Eleição de novembro define prefeito, não quem paga a conta de Campos

 

(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Entre 31 de agosto e 16 de setembro se darão as convenções partidárias que escolherão os candidatos a prefeito dos 5.570 municípios brasileiros. Em Campos, a definição dos nomes começou a esquentar na semana passada, como a Folha revelou (confira aqui) no último sábado (25). Desde lá, foi alertado: mais que a disputa eleitoral, a principal questão de Campos é financeira. E continuará sendo em 2021, com um orçamento previsto de R$ 1,7 bilhão, que pode cair até a R$ 1,5 bilhão, e R$ 1,1 bilhão já comprometido com folha de pagamento. Reflete uma máquina inchada na abundância e desperdício dos recursos do petróleo, que de 1999 a 2016 renderam a Campos, em valores de hoje, R$ 23,67 bilhões. Com estas receitas em queda desde 2014, acirrada pela crise econômica advinda da pandemia da Covid-19, receitas próprias paralisadas e dívidas herdadas, nada indica que o próximo prefeito terá vida mais fácil que o atual. Tampouco o próprio, caso consiga se reeleger. E quem disser o contrário estará mentindo.

Dos pré-candidatos a prefeito postos, todos falam em necessidade de cortes. Mas nenhum diz onde e como, pela radioatividade do tema em tempo de eleição. Em busca de respostas mais precisas, a Folha ouviu o economista Alcimar Ribeiro, professor da Uenf; o antropólogo Carlos Abraão Moura Valpassos, professor da UFF-Campos; o advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos, professor da Uerj e do Isecena; e o especialista em finanças Igor Franco, professor da Estácio. Os quatro analisaram a difícil realidade econômica que ameaça diretamente a vida dos quase 600 mil campistas. Que não tem alternativa fácil ou rápida. Mas tem que ser buscada, antes e depois das urnas de novembro. Caso eleitores e pré-candidatos ignorem o problema, o risco é definido no fechamento deste painel: “lamentarmos um futuro sombrio sem ao menos termos experimentado um passado glorioso”.

 

Alcimar Ribeiro, Carlos Abraão Moura Valpassos, Carlos Alexandre de Azevedo Campos e Igor Franco (montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha da Manhã – A Prefeitura enviou à Câmara Municipal uma previsão orçamentária para 2021 de R$ 1,7 bilhão. Mas, pela crise econômica advinda da Covid, há previsão de que isso possa cair até para 1,5 bilhão até a LOA ser encaminhada em agosto. Com R$ 1,1 bilhão comprometido só com folha de servidor, há solução aritmética para Campos? Qual?

Alcimar Ribeiro – Considerando uma retração de 8% na atividade econômica em Campos dos Goytacazes em 2020, podemos chegar a uma previsão das receitas orçamentárias em torno de R$ 1.574.074 mil. Como o valor médio das despesas com salários e encargos no período de 2011 a 2019, a preços de 2019, somou R$ 1.103.813 mil, sobrariam somente R$ 470.261 mil para as outras despesas correntes. Só que em 2019 essas despesas somaram R$785.413 mil, depois de registrar queda de 23,79% em relação a 2011. Isso quer dizer que com a estrutura pública vigente, não existe mais espaço para reduzir as despesas correntes e nem para aumentar as receitas no curto prazo. O resultado para o ano que vem seria então um déficit 20,02% para financiamento com empréstimo. Esse quadro levaria o município a perda total da capacidade de investimento.

Carlos Abraão Moura Valpassos – A solução aritmética é simples e já se insinua no enunciado: a quantidade de dinheiro disponível ficará abaixo do desejado. As perspectivas não são alvissareiras e isso impõe a necessidade de planejamento. Para enfrentar o cenário negativo, será preciso criar receitas, ou seja, trazer investimentos para Campos. Isso demanda planejamento de ações e eficiência para colocar em prática aquilo que for planejado. A próxima gestão não poderá ser alicerçada sobre um discurso que não ganha materialidade. Para tanto, será necessário valorizar aquilo que já existe: agricultura e pesca, por exemplo. Além de incentivar a implementação de empresas e indústrias, sem desconsiderar as que já estão aqui e também o setor de serviços.

Carlos Alexandre de Azevedo Campos – Endividamento público, como de resto, para todos os entes políticos pós-Covid. Por certo que Campos, como quase todo ente estatal, precisa reduzir a folha de servidor. O Brasil tem a “cultura do funcionalismo público” e em Campos não é diferente. Por certo que existem áreas em que o funcionalismo público é da essência do Estado, como o Judiciário; em outras, penso ser muito relevante, como pesquisa em universidades públicas; porém, em diferentes setores, contratar a iniciativa privada é melhor. Possui, não raras vezes, menor custo, e incentiva o desenvolvimento da economia. Isso é um dever de casa de todo momento, sempre urgente. Contudo, para o pós-Covid, não há solução senão a tomada de empréstimos.

Igor Franco – O discurso da boa gestão e do combate à corrupção é essencial e ainda urgente em todo o país. Porém, sob o prisma do orçamento público, ele passa a falsa a impressão de que apenas boas práticas e ética são suficientes para resolver o problema financeiro. A complexidade da questão é muito maior e envolve uma série de regras construídas por décadas, que privilegiam o crescimento real das despesas públicas ao longo dos anos. A solução da Prefeitura será a continuidade da gestão de caixa, que significa postergar ou deliberadamente atrasar pagamentos para fazer jus a gastos mais urgentes ou obrigatórios, como a folha. Não vislumbro possibilidade de haver equilíbrio orçamentário nos próximos anos.

 

Folha – Fala-se muito da reforma administrativa. Que o governo Jair Bolsonaro (sem partido) teme propor desde os protestos no Chile de 2019. Ninguém projeta que entre em pauta antes de 2021, com mudanças ao servidor só para concursos futuros, como frisa o presidente da Câmara Federal, deputado Rodrigo Maia (DEM/RJ). Campos pode esperar 35 anos até que essas novas regras, ainda nem debatidas ou aprovadas, tenham impacto em sua folha? Qual a alternativa? Cortar unidades e programas de saúde, de assistência social, creches e escolas?

Alcimar – Não existem alternativas de curto prazo, já que o estrago já foi feito. É urgente pensar o médio e longo prazo. O início deve ser uma forte reforma administrativa no presente, onde os excessos precisam ser eliminados: contratados, cargos de confiança, etc. Outro aspecto relevante são os inúmeros contratos de terceirização em diversas áreas. É preciso avaliar e eliminar o que não agrega valor à população. Profissionalizar o serviço público também é essencial e deve-se abolir a prática de administrar o município, estritamente, com o grupo partidário. Finalmente, é essencial um grande planejamento para aumentar a oferta agregada. Identificar os recursos potenciais geradores de riqueza e induzir a criação de novos negócios, além de apoiar o fortalecimento dos negócios existentes. A estratégia da tríplice hélice, com integração entre universidades, empresas e governo, além de outras organizações não governamentais, deve ser implementada para potencializar novos projetos de base em conhecimento, para aumentar o produto local/regional, com reflexos no aumento do emprego e da renda. A saída de médio e longo prazo está no trabalho produtivo e na gestão profissionalizada do serviço público.

Carlos Abraão – Não vejo como cortar os programas de saúde, de assistência social, as creches e as escolas possa ser solução para qualquer questão. Se for feito, o que teremos será um problema administrativo contornado por agravamentos de problemas nas áreas de saúde e educação, de incremento da pobreza, que irão se converter em diversos outros problemas. Há inúmeras questões de grande complexidade que começam a ser simplificadas quando descartamos as alternativas absurdas. Essa parece ser uma delas. A cidade possui um problema crônico que não será desfeito pelo mero desejo. E a resposta para isso dificilmente será dada nos próximos quatro anos.

Carlos Alexandre – Então, por certo que não há fórmula mágica. Não há solução pronta e acabada. No plano federal, a vontade do Guedes não bate com o populismo de Bolsonaro, nem com o que quer o Congresso. E o Congresso reassumiu o seu protagonismo. Essa é a dificuldade política. No campo jurídico, há os entraves de direitos adquiridos, que poderiam conviver com regimes de transição. Mas esses regimes são sempre fórmulas complexas enfrentadas e “recortadas” no Judiciário, mormente no STF. Contudo, é uma agenda que precisa avançar. Campos precisa fazer o seu dever de casa, pois esse custo não cabe em seu orçamento. Não há que se cortar gastos no plano social, até porque, salvo melhor juízo, a maior parte desses recursos decorrem de transferências federais. Por certo que os cortes devem começar pelos cargos de confiança e congêneres, inclusive na Câmara de Vereadores, passando pelos autônomos, depois buscando a reforma administrativa propriamente dita. A equação é difícil porque autônomos são soluções temporárias para eventual falta de servidor. É sempre politicamente difícil, mas é urgente essa mudança. Os recursos fazem falta à infraestrutura e aos serviços básicos. Porém, por mais política e culturalmente difícil que seja essa fórmula, ela precisa começar a ser debatida.

Igor – A pandemia, dentre outros danos, talvez atrase por um longo tempo uma das mais urgentes reformas necessárias, a reforma administrativa. Por outro lado, o estrago financeiro causado no erário pode forçar mudanças mais ousadas que tentem acelerar a economia de recursos públicos e o aumento da produtividade. Caso a demora venha acompanhada de uma tímida alteração das regras, amargaremos longos anos de penúria fiscal e baixa qualidade na entrega de serviços públicos; o que pode significar corte de programas, ausência de reposição de servidores e uma política de contenção de aumentos salariais e reajuste no valor de contratos públicos. Nesse cenário, a esperança estaria em um novo boom econômico ou outra escalada de preços do petróleo, cenários cada vez mais improváveis.

 

Folha – No Código Civil de 2002 há a resolução da “onerosidade excessiva”, de aplicação sempre controversa. Seria um caminho à insolvência financeira dos entes federativos, pior no Estado do Rio e em Campos, pela dependência do petróleo? Ou em tempo de crise com a pandemia da Covid, seria o momento de o Estado em suas três esferas romper com a austeridade e assumir o papel de indutor da economia, como preconizava John Keynes?

Alcimar – Não existe possibilidade de evolução econômica, considerando, fundamentalmente, a inovação tecnológica, sem a presença do mercado. São as empresas que garantem riqueza, daí a necessidade de liberdade de mercado com regras institucionais claras. Observe que nesse ambiente o estado é importante e precisa ser competente, além de gerar confiança para os agentes e atores envolvidos. O Estado já tem, naturalmente, o papel de indutor do desenvolvimento, porém precisa exercer competência. Sem liberdade e conhecimento cientifico não existe evolução econômica e possibilidade de bem estar social.

Carlos Abraão – É valido pensar sobre os resultados que estamos obtendo com as medidas de austeridade. Obtivemos melhoras na saúde ou na educação? Nosso IDH sofreu alterações positivas? Tais medidas reduziram a concentração de renda? As finanças caminham para um equilíbrio? A resposta é negativa para todas as questões. O Brasil vive um momento onde o Estado é apontado como fonte de todos os problemas, morais e econômicos. O setor privado é muitas vezes pensado como algo positivo e eficiente. E isso não se confirma nem de um lado, nem de outro. O Estado pode e deve ter papel central como motor propulsor da economia, gerando empregos e fazendo girar o capital; mas, sobretudo, descentralizando os recursos, que não podem ficar disponíveis apenas para grandes empresários.

Carlos Alexandre – O transplante de soluções próprias do setor privado para o setor público é um processo longe de ser consolidado no Brasil. Em diferentes países, há decretação de falência de entes políticos. Mas vejo como muito distante a possibilidade dessas práticas avançarem no país. Romper com a austeridade pode ser uma saída, desde que não se caia numa austeridade seletiva, como as dos governos Temer e Bolsonaro. Soluções keynesianas dependem de recursos, e isso passa pela minha primeira resposta: maior endividamento público. Não tenho a ilusão ideológica do orçamento deficitário como um mal. Portanto, pode ser um caminho, mas há de se ter cuidado com o preço da captação desses recursos. Ademais, o modelo de parcerias público-privadas precisa passar a ser perseguida em nosso município.

Igor – Há a necessidade urgente de alterações que tragam equilíbrio ao orçamento público quanto à política de pessoal. Isso significa balizar as regras e equilibrar as diferenças entre o setor público e o setor privado. Porém, um rompimento de obrigações repentino não é desejável. Entendo que o melhor caminho seja uma PEC que proponha alterações também para regras vigentes, mas que seja amplamente debatida no Congresso e pela sociedade. Quanto ao Estado como indutor do desenvolvimento, a grande dificuldade nesse momento é o retumbante fracasso dessa abordagem através de políticas equivocadas implantadas de 2008 a 2015, que custaram centenas de bilhões de reais que poderiam ser mobilizados neste momento de pandemia.

 

Folha – Ao programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, todos os pré-candidatos a prefeito de Campos entrevistados falaram em necessidade de redução da máquina municipal. Até a ex-vereadora Odisséia Carvalho, do PT, partido tradicionalmente ligado aos servidores públicos. Mas nenhum deles deu detalhes de como e onde. Qual a sua visão?

Alcimar – Discursos políticos, sem nenhuma fundamentação. Na prática o candidato eleito precisa proteger os seus afilhados e o resultado é a expansão da máquina pública. A profissionalização do serviço público passa pela identificação e seleção dos melhores quadros, em termos de competência, para viabilizar uma boa gestão pública. Infelizmente, essa não é uma prática.

Carlos Abraão – Não acredito que o problema será solucionado na próxima gestão, seja ela qual for. O simples fato de nenhum dos entrevistados ter dado detalhes sobre como reduzir a máquina municipal já é um indicativo disso. Ou vamos acreditar que um raio de luz cairá sobre a pessoa eleita, no primeiro dia de 2021, para que ela resolva a questão? Os gastos da folha representam um desafio, sim. Mas é preciso ter em mente que a cidade possui diversas outras questões que podem atenuar o problema ou intensifica-lo. Afinal, quando foi que a folha de pagamentos se tornou uma questão central? Isso se deu após a redução das receitas dos royalties. A dependência do petróleo parece ser o ponto crucial, a origem de vários problemas.

Carlos Alexandre – Minha visão é que eles não sabem a fórmula, justamente porque ela não se encontra pronta e acabada em nenhum manual acadêmico ou em roteiros partidários. Eu também não sei essa fórmula. Não sou pré-candidato, então me interessa dizer que essa agenda é necessária e ponto. Agora, cabe aos futuros gestores, que hoje se lançam ao pleito eleitoral, ultrapassar o discurso, e ser analíticos em examinar os dados, os números, os cargos, os excessos, as faltas, e mesclar expertise e política na construção da reforma: quero dizer, com apoio em técnicos, iniciar e evoluir esse debate na arena política com vereadores e a sociedade civil. Sem dados e números precisos na mão, nada sai corretamente; sem vontade política, a coisa nem se inicia; sem debate democrático, a solução não será procedimentalmente legítima.

Igor – Buscar tornar a máquina eficiente e, principalmente, aumentar a produtividade de todo o setor público são práticas que terão potencial de balancear a percepção da população a respeito da situação financeira do município. E essas práticas significarão corte de despesas excessivas ou desnecessárias e um maior controle no crescimento de determinados gastos. Embora muito difíceis de serem conseguidos, pelo menos são factíveis. A redução significativa da máquina pública em nível municipal não virá sem algum tipo de ajuste na folha. E este ajuste, pelas regras de hoje, é praticamente impossível.

 

Folha – Mais visível em quem está no poder, a contradição entre o discurso de campanha e a realidade do governo é realçada na pré-candidatura à reeleição do prefeito Rafael Diniz (Cidadania). Que, em 2016, prometeu manter programas sociais, valorizar o servidor e, em 2020, enfrenta a rejeição por não ter cumprido. Em que o prefeito errou? Como ele ou qualquer outro adversário de novembro poderiam acertar entre discurso e realidade?

Alcimar – Acredito que o erro está na condição de não querer assumir riscos. O populismo acomoda as práticas políticas, segundo a trajetória de popularidade do gestor. Assumir risco é contrariar muitas vezes boa parte dos seus eleitores. Assim, dificilmente os políticos de carreira eleitos assumirão tal condição. No discurso de campanha, promessas que não são cumpridas. Essa campanha não será diferente, pelo menos em Campos, por isso a expectativa é que nada mude.

Carlos Abraão – Rafael Diniz não caiu de paraquedas na Prefeitura. Em primeiro lugar, ele é cidadão de Campos. Em segundo, e ainda mais importante: ele era vereador, sabia muito bem qual era a situação econômica do município. A questão que me surge é: ele sabia que seria eleito? Se sabia, não se preparou devidamente para o que estava por vir. Em pouco tempo de governo, ele já estava solicitando paciência e o prazo de 1 ano para começar a governar. Todavia, com cerca de seis meses ele quebrou suas promessas, fechou o Restaurante Popular e encerrou o programa social das passagens de ônibus. A gestão de Rafael está chegando ao fim e ele não cumpriu as promessas de campanha, nem as de governo, pois até hoje não temos um Restaurante Popular, nem um sistema de transporte público eficiente. Ter um planejamento de governo é algo crucial, não basta a boa vontade e a esperança de que tudo vai se resolver quando o “jogo” começar.  

Carlos Alexandre – No cenário já previsível de uma cidade sem recursos, Rafael não deveria ter prometido tanto. Prometeu, ganhou a eleição e não teve condições estruturais de cumprir toda a sua agenda. Pode pagar um preço por isso. Apesar do alto custo eleitoral, os candidatos precisam de discursos mais realistas. Porém, em se tratando de disputa eleitoral, isso pode significar cortar a própria carne. Mais uma equação difícil. Dito isso, penso que não é a realidade futura que deve se ajustar ao discurso de agora, e sim o discurso de agora à manifesta realidade porvir. Acho que a rejeição hoje de Rafael pode servir de lição a todos os pré-candidatos, inclusive ao próprio Rafael. O cenário pós-Covid pode ajudar nesse exercício de plena franqueza. Acredito que o eleitor médio tenha essa sensibilidade, só não sei se esse cálculo ganha eleições.

Igor – Embora seja necessário conceder ao discurso de todo candidato durante o período eleitoral, parece que a atual gestão negligenciou a força com que gastos contratados num passado recente se impõem sobre o orçamento. E, em paralelo, talvez tenha feito uma previsão muito otimista quanto à manutenção dos poços da bacia de Campos, cuja redução de produção junto da queda do preço do petróleo afundou as receitas do município. Com a Covid-19, tivemos a tempestade perfeita: aumento de gastos, queda de receitas e uma crise socioeconômica internacional para agravar as dificuldades orçamentárias.

 

Página 10 da edição de hoje (01) da Folha

 

Folha – Outro pré-candidato a prefeito de Campos no Folha no Ar, Roberto Henriques (PC do B) classificou de “modelo perdulário” o que teria sido instalado no município a partir do governo Arnaldo Vianna (PDT), com inchaço da máquina pública custeado pelo incremento substancial das receitas do petróleo. Para Henriques, isso foi mantido nas gestões Alexandre Mocaiber (sem partido), da qual foi vice, e Rosinha Garotinho (Pros). Concorda? Por quê?

Alcimar – Na verdade, a abundância de receitas em função dos royalties de petróleo possibilitou esse “modelo perdulário”. Uma perfeita combinação do populismo, prática que nos referirmos anteriormente, com a ausência de comprometimento dos gestores e ausência de uma gestão profissionalizada. O resultado é o que estamos colhendo no momento atual, ou seja, um município dependente de transferências com uma máquina pública super dimensionada e com uma frágil estrutura produtiva.

Carlos Abraão – Não sei se “perdulário” seria o melhor adjetivo, mas há de se reconhecer que faz sentido. Todavia, acho que “irresponsável” seria mais claro e objetivo. Sempre acreditei que os recursos originados dos royalties deveriam ter um propósito social e atuar como uma compensação às futuras gerações por aquilo que foi retirado do território. Nesse sentido, os recursos dos royalties deveriam ter sido investidos para promover um legado que seria usufruído no presente e, sobretudo, no futuro. Isso aconteceu? O que sobrou da época de farturas? Houve responsabilidade no emprego das verbas? Quando um cidadão campista pode dizer “felizmente temos isso aqui, que foi algo realizado na época boa dos royalties e dura até hoje”? Pois é. Dito isso, só nos resta discutir se fica melhor chamar de perdulário, irresponsável ou qualquer outro adjetivo…

Carlos Alexandre – Nunca concordei tanto! Sempre pensei que o governo Arnaldo foi uma oportunidade perdida de Campos, o que se agravou com Mocaiber e se manteve com Rosinha. Sempre tive sérios problemas com a falta de apreço dos Garotinhos pela democracia campista, sempre buscando a sucessão por meio de aliados; que, depois, se tornavam adversários. Contudo, sob a perspectiva das finanças públicas, acho que Arnaldo e Mocaiber iniciaram o processo de afundar o futuro do município. Gastaram sempre mal, tanto do ponto de vista dos preços praticados, como dos objetivos perseguidos. Vejo hoje esses governos como “grandes desordens financeiras”. E isso não é um elogio ao governo Rosinha, que manteve essa prática.

Igor – Concordo, mas com a observação de que a história brasileira é recheada de casos de aumento de gastos promovidos por políticos de todos os partidos e ideologias, enquanto os casos de rigor com as contas públicos são lembrados pontualmente. Ainda, é possível localizar casos em que o mesmo político figura nas duas pontas: da responsabilidade fiscal e do excesso de gastos. O exemplo mais recente é a diferença de abordagem entre os governos Lula I e Lula II.

 

Folha – A conta do desperdício dos royalties começou a chegar no final de 2014, com a queda do preço do barril de petróleo. Não por acaso, a partir dali o governo Rosinha realizou suas três “vendas do futuro”. Os garotistas tentam minimizar seu impacto, que comprometeram as receitas do petróleo de Campos até julho 2026. Como você avalia?

Alcimar – Na verdade, o ponto de inflexão na trajetória da produção de petróleo ocorreu em 2009. Neste ano a Bacia de Campos tinha uma participação de 85% da produção nacional e a partir desse ponto teve início um declínio gradual, até o maior impacto em 2014 com a crise internacional. A Bacia de Campos fechou o ano de 2019 com uma participação de 37,9% na produção de petróleo do país. A ausência de maior competência da gestão pública que ignorou o planejamento, escondeu o declínio gradual a partir de 2009 e realmente só sentiu com a forte crise de 2014, quando a situação já era irreversível. Mesmo assim, cinco anos depois a situação continuou a mesma. Nada de novidades! Quanto à gestão anterior e à atual, identifico um ponto importante, relativo à sua capacidade de investimento. No período de 2009 a 2016, Campos investiu em média 16,6% das receitas correntes. Na gestão atual, a média de investimento ficou em torno de 1,7% das receitas correntes. Trata-se um problema grave!

Carlos Abraão – Não é possível minimizar o impacto das “vendas do futuro” para Campos. A cidade possui um histórico monocultor, viveu quase todo o século XX dependendo da produção de cana-de-açúcar e migrou, no final do século, para a dependência do petróleo. Dependente de um mercado que não controla, Campos se viu em péssima situação quando ocorreu a desvalorização do barril do petróleo e, com os empréstimos contratados, assumiu uma dívida que perturba mensalmente o orçamento da cidade. A folha salarial não deixaria de ser uma questão se não tivéssemos o pagamento dessa dívida, mas ela teria outro peso no orçamento. O tal “futuro” virou “presente” de forma rápida e não houve geração de receita para tapar o buraco. Aí está algo que o prefeito Rafael Diniz pode chamar de “herança maldita”.

Carlos Alexandre – É uma forma de endividamento público, algo que penso ser necessário hoje. Portanto, não sou conceitualmente contrário se foi algo necessário para o momento. Resta saber como esses recursos foram aplicados, se geraram ganhos de bem estar para as gerações hoje prejudicadas com a conta, ou se só favoreceram pequeno grupo. Pelo legado, me parece que foi o segundo caso. Portanto, o problema não está essencialmente em como captaram os recursos, mas em como foram realizados os dispêndios. Alguns, me parece, até geraram novos dispêndios.

Igor – As operações de crédito realizadas pela Prefeitura, sem dúvidas, trazem um impacto de longo prazo para as finanças municipais. Entretanto, quando, em 2014, tivemos a queda de 50% no valor do barril de petróleo conjugada com o início do mal-estar econômico nacional, a sua realização era inevitável. O injustificável foi o desperdício de recursos, por exemplo, em obras faraônicas sem qualquer necessidade e cujo valor de mercado hoje pode ser negativo, gastando valores que deveriam ter servido para constituir um fundo municipal de emergência para períodos de maior dificuldade. O Cepop e a Cidade da Criança são monumentos ao desperdício de recursos. E devem servir, pelo menos, como um lembrete da necessidade de maior zelo pelo dinheiro público.

 

Folha – Além das “vendas do futuro”, o relatório da CPI do PreviCampos revelado na Câmara Municipal, na última terça (28), apontou (confira aqui) um desfalque de R$ 500 milhões na previdência do servidor durante o governo Rosinha. Fruto dele, o município tem que colocar todo mês R$ 6 milhões para manter as aposentadorias e benefícios em dia, além dos R$ 4,5 milhões da contribuição patronal e outros R$ 4,5 milhões dos previdenciários. Como estancar a sangria?

Alcimar – A regularização depende de uma gestão eficiente do fundo e, enquanto não for autossuficiente, é necessário o ingresso de valores. Agora, no âmbito geral do orçamento, não tem mágica. As receitas correntes caíram 44,01% em termos reais de 2011 a 2019. As despesas correntes caíram somente 23,79% no mesmo período. Como podemos ver, o problema vem se arrastando no tempo e não tem solução imediata. Uma reforma administrativa, conforme já falamos, é urgente, assim como o planejamento e indução ao aumento da oferta agregada que vai possibilitar mais produto, emprego, salários e tributos.

Carlos Abraão – O relatório da CPI do PreviCampos ainda terá muitos desdobramentos: políticos e judiciais. O desfalque ali realizado cria mais um gasto para o município, gasto que poderia ser empregado em diferentes políticas sociais. Independente dos desdobramentos judiciais, parece pouco provável que o município consiga reaver as quantias que foram retiradas do PreviCampos, o que significa que a cobertura dessa dívida tende a ser incorporada, como tem sido, aos gastos da Prefeitura. Tal relatório parece refletir, de modo explícito, os maus usos do dinheiro público em Campos dos Goytacazes, bem como os efeitos deletérios da luta entre grupos políticos que se alternam no poder há mais de 40 anos.

Carlos Alexandre – Aí já me pareceu um caso criminal. Das informações que tenho, foi um tipo de pedalada. Houvesse tempo, poder-se-ia falar até em impeachment, pelas poucas informações que tenho. Uma das soluções, que acho que não deva ser adotada, seria aumentar as contribuições dos ativos. Mas nunca acho que aumentar tributos seja a solução adequada. Privatizar parte da carteira pode ser outra solução, resta saber se é possível encontrar quem queira investir e se isso será seguro para o servidor. Fora isso, não vejo alternativa senão o planejamento orçamentário.

Igor – Dada a recente apresentação do relatório, ainda não tenho informações suficientes para opinar. E, desta forma, só posso desejar que a questão seja tratada com seriedade e rigor pelos vereadores. De forma geral, o cenário econômico que se desenha já será desafiador para todos os fundos de pensão que possuem comprometimento com um benefício definido. O sacrifício financeiro através de maiores capitalizações é inevitável. Mas isso não será suficiente. Uma governança rígida que impeça a malversação dos recursos será essencial para a saúde financeira de longo prazo desses fundos.

 

Folha – Marcadas para este mês e setembro, se as convenções fossem hoje, o candidato garotista a prefeito do PSD seria o ex-vereador Fábio Ribeiro, não o deputado federal Wladimir Garotinho, como a Folha divulgou em primeira mão em 25 de julho. Isso deve ser encarado como a confissão política de que o quadro da Prefeitura é financeiramente insolúvel?     

Alcimar – Insisto que qualquer candidato eleito precisa ter a consciência de que a solução para os graves problemas do munícipio, exige uma mudança radical no formato de gestão. É preciso coragem, comprometimento e capacidade para assumir risco. Dessa forma o famigerado populismo precisa ficar longe. Estou falando na urgência de profissionalização da gestão pública. É como se fosse uma empresa privada, só que no serviço público o benefício coletivo ocupa o lugar do lucro.

Carlos Abraão – Não tenho como afirmar que seja uma confissão política de que o quadro financeiro é insolúvel, mas o argumento é forte. Wladimir Garotinho é deputado e tem mais dois anos de mandato pela frente. Talvez seja mais promissor para a cidade tê-lo como deputado, atuando por causas da cidade, do que como prefeito. Isso, todavia, é uma forma muito idealista de encarar a situação. A ausência de Wladimir no pleito eleitoral cria, de antemão, uma mácula sobre o nome que o substitui. O problema financeiro, todavia, não foi suficiente para afastar as intenções dos outros candidatos, que não são incautos, mas também não apresentaram, até o momento, soluções razoáveis para muitos dos problemas da cidade. Não há indícios de prosperidade num futuro próximo.

Carlos Alexandre – À primeira vista, sim. Talvez, Wladimir não queira passar pelo que Rafael esteja passando. Até porque, Wladimir pode estar entendendo ser mais útil para Campos, e para ele politicamente, continuar a ser um deputado federal que obtém recursos federais para o município enfrentar a crise pós-Covid. Acho que ele sai mais fortalecido nesse papel do que administrando as finanças municipais nesta crise.

Igor – Sem dúvidas, a ausência de Wladimir é um indicativo da penúria pela qual tendemos a passar nos próximos anos. O ônus político de um ajuste fiscal ou, mais provável, da perspectiva de quatro anos de desgaste com uma série de grupos organizados e com a sociedade não é convidativo para ninguém. Muito menos para o deputado que ainda possui dois anos de mandato e com chances consideráveis de reeleição.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha – Em valores corrigidos pelo INPC, Campos recebeu de royalties e participações especiais (PEs) R$ 4,67 bilhões de 1999 a 2004, com Arnaldo; 6,94 bilhões de 2005 a 2008, com Mocaiber; e 12,06 bilhões de 2009 a 2016, com Rosinha. Em conta que desce a ladeira para 2021, Rafael teve, até o 1º trimestre de 2020, R$ 1,84 bilhão. Juntos, os três prefeitos anteriores tiveram R$ 23,67 bilhões. Acredita que os quase 600 mil campistas tenham a noção da chance histórica que a cidade desperdiçou? Qual seu legado, além de uma máquina inchada e insustentável?

Alcimar – Vivemos em um estágio da democracia em que boa parte dos eleitores, o suficiente para eleger prefeitos e vereadores, no caso do município, não tem a dimensão real desses valores, além de não ter consciência do seu papel como eleitor. Viraram presa fácil do processo e se acomodaram à condição de uma subordinação perversa. Esse grupo se contenta com favores diversos, tais como cesta básica, contrato de baixo salário, consulta médica, internação hospitalar, vaga em creche ou na escola para o seu filho, que são estrategicamente distribuídos entre lideranças que exercem o papel, único e exclusivamente, de manter essa parcela da população em uma perspectiva de nenhuma possibilidade de independência. Esse modelo permite total liberdade de articulação institucional entre essas lideranças, cujos reflexos vão refletir na gestão com desperdícios, no inchaço da máquina pública, na corrupção, no subdesenvolvimento e no aumento da pobreza. É o que fica, até o surgimento de movimentos orientados por ações inovativas e movidas por comportamentos éticos.

Carlos Abraão – A população tem consciência dos erros cometidos em todas as gestões. Todavia, estamos em uma cidade pobre, em diversos sentidos. E a Prefeitura é responsável, direta ou indiretamente, por boa parte da renda das famílias. Aqui, aderir a um candidato ou a outro significa apostar nas possibilidades de obter trabalho e renda ao longo da próxima gestão. Não é uma questão de ignorância política ou histórica, simplesmente; é o resultado de uma disputa de poder, em um contexto de pobreza, que leva muitas pessoas a tornarem a política não uma questão de planejamento para o bem coletivo, mas sim como uma forma de obter recursos no curto prazo. Um bom exemplo foi o áudio vazado, recentemente, de um vereador de Campos explicando como pressiona seus funcionários contratados para que obtenham votos para ele. Seria essa a função de um vereador? Seria essa a função de seus assessores, trabalhar para que ele obtenha votos? O que a população de Campos perdeu com o uso irresponsável dos royalties foi um conjunto de oportunidades para superar a dependência da Prefeitura e do petróleo. Qual foi o legado? Não sei, acho que, quando a pandemia passar, deveríamos refletir sobre isso sob os arcos do Canal Campos-Macaé. Que, apesar da maquiagem, continua sendo chamado de valão.

Carlos Alexandre – Então, foi o que eu falei de “oportunidades perdidas”. Não acho que todos tenham essa noção, apenas os mais esclarecidos. Mas, realmente, não há como negar que, em vez de estruturar a cidade, apenas conseguiram uma mágica perversa: com muitos recursos em mãos, gastaram sem melhorar o passado e o presente, mas apenas criando mais dispêndios para o futuro. Mas não acho mesmo que isso possa ser tido como um salvo conduto eleitoral para Rafael: a maior parte de seus eleitores acreditava que, mesmo nesse quadro, ele superaria as dificuldades como prometido. Não foi possível, e não acho que seria mesmo. Prefeito não tem como ser Super-Homem, mas apenas atuar dentro da realidade estrutural que encontra.

Igor – O mal estar generalizado é um indício de que a população entende, pelo menos de forma parcial, a grande oportunidade que perdemos nos últimos 20 anos para transformar a cidade. Os equívocos são inúmeros: a briga de diversos grupos políticos e categorias por uma fatia do orçamento. Seja ela obtida de forma legal ou ilegal, a perpetuação de práticas perdulárias ainda vai assombrar a cidade por longos anos, como a ausência de um planejamento de desenvolvimento econômico para além da dependência dos recursos públicos, dentre outros. Na ausência de um acontecimento fora das expectativas atuais, corremos o risco de lamentarmos um futuro sombrio sem ao menos termos experimentado um passado glorioso.

 

Página 11 da edição de hoje (01) da Folha

 

Publicado hoje (01) na Folha da Manhã

 

Quem vai pagar a conta de Campos dos Goytacazes?

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

“A pergunta mais embaraçosa para mim diz respeito ao futuro do município. Não consigo avaliar as possibilidades de tantos candidatos desprovidos de condições para governar. Sei que os discursos são necessários, mas estou cansado deles”. Foi como o historiador Arthur Soffiati, professor aposentado da UFF-Campos, se posicionou sobre as eleições a prefeito da cidade em 15 de novembro. E, ao que tudo indica, no segundo turno do dia 29 do mesmo mês. A análise se deu em um painel publicado (confira aqui) em 12 de julho no blog Opiniões, hospedado no portal Folha1.

 

Arthur Soffiati, Carlos Alexandre de Azevedo Campos, Cristiano Miller, George Gomes Coutinho, Murillo Dieguez e Roberto Dutra (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

No mesmo painel, outros analistas opinaram sobre o pleito goitacá a prefeito. “O cenário eleitoral para Campos ainda está muito indefinido. Definida mesmo parece estar a ampla visão negativa sobre o governo, o que deve impossibilitar a reeleição do prefeito”, disse o sociólogo Roberto Dutra, professor da Uenf. “Em relação a Campos, penso que a indefinição é absoluta. Enquanto não houver a escolha dos nomes dos candidatos, qualquer manifestação será pura especulação”, ressalvou o advogado Cristiano Miller, presidente da OAB de Campos. “Acho que as cartas ainda não estão todas na mesa. Os próximos dois meses serão decisivos. Mas sem dúvida, a disputa será muito, mas muito mais acirrada do que foi na eleição anterior. Acho o resultado imprevisível”, complementou o também advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos, professor da Uerj e do Isecensa.

Os outros dois participantes daquele painel de 12 de julho espraiaram suas observações sobre a disputa a prefeito: “Estamos enfiados em tantos problemas que parece que a eleição não está na porta. Nas conversas que tento manter sobre o assunto, percebo desinteresse e até um certo descaso. Entendo que esta eleição será vital ao nosso futuro. Por isso, muito me preocupa esse desânimo”, disse o empresário, colunista da Folha da Manhã e especialista em pesquisas Murillo Dieguez. E foi confirmado pela reação do leitor àquela entrevista coletiva. Cujo link no Folha1 (confira aqui) gerou 50 comentários, 24 deles pregando voto nulo, ou simplesmente pagar a multa e sequer ir votar em novembro. Por fim, quem opinou foi o cientista político George Gomes Coutinho, outro professor da UFF-Campos:

— Dadas as imposições da conjuntura, a disputa ainda não ganhou em temperatura. E, o que é bastante sério, ainda não me parece que derivou em formulação de projetos, propostas para a cidade. Espero que este ponto, o que verdadeiramente importa, seja sanado pelos interessados nas próximas semanas. Campos necessita de algo mais do que improvisos, medidas pontuais, personalismos. Campos precisa de ação sistemática para lidar com as suas demandas — disse George. Que de certa maneira pautou os painéis seguintes, de atendimento às demandas do município. A principal delas, a econômica, se reflete no atraso de seis meses de pagamento dos RPAs. E abriu o painel seguinte, publicado (confira aqui) na Folha em 18 de julho. Como administrar Campos a partir de 2021, cujo previsão orçamentária é de R$ 1,7 bilhão, mas pode cair para até R$ 1,5 bilhão, com R$ 1,1 bilhão só com folha de pagamento de servidores?

 

Hamilton Garcia, Igor Franco, João Paulo Granja e Ricardo André Vasconcelos (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

— Cortar gastos com a máquina (…) e aumentar os investimentos públicos para o desenvolvimento, atraindo capitais privados e melhorando a utilização dos recursos aplicados em todas as esferas de governo. O que exige também reformas constitucionais, em todos os níveis, que dificilmente terão curso na ‘normalidade política’ do atual sistema de poder”, apontou o cientista político Hamilton Garcia, professor da Uenf. “A solução aritmética para nosso orçamento beira o impossível (…) O corte possível no gasto discricionário já vem sendo feito há alguns anos, convertendo o gestor público em um gerente de caixa, postergando pagamentos ao longo do ano para que seja possível priorizar determinadas despesas — alertou o especialista em finanças Igor Franco, professor da Estácio.

Os dois outros ouvidos daquele segundo painel de 18 de julho relembraram os erros graves do passado como causa dos graves problemas financeiros presentes. Que dão medo a todos os que sabem fazer contas ao projetar o futuro de Campos. “Talvez o maior pecado de nossos últimos governantes tenha sido supor que os royalties do petróleo fossem infinitos. E, pensando que esta receita iria abarrotar os cofres públicos eternamente, os tenha feito inchar a máquina pública de uma tal forma que, atualmente, não se consegue arcar com os mais básicos compromissos”, apontou o advogado João Paulo Granja. “Na tarefa árdua de administrar uma massa falida, não tem receita mágica. Quando o dinheiro sobrava os prefeitos esbanjaram com obras desnecessárias e pouco ou nenhum investimento em projetos que dessem frutos depois (…) Mas o que fazer, se do R$ 1,6 bilhão/ano a folha de pagamento consome R$ 1,1 bilhão?”, devolveu a pergunta o jornalista Ricardo André Vasconcelos.

Diante de uma solução aritmética para Campos beirando o “impossível” para Igor, com a equação devolvida sem resposta por Ricardo André, um terceiro painel foi feito e publicado hoje (confira aqui), nas páginas 10 e 11 desta edição. Nele, a eleição a prefeito de novembro teve foco exclusivo na grave situação financeira do município. Que foi reforçada pelos números didaticamente apresentados pelo economista Alcimar Ribeiro, professor da Uenf: “Considerando uma retração de 8% na atividade econômica em Campos dos Goytacazes em 2020, podemos chegar a uma previsão das receitas orçamentárias em torno de R$ 1.574.074 mil. Como o valor médio das despesas com salários e encargos no período de 2011 a 2019, a preços de 2019, somou R$ 1.103.813 mil, sobrariam somente R$ 470.261 mil para as outras despesas correntes. Só que em 2019 essas despesas somaram R$785.413 mil (…) O resultado para o ano que vem seria então um déficit 20,02%”.

 

Alcimar Ribeiro, Carlos Abraão Moura Valpassos, Carlos Alexandre de Azevedo Campos e Igor Franco (montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Como os números não devem esconder a face humana por trás deles, o antropólogo Carlos Abraão Moura Valpassos, professor da UFF-Campos lembrou o peso social que podem ter os eventuais cortes: “Não vejo como cortar os programas de saúde, de assistência social, as creches e as escolas possa ser solução para qualquer questão. Se for feito, o que teremos será um problema administrativo contornado por agravamentos de problemas nas áreas de saúde e educação, de incremento da pobreza, que irão se converter em diversos outros problemas (…) A cidade possui um problema crônico que não será desfeito pelo mero desejo. E a resposta para isso dificilmente será dada nos próximos quatro anos”. Diante do dilema, o advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos foi convocado novamente ao debate:

— Não há que se cortar gastos no plano social, até porque, salvo melhor juízo, a maior parte desses recursos decorrem de transferências federais. Por certo que os cortes devem começar pelos cargos de confiança e congêneres, inclusive na Câmara de Vereadores, passando pelos autônomos, depois buscando a reforma administrativa propriamente dita. A equação é difícil porque autônomos são soluções temporárias para eventual falta de servidor. É sempre politicamente difícil, mas é urgente essa mudança. Os recursos fazem falta à infraestrutura e aos serviços básicos. Porém, por mais política e culturalmente difícil que seja essa fórmula, ela precisa começar a ser debatida.

Outro reconvocado ao painel de hoje, dado o seu eixo econômico, foi o especialista em finanças Igor Franco. Segundo ele, não há nada de novo no front: “Sob o prisma do orçamento público, se passa a falsa a impressão de que apenas boas práticas e ética são suficientes para resolver o problema financeiro. A complexidade da questão é muito maior e envolve uma série de regras construídas por décadas, que privilegiam o crescimento real das despesas públicas ao longo dos anos. A solução da Prefeitura será a continuidade da gestão de caixa, que significa postergar ou deliberadamente atrasar pagamentos para fazer jus a gastos mais urgentes ou obrigatórios, como a folha. Não vislumbro possibilidade de haver equilíbrio orçamentário nos próximos anos”.

 

Publicado hoje (01) na Folha da Manhã

 

Como a Folha adiantou, Fábio Ribeiro vai ao Rio pela benção de Garotinho a prefeito

 

(Facebook de Fábio Ribeiro)

Ontem (25), na matéria em que este Opiniões e a Folha da Manhã adiantaram (confira aqui) que o ex-vereador Fábio Ribeiro (PSD) deve assumir a pré-candidatura do garotismo a prefeito de Campos, no lugar do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD), foi revelado que no mesmo dia um encontro estava marcado no Rio para definir a questão. Nele, sem Wladimir, Fábio foi pedir a benção do cacique do grupo, o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido), para disputar a eleição majoritária de novembro na planície goitacá. Neste domingo (26) Fábio divulgou em suas redes sociais uma foto sua do encontro carioca de sábado com Garotinho, na qual admitiu: “Uma conversa sobre o futuro de Campos sim, mas sobretudo sobre amizade, lealdade e paz!”.

Nas redes sociais da planície goitacá, onde a matéria de sábado viralizou e teve conteúdo copiado por sites locais, muitos comentários foram feitos. Inclusive em apoio à pré-candidatura de Fábio, evidência de que esta não começou ontem e já conta com sua base de defensores virtuais. Na página do Opiniões no Facebook, até o início da noite de hoje, o link da matéria já tinha gerado gerado (confira aqui) mais de 144 comentários. Neles, a nova pré-candidatura garotista a prefeito de Campos teve apoio. Mas também críticas:

—  Fábio Ribeiro é o melhor candidato, administrou a secretaria de Administração por longos anos. É o único que tem experiência, é um cara sério, é advogado — defendeu a leitora Ivone Carvalho. E foi questionada abaixo por outro comentarista:

— Ivone Carvalho, administrou o quê? Porque na nossa Campos dos Goytacazes RJ não vejo nada de administração. Há décadas que nossa cidade está sendo destruída com essa turma gafanhotos — criticou Maria de Fátima Crespo Fernandes.

— Fabio Ribeiro é a pior espécie de ser humano que já conheci. Quando foi secretário parecia estar com um rei na barriga. Quer conhecer melhor a fera? Caminhem com ele no lugar onde foi criado, em Rio Preto. Em toda aquela região, ninguém gosta — desafiou o comentarista Maurício Manhães. E foi contrastado logo abaixo por um defensor do ex-secretário da ex-prefeita Rosinha Garotinho (Pros):

— Discordo desse comentário acima citado. Eu pessoalmente não tenho nada a falar do Fábio. Pelo contrário, me atendeu várias vezes no seu gabinete. E me ajudou nas coisas que eu necessitei como servidor da PMCG. Muitas pessoas queriam coisas, além do que ele podia ajudar. Ele era bem sincero. E dizia: isso eu não posso. As pessoas saíam falando mal do cara. Isso eu achava totalmente errado. Pelo ao menos ele sempre foi correto nas palavras. Gosto muito da pessoa dele. Será um bom candidato — defendeu Moyses Lima.

Houve outros que não gostaram da mudança. E chegaram a declarar que só votariam no grupo dos Garotinho a prefeito se Wladimir fosse o candidato:

— Pior que Fábio Ribeiro vai ser igual a Chicão (Oliveira, candidato garotista a prefeito de Campos em 2016). É melhor deixar Wladimir mesmo — aconselhou Isaías Marques.

— Se Wladimir não vier como prefeito de Campos dos Goytacazes RJ não voto em ninguém — firmou posição Lusia Fátima.

— Não acredito nisso. Se Wladimir não for candidato não voto em ninguém! — garantiu Joilma Barbosa.

— Eu só voto na família (Garotinho). Aliado não — diferenciou Marinete Marques.

Em contrapartida, houve não só quem apoiasse Fábio como pré-candidato garotista, como tenha aproveitado para fazer críticas a Wladimir:

— Fábio Ribeiro, um homem honrado, honesto e trabalhador. Diferente do herdeiro dos rosetas, que nunca teve uma carteira de trabalho assinada — alfinetou Heloercio Batista.

O mesmo leitor fez depois outro comentário, definindo o que é apontado nos bastidores como principal motivo para Wladimir desistir da pré-candidatura a prefeito de Campos:

— Vocês acham que Garotinho vai deixar o filho pegar uma Prefeitura falida e endividada como essa de Campos dos Goytacazes? Ele e a Roseta afundaram nossa cidade — complementou Heloercio. E teve o reforço em comentário abaixo, ao criticar Wladidmir pela suposta desistência:

— Heloercio Batista, se (Wladimir) amasse realmente nosso município, aceitaria o desafio. O negócio é que esvaziaram os cofres e agora preferem posar de bonzinhos! — acusou o leitor Valdir Fuly.

— Já estão com medo da decepção mais uma vez. Usaram Dr. Chicão de bucha, agora vem Fábio — concluiu Nilton Rangel.

 

Sai Wladimir e entra Fábio Ribeiro a prefeito? O que muda na conta de Campos?

 

Wladmir Garotinho, Fábio Ribeiro, Edson Batista e Paulo Hirano (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

“Política é como nuvem. Você olha e está de um jeito. Olha de novo e ela já mudou”. A definição do falecido ex-governador mineiro Magalhães Pinto virou jargão da política por ser a sua melhor definição. Entre 31 de agosto e 16 setembro, se darão as convenções partidárias. Em Campos, as movimentações desta semana se intensificaram sobre o que o eleitor vai encontrar como opção nas urnas de 15 de novembro. Se fosse hoje, elas talvez não trouxessem um dos pré-candidatos considerados mais fortes ao Executivo. Quem quisesse votar a prefeito no representante dos ex-governadores Garotinho e Rosinha, poderia ter que fazê-lo não no deputado federal Wladimir Garotinho (PSD), mas no ex-vereador Fábio Ribeiro, do mesmo partido. Que traria como vice um ex-vereador rosáceo de “cabeça branca”: Edson Batista ou Paulo Hirano. Caso se confirme, a troca trará alterações profundas na disputa a todos pré-candidatos a prefeito, inclusive outros também considerados competitivos, como Caio Vianna (PDT) e o atual ocupante da cadeira, Rafael Diniz (Cidadania). Mas a pergunta sem resposta matemática permaneceria a mesma a qualquer um: como administrar uma cidade com orçamento previsto em abril para R$ 1,7 bilhão em 2021, que pode cair até a R$ 1,5 bilhão por conta da crise econômica advinda da pandemia da Covid-19, com R$ 1,1 bilhão já comprometido só com a folha de pagamento dos servidores?

Anthony Garotinho

Em busca de resposta não à indagação fundamental para quase 600 mil almas, mas à chance de poder ser candidato, Fábio Ribeiro hoje vai se encontrar no Rio com Garotinho, que busca impor a candidatura ao filho Wladimir. Este não estará presente, para evitar atritos com o pai. Nos bastidores circula o pensamento: deputado de bom mandato na Câmara Federal, Wladimir perderia a prefeito de qualquer maneira. Menos, todavia, se desistisse da pré-candidatura do que se saísse derrotado nas urnas de novembro. Com uma carreira política promissora, Wladimir poderia perder ainda mais se for candidato em 2020 e ganhar. O que o obrigaria a enfrentar em 2021 a realidade de queda nas receitas do petróleo, mais a crise econômica mundial da Covid, mais a herança financeira ao município deixada por seus pais.

Fred Machado

Parte desta será revelada na divulgação do relatório da CPI do PreviCampos, marcada para às 14h desta terça (28). O rombo deixado, segundo o presidente da Câmara Municipal, vereador Fred Machado (Cidadania), adiantou no Folha no Ar de ontem (24), é de cerca de R$ 500 milhões. Isto em valores não corrigidos.

Arnaldo Vianna

As dificuldades que Wladimir teria pela frente, caso se elegesse a prefeito de Campos em novembro, não seriam diferentes a nenhum outro governante que sair das urnas. Ele só teria a dificuldade adicional das cobranças que o pai poderia fazer, caso não seguisse suas orientações de como governar. O que não seria constrangimento para Fábio, pelo menos enquanto candidato, por não ser dono do capital eleitoral necessário para chegar à Prefeitura. Também sem mandato eletivo, embora bem votado a prefeito em 2016 e a deputado federal em 2018, Caio não tem nada a perder voltando a se candidatar ao Executivo goitacá. Mesmo contra Wladimir, a baixa rejeição do filho do popular ex-prefeito Arnaldo Vianna (PDT) é considerada sua maior arma para vencer a eleição em um eventual segundo turno.

 

Caio Vianna e Rafael Diniz (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A situação de Caio é oposta à de Rafael, com quem disputou e perdeu a crista da onda do antigarotismo em 2016. Vencedor daquele pleito em turno único, o prefeito enfrenta a rejeição por ter prometido na campanha o que não pode cumprir no governo. E hoje parece não ter saída política a não ser se candidatar à reeleição. Com decisões administrativas questionadas nos últimos três anos e meio, em meio a uma crise financeira cuja face mais cruel é a falta de pagamento dos RPAs nos últimos seis meses, Rafael parece ter diminuído a rejeição por conta da atuação firme no enfrentamento à pandemia da Covid. Mas esta reavaliação a partir da inauguração do CCC, em 30 de março, é ainda restrita à classe média. À maioria da periferia, em que se espraiou a “onda verde” de 2016, a reação de decepção é emocional. E consideravelmente mais difícil de ser revertida pela racionalidade dos números.

 

Aberto em 30 de março, o Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC) impediu que o sistema de saúde de Campos colapsasse com a pandemia da Covid-19 (Foto: Divulgação)

 

Rosinha Garotinho

Se Wladimir decidir que não deve ser candidato a prefeito, e conseguir convencer seu pai disto, caberá à sua mãe, a também popular ex-prefeita Rosinha, a tarefa de levar Fábio Ribeiro embaixo do braço na campanha. Sobretudo na periferia, área de maior penetração histórica do garotismo. Se já não seria fácil, a missão terá a dificuldade extra das limitações de contato físico da Covid. Contra a desistência de Wladimir, está o fato de que ela seria encarada e explorada como a confirmação do que Rosinha chegou a admitir, em ato falho, em live nas redes sociais em plena campanha de 2016: “Campos está no buraco”. Constatação reforçada por Garotinho em dezembro daquele ano, com a eleição já perdida, quando “profetizou” que Rafael não conseguiria pagar os salários dos servidores a partir de maio de 2017.

 

Roberto Henriques, Alexandre Tadeu, Odisséia Carvalho, Lesley Beethoven, Cláudio Rangel e Jonathan Paes (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr)

 

Há outros atores com ânsia de protagonismo: o ex-prefeito Roberto Henriques (PC do B), os ex-vereadores Alexandre Tadeu (Republicanos) e Odisséia Carvalho (PT), Lesley Beethoven (PSDB), Cláudio Rangel (PMN) e Jhonatan Paes (PMB). Henriques foi prefeito por 43 dias em 2008, no afastamento temporário de Alexandre Mocaiber do cargo, e se elegeu deputado estadual em 2010, com o apoio do então prefeito Nelson Nahim, que governou mais tempo no afastamento de Rosinha. Tadeu deve contar com o apoio fiel da Igreja Universal e espera ter o apoio do clã Bolsonaro, após o seu partido abrigar o senador Flávio e o vereador carioca Carlos. Odisséia encara a missão de dar visibilidade à sua legenda, na disputa por uma cadeira na Câmara de Campos. Beethoven, após conseguir o comando do PSDB local pelo qual tanto lutou, tentará algo parecido. Cláudio e Jonathan têm pouca densidade. Todos ambicionam chegar lá, o que é legítimo. Como é brigar pelo máximo possível de votos no primeiro turno para cacifar seu apoio entre os dois que forem ao segundo. Mas, com o naufrágio anunciado do governador Wilson Witzel (PSC), a grande surpresa de 2018 é muito difícil de ser repetida.

 

Wilson Witzel ainda candidato a governador em 2018 (Foto: Folha da Manhã)

 

Marcelo Mérida

A situação cada vez mais difícil do ocupante do Palácio Guanabara tem reflexos diretos sobre as outras pré-candidaturas a prefeito de Campos. A mais óbvia é na do líder lojista Marcelo Mérida pelo PSC. Mas também sobre as articulações do relator da comissão que analisa o pedido de impeachment do governador na Alerj, deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD). Ao lançar como pré-candidato o juiz aposentado Pedro Henrique Alves, ele tencionava repetir o fenômeno do ex-juiz federal Witzel. Como não foi registrada, pesquisa recente a prefeito de Campos pelo instituto Paraná não pode ter os números divulgados. Mas não apontou nada que ninguém já não soubesse. E o fato de ter sido encomendada pela Alerj com o nome da médica Cândida Barcelos como prefeitável do SD indica que o magistrado está fora do jogo.

 

Rodrigo Bacellar, Pedro Henrique, Cândida Barcelos, Igor Pereira e Éber Silva (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O problema é que Cândida também teria decidido esta semana não concorrer a prefeita, o que acendeu a luz ao vereador Igor Pereira (SD). No Folha no Ar da última quarta (22), ele reafirmou sua intenção de disputar a reeleição. E não é segredo que sonha suceder a Fred Machado na presidência da nova Legislatura. Mas, no streaming do programa ao vivo, alguns simpatizantes do edil lançaram em comentários seu nome a prefeito, possibilidade que ele não assumiu, nem negou. Seu aliado Rodrigo era considerado o principal articulador da pré-candidatura de Caio, até os dois romperem. Ao que consta, após o pedetista ter se recusado a deixar o deputado indicar o vice da chapa e aceitar um acordo prévio para fazer de Igor o próximo presidente da Câmara. O filho de Arnaldo receava ser feito de refém, como o então prefeito Alexandre Mocaiber foi do pai de Rodrigo, Marcos Bacellar, quando este presidia a Casa do Povo. Enquanto o SD não se define, quem espera na possibilidade de aliança é o DEM do ex-deputado federal Pastor Éber Silva, pré-candidato a prefeito restante.

 

(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Assim foi como as nuvens pareceram esta semana sobre a política goitacá. Dificilmente manterão a forma nos 115 dias que separam este sábado do domingo de 15 de novembro. O que não mudará é o sol real acima das nuvens, que deveria cegar todo o eleitor campista responsável para tudo mais ao redor: como governar uma cidade com R$ 1,6 bilhão de orçamento e R$ 1,1 bilhão comprometido com pagamento de servidor? Na dúvida, uma certeza: sabendo ou não, você vai pagar a conta.

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

Especialistas de Campos projetam vacina contra Covid mais perto dos brasileiros

 

Entre o final deste ano e o início de 2021, uma vacina contra a Covid-19 estará pronta. E o acesso a ela em larga escala se dará no Brasil até meados do próximo ano. Estas foram as projeções feitas no painel com cinco especialistas locais que a Folha buscou para responder às principais perguntas da humanidade, desde que a pandemia parou o mundo e foram anunciados os avanços no desenvolvimento de vacinas. Sobre o que esperar delas, em ordem alfabética, falaram a médica infectologista Andreya Moreira, que tem coordenado o combate ao novo coronavírus em Campos, à frente da Vigilância em Saúde; o biólogo Carlos Bacelar, há décadas à frente do conceituado laboratório Plínio Bacelar; a médica epidemiologista Elizabeth Tudesco, com vasta experiência em Saúde Pública; o médico infectologista Nélio Artiles, entre os mais respeitados da cidade em sua especialidade; e o biólogo Renato da Matta, professor da Uenf que tem trabalhado na parceria da universidade com o governo municipal na testagem da população do Norte Fluminense. O esforço de cada um deles, assim como das enfermeiras Roberta Lastorina e Fernanda Mattos, da Vigilância Epidemiológica, que auxiliaram Andreya nas respostas, é mais um dos tantos exemplos de como a ciência e a perseverança de mulheres e homens contribuem para se responder à indagação que fecha esta entrevista: “existe algo mais valioso que a vida humana?”.

 

Andreya Moreira, Carlos Bacelar, Elizabeth Tudesco, Nélio Artiles e Renato da Matta (Montagem: Eliabde de Souza, o Cássio Jr)

 

 

Folha da Manhã – Entre as mais de 160 candidatas no mundo a vacina contra a Covid-19, 24 já são testadas em humanos. A desenvolvida pela universidade britânica de Oxford, com a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca, e a da empresa chinesa Sinovac, são as mais avançadas, em fase 3, de ensaio em larga escala. E as duas já são testadas no Brasil. Qual a sua expectativa?

Andreya Moreira – Um dos capítulos mais brilhantes da história da ciência é o impacto das vacinas na saúde e na longevidade dos seres humanos. Para isso, normalmente, as vacinas exigem anos de pesquisas e testes antes de chegarem na fase clínica. Contudo, diante do estado de emergência em saúde pública internacional, os cientistas estão se empenhando para produzirem uma vacina segura e eficaz até o próximo ano. As pesquisas com o objetivo de desenvolvimento de uma vacina contra o Sars-CoV-2, da síndrome respiratória aguda grave, começaram em janeiro com a descrição do genoma viral. Os primeiros testes para avaliação da segurança de vacinas em seres humanos começaram em março. Algumas tentativas falharam e outras poderão terminar sem um resultado claro, mas algumas podem conseguir estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos eficazes contra o vírus. Tanto a vacina desenvolvida pela Oxford quanto aquela da AstraZeneca estão na fase 3 de estudos denominados ensaios clínicos. Nessa fase, a vacina é administrada em milhares de pessoas e os pesquisadores esperam para verificar quantos serão infectados, em comparação com os voluntários que receberão um placebo. O objetivo dessa fase é determinar se a vacina protege contra o coronavírus. Após a fase 3, ainda há a última, a fase 4, onde testes de acompanhamento são elaborados e implementados em milhares de pessoas, em vista de possibilitar o conhecimento de detalhes adicionais sobre a segurança e a eficácia da vacina.

Carlos Bacelar – Estou otimista. A evolução da imunologia aliada à genética acelera largamente o horizonte na produção de vacinas e elementos indutores de repostas imunológicas através dos linfócitos “T” (células do sistema imunológico). O tempo final de produção de vacinas é, em média, 22 meses, sendo 70% desse tempo gasto na avaliação das respostas em cobaias e depois no homem. Conseguindo trazer esse prazo para cerca de um ano, é fantástico.

Elizabeth Tudesco – A expectativa é a de que a melhor, a que apresentar maior eficácia mediante estudos epidemiológicos sérios e comprovação científica, deverá ser utilizada. Com todo o cuidado, levando em conta as várias faixas etárias que receberam as vacinas e a possibilidade de surgirem eventos adversos após a aplicação. A ansiedade é grande, mas a certeza de um bom resultado deve ser maior.

Nélio Artiles – Das mais de 160 vacinas em desenvolvimento, cinco vacinas estão em fase 3, que é a última para demonstrar efetividade e segurança. A vacina de Oxford é uma vacina composta de um outro vírus, um adenovírus de chimpanzé modificado, inativado e que foi acrescentado a proteína S da espicula da coroa do coronavírus. Com isto o organismo cria anticorpos efetivos e aparentemente duradouros contra o Sars-CoV-2. A outra, da Sinovac, usa o próprio vírus inativado e, de acordo com as informações, também apresenta uma boa eficácia. A perspectiva é muito boa e com uma boa possibilidade de termos vacina disponível até o fim do ano.

Renato da Matta – A minha expectativa, baseada nos testes iniciais, é boa. Vale lembrar que esses resultados foram anunciados antes, mas publicados em 20 de julho, após os manuscritos das duas vacinas serem analisados por pares em artigos na revista The Lancet, de grande prestígio mundial. O desenvolvimento de vacinas, assim como outros fármacos e procedimentos, segue um protocolo que é dividido em fases. Em cada fase se tem uma avaliação. Se tudo correr bem na fase, o processo segue para a fase seguinte. Esses artigos reportam as fases 1 e 2. As vacinas testadas induziram resposta imunológica entre 90% a 95% do grupo testado. Isso é um ótimo resultado. Portanto, minha expectativa é que em breve teremos vacinas contra o Sars-CoV-2, o coronavírus que causa a Covid-19.

 

Folha – Em entrevista ao Folha no Ar da última segunda (20), o jornalista José Trajano fez as perguntas mais importantes e pragmáticas à maioria de não especialistas: “Quando é que vai chegar a vacina? Ela será eficaz? Será distribuída em larga escala?”. Como você responderia?

Andreya – O fato de termos diferentes vacina em fase 3 nos permite ter expectativas positivas em relação a identificação de um imunobiológico contra o Sars-CoV-2, uma vez que a fase 2 já foi capaz de demonstrar a segurança e a capacidade de estimularem o sistema imunológico. Contudo, apesar dos ensaios clínicos serem uma poderosa ferramenta para a avaliação de intervenções para a saúde, sejam elas medicamentosas ou não, eles apresentam alto grau de complexidade, uma vez que além de investigarem a eficácia ou não de uma intervenção, também são responsáveis por identificarem a segurança da mesma. Logo, a vacina apenas poderá ser disponibilizada após evidencias cientificas claras em relação à eficácia contra o Sars-CoV-2 e segurança para a população.

Carlos – As informações, até o momento, indicam que no final do ano deveremos ter as duas vacinas já comercializadas. Ela só deverá ser aplicada com sua eficácia comprovada como capaz de induzir respostas imunológicas ao vírus. Acredito que depois, durante o próximo ano, haverá um acompanhamento sobre a necessidade de revacinar, e por quais períodos. Mas a vitória inicial foi obtida. É certo que será distribuída em larga escala cumprindo um cronograma inicial que será divulgado. Não haverá, no primeiro momento, vacina para todos, mas a “linha de produção” estará funcionando em pleno vapor. Sem esquecer que existem duas vacinas a mais e outras 166 em fases adiantadas de pesquisas.  Sem comentários, por falta de conhecimentos, a propaganda do governo da Rússia informou que já está com uma vacina pronta, com a qual já teria vacinado todo seu contingente militar. A conferir.

Elizabeth – É preciso levar em conta, apesar da urgência da situação e de toda a tecnologia de hoje, que a vacina é aplicada em seres humanos que apresentam respostas diferentes. Isso implica na necessidade de estudos de acompanhamento às respostas imunológicas específicas de cada grupamento étnico, social e etário. E que atualmente nenhuma vacina é 100% eficaz. Depende da resposta imunológica, da sua conservação, do local de aplicação, de uma série de fatores que interagem.

Nélio – Uma vacina tradicionalmente passa por três fases, separadas entre elas por muita discussão, publicações e planejamentos. Neste momento estes intervalos estão sendo abolidos, com fases contíguas. Existem algumas indústrias mundiais que já iniciaram o processo de produção das vacinas, mesmo sem a conclusão final, acreditando nos resultados positivos até o momento. Acredito que em tempo recorde teremos vacinas disponíveis para toda a população mundial no início do próximo ano.

Renato – Não sou um especialista em vacinas, mas trabalho numa área que permite entender um pouco mais o que está acontecendo. Tudo indica que até o final do ano teremos vacinas! Mas para a população em geral receber a nova vacina é importante levar em conta uma logística complexa. Prever o futuro é missão impossível, afinal não existe bola de cristal. Então, isso é uma opinião. Dentre vários fatores, é necessário levar em conta a capacidade de produzir a vacina e os grupos prioritários que devem receber a vacina. O Brasil tem a tecnologia de produzir vacinas em escala industrial, graças aos investimentos estratégicos: temos a Fiocruz e o Butantan. Portanto, temos condições de ser um dos primeiros países no mundo a produzir as vacinas. Tendo a vacina, existe a problemática de administrá-la, o que não é simples de fazer em 210 milhões de pessoas. Fora isso, quem deve receber primeiro a vacina? Vemos isso com outras vacinas. Segue-se a lógica ética. Portanto, uma estimativa otimista é que em meados de 2021 teremos a população brasileira vacinada. Nesse caso, é crucial continuar educando o povo, focado no letramento científico, para que sigamos o “novo normal”: 1- não saiam de casa; 2- usem máscara; 3- troquem a máscara de duas em duas horas; 4- lavem as mãos com detergente, usem álcool 70% ou álcool gel nas mãos por pelo menos 20 segundos; 5- tenham cuidado extra, evitando levar as mãos a face; 6- mantenham distância de dois metros dos colegas; 7- tapem o espiro ou tosse com papel, ombro ou cotovelo; 7- cumprimente o amigo à distância e sem contato físico. Essas medidas socioculturais devem ser incorporadas no famoso “novo normal”, até que toda a população esteja vacinada. Não existe outra alternativa. Não usar máscara na rua é uma atitude ignorante, irresponsável e arrogante.

 

Folha – A vacina da Sinovac é desenvolvida em parceria com o Instituto Butantan, de São Paulo, maior produtor de vacinas da América Latina e a 4º do mundo. E a de Oxford, em parceria com a Fiocruz, do Rio de Janeiro, referência global em pesquisas de saúde pública. Como essas parcerias facilitarão o acesso do brasileiro a essas vacinas? O fato de o país ser um dos maiores epicentros mundiais da Covid, paradoxalmente, adianta nosso lugar na fila de espera?

Andreya – O que está acontecendo é uma parceria política que envolve interesses em comum. O Brasil tem a grande estrutura para a linha de produção e profissionais de excelência e os laboratórios internacionais possuem a técnica. Isso firma um acordo de transferência de tecnologias, onde um auxilia na descoberta do outro e favorece a grande produção, visando o bem comum. Os critérios para a distribuição em meio a uma pandemia serão extremamente difíceis, no entanto o fato de ter parcerias como estas nos coloca em uma posição de pleito favorável.

Carlos – A notícia é que o ministério da Saúde se adiantou fazendo a reserva de um grande lote no primeiro momento. Além disso houve um louvável movimento de particulares, como a Fundação Lehman e outras, que investiram recursos consideráveis no Butantan e na Fiocruz, via Instituto Manguinhos, entidades detentoras de reconhecimento mundial em produção e vacinas. Em um movimento sem precedentes no lado de ajuda humanitária, fundos como o Einstein e da Rede D’Or construíram hospitais de campanha em São Paulo e Rio de Janeiro para atender exclusivamente pacientes do SUS.

Elizabeth – Estudos com a vacina de Oxford já saíram em revistas científicas internacionais, conforme exigência da OMS e outras órgãos de controle de saúde no mundo. Vamos aguardar os resultados de cada uma, independente de corrida política, porque vacina precisa ser eficaz e segura, com o mínimo de eventos colaterais após sua aplicação.

Nélio – Essas parcerias são positivas e certamente trarão benefícios ao acesso dos brasileiros à vacinação, visto que parte da produção acontecerá aqui no país. E, pelo fato de estarmos em um momento crítico de transmissibilidade da doença, os testes estão sendo aplicados em vários estados brasileiros, principalmente em profissionais de saúde e pessoas que tem exposição provável, em idades variadas.

Renato – As instituições Butantan e Fiocruz são excelentes. A presença delas nos coloca em um grupo seleto de países que detém a tecnologia e o “saber como” produzir e usar vacinas. Infelizmente ainda não detemos a capacidade de produzir a vacina na velocidade de outros países; precisamos de mais investimentos em ciência. Pelo que vi na imprensa, a tecnologia será transferida, o que é extremamente vantajoso para todos nós. Ontem anunciaram que os EUA já se anteciparam e compraram todas as doses de duas grandes companhias que estão também desenvolvendo vacinas contra o Covid-19. Portanto, a “equação” não é simples. Mas como as instituições Butantan e Fiocruz são públicas, não acredito que esse tipo de ação atrase a vacinação dos brasileiros. Logo, é grande vantagem ter essas parcerias.

 

Página 6 da edição de hoje (25) da Folha

 

Folha – No domingo (19), diante dos seus apoiadores em Brasília cada vez menos numerosos, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) levantou a cloroquina como outros capitães, da seleção brasileira de futebol, fizeram com a Copa do Mundo em nossos cinco títulos. Sem nenhum estudo científico que aponte o remédio como eficaz no tratamento da Covid, como você vê? A vacina virá para sepultar de vez esse tipo de populismo político com a doença?

Andreya – Em um momento de pandemia, uma doença nova em que o mundo se viu de mãos atadas, todo fio de esperança foi e é válido ao pensar como estratégia a ser testada para salvar e proteger vidas. Dentro das prescrições médicas existe uma prática que são os usos off-label (diferentes do aprovado em bula) de algumas drogas que não necessariamente necessitam de aprovações imediatas dos líderes, mas sim de um comitê de ética e do próprio paciente. O emprego na cloroquina foi uma prática não somente brasileira, mas mundial. Fazem parte das práticas em saúde os estudos empíricos não só com drogas recém descobertas, mas também com aquelas já existentes para descobrir novos usos para as mesmas, buscando mecanismos de cura ou que salvaguarde os vulneráveis. Isso é pesquisa. E, claro, quando praticada e direcionada por pessoas técnicas, sempre é melhor. O ato de uma pessoa divulgar aquilo que acredita sempre deve ser observado criticamente para minimizar as chances de insucesso.

Carlos – Os governos com tendência autoritária têm a necessidade de tentar impor suas ideias em questões de interesse público. Mas, neste caso, a resposta foi grande, a ciência prevaleceu e colocou as coisas em seus devidos patamares. Um dos mais reconhecidos imunologistas do mundo, o francês Didier Raoult publicou um artigo em 28 de março mostrando como tratava a Covid-19 com cloroquina e azitromicina. Atendendo em hospital mais de 600 pacientes/dia, disse ele: “Há 13 anos pesquiso a cloroquina em vírus com sucesso absoluto”. Cada profissional médico usa o protocolo que melhor lhe convier, não sendo obrigado ou proibido receitar tal produto, desde que este seja aprovado em seus país.

Elizabeth – A cloroquina e outros medicamentos estão sendo testados, mas o uso desses medicamentos depende da precocidade do tratamento, da presença de outras doenças que afetam e aumento o dano do vírus ao organismo, da idade de quem recebe. Com a vacina será igual: deverá ser eficaz, dar imunidade segura, sem apresentar reações recentes ou tardias.

Nélio – Posturas políticas poderiam mudar caso tivessem uma base de informação científica adequada, ouvindo a sociedade civil especializada como as sociedades médicas de conhecimento específico, como é o caso da Sociedade Brasileira de Infectologia. Ainda não existe nenhuma droga antiviral de efeito comprovado cientificamente. É de fundamental importância que todo ato médico seja baseado em evidências científicas. Caso contrário poderá haver uma infração grave em um dos princípios básicos da bioética, que é não fazer o mal. Já há evidências comprovadas que cloroquina e a hidroxicloroquina não só não funcionam, como colocam em risco a vida das pessoas. Assim como o absurdo de vermos hoje o uso indiscriminado e popular da ivermectina, que funcionou em laboratório, mas não conseguem ser efetivos in vivo, apenas em doses centenas de vezes maiores. Não concordo com uma autonomia médica de prescrever medicações sem comprovação científica e com riscos à população.

Renato – A atitude do nosso atual presidente é lamentável, revela uma profunda ignorância. Algo, infelizmente, difundido por boa parte da população brasileira, revelando como somos atrasados em diferentes aspectos. Uso de medicamentos para tratamento de doenças exige trabalhos científicos longos que aplicam metodologias estatísticas específicas, como seleção de grupos por técnicas randômicas e cegas. Sem isso, o estudo pode indicar algo irreal, pois pode ter “variáveis de confusão”. A cloroquina se encaixa nisso. Não existe ainda um estudo seguindo essas diretrizes. No entanto, o médico tem autonomia e o dever de se informar sobre o uso de qualquer composto em qualquer situação. A vacina virá para nos salvar desse “novo normal”. Para “sepultar de vez o populismo político” é necessário investir na educação.

 

Folha – Além de apostar nas vacinas já em teste, é preciso se resguardar no caso delas falharem. Para tanto, o Brasil precisa aderir à Covax, iniciativa da OMS para garantir acesso às primeiras vacinas que derem certo. O que só foi feito após vencer resistências do governo Bolsonaro, que considera a OMS “globalista”. Partidários do presidente já declararam que não tomariam a vacina da Sinovac porque a China é “comunista”, quando na verdade tem um sistema híbrido de capitalismo de estado. Para salvar vidas, a questão não deveria ser apenas científica?

Andreya – Tudo no mundo abrange um processo político. A imunização é prevista dentro das políticas sociais em saúde e o Brasil sempre foi e é respeitado mundialmente pelas suas instituições públicas produtoras como o Butantan e Fiocruz e pelo Programa Nacional de Imunização (PNI), com mais de 40 anos de vida e distribuição de vacinas, soros e imunoglobulinas a níveis continentais. Atuar diplomaticamente em acordos e compreensão entre diversos países e interesses deve ser uma tarefa árdua, porém o Brasil tem um grande poder de barganha no que tange imunização em acordos de fornecimentos com a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), por exemplo.

Carlos – O presidente também falou: “quem é de direita toma cloroquina e quem é de esquerda toma tubaína”. Seria mais ou menos: os brasileiros que não aceitam seus argumentos, tomam a vacina; os que aceitam… Além de salvar vidas, a vacina é o único caminho da volta à normalidade.

Elizabeth – Existem protocolos internacionais que todos os fabricantes de vacina devem observar e estudos observacionais que devem ser seguidos. Devemos confiar em laboratórios internacionais com comitês científicos de especialistas, cujo compromisso maior é com a saúde pública mundial. Devemos esperar para que tenhamos a melhor vacina do mundo, com o mínimo de erros.

Nélio – Concordo e acredito que qualquer gestão em saúde deve ser em consonância com as evidências científicas atuais. O Brasil precisa de um ministério da Saúde e um da Educação para mudarmos este cenário em que vivemos.

Renato – Deveria ser, mas isso é utópico, pois o mundo é multidimensional e as pessoas têm suas crenças, cultura e atitudes baseadas no que aprenderam e viveram ao longo de suas vidas. No caso do Covid-19, as pessoas deveriam ser mais científicas. No entanto, até alguns colegas meus da Uenf, que foram formados fazendo “ciência” em seus doutoramentos, e fazem até hoje orientando seus alunos, acreditam que cloroquina é válida para tratar Covid-19, ou que o vírus foi uma criação de laboratório. De certa forma, são negacionistas e não procuram entender o que se tem que fazer, qual protocolo seguir, para que um composto usado no tratamento de certas doenças seja validado para outras. Isso faz parte da sociedade, envolve aspectos ideológicos e merece um estudo mais profundo pelas ciências sociais.

 

Folha – Até o momento, a vacina mais rápida produzida pelo homem foi contra a cachumba, que levou quatro anos. Se conseguir a imunização contra a Covid em cerca de um ano, será uma vitória da ciência? Mais, será a aprovação da humanidade em um teste da natureza por sua sobrevivência? Como vê a versão de que o vírus Sars-CoV-2 teria sido criado em laboratório?

Andreya – Caso a vacina contra a Covid-19 seja desenvolvida em um ano e a mesma tenha poder de imunoprevenção, a doença e com elevado fator de proteção do organismo humano com certeza será um dos grandes feitos da humanidade. A luta pela sobrevivência é algo intrínseco dos seres humanos, desde o momento da concepção, aos momentos de observações empíricas que geraram as melhoras das condições sanitárias no Egito Antigo. Ou no século 19, por medidas de cuidado do ambiente de saúde e higienização das mãos, destacados por Florence Nightingale (enfermeira britânica) e Ignaz Semmelweis (médico húngaro); ou John Snow (médico inglês), quando observou o ciclo da cólera ao olhar o comportamento da distribuição da transmissão da doença no território. A luta pela sobrevivência é constante e ultrapassa as gerações. À medida que as tecnologias em saúde se ampliam a expectativa de vida tende também a dar grandes saltos na prevenção das doenças. O grande desafio com o desenvolvimento da vacina será a produção em massa, a distribuição e o acesso.

Carlos – Já circulou também que o HIV foi criado em laboratório. Faz parte do imaginário. O Brasil foi pródigo em grandes nomes na ciência e hoje temos Dr. Pedro Moreira Focegatti, que mora na Inglaterra é um dos responsáveis pela vacina da Oxford. Nos Estados Unidos, o Dr. Fernando Chaves é consultor médico da Ortho Clinical Diagnostics, da Johnson&Johnson, participando em estudos pioneiros do Sars-CoV-2. Conterrâneos nossos colaborando pela sobrevivência da humanidade.

Elizabeth – Esperamos quatro anos, mas hoje praticamente não observamos a cachumba, que pode causar sérias complicações, principalmente em adultos. E a vacina é aplicada na primeira infância. A biotecnologia avançou, mas até hoje não se conseguiu uma vacina contra o HIV. Conhecemos pouco sobre o Covid-19. Se ela veio de laboratório ou não, não é o problema. O importante hoje e amanhã é manter situações que dificultem sua disseminação. A humanidade na Idade Média sobreviveu à peste bubônica. Sobreviveremos a esse novo desafio.

Nélio – O sequenciamento genético do Sars-CoV-2 é muito parecido com o Sars-CoV, responsável pelo Sars de 2002/2003. Com isto, após estudos deste genoma, se pode afirmar que é um vírus que vem sofrendo diversas mutações, principalmente quando passa por outros animais. Esta versão do coronavírus da atual pandemia já vem sofrendo novas mutações, com piora da transmissibilidade e de mortalidade de acordo com os primeiros casos na China. A vacina tão precoce será uma grande demonstração da importância da ciência e da necessidade de uma maior valorização aos pesquisadores e cientistas brasileiros e mundiais, tão desacreditados e renegados.

Renato – Certamente é uma vitória da ciência. O desenvolvimento de uma vacina em tempo recorde é mais um claro sinal de que o avanço tecnológico, boa parte baseado na ciência, tem contribuído de forma definitiva ao avanço da expectativa de vida do ser humano. Não entender esse desdobramento é ir além do negacionismo. Esse avanço é certamente mais uma prova de que a humanidade se mantém apta para sobreviver nesse mundo que “usamos” de forma descabida e ignorante. Até onde conseguiremos fazer isso, é complexo de prever, pois a tendência biológica é de a espécie crescer até um determinado ponto máximo e depois se extinguir. No entanto, o conhecimento gerado nas ciências da vida tem, de forma sistemática, melhorado a condição de vida do ser humano. Isso mostra que ciência merece mais investimento, assim como a educação. As evidências levantadas até agora sugerem fortemente que o Sars-CoV-2 veio do morcego. É muito improvável que tenha sido criado em laboratório e escapado, propositalmente ou não.

 

Folha – O governo Rafael Diniz tem uma atuação considerada boa no enfrentamento à pandemia da Covid. Mas tem sido criticado por ter reaberto os shoppings centers na última segunda. Em Campos e no mundo, qual seria o ponto de equilíbrio entre pressão dos empresários, para preservar a economia, e a necessidade de preservar vidas humanas?

Andreya – A abertura de shoppings somente se mostrou adequada após análise criteriosa dos indicadores do plano “Campos Daqui Para Frente”. Especialmente no que diz respeito aos reflexos após 20 dias de abertura do comércio de rua, sem nenhum registro de diferença no comportamento da disseminação do vírus desde então. Aliado a isso, protocolos rigorosos foram seguidos, como a vedação de acesso a crianças e idosos, e aumento na fiscalização, para que não haja maiores riscos aos consumidores. Entendemos que há uma luta constante, em todo mundo, em uma balança que de um lado figura a sobrevivência econômica e de outro a preservação de vidas, após análise científica criteriosa em vista de garantias de segurança. Desde a abertura dos shoppings temos monitorado e não houve qualquer denúncia de aglomeração ou de descumprimento às normas do plano.

Carlos – Considerando o momento atual e a falta de recursos federal e estadual, o governo municipal vem fazendo o que pode nesse enfrentamento. A abertura dos shoppings, assim como todas as aberturas sociais, depende de algoritmos que avaliam o momento, baseados entre outros itens, no número de leitos de UTI e enfermarias, bem como outras capacidades de atendimento. Campanhas educativas devem ser somadas a essas iniciativas e a vigília de abusos devem ter rigor. Algumas manifestações ocorridas em São Paulo, e avaliadas 15 dias após, mostraram que não houve aumento de casos. Já no Maranhão e, agora, em Minas Gerais, na capital Belo Horizonte, tiveram que fechar tudo novamente. A preservação de vidas está acima dos desejos de preservar a economia.

Elizabeth – O confinamento apresenta uma série de resultados negativos para crianças, jovens, adultos e idosos. Precisamos balancear o estresse, síndrome do pânico, falta de lazer, de atividades físicas. Campos tem acompanhado as características da epidemia e o município precisa seguir seu caminho produtivo. O correto é que aqueles que não cumprirem medidas de prevenção sejam punidos. A cidadania implica em direitos e deveres. A Vigilância em Saúde do município tem trabalhado com precisão. Sua ação vai acompanhar e controlar a doença em nossa cidade e no entorno.

Nélio – Não é fácil. Visto que a economia dita vários parâmetros em uma sociedade. Porém, tenho visto que as atitudes têm sido de acordo com parâmetros técnicos de diversas variáveis. Com a progressiva flexibilização aumenta a responsabilidade do cidadão, pois há necessidade mais que nunca de manter todo o processo de prevenção que é comprovado cientificamente. Se todos usassem as máscaras de forma correta, haveria uma redução importante de disseminação do vírus no ambiente. Reforçar a lavagem das mãos e manter sempre um distanciamento seguro, mesmo com o uso de máscaras. E buscar uma maior testagem da população. Assim, cada um de nós, além do poder público, poderemos preservar vidas humanas, principalmente os idosos e as pessoas de grupos de riscos.

Renato – Respondo com uma pergunta: existe algo mais valioso que a vida humana?

 

Página 7 da edição de hoje (25) da Folha

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

Caio Vianna costura aliança com o PSB de Molon que iria apoiar Rafael Diniz

 

PDT de Caio Vianna disputa o PSB de Alessandro Molon com o Cidadania de Rafael Diniz para a eleição a prefeito de Campos (Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O PSB sairá da base de apoio à pré-candidatura à reeleição do prefeito Rafael Diniz (Cidadania) para à de Caio Vianna (PDT)? Desde o final da noite de ontem (23), essa movimentação tem agitado os bastidores do pleito municipal de 15 de novembro. Com base na aliança nacional entre PSB e PDT, o acordo tem sido tentado desde 2019 por Caio junto ao deputado federal Alessandro Molon, presidente estadual do PSB. E parece estar próximo de um desfecho, que segundo o pré-candidato a prefeito de Campos pelo PDT, será oficializado por Molon:

— Estou construindo a aliança com o PSB há algum tempo, fomos parceiros na eleição de 2016. Existe um entendimento nacional do PDT e PSB, e venho conversando muito com o deputado Federal Alessandro Molon para termos essa parceria importante para a recuperação da nossa cidade. Precisamos unir esforços por Campos. No momento que o deputado achar adequado, ele vai se manifestar — disse Caio Vianna.

Roberta Barcellos, presidente do PSB em Campos (Foto: Facebook)

Presidente do PSB em Campos, a professora de História Roberta Barcellos disse também ter tomado conhecimento da possibilidade através da sua divulgação nas redes sociais locais, desde a noite de ontem. Ela admitiu que uma possível aliança do seu partido com o PDT de Caio é uma orientação nacional para as eleições municipais de novembro. Mas que ainda não foi comunicada de nada oficialmente pelo deputado Molon. Para ela, a aliança com Rafael continua valendo:

— Nem Molon, nem ninguém da executiva estadual entrou em contato comigo sobre o assunto. Sabemos que é algo que Caio vem tentando desde 2019, seguindo uma diretriz nacional de coligação com o PDT. Mas toda nossa conversa com Molon sempre foi em torno da aliança com o prefeito Rafael — disse Roberta, presidente da comissão municipal provisória do PSB, condição que se tornaria fixa justamente a partir da convenção municipal do partido para definir apoio a uma candidatura a prefeito de Campos, além das nominatas. Em tese, o fato da executiva goitacá ser ainda provisória, facilitaria a imposição de um acordo costurado por cima.

 

Brand Arenari, Enock Amaral, Fabinho ALmeida, Alonso Barbosa e Rogério Siqueira (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Se o a aliança entre PSB e PDT for confirmada em Campos, teria reflexo direto na nominata de vereadores que o primeiro partido monta para disputar as eleições. Nela, estão dois vereadores que buscam a reeleição; Enock Amaral e Fabinho Almeida. Além de outros nomes considerados pré-candidatos de boa densidade, como do sociólogo Brand Arenari, do jornalista Rogério Siqueira e do estudante de Direito Alonso Barbosa. Este é filho do falecido ex-vereador Renatinho Barbosa. Já os dois primeiros foram integrantes do governo Rafael, até dele saírem recentemente, no prazo de seis meses antes do pleito fixado pela Justiça Eleitoral. É provável que Brand e Rogério abandonem suas pré-candidaturas a vereador, caso o PSB caminhe com Caio a prefeito.

Quando secretário de Educação de Campos, Brand trabalhou junto com Roberta, presidente municipal do PSB. Os dois eram considerados os principais articuladores da aliança do partido com a pré-candidatura de Rafael à reeleição. O blog, assim como a executiva do PSB em Campos, vêm tentando contato com a direção estadual da legenda, até agora sem sucesso. Fontes ligados ao partido consideram que Molon, líder da oposição ao governo Jair Bolsonaro (sem partido) na Câmara Federal, poderia estar ressentido da falta de um contato mais direto com o governo de Campos. O que poderia contribuir para empurrar o PSB para Caio.

— É sabido por nós, do PSB, que existe essa aliança com o PDT em nível nacional. Ainda não fui informado quanto a essa decisão final. O que o PSB acabar por decidir, vamos sentar e analisar. Nosso grupo político tem tido muita garra e animação para darmos continuidade ao lindo trabalho e bela trajetória que meu pai, Renato Barbosa, teve na política. Continuidade esta com muitas ideias, a força de vontade da juventude e sempre com muito caráter e honestidade, princípios que aprendi com meus pais e que todos na política deveriam ter. Queremos uma Câmara mais renovada e honesta, que produza mais do que procrastine — disse Alonso Barbosa, indicando que manterá sua pré-candidatura a vereador, independente do apoio do PSB na eleição a prefeito de Campos

 

Atualizado às 14 25 para colocar a posição de Alonso Barbosa, pré-candidato a vereador do PSB

 

Fred Machado analisa eleições de Campos e SJB no Folha no Ar desta sexta

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta, quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o presidente da Câmara Municipal de Campos, Fred Machado (Cidadania), vereador e pré-candidato à reeleição. Ele falará sobre a atividade política e legislativa em tempo de pandemia da Covid-19, sobre a CPI recém-concluída do PreviCampos e da eleição a vereador. Aliado político do prefeito de Campos, Rafael Diniz (Cidadania), e irmão da prefeita de São João da Barra, Carla Machado (PP), ele analisará também a disputa ao Executivo dos dois municípios.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Ivan Machado fala de G-8, eleição a vereador e prefeito no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta (23), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador Ivan Machado (PDT). Ele falará sobre política e retomada das sessões ordinárias da Câmara Municipal em tempo de Covid-19, além do seu abandono (confira aqui) do G-8, grupo legislativo “independente” que virou G-7 e se extinguiu com a sua saída. Analisará também o tabuleiro das eleições de novembro, a vereador e prefeito de Campos.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Igor Pereira fala sobre eleição a vereador e prefeito no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (22), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador Igor Pereira (SD). Ele falará sobre política e retomada das sessões da Câmara em tempo de pandemia da Covid-19, além do grupo legislativo “independente” G-8, que liderava, virou G-7 e foi aparentemente extinto. Analisará também o tabuleiro das eleições a vereador e prefeito de Campos.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

José Trajano: críticas a Bolsonaro, nota 8,5 a Jesus e lembrança a campistas

 

José Trajano (Foto: Reprodução)

 

“Nós temos um vírus, que todo o mundo enfrenta. E temos um verme e seus vermezinhos, em um país onde o presidente nega a ciência, a OMS, os grandes infectologistas do país. Se você tem que sair para trabalhar, é um serviço essencial, se tem que sair para comprar alguma coisa na farmácia, no supermercado que saia, preparado. Agora, o que eu tenho visto é gente achando que já acabou, que o vírus já se mandou do país. Isto é incentivado pelo Capitão Corona lá de Brasília. Se o exemplo lá de cima é esse, que você não precisa usar máscara, que você tem que tomar cloroquina, que é um remédio repudiado e sem efeito científico nenhum comprovado, o resultado é que o número de mortos e infectados aumenta sempre. Nós temos 2 milhões de infectados e hoje (20) deveremos passar dos 80 mil mortos. É um momento muito difícil para todos nós. Até quando vai durar? Quando é que vai chegar a vacina? Ela será eficaz? Será distribuída em larga escala?”. Com sua contundência característica, foi o que afirmou e indagou no início da manhã de hoje o jornalista José Trajano. Conhecido nacionalmente por sua atuação na ESPN Brasil, da qual foi fundador e diretor por muitos anos, ele abriu esta semana o programa Folha no Ar, na Folha FM 98,3. Falando de São Paulo, mas atento ao regionalismo fluminense, Trajano completou sobre a pandemia:

—  O momento que nós vemos agora é preocupante, porque a pressão do comércio está vencendo. Então, na hora que vocês noticiam (na abertura do Folha no Ar) que os shoppings centers aí em Campos abrem hoje, eu não entendo. Eu vi aqui em São Paulo. As academias de ginástica abrindo em São João da Barra (risos)… ontem (19) eu vi um programa no Fantástico, com vários especialistas dos Estados Unidos, que deram uma nota de perigo de contágio, de você conviver com abertura de academias, ir ao shopping. E depois quatro especialistas brasileiros, ligados a Fiocruz, que é uma instituição seríssima, analisaram essas pontuações. E uma das coisas que falaram é que academias de ginástica são um dos lugares mais perigosos de contágio que existem. Então acho inacreditável você reabrir essas academias na cara de pau.

Na abertura do último bloco do programa, grande conhecedor da cultura dentro e fora do futebol, Trajano saudou grandes vultos de Campos:

— Já falei do querido (jornalista) Péris Ribeiro, grande biógrafo do Didi (meia bicampeão mundial pelo Brasil em 1958 e 1962), Valdir Pereira, um dos orgulhos do futebol campista. Assim como Pinheiro (zagueiro, Copa de 1954), Evaldo (atacante, com passagem pela Seleção em 1968), Amarildo (atacante, campeão mundial em 1962), até o Odvan (zagueiro, com passagem pela Seleção na segunda metade dos anos 1990), que até hoje mora aí em Campos. Outro registro que eu gostaria de fazer é sobre a Música Popular Brasileira. Outro dia eu falei de Wilson Batista (sambista de Campos), que morreu num dia 7 de julho. E hoje estaria completando 80 anos um dos maiores cantores da Música Popular Brasileira: Roberto Ribeiro. Era de Campos, ligado ao Império Serrano e gravou grandes discos de samba (…)

O jornalista seguiu na transição da política ao futebol. Lembrou da Itália de Mussolini para traçar um paralelo com a aliança entre o Flamengo do presidente do clube, Rodolfo Landim (carioca com família em Campos), e o presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido), contra quem já tinha feito e repetiu duras críticas. Torcedor apaixonado do America, ele disse, no entanto, que gostaria de ser flamenguista por um dia:

— Futebol e política sempre se misturaram. E futebol sempre foi utilizado por vários regimes. Quando a Itália foi para a França, disputar a Copa de 1938, Mussolini (ditador fascista italiano) foi ver o jogo final e o capitão italiano, Meazza, que deu o nome ao estádio de Milão, fez o gesto fascista para saudá-lo. Para não ir tão longe, vamos dar um exemplo do que está acontecendo agora no Brasil, com o Flamengo (…) Eu gostaria de um dia só na minha vida ser Flamengo. Porque eu, como torcedor do America (..) você vai ver os jogos da série B do Rio, onde estão Americano, o Goytacaz do grande (ator campista) Tonico Pereira, são 300, 400 pessoas espalhadas pelo estádio (…) Então que queria um dia só ter essa sensação de ser Flamengo, porque deve ser uma coisa vibrante, emocionante e inesquecível (…) Mas o Flamengo hoje através do seu presidente, esse Landim, tem feito, é o aproveitamento pela política do esporte. Se abraçou ao Capitão Corona, conseguiu que o Capitão Corona lançasse uma MP (do Futebol), que tem umas coisas até interessantes, mas não teve discussão suficiente entre os clubes. Foi uma coisa açodada, com o objetivo claro de afrontar a TV Globo, que tem feito várias críticas ao Capitão Corona, com o apoio do presidente do Flamengo (…) O retorno apressadíssimo do futebol carioca também foi uma pressão política feita principalmente pelo Flamengo.

Sobre o Flamengo dentro de campo, Trajano analisou a saída do técnico português Jorge Jesus, que voltará para o Benfica, maior clube do seu país. Ele reconheceu as virtudes do treinador, mas as relativizou, creditando os muitos títulos recentes conquistados pelo Rubro-Negro também à qualidade do seu elenco:

— Como diria o nosso Leonel de Moura Brizola, eu andei fazendo uma reflexão sobre tudo isso. Sobre a revolução, vamos chamar assim, que ele fez à frente do Flamengo. Com essa reflexão, eu cheguei a uma conclusão, com a qual muitos podem não concordar. Que ele (Jesus) foi importantíssimo, foi; na maneira de jogar do Flamengo, marcação sob pressão, marcação mais adiantada. Ele incutiu nos jogadores esse espírito, os jogadores atenderam às recomendações dele. Agora, nós vamos dizer o seguinte: o Flamengo que eu critiquei, de Landim, ajudou muito, contratando jogadores. Não é o Vasco, que não tem dinheiro para contratar ninguém; não é o Fluminense, que tem uma folha limitada. O Flamengo trouxe jogadores muito importantes, que deram certo ali. Então, o elenco do Flamengo possibilitou que o Jorge Jesus pusesse em prática o esquema de jogo que ele acreditava. Conseguiu colocar alguns conceitos, deu certo, sai endeusado. Sem desmerecer o trabalho dele, tem que colocar na balança: se estivesse no Fluminense, ou no Vasco, teria tido o mesmo sucesso? (…) Eu acho que ele sai do Brasil, volta para Portugal, deixando um trabalho admirável, mas não vejo ele com essa bola toda. Eu daria a ele não nota 10; daria oito e meio, para ser rigoroso (…) Porque a história apaga muita coisa. Talvez o maior técnico estrangeiro do Flamengo não tenha sido Jorge Jesus. E, sim, (o paraguaio) Fleitas Solich, tricampeão (carioca) pelo Flamengo. Ganhou três títulos seguidos em (19)53, 54 e 55, dois em cima do America. Então, devagar com o andor.

 

Confira abaixo os três blocos do Folha no Ar com o jornalista José Trajano:

 

 

 

 

Bruno Vianna, filho de Gil, fala de PSL e eleições de Campos no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (21), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Bruno Vianna (PSL), filho mais velho e herdeiro político do deputado estadual Gil Vianna (PSL), morto pela Covid-19 (confira aqui) em 19 de maio. Ele falará sobre a vida, a morte e o legado do seu pai, das eleições a vereador no município, nas quais é pré-candidato, e do destino do partido no pleito a prefeito de Campos sem a pré-candidatura de Gil.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Um mês após a morte de Guto Leite, flagrante de redes ilegais em Barra do Furado

 

Sufistas fagraram no sábado (18) instalação de várias redes de pesca ilegais em Barra do Furado, no mesmo local onde o publicitário Guto Leite morreu embolado em uma delas (Imagem: Reprodução de vídeo)

 

Ontem (18), completaram-se 30 dias da morte (confira aqui) do publicitário Guto Leite. Ele tinha 50 anos, era casado e deixou três filhos, ao morrer afogado na praia de Barra do Furado, no município de Quissamã, enquanto praticava surfe, após se embolar e ficar submerso em uma rede de pesca instalada de maneira ilegal. Exatos 30 dias depois da tragédia, surfistas filmaram o sábado a colocação de várias redes de pesca no mesmo local em que Guto morreu por conta de uma delas.

No dia 26, na semana seguinte à morte do publicitário, a Folha publicou (confira aqui) uma matéria denunciando a falta de fiscalização da instalação de redes de pesca, que ameaça a vida de praticantes de surfe, bodyboarding e natação em mar aberto. No dia 24, a Associação dos Surfistas da Região Norte Fluminense (Asrenf) protocolou representação junto ao Ministério Público Estadual e Federal de Campos, cobrando atuação eficaz e permanente dos órgãos ambientais. Em nota, a Marinha do Brasil informou que tomou conhecimento pela imprensa sobre o caso e esclareceu que realiza fiscalizações. Mas tudo indica que, um mês após a morte de Guto, nada mudou.

 

Confira abaixo os flagrantes em vídeo: