Witzel faz propostas ao Açu e Uenf com “abraço público” a Bolsonaro

 

Por Suzy Monteiro e Aluysio Abreu Barbosa

 

Um braço da Lava Jato no Estado do Rio, com a criação de um grande sistema anticorrupção e implantação, em âmbito estadual, de pontos do projeto das 10 medidas anticorrupção, propostas pelo Ministério Público Federal (MPF). Estas são algumas das propostas do candidato ao Governo do Estado, Wilson Witzel (PSC), que abriu mão da carreira como juiz federal para abraçar a política. Ele não esconde sua admiração pelos Bolsonaro, manifestada antes do episódio de ontem, quando o candidato a presidente do PSL foi esfaqueado em Minas Gerais. Garantiu, ainda, que irá honrar o pagamento dos servidores, antes de investir em obras. Ele falou também de Uenf, Porto do Açu e rio Paraíba do Sul, mas não se aprofundou sobre nenhum tema regional.

 

 

Folha da Manhã – No debate da Band, dia 16, o senhor reforçou sua experiência de 17 anos como juiz federal na área criminal, citando algumas vezes sua ligação e intimidade com o braço fluminense da Lava Jato. É correto supor que sua candidatura a governador seria uma tentativa de estender o braço da operação contra a corrupção do Judiciário ao Executivo?

Wilson Witzel – Certamente que sim. Uma das minhas prioridades é a criação de um grande sistema anticorrupção, que envolve reforma legislativa com a implantação do que for cabível do projeto das 10 medidas contra a corrupção, já propostas pelo MPF, em âmbito estadual. Além disso, vou reestruturar a Polícia Civil do Rio de Janeiro com a criação da Lava Jato carioca, onde as investigações serão feitas no modelo de força-tarefa e vamos passar a limpo os atos e contratos da administração pública do Estado nos últimos 20 anos. Sempre que eu botava um vagabundo na cadeia eu ganhava meu dia. Fazer justiça sempre foi uma missão para mim.

 

Folha – Recentemente, o senhor falou que pretende, se eleito, contratar 500 mil consultas por mês na rede privada para o atendimento da população. Isso não será um atestado de falta de competência do Estado para gerir a Saúde Pública?

Wilson – Um estadista deve se preocupar em servir a população e resolver os problemas. No longo prazo pretendemos fazer a saúde pública funcionar como a população merece, mas enquanto não reformamos a gestão da saúde, não vou deixar as pessoas morrendo nas filas por causa de corporativismo na administração pública.

 

Folha – O TRE-RJ manteve multa de R$ 10 mil ao senhor por propaganda eleitoral antecipada, por ter publicado nas redes sociais, em período vedado pela legislação, imagens em que aparece em julgamentos e trajando toga. Um ex-juiz não deveria ser mais atento aos aspectos legais das suas manifestações?

Wilson – Não há absolutamente nada na legislação eleitoral que me impedisse de mostrar essas imagens, e achei muito estranha essa interpretação sem embasamento legal. Acho que o TRE-RJ deveria estar mais preocupado em cassar a candidatura de corruptos comprovados que já foram até condenados ou declarados inelegíveis do que inventar legislação eleitoral contra mim.

 

Folha – Candidato ao Senado pelo seu partido, Pastor Everaldo foi acusado em 2013, pela ex-mulher Katia Maia, de agressão física e ameaça de morte. O que o senhor pretende fazer no combate à violência contra a mulher?

Wilson – O combate à violência contra mulher é uma prioridade e consta no meu plano de governo a criação de um subsecretaria especificamente para apoio médico, jurídico e psicológico às mulheres vítimas de violência. Especificamente sobre a questão do Pastor Everaldo, ele foi absolvido das acusações.

 

Folha – Um dos seus principais objetivos é a luta contra a corrupção. O senhor falou em criar regras de condutas para secretários e servidores. Até por sua experiência em duas categorias extremamente corporativas, como militares e magistratura, como enfrentar a resistência?

Wilson – Eleito governador, eu terei o respaldo político para criar e executar essas regras. Essa é uma demanda da população que não pode ser ignorada. Eu vou passar o Rio de Janeiro a limpo, contrariando todo e qualquer interesse meramente  político, do mesmo modo como fazia como juiz federal.

 

Folha – No debate da Band, o senhor perguntou a Anthony Garotinho (PRP) sobre o escândalo do propinoduto em seu governo estadual. Ele não respondeu e falou da prisão pela Lava Jato do ex-secretário de Obras de Eduardo Paes (DEM) na Prefeitura do Rio, Alexandre Pinto, e lhe perguntou: “Vem mais uma delação aí?”. O senhor confirmou a delação e garantiu que os mandados dela advindos estão para sair. Na ânsia de falar como juiz, não acabou driblado por um político mais malandro, que não o respondeu e ainda o usou para atacar um adversário?

Wilson – Numa mesma pergunta consegui destacar para os telespectadores o problema ético da gestão de dois adversários desta eleição e as duas acusações ficaram sem resposta. Na minha visão, deixei claro para o público a minha diferença moral em relação a dois adversários, em vez de apenas um, como era o meu intento inicial. Dois coelhos com uma cajadada só.

 

Folha – O senhor abriu participação naquele debate falando sobre segurança, na qual destacou sua experiência, além de juiz, como oficial dos Fuzileiros Navais que combateu o tráfico internacional nas fronteiras. Parabenizou os “colegas de farda” e disse: “Quem quer que esteja portando um fuzil, eu estarei autorizando o policial a abater”. Não é o discurso de Jair Bolsonaro (PSL)?

Wilson – É o discurso de Wilson Witzel, candidato a governador do Rio de Janeiro pelo PSC. Aproveito para mandar um grande abraço público para Jair e Flávio Bolsonaro (PSL), dois políticos da minha admiração pessoal, bem como para todos os que lutam pela ordem, segurança e defesa da vida da população. E reforço meu discurso, que consta no Código Penal: marginal portando fuzil é ameaça iminente, e a legislação autoriza o seu término com toda a força necessária. A Polícia Militar precisa ser apoiada e abraçada pelo governador e eu vou fazer isso.

 

Folha – O senhor disse que, se eleito, irá extinguir a secretaria estadual de Segurança e criará, no seu lugar, um gabinete ligado ao governador, com interlocução direta com as polícias Civil e Militar. Na administração pública ou privada, a centralização não é algo a ser evitado?

Wilson – Na verdade é exatamente a descentralização que vamos promover. Vamos criar distritos policiais regionais onde os batalhões da Polícia Militar e as delegacias da Polícia Civil, por meio de seus comandantes e delegados, serão os protagonistas do combate à criminalidade em âmbito local. A secretaria de Segurança é que gerava essa centralização criticada por você e sua extinção valorizará os futuros distritos policiais locais, já que os policiais que atuam no dia a dia na sua região conhecem os problemas reais da população muito mais do que um burocrata da secretaria encastelado em um gabinete com ar-condicionado na Central do Brasil. O novo gabinete vai coordenar e criar ordem nesse esforço que terá foco local.

 

Folha – Além do apoio ao policial, a quem prometeu armamento adequado e um colete a prova de balas para cada agente, o senhor bate muito na tecla da inteligência. É a receita da Lava Jato, que repete o conselho que orientou a investigação do escândalo Watergate nos EUA, causando a renúncia do ex-presidente Richard Nixon: “siga o dinheiro”. Por que isso ainda não foi feito no combate ao crime organizado do Estado do Rio?

Wilson – Eu imagino que isso não aconteceu por dois motivos. O primeiro é porque isso certamente iria contrariar os interesses de políticos ligados aos esquemas de corrupção e à criminalidade do Rio de Janeiro. Portanto, temos um componente ético aqui. O segundo motivo é porque faltou capacidade e experiência para realizar essa investigação por parte das lideranças políticas que eventualmente não tenham problemas éticos. Eu possuo autoridade moral, capacidade e experiência para liderar, como governador do Estado, a investigação que terá por objetivo asfixiar financeiramente o crime organizado no Rio de Janeiro, facilitando as operações policiais ostensivas e diminuindo o número de mortes de inocentes e de policiais, que também é uma prioridade nossa.

 

Folha – Além da violência, o Estado do Rio vive um quadro de insolvência financeira. O que pensa sobre o regime de recuperação fiscal firmado entre os governos Michel Temer e Luiz Fernando Pezão, ambos do MDB? Propõe algo diferente?

Wilson – A responsabilidade fiscal, como ideia geral, é essencial e é um compromisso nosso. Especificamente sobre o regime de recuperação fiscal, ele foi um arranjo acertado em um período de emergência, fruto das políticas gastadoras e fiscalmente irresponsáveis do governo do MDB,  travestido de DEM para as eleições deste ano no Rio, e com certas cláusulas leoninas que precisam ser revisadas. Vou propor essa revisão junto ao novo presidente e garantir que, com gestão responsável, nunca mais o Rio precise passar por essa humilhação.

 

Folha – A face mais cruel da falência financeira do Estado se dá sobre os servidores ativos e inativos. Qual o seu compromisso em honrar mensalmente esses vencimentos?

Wilson – Assumo total compromisso com esta questão. Por isso que, no nosso plano de governo, o foco para o investimento em infraestrutura se dá através de parcerias com a iniciativa e dinheiro privados. Não posso investir dinheiro público em obras sem antes honrar o pagamento dos servidores e aposentados, que trabalharam ou trabalham com dignidade pelo seu sustento. Esse é um compromisso meu inegociável.

 

Folha – Outra face do caos financeiro se dá sobre o abandono da Uenf e do Colégio Agrícola Antônio Sarlo. No debate da Band, quando perguntados sobre a Uerj, apenas Garotinho, Paes e Tarcísio lembraram que a Uenf também existe. O senhor, não. Por quê?

Wilson – Não citei a Uenf porque a pergunta era somente sobre a Uerj. Aparentemente esqueceram a Uezo, então? Todas as instituições educacionais sob responsabilidade do Estado do Rio terão uma nova missão e novos valores. Vamos ter uma educação pública sem vinculação partidária, focada em matérias básicas, técnicas e profissionalizantes. Vamos trazer parcerias empresariais para investir na educação pública, garantindo produção científica, bolsas de estudo e foco no mercado de trabalho, e não em criação de militância política. O setor educacional participará da retomada econômica do Rio de Janeiro.

 

Folha – Quais são seus planos para Porto do Açu na questão do desenvolvimento específico do Norte Fluminense?

Wilson – O Porto do Açu é uma prioridade nossa, incluindo sua citação expressa no nosso plano de governo, e vamos garantir a infraestrutura necessária para garantir seu pleno funcionamento, incluindo estrutura viária multimodal. São exatamente os investimentos privados e os empreendedores, em parceria com o Governo do Estado, que vão reerguer o Rio de Janeiro.

 

Folha – Com sua foz em Atafona assoreada, o rio Paraíba do Sul sofre em período de estiagem. Há registro de língua salina já no distrito de Barcelos. Há vida para Campos, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana sem o rio que os formou? Como recuperá-lo?

Wilson – Vida sempre haverá, pois é parte do nosso planejamento a diversidade de fontes hídricas em todo o Estado do Rio de Janeiro, mas consta no nosso plano de governo a recuperação do rio Paraíba do Sul através de uma série de expedientes ambientais que vamos aplicar imediatamente após assumirmos o governo, caso sejamos eleitos.

 

Folha – O que Campos, Norte e Noroeste Fluminense devem esperar de Wilson Witzel governador?

Wilson – Um governador engajado na recuperação econômica e da ordem no Rio de Janeiro como um todo, combatendo implacavelmente a corrupção e a insegurança, além de garantir a criação de novas matrizes econômicas para essas localidades. O Norte e o Noroeste Fluminense são hoje muito dependentes da agropecuária e da indústria petroleira. Vamos recuperar essas atividades econômicas e diversificar, de modo que eventuais crises cíclicas não deprimam a economia desses locais, tal como ocorreu recentemente.

 

Página 2 da edição de hoje (07) da Folha

 

Publicado hoje (07) na Folha da Manhã

 

0

Paula Vigneron — Tempo

 

Catacumbas da Catedral de Lima, Peru, 02/11/14 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Fechou o caderno.

A capa estava surrada. Escurecida. As beiradas, encardidas. Quanto tempo havia demorado para perceber? O que restou das letras prateadas não formava mais o seu nome. Eram traços quase imperceptíveis, desgastados pelos dias e pelo excesso de manuseio. Abrira-o e fechara-o tantas vezes nos últimos anos que as impressões digitais pareciam se fundir em desenhos irreconhecíveis. Ou seria apenas ele?

Olhava-o com admiração e pesar. Cada página daquele caderno havia sido escrita com cuidado e delicadeza mesclados à solidão, por vezes. Em outras, havia uma ponta de raiva inconformada com os caminhos que aquelas palavras insistiam em seguir. Mas ele sabia. Não era possível mudar o destino. Nem mesmo os planos prévios que se alteravam para levá-lo a vias desconhecidas. Rabiscava. Apagava. Tentava reescrever. Mas nada o obedecia. Sentia o tempo escoar enquanto analisava cada detalhe daquele objeto. Para quê?

Abriu.

O menino percorria as páginas e, na 15, se encontrava com o adolescente. Rebelde. Engraçado. Certeiro. Na 18, o jovem acenava, ainda perdido por ter crescido tão de repente. Um homem encenava dar as caras na 21, mas era mais visível na 25. Ou 26. Na 30, talvez. A 40 trazia os fios grisalhos que substituíram o garoto em sua face. Para onde caminhava entre as folhas amareladas?

As primeiras letras mal desenhadas com auxílio de dedos amigos. Um acerto ali. Outro acento aqui. Reticências, pontos, travessões. Travessuras. Linhas mais elaboradas divididas com tantas que traçaram também o seu caminho. E o desviaram em certos capítulos. Retomada a tinta, buscava aperfeiçoar, cada vez mais, os seus percursos. Confusos. Havia páginas com começo, mas sem meio ou fim. Em outras, o fim explicava o começo. O meio esquecido. Um final solto. Um sentido perdido.

Fechou.

Nestas horas, sentia-se covarde. Reler certos momentos era como inundar-se de memórias nem sempre positivas. E confrontá-las levava-o a se deparar com pequenos monstros escondidos entre hifens e elipses. Pontos e vírgulas. Vírgulas sem pontos. Pronomes. Passados presentes. Mas sentia a necessidade de insistir um pouco mais. Poderia encontrar uma forma de lapidar e reelaborar para conferir outro estilo à estrutura.

Abriu, mais uma vez.

Tocou as páginas com nostalgia.

“Vazios”, pensou.

Fechou.

“Talvez as folhas amareladas ainda conservem espaços.”

Tocou a capa, que parecia mais surrada agora.

Afastou as mãos.

Abriu.

“Ainda falta um ponto, quem sabe?”

Olhares. Toques. Outros. Pesares. Medos. Ele. Amores. Lembranças. Sorrisos-lágrimas-fome-brigas-risos-paz-dias-horas-minutos-segundos-o tempo. Mãos suadas. Um ponto. O resto. O tempo ecoando em tics-tacs. Ele. O tempo. Nele, o tempo. Dele, o tempo. Quanto. Quando. Em quanto? Enquanto.

 

0

Gustavo Alejandro Oviedo — O choro da viúva

 

 

Após o incêndio no Museu Nacional, o ministro Carlos Marun, da secretaria de governo, disse que só agora apareceram chorando muitas viúvas apaixonadas. Essa declaração acionou o alarme dos vigilantes da correção política, que aproveitaram a ocasião para bater nesse cachorro morto que é a administração Temer.

No entanto, não falta razão ao ministro. Apesar de sua importância histórica e de seu valiosíssimo acervo, o Museu Nacional estava esquecido, e não apenas pelo governo federal. Matéria do site G1 informa que em 2017 o numero de visitas que o museu recebeu foi de 192 mil pessoas, um número 34% menor à quantidade de brasileiros que visitaram o museu do Louvre em Paris nesse mesmo ano.

Quem for revisar as páginas web especializadas em turismo poderá observar que a maioria daqueles que visitaram o MN deixaram comentários elogiosos, mas também advertiam que o estado do estabelecimento não era bom. Destaco dois que retirei do Google:

Ingrid Marques: “Apesar do Museu estar em péssimo estado de conservação, com paredes rachadas, infiltração e mofo… Ainda me surpreendo toda vez que visito, não só pelas exposições em si, mas muito mais por causa do casarão que esconde muita riquesa (sic) arquitetônica e histórica!”

Luis Paulo Machado:” O lugar é muito bonito, está localizado num belo espaço e histórico. Podia ser melhor mantido, achei as instalações mal cuidadas. O valor do ingresso é bem barato, talvez por isso não consigam manter o local em melhores condições. Absurdo é não aceitarem cartão para pagamento, hoje em dia tem até camelô que aceita.”

No site Tripadvisor, o usuário ‘Giopaccini’ fez esta premonição em 29 de janeiro: “Museu com acervo incrível e arquitetura maravilhosa, mas manutenção MEGA PRECÁRIA.Vamos perder um acervo maravilhoso por conta do descaso público com a cultura. “

Retomando a analogia do ministro Marun, uma das viúvas que chora o falecimento do MN é a Universidade Federal do Rio de Janeiro, aquela que tinha sob sua égide a manutenção do estabelecimento, destinando pouco mais de 500 mil reais por ano do seu orçamento total de R$ 3,18 bilhões.

Em nota publicada em abril deste ano, o Pró-reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças da UFRJ, Roberto Gambine, propõe uma série de medidas para reduzir as despesas da universidade visando se ajustar aos contingenciamentos e ao recorte de repasses. Dentre essas medidas, sugere reduzir em 40% o montante gasto com combustível e carros oficiais, cujo valor anual atinge R$ 2,9 milhões.

Reparem: a UFRJ gasta R$ 2,9 milhões com carros oficiais e combustível. O orçamento do Museu Nacional era de R$ 515 mil.

Essa viúva é a mesma que em 2013 retomou a posse definitiva do Canecão, e conseguiu a malfadada façanha de transformar uma histórica casa de shows, localizada numa zona privilegiada da Zona Sul, num prédio abandonado caindo aos pedaços.

A despeito das responsabilidades que caibam genuinamente ao governo federal, é inegável que ele não tem culpa exclusiva pelo assassinato do Museu Nacional. É evidente que a UFRJ também não queria, não podia, ou não sabia como cuidá-lo, pois aqueles que administram a universidade se defrontam nesse típico conflito intelectual que costumam ter os acadêmicos, onde colidem a gestão racional com o idealismo anticapitalista (somada a uma boa dose de hipocrisia), e cujo resultado usual é a inação – e, às vezes, as cinzas.

 

0

Alexandre Buchaul — Quem somos nós?

Escreveria hoje sobre o teatro político eleitoral, a última semana fora repleta de lances interessantes, tivemos as entrevistas dos cinco presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas pela dupla de apresentadores do Jornal Nacional na Rede Globo. Houve, a deveras esperada, decisão do TSE quanto a pitoresca candidatura do Lula (agora negada inclusive sua participação na publicidade). Na Folha da Manhã tivemos entrevistas de presidenciáveis e candidatos a governador, além de perguntas sem resposta que deveriam, ao menos, fazer com que pensasse o eleitor. Afinal, quem, enquanto candidato, não se digna a responder nossas questões, tão pouco o fará se eleito. Entretanto me pego cabisbaixo pela tragédia do Museu Nacional, consumido em chamas.

O desrespeito a nossa história vai além da escrita tendenciosa de quem se arvora o direito de interpretar fatos, como se fossem apenas ficção, para atender a fetiches ideológicos. O pragmatismo da lógica econômica já fez ruir muito de nosso patrimônio arquitetônico e com ele se tornam em entulhos bocados inestimáveis de história. Campos dos Goytacazes, rica em passado, destrói sua memória como se não houvesse futuro. Casarios e solares vêm abaixo pela inércia do poder público aliada a conduta criminosa de alguns proprietários. De prédios que vem abaixo pelo péssimo estado de conservação, vide Hotel Flávio, até aqueles que são derrubados na calada da noite ou nos finais de semana como o Clube do Chacrinha, na esquina das avenidas Treze de Maio e Saldanha Marinho.

Há algum tempo se consumia o Museu da Língua Portuguesa. No domingo foi a vez do Museu Nacional. Quanto de nós mesmos não se perde a cada lasca de história que rui, queima ou se apaga como se jamais tivesse existido?

O futuro se constrói no presente, sobre os alicerces do passado. Sem saber quem somos, não saberemos quem seremos. E como diz o Gato em Alice no País das Maravilhas: “Para quem não sabe aonde quer ir, todos os caminhos servem”. Mesmo os que levam ao desastre.

Conhecer nossa história é essencial para entender quem somos e projetar nosso futuro. Lamento as perdas inestimáveis que sofremos com essas destruições e ainda mais que tais preocupações passem longe do debate político. Líderes que não tem consciência de nossa vocação histórica, que desconhecem o povo que somos e não possuem visão da nação que podemos nos tornar são como cegos querendo ser guias dos demais.

 

0

Fogo do Museu Nacional consumiu Luzia e pode queimar mais gente

 

 

Charhe do José Renato publicada hoje (04) na Folha

 

Museu Nacional

Talvez nada exemplifique melhor a decadência do Brasil do que incêndio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, Zona Norte do Rio, entre domingo e segunda. A perda não se restringiu ao patrimônio arquitetônico da antiga residência da família imperial e palco da primeira Constituinte da República. O acervo histórico, antropológico, paleontológico e linguístico consumido pelas chamas jamais será recuperado. Duzentos anos de trabalhos e pesquisas foram transformados em cinzas. Que, como tudo mais no país, serviram de combustível para “coxinhas” e “mortadelas” arderem suas vaidades na fogueira das redes sociais.

 

Mudará?

As causas do fogo ainda não foram definidas. Mas é absurdo se culpar uma reitoria “aparelhada” da UFRJ, responsável pela manutenção do Museu, toda composta por filiados do Psol, PCdoB e PCB. O abandono da instituição era a tônica na administração Michel Temer (MDB). Como foi nos 13 anos anteriores em que o PT comandou o país. Ou antes, nos oito anos da gestão tucana de Fernando Henrique Cardoso. E, se não fosse o incêndio, alguém arriscaria a mão ao fogo para garantir que algo mudaria no próximo governo? Mudará, independente de quem for eleito presidente no próximo mês?

 

O inferno

Em 2004, então secretário estadual de Energia e Indústria Naval, Wagner Victer disse: “O Museu Nacional vai pegar fogo. São fiações expostas, mal conservadas, uma situação de total irresponsabilidade”. A profecia se cumpriu 14 anos depois. Hoje, simbolicamente, Victer é secretário estadual de Educação. A tragédia foi fruto do abandono que se repete em prédios históricos de todo o país, inclusive Campos, como evidencia a Folha Dois desta edição. A responsabilidade não é só do governo, em suas três esferas. É de cada um que assiste passivo para depois querer protestar. O inferno que ardeu no Museu Nacional não são os outros.

 

Extinção de Luzia

Na semana em que o Brasil comemora seus 196 anos de independência, do prédio que abrigou também a assinatura da proclamação de independência, ficou apenas a fachada. Cerca de 90% do acervo do Museu Nacional foi destruído pelas chamas. Entre os poucos sobreviventes, está o meteoro de Bendegó, maior já encontrado no país. Do que foi perdido, está o crânio de “Luzia”, registro fóssil humano mais antigo da América, datado de 12,5 mil a 13 mil anos atrás. Encontrado em Minas Gerais, pertenceu a uma mulher entre 20 a 24 anos. E foi preservado por 130 séculos, até encontrar sua extinção definitiva entre nós.

 

Bolsonaro lidera

Na esperança de que algo possa mudar no país, foi divulgada ontem a primeira pesquisa presidencial após o início da propaganda eleitoral gratuita em TV e rádio, e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) impugnar a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Pelo BTG Pactual, o instituto FSB ouviu 2 mil pessoas por telefone, entre os dias 1 e 2 deste mês. Comparando com a consulta anterior FSB/BTG, feita em 25 e 26 de agosto, Jair Bolsonaro (PSL) não só continua liderando, como cresceu. Na estimulada, ainda que dentro da margem de erro de dois pontos para mais ou menos, ele foi de 24% para 26% das intenções de voto.

 

Ciro, Marina e Alckmin

Na comparação entre as duas pesquisas do mesmo instituto, a grande novidade aconteceu na segunda colocação. Ela passou a ser ocupada por Ciro Gomes (PDT), que pulou de 8% para 12%. Ainda que no empate técnico, o cearense passou Marina Silva (Rede), que caiu de 15% para 11%. Pela margem de erro, Geraldo Alckmin (PSDB) também está no mesmo bolo, mas patinou com pequena queda: foi de 9% para 8%. Substituto de Lula, Fernando Haddad (PT) teve leve crescimento: de 5% para 6%. João Amoêdo (Novo) manteve os mesmos 4%, assim como Álvaro Dias (Pode) repetiu seus 3%.

 

Mudança para onde?

Algumas tendências carecem de confirmação com entrevista de rua, sem vantagem ao último nome citado, como é inevitável na consulta estimulada ao telefone. Se Ciro tiver mesmo passado Marina, será a primeira vez em dois anos de pesquisas. Por outro lado, se a campanha agressiva de Alckmin contra Bolsonaro for um tiro pela culatra, a preocupação pode ser maior, após a reação do filho do ex-capitão. Deputado federal, Eduardo Bolsonaro (PSL/SP) respondeu ao tucano no Twitter: “Vamos mudar o Brasil, nem que seja na bala”. Se esta for a mudança que o país busca, o fogo que consumiu Luzia pode ainda queimar muito mais gente.

 

Publicado hoje (04) na Folha da Manhã

 

0

Paes, Garotinho e Tarcísio sobem. Romário e Indio caem. Rejeição define

 

 

 

Paes e Garotinho sobem, Romário cai

Na matéria da página anterior desta edição, estão publicados os números da última pesquisa a governador do Rio. Divulgada ontem (31), foi feita pelo instituto Paraná, com 1.860 eleitores de 46 municípios, entre os dias 25 e 30 de agosto. Em empate técnico na margem de erro de 2,5 pontos percentuais para mais ou menos, lideram Romário Faria (Pode), com 18,3%; Eduardo Paes (MDB), com 17,3%; e Anthony Garotinho (PRP), com 14,5%. Comparadas com as pesquisas de maio e junho do mesmo instituto, Romário está em queda: vinha de 24,8% e 24,3%. E Paes (vindo de 13,5% e 15,1%) e Garotinho (11,2% e 13,5%) em ascensão.

 

Diferenças e semelhança

Após o fraco desempenho no debate da Band, dia 16, Romário fugiu da sabatina do dia 28, do jornal O Globo. E o resultado parece não ter sido bom. Com mais cancha nesse jogo, Paes e Garotinho foram aos dois, se atacando em ambos. A diferença é que o ex-prefeito do Rio, pela ligação com o ex-governador Sérgio Cabral (MDB), sofre ataque também dos demais adversários. Menos visado, o ex-prefeito de Campos tem penado, além de Paes, apenas com Tarcísio Motta (Psol). Este repetiu, em entrevista exclusiva à Folha, o que pensa sobre Romário, Paes e Garotinho: “todos, de uma forma ou de outra, se aliaram à máfia do Cabral”.

 

Tarcísio sobe, Indio cai

Tarcísio ainda está no bloco de baixo pela disputa ao Palácio Guanabara: em quinto lugar, com 4,4%. Apesar de estarem todos embolados no empate técnico da pesquisa Paraná, quem puxa o pelotão em quarto ainda é Indio da Costa (PSD), que teve 5,5%. Depois dele e do candidato do Psol, vieram: Pedro Fernandes (PDT), com 2,6%; Wilson Witzel (PSC), 2,3%; e Marcelo Trindade (Novo) e Márcia Tiburi (PT), ambos com 1,7%. Também comparado com as pesquisas do mesmo instituto de maio e junho, Tarcísio está em ascensão: vinha de 3,0% e 3,8%. Vindo de 8,2% e 7,2%, Indio está em queda franca, enquanto os demais estão estagnados.

 

Motivos

Não é novidade a nenhum eleitor a ligação de Cabral com Paes. Mas o fato de que Tarcísio foi até agora o único a corretamente estender esse ônus também a Romário e Garotinho, pode ser o motivo da sua ascensão. Além, lógico, do seu bom desempenho nos debate. Por outro lado, o fato de ter feito escada para Garotinho bater em Paes no debate da Band — denunciada pelo ex-prefeito do Rio como jogada arquitetada por seu sucessor, Marcelo Crivella (PRB) —, parece ser a causa da queda de Índio. No debate de O Globo, ele até tentou também agredir o político de Campos. Mas recebeu deste um aviso velado e se encolheu.

 

Motivo

Já a desidratação contínua de Romário parece não ter muito mistério. Em qualquer frase que precise articular como candidato, expondo seu desconforto na quantidade de vezes em que molha com a língua os lábios secos, ele expõe desenvoltura oposta à que desfilava nos campos — onde se consagrou como um dos maiores atacantes da história do futebol mundial. A experiência administrativa e política que Paes e Garotinho acumularam ao longo dos anos, mesmo quando passível de críticas, dão a ambos grande vantagem no contraste com o ex-craque. Já nas suspeitas que pesam sobre os três, a disputa indica outro “empate técnico”.

 

Na Justiça

Paes teve seu ex-secretário de Obras, Alexandre Pinto, preso pela Lava Jato. Ele foi solto, ao que tudo indica, após contar o que sabe em delação. As consequências parecem esperar a urna, para nelas não interferirem. Garotinho foi preso três vezes ano passado: duas pela troca de Cheque-Cidadão por voto, uma pela denúncia de extorsão de empreiteiros com emprego de arma de fogo. Sem contar sua condenação pelo desvio de R$ 234,4 milhões da Saúde no governo estadual Rosinha, que gerou pedido de impugnação da sua candidatura. Por sua vez, Romário é acusado de ocultar patrimônio para não pagar dívidas em torno de R$ 20 milhões.

 

Na rejeição

Ainda assim, Romário, Paes e Garotinho lideram as intenções de voto. Nelas, a tendência de queda do primeiro e de ascensão dos outros dois parece atender ao desejo da candidatura do DEM. Por conta da sua imensa rejeição, Garotinho é uma espécie de Jair Bolsonaro (PSL) estadual: forte no primeiro turno e fácil de ser batido no segundo. Na Paraná, o campista liderou a rejeição: 69,9%. Assim como ficou à frente no índice negativo da última pesquisa Ibope: 55%. No pleito a governador de 2014, Garotinho não foi nem ao segundo turno. E chegou à urna também liderando a rejeição pelo Ibope: 40%. São 15 pontos a menos do que tem hoje.

 

Publicado hoje (01) na Folha da Manhã

 

0

Tarcísio Motta traz propostas para Uenf, Porto do Açu e Paraíba. E faz críticas

 

Por Aldir Sales e Aluysio Abreu Barbosa

Pleito antigo da Uenf, sua autonomia financeira está entre as propostas de Tarcísio Motta, candidato do Psol a governador do Rio. Se eleito, garantiu nesta entrevista que 6% da receita fluminense serão destinados às universidades estaduais. Ele planeja preservar o rio Paraíba do Sul, investindo na captação de água alternativa dos municípios da sua bacia. Tarcísio também fez críticas ao projeto inicial do Porto do Açu — “um delírio absolutamente irresponsável” — e aos adversários que lideram as pesquisas. Sobre Eduardo Paes (DEM), Romário Faria (Pode) e Anthony Garotinho (PRP), frisou: “todos, de uma forma ou de outra, se aliaram à máfia do Cabral”. O candidato defendeu o polêmico governo do Psol no município vizinho de Itaocara.

 

 

Folha da manhã – Perto de Campos, no município de Itaocara, foi eleito em 2012 o primeiro prefeito do Psol no país. Mas Gelsimar Gonzaga teve um governo conturbado. Chegou a ser afastado pela Câmara Municipal, teve o registro indeferido pelo TRE, na tentativa frustrada de reeleição em 2016, e acabou condenado por abuso de poder político e econômico. Que balanço o partido fez da experiência?

Tarcísio Motta – O companheiro Gelsimar foi afastado por ter enfrentado os poderosos de Itaocara, que nunca se conformaram de um ex-cortador de cana, ex-sindicalista, eleger-se prefeito e lutar contra o fisiologismo, tentando mudar a forma de fazer política no município. No dia da votação de seu afastamento, houve uma grande mobilização contra a cassação na cidade e na Câmara de Vereadores, porque o povo reconhece os avanços.Valorizamos o funcionalismo público e melhoramos os indicadores sociais. Buscamos desde o primeiro dia fortalecer a participação popular. Diversos secretários foram escolhidos por eleição direta. Mesmo com toda a adversidade, achamos que ali estavam presentes algumas pistas importantes de como construir um novo modo de governar.

 

Folha – A esquerda fluminense veio com quatro candidatos a governador: o senhor, Marcia Tiburi (PT), Pedro Fernandes (PDT) e Dayse Oliveira (PSTU). Velho pecado da esquerda brasileira, a divisão não deveria ser evitada, sobretudo em meio à onda conservadora no país?

Tarcísio – A necessária unidade no enfrentamento a essa onda conservadora não implica necessariamente em coligações eleitorais. Nossas alianças eleitorais são programáticas. Temos muito orgulho de estar disputando essa eleição ao lado do PCB, do MTST, do PCR, e tantos outros movimentos sociais. Não fazemos alianças simplesmente para obter mais tempo de televisão. É preciso haver convergência no programa. De qualquer forma, o fato de haver diversas candidaturas do campo progressista disputando o pleito não significa que o eleitorado irá se dividir. Nossa campanha não para de crescer. Acredito que na hora do voto os eleitores do campo progressista irão se unir em torno da nossa candidatura para garantir um representante da esquerda no segundo turno.

 

Folha – Inegável que tanto o senhor, quanto o candidato a presidente do Psol, Guilherme Boulos, passaram a adotar um discurso contra a corrupção e até alguns privilégios do setor público. Pelas beiradas, para não tropeçar na prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas não é uma maneira de pegar carona na aprovação popular à operação Lava Jato?

Tarcísio – Tenho críticas à Lava Jato, em especial à forma como garantias constitucionais estão sendo flexibilizadas ou mesmo ignoradas em determinados casos. A luta contra a corrupção é decisiva, porém, ela não pode servir como desculpa para enfraquecermos as instituições democráticas que preservam o devido processo legal. Mas nosso discurso contra corrupção e privilégios nunca foi feito “pelas beiradas”. Pelo contrário: é incisivo. E não ficamos só no discurso, denunciamos aos órgãos de controle o que identificamos como irregular na gestão pública. Em um ano e meio de mandato na Câmara do Rio, por exemplo, entreguei ao Ministério Público análises e documentos que provam que o poder público age em conluio com empresários de ônibus, deixando as tarifas do transporte mais caras para aumentar os lucros indevidos a esses empresários. Foi mais de R$ 3,6 bilhões. E nada disso foi feito de forma tímida, “pelas beiradas”: investigamos, conseguimos provas, fizemos reuniões abertas convocando a imprensa, nos reunimos com Tribunal de Contas, Ministério Público, divulgamos em todos os canais de comunicação possível, inclusive grandes emissoras de TV, democratizando as informações e nossa opinião. Derrotar a máfia da velha política que levou o Estado do Rio para o buraco é uma das nossas missões.

 

Folha – Em 2016, o filósofo Pablo Ortellado, da USP, publicou o artigo “É possível falar de corrupção a partir da esquerda?”. Em entrevistas anteriores, a Folha perguntou (aqui) a Boulos, formado na USP, e (aqui) ao deputado Chico Alencar, candidato do Psol ao Senado, se era possível. O primeiro tergiversou. Mas o segundo admitiu ter lido e disse ser possível. E para o senhor?

Tarcísio – A corrupção precisa ser enfrentada como um problema sistêmico e não tratada como uma patologia individual. Não adianta culpar o rei quando o problema é o trono. A corrupção é uma forma de governar, sem transparência pública, sem participação popular. A corrupção é inimiga da democracia. Onde tem transparência e participação, a fiscalização é feita pelas pessoas e assim combatemos a corrupção. Nós defendemos o fortalecimento da democracia na gestão do governo. Vamos derrotar a velha política do toma-lá-dá-cá mudando tanto o conteúdo quanto a forma de governar. Pra nós, governar é defender os direitos do povo, e não cuidar do privilégio de meia-dúzia. Governando pro povo, e não pra panelinha, o Rio tem jeito.

 

Folha – O senhor foi considerado por muitos o melhor no debate da Band, dia 16. Enquanto candidatos como Garotinho e Eduardo Paes (DEM) se atacaram, um ponto positivo foi a sua solidariedade a Pedro Fernandes, que teve o pai desaparecido em acidente aéreo. Falta essa humanização à política de um país cindido entre “coxinhas” e “mortadelas”?

Tarcísio – Os debates entre candidatos transmitidos pelas emissoras de TV são muito importantes para que os eleitores conheçam as propostas dos candidatos de forma igualitária, já que todos têm o mesmo tempo para expor suas ideias e propostas. É, sem dúvida, um momento de disputa, em que cada um quer comunicar ao expectador aquilo que acredita ser a melhor opção. Mas não podemos esquecer que, antes de sermos adversários políticos, somos seres humanos, e a solidariedade não deve ser abandonada em nome de divergências. Não posso dizer, de forma generalizada, que falta humanização na política. Mas posso falar que me esforço a cada dia para ser um ser humano melhor.

 

Folha – Também entrevistado por este jornal, o candidato Indio da Costa (PSD), mesmo de perfil liberal, elogiou (aqui) as suas virtudes. Em conversas reservadas, outros candidatos admitem o seu potencial de crescimento. Pela Datafolha, ainda que em empate técnico, o senhor passou Indio: 5% a 3%. Dá para ameaçar os líderes Paes, Romário e Garotinho?

Tarcísio – Nossa eleição é pra valer. Acreditamos que é possível tirar o Estado do Rio do buraco se enfrentarmos essa lógica do toma-lá-dá-cá a que esses políticos estão acostumados. Portanto, seguiremos na campanha para continuar aumentando nossas intenções de voto. Na medida em que as pessoas vão conhecendo nossas propostas, reconhecem que se trata de uma candidatura séria e capaz de enfrentar os problemas do Estado.

 

Folha – O senhor também fez críticas na sua última fala no debate da Band. Sobre Paes: “é cria do Cabral”. Romário: “foi bom de bola, mas votou contra o interesse do trabalhador”. Garotinho: “fez a mesma coisa (que Sérgio Cabral) quando foi governador”. Em seu entender, qual deles representaria o maior retrocesso?

Tarcísio – Que pergunta difícil! [risos] Não consigo escolher um “campeão” no ranking do retrocesso. Os três são páreo duro no quesito “retirada de direitos”. Todos, de uma forma ou de outra, se aliaram à máfia do Cabral que levou o Rio para o buraco.

 

Folha – A Segurança Pública, sob intervenção militar do governo federal, é hoje um dos principais problemas do Estado do Rio. As execuções da vereadora Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março, estão ainda hoje impunes. Ironicamente, o problema é uma das principais bandeiras de um presidenciável como Jair Bolsonaro (PSL). Há solução? Como?

Tarcísio – Não vamos insistir nessa política de segurança falida, que trata a favela como território inimigo e mata pobre todo o dia. Esse modelo não gera segurança. Pelo contrário, gera medo, violência e sofrimento, em especial para a juventude negra que está sendo exterminada. E isso a um custo enorme para os cofres públicos. Só na ocupação da Maré em 2014 foram gastos R$ 600 milhões. E a previsão de gastos para a intervenção esse ano ultrapassa a marca de R$1 bilhão. É preciso mudar o modelo como um todo. Vamos modernizar a gestão, integrar os diferentes órgãos de segurança e priorizar o combate ao tráfico de armas. Os agentes de segurança serão ouvidos e, junto com eles, vamos melhorar suas condições de trabalho. Queremos valorizar o salário dos servidores e garantir planos de carreira dignos. Além disso, vamos aprimorar o controle externo e fazer uma limpa nas instituições para retirar das ruas os agentes envolvidos com grupos criminosos. Nosso objetivo será reduzir os índices de violência, em especial, homicídios e estupros, e construir uma rede pública de apoio, acolhimento e denúncia para familiares e vítimas.

 

Folha – Além da violência, o Estado do Rio vive também um quadro de insolvência financeira. Sobre o regime de recuperação fiscal firmado entre os governos Michel Temer e Luiz Fernando Pezão, o senhor já disse: “não foi socorro, foi agiotagem”. O que propõe?

Tarcísio – Vamos revisar o Regime de Recuperação Fiscal. Faço questão de repetir aqui: o que o governo Temer fez com o Estado do Rio foi agiotagem. Ele simplesmente empurrou a dívida para o próximo governador cobrando juros escandalosos. Isso não é um plano de recuperação. Isso é suicídio fiscal. E não será com cortes na saúde e na educação que vamos conseguir sair do buraco que a máfia do MDB nos enfiou. Precisamos rejeitar as políticas de austeridade fiscal que retiram direitos da população e recuperar as finanças do Governo do Estado investindo na diversificação da matriz econômica, incentivando o adensamento das cadeias produtivas e induzindo a retomada da atividade para ampliar a arrecadação. Além disso, vamos renegociar a dívida do Rio com a União, auditar os contratos, reestruturar a política de isenção fiscal, otimizar o uso dos recursos públicos e garantir a integração dos órgãos estatais de forma que a as ações de governo sejam mais eficientes.

 

Folha – A face mais cruel da falência financeira do Estado se dá sobre os servidores ativos e inativos. Qual o seu compromisso em honrar mensalmente esses vencimentos?

Tarcísio – Nós vamos garantir o pagamento integral e em dia dos vencimentos dos servidores, aposentados e pensionistas. Nenhum servidor, ativo ou inativo vai ficar sem seu dinheiro. Sou professor de escola pública e posso garantir que a valorização do servidor público é uma das nossas principais bandeiras. Somente assim iremos melhorar a qualidade dos serviços públicos e garantir os direitos da população.

 

Folha – Outra face do caos financeiro se dá sobre o abandono da Uenf e do Colégio Agrícola Antônio Sarlo. No debate da Band, quando perguntados sobre a Uerj, apenas o senhor, Paes e Garotinho lembraram que a Uenf existe. O que pretende fazer para que a instituição de ensino superior da região continue a existir?

Tarcísio – A Uenf, assim como Uerj, Uezo e os Institutos Superiores de Educação precisam ser valorizados como importantes centros de formação, pesquisa e inovação. A rede pública de ensino superior do Estado deve servir como um vetor de desenvolvimento estratégico que pode, inclusive, nos ajudar a sair da crise e elaborar soluções criativas para resolver os problemas de desemprego no Rio. Nossa principal medida será garantir autonomia financeira para as universidades estaduais, com a ampliação dos recursos públicos reservados ao ensino, à pesquisa e a programas de extensão, destinando, desde o primeiro ano, 6% da receita do Governo do Estado para as universidades estaduais. Além disso, vamos garantir instalações e equipamentos adequados nas unidades da rede. E vamos expandir o ensino superior estadual público para o interior, garantindo a qualidade da educação, a integração entre ensino, pesquisa e extensão e a ampliação da oferta de vagas em cada região do Estado.

 

Folha – Quais são seus planos para Porto do Açu na questão do desenvolvimento específico do Norte Fluminense?

Tarcísio – Antes de mais nada, precisamos garantir os direitos das centenas de famílias de agricultores familiares e pescadores artesanais no V Distrito do município de São João da Barra que foram removidas para o distrito industrial do empreendimento se tornar uma realidade. O projeto inicial do Porto do Açu foi um delírio absolutamente irresponsável. Mas não será com cortes em investimentos que iremos sair do buraco que a máfia do MDB nos enfiou. Pelo contrário, precisamos investir em setores altamente empregadores, como a indústria portuária, para conseguir sair da crise. Vamos criar um plano estratégico para o setor de minério, óleo e gás no Estado do Rio. Queremos redimensionar a política de adensamento dessa cadeia produtiva no Estado e reduzir os impactos socioambientais dos projetos. Nos últimos anos, o Rio aprofundou a sua dependência em indústrias extrativistas como petróleo e gás. Isso é muito preocupante. Temos que reverter esse quadro buscando soluções economicamente criativas e ambientalmente sustentáveis. Vamos implementar planos regionais de desenvolvimento social em cada região do Estado, considerando o meio ambiente, as culturas locais, a soberania alimentar e a tradição de cada localidade. Nosso objetivo será diversificar a economia, garantir justiça socioambiental e incentivar a inovação. No caso do Norte Fluminense, a agricultura familiar será prioridade: vamos realizar reforma agrária para democratizar o acesso à terra, garantir regularização fundiária para viabilizar o acesso à linha de crédito e isentar a cesta básica de impostos para tornar a comida mais barata. Além disso, vamos investir em obras de construção civil nas áreas de mobilidade urbana e saneamento ambiental para qualificar a infraestrutura das cidades da região, destinando vagas de trabalho para os moradores locais e transformando, assim, os investimentos em obras em uma política de distribuição de renda. 

 

Folha – Com sua foz em Atafona assoreada, o rio Paraíba do Sul sofre bastante em tempo de estiagem. Há registro de língua salina já em Barcelos. Há vida para Campos, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana sem o rio que as formou? Como recuperá-lo?

Tarcísio – É preciso investir na recuperação de manguezais, restingas e matas de encosta e implementar os planos de preservação elaborados pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Médio Paraíba do Sul. Além de construir novas redes de coleta e estações de tratamento de esgoto nas cidades do entorno do Rio Paraíba do Sul e seus afluentes, como Volta Redonda e Barra Mansa: os municípios do Sul do Estado despejam mais de 120 milhões de litros de esgoto in natura por dia no rio. Mas nada disso será suficiente se não enfrentarmos os problemas estruturais relativos ao consumo de água na região, que não foi ampliado adequadamente e continua calcado apenas no aumento da captação da água do rio. Além do desastre natural que representa a superexploração do Paraíba do Sul, a falta de planejamento no abastecimento de água de regiões com grande crescimento econômico e demográfico é uma irresponsabilidade absurda dos últimos governos. O rio não pode continuar sendo a única fonte de abastecimento dessas regiões.

 

Folha – O que Campos, Norte e Noroeste Fluminense devem esperar de Tarcísio governador?

Tarcísio – Nosso programa engloba uma série de ações que irão melhorar a qualidade de vida dessas regiões. Nossas prioridades são reduzir o custo de vida, promover trabalho digno e distribuição de renda para diminuir a desigualdade social, melhorar a qualidade dos serviços públicos para garantir direitos, preservar o meio ambiente e defender a igualdade de todas e todos. Para resolver os problemas na segurança, vamos combater o tráfico de armas, reformar a polícia e investir em inteligência e prevenção, substituindo a lógica do confronto pela investigação. Para superar a crise econômica, vamos reduzir o preço da passagem dos transportes, diminuir o custo com moradia, tornar a comida mais barata e investir em obras que geram emprego, aumentam a infraestrutura das cidades e melhoram a vida das pessoas. O Rio tem jeito, mas não é o das máfias.

 

Página 2 da edição de hoje (01) da Folha

 

Publicado hoje (01) na Folha da Manhã

 

0

Ciro, Bolsonaro, Alckmin, Marina e Globo na berlinda. Lula hoje no TSE

 

 

Sabatinas do JN

Depois de Ciro Gomes (PDT), na segunda, e Jair Bolsonaro (PSL) na terça, quarta e ontem foram os dias do Jornal Nacional sabatinar, respectivamente, Geraldo Alckmin (PSDB) e Marina Silva (Rede). A ordem foi definida por sorteio entre os cinco candidatos mais bem colocados na última pesquisa Datafolha. Primeiro colocado em todas, mas preso desde 7 de abril pela Lava Jato e proibido pela Justiça de dar entrevistas, o ex-presidente Luiz Inácio da Silva (PT) não pôde participar.

 

Alckmin

A coluna já tratou (aqui e aqui) das entrevistas de Ciro e Bolsonaro. Sempre cobrado por seu destempero, o cearense foi contido. Já o ex-capitão do Exército pareceu à vontade com a pauta politicamente correta que lhe foi mais uma vez oferecida. Por sua vez, Alckmin foi equilibrado e insosso como sempre. Justificou o apelido “Picolé de Chuchu”, cunhado pelo jornalista José Simão há 16 anos. Ainda assim, mostrou mais uma vez ser um candidato muito mais preparado do que Bolsonaro, com quem disputa os numerosos votos do antipetismo. O problema é que o tucano está atrás do adversário nas pesquisas até em São Paulo, que governou quatro vezes.

 

Erro primário

Se já tinha sido criticado pelas perguntas previsíveis a Bolsonaro, foi com Alckmin que o Jornal Nacional cometeu seu maior erro. Renata Vasconcellos afirmou que o tucano estaria sendo apoiado pelo ex-presidente Fernando Collor de Mello, numa aliança com a legenda deste: o PTC. Alckmin a desmentiu no ato. E foi até educado ao revelar o erro primário de checagem na pauta do mais popular programa jornalístico da TV brasileira. Na verdade, o partido de Collor apoia Álvaro Dias (Pode) a presidente. Se fosse com Bolsonaro, este poderia especular que Renata ganha menos que William Bonner não pelo gênero, mas por ser falha como jornalista.

 

Marina

Após tantos equívocos, ontem foi a vez do Jornal Nacional fechar sua série de entrevistas com Marina. Como Ciro e Alckmin, seu desempenho foi morno. Ainda assim, a candidata da Rede não deixou de observar a incoerência da pauta: começou lhe cobrando liderança e capacidade de aglutinar, para ter condições de governar se eleita, e depois passou a questionar as alianças estaduais do seu partido. Diferente das demais sabatinas, Bonner e Renata pareceram menos à vontade para interromper Marina, talvez pelo fato de ser uma mulher. Se foi, seria mais um fruto do politicamente correto que já tinha rolado a bola a Bolsonaro na terça.

 

“Besta-fera”

Antes da entrevista de Marina, um experiente jornalista publicou ontem, na revista Veja, artigo (aqui) sobre a atitude dos colegas da Globo. José Roberto Guzzo escreveu: “As cruzadas da mídia fazem parte do problema. Dezenas de milhões de cidadãos se sentem agredidos, há anos, por uma visão da sociedade, da política e da vida que afronta diretamente os seus valores e convicções. Acabaram achando que a defesa do seu mundo depende das posturas mais extremadas que circulam na praça. A besta-fera do radicalismo, que tanto assusta hoje, estava apenas hibernando. Tiraram o bicho da toca e agora fica complicado se livrar dele”.

 

Lula hoje?

Hoje à noite começa a propaganda eleitoral em TV e rádio, com os candidatos a governador. Amanhã, estreiam os presidenciáveis. Também hoje, às 14h30, haverá sessão extraordinária no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ministro relator dos pedidos de liminar para que Lula não participe da campanha e das ações de impugnação da sua candidatura, Luís Roberto Barroso está inclinado a levar as questões ao plenário. Virtualmente inelegível pela Lei da Ficha Limpa que aprovou quando presidente, o prazo para defesa de Lula se encerrou às 23h59 de ontem. A definição pode ser hoje. A ver…

 

Via crucis

No último dia 14, a Folha reuniu representantes locais dos candidatos a governador e presidente. Com a participação deles, fez um sorteio de datas para publicação de entrevistas. A de hoje ficou reservada ao presidenciável Henrique Meirelles (MDB). No dia 20, o contato da assessoria do candidato foi cobrado ao representante que assinou a ata do sorteio. E novamente no dia 24, quando finalmente a ponte foi feita. De Brasília, o retorno também foi lento: só no dia 27, já após a ter sido pauta enviada. E não foi respondida. Depois dessa via crucis com sua equipe, é difícil saber por que Meirelles patina em 1% em todas as pesquisas?

 

Publicado hoje (31) na Folha da Manhã

 

0

José Roberto Guzzo — As cruzadas da mídia fazem parte do problema

 

(Foto: Sergio Zalis – TV Globo)

 

Jornalista José Roberto Guzzo

Caras e bocas

Por Josá Roberto Guzzo

 

Quando alguém se coloca no papel de Deus no dia do Juízo Final, disposto a dar sentenças sem possibilidade de recurso, é bom saber o está fazendo, porque o emprego de Deus não é assim tão fácil como se pensa. Mas aí é que está: hoje em dia qualquer um se nomeia Padre Eterno, sem pensar durante meio minuto se está qualificado para a função. Acredita seriamente que é capaz de tirar de letra a tarefa de separar céu de inferno, não se prepara para o serviço e o resultado acaba sendo uma lástima. É o que o público acaba de ver, nos últimos dias, no processo divino e penal instaurado por jornalistas de televisão contra os atuais candidatos a presidente da República. Não estão previstas absolvições nesse tribunal. As únicas sentenças disponíveis são as de condenação. Nada do que os réus dizem, quando conseguem dizer alguma coisa, é levado em consideração; é uma surpresa, na verdade, quando recebem a permissão dos inquisidores para completar uma resposta. O resultado final é que ninguém acredita que os moços e as moças da tela sejam mesmo um Deus legítimo. Ficam com cara de Rolex paraguaio. Não assustam mais os acusados. Fazem o público ficar torcendo contra eles e a favor dos candidatos. Provocam o riso.

Ninguém parece estar fazendo isso tão bem quanto a Rede Globo, embora este seja um campeonato em aberto na mídia, com muito jogo ainda pela frente. Seus entrevistadores vão para cada programa com um propósito acima de qualquer outro ─ em vez de fazer perguntas aos candidatos, fazem acusações. Não é, em nenhum momento, uma entrevista: é um interrogatório policial, onde os inquisidores não ouvem as respostas do inquirido, não se obrigam a colocar um mínimo de inteligência nas suas questões e só se interessam em exibir para o público o quanto admiram as suas próprias virtudes. Aumentam o tom de voz cada vez que o acusado abre a boca para falar alguma coisa. Arregalam os olhos. Ficam de dedo em riste. Fazem caras e bocas. Se enervam o tempo todo. A última coisa que os preocupa é levar alguma informação a quem está assistindo ao programa. Ao fim do espetáculo, a maior parte do público já esqueceu a maçaroca de números, nomes e datas, frequentemente desconexos, incompreensíveis ou tolos, que os acusadores jogaram em cima de todos. Praticam, em suma, um jornalismo de emboscada de baixa qualidade, em que se satisfazem plenamente em ouvir o barulho dos tiros que disparam. Acham que isso é o bastante para revelar sua independência diante dos candidatos. Conseguem, no fim, mostrar apenas o quanto podem ser neurastênicos.

O resultado mais frequente disso tudo têm sido o exato contrário do que os programas pretendem. Os jornalistas conseguem, sim, desfilar na tela no papel de mocinhos e deixar os candidatos na posição de bandidos ─ o problema, porém, é que acabam levando o público a torcer pelo bandido. Como ser diferente? À certa altura de um dos recentes inquéritos, por exemplo, os entrevistadores colocaram a si próprios na posição de sustentar perante a plateia que a dramática queda na taxa de homicídios de São Paulo nos últimos dez anos era uma obra do PCC. Aí fica realmente difícil. Da mesma maneira, perderam o controle da própria capacidade de pensar durante os confrontos com o seu monstro preferencial, o candidato Jair Bolsonaro. É perigoso fazer isso em briga de rua. Acabaram, por duas vezes seguidas, permitindo que o deputado dançasse um sapateado flamengo em cima de si próprios e da emissora que os emprega.

Não é um “problema deles”, como se poderia dizer. Os episódios cada vez mais inquietantes de perversidade, fanatismo e grosseria por parte de tantos eleitores, um sinal particular da atual campanha para a Presidência, são consequência inevitável do extremismo que passou a comandar o ambiente político brasileiro. As cruzadas da mídia fazem parte do problema. Dezenas de milhões de cidadãos se sentem agredidos, há anos, por uma visão da sociedade, da política e da vida que afronta diretamente os seus valores e convicções. Acabaram achando que a defesa do seu mundo depende das posturas mais extremadas que circulam na praça. A besta-fera do radicalismo, que tanto assusta hoje, estava apenas hibernando. Tiraram o bicho da toca e agora fica complicado se livrar dele.

 

Publicado aqui na Veja

 

0

Guilherme Carvalhal — Um breve minuto

 

 

Apaixonaram-se tão intensamente que logo foram tomados pelo receio de verem esse amor se extinguir com o cotidiano. Pretendiam que a chama dos primeiros encontros se mantivesse sempre acesa, que quando estivessem juntos parecesse que não se viam há séculos.

Criaram um acordo para preservar essa paixão primordial. Decidiram se ver apenas uma vez por semana, durante um minuto. Ela passava em frente ao seu apartamento às segundas pela manhã, ele a encontrava, trocavam rápidos beijos e palavras, se despediam e seguiam seus rumos.

O longo tempo sem se verem, sem terem notícias, deixava ambos na expectativa pela próxima segunda. Durante o trabalho, no trânsito, na fila do mercado, a imagem do outro passava pelas suas cabeças, gerando um desejo imenso, a ponto de explodirem.

A relação gerou uma imensa e constante necessidade de se quererem. Alimentavam a paixão com a saudades, e no fim das contas nunca de fato deixavam suas pulsões fluírem. O sentimento se tornou uma constante repressão, e aquele amor inicial se converteu em martírio.

Cada um na sua redoma pensava em mudar os termos do acordo. Queriam se ver frequentemente, passar horas juntos conversando sobre os assuntos mais superficiais, contanto que valesse a pena. Pensavam nas cenas imaginárias compartilhadas, em viagens, no cinema e em todos os locais onde poderiam estar.

Certa segunda-feira, ele desceu para vê-la e ela não passou. Imaginou que talvez estivesse doente. Queria telefonar para saber como ela está, mas o acordo incluía não saberem o telefone um do outro. Na segunda seguinte ela também não apareceu e logo ele constatou que tudo havia terminado.

Os meses passaram e ele não teve mais contato com ela, até que um dia, no parque, a viu de longe de mãos dadas com um cara. Vigiou-os anonimamente por algumas minutos. Eles riam entre si, se abraçavam, conversavam como se nada mais existisse em todo mundo. Então ele descobriu que o medo de matar o amor também mata o amor.

 

0

Na pauta politicamente correta, jornalismo joga o jogo de Bolsonaro

 

 

Sem paixão

A cobertura jornalística de Copas do Mundo é um eficaz condicionante para que a análise crítica se sobreponha à paixão do torcedor. Qualquer um que se propuser a fazê-lo, constatará que Jair Bolsonaro (PSL) não foi mal na sabatina de terça (28) no Jornal Nacional. Mesmo que fosse, isso não faria diferença para quem trata o presidenciável por “mito”. Como não faria nenhuma para quem, de antemão, considera o candidato machista, racista e homofóbico.

 

Placar prévio

Bolsonaro tem cerca de 20% do eleitorado — o que corresponde a quase 30 milhões de brasileiros. Mas o ex-capitão do Exército também aparece nas pesquisas como líder de rejeição. No Datafolha, quase 40% dos eleitores não votariam nele de jeito nenhum. Os números indicam aproximadamente 60 milhões de brasileiros. Para essas duas relevantes parcelas da população, Bolsonaro já tinha ido bem e mal mesmo antes da sabatina.

 

Desinteligência

Sobram os outros 60 milhões que vivem no mesmo país e também elegerão o próximo presidente. Para estes, se a pauta do Jornal Nacional girasse sobre saúde, educação e economia, teria muito mais serventia na formação de opinião do que insistir no politicamente correto como eixo das perguntas. Impressiona a desinteligência dessa insistência, após o golpe que o jornalismo brasileiro aplicou sobre si mesmo, no Roda Viva com Bolsonaro de 30 de julho.

 

Força do hábito

Pai do pensamento ocidental, Aristóteles ressalvava antes de Cristo: “Somos o que repetidamente fazemos. A excelência, portanto, não é um feito, mas um hábito”. Ainda que provavelmente Bolsonaro e seus eleitores nunca tenham lido o filósofo grego, o fato é que o candidato a presidente está no embate contra o feminismo, a defesa dos direitos dos negros e índios, além das questões de gênero, há quase 30 anos. Goste-se ou não das suas opiniões, necessário admitir: pelo hábito, isso é o que ele faz melhor.

 

Constrangedor

Bolsonaro, por certo, tem muitos defeitos. Mas como qualquer outra pessoa também tem virtudes, independente do juízo de valor que delas se faça. Quem dúvida tiver, que seja sincero ao dizer como se sentiu quando o candidato quis exibir um livro que atribuiu ao projeto “Escola sem Homofobia”, chamado pejorativamente de “kit gay”, em pleno Jornal Nacional. Não era, mas se material semelhante tinha como objetivo a distribuição entre crianças e adolescentes, até ser barrado em reação da bancada evangélica surfada pelo deputado, por que não poderia ser mostrado nas telas de TV de todo o Brasil?

 

EUA tiram dúvida

O constrangimento da Globo só não foi maior do que quando ecoou, pela boca do ex-capitão, as palavras de Roberto Marinho em apoio ao golpe civil-militar de 1964. Salvo o imponderável, como uma gravação de Joesley Batista, Bolsonaro deve estar no segundo turno. Bem verdade que, pelas pesquisas, lá ele perderia para quase todos os concorrentes. Mas tratá-lo como aberração, não candidato competitivo, dá provas sobre provas de ser a melhor maneira de fortalecê-lo. Está aí Donald Trump, no cargo mais importante da Terra, para dirimir quaisquer dúvidas.

 

No páreo

A visita do candidato a governador Romário (Pode) a Campos na segunda-feira (27) foi acompanhada de perto por Caio Vianna (PDT). Como registrado no blog do Arnaldo Neto, e nesta coluna, o nome do filho de Arnaldo Vianna não aparecia entre os postulantes pedetistas a nenhum cargo. Mas, na última atualização do sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ontem (29), Caio surge como candidato a deputado federal. Em 2016, o filho de Arnaldo chegou a liderar as pesquisas a prefeito de Campos, mas desidratou quando perdeu o apoio do pai e acabou se aliando a Anthony Garotinho (PRP).

 

Com o jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

0

Romário, Paes, Indio, Garotinho, Tarcísio, Ciro, Bolsonaro e morte em Atafona

 

 

 

Debate a governador

Com menos candidatos a governador do Rio do que no debate da Band, dia 16, algumas coisas foram diferentes e outras se repetiram no debate promovido na manhã de ontem (28), pelos jornais O Globo e Extra, além da revista Época. Transmitido pelas redes sociais, só foram convidados os cinco candidatos mais bem colocados na última pesquisa Ibope: Romário Faria (Pode), Eduardo Paes (DEM), Anthony Garotinho (PRP), Tarcísio Motta (Psol) e Indio da Costa (PSD). Romário não foi. Mas, a julgar por seu péssimo desempenho na Band, sua ausência ontem poderia ser definida por aquilo que o ex-craque já falou de Pelé: “calado, é um poeta”.

 

Paes, alvo preferencial

Época de eleição é como de Copa do Mundo. Quem entente pouco ou nada do assunto se julga no direito de emitir opinião, confundindo torcida com argumento, e argumento com fato. Diuturnamente, estão aí as redes sociais para dirimir qualquer dúvida do nível rasteiro desse debate. No que foi promovido pelas Organizações Globo, não erra quem disser que serviu menos para discutir propostas ao Estado do Rio, do que para ataques entre os candidatos. Alvo preferencial por conta da sua ligação com o ex-governador Sérgio Cabral (MDB), Paes voltou a ser o alvo preferencial. Mas ontem, diferente da Band, ele se empenhou nos contra-ataques.

 

Indio e Garotinho

Para quem tem capacidade de interpretação, algumas coisas se revelaram além do óbvio. Indio tentou se desligar da imagem de “escada” para Garotinho bater em Paes, que ficou no debate da Band. E perguntou ao campista como ele poderia voltar a ser governador e dirigir o sistema penitenciário do Estado, tendo sido dele “hóspede” duas vezes no ano passado. E o político da Lapa sutilmente ameaçou revelar o grau da sua real intimidade com Indio, ao dizer que foi este quem ligou para lhe dizer que não poderia não poderia ser impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa. Seu relator como deputado federal, Indio ouviu e se encolheu.

 

Preocupação com Tarcísio

Conhecido pela expressão facial de satisfação consigo mesmo após encerrar cada intervenção, Garotinho também revelou sua preocupação com o crescimento de Tarcísio. Para quem sabe ler nas entrelinhas, isso ficou claro quando o candidato do PRP disse em sua última fala: “uns não tem nenhuma experiência (…) falam muito, fazem piadinha, são engraçadinhos (…) mas não têm conteúdo (…) o importante nessa eleição é você não cair no risco de votar em candidato despreparado”. Referiu-se ao candidato do Psol, o melhor nos dois debates. O motivo? Ainda distantes, Garotinho e Tarcísio são, respectivamente, o 3º e o 4º nas pesquisas.

 

Ciro e Bolsonaro no JN

Já foram duas as entrevistas da semana com os presidenciáveis no Jornal Nacional. Na segunda (27), com receio de confirmar seu destempero, Ciro Gomes (PDT) aceitou ser parcialmente contido pelo estilo assertivo de William Bonner. Já Jair Bolsonaro (PSL) não mostrou medo e foi para cima. Teve uma boa resposta da jornalista Renata Vasconcelos, que se impôs na questão da diferença salarial entre gêneros. Só que a insistência da pauta no politicamente correto favorece a Bolsonaro. Na experiência de muitos anos, ele se tornou bom nisso. Mas é só. Impressiona como a grande mídia brasileira parece incapaz de aprender com seus erros.

 

Morte e repercussão

O assassinato em Atafona do jovem Layron da Silva Costa, de 24 anos, durante ação policial na noite domingo (26), gera revolta e protestos. No sepultamento, ontem (28), amigos da vítima cobravam por Justiça. Layron pilotava uma moto quando foi baleado na cabeça. O caso foi registrado por policiais como auto de resistência. Grande parte da imprensa de Campos e SJB — a Folha é uma das poucas exceções — chegou a chamar a vítima de bandido, apostando em informações desencontradas e sem a checagem dos fatos, ato primordial no exercício do jornalismo. A família comprovou que o jovem não tinha antecedentes criminais.

 

Versão contestada

Amigos e familiares do Layron demonstraram revolta com a imprensa, o que se justifica devido à forma como o caso foi abordado. Na primeira versão, que está na narrativa policial, a vítima estava dando carona a um suposto chefe do tráfico e houve troca de tiros. Mas existe outra versão, ainda não oficializada, de que sequer o carona teria envolvimento com o tráfico. Seriam dois jovens que saíam de um churrasco no Balneário de Atafona e teriam sido perseguidos e abordados a tiros. A Corregedoria da Polícia Militar já atua no caso. A sociedade precisa de uma resposta imediata sobre as circunstâncias e a motivação dessa morte.

 

Com o jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (29) na Folha da Manhã

 

0