentar os sintomas, e para que não os seguissem, trancafiaram-nas nesse armazém e as abandonaram para morrer”.
O impacto daquela cena abalou a todos os visitantes. As lágrimas saltaram aos olhos e vários perderam a força mediante tal quadro desolador. Apostamos e recebíamos a recompensa, nosso quinhão particular de sofrimento. Apenas o guia não se emocionava, já calejado de tantas e tantas visitas, com as quais se tornou imune.
Eu mesmo caí de joelhos durante meu testemunho da crueldade humana, da omissão, do egoísmo. Chorei com um clamor pelo meu jamais conhecido irmão, um daqueles esqueletos anônimos, e por minha sorte de ter chegado ao mundo muito depois, pois caso nascido antes jazeria naquela necrópole superficial sem uma sepultura cristã.

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Carol Poesia – Inquérito Poético (parte 1)

 

Inspetora – Senhor Adalberto, o senhor pode me dizer o seu nome todo?
Suspeito – Adalberto Lemos da Costa Carvalho.
Inspetora – Lemos da Costa Carvalho… O senhor tem três sobrenomes, seu Adalberto?
Suspeito – Tenho.
Inspetora – E por quê?
Suspeito – Porque os meus pais quiseram assim.
Inspetora – Os seus pais. Lemos certamente da sua mãe e da Costa Carvalho do seu pai.
Suspeito – Não. Lemos da Costa é da minha mãe e Carvalho do meu pai.
Inspetora – Lemos da Costa da sua mãe e Carvalho do seu pai. Sua mãe não tem Carvalho no nome?
Suspeito – Não.
Inspetora – E por quê?
Suspeito – Porque ela quis assim.
Inspetora – E seu pai não se opôs?
Suspeito – Não.
Inspetora – Certamente uma família governada pela mulher. Me diga uma coisa, seu Adalberto… A senhora sua mãe trabalha fora de casa?
Suspeito – Sim.
Inspetora – E qual é a profissão dela?
Suspeito – Ela é professora.
Inspetora – Como eu imaginei… Professora de…
Suspeito – Literatura.
Inspetora – Obviamente.
Suspeito – Mas por que…
Inspetora – E quanto ao senhor, senhor Adalberto: qual é a sua relação com a literatura?
Suspeito – Eu? Nenhuma. Eu…
Inspetora – Então não gosta da Literatura?
Suspeito – Gosto, mas não é que…
Inspetora – Odeia Literatura!
Suspeito – Não! Eu gosto!
Inspetora – Gosta, mas diz que não tem nenhuma relação. Um tanto quanto contraditório, concorda senhor Adalberto?
Suspeito – Não, a senhora não entendeu! Eu não gosto nem desgosto, eu não tenho nada contra, só que também não ligo muito. Literatura é a vida da minha mãe!
Inspetora – “Literatura é a vida da minha mãe”, uma declaração um tanto quanto suspeita, senhor Adalberto? Eu não consigo acreditar que algo que, segundo o senhor, é a vida da tua mãe não tenha nenhuma relação com você. Das duas uma: ou a vida da tua mãe não tem a menor relevância para o senhor ou o senhor está mais envolvido com a Literatura do que me contou até agora. Ham?
Suspeito – Ham? Foi só maneira de dizer… Olha eu não estou entendendo por que a senhora está me perguntando isso tudo. Eu nem sei por que eu estou aqui. Eu trabalho numa empresa, eu me dou muito bem com a minha mãe e eu até tirava nota boa em português na escola.
Inspetora – Empresa?
Suspeito – É, empresa de finanças. Trabalho com contas, empréstimos, renda, cobranças, entendeu? Nada a ver com Literatura.
Inspetora – Entendi. O senhor se ocupa de contar dinheiro?
Suspeito – É, mais ou menos né.
Inspetora – O senhor é feliz nesse trabalho? Se sente realizado?
Suspeito – Ham? Sou, quer dizer, sinto, quer dizer, mais ou menos.
Inspetora – Não é feliz.
Suspeito – Sou sim, às vezes.
Inspetora – E o seu pai, senhor Adalberto?
Suspeito – O que que tem meu pai?
Inspetora – Também trabalha com finanças?
Suspeito – Meu pai foi militar, agora está aposentado. Posso ir embora?
Inspetora – Militar. Linha dura? Me diga uma coisa seu Adalberto, o seu pai foi duro com você na infância? Ele te privou de muitas coisas? Qual é o olhar do seu pai para a arte? O seu pai gosta de teatro, música ou pintura? Qual é a relação do seu pai com a literatura? Por acaso ele acha que arte é coisa de mulherzinha?
Suspeito – Que? Que história é essa?
Inspetora – Confessa!
Suspeito – Eu não estou entendo aonde a senhora quer chegar!
Inspetora – Confessa!
Suspeito – Mas confessar o que? Eu não estou entendo nada.
Inspetora – Confessa!
Suspeito – O meu pai queria que eu fosse militar e eu não quis. Isso é crime? O que que está acontecendo aqui hein? Eu tenho os meus direitos!
Inspetora – Ah o senhor não sabe o que está acontecendo?
Suspeito – Não.
Inspetora – Não faz idéia?
Suspeito – Não.
Inspetora – Então eu vou te lembrar: o fato, senhor Adalberto Lemos da Costa Carvalho, é que a poesia está morta! E eu tenho razões para acreditar que o senhor seja culpado.
Suspeito – Eu? Mas eu não fiz nada!
Inspetora – Filho de professora de literatura – provavelmente conhece o que é poesia! Filho de militar aposentado – provavelmente conhece o que não é poesia! No entanto, nega qualquer envolvimento com a lírica. Não sabe se gosta ou não gosta. Respostas imprecisas, indecisas, contraditórias… Não é feliz no trabalho.
Suspeito – Mas porque eu faria isso? Um atentado contra a poesia!
Inspetora – Eu disse que a poesia está morta!
Suspeito – Mas eu juro que não fui eu! Por que eu?
Inspetora – O senhor pode muito bem ser um poeta frustrado que resolveu se vingar.
(continua)

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Fernando Leite – O barqueiro fidelense e o Fórum de Davos

“Enquanto houver um oprimido no mundo, haverá o socialismo”
(Oscar Niemeyer)
O seu nome é José. É negro, está com 37 anos e sua compleição física me autoriza a imaginar que sua ancestralidade é da etnia bantu:alto, pernas longilíneas, magro, nação soberana na África subsaariana, até a chegada dos mercadores de escravos. Mas, ele cumprindo o destino atávico dos seus zilavôs, é um homem desatado de qualquer nó social, livre, solitário, meu vizinho na república autônoma da Bicuíba, às margens do rio do Colégio, nas cercanias de São Fidélis de Sigmaringa,mora embaixo de uma ponte e, de vez em quando, de acordo com rio Paraíba do Sul, “do calendário das águas que vêm de cima”, sai no rústico barco, a remo, para uma pescaria artesanal.
Casar não está nos seus planos. “Arranjar parceira para passar fome comigo? Larga isso!”. Avesso a fotografias, evita festas e aglomerações. Sobrevive com o mínimo e faz qualquer sacrifício para conseguir uma boa barganha. Às vezes, em menos de uma semana, apanha de volta o objeto que barganhou, que, em seguida, será, de novo, fruto de negociação. O prazer é o ato de barganhar. Pode ser uma bicicleta por 10 quilos de robalo; um fusca, de ano indeterminado, por uma vaca que dá 10 litros de leite por dia; um canivete suíço por uma gaita. E assim vai “gastando a vida, na humildade”, como gosta de dizer.
Trouxe meu amigo Zé aqui para falar do comunicado da Oxfam – uma organização não governamental – que divulgou um dado estarrecedor, durante o Encontro das maiores economias do mercado planetário, em Davos, na Suíça, na semana que passou: que, apenas e tão somente, 8 magnatas detêm o mesmo capital que 3 bilhões e 600 milhões de habitantes da Terra, metade do total da população economicamente pobre.
Este é o melhor dos mundos para os democratas que defendem o regime das liberdades individuais acima da harmonia coletiva. A Democracia seletiva, aquela que permite, rigorosamente, tudo que há de melhor, desde que você tenha dinheiro pra comprar. Pouco lhes importa que só há bilionários, quase trilhiardários, porque há bilhões de Zés espalhados pelos continentes, em moradias indignas, dependurados de cabeça pra baixo na linha da miséria. Estão se lixando para a verdade incontestável que a economia é uma só e que os abismos sociais são, neste sistema, absolutamente, “consequências naturais”.
Os capitalistas inveterados usam sempre o mesmo bordão, como auto-defesa do establishment:
— Se não estás satisfeito, vá para Cuba, China, Coréia do Norte ou à Puta que lhe pariu! Lá, não estarias escrevendo estas mal traçadas linhas. Estarias no paredão.
É esse argumento que sustenta sua estupidez; ignoram, por conveniência, a lição basilar do filósofo inglês Thomas Hobbes, no século 17, segundo a qual, “o homem é o lobo do homem”. E que, se não houver uma força concentradora capaz de arbitrar comportamentos sociais, restará impune a autofagia social. Ainda mais quando não há freios para as fortunas criminosas.
Fingem que não vêem os paredões das ruas das cidades conflagradas, dentro dos presídios, nos hospitais sucateados, no trânsito descontrolado, na infância violentada, na escola preparada para impedir a construção do homem novo. Carpem seus pecados capitais à sua maneira, socorrendo, nas datas santas, a miséria abjeta, que avistam pelos vidros dos carros ou pela tela curva da TV. Distribuem bolas de plástico e cestas de Natal, uma vez, por ano e acham que assim ficam quites com seu deus nômade.
Não me detenho no pensamento reles de esquerda e direita, do Estado que fuzila ou do Estado que se omite diante do fuzilamento diário, sobretudo, de crianças inocentes. Ao invés da ocupação de lados ideológicos, grandes causas.
Falo de alternativas para esta dicotomia anacrônica, este maniqueísmo conveniente. Sobre a ideia do socialismo fraterno, “pairam as sombras aterradoras de Fidel e do ouro de Moscou”, “a madame de Mao e a revolução cultural”, “Lênin e os assassinatos em massa”. Porca miséria. De outro lado, contamos os mortos e desaparecidos das ditaduras sul-americanas, as mães da Praça de Maio, a Revolução dos Cravos, a Comuna de Paris, o Holocausto. Há um prazer mórbido dos ideólogos de mensurarem as dores atrozes do mundo. E não aprender com elas e evita-las no futuro. Ficaremos até quando nessa masturbação intelectual, contando nossos mortos?
O planeta, Gaya, pede socorro “estamos maltratando, por dinheiro, a Terra, que é a nave, nossa irmã”
O futuro quer novidades, senhores. Os países que já resolveram suas aberrações políticas, encurtaram os fossos sociais e, como resultado, reduziram a violência, melhoraram o sistema de saúde e avançam para conquistas humanas e respeito às liberdades. O Brasil ainda é um país cafona. Porque a corrupção é cafona. É anacrônica, atrasada, demodê. Chique é ser honesto. O nosso parlamento é um antro, uma ilha próspera, cercada de lixo, inoperante, perdulária, uma caterva, um valhacouto de bandidos.
Aqui, em Pindorama, estamos a léguas do razoável.
Há que se instituir, com a urgência que a fome e a dor coletivas impõem, uma nova ordem mundial. Zé, sob a ponte, em sua “humílima residência” e seus iguais esperam esse gesto de nós.

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Vanessa Henriques – Ex-alunos se mobilizam para salvar a Uenf: patrimônio de Campos e do Norte Fluminense

Hoje utilizarei este espaço para chamar a atenção para a lamentável situação em que se encontra a Universidade Estadual do Norte Fluminense, a nossa Uenf.
Fundada em 1993, a Uenf constituiu-se como uma grande conquista para a cidade de Campos dos Goytacazes e para a região do Norte Fluminense, como um todo. A criação de uma Universidade na região significou, sobretudo para aqueles que não teriam condições de se deslocar para os grandes centros, a oportunidade de se graduar em uma instituição pública de excelente qualidade. Desde então, durante seus 24 anos de existência, a Uenf foi responsável por propiciar a ascensão social de milhares de estudantes.
Depois de cerca de um ano operando em condições precárias, mais uma vez a comunidade acadêmica uenfiana encontra-se em estado de alerta: há muita incerteza quanto ao futuro das Universidades estaduais Uerj, Uenf e Uezo. Desde o ano passado, alunos, professores, técnicos e servidores vêm se empenhando para manter o funcionamento da Uenf, mesmo a despeito dos enormes atrasos de salários, bolsas e da escassez de recursos básicos necessários para a boa execução das tarefas ligadas ao trabalho e ao estudo. Ao todo, a Universidade acumula cerca de 55 milhões em dívidas devido à carência de repasses governamentais.
Parte considerável dos alunos da Uenf é oriunda de municípios circunvizinhos. Como aluna da instituição, no último ano, pude presenciar boa parte dos meus colegas que dependem das bolsas para promover seu sustento em Campos, precisando retornar as suas cidades de origem, por não terem condições de pagar seus aluguéis. Alguns não possuíam sequer dinheiro para comprar alimentos. Mesmo com o moral abalado, a comunidade acadêmica resistiu e está se preparando para enfrentar novas dificuldades neste ano de 2017.
Neste contexto de insegurança, ex-alunos da Uenf começaram a se organizar na semana passada para desenvolver uma agenda de atividades que visa impedir o total sucateamento da Universidade. Na quinta-feira, dia 18, o grupo se reuniu pela primeira vez e encaminhou as primeiras ações que serão tomadas para tentar evitar o desmantelamento da instituição. Foi decidido que realizarão uma Semana de Mobilização – a primeira de fevereiro – que contará com aulas públicas ministradas na Rodoviária e na Praça São Salvador, além do recolhimento de assinaturas para um abaixo assinado. Essas atividades pretendem sensibilizar a população campista para a fragilidade da atual situação da Uenf, reforçando a importância da preservação desse patrimônio que é tão caro a nossa cidade. Também foi criada uma comissão de fiscalização da verba pública, que ficará encarregada de acompanhar os gastos do governo do Estado.
Outra forma de chamar atenção para o problema se dará através de uma campanha nas redes sociais: o recém-formado movimento conclama os ex-alunos da Uenf a postar em seus perfis no Facebook, depoimentos que narrem a sua relação com a Universidade, salientando o quanto a passagem pela instituição foi transformadora e valiosa para cada um. Os depoimentos podem ser postados em formato de texto ou vídeo, seguidos pelas “hashtags” #ExAlunosNaLutaPelaUenf e #UenfResiste.
Além disso, na próxima terça-feira, 24, haverá uma mobilização, às 10h, na própria Universidade, visando agregar alunos, técnicos e professores a essa tão necessária mobilização.
Finalizo com um vídeo produzido na ocasião do vigésimo aniversário da Uenf, que também reúne belos depoimentos de alguns dos alunos egressos da Universidade.
Deixo também um apelo à sociedade campista: não deixemos ruir uma instituição com tamanho potencial de promover o desenvolvimento da nossa cidade e da nossa região.

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Manuela Cordeiro – Freedom fries: a liberdade fast food das redes sociais

Quis sair da zona de conforto poética e também acadêmica para escrever uma pretensa crônica abordando assuntos pertinentes no momento. Há apenas um dia de assumir o governo da maior potência mundial, assistimos com uma boa dose incredulidade Donald Trump se tornar presidente dos Estados Unidos. Mais uma das barbáries que procuramos (re)significar nesses dias. Os recentes massacres nos presídios federais, incluindo Roraima, são de outra ordem, mas podem ser incluídos na lista do que procuramos digerir nesses primeiros dias de 2017. Na medida em que essa notícia foi ganhando repercussão nacional, procurei notar qual era a reação das pessoas no sudeste ao ouvir falar no estado do extremo norte do país. Pude perceber algumas constatações – Boa Vista não é capital do Acre, o constante questionamento sobre qual lugar Roraima está localizado no mapa e, particularmente para mim, estranhei a pronúncia com “a” anasalado, já aqui no norte se fala “Roráima”.
Nos dias seguintes, recebi em uma das redes sociais de três diferentes amigos uma mensagem que começou a circular por conta da atenção voltada ao estado. Trata-se de uma opinião pessoal (assim vem propriamente assinada, diga-se de passagem) de uma recém contratada, à época, servidora pública a respeito de sua chegada e estabelecimento em Roraima. Esses mesmos amigos quiseram saber a minha reação sobre tal “textão”, como se diz desses comentários longos que invadem a internet, geralmente com bastante assertividade do autor.
Teria muitas observações a serem feitas, mas me aterei a pelo menos duas principais. Logo no início do “textão”, a servidora pública explica que o mais difícil que tem por aqui é encontrar um roraimense, emendando com essa constatação que falta uma “identidade com a terra”. Ora, sem levar em conta a população indígena, sendo que se trata do estado do país com a maior proporção desta (segundo o Atlas Brasil do IBGE de 2016, mais de oitenta por cento da população indígena de Roraima vive em áreas demarcadas), mas somente a zona ‘nobre’, desprezando os ‘bairros’ – parte mais recente da cidade ou periferia, certamente só encontrará outros servidores públicos como quem escreve o texto, que vem de inúmeras partes do Brasil. Mas isso não é suficiente para concluir que falte uma identidade com a terra – seja cearense, maranhense, gaúcho ou carioca, muitos e muitas, inclusive servidores públicos, já adotaram o estado de Roraima como a sua casa. Em termos de construção de uma identidade local, há inclusive um movimento cultural chamado Roraimeira que foi iniciado em 1984 por músicos e poetas locais que se inspiram em três matrizes – a cultura indígena, a proximidade com os países caribenhos (Guiana e Venezuelana) e também a presença maciça nordestina.
Seguindo adiante, há uma afirmação de que setenta por cento do estado é coberto por áreas indígenas, restando “apenas 30%, descontando rios e as terras improdutivas que são muitas” para a agricultura e as cidades. De fato, as terras indígenas cobrem boa parte do estado, mas somam pouco mais de quarenta por cento da área e, ainda assim, existem muitas terras que podem ser denominadas produtivas localizadas em antigos projetos de colonização, assentamentos de reforma agrárias e áreas privadas. Além disso, o clima do norte do estado é similar ao cerrado, por estarmos numa área de transição entre a floresta ombrófila densa e o lavrado, isto é, a savana. Inclusive por isso o cultivo de soja vem ganhando força, sobretudo, na área de Boa Vista e outros municípios localizados na porção norte de Roraima. Aliás, ontem o ministro da Justiça Alexandre de Moraes publicou uma portaria que altera o sistema de demarcação de terras indígenas no país, em vigor desde a década de 1990. Com esta medida, o ministério da Justiça passa a poder rever todo o processo de demarcação realizado pela FUNAI, fragilizando o trabalho técnico realizado pela Fundação, para dizer o mínimo. Então, os reducionismos não tem muito espaço – nem tanto à terra improdutiva e muito menos a “muita terra pra pouca gente”.
O título dessa curta crônica se refere a uma frase que ouvi no seriado Mr. Robot. Trata-se de uma série que aborda uma sociedade hackativista que procura desmontar o sistema de bancos, órgãos federais e outras importantes instituições do mundo ocidental. Freedom fries pode ser explicado como uma mistura do item mais comum da comida fast food americana – as batatas fritas (french fries em inglês) e a liberdade, um dos itens mais comuns, e diga-se de passagem, celebrados no estilo de vida americano. As redes sociais possibilitam a divulgação de vozes que antes não eram ouvidas, inclusive de “áreas remotas”, como o extremo norte do país. Mas, ao mesmo tempo, garante a liberdade do quase anonimato e o não debate de ideias que, com a rápida disseminação, podem se tornar “verdade” seja pelo desconhecimento ou pela repetição. Liberdade de expressão, sim, mas com menos gordura no texto, por favor.

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Paula Vigneron — Sonhos

 

Atafona, 15/11/14 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, 15/11/14 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Abriu os olhos. Os primeiros e incômodos raios de sol invadiam as frestas da janela, incidindo sobre ela. Tentou retornar ao sonho. Era encantada por eles. No último desta manhã, andava por um campo florido. Na parte final, uma figura desconhecida a esperava. Não identificou quem era. Um homem. Sem nome e sem rosto. Apenas sentia uma paz vinda daquela imagem. Correu. Quanto mais acelerava, mais o outro se afastava. Acordou cansada, mas queria voltar a dormir para poder alcançar a aparição.

Uma mão tocou seus cabelos. Respirou fundo antes de reabrir os olhos para encarar a realidade. Um sorriso. Um homem. Gestos e atenções direcionados a Clara. Retribuiu os carinhos. Eram vazios. Sem vida. Frios. Mas ele não percebia que o corpo ao seu lado permanecia sem alma. Fazia festas, trazia flores, preparava jantares. Arrumava os cantos da casa. Organizava os papéis. Acumulava tarefas para não precisar fazer o exercício de pensar sobre sua vida.

— Bom dia, meu amor.

— Bom dia, Augusto.

Ele manteve o sorriso. Ficava feliz quando acreditava receber o carinho de Clara. Concentrava parte de seus dias em atos e fatos que pudessem ganhar a aprovação da mulher.

Ela, por outro lado, percebia os esforços. Quanto mais difícil para Augusto, maior o desprezo de Clara. Sentia pena por ver um homem, tão bonito, fracassar em inúmeras tentativas de reverter um processo tragicamente concluído.

O marido se levantou. Caminhou até a porta. Saiu. Enquanto ouvia seus passos, Clara assistia a um filme. Aos 15 anos, os dois se conheceram. A garota vinha de outra escola e entrara na turma dele. O rapaz, o mais atraente da turma, fazia parte de um grupo de meninos bagunceiros, mas tinha algo que o diferenciava. Era educado. Gentil. Conseguia, ao mesmo tempo, irritar e encantar os professores.

Depois de atritos, os dois se tornaram amigos. Preenchiam o dia inteiro juntos, tanto dentro quanto fora da escola. Assim foi durante todo o ensino médio. Quando foram cursar diferentes faculdades, passaram anos sem se encontrar.  Com meses de formado, Augusto recebeu a oportunidade de trabalhar na cidade em que Clara morava. Sem analisar efetivamente a proposta, se arriscou.

O reencontro foi bonito. Eram sentimentos sinceros que ambos compartilhavam. Passaram pelos rituais: namoraram, noivaram e casaram. Sete anos. Os passos aumentaram à medida que Clara recobrava a consciência. Todas as cenas foram transmitidas em um segundo, tempo que, para ela, era suficiente para dedicar às lembranças do casal.

— Trouxe um suco para você. Sei que não gosta de comer pela manhã, mas não gosto que saia de casa sem se alimentar de alguma forma. O que fará hoje? — perguntou enquanto entregava o copo à esposa, que agradeceu com um aceno de cabeça.

— Tenho uma consulta com Eduardo. Preciso tomar banho para não me atrasar.

— Não sabia que tinha voltado à análise.

— Ainda não, mas vou voltar hoje. Acho que preciso organizar as coisas dentro e fora de mim — e, agradecendo novamente, após beber o suco, entregou o copo ao marido. Preocupou-o. Temia, sem expor sua opinião, para que caminho o tratamento poderia levá-los.

Clara escolheu um vestido azul e uma sapatilha. Pegou as roupas e as bijuterias. Andou vagarosamente em direção ao banheiro. Ainda se sentia cansada. Trancou a porta. Ligou o chuveiro. Encarou sua imagem no espelho. Estava envelhecida. A pele ressecada, assim como os cabelos. Os olhos inexpressivos. As sobrancelhas bagunçadas. Era uma mulher cuja aparência mostrava uma idade além da real.

Ouviu o carro sair. Era Augusto. Não costumava sair sem se despedir, mas sabia que ele ficara incomodado ao ouvir o nome “Eduardo”. O psicanalista, muitas vezes, parecia querer que os dois se separassem. Era assim que o cansaço de Clara, entediada do marido, poderia ser compreendido pelo homem. A responsabilidade jamais seria dela, a menina romântica com quem escolhera construir uma vida. Não admitiria que o outro não era capaz de influenciar as decisões da mulher.

A partida do veículo foi recebida com leveza por Clara. Fechou o chuveiro. Deixou o vestido em cima do cesto de roupas. As sapatilhas foram lançadas a um canto. Foi, novamente, para o quarto e se deitou. Não existia mais Eduardo. Há meses, havia abandonado o tratamento. Mas continuava a ser a sua desculpa para afastar Augusto. Tentou, desde o término forçado das consultas, não mentir sobre sua vida. No entanto, ela não sabia mais distinguir mentiras e verdades; sua personalidade e a que foi criada para manter o casamento; suas vontades e a vontade da esposa de Augusto; os seus e os outros sonhos.

A palavra lhe trouxe à mente a figura do homem desconhecido. O rosto não visto. Corria. Corria cada vez mais na tentativa de se aproximar daquela imagem. Perturbação e paz. Serenidade e violência. Calmaria e agitação. Mesmo com os olhos abertos, continuava em disparada atrás do estranho a quem procurava, dias e noites, para suprir suas necessidades e desejos.

Voltou para a cama. Antes de se entregar ao sono, uma mão tocou seus cabelos. Respirou fundo. Um sorriso. Um homem. Gestos e atenções direcionados a Clara. Não abriu os olhos. Não queria perdê-lo. Afastou o frio e se sentiu guiada para sua realidade.

 

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Paula Vigneron — 23

Paula Vigneron, Paulo Victor Crespo, João Paulo Crespo e Marilúcia Souza (Foto: arquivo pessoal)
Paula Vigneron, Paulo Victor Crespo, João Paulo Crespo e Marilúcia Souza (Foto: arquivo pessoal)

 

 

Era uma quinta-feira. Dezesseis de junho de 2016. Vinte e três anos antes, a família comemorava o nascimento de uma menina. Branca. Excessivamente branca, para desgosto da mãe morena. A mulher contava que a criança era tão bonita que encantou a médica. A profissional a apresentou à mãe horas depois do nascimento, quando esta se assustou com a cor inesperada.

Naquela noite, o pai foi para a casa de sua tia, tia-avó da bebê, para compartilhar a alegria do segundo filho. O primogênito tinha seis anos e, ao conhecer a irmã, exclamou: “mãe, a sua filha é linda”. O homem estava contente com a nova cria. Falava sobre ela. Tinha orgulho da menina branca e bonita que a esposa acabara de entregar ao mundo. Todos comemoravam a vida dela, que se tornou uma criança alegre e séria, uma adolescente emburrada e uma adulta tida como forte. As graças futuras renderam risadas aos parentes.

Vinte e três anos se passaram. No dia de seu aniversário, acordou satisfeita. Gostava, nesses momentos, de ver o tempo passar. Tinha um dia de trabalho pela frente e uma noite para festejar com os que lhe eram caros. Durante o dia, recebeu uma ligação. Era a tia-avó, uma mulher sincera e de personalidade marcante a quem ela admirava e amava.

Após os desejos de feliz aniversário, saúde e paz, conversaram um pouco antes do término da ligação:

— Você é minha sobrinha favorita. Minha casa sempre estará aberta para você.

— Que honra, tia! Fico muito feliz por saber disso.

Meses antes, a aniversariante havia lançado um livro de contos. A tia compareceu, parabenizou e, tempos depois, comentou com a sobrinha sobre a obra, da qual gostou.

— Até que você dá para escritora — e ambas riram. Havia afinidade, carinho e respeito na relação. Elas conversavam sobre diversos temas: de política ao cotidiano, passando por casos de família e rotina profissional. Mais do que tia e sobrinha, eram amigas.

No dia dos 23 anos, ela comemorou com amigos e família. Mas a data foi marcada pelas palavras sinceramente carinhosas da tia-avó, que também é a sua favorita.

 

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Poema molhado de chuva

 

Atafona, 13/11/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

outros blues

 

cego ao cheiro da folha da figueira

e às lembranças doces de fruta

o homem sentou ao final do caminho

farto da semeadura dos seus erros

dessa amargura na mina da saliva

desse cansaço que nem a chuva lava

 

atafona, 14/11/16

 

 

 

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Artigo do domingo — Para quem lutou lado a lado na mesma linha

Criança em Termópilas (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Menino diante a Leônidas em Termópilas (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

“Venha buscá-las!”

 

Para quem só conhece Grécia Antiga a partir do filme “300” (2007), de Zack Znyder, pode parecer que a força física, habilidade e coragem individuais fizeram com que um pequeno contingente de helenos, liderado por 300 espartanos, conseguisse resistir por três dias, na Batalha de Termópilas (480 a.C.), à invasão do Império Persa contabilizada em 1 milhão de soldados. Mas quem conheceu o episódio por Heródoto (484/425 a.C.), em sua “História” (livro que batiza a ciência, não o contrário), ou por seus companheiros de lida subsequentes, sabe que a grande responsável pela façanha foi a tática coletiva dos gregos.

Com cerca de 35 kg de bronze sobre o corpo, entre armadura, elmo, caneleiras, braceletes e o escudo redondo (hóplon, daí o soldado de infantaria ser chamado de hoplita), mais a lança longa (sarissa) e uma espada curta, só usada como último recurso, um único soldado grego era pesado, lento e desajeitado. Todavia, a partir da coesão numa mesma linha, cada hoplita tinha o peito protegido pelo escudo erguido pelo braço canhoto do companheiro à sua direita, enquanto fazia o mesmo com quem estava à esquerda. E, a despeito da aparência coletiva de um porco espinho na batalha, unidos no compromisso de defesa das suas cidades, os gregos foram quase imbatíveis.

Treinados desde muito jovens na sua arte da guerra, no atletismo e na filosofia (saber ainda não compartimentado em ciências particulares) todo soldado grego era um cidadão, treinado para lutar e ciente do por quê. E há quem afirme, como o historiador francês Fernand Braudel (1902/85), que a democracia teve parto natural, sobretudo na Atenas cosmopolita e mercantil, quando essa tática de paridade coletiva da linha de hoplitas migrou do campo de batalha à vida civil. Um escudo erguido sobre o peito do companheiro em defesa da cidade na guerra, um voto para definir seus rumos na ágora.

Na última semana, o jornalista e blogueiro Alexandre Bastos se despediu da Folha da Manhã. Agora, responde pela coordenação da Chefia de Gabinete do governo eleito Rafael Diniz (PPS), que assume o poder em 1º de janeiro de 2017. Mas foi neste jornal que, entre vindas e idas, Bastos passou quase metade da sua vida. Em 2001, aos 19 anos, teria sua primeira experiência profissional na Folha, como corretor de anúncios, por indicação da sua tia materna, a saudosa jornalista Ângela Bastos (1946/2007), que fez história no jornalismo campista e na Folha.

Na redação do jornal, Bastos iniciaria em 2004, aos 22 anos. Após ter estreado como jornalista na revista “Caraca”, dos publicitários Gustavo Alejandro Oviedo e José Ronaldo, ele enviou um artigo intitulado “A Terra do Nunca”. O texto crítico sobre a mentalidade tacanha de alguns setores da sociedade goitacá abriu as portas para que se tornasse articulista da Folha, onde passou a opinar semanalmente sobre política, esporte e cultura.

No ano seguinte, em 2005, aceitou o convite para trabalhar como repórter da Folha Dois, onde foi colocado como “foca” do jornalista Aloysio Balbi, com quem já comungava a mesma criatividade superlativa no texto. Sete meses depois, mesmo a contragosto, foi posto na editoria de política, até deixar a Folha pela segunda vez em 2006, ano de eleição municipal suplementar, na qual atuou pela primeira vez como assessor de imprensa.

Em 2007, Bastos voltou ao jornal como editor da Folha Dois, função na qual permaneceu até o fim daquele ano, quando atuou novamente como assessor de imprensa. Por fim, retornou à Folha em novembro de 2008, onde ficou até agora. Nestes últimos oito anos, foi repórter e editor (novamente contra a vontade) de política, repórter e editor interino de esportes, colaborador do “Ponto Final”, colunista social e blogueiro — função na qual se revelou um fenômeno de popularidade inédito e ainda sem par na mídia virtual goitacá.

Piadista talentoso, quase sempre capaz de arrancar uma gargalhada de quem chegaria com uma queixa, Bastos padece assumidamente da mesma contradição do coelho Pernalonga: adora brincar, mas se revela pouco paciente quando alvo da brincadeira. Como jornalista, além da criatividade no texto, tem perspicácia incomum na apuração. Se às vezes “morcega” no meio de campo, como o ex-craque francês Zinedine Zidane, é capaz de sair da aparente letargia, quando a cobrança se impõe, para produzir de relance uma sequência de jogadas inesperadas e, não raro, definir a partida.

Mais do que ele possa ter aprendido em nosso convívio, Bastos foi para mim um “professor” generoso do jogo jogado da política, do qual se tornou antes melhor leitor, apesar de uma década mais novo. Tivemos nossos problemas, sobretudo no entrechoque de vaidades. Mas soubemos superá-los e, penso, construímos uma sólida amizade, sobretudo quando a idade revelou a ambos que produzíamos um melhor jornalismo atuando na mesma linha, um ao lado do outro e de todos os demais — sem ninguém à frente ou deixado para trás.

Sobre seu novo desafio no governo de Campos, respondeu quem antes vivia de indagar: “Agora, quando a nossa cidade vive o fim de um ciclo, vejo que também é o momento de iniciar um novo momento em minha vida. Deixar o papel de narrador e entrar em campo. Unir aquela vontade de mudar o mundo, que estava presente nos primeiros artigos, com o lado mais pragmático de quem já é pai de família e sabe que os grandes feitos dependem mais de transpiração do que de inspiração”.

Da lição final de João Cabral de Melo Neto (1920/99) aplicada da poesia ao jornalismo e à própria vida, agora em campos diferentes na defesa da mesma cidade, redefinida em rumo pela democracia conquistada ao custo de tantas batalhas perdidas e ganhas ao longo da história, desejo, em nome da redação da Folha, toda a sorte do mundo a um dos seus nomes mais talentosos. No que há de particular, destaco: ter atuado profissionalmente ao lado de Bastos é dos orgulhos que levarei destes 26 anos de jornalismo.

Ao futuro, ecoa a resposta do rei Leônidas (540/480 a.C.), comandante espartano morto em Termópilas, ao persa que lhe ofereceu ouro para entregar as armas: “Malon lave!” (“Venha buscá-las!”).

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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Paula Vigneron — Entre quatro paredes

 

Atafona, 16/07/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, aurora de 16/07/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

— Há quanto tempo você está trancada neste quarto?

— Oito anos.

— Por vontade própria?

— Sim.

— Tem algum motivo específico?

— Não.

— Fale mais sobre você. Ou prefere que eu pergunte?

— Não fará diferença.

— O que você guarda dentro da caixa?

— Lembranças.

— Posso vê-las?

— Não. Está vazia.

— Onde estão as lembranças?

— Eu preferi apagá-las.

— Por que não as guardou?

— Por que ninguém me guardou?

— Rebater com perguntas. Não funciona comigo.

— Não era para funcionar.

— Quer falar algo? Em que posso ajudá-la?

— Em nada. Procure se ajudar.

— O que são essas frases na parede?

— Eu.

— Você?

— Meus gritos sufocados que ninguém quis ouvir.

— Você tentou dizer?

— Sempre tentei, mas não deu certo.

— Quer falar para mim?

— Você pode ler.

— Eu prefiro te ouvir.

— A leitura é sempre mais prazerosa. Acredite. Li a minha vida toda e me poupei de escutar coisas insatisfatórias.

— Ler é uma ótima opção. Ajudou você?

— Me ajudou a entender mais do que precisava e menos do que gostaria.

— Não é possível entender tudo.

— Não é possível entender nada.

— Vamos dar uma volta?

— Me dê um motivo para isso.

— Vamos observar. Você pode tirar novas conclusões sobre o mundo.

— O tempo passa e coisas mudam, mas minhas conclusões sobre o mundo serão as mesmas.

— Você levou quanto tempo para escrever nas paredes?

— Eu ainda não terminei. E não sei quando terminarei. É uma eterna construção. É a minha saída quando o silêncio me sufoca.

— Por que não experimenta conversar com sua família?

— Porque ela nunca experimentou me ouvir. Não havia tempo para isso.

— Eu posso te ouvir.

— Tarde demais, doutor. Eu não sei mais falar. Não sei empregar as palavras certas fora da minha escrita.

— Eu escuto suas confusões e ajudo você a entendê-las.

— Se eu não as entendo, lamento, mas não será você quem as entenderá.

— Posso te surpreender.

— Ah, não. Eu nem consigo me lembrar da última pessoa que conseguiu me surpreender. Desculpe desapontá-lo.

— E esses CDs? São seus?

— Meus companheiros de melancolia. Se anseio por uma voz, recorro a eles.

— Não sente falta de uma voz amiga?

— Eles são as vozes amigas das quais você fala.

— Por que caneta preta?

— Porque as palavras saem envoltas em um misto de sensações que, para mim, é escuro e impenetrável.

— Suas roupas combinam com a escuridão das paredes.

— Minhas roupas são o reflexo do meu interior.

— É frio aí dentro?

— Muito.

— Nem a luz do sol, quando passa pelo vidro, te aquece?

— Não. Estou afastada dos raios. O frio também é impenetrável.

— Não pensa em voltar ao mundo real?

— Eu estou no mundo real.

— Não. Você está fugindo dele.

— O que é o mundo real?

— É a vida que te espera ali, na saída do quarto.

— Nada me espera. E acredito que você saiba que nada te espera. Nada espera ninguém.

— Você é jovem e tem uma vida toda pela frente. Como acredita que não há esperança?

— Devido às minhas experiências. Repetitivas, vazias e cansativas.

— Mas você tem muitas coisas para viver.

— Não sei. Quem me garante, doutor?

— Pela lógica da vida.

— A vida não tem lógica. Acho que, no fundo, você sabe disso.

— Permita-se viver coisas novas.

— Seu discurso vai de encontro ao que você realmente pensa. É visível a falta de emoção quando fala. Você quer me salvar, mas sabe que, para isso, tem que se entender.

Suspiros invadiram o ambiente.

— Vá, doutor. Pegue a caneta e use a minha parede para dizer suas verdades. Para expressar o que ninguém soube ouvir.

 

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Paula Vigneron — O outro

 

Fogueira acesa para a roda de jongo em Machadinha, comunidade quilombola de Quissamã, em 27/10/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Ao pôr do sol, fogueira acesa à roda de jongo no terreiro diante da igreja de Machadinha, comunidade quilombola de Quissamã, em 27/10/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Entre pingos de chuva e gotas de lágrimas, trafego por caminhos interiores, perdidos, escondidos. Isolados. Aquieto-me em um canto escuro, refúgio onde não serei encontrada facilmente. Ando, paro, volto. Olho, analiso. Reflito. Nas retinas, imagens sobrepostas. Diante da expressão aparentemente fria, apática, cética, que guarda casos e memórias, aparências se desfazem e se refazem. Idas e vindas. As dores estampadas em capas e caras, pertencentes a outros, muitos, vários. Elas falam diretamente a mim. Gritam em minha direção nomes, passados, presentes e futuros.

Ontem, éramos crianças que corriam atrás de bolas, bonecas, brincadeiras. Encontrávamos braços quentes à nossa espera em casas de gritos sufocados propositalmente. As histórias transformadas em memórias revisitadas ocasionalmente para que seja possível seguir em frente. Ao meu lado, presencio perdas e ganhos. Perdas e danos. Danos, perdas, ganhos que fazem parte de uma vida que se torna minha por empatia.

“Não pense desta forma, menina. A vida é bonita”, diz um homem ao meu lado, capaz de capturar meus sentimentos a olho nu.

“Só para Gonzaguinha, seu moço. Para mim, a vida é bonita, feia; mãe, madrasta; amor, sangue; Pai, Filho e Espírito Santo.”

Ele apreende cada palavra não saída de minha boca, que, levemente puxada, esboça reações atípicas de um dia nebuloso. Seus olhos conservam espanto.

De volta ao interior, invadido por um estranho conhecedor de mim que desaparece tal qual a neblina, libero-me das amarras e me cedo ao outro, que permanece camuflado em minhas entranhas. Estás refletido em mim, meu caro. Ele claudica. Sigo junto a ele, que não é capaz de me ver. Só sente. Sinto-o com a mesma intensidade. Em seu rosto, enigmas indecifráveis. Em meus traços, oculto está o que arde e clama. Entrelaçamos dedos, carne e ossos em movimentos repetitivos e intensos. Por trás de seus olhos, minhas feições. Reconheço-o em meus pés, mãos, braços, pernas. Pelos, cabelos. Amores. Conflitos. Confrontos. Contrastes, imagens.

Prosseguimos eu e o outro. Caminhos perdidos na solidão.

 

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