Os três patéticos — A emissora, o candidato e o eleitor

 

 

Ainda sobre Bolsonaro na GloboNews, pense rápido: o que é mais patético?

1 – Uma emissora obrigada a explicar porque apoiou uma ditadura e depois se arrependeu?

2 – Um candidato que diz não ter existido uma ditadura no país que pretende governar?

3 – Um eleitor que comemora a penitência pela ditadura ser imposta por quem a nega?

 

 

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Bolsonaro evidencia suas limitações e contradição histórica da Globo

 

 

Concluída agora há pouco a entrevista de Jair Bolsonaro (PSL), a GloboNews fechou o primeiro ciclo do programa “Central das Eleições” com os cinco presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas. Na segunda, foi Álvaro Dias (Podemos); na terça, Marina Silva (Rede); na quarta, Ciro Gomes (PDT); na quinta, Geraldo Alckmin; e Bolsonaro entre ontem e hoje.

Álvaro Dias foi o sabatinado mais prejudicado, por ser o primeiro, com a fórmula do programa ainda aparando as diferenças entre planejamento e prática. Os entrevistados mais consistentes foram, sem dúvida, Marina e Ciro, concorde-se ou não com as suas ideias. Alckmin foi talvez o mais equilibrado, mas a empolgação que gerou fez jus ao apelido “picolé de chuchu”.

Quanto a Bolsonaro, aos eleitores que o colocam em primeiro lugar nos cenários sem Lula, talvez não signifique nada dizer que foi o candidato mais frágil entre os cinco entrevistados. Mas, depois de hoje, é difícil acreditar que crescerá nos índices de intenção de voto que já atingiu nas pesquisas. Entre as mulheres, depois do que declarou ao vivo sobre feminicídio e diferenças salariais entre gêneros, deve ser impossível. Ainda assim, mantém razoável dianteira na briga por uma das duas vagas ao segundo turno.

Talvez com base no polêmico e popular Roda Viva com o ex-capitão do Exército, exibido na segunda, os jornalistas da GloboNews não cometeram os mesmos erros dos seus colegas na TV Cultura. No primeiro bloco, Bolsonaro não foi mal como no segundo e quarto. Mas foi no terceiro que suas limitações ficaram mais evidenciadas. Tão desnudas quanto seus pulsos, entre as duas mangas abertas da camisa a pontuar a atuação confusa.

O improviso do candidato chegou ao ponto dele ficar na dúvida sobre uma questão capital: a privatização da Petrobras. Embora tenha defendido a importância estratégica da estatal dilapidada pela corrupção nos 13 anos de governo PT, ele aparentemente definiu a questão num rompante de momento: se não abaixar o preço do diesel, será privatizada. Simples assim.

Como não há soluções simples para questões complexas, a GloboNews também se expôs ao embaraço público. No decorrer da entrevista, Bolsonaro não escondeu o prazer ao repetir de cor um trecho do editorial do falecido jornalista Roberto Marinho, em apoio ao golpe civil-militar de 1964. Já havia feito o mesmo no Roda Viva. Mas na emissora da família Marinho, obrigou a mediadora Miriam Leitão a balbuciar a resposta em um teleprompter tão lento quanto constrangedor.

Foi um ponto para Bolsonaro. Mas, se ele não se submeter rapidamente a um condicionamento mais rigoroso do que em seus tempos do Exército, terá dificuldade de ampliar suas intenções de voto para além dos já convertidos. A ver…

 

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Entrevista hoje de Bolsonaro e combate ao estupro das fakenews

 

 

A partir das 22h30 de hoje, o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) será o entrevistado do programa “Central das Eleições”, da GloboNews. No correr da semana, a bancada de jornalistas da emissora, comandada por Miriam Leitão, já sabatinou os presidenciáveis Álvaro Dias (Podemos), Marina Silva (Rede), Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB).

No combate necessário às fakenews dos políticos e seus militantes, a imprensa do mundo parece estar aprendendo com seus erros. Nos EUA, liderados (aqui) pelo Washington Post, os jornalistas passaram a fazer a checar e denunciar cada afirmação falsa do presidente Donald Trump. Antes tarde do que nunca, o filtro necessário e didático parece estar surtindo efeito.

Abaixo do Equador, os jornalistas parecem também ter aprendido a lição, depois da polêmica entrevista de Bolsonaro na segunda, ao Roda Viva da TV Cultura. Na oportunidade, o candidato se mostrou à vontade nos pontos mais polêmicos, como as acusações de machismo, racismo e apoio à ditadura militar (1964/85). Mas demonstrou fragilidade na hora de falar de suas propostas sobre economia, saúde e educação.

Como apertou todos os candidatos entrevistados anteriormente, os jornalistas da GloboNews devem hoje também fazê-lo com Bolsonaro. Mas é improvável que um deles vá reeditar a estultice de dizer que Jesus foi um “refugiado”, como fez Bernardo Mello Franco no Roda Viva. Tampouco Bolsonaro deve repetir as suas, como afirmar: “os portugueses nem pisaram na África”, ou “se aumentar o emprego, a necessidade de procurar os hospitais diminui”.

De qualquer maneira, as eventuais fakenews serão nacionalmente desmascaradas. Como a GloboNews fez com todos os demais presidenciáveis sabatinados. Independente do resultado real da entrevista de daqui a pouco, não é preciso muita inteligência para se prever sua absoluta ausência em quem vai invadir as redes socias para confirmar o que delas falava Umberto Eco — “deram voz aos imbecis” — e regurgitar:

— A imprensa brasileira é toda formada de comunistas!

— O cérebro desse grande complô marxista são as Organizações Globo!

No filtro paciente às fakenews, o jornalismo sério vai aplicando sobre o “pensamento” dessa gente o que Bolsonaro propõe aos estupradores: castração. Por limitação de intelecto e/ou caráter, pode não impedir que violentem a verdade. Mas estanca a reprodução.

 

 

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Lula oferece a cabeça da neta de Miguel Arraes para isolar Ciro

 

Marília Arraes, esperança de renovação do PT em seu reduto eleitoral do Nordeste, e Lula

 

Da prisão, Lula opera para impedir a renovação da esquerda brasileira e do próprio PT. Com objetivo de isolar a candidatura presidencial de Ciro Gomes (PDT), o ex-presidente entregou a cabeça da promissora candidatura petista de Marília Arraes ao governo de Pernambuco. Livre da concorrência em seu maior reduto eleitoral, o PSB pagará o desimpedimento à candidatura de reeleição do governador Paulo Câmara: se declarará neutro na eleição presidencial, deixando Ciro correr sozinho, com menos apoio partidário e tempo de propaganda eleitoral.

Embora insista em jogar para sua torcida com a candidatura presidencial de Lula, cuja “inelegibilidade chapada” (evidente) já foi antecipada (aqui) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o PT sabe que seu líder preso não poderá concorrer, e que nenhum dos seus suplentes tem chance real de chegar ao segundo turno. Assim, o partido só vislumbra sobrevida no comando de uma oposição de esquerda nos eventuais governos Jair Bolsonaro (PSL) ou Geraldo Alckmin (PSDB).

Se Ciro fosse eleito presidente, assumiria naturalmente a condição de líder da esquerda brasileira — ainda que dificilmente fosse governar sem o pragmatismo necessário. Ex-petista, Marina Silva (Rede) já sabe o quão baixo sua antiga legenda é capaz de jogar, depois dos ataques desleais que sofreu da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), na sua campanha de reeleição em 2014. Vacinada, Marina já fechou com o PV, que compôs a chapa com Eduardo Jorge de vice.

Apesar dos méritos na ascensão social promovida nos 13 anos em que governou o Brasil, desde o impeachment de Dilma o PT conduz a esquerda brasileira à prospecção do fundo do poço. Em 1998, Lula e José Dirceu fizeram com Wladimir Palmeira e o PT do Rio o mesmo feito agora nacionalmente com Ciro, às custas da cabeça da neta de Miguel Arraes. Há 20 anos, o objetivo era apoiar a candidatura a governador de Anthony Garotinho (à época, no mesmo PDT de Ciro), que se elegeu e depois abandonou o PT, apelidando-o de “partido da boquinha”.

No Rio, o PT nunca mais se reergueu. Veremos o que o futuro reserva à esquerda brasileira…

 

 

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Guilherme Carvalhal — Objeto de desejo

 

 

A estátua inaugurada na praça despertou a atenção de todos em volta, em verdadeiro rito de contemplação de uma invenção inusual. O nível de realismo era ao mesmo tempo atraente e perturbador, remetendo a instintos muito variados da alma de cada um. O corpo da ninfa nua foi revestido em silicone e o grau de verossimilhança dava a impressão de que se tratava de um ser humano paralisado. Sua pele emanava um tom rosa vivo, como se de suas veias de fato pulsasse sangue. Os cabelos eram de uma textura nunca antes vista para uma obra de arte. Espetacular, era o comentário geral.

O tempo todo se mantinha uma multidão ao redor da estrutura montada, posta dentro de uma cápsula de vidro para preservar a imagem das intempéries e do contato do povo. O burburinho sempre se repetia, com direito a gente dignificada e indignada, louvando e xingando. Indiferente, ninguém ficava.

A polícia registrou alguns atos decorrentes da tal réplica. Alguns homens tentaram quebrar a redoma para tocá-la. Algumas mulheres incomodadas com a nudez exposta picharam nos arredores frases questionando a objetificação do corpo feminino. Inclusive foram detidos três sujeitos que se masturbaram em público, ali no meio de todo mundo, e geraram estranhamento quando alegaram um ímpeto irresistível.

Muitos consideraram que ocorria um frisson inicial, que o fato de ser novidade impelia esse entusiasmo: ou seja, logo, logo, esqueceriam. Entretanto, as semanas passaram e o público continuou intenso nas imediações. Na câmara de vereadores chegaram a cogitar a remoção da estátua para a vida voltar à normalidade, mas os ataques contra os vereadores que defenderam essa ideia foi forte e desistiram dessa proposta.

A grande mudança ocorreu com a chegada do verão. À medida em que a temperatura se elevava, a camada de silicone que imprimia vivas cores começou a derreter. Diante dos olhares impávidos se descortinou o esqueleto de bronze que proporcionava sustentação à beleza da obra, isso em um espetáculo que remetia a pesadelos de tortura e sofrimento. E todos se espantaram com a estrutura ferruginosa, deixada pelo autor para oxidar à beira-mar.

Todos então saíram incomodados e retornaram para suas casas fugindo de uma ameaça imperceptível. Pararam frente ao espelho, tocaram o próprio rosto. Aquela carapuça de carne e pele revestia algo de amorfo, constataram, e caso o seu eu interior se revelasse a todos, as reações seriam as mais negativas possíveis. E todos dormiram envergonhados após forçosamente se virem perante suas verdadeiras

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Presidente do TSE adianta que Lula está inelegível

 

Presidente do TSE, ministro Luiz Fux

 

Líder em todas as pesquisas presidenciais, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não será candidato nas eleições de outubro. Presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Luix Fux negou hoje um pedido de inelebilidade do ex-presidente, em ação movida pelo cidadão Manoel Pereira Machado. Mas o fez por entender que ele não tinha legitimidade para o pleito. Ainda assim, Fux fez questão de ressaltar que há uma “inelegibilidade chapada” (evidente, notória) em Lula.

Lula será impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa, sancionada por ele quando presidente. Por ela, todo condenado por crime em segunda instância fica inelegível. Em 24 de janeiro, o líder petista foi condenado por unanimidade na 8ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4).

Na segunda instância federal, Lula foi apenado a 12 anos e um mês de reclusão, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A condenação, no caso do triplex do Guarujá, também motivaria a prisão do ex-presidente em 7 de abril, após seus pedidos de habeas corpus serem negados nos plenários do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e Supremo Tribunal Federal (STF).

 

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Soffiati analisa Marina após sucesso de Bolsonaro. Hoje é dia de Ciro

 

A semana foi aberta com o grande sucesso de público alcançado (aqui, aqui, aqui e aqui) pela entrevista de Jair Bolsonaro (PSL) no Roda Viva. Ela foi exibida ao vivo pela TV Cultura na noite de segunda (30), mesma em que uma bancada da GloboNews entrevistou Álvaro Dias (Podemos) e abriu sua série de sabatinas com os presidenciáveis.

Na noite de ontem (31) foi a vez de Marina Silva (Rede) se submeter às perguntas dos jornalistas da GloboNews. Às 22h30 de hoje será a vez de Ciro Gomes (PDT), com Geraldo Alckmin (PSDB) na quinta e Bolsonaro, na sexta. Sobre o resultado da entrevista de Marina, publico abaixo a análise do ecohistoriador Aristides Soffiati:

 

Marina ontem na GloboNews (Foto: Divulgação)

 

Marina é progressista e laica, embora evangélica. Condena as loucuras direitistas de Bolsonaro e os ditadores apoiados pelos esquerdistas. Conhece o Brasil e não fala bobagem. Mesmo quem não vota nela, deve reconhecer as suas qualidades. Ela é coerente, mesmo quando muda de opinião. Não foi muito difícil (aos jornalistas da GloboNews) pegar o rabo de Álvaro Dias, mas ninguém conseguiu pegar o rabo dela. Ontem, uma pessoa colocou no Face que Marina é uma farsa. Respondi que, se não demonstrasse por que, a afirmativa seria um fake. Silêncio.

 

Atualização às 22h57 para atualizar a troca de dias nas entrevistas de Alckmin e Bolsonaro na GloboNews

 

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Bolsonaro começa a semana liderando no Roda Viva e na pesquisa

 

 

 

Bolsonaro só perde para Moro

A dois meses da eleição, o começo da semana foi favorável ao presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). Independente da avaliação do desempenho, a verdade é que sua sabatina no Roda Viva da TV Cultura, na noite de segunda (30), foi fenômeno de audiência. Liderou o Trending Topics mundial do Twitter e foi acompanhada ao vivo por mais de 200 mil pessoas no YouTube. No Facebook, até a tarde de ontem, contabilizava 2,9 milhões visualizações, 279 mil comentários e 73 mil compartilhamentos. Emblematicamente, a popularidade de Bolsonaro no Roda Viva só foi superada pelo juiz federal Sérgio Moro, em entrevista de 26 de março.

 

Direita x esquerda

Como cerca de 100% dos simpatizantes de Bolsonaro parece acreditar que o jornalismo brasileiro é composto de comunistas, a crítica aos seis jornalistas que o sabatinaram era esperada de antemão. E como até a Rede Globo faria parte desse suposto complô marxista da mídia, não é preciso muito raciocínio para revelar o ridículo em que se baseia. Mas como a lógica costuma passar longe do amor e do ódio devotados ao presidenciável, as críticas aos seus entrevistadores partiram também da esquerda. Sobretudo aquela que ainda não fez o mea culpa devido pelo maior escândalo de corrupção da Terra, eviscerado pela Lava Jato.

 

Mico do Roda Viva

Como direita e esquerda desceram a lenha nos jornalistas por motivos opostos, na impossibilidade de estarem certos ao mesmo tempo, a lógica revela que estão ambos errados. Como teve erros o Roda Viva. Individualmente, o maior equívoco foi do jornalista Bernardo Mello Franco, do “comunista” O Globo. Ironicamente, ele vinha sendo o melhor sabatinador, corrigindo erros de Bolsonaro em dados da sua própria atuação parlamentar. Até se sair com a estultice de chamar Jesus de “refugiado”. Foi o maior mico da edição do programa, que expôs a reboque todo o jornalismo brasileiro.

 

Be-a-bá de jornalismo

Coletivamente, a entrevista foi mal concebida. Força-la nas acusações de machismo, racismo e apoio à ditadura, deu espaço a Bolsonaro onde ele fica mais à vontade. Foi quando teve que falar de propostas em economia, saúde e educação, que sua fragilidade se evidenciou. Na polêmica, a melhor pergunta foi ofertada pelo entrevistado. Ele defendeu o falecido coronel Carlos Brilhante Ustra, condenado em segunda instância por tortura: “ninguém será declarado culpado sem sentença transitado (sic) em julgado”. E todos os seis jornalistas ignoraram a contradição: como então defender a prisão de Lula por condenação em segunda instância?

 

Bem na pesquisa

Após o Roda Viva da noite de segunda, a manhã de terça reservou mais bons augúrios ao “mito” da direita brasileira. Foi divulgada a nova pesquisa do instituto Paraná. Em seus três cenários, ele teve sua vaga ao segundo turno garantido em todos. Preso desde 7 de abril e com chances irrisórias de participar da eleição, pela Lei da Ficha Limpa, mesmo com Lula, Bolsonaro está forte nas intenções de voto: o ex-presidente teve 29%, com 21,8% para o ex-capitão do Exército. A consulta foi realizada entre 25 e 30 de julho, com 2.240 eleitores de todo o país.

 

Marina e Ciro

Contra quem deve concorrer, sendo Fernando Haddad ou Jacques Wagner o candidato petista, Bolsonaro assumiu a liderança da pesquisa com folga: tem 23,6% no primeiro cenário e 24,3%, no segundo. Bem atrás, os ex-ministros de Lula Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT) disputariam a outra vaga ao segundo turno. Marina ficou entre 14,4% e 14,3% das intenções de voto, cabendo de 10,7% a 10,8% ao político cearense. Estão em empate técnico na margem de erro de 2,5 pontos percentuais para mais ou menos. Enquanto isso, Haddad e Wagner, suplentes de Lula no PT, ficaram com os mesmos 2,8%.

 

Da planície ao planalto

Pela popularidade da entrevista no Roda Viva e por todas as pesquisas, Bolsonaro deve estar no segundo turno da eleição presidencial. Em 22 de outubro do ano passado, antes de Lula ser preso, a Folha ecoou (aqui) a advertência do repórter estadunidense Ryan Lizza, em passagem pelo Brasil: “É interessante que os jornalistas americanos tenham subestimado Donald Trump. O que me perguntam é se o público ou a mídia deveriam levar a sério candidatos bizarros como ele. Minha resposta é: sim, nós temos que levar essas pessoas a sério”. Da planície ao planalto, foi então alertado: “Quem não seguir o conselho da imprensa dos EUA, nem que seja a revelação do segredo do cadeado após a porta arrombada por Trump, corre o mesmo risco”.

 

Publicado hoje (01) na Folha da Manhã

 

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Roda Viva ignora: se Ustra não é torturador, como prender Lula?

 

 

Muitas críticas foram feitas à conduta dos jornalistas que entrevistaram Bolsonaro no Roda Viva do final da noite de ontem. A maioria delas por quem acha que a emissão de opinião pessoal em redes sociais — aquelas que, para Umberto Eco, “deram voz aos imbecis” — serve como credencial de ombusdman. E quem não souber o significado da palavra de origem sueca, que busque a Wikipédia citada pelo apresentador do programa, Ricardo Lessa.

Quem pouco entende de jornalismo sequer percebeu que a melhor pergunta foi ofertada numa capital contradição do entrevistado. E, ainda assim, foi ignorada pela bancada de seis jornalistas: se no caso do falecido coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, mesmo condenado em segunda instância por tortura, Bolsonaro alegou que “ninguém poderá ser declarado culpado sem uma sentença transitado (sic) em julgado”, como manter Lula preso por uma condenação em segunda instância por corrupção e lavagem de dinheiro?

 

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Igor Franco — O “mito” resiste

 

 

Quem esperava um completo desastre do candidato à presidência Jair Bolsonaro durante a entrevista do Roda Viva precisará dar o braço a torcer. Questionado e provocado por uma bancada claramente opositora de seu discurso mais radical, Bolsonaro soube se virar com as mesmas tiradas e provocações de outros momentos, não cedendo uma só nova polêmica ou declaração bombástica ao longo de quase uma hora e meia de entrevista.

Desde a entrevista inaugural com os pré-candidatos, ocorrida há mais de três meses, a grande expectativa dos que acompanham desde já a movimentação dos candidatos era uma só: Bolsonaro teria coragem de enfrentar uma bancada hostil ou se ausentaria, como já fez em outros momentos? Quando do anúncio de sua participação, a entrevista dos pré-candidatos restantes parecia apenas cumprimento de tabela até o tão aguardado jogo decisivo.

O grande evento fez jus à expectativa. Bolsonaro no Roda Viva virou Top 1 no Trending Topics mundial do Twitter. Ao longo da entrevista, mais de 200 mil pessoas acompanhavam ao vivo no YouTube e, no Facebook, menos de uma hora depois de finalizada, a sabatina contava com 1,6 milhão de visualizações e mais de 249 mil comentários. Como comparação, a audiência do programa foi seis vezes maior que a do tucano Geraldo Alckmin, entrevistado na última semana. Como curiosidade, a única edição recente do Roda Viva a superar tais números foi a do juiz Sérgio Moro, em março deste ano.

A bancada do programa buscou representantes de algumas das redações mais conceituadas do país: Veja, O Globo, Folha de São Paulo, O Estadão e Valor Econômico. Não obstante, os entrevistadores rapidamente desistiram de questionar Bolsonaro a respeito de suas propostas para o país ou mesmo de explorar seu pouco preparo para lidar com a complexa situação em que se encontra o país. Em vez disso, buscaram o confronto desde antes do término do primeiro bloco, levando a pauta do programa para o terreno em que o candidato se sai melhor: a polêmica.

Ao confrontar Bolsonaro com antigas declarações e insistir em temas como armas de fogo, voto impresso, ditadura militar e outros temas profundamente contaminados pelo antagonismo direita x esquerda, os jornalistas permitiram ao militar fazer uso de suas frases de efeito que movimentam memes e corações nas redes. Desde a “você espera levar um tiro e oferece uma florzinha a ele (o traficante)” ao convite para um jornalista ensinar a polícia a como combater o crime organizado armado até os dentes, passando pela sua proposta de revirar os empréstimos do BNDES aos regimes autoritários amigos do PT, Bolsonaro soube esquivar-se de temas mais interessantes ao eleitor indeciso, como seu despreparo quanto à economia ou o seu escasso trabalho legislativo em quase três décadas. Lá para as tantas, quando toda a abordagem jornalística havia se transformado em uma busca incessante pelo lacre, ainda fomos brindados pelo colunista Bernardo Mello Franco com a novidade teológico-política de que Jesus Cristo era um refugiado. Aliás, registre-se, en passant, a tara da esquerda por transformar Jesus, o ponto central da tão odiada fé cristã, em seu bibelô de ocasião: no Natal, Jesus é comunista; na semana passada, foi classificado como travesti, por um auto-proclamado artista e, hoje, transformou-se em refugiado quando importou confrontar Bolsonaro com suas declarações classificadas como xenófobas.

O programa de hoje prestou mais aos memes e a colocar fogo na disputa incandescente entre direita e esquerda que a contribuir para a democracia e para elucidar eventuais dúvidas dos eleitores. Em seu primeiro teste de fogo, Bolsonaro saiu muito menos chamuscado que o mais otimista de seus apoiadores imaginaria. Ao tratar o candidato como um grande boçal que se destruirá sozinho ao ser exposto ao seu próprio discurso, a imprensa brasileira comete o mesmo erro da americana com Trump, ao subestimar o nível de ojeriza e impaciência da população com a política e os meios tradicionais de informação.

Ao fim e ao cabo, resta admitir que a expectativa de fazer desmoronar Bolsonaro em sua primeira sabatina séria foi ineficaz. Os supostos pés-de-barro do “mito” parecem esconder alguma substância ainda mais resistente.

 

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Feijó, Marcão e Mérida analisam 2020 por 2018 em dia agitado dos Garotinho

 

 

2020 em 2018

Para Campos, a eleição a prefeito de 2020 passa pelo pleito legislativo de 2018? Foi o que esta coluna alertou (aqui) na sua última edição, no domingo (29), que teve ampla repercussão. Não só por projetar o embate entre os pré-candidatos a deputado federal Marcão (PR) e Wladimir (PRP) como prévia à disputa deste contra a reeleição de Rafael Diniz (PPS). Mas também por apontar em outra pré-candidatura local a federal, do líder lojista Marcelo Mérida (PSD), a possibilidade de que um novo ator possa entrar na disputa a prefeito daqui a dois anos: o presidente da CDL-Campos, Joílson Barcelos.

 

Feijó aprova novidade

O campista já estava ciente do Wladimir x Marcão como preliminar do Rafael x Wladimir. Embora a alternativa de Joílson também subir no ringue de 2020 não fosse de domínio público. Mas é um projeto que envolve um dos maiores empresários da cidade. Daí a necessidade de se virar o holofote também sobre ele. E tudo parece passar pela eleição a deputado federal de daqui a pouco mais de dois meses. Em seu quinto mandato em Brasília, Paulo Feijó (PR) viu com bons olhos a novidade: “Se Joílson vier a concorrer a prefeito de Campos de 2020, será algo legítimo e salutar para Campos. Como é a pré-candidatura de Mérida a federal”.

 

Fechado com Marcão e Rafael

Feijó, no entanto, confirmou à coluna que seu compromisso em 2018 é com a pré-candidatura a federal de Marcão. E, através dela, reforça sua aproximação com o governo de Campos, para o qual conseguiu recentemente R$ 30 milhões em emendas: “saindo das grandes dificuldades em que encontrou a Prefeitura, Rafael vai ter que apresentar bons resultados para se reeleger em 2020. Se Wladimir se eleger deputado federal, seu projeto imediato vai tentar ser prefeito de Campos. Por isso a eleição de Marcão é muito importante para Rafael. Ele tem muita chance de ser eleito e de fazer bonito por Campos e a região em Brasília”, avaliou.

 

Bem e mal vindos

Marcão também falou ontem com a coluna. Sem citar os nomes de Mérida e Joílson, se mostrou aberto às suas intenções. Mas, como de hábito, bateu duro no garotismo de Wladimir: “independente dos nomes, todos que queiram contribuir com o bom debate da coisa pública são bem-vindos, principalmente no momento de maior dificuldade. O que Campos não suporta mais são as práticas que nos trouxeram até estas dificuldades: a corrupção implantada pelos garotistas em nossa cidade”. O atual presidente da Câmara Municipal, no entanto, tem restrições à projeção de 2020 a partir das urnas de 2018.

 

Exemplo pertinente

“Eleição reflete o momento. Em 2006, por exemplo, Arnaldo (Vianna) ganhou de Pudim para deputado federal. E na eleição seguinte, em 2008, perdeu a prefeito para Rosinha. Já em 2014, Clarissa (Garotinho) se elegeu deputada federal, sendo a mais votada em Campos para o cargo. E, em 2016, Rafael venceu para prefeito, ainda em primeiro turno, em todas as Zonas Eleitorais do município. Ou seja, eleições de deputado federal não são um termômetro tão exato assim para se projetar, dois anos depois, a escolha do prefeito”, exemplificou Marcão.

 

Mérida endossa Joílson

Marcelo Mérida também repercutiu ontem a coluna de domingo. Ele ressaltou que seu objetivo é tentar conquistar o mandato em outubro. Se o resultado será, ou não, um passo à uma possível candidatura de Joílson Barcelos a prefeito de Campos em 2020, preferiu não arriscar. Mas confirmou que, em sua visão, o presidente da CDL “tem todos os pré-requisitos, como empreendedor e líder de instituição, para se inserir na política com papel de protagonista”. Sobre o embate Marcão x Wladimir, Mérida disse: “vou passar à margem dessa discussão entre o passado e o presente. Nossa preocupação é com o futuro”.

 

Fortes emoções

Nesse xadrez entre 2018 e 2020, Wladimir também foi procurado pela coluna. Entretanto, não retornou às tentativas de contato. Provavelmente, estava ocupado ontem, após seu pai, Anthony Garotinho (PRP), pré-candidato a governador, perder o PPL cotado para dar o vice da sua chapa: Brizola Neto. Não bastasse, foi dormir sem saber se a irmã, a deputada federal Clarissa (Pros), conseguiria vaga para se candidatar a qualquer coisa em outubro, após o pai brigar com o presidente estadual do partido dela, o deputado federal Felipe Bornier. São as fortes emoções de quem busca futuro na política com Garotinho no nome.

 

Publicado hoje (31) na Folha da Manhã

 

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“Abandona a esperança” — “O inferno são os outros”

 

Patético ver as reações das redes sociais ao Roda Viva com Bolsonaro. A neodireita acéfala mete o pau nos entrevistadores. A esquerda obtusa também. Como o fazem por motivos opostos, a única conclusão lógica é que estão ambos errados.

Base da democracia e das ciências, a lógica não tem mais vez nesse Fla x Flu. Como o Flamengo teve seu futebol parido pelo Fluminense, a esquerda usou um conceito do séc. XIX para instalar o “nós contra eles” no país. E, no séc. XXI, se reproduziu em papel carbono numa direita que repete o que de pior a humanidade teve no séc. XX.

O que se assiste nesse campo de várzea é um 0 a 0 com 22 pernas de pau e Gilmar Mendes de árbitro. É um empate em que todos perderão. Inclusive quem ganhar as eleições presidenciais de outubro. O 1/3 dos brasileiros à direita simplesmente não aceitará a vitória do 1/3 à esquerda. E vice-versa — com a vênia do “foda-se!” a quem se opuser.

Ainda isento aos dogmas de fé das duas seitas opostas,o 1/3 restante da população será tragado impotente pela gravidade do ralo. A projeção do país parece ser a que Dante descreveu à porta do Inferno: “Abandona a esperança, vós que entrais”. Neste Brasil de 2018, a única certeza é sartreana: “O inferno são os outros”.

 

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