Beleza da carne, da arquitetura e do sonho da Uenf na foto

 

Ainda sem saber do projeto Nurbe, do fotógrafo Kelvin Klein, o blog publicou aqui, no último dia 12, um registro dele que havia viralizado anônimo nas democracia irrefreável das redes sociais locais. Posteriormente, a partir do toque da Beatriz Silva, amiga comum, foi possível chegar não só o autor da foto, como ao projeto que  pode ser conferido aqui e descrito na transcrição abaixo:

— O Projeto Nurbe consiste em fotografias de nu artístico e nu no cenário urbano, com uma exploração generalizada. A conexão do Nu com a Urbe, linhas e curvas. Por que Nurbe? Nurbe é a união da palavra Nu com Urbe um misto de natural, orgânico e o arquitetado e construído.

Confirmada a origem da foto, o crédito devido à foto foi feito numa atualização da postagem, no dia 16. Dois dias depois, a colaboradora do blog, professora, escritora e atriz Carol Poesia dedicou seu espaço quinzenal no “Opiniões” para também falar aqui do Nurbe. A partir da polêmica gerada pela foto nas redes sociais, do qual ela chegou a ser retirada, Carol questionou:

— A estética das fotos também merece destaque, Kelvin criou uma linguagem, estabeleceu um diálogo pertinente entre as linhas do corpo e a linha do trem, entre as curvas da mulher e silhuetas de concreto, até entre o modelo fotografado e grafite ao seu lado pintado. Está tudo ligado! E poderia ser bem explorado, se machismo e tabu não reduzissem os olhares à seguinte questão: de quem é essa bunda?

Por acaso, no mesmo dia 18 em que o blog publicou o texto da Carol, a Casa de Cultura Villa Maria teve as portas fechadas, por falta de luz, água e internet. O fato foi noticiado aqui, no dia seguinte (19), na coluna “Ponto Final”, da Folha da Manhã, como vanguarda do processo de desmonte da Uenf, em virtude da crise financeira sem precendentes do Estado do Rio. E o alerta sensibilizou a população, também viralizando nas redes sociais.

O acaso se dá porque algumas das fotos do projeto Nurbe têm como cenário justamente a Villa Maria, cuja energia seria religada (aqui) no dia 24, seis após a denúncia da Folha. Como a beleza da carne, da arquitetura e do sonho de uma universidade pública de excelência não podem ser negadas, confira abaixo a confluência de todas na foto do Kelvin:

 

 

(Foto: Kelvin Klein – Projeto Nurbe)

 

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Ricardo André Vasconcelos — Uenf: a hora de um novo grito

 

Dois momentos na história da Uenf: Brizola e Niemeyer ouvem explanação de Darcy sobre uma maquete da universidade e no ainda no terreno da futura universidade, Darcy, Niemeyer com Gilca e Wanderley de Souza

 

 

Sonho de várias gerações, a Universidade Estadual do Norte Fluminense é fruto do encontro da mobilização popular com a utopia de Darcy Ribeiro. Já nos anos 60 do século passado a universidade era realidade tão palpável que a usineira Maria Queiroz de Oliveira, a “Finazinha Queiroz”, também conhecida como “rainha da bondade”, deixara em testamento o seu casarão no alto da Rua Baronesa da Lagoa Dourada (Villa Maria), para sediar a futura instituição de ensino superior. Duas décadas depois, por ocasião da elaboração da Constituição Estadual, em 1989, uma emenda de iniciativa popular liderada pelo professor Mário Lopes Machado reacendeu a campanha pela universidade. O governador da época, Wellington Moreira Franco, inclusive sancionou lei, nomeou reitor… Mas a intenção morreu no papel.

Posta na letra fria da lei a instituição só ganharia viabilidade política poucos anos depois, na esteira da ascensão do jovem promissor Anthony Garotinho, então prefeito de Campos, que em busca de projeção estadual inseriu a reivindicação como uma das principais do movimento batizado de “grito do interior”. Por duas ou três vezes, milhares de pessoas levadas em dezenas de ônibus fretados pelas prefeituras da região invadiram a capital do Estado para mostrar que do lado de cá ponte Rio-Niterói tinha mais Estado do Rio de Janeiro.

No último dos protestos, uma comissão encabeçada por Garotinho e composta de lideranças regionais foi recebida no Palácio das Laranjeiras pelo então governador Leonel Brizola. Houve outros marcos iniciais de criação da Uenf, mas creio que este foi o primeiro passo efetivo para criação da universidade . O segundo, e talvez mais importante, foi quando a tarefa sobre entregue ao educador Darcy Ribeiro. Mineiro de Montes Claros, Darcy já tinha criado a Universidade de Brasília nos anos 60 e, “plantado universidades pelo mundo”, como gostava de dizer, durante seu exílio imposto pelo regime militar.

A primeira reunião de trabalho da nascente Universidade Estadual do Norte Fluminense ocorreu num feriado — não sei se de Corpus Christi ou Páscoa — no auditório do Palácio da Cultura, quando conhecemos os que iriam efetivamente implantar a Uenf, ou seja, o próprio Darcy Ribeiro, o professor Wanderley de Souza (que seria o primeiro reitor) e a professora Gilca Weinstein, principal executiva e que presidiria a Fundação Estadual do Norte Fluminense (Fenorte). A comissão contava ainda com alguns campistas, sendo o destaque para a professora Ana Lúcia Boynard, que fazia a ligação entre a Prefeitura e os organismos do governo do Estado e teve papel gigantesco em todo o processo.

Ponto fundamental entre a utopia de Darcy — que já nesta época discorria com a eloquência habitual sobre os cientistas do mundo inteiro que atrairia para a “sua” universidade, que já batizara de “Terceiro Milênio” — foi a decisão do então prefeito Sérgio Mendes de desapropriar o terreno de 50 mil metros quadrados localizado na Avenida Alberto Lamego e doá-lo para a implantação da Uenf. O gesto garantiu o caminho sem volta naquele delicado momento em que se debatia a viabilidade do projeto.

Entre a iniciativa do professor Mário Lopes, o “Grito do Interior” e a aula inaugural proferida pelo jurista e então chefe do Gabinete Civil do governo Brizola, Carlos Roberto Siqueira Castro, em 16/08/1993, passou-se um tempo surpreendentemente pequeno para a grandeza e reconhecimento que a universidade ganhou no Brasil e no mundo. Mas o que surpreende de verdade é que, tão pouco tempo depois a mais importante conquista da região em todo o século XX esteja em real risco de desaparecer como consequência do desmantelamento geral da máquina pública do Estado do Rio de Janeiro.

Está na hora de um novo grito. É hora de garantir a conquista no grito, por meio de uma ampla mobilização de toda a comunidade regional para que a Uenf, conquistada na manifestação popular, seja também salva e mantida pela legítima aspiração do povo dos municípios do Norte e Noroeste Fluminense.

 

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Clássico de Scorsese e De Niro nesta quarta no Cineclube Goitacá

 

(Arte: Gustavo Alejandro Oviedo)

 

 

Na entrevista que será publicada amanhã (26) na capa da Folha Dois, sobre a sessão do Cineclube Goitacá desta quarta, às 19h30, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio, o repórter Jhonattan Reis fez a primeira pergunta: “Por que você escolheu apresentar ‘Taxi Driver’?” Ao que respondi de pronto: “A pergunta deveria ser: como é que ainda não exibimos ‘Taxi Driver’?”

Difícil explicar a um jovem de hoje, como o repórter, dado à luz na era digital da informação em tempo real, o que foi ter nascido poucas décadas antes. Em maio de 1982, um mês antes da Seleção Brasileira de Zico, Falcão, Sócrates e cia. encantar o mundo com seu futebol de sonhos, mas perder a Copa, a crueza do mundo real já dera as caras num vazamento de resíduos tóxicos da Paraibuna Metais, em Minas Gerais, no rio Paraíba do Sul.

Interrompida a captação d’água no rio, todas as escolas de Campos fecharam as portas por duas semanas. Como aquelas crianças evadidas das grandes cidades inglesas para evitar os bombardeios alemães na II Guerra Mundial (1939/45), eu e meu irmão fomos para casa de parentes fora da planície. Não lembro onde Christiano ficou, mas eu, refugiado de 9 anos, fui acolhido na casa do meu tio Luiz Edmundo Barbosa, irmão caçula do meu pai, que residia em Itaipu, Niterói.

Se era maio, o Natal veio com alguns meses de antecedência, quando descobri que não só teria um quarto só para mim, como tio Luiz ainda fez a gentileza de me disponibilizar nele uma TV particular. Para quem dividia o quarto com o irmão, num apartamento de uma única TV coletiva, na sala, a novidade se tornou ainda melhor pelas férias forçadas. Sem aulas de manhã, não tinha que acordar cedo, podendo varar as madrugadas assistindo às sessões do Corujão, na quais a censura da Ditadura Militar (1964/85) ainda vigente liberava os filmes com cenas de violência e conteúdo erótico.

De Niro em “Taxi Driver” na charge de Sebastian Kruger

Foi então que assisti pela primeira vez a “Taxi Driver”. O filme era de 1976, mas naquela época as novidades do mundo demoravam bem mais para chegar ao Brasil. E nunca vou esquecer do impacto que foi travar contato pela primeira vez com a história do veterano da Guerra do Vietnã (1955/1975), conservador e paranóico Travis Bickle. Motorista de táxi na violenta Nova York dos anos 1970, ele se revolta com a “escória” que observa pelas janelas do carro entre uma corrida e outra, numa composição antológica de Robert De Niro, capaz de se igualar a qualquer outra na história do cinema.

O “You talking to me? You talking to me?” (“Você está falando comigo?”) repetido por Bickle no seu pequeno apartamento, ecoado diante ao menino exilado num quarto da casa de seu tio, jamais saiu da minha cabeça. E foi a partir dali que, ainda aos 9 anos, ela se abriu à possibilidade do cinema ser muito mais que mero entretenimento. Depois daquela obra prima de Martin Scorsese, a quem passaria a considerar um dos grandes diretores do cinema falado, certamente o maior ainda em atividade, eu nunca mais veria um filme da mesma maneira.

A história do motorista de táxi encarnada visceralmente por De Niro é sobre solidão, mesmo numa megalópole como Nova York. Como só, distante da sua cidade, pais, irmão, amigos e colegas de escola, estava a criança que a assistiu pela primeira vez. Além da identificação inevitável, pude constatar com o tempo que “Taxi Driver”, como qualquer outra obra da filmografia do ex-seminarista católico Scorsese, trata de apogeu, queda e redenção.

Habilitação de De Niro como motorista de táxi em Nova York, parte do laboratório para sua interpretação antológica

O apogeu é apenas roçado por Bickle na tentativa de conquistar Betsy, assessora do senador Palantine (Leonard Harris) em campanha à presidência dos EUA. Ela é interpretada por Cybill Shepperd, no auge da beleza, que ficaria mais conhecida no Brasil dos anos 1980 pela popular série de TV “A Gata e o Rato”, responsável pelo lançamento de Bruce Willis ao estrelato. Mas, desastrado como conquistador, Bickle leva Betsy, no primeiro encontro, para assistir a um filme pornô, do qual ela sai absolutamente constrangida.

Quedado por sua incapacidade psicológica de levar uma vida normal, ele parte para atitudes mais extremas, mas sem perder Betsy como referência. Após adquirir um arsenal, planeja matar o senador para qual ela trabalha. Desastrado também como terrorista, a nova falha conduz o atormentado motorista de táxi, Hamlet sem brilho, à busca de redenção da única maneira que lhe restou: tentando resgatar uma adolescente da prostituição, a Iris vivida por uma Jodie Foster de apenas 12 anos e até então mais conhecida pelos filmes da Disney. Como alvo da sua ira do mundo, Bickle troca o senador Palantine pelo cafetão Sport, encarnado por Harvey Keitel, figurinha carimbada dos primeiros filmes de Scorsese.

Apesar de levar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, “Taxi Driver” não ganhou nenhum Oscar nas quatro categorias em que concorreu: filme, ator (De Niro), atriz coadjuvante (Jodie Foster) e trilha sonora, finalizada por Bernard Herrmann poucas horas antes de morrer. A despeito da tremenda injustiça de Hollywood com aquela obra que a revolucionou, é considerado pela crítica do mundo como um dos grandes filmes já feitos.

Se você, leitor, já assistiu ao filme, revê-lo e poder debatê-lo é sempre uma grande oportunidade. E se ainda não viu, não deixe de conferir essa obra necessária, sabendo que tenho uma inveja danada de você, como do menino que fui um dia.

 

Antes da sessão, assista ao trailer:

 

https://www.youtube.com/watch?v=ikq-PlAuaLA

 

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Ocinei Trindade — Grandes mentiras e uma verdade

 

 

 

Na última semana, a rede social Facebook foi tomada por confissões de seus usuários em um jogo de verdades e mentiras. A proposta era que os seguidores de cada perfil adivinhassem o que era verdadeiro ou falso nas declarações postadas. Li algumas dessas listas, achei divertido (e cansativo), ensaiei fazer a minha lista, mas desisti rapidamente. Não sou um bom mentiroso ou não tenho tanto talento para a mentira. É verdade, acreditem ou não (apesar da desonestidade estar em alta no Brasil, especialmente no falido estado do Rio de Janeiro governado por políticos inescrupulosos nas últimas décadas).

Ao ler as confissões das pessoas, lembrei-me de um texto que escrevi há seis anos em meu blog, cujo título é A maior mentira do mundo. O conteúdo daquela crônica se refere à uma piada machista muito comum em rodas de conversas sobre práticas sexuais (homo ou hétero), quando se utiliza da proposta de coito superficial feita por sedutores com um pé na cafajestagem, e outro pé na mentirinha pseudo-inocente. Os seduzidos também se entregam à mentira em jogos de fingimentos.

A piadinha infame parece até a relação entre políticos e eleitores. Quando aqueles dizem que não vai doer nada, estes creem e cedem sofrendo todo tipo de consequência ou violência depois do voto-coito. Sigmund Freud explicaria.Darcy Ribeiro também discorreria desses joguinhos promíscuos brasileiros. Somos tão mal-educados que nem o sexo escapa de nosso mal-estar (in)civilizatório. Já faz algum tempo, há um “estupro coletivo” e “roubo generalizado” por parte das autoridades fluminenses e do governo do país com a população (além de alguns megaempreiteiros, como bem sabemos).

Quanta mentira o Brasil vive! O Rio de Janeiro experimenta os resultados de muitas mentiras praticadas em atos de corrupção dos últimos governos (diversas prefeituras fluminenses também podem ser incluídas nestas listas de muitas mentiras e poucas verdades em se tratando de verbas públicas desviadas ou mal-empregadas) que arruinaram as finanças do segundo estado mais importante da federação.  A situação que já não era boa na segurança, nos hospitais públicos e escolas estaduais, fez com que as universidades Uerj, Uezo e Uenf também amargassem caos e incertezas.

Fomos tomados pela indignação, mas também por um estranho silenciamento que até pode ser rompido em postagens de redes sociais. Para mim, não basta (mas fazer exatamente o quê em curtíssimo prazo se temos urgências?). Sei que protestos e enfrentamentos também carecem de estrutura, financiamento e dinheiro (coisas que muitos servidores sem salários ou mal-pagos não têm, além de haver milhões de desempregados em toda a parte). Reféns e cansados de esperar soluções de políticos desmoralizados, os cidadãos fluminenses reagem como boa parte dos brasileiros diante da opressão de um Estado calhorda e ineficiente: deixa o barco correr, a ver até onde se chega, sem muito a fazer. Será o fim? Haverá como cavar ainda mais o fundo do poço no Rio de Janeiro e no Brasil com seus dramas sociopolíticos?

Espera-se por milagre ou pela morte (esta é verdadeiramente certa de acontecer). Eu sinto raiva dos políticos, mas também da sociedade que não reage. Não posso esquecer que faço parte desta sociedade que abriga esses políticos ruins. Somos todos tão ruins assim?  Há muitos interesses em jogo. E, brasileiramente, “falamos” em defesa do coletivo, mas não esqueçamos que nossa vontade pessoal tende a ser mais valorizada. O jeitinho brasileiro é uma sacanagem generalizada em busca de vantagens.

Repito a frase de Maria Bethânia: “estou morrendo de pena do Brasil”. Eu também estou morrendo de pena do Rio de Janeiro e da Universidade Estadual do Norte Fluminense. País polarizado e dividido? Sempre foi: milhões de pobres explorados e pouquíssimos ricos poderosos. Nessa casta elitizada e privilegiada verificamos representantes dos grandes partidos políticos brasileiros (todos os partidos estão desmoralizados, nenhum escapa).

Desde que a lista do ministro Luiz Edson Fachin finalmente veio ao conhecimento público (esperava-se por isto antes do ministro Teori Zavascki morrer em um acidente aéreo suspeito) com o teor das delações de executivos da construtora Odebrecht sobre as operações de caixa dois e propinas nos últimos governos estaduais e federal; vemos de um lado, políticos serem desmascarados com detalhes, e do outro lado, políticos negando tudo e afirmando que as delações são invenções mentirosas, e que seus autores não possuem provas do que dizem. Alguém duvida sobre essas verdades e mentiras? Pois é, alguns fanáticos e criminosos só enxergam a verdade que lhes convém.

Há pessoas que mentem com tanta frequência e convicção que a mentira passa a ser confundida com a verdade ou se transforma em verdade. Isto ocorre com a ficção quando vemos filmes e lemos romances em demasia; quando jogamos determinados games esquisitos em ambiente virtual (a tal baleia azul anda ajudando a matar gente que sofre de depressão, por exemplo); quando passamos a viver conectados em rede, mas sem saber dirigir a palavra ou ouvir uma pessoa ao lado.

Assim, entre ilusões e omissões, construímos realidades falsas ou verdadeiras mentiras. Infelizmente, a educação brasileira está inserida nesse contexto. Quando enfim produzimos conhecimento científico e pesquisas nas universidades, alcançamos êxito ou reconhecimento de uma comunidade acadêmica, vem o golpe dos governos com corte de orçamentos e verbas, além de sequestro de dinheiro público para favorecer empresários e empreiteiras suspeitas (o pior é que sempre soubemos e nunca provamos).

No país dos mentirosos, apesar de tantos escândalos financeiros e roubos de dinheiro público por parte de políticos e empresários gananciosos, o que nos restará? Não sei se a população quer, de fato, encarar verdades e se livrar das mentiras que nossos opressores nos impõem, pois nenhum de nós, acredito, tem sido honesto e verdadeiro o bastante. No entanto, diante de tantos crimes contra a nação, vemos o Brasil falir, hospitais agonizando, escolas depredadas, servidores públicos sem salários, avanço da criminalidade, escalada da violência nas cidades e no campo, população cada vez mais insegura: o dinheiro público que deveria ser aplicado nessas áreas tem sido roubado para abastecer uma lista enorme de políticos mentirosos que ajudamos a eleger.

E qual o papel dos juízes e promotores públicos de justiça diante dessa bandalheira toda? Sinceramente, tenho dúvidas. No Brasil, dizem, a justiça não funciona para pobres e pretos (a imensa maioria). Para condenar ricos e poderosos, o tempo se arrasta em recursos e manobras de advogados caros, até prescrever o crime, praticamente. O debate é amplo e espinhoso, eu sei.

Temos sido escravizados e usurpados por mentiras há várias décadas no Brasil. Desde que a democracia foi retomada no país, em 1985, não paramos de errar e de afundar em um oceano de lama podre. Os discursos dos partidos políticos não servem para mais nada; simpatizantes pelo extremismo começam a ganhar espaço com acenos para a volta do regime militar ou a eleição de radicais e ditadores. Quando Cazuza compôs “Brasil” e pedia para que o país mostrasse sua cara e revelasse o nome do seu sócio, a Odebrecht já existia e já aprontava todas com o dinheiro público, muito semelhantemente com esta era. Mais de trinta anos depois, o cenário não mudou quase nada, mas piorou em matéria de roubalheira e descaso.

O evangelista João afirma em seu texto que quem conhece a verdade é libertado por ela. Hesito quanto às mentiras que parecem verdades e que nos confundem. Há verdades que pessoas não querem acreditar. Se há solução para o Brasil? Isto vai depender verdadeiramente de profundas mudanças, mas não sei até quando e onde conseguiremos suportá-las. Viver em um mundo de ilusões e de mentiras também tem seu preço. E como temos visto nesta operação Lava-Jato, verdades e mentiras custam muito caro a todos os brasileiros. Estamos em uma guerra de nervos. Sobreviremos? Espero que sim.

 

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Já contei neste espaço do meu encontro com Darcy Ribeiro nas primeiras reuniões para a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense: foi uma honra. Depois que me tornei jornalista, perdi a conta de quantas reportagens realizei na instituição. Em 2014, fui aluno especial no programa de Pós-Graduação em Cognição e Linguagem no Centro de Ciência do Homem. Em 2015, fui aprovado como aluno regular, e nesta semana, enfim, defenderei minha dissertação para receber o título de mestre. Uma grande conquista pessoal auxiliada pelos professores e servidores da universidade. Caminhar pela Uenf, passear por entre os prédios projetados por Oscar Niemeyer é uma inspiração para mim. Estudar é privilégio e um caro investimento.

Tenho muito orgulho de estar na Uenf, de aprender com a comunidade acadêmica, de pensar soluções para nossa sociedade, para Campos, o Rio e o Brasil. Os campistas precisam e devem se orgulhar dessa universidade (muitos estrangeiros e imigrantes sentem esse orgulho). É preciso promover e estreitar laços das pessoas que vivem na cidade e região com os responsáveis pelo ensino (e vice-versa).

A Uenf não é e não deve ser uma instituição para uma determinada “elite”. Ela pertence à população. É um desafio enorme batalhar por um país justo e democrático em qualquer lugar. Por acreditar na educação, só vejo saída evolutiva e desenvolvimentista passando pela família e pela escola fundamental e cidadã, por uma universidade (que deveria se chamar diversidade ou multidiversidade) capaz de dialogar com todas as pessoas e segmentossociais e econômicos (inclusive com o setor privado que também pode contribuir em parcerias com o poder público).

O futuro da Uenf está em jogo. A ameaça ao Rio de Janeiro é enorme, pois há um colapso em andamento. A solução só acontecerá quando a população fluminense realmente decidir solucionar. Como fazer? Não sei exatamente. Alguns cogitam até uma divisão da federação, a independência do estado do Rio, já que a União (com pouca credibilidade), ao que parece, não demonstra muito interesse em resolver nossos problemas sociais, econômicos e políticos (que são muito graves e que nos pertencem, sim). Não defendo divisionismos. O Brasil carece de unir forças contra a corrupção e necessita fazer uma série de autocríticas: é preciso decidir a Campos, o Rio de Janeiro e o Brasil que queremos. É necessário rever a Uenf que precisamos e podemos ser. O tempo é de lutas diárias. Para vencer tantas adversidades e mentiras, vamos precisar de todo o mundo.

A foto do praticante de slackline que ilustra este texto fiz há alguns meses durante minhas caminhadas pelo lindo campus da Uenf (há bosques magníficos que muita gente da cidade desconhece, pois nunca entrou ali). A imagem serve para refletirmos sobre o equilíbrio que necessitamos para lidarmos com os problemas do Rio de Janeiro e da universidade. Repensemos e atravessemos sem cair.

 

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Rafael Diniz é elemento de todas as equações para 2018

 

 

 

Marcão a federal pelo PPS?

Atualmente no Rede Sustentabilidade, partido para onde se mudou antes do naufrágio eleitoral do PT nas eleições municipais de 2016, o presidente da Câmara de Campos, vereador Marcão Gomes, é hoje considerado pelo PPS como uma das duas pré-candidaturas em que o partido pretende apostar para eleger dois deputados federais pelo Estado do Rio. O obstáculo seria a aliança antiga do edil com o deputado federal Chico D’Ângelo, ainda no PT e irmão do professor Luciano D’Ângelo, petista histórico de Campos.

 

Certeza e dúvida

Na edição desta coluna do último dia 4, Marcão confirmou (aqui) que, por ter sido o vereador mais votado de Campos em 2016, sua candidatura legislativa em 2018 seria “natural”. Mas não definiu se viria como deputado federal ou estadual. Na ocasião, ressalvou que o momento não era de se falar em pré-candidaturas, mas “de tentar achar soluções ao quadro caótico em que o governo (Rosinha Garotinho) passado deixou as finanças do município. Em todas as conversas que mantenho com lideranças políticas e comunitárias, digo que a hora é de nos unirmos para tentar ajudar o prefeito e a cidade”.

 

Elemento Rafael (I)

Ao ser abordado ontem mais uma vez sobre o assunto, mais especificamente do interesse do PPS em apostar em seu nome para conquistar uma vaga na Câmara Federal, Marcão repetiu o discurso da prioridade municipal. Todavia, como o PPS é o partido do prefeito Rafael Diniz (PPS), isso pode ser um indicativo — a depender, lógico, do que for aprovado na reforma política em Brasília. Como reforço dessa linha de pensamento, em relação ao seu compromisso com Chico D’Ângelo, o presidente do legislativo goitacá disse que isso hoje é secundário diante ao projeto eleitoral traçado para 2018 pelo grupo político do prefeito de Campos.

 

Elemento Rafael (II)

A coluna também teve a informação de que o deputado estadual Gil Vianna (PSB) estaria projetando sua reeleição como candidato da parte do grupo de Rafael que não apoia Marcão — caso este decida concorrer à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Gil desmentiu categoricamente a versão: “Não ajudei Rafael a se eleger (foi vice do pedetista Caio Vianna na chapa derrotada à Prefeitura). Mas sou amigo pessoal de Rafael e Marcão. Jamais me colocaria como opção a Marcão. Isso é mentira! Se Rafael quiser que eu seja candidato do seu governo, vou gostar muito. Mas vou concorrer à reeleição mesmo se ele não me ajudar”.

 

Elemento Rafael (III)

Outro que também tem Rafael como elemento da sua equação para chegar à reeleição é o deputado estadual João Peixoto (PSDC): “Sempre me elegi com o prefeito de Campos contra mim. Posso não ser o candidato de Rafael, nem ter seu apoio, mas ele não vai me atrapalhar”. Peixoto também voltou a comentar a possibilidade do médico Diogo Neves, do grupo IMNE, se lançar candidato em 2018 pelo seu PSDC, como esta coluna revelou (aqui) no início do mês: “Ele não falou nada comigo. Nem aconteceu a minha conversa com seu pai, o empresário Herbert Sidney Neves, de quem gosto muito. Diogo tem que querer as coisas. Voto não cai do céu”.

 

Esforços por reforma

Rafael Diniz se reuniu, ontem, com representantes de todas as secretarias, superintendências, fundações e autarquias da Prefeitura, voltando a destacar a delicada situação financeira e a necessidade dos esforços de todos para uma reforma administrativa. Ele ressaltou que nos organogramas de ajuste, apresentados pelos secretários e superintendentes, há mostras de gestores que compreenderam bem a proposta. E que espera que todos apresentem um projeto final de reforma, dentro da atual realidade do município.

 

Emendas

Hoje, às 9h, a vice-prefeita de Campos, Conceição SantAnna, vai receber a deputada federal Cristiane Brasil, na Casa de Convivência do Parque Tamandaré (antigo Clube da Terceira Idade). Na ocasião, será assinado protocolo de intenção das emendas no valor de quase R$ 1 milhão, que serão destinadas a projetos do Conselho Municipal do Idoso, Fundação Municipal do Esporte, superintendência dos Direitos do Idoso e secretaria de Desenvolvimento Humano e Social.

 

 Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves

 

 Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

Atualização às 8h57 de 26/04/16 para correção feita aqui pelo leitor Edimar Azevedo

 

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É (menos) pior roubar para si ou para um projeto de poder?

 

Há sempre aquelas coisas que queríamos dizer há tempos. E é sempre bom quando topamos com quem tem o condão de dizer na nossa frente, talvez até melhor do que tivéssemos capacidade de fazer. Afinal, além de constatar que não estamos pensando sozinhos, poupa trabalho.

Dominada nos últimos 28 anos pelo garotismo, na política de Campos é bem conhecido o discurso de defesa, diante de qualquer denúncia de malfeito: “se roubei, onde estão os sinais da minha riqueza?”. O que sempre levanta a complexa questão moral: é (menos) pior roubar para si, ou para um projeto de poder?

Com o assalto aos cofres públicos brasileiros eviscerado pelas delações da Odebrecht e a mais recente, de Léo Pinheiro, presidente da OAS, imposível não ver como a corrupção da prática política brasileira se prestou aos dois fins, muitas vezes ao mesmo tempo.

Entre uma e outra motivação da mesma prosmicuidade delinquente entre público e privado, esclarecedor o texto publicado ontem pelo Ricardo Rangel, diretor de produção da Conspiração Filmes e lanterna para quem busca vida inteligente na democracia irrefreáel das redes socias.

Confira aqui e na reprodução abaixo:

 

 

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Após denúncia da Folha, religaram a luz da Villa Maria

 

Após seis dias no escuro e de portas fechadas, Villa Maria teve energia elétrica restabelecida agora há pouco (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Como anunciado aqui, no artigo de ontem (23) da Folha, a Villa Maria recebeu hoje uma visita de técnicos da Enel e da Uenf, que acabaram de restabelecer a energia elétrica da Casa de Cultura da universidade. A iniciativa se deu cinco dias após a coluna “Ponto Final” denunciar aqui o fechamento da Villa Maria, na última terça (18), por falta de luz, água e internet.

O texto inicial viralizou na democracia irrefreável das redes sociais, alcançando até o presente momento 930 likes e 125 compartilhamentos. Sua consequência prática de hoje é um sólido indicativo de que só com a mobilização da população de Campos e região será possível salvar a Uenf do atual processo de desmonte que ameaça sua sobrevivência.

 

Leia mais sobre a crise da Uenf aqui e aqui, nos artigos, respectivamente, da professora e presidente da Aduenf, Luciane Silva, e do tradutor Marcelo Amoy, colaboradores do blog

 

Confira a cobertura completa do restabelecimento de energia na Villa Maria na edição de amanhã (25) da Folha

 

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Marcelo Amoy — Uenf: a conquista de um sonho

 

Zuleima de Oliveira Faria com a medalha Darcy Ribeiro

Não é de hoje que nossa cidade tem sido reconhecida como um polo universitário de grande importância regional — importância que precedeu a criação da Uenf. Desde antes de eu nascer e avançando décadas em minha vida, de vez em quando se falava na (importância ou necessidade de) criação de uma universidade aqui por nossas bandas — sonho que sempre era frustrado por motivos variados. Na impossibilidade do sonho completo, partes dele foram sendo construídas por alguns valentes que simplesmente não desistiam. Assim, em 07 de março de 1960 aconteceu a primeira aula na Faculdade de Direito (refundada depois de décadas — já tivemos outra antes, que fechou); em 06 de abril de 1961 foi fundada a Faculdade de Filosofia; em 14 de outubro de 1967 inaugura-se a Faculdade de Medicina; e em 19 de janeiro de 1972 junta-se ao grupo a Faculdade de Odontologia — todas “de Campos”, embora a serviço de toda a região. Por muitos anos, a oferta de cursos foi limitada aos oferecidos por essas quatro grandes instituições e mesmo a vinda da Faculdade Candido Mendes não mudou o fato de que não tínhamos uma universidade. [Só mais recentemente Campos recebeu várias outras instituições de ensino superior, que passaram a oferecer os incontáveis cursos de que a cidade dispõe hoje.]

A crise econômica do final dos anos 80 agravou a já (constantemente) periclitante situação financeira das quatro faculdades locais e eu me lembro bem que essa dificuldade fez com que elas se unissem para pleitear uma participação pública em sua manutenção. O plano original era que elas fossem encampadas pelo Estado, que passaria a geri-las, oferecendo mais cursos e fazendo com que surgisse uma “Universidade de Campos”. Sou testemunha ocular da imensa dedicação e do gigantesco trabalho empreendido nesse sentido pelos dirigentes de nossas quatro faculdades naquela época. Ainda que eu peça desculpas por não citar todos, não posso deixar de mencionar alguns nomes envolvidos naquele processo – lembrados pelo meu afeto pessoal e proximidade: os drs. Geraldo Venâncio e Osvaldo Cardoso de Melo; as estimadas professoras Maria Thereza Venâncio, Cacaia Martins e Ruth Maria Martins; a inteligentíssima educadora e poeta Véra Passos e a inestimável educadora, professora e dr. Zuleima de Oliveira Faria (minha saudosa tia e “mãe-drinha”). No entanto, os planos mudaram.

A ambição do governo do Estado do Rio de Janeiro foi maior do que a nossa, daqui de Campos. Numa reviravolta, algo por definição inesperado e surpreendente, o Estado nos propôs ir bem além do que estávamos pleiteando. Se, por um lado, as quatro instituições locais seguiriam tendo que administrar seus problemas financeiros por sua própria conta, sem a ajuda estatal, por outro a cidade seria presenteada com um projeto moderno de universidade que nem sequer tinha sido sonhado — pelo menos não daquele jeito que Darcy Ribeiro nos propunha. O grupo de trabalho original se desfez, então, e uma nova equipe foi designada pelo governador do Estado — equipe na qual, se não me falha a memória, do grupo original só a professora Zuleima Faria continuou. Pude seguir acompanhando, então, muitos dos bastidores da criação da Uenf e chego a ter orgulho das vezes em que transportei documentos importantes daqui para o Rio e vice-versa — em busca de assinaturas urgentes e zelando pelo sigilo demandado. Mesmo não sendo mais que um mensageiro, naquelas viagens me sentia um sacerdote.

O primeiro reitor da Uenf, Dr. Wanderley de Souza, escreveu em janeiro de 2013 que a Uenf foi imaginada como “uma instituição inovadora,comprometida com a existência de um corpo docente constituído exclusivamente por pesquisadores com doutorado motivados a desenvolverem projetos em áreas estratégicas para o desenvolvimento do país e a formarem recursos humanos de alto nível”. Na mesma ocasião, ele também escreveu: “Cabe ainda registrar o fato de que a Uenf não é apenas uma bela experiência acadêmica que uniu Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer e centenas de professores, alunos e servidores. É uma experiência que deu certo. Hoje oferece dezessete cursos de graduação para 4 mil alunos e 14 cursos de pós-graduação para cerca de mil alunos. Já graduou, ao logo de seus dezenove anos de existência, mil e oitocentos alunos e deu origem a cerca de 2 mil e quatrocentos teses de mestrado e doutorado.” Eis aí o panorama do que estamos arriscados a perder.

Não quis o destino (até hoje, pelo menos) que eu estudasse ou trabalhasse na Uenf, mas a universidade me é próxima por empréstimo aos anos e ao amor que minha madrinha Zuleima dedicou às suas instalação, fundação e consolidação – é que depois de funcionando, tia Zuleima foi a coordenadora acadêmica da Universidade por 14 anos, até 2007. Assim, desde o começo dos anos 90, por praticamente duas décadas a Uenf esteve dentro da minha casa, fazendo parte da minha família. É como membro da família que a vejo agonizar em praça pública e me sinto impotente para socorrê-la. O que posso fazer frente um Estado destruído por irresponsabilidade, má gestão e corrupção? Não é por implicância que falta dinheiro para a Educação – falta para tudo, inclusive para o básico: o salário do funcionalismo. O que podemos sacrificar para salvar a Educação – e, no panorama estrito: o que podemos sacrificar para salvar a Uenf? É preciso que façamos algo, mas… o quê?

Em 2011, a Uenf homenageou sua ex-servidora Zuleima com a mais alta comenda da instituição, a medalha Darcy Ribeiro. Na ocasião, ela relembrou vários fatos da história da universidade e de sua fala pincei o seguinte trecho: “Depois de quatro anos afastada, volto à Uenf e fico assustada. Novos prédios, esse magnífico Centro de Convenções, a expansão dos cursos para outras regiões do Estado do Rio e principalmente pelo seu compromisso social, que está se fazendo notar.” Bom que a surpresa dela na época era positiva e se evidenciava pelo avanço da Uenf como uma instituição transformadora de toda a nossa região. Como ela ficaria assustada, decepcionada e arrasada se tivesse vivido pra ver o estado em que a Uenf se encontra hoje… No seu falecimento, em julho de 2013, a coroa de flores enviada pela Uenf trazia a mais linda das mensagens para quem dedicou a vida inteira ao desenvolvimento do ensino superior em nossa cidade: “Descanse em paz, Zuleima, levando a certeza de que sua obra continuará.”

Não sabemos hoje se essa obra continuará – e se continuar: a que duras penas? Semana passada, a Casa de Cultura Villa Maria foi fechada por falta de energia – sem prazo para reabertura. Antes, a falta de verba já impedia a renovação de contrato de segurança dos campi – oportunidade infelizmente aproveitada por ladrões e vândalos. Falta de tudo na universidade, menos vontade de vencer as dificuldades e prosseguir. Confesso que eu gostaria de ter uma sugestão inteligente pra alardear e salvar a Uenf como num passe de mágica ou invocar um “deus ex machina” e… pronto: tudo resolvido. Mas o espanto é tanto que até agora só fui capaz de sentir e demonstrar um choque profundo pelo estado das coisas. Estagnação.

Não sei se devo me desculpar por nem tentar separar as camadas de sentimentos (até) contraditórios que este texto evidencia. Amor e morte; orgulho e perda; sucesso e fracasso; urgência e paralisia. Contudo sei que não quero (nem poderia) separar minha relação com a Uenf da que tive com minha madrinha: por isso a foto dela lá em cima, orgulhosa de sua obra, com a medalha Darcy Ribeiro no peito e um sorriso de alma inteira e de dever cumprido. Lamento se considerarem este texto mais pessoal do que o adequado; mas garanto que meu lamento é por todos (ainda que eu o sinta como ninguém mais). Sei que precisamos colocar um sorriso desses em nossos rostos também – todos nós, cidadãos campistas – e nos unirmos em defesa de nossa universidade. Porque ela é NOSSA.

Não sei o que fazer, mas farei junto com quem souber.

Assim… passo a palavra.

 

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Festa da Penha — Pela fé dos pescadores, das minhas mãe e avó

 

Apesar da infância frequentando as missas de domingo no Convento, onde minha mãe fazia escambo das presença dos dois filhos pela pipoca com queijinho frito na saída, não me tornei católico. Mas fui batizado e fiz a primeira comunhão — se não me falha a memória, a primeira e última vez em que me confessei a um padre.

Especificamente em relação a Maria, admito interpretá-la, enquanto figura religiosa, com teologia próxima dos evangélicos. Ainda que sem nenhuma simpatia especial por estes, sempre fui incapaz de ver na mãe de Cristo nada além isso — nem menos, nem mais.

Mas admito ter sentido uma energia diferente quanto visitei a casa na qual ela teria vivido e morrido, uma habitação humilde de pedra, com dois cômodos, próximo às ruínas da cidade Éfeso, na atual Turquia. Ela teria sido levado para lá por José de Arimatéia, para fugir da perseguição romana após a crucificação do seu filho.

Já em relação à multiplicação da figura de Maria, personalizada à fé particular dos vários lugares do mundo onde é adorada, reconheço no fenômeno a reedição do que aconteceu na Antiguidade, por exemplo, com a deusa pagã Atena, cujo culto foi sincretizado com várias outras divindades do Mediterrâneo, chegando a ser adorada até na Índia.

Razão à parte, sou neto de uma Maria da Penha, filho de uma devota da santa e convivo há décadas em Atafona. Ao londo dos anos, fui permeado pela fé das mulheres da minha família, a mesma dos pescadores, que sempre admirei, em sua protetora. Por ela, os homens do ofício de Simão realizaram na tarde de hoje (aqui) mais uma procissão fluvial com a imagem de Nossa Senhora da Penha, onde o Paraíba do Sul deságua no Atlântico, numa tradição de 160 anos.

Abaixo, alguns registros pessoais dessa fé viva e feminina, como as águas de um rio em seu encontro com o mar:

 

 

Multidão reunida entre a Igreja da Penha, o Mercado de Peixe e o Restaurante do Ricardinho (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Confraternização entre os participantes da tradicional disputa de natação em busca dos patos soltos no Paraíba (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Meninos em seu brinquedo de bolhas de sabão (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Devotas observam o movimento enquanto aguardam a chegada da santa pelo rio (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Idade não subtrai a vaidade das sandálias douradas, unhas pintadas e corrente de outo no tornozelo para receber a Penha (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Três prinicpais varcos da procissão fluvial, trazendo, por ordem, as imagens do Cristo, de Saõ Jorge e de Nossa Senhora da Penha (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Com o mangue ao fundo, imagem do Cristo é a primeira a ser descida no cais (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

No andor sobre os ombros dos fiéis, Cristo levita entre as copas das amendoeiras do Ricardinho (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Depois de Cristo, São Jorge desfila suas armas diante à multidão de fiéis (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Com o menino Jesus ao colo, Nossa Senhora da Penha, dona da festa, é a última a chegar (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

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Desmonte da Uenf — Qual será a sua opção?

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

No Brasil polarizado desde as eleições presidenciais de 2014, divisão recrudescida a partir do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) em 2016, com o debate diariamente esgarçado pela esquizofrenia a puxar as pontas opostas da mesma corda, difícil achar uma causa comum. Pelo menos para Campos, Norte e Noroeste Fluminense, a defesa da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) surge como raro exemplo daquilo que ainda é capaz de unir. Afinal, a despeito de quaisquer outras diferenças, não há dúvida de que o desenvolvimento enquanto sociedade passa, prioritariamente, pela oferta da educação pública de qualidade.

Quer se tenha ou não votado em Luiz Fernando Pezão (PMDB) em 2016, é impossível não se revoltar diante ao desmonte da Uenf promovido pelo governo eleito naquele pleito. Especificamente em relação ao povo de Campos, talvez fosse bom ressaltar que, no segundo turno da eleição a governador, Pezão ganhou em nada menos do que cinco das sete Zonas Eleitorais do município — a despeito do seu adversário, Marcelo Crivella (PRB), ter recebido o apoio incondicional do campista Anthony Garotinho (PR).

Muito além dos votos dados a Pezão, ou a qualquer outro político, a defesa da Uenf tem que ser assumida pelos méritos da própria universidade. Como seu reitor, Luís Passoni, destacou em artigo nesta mesma página de opinião da Folha da Manhã, publicado em 28 de março último: “Apesar das dificuldades, apesar de estarmos há 18 meses sem repasses de verbas de manutenção, apesar dos salários atrasados, mais uma vez a Uenf desponta entre as melhores do Brasil, segunda melhor no Estado do Rio de Janeiro, décima terceira em todo Brasil. Já fomos a melhor do Estado e 11ª do Brasil”. O ranking mencionado é o Índice Geral de Cursos (IGC) do ministério da Educação (MEC).

As ressalvas de Passoni talvez sejam até sutis para se dimensionar o quadro dantesco que se abateu sobre a Uenf, com a explosão da crise financeira do Estado do Rio. Após quase duas décadas sob a gestão do mesmo grupo político — que chegou ao poder com Garotinho, em 1999, e se fragmentou após a ascensão do seu então aliado Sérgio Cabral, em 2007 — o saldo é que Pezão, ex-colaborador de ambos, hoje deve o pagamento de 13º, salários de março e, daqui a alguns dias, de abril, aos 950 funcionários da Uenf (310 professores e 640 servidores técnicos e administrativos). Isso sem contar o atraso de dois meses aos alunos bolsistas, mais um ano e meio sem repasse de verbas de manutenção e custeio, no valor de R$ 2 milhões/mês, às instalações que abrigam 6,2 mil universitários.

Como reflexo direto dessa crise talvez sem precedentes em território fluminense, e seus reflexos diretos sobre a Uenf, a primeira vítima foi justamente sua batedora de vanguarda. No último dia 18, sem energia elétrica, água ou internet, a Villa Maria, Casa de Cultura da universidade, fechou suas portas.

No dia seguinte, a coluna “Ponto Final” contou (aqui) um pouco da história da Villa. Palacete construído em 1919, pelo arquiteto italiano José Benevento, foi um presente do engenheiro e usineiro Atilano Chrysóstomo de Oliveira à sua esposa, Dona Maria Queiroz de Oliveira. Mais conhecida como Finazinha, por ter nascido no Dia de Finados, e pela promoção de atividades culturais, ela doou a própria residência, em testamento, para ser a sede da futura universidade que viesse a ser instalada no Norte Fluminense. Como a Uenf só seria inaugarada em 1993, foi desejo antecipado à realidade em quase um quarto de século.

Abandonada com a morte de Finazinha, em 1970, o suntuoso prédio da rua da Baronesa da Lagoa Dourada seria reformado nove anos depois, no governo municipal do arquiteto Raul Linhares, passando a ser a sede da Prefeitura de Campos também nas gestões seguintes de Wilson Paes, Zezé Barbosa e Anthony Garotinho. Após a instalação da Uenf, num projeto pessoal do antropólogo Darcy Ribeiro concebido no governo estadual Leonel Brizola, a Villa Maria passaria a abrigar a Casa de Cultura da universidade.

Como sede da Prefeitura ou Casa de Cultura da Uenf, o fato é que, entre 1979 e 2017, foram quase 40 anos da Villa Maria aberta diariamente, antes de fecharem suas portas na última terça. Amanhã (24), há a perspectiva de que técnicos da universidade e da Enel estejam no local, tentando viabilizar uma solução. Entretanto, a dívida da Villa com a concessionária de energia elétrica gira em torno dos R$ 50 mil. Da Planície ao Planalto, há também a expectativa de que a ajuda federal ao Estado do Rio, no valor de R$ 1,5 bilhão, cujos destaques foram votados a aprovados na Câmara Federal no último dia 19, sejam apreciados o quanto antes no Senado.

Na sexta (22), em artigo publicado (aqui) no blog “Opiniões”, hospedado na Folha Online, a presidente da Aduenf, professora Luciane Silva, escreveu: “Manter a Uenf aberta é uma forma de resistência e acima de tudo uma aposta de que o futuro de Campos pode ser muito mais luminoso. Mais humano e justo. E essa defesa deve acontecer em nossa prática cotidiana, na ampliação da luta por uma educação feita de curiosidade, emancipação, crítica. Esta foi a universidade sonhada por Darcy e abraçada pelo Norte Fluminense”.

Nas duas semanas seguintes, a partir de amanhã (23), outros colaboradores do “Opiniões” estarão emitindo as suas diariamente, sobre o mesmo tema capital a Campos e região. Afinal, quem vivendo por aqui, mesmo sem nunca passar pelas salas de aula da Uenf, já não testemunhou o crescimento pessoal de um parente, amigo ou colega de trabalho depois de fazê-lo?

Emérito aforista, é de Darcy o dito: “Só há duas opções nesta vida: se resignar ou se indignar. E eu não vou me resignar nunca”.

E você, leitor? Qual será a sua opção?

 

Publicado hoje (23) na Folha da Manhã

 

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Dos quadris das dunas contra o mar

 

Atafona, início da tarde de hoje (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

“louvada seja a desilusão, o ondular”

(jack kerouac)

 

uivo

 

lobby nas fotos

brincos sem lóbulo

— lembranças por lobo

com brancos caninos

à caça de luas

 

verão na varanda

visões à vera, veredas

 

julietas diversas

vararam veronas

com manteiga

no miolo quente do pão

 

atafona, 20/02/07

 

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Fabio Bottrel — O Nascimento pela Arte

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Chet Baker

 

 

 

(Arte digital de Amandine Van Ray)

 

 

O homem cria a arte, a arte recria o homem, dentre tantas recriações essa semana encontrei uma magnífica: Fernando Leite. É revigorante saber que não importa o tempo de estada Campos sempre surpreenderá com novos pontos de vista, parece que nem o tempo do mundo seria suficiente para conhecer todas as histórias que essa cidade contém em si, todas as pessoas que valem a pena ouvir. Nessa planície de características tão marcante percebi que o homem nasce pela arte, cresce pela política e a morte não é um mero padecer de corpo, mas o medo da vida. Lembro, ainda encantado com os novos cenários à minha vista e as novas vistas à minha mente, do primeiro texto publicado em 26 de março de 2016 nesse espaço, contando o diálogo de um jovem recém chegado com um descendente dos Goytacazes, e um autor cheio de ansiedade para as próximas publicações: O Anfitrião Goitacá.

“— Campos é uma cidade em busca da juventude perdida como uma criança que não teve infância, meu jovem, se tem projetos de vida, veio ao lugar certo. – Disse o homem de pele marcada, virando uma dose de cachaça assim que eu me ajeitei no balcão.

—Não se escuta isso de quem viveu 50 anos tomando o mesmo café, usando o mesmo açúcar, espreitando da janela a cana velha que nessa terra não nasce mais.

Por arrancarem meus olhos com foice enferrujada não enxerguei o futuro, me afundei no passado. Hoje o que me resta é o reflexo no fundo desse copo de cachaça com tabaco, em cada dose as palavras que me faltaram, os sorrisos que desconheci.

Escute bem, meu rapaz, afofei essa terra com cuspe e sangue quente, aqui plantarás sua semente e dela colherás frutos somente se enraizar na sua mente. Sou descendente dos Goytacazes, não me dizimará mãos de capatazes, honre a minha memória e faça dela a glória. Quantos oceanos há de atravessar para encontrar o seu lugar?

— Meu senhor, nasci de um aborto, meu dente é rente, é tilintar pro teu sangue quente, se Campos me deu lugar, aqui, vou ficar. Não se engane, quando a guerra acaba sou o soldado no campo de batalha, defendo a minha pátria nem que seja com navalha. Afaste de mim essa enxada, cheguei até aqui com as palavras colhidas das flores, nelas vou pra onde a minha vista não alcança e levo junto o teu nome pra longe dessa manada.

— Rapaz, tire do seu peito esse ranço, veja na minha pele que a vida não me fez manso, não deixe que ela faça o mesmo com você. O dia já está se deitando pra noite aconchegar, deveria procurar um lugar ou alguém que faça o teu sorriso se abrir.

— Senhor, vejo tuas marcas, bem sabes que a ferida maior está onde não se pode ver. A verdade é que poucos desamados sabem ser altruístas, tempos mortos para o meu coração não se transformam em virtudes, aguçam a pobreza da minha essência. Meu senhor, devolverei teus olhos, facão nenhum cortará a tua gana, nessas palavras está o meu sangue e dele você há de beber. – Terminei a dose de um só gole e bati o copo no balcão, limpei a boca com o dorso da mão.

— Não tenha pressa garoto, seria melhor se não deixássemos esse bar, já sabemos o que nos espera lá fora. Pegue uma cadeira, sente-se, agora temos todas as semanas, nesse mesmo dia, para te contar o que vivi…”

Texto que tal como esse, tantos outros, pelos caminhos da vida, me fazem refletir e retornar sempre a um dos meus poemas prediletos, exasperados pelas canetas e vozes do poeta espanhol Antonio Machado: Cantares.

 

“(…)

Caminhante, são tuas pegadas

o caminho e nada mais;

caminhante, não há caminho,

se faz caminho ao andar

 

Ao andar se faz caminho

e ao voltar a vista atrás

se vê a senda que nunca

se há de voltar a pisar

(…)”

 

Ou talvez seja uma benesse própria ter a chama nunca apagada de quando criança ao se encantar com as coisas do mundo vistas pela primeira vez. Talvez o sentido da vida esteja aí, ao lado do amor, saber enxergar a beleza que traz uma brisa calma permeada de perfume d’outros tempos, saber ouvir as palavras doces que saem de bocas às vezes tão amargas, enxergar nos olhos da pessoa amada o reflexo da própria alma, o abraço da poesia. Quanto ao tempo, juiz soberano das vidas que passarão antes de serem vividas, fica o conto de cenários campistas, publicado nesse espaço que me honra, em setembro de outrora:

 

Um Piscar de Olhos

 

“Quando Eugênio deu o primeiro grito nesse mundo o céu estava imundo de poeira, fumaça e pedaços de sonhos destruídos. Num quarto da Beneficência Portuguesa uma lágrima escorria de sua mãe ao ver a face do filho pela primeira vez, o chão frio e cinza era palco dos passos calmos do médico enquanto dava tapinhas em seu corpo para circular o sangue recém-nascido.

Quando Eugênio abriu os olhos tinha 5 anos, estava deitado num banco do Jardim São Benedito e media a abertura das pálpebras com a luz do sol rente ao seu rosto. Tinha dentro de si as bilhões de estrelas do céu, que saíam do seu peito para preencher a noite. Os seus lábios desenhavam os sorrisos de quem vê em tudo a novidade, sentia o cheiro doce das árvores, o calor do sol na pele, as cores vivas das folhas caindo com o balanço do vento, tudo como se fosse a primeira vez, cada dia de vida era o mundo se mostrando, se iluminando em cantos e sabores. Fechou os olhos para sentir o pulmão se encher com o ar puro da árvore que em silêncio lhe sombreava o rosto.

Quando Eugênio abriu os olhos tinha 25 anos, estava sentado numa carteira do IFF procurando novidade nas mesmas palavras ditas pela professora a sua frente, nas mesmas escritas na lousa que tantas vezes apagara as mesmas letras, há 4 anos respondendo as mesmas perguntas feitas a todos da sua turma como se fossem uma só pessoa, desanimando da vida como desanima alguém que não é livre para escolher o próprio destino, perdendo o sabor da vida a cada estalar de dedos para lhe aprisionar a atenção. Odiava cada dia que chegava à sala de aula e as vozes de seus professores lhes causavam náuseas, batia a caneta firme na madeira da carteira como se expurgasse seus anseios e se lamentava que deveria ter feito tudo diferente quando ainda não houvera feito 20 anos, devia ter estudado para outro curso, agora, depois de tantos anos sem fazer vestibular e quase se formando não podia mudar, tinha que continuar. Queria ter criado a coragem de realizar o seu sonho, ter largado tudo e viajado o mundo tocando violão na esquina, lavando prato na cantina e sorrindo porque a vida importaria mais que essa conta ridícula na sua escrivaninha. Fechou os olhos para respirar fundo e se acalmar, em sua cabeça era só um momento a que tinha de passar…

Quando Eugênio abriu os olhos tinha 50 anos, levantava-se toda segunda-feira esperando a sexta-feira, escovava os dentes para sujá-los mais tarde com comida fast-food num canto da solidão, perdendo de si a própria razão de ser. Gostava de quando chegava o fim do dia, não fazia o que queria, mas não tinha de se torturar em trabalho de vida finda. Havia seguido os conselhos dos falecidos pais e família, escolheu um trabalho sem sentido para fazer depois o que valia, mas já não tinha ânimo para fazer do tempo passado um presente, gastava maior parte do tempo desperdiçando a vida em desejo de gente morta e reclamando que deveria ter mudado quando era tempo, quando ainda tinha 25 anos. Sentado no sofá com um hambúrguer como jantar e uma amiga mosca a sussurrar com as asas frenéticas perto dos seus ouvidos, Eugênio fecha os olhos para a noite passar levando consigo os pensamentos combalidos…

Quando Eugênio abriu os olhos tinha 70 anos, estava aposentado de uma vida inteira indesejada, sentado na sua cadeira de balanço balançava os pensamentos e lembrava os dias em que colocara em sua cabeça: era só um momento a que tinha de passar… Queria ter mudado tudo aos 50 anos, mas os momentos passaram e com eles a vida também passou, ele amou, mas não se entregou, sofreu, mas não chorou. Nas aulas da faculdade que ele torcia para acabar, nos dias no trabalho que ele torcia para passar, mal imaginava: torcia para a vida acabar.

Quando Eugênio fechou os olhos para imaginar a vida que deixara passar estava no mesmo lugar quando a vida houvera começado, deitado no banco do Jardim São Benedito, medindo a abertura das pálpebras com a luz do sol. Via crianças brincando em torno da Academia Campista de Letras, e imaginava se uma delas conseguiria ser livre, dona do própria destino, acima das imposições sociais e ter a liberdade de ser diferente, quem sabe, até mesmo feliz. Eugênio tentava manter os olhos abertos, mas o corpo secular cansa com coisas tão mansas…

Quando Eugênio fechou os olhos tinha 90 anos, estava na sua varanda, com sua mão em trança, a cadeira que balança seu corpo também balança seus pensamentos, no mesmo lugar d’onde enxergou o primeiro dia de vida aos 70 anos. E pensava nas coisas que podia ter vivido quando se-tenta, mas deixou se levar pelas reclamações do corpo, mais uma vez a vida passou e ele nada pode fazer para tornar o passado presente, o tempo é algo mesmo complicado. Eugênio tentava manter os olhos abertos enquanto o vento gostoso lhe acaricia o rosto, olhava as crianças lá embaixo e imaginava se uma delas seria sábia o suficiente para respeitar a vida e não afastá-la resmungando como uma criança mimada… Um raio de sol começa a surgir pelas rugas em sua orelha, deslizando pelo seu rosto até chegar aos olhos lacrimejantes. Eugênio lembrou do começo da vida enquanto media a abertura das pálpebras com a luz do sol.

Quando Eugênio fechou os olhos eles não mais se abriram, não havia mais brilho, e num piscar de olhos a vida havia partido. Ainda estava um sol quente quando o sepultamento no cemitério Campo da Paz terminou, a terra quente banhada em lágrimas escondia o corpo de Eugênio embaixo dos pés dos familiares e amigos. O vento levava o mesmo cheiro doce das árvores quando todos foram embora, ainda havia sol e um corpo frio, como tantos outros que passaram a vida tentando fazer sentido. Quando o vento parou, da mesma forma que a árvore – Eugênio – silenciou.”

 

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