Após dia e noite longos de trabalho no jornal, cheguei neste início de madrugada a Atafona, minha Pasárgada, mesmo neste agito de folia. Daqui até o próximo dia 6 de março, não estarei postando nada no blog, à exceção dos textos dos seus colaboradores e da minha produção dominical como jornalista na Folha.
Depois do reinado de Momo, a vida real recomeça — queiramos ou não. Até lá, deixo você, leitor, com os “versos alegres” do bardo russoVladímir Maiakóvski (1893/1930), “agudos e necessários como um estilete pros dentes”, que sempre me ocorrem quando penso em poesia e carnaval.
Inté!
Na foto em preto e branco, o jovem Maiakóvski e sua blusa amarela
A blusa amarela
Do veludo de minha voz
Umas calças pretas mandarei fazer.
Farei uma blusa amarela
De três metros de entardecer.
E numa Nevsky mundial com passo pachola
Todo dia irei flanar qual D. Juan frajola.
Deixai a Terra gritar amolengada de sono:
“Vais violar as primaveras verdejantes!”
Rio-me, petulante, e desafio o Sol!
“Gosto de me pavonear pelo asfalto brilhante!”
Talvez porque o céu está tão celestial
E a Terra engalanada tornou-se minha amante
Que lhes ofereço versos alegres como um carnaval
Agudos e necessários como um estilete pros dentes.
Às três da manhã de uma madrugada insone (como foram tantas no ano de 2016), recebi por telefone uma instigante pergunta de um amigo jornalista. Ele estava finalizando uma matéria para uma revista e me questionava sobre uma possível depressão pós-golpe. Sinto que lhe devo uma resposta. Naquela madrugada usei os argumentos conhecidos. Sobre a crise vivida pelo funcionalismo no Rio de Janeiro, sobre a crise da esquerda, sobre as pequenas depressões cotidianas. Ele não parecia satisfeito, relatando outras repostas já recebidas. Eu estava contra a parede. Para respondê-lo, recuperei as memórias de luta do Muspe (Movimento Unificado dos Servidores Públicos Estaduais ) nas escadarias da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro, recuperei a angústia diária vivida nos meses anteriores ao impeachment de Dilma Rousseff, eleita com mais de 54 milhões de votos em 2014. Mas estranhamente, de forma não intencional, a resposta tardia só me pareceu satisfatória depois de viver três experiências indiretamente conectadas. E disto trato neste texto-resposta.
Nos mês de janeiro, ainda em Porto Alegre (e exatamente por conta da suspensão da rotina cotidiana) assisti aos filmes Tatuagem (2013, Hilton Lacerda), Neruda (2016, Pablo Larrain) e finalmente, Elis (2016, Hugo Prata). Não houve nenhum tipo de racionalidade anterior na escolha. A relação entre os filmes só foi estabelecida, na verdade, ao final do terceiro, quando senti a resposta como um soco no estômago. Os três filmes tratam da relação entre arte e política em tempos de ditadura. Tratam do teatro, da poesia e, no caso de Elis, da música. Algo que devo mencionar como vivi o ano de 2016: uma paralisia da escrita causada pela sensação de total inutilidade da crítica diante dos golpes orquestrados pela estrutura política e pelo aumento da repressão à população. E sobretudo, pelo clima de ódio cotidiano manifestado em atos de violência (virtuais e físicos) contra mulheres, gays, negros, indígenas e presos (entre outros grupos, visados como alvo de ataques dentro de uma compreensão míope sobre o significado dos direitos humanos no Brasil).
Assisti a estas três narrativas sobre a relação entre o artista como figura política fundamental no agenciamento das emoções de um povo e a censura. Censura aos espetáculos, censura à poesia, censura às letras de música brasileira. Perseguição, cassação, prisão, tortura e morte. Ao relembrar o primeiro enterro de Elis por Henfil no Pasquim, durante a ditadura militar e a gravação de “O bêbado e o equilibrista”, entendi o que havia me acontecido: minha tristeza (esta sobre a qual ele me questionara) se manifestara na incapacidade da escrita. Da escrita livre, que por ventura sempre guarda alguma espécie de aposta utópica. A censura, em sua forma mais fantasmagórica havia me abraçado. Os primeiros versos de “Canto General”, jogaram-me nas centenas de celas espalhadas pela América Latina naqueles anos. Tenho me perguntado sobre dar resposta ao momento político, às contas acertadas com a história. E tenho aprendido a administrar o horror. Das chacinas e estupros coletivos. Percebi que a perturbação profunda causada pelas três narrativas era a resposta ao (des)ânimo vivido. Durante o ano, amigos em diferentes momentos se afastaram do convívio público, cansados, abatidos, incrédulos. A eles dedico este texto como nos versos de “Sinal Fechado”, vivíamos encontros cheios de sustos, adiando a vida para um próximo encontro. Que nunca viria, ou viria como um simulacro, um estar pela metade, um estar censurado. Era isto. Parados em um sinal de uma avenida em Goiânia. Assustados com a nomeação dos novos ministros, com o cinismo dispensado a cada noticiário oficial. Mas não há censura. Não temos “Canto General”, nem a volta do irmão do Henfil. São dias de um limbo de novo tipo. Sem movimento operário, sem utopia latinoamericana… quem poderia descrever esta censura que não produz resistência?
Esta é minha resposta. Como arrancar do cotidiano a utopia da qual nos fala Galeano? Como ultrapassar este sinal fechado sem perder a voz, a vida, sem cair sob as botinas que massacram professores nas ruas do Paraná? Como não tombar frente ao exército da farsa, empossado, ativo e cheio de vontade de morte?
Todos os dias Gisele olhava para aquele homem através da câmera de vigilância. Ele chegava sempre à 8h30, de roupa social, tomava um café e comia um pão assistindo o noticiário matutino. Cada gesto expressava delicadeza, segurando a xícara com um leve aperto dos dedos ou cumprimentando gentilmente o balconista. Na sua mente, vislumbrava um antigo nobre e seus trejeitos.
À medida em que o observava, Gisele sentia crescer algo dentro de si. Parecia um amor platônico, uma vontade de abraçá-lo, de beijá-lo, de estar ao seu lado. Esse sentimento a levava a esquecer do mundo por esses minutos em que ele entrava na padaria, traçando sonhos diversos, estipulando como seria seu dia, qual sua profissão, desejando-lhe um bom trabalho fosse em um tribunal, em um escritório, em uma escola.
Já vestia seu uniforme e saía de casa com sua fisionomia na mente, como um ritual que precisava repetir cotidianamente. Chegou a cogitar em abordá-lo. Aproximar-se sorrateira, fingir esbarrar nele, arrumar um motivo qualquer para puxar assunto. Quem sabe ele se interessaria, perguntaria seu nome, pediria seu número de telefone. E disso um encontro, quem sabe? E assim, de seu posto de vigilância, ela sonhava, apenas sonhava.
Marcava com tamanho afinco sua presença que notou quando ele não apareceu. Uma gripe, imaginou, coisa da mudança abrupta do clima em março. Porém, após quatro dias seguintes sem ele dar as caras, resolveu perguntar para a caixa sobre aquele fulano de tal, negro, bastante sorridente, bem arrumado, que tomava café da manhã:
— Não soube? Foi atropelado e morreu na segunda-feira.
Gisele se desesperou. Acessou um blog de notícias locais e confirmou: ele atravessou a rua distraído e um carro acima do limite de velocidade o atingiu em cheio. Os socorristas o levaram ao hospital, mas chegou morto. Chamava-se Pedro, e Gisele lamentou descobrir com atraso seu nome.
Consultou a página das listas amarelas e descobriu um número residencial. Telefonou e uma mulher atendeu: seria mãe, filha, esposa? Inventou que o conhecia de tempos de colégio, soube do falecimento e gostaria de visitar o jazigo. Informaram-na do cemitério e orientaram sobre onde localizar a lápide.
No sábado logo cedo compareceu, ramalhete em mãos. Diante do túmulo, vislumbrou o nome forjado em bronze e o retrato em porcelana. Essa imagem lembrou-a dos seus movimentos vistos com carinho através da câmera de vigilância. Aguçou sua curiosidade sobre seu tom de voz e se o toque de seus dedos a infundiria com calma ou da deixaria agitada. Comprovadamente morto e enterrado, disso se certificava, seu amor eternamente impossível,e justamente por isso ela respirou aliviada. Não, o pânico do afastamento irreversível não a assolava, pelo contrário: perpetuar uma paixão que não se poderia consumir lhe proporcionou a maior satisfação de sua vida.
Enquanto esperavam Anthony Garotinho (PR) vir hoje (20) na condição de réu à audiência da “Chequinho” (aqui), na 100ª Zona Eleitoral (ZE) do município, e atrair mais jornalistas do que militantes ao Fórum de Campos, os áulicos a soldo do ex-governador tentaram criar fatos. E na incapacidade de fazê-lo por conta própria, repercutiram entrevista feita por mim e publicada na Folha e (aqui) neste blog, com os líderes do governo e do PR na Câmara Municipal — respectivamente Fred Machado (PPS) e Thiago Ferrugem.
Para os áulicos a soldo do garotismo, Thiago teria dado uma “surra” em Fred. Toda opinião merece, a priori, ser respeitada, mesmo a de quem é conhecido e reconhecido pela etiqueta de preço da sua. Mas encarar uma entrevista como “embate” é um equívoco infantil e evitável — ou deveria ser, para quem milita em jornalismo. Sobretudo quando os dois entrevistados, como foi o caso, não tiveram nenhum contato durante a entrevista, nem conhecimento prévio das respostas dadas pelo outro às mesmas perguntas.
À maioria que votou em Rafael Diniz (PPS) a prefeito, a tendência foi gostar mais das palavras de Fred. Já à minoria que votou no manutenção do garotismo, mesmo àqueles que o combateram no passado e mudaram a soldo presente, as palavras de Ferrugem devem ter soado mais atraentes. E, seja por simpatia gratuita ou em espécie, é natural que assim seja.
A quem tem um pouco mais de isenção, o que a entrevista revelou foi a aparente inversão dos atores em interpretações semelhantes de oposição e situação, após as urnas de outubro rearrumarem o palco da política goitacá. De fato, a impressão foi melhor definida numa resposta do próprio Ferrugem, ao dizer de outros o que poderia ser aplicado à fala de todos: “mudaram apenas os atores e mantiveram o roteiro”.
Assim, se os áulicos do garotismo pretendiam usar o trabalho alheio para justificar seu soldo, na defesa de quem agora tem que apresentá-la na Justiça, fizeram o que se pode denominar de “baldeação ideológica inadvertida”. O efeito foi colateral.
Em política, mídia e no simples lamber de botas, existem determinados “aliados” que valem por 10 opositores. Os áulicos a soldo do garotismo, não é de hoje, certamente são alguns deles.
Corre uma provocação bem humorada, segundo a qual, a Associação Nacional das Putas, com sede em Brasília, expediu um comunicado indignado, esclarecendo de forma peremptória, que os políticos que andam fazendo lambança por aí, não são seus filhos, embora assim sejam chamados. As incansáveis operadoras do sexo não aguentam mais serem acusadas de terem parido figuras tão execráveis e acrescentam: “quem pariu Mateus que o balance”.
Do humor ao horror. A sociedade brasileira revela-se perplexa com tantos escândalos protagonizados pelas elites dirigentes. Somente a delação dos executivos da Odebrecht, conhecida como “delação do fim do mundo”, arrasta mais de 200 medalhões para o banco dos réus, isso sem contabilizar as infindáveis operações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal.
Mas engana-se quem pensa que isto é novo. E ilude-se quem atribui comportamento social tão delinquente aos que vivem abaixo da linha do Equador, nas caricatas republiquetas de bananas, sob argumento da influência do clima. A corrupção é um traço da personalidade humana e viceja como ervas daninhas quando encontra ambientes favoráveis. O Poder é um campo estercado.
É cultural. E por mais constrangedor e incômodo que seja admitir, “eles somos nós”.
Por isso vamos ficar com o recorte do Brasil contemporâneo, visto que logo ali no século 19, o jurista e intelectual, Ruy Barbosa, já reclamava: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
De lá para cá, avançamos, desgraçadamente, para o refinamento da pilhagem pública, da rapinagem oficial. O tesouro nacional passou a bancar fortunas pessoais inimagináveis, tão grandes que não cabem no sistema financeiro nacional. São repartidas em paraísos fiscais. A bolsa da Viúva serviu de caixa para financiamento criminoso de campanhas político-partidárias. Todos sabem disso e uma observação mais acurada irá revelar que há os que condenam a tunga, mas há, e não são poucos, os que a “justificam” e queriam estar no lugar dos que levaram o botim.
O Brasil é cenário do maior caso de corrupção oficial do Planeta. É campeão! Isso não é fortuito. Há ambiente para o crime.
A sociedade, diante de realidade tão áspera, faz apressados julgamentos superficiais. A condenação moral dos envolvidos é rala porque, não há como negar: os políticos, todos, inclusive a ínfima parcela que se comporta dignamente, são gestados pela sociedade, que se escandaliza, nos telejornais da noite, quando vê seus filhos bastardos na caçapa do camburão, mas “leva sua vida em agonia e maltrata, por dinheiro”, o espaço coletivo, na vã ilusão que bandidos são só os que vemos na tela da TV.
Repito, é cultural. As gerações se sucedem e o múnus público se deteriora velozmente. Ninguém espere nada destes que estão aí. Gesto de grandeza e exaustão políticas como a de Getúlio, que pôs fim a própria vida por não suportar a desonra que lhe imputavam, é impensável para os protagonistas da caudalosa roubalheira. Guimarães Rosa dizia que só havia duas maneiras de se ficar rico: ou no garimpo ou no jogo. Agora, há a política que pari milionários, Rosa.
Os Poderes, sob os quais, nos curvamos em obrigações, são espelho que refletem nosso rosto, por mais que isso nos incomode. Melhor metáfora para a relação da sociedade com seus políticos é a obra clássica de Oscar Wilde, “O retrato de Dorian Gray”. Enquanto a personagem, seduzida pela perfídia, mantém-se íntegra fisicamente, nos salões elegantes do grand monde, seu retrato na parede exibe a corrosão ácida da corrupção. Se é que isso é conforto, pelo menos, ninguém escapa, impunemente.
A piada da Associação das putas precisa mesmo ser corrigida: eles não são filhos delas, são filhos da Pátria.
“Até o último homem” — “Infeliz a nação que precisa de heróis”. A conhecida sentença do alemão Bertolt Brecht (1898/1956), entre os mais influentes dramaturgos do séc. XX, é posta à prova pela história real do soldado estadunidense Desmond T. Doss (1919/2006), que serviu como paramédico na Batalha de Okinawa, entre abril e junho de 1945, já no estertores da II Guerra Mundial — a Alemanha Nazista se renderia em maio de 45, enquanto o Japão o faria em agosto do mesmo ano, após as bombas atômicas lançadas pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki.
Se o heroísmo em qualquer conflito bélico costuma ser atribuído aos maiores guerreiros, o que surpreende na história de Desmond Doss é que ele evidenciou o seu como pacifista, mesmo no campo de batalha mais sangrento da Guerra do Pacífico, iniciada em 1937 — dois anos antes da eclosão da II Guerra na Europa. E novamente em contraponto a Brecht, que era marxista e ateu, a religião foi o motivo pelo qual Doss se recusou a pegar em armas para se tornar protagonista num teatro de guerra dantesco.
Adventista do Sétimo Dia, ele tinha como mandamento mais caro o “Não matarás” (Êxodo 20:13). E antes de enfrentar os japoneses, famosos por seu destemor diante da morte e — por não signatários da Convenção de Genebra — pela crueldade para com os inimigos, o soldado teve o batismo de fogo das suas convicções pessoais contra o próprio Exército dos EUA, no qual se alistou como voluntário.
Levado às telas sob a direção de Mel Gibson, “Até o último homem” divide em três partes a história de Doss, numa interpretação candidata ao Oscar de Andrew Garfield, ator mais conhecido pelas duas sequências de “O espetacular Homem-Aranha” (2012 e 2014, de Marc Weeb). Após a abertura do filme no inferno de Okinawa, a primeira parte das suas 2h19 de duração se atém à formação do futuro herói de guerra numa cidadezinha no interior da Virgínia — primeira região dos EUA a ser colonizada pelos britânicos, no início do séc. XVII, e batizada em homenagem à rainha Elizabeth I (1533/1603), chamada de “Rainha Virgem” por nunca ter se casado.
Desmond é marcado pelo alcoolismo do pai, Tom Doss, em original composição de Hugo Weaving, mais conhecido como o Sr. Smith da trilogia “Matrix” (1999 e 2003), das transgênero irmãs Washowski. Veterano da I Guerra Mundial (1914/18), ele se culpa por ter sobrevivido aos ex-companheiros de juventude que costuma visitar embriagado no cemitério da cidade. Para se exorcizar dos fantasmas do pai, o filho busca abrigo na devoção religiosa da mãe (Rachel Griffiths), abusada física e psicologicamente pelo marido.
Introvertido, Desmond descobre o amor pela mulher e ao próximo ao socorrer um acidentado, que leva ao hospital onde conhece a enfermeira Dorothy Schutter (a bela Tereza Palmer). Mas no meio da relação e do aprendizado autodidata de medicina, a partir dos livros emprestados pela namorada, os japoneses atacam Pearl Habor, base naval dos EUA no Havaí, em dezembro de 1941, lançando o país na II Guerra.
Para cumprir o que entende ser seu dever, Doss é voluntário ao treinamento militar, com a mesma convicção de quem pretende cumpri-lo sem tocar em nenhuma arma. No conflito inevitável (e violento) entre os dogmas religiosos e militares, se dá a segunda parte do filme, que alguns críticos têm comparado com a obra prima “Nascido para matar” (1987), do mestre Stanley Kubrick (1928/99) — muito embora também encontre analogia com outros excelentes títulos menos conhecidos, como “Metido em encrencas” (1988), de Mike Nichols (1931/2014), e “Tigerland” (2000), de Joel Schumacher.
Mas é na terceira parte do filme, em meio à Batalha de Okinawa, na tentativa de tomada da colina de Hacksaw (a “Hacksaw Ridge” do título original), que não só o protagonista, como seu diretor, mostram a que vieram. Correspondentes à realidade, as cenas de violência explícita não ficam a dever à célebre sequência inicial de “O resgate do soldado Ryan” (1998), de Steven Spielberg, retratando o encarniçado desembarque do Dia D na praia francesa de Omaha. Tampouco às cenas mais fortes de “Além da linha vermelha” (também de 98), de Terrence Malick, sobre a Batalha de Guadalcanal, outra intestina peleja da Guerra do Pacífico, naquele que considero o maior filme de guerra — e sobre a relação do homem com Deus — já feito.
Astro dos filmes de ação entre os anos 70 e 90 do século passado, como nas franquias “Mad Max” (1979, 81 e 85, de George Miller) e “Máquina mortífera” (87, 89, 93 e 98, de Richard Donner), Mel Gibson teve uma estreia despretensiosa na direção, com “O homem sem rosto” (93), antes de revelar o “nu frontal” da violência física no cinema, em cenas de batalha medieval, como ninguém antes ousara fazer. Foi em “Coração valente” (95), também estrelado por ele, com o qual arrebatou os Oscar de melhor filme e diretor.
A partir do polêmico “Paixão de Cristo” (2004), seu trabalho seguinte atrás das câmeras, Gibson uniu a mesma violência gráfica à devoção de católico fervoroso. E sofreu acusações de antissemitismo, pelo destaque do filme à escolha dos judeus por Barrabás ao perdão romano, sentimento que o diretor depois externaria em ofensas verbais contra policiais, em 2006, ao ser preso por dirigir embriagado. Pecado mortal no mundo do politicamente correto, sobretudo numa aldeia judaica como Hollywood.
Depois de outro mergulho na violência ao retratar o ocaso da sofisticada — e sanguinolenta — Civilização Maia, na direção do interessante “Apocalypto” (2006), a boa acolhida de público e crítica de “Até o último homem”, além das suas seis indicações ao Oscar, incluindo melhor filme e diretor, têm sido consideradas uma espécie de redenção de Mel Gibson no mundo do cinema. Se tem seus momentos piegas, ninguém pode negar que o filme é feito com grande competência técnica, em sua busca por um caráter documental reforçado nos depoimentos dos personagens reais, incluindo o próprio Doss, antes dos créditos finais.
Independente da questão religiosa, a história real do primeiro objetor de consciência — quem se nega a matar por princípio moral — que recebeu a Medalha de Honra do Congresso dos EUA, maior condecoração militar daquele país belicoso, por ter socorrido e descido por uma montanha 75 feridos, incluindo japoneses, dolosamente sozinho e desarmado atrás das linhas inimigas, é realmente impressionante. E no equilíbrio aparentemente contraditório do personagem, o diretor parece também ter encontrado o seu entre violência e fé.
Se fosse ficção, ninguém acreditaria. Mas não foi. Da arte à vida que, vez em quando, a supera, Brecht estava errado. Há heróis que transcendem o palco das nações.
Até bem pouco tempo, o discurso do líder governista Fred Machado (PPS) era bem parecido com o hoje ecoado pelo líder do PR na Câmara de Campos, Thiago Ferrugem. E vice-versa. Mantida boa parte das análises presentes de ambos entre oposição e governo, Executivo e Legislativo, elas se diferem do passado recente basicamente pela troca de lados e nomes: do prefeito Rafael Diniz (PPS) pelo do ex-governador Anthony Garotinho — na sexta (17) ameaçado pelo PR de expulsão, antes que esta entrevista fosse feita. Para Fred, a maior dificuldade do governo “será o imediatismo de certas pessoas que acham que todos os problemas herdados serão resolvidos num passe de mágica”. Já para Ferrugem, a missão “é garantir a continuidade das conquistas do governo da (ex-)prefeita Rosinha Garotinho”.
Fred Machado e Thiago Ferrugem (Montagem: Eliabe de Souza, o Cásssio Jr.)
Folha da Manhã – Hoje, em Campos, é mais fácil ser governo ou oposição? Por quê?
Fred Machado – Acho que tudo que acreditamos é mais fácil. Acredito piamente no governo do prefeito Rafael Diniz (PPS). Sei das dificuldades iniciais que passaremos, tendo em vista o caos deixado pelo desgoverno anterior, mas também sei que com coragem, trabalho e criatividade iremos reconstruir a nossa cidade.
Thiago Ferrugem – A Câmara hoje nos mostra que ser governo é mais fácil, haja vista o crescimento vertiginoso da bancada governista. Rafael elegeu em sua coligação apenas três vereadores e, hoje, já conta com uma bancada seis vezes maior. Porém, se o governo continuar com o comportamento atual de desorganização, falta de diálogo com diversos setores e no descumprimento de compromissos firmados durante a campanha eleitoral, este quadro deve mudar.
Folha – Qual considera ser sua maior missão como líder de bancada na Câmara Municipal? E qual deve ser seu principal obstáculo?
Ferrugem – Como líder do PR, nossa missão será duas. Uma é garantir a continuidade das conquistas do governo da prefeita Rosinha Garotinho (PR) como: passagem social, programas de transferência de renda, pagamento em dia do servidor público, crescimento acima da média nacional na pontuação do Ideb, convocação de novos concursados, entre tantos outros projetos. Outra missão importante, que se confunde como maior obstáculo, será trabalhar pela independência da Câmara, principalmente em seu papel de fiscalizar. O prefeito tem se mostrado como uma velha raposa política em suas negociações com o Legislativo, conquistando na câmara uma maioria invejável.
Fred – Ser líder do governo Rafael Diniz muito me orgulha e minha missão não será diferente da Legislatura anterior, ou seja, manter a independência e harmonia entre os poderes, respeitando e ouvindo todos vereadores, independente de serem situação ou oposição, como sempre prega nosso prefeito. Não vejo obstáculos se realmente quiserem primar pelo diálogo.
Folha – Nomeações de parentes de vereadores foram denunciadas como manobra para garantir a eleição do vereador Marcão (Rede) como presidente da Câmara. Concorda? Por quê?
Fred – Na política falam o que querem. Somos homens públicos sujeitos a todo tipo de comentários e temos que respeitá-los. Porém, não concordo com certas afirmações, partindo de pessoas que sempre viveram situações escusas, sendo sempre questionados judicialmente. Acho Marcão o mais bem preparado entre os vereadores para o exercício da presidência. E, assim como eu, a maioria dos vereadores também teve este entendimento. Fizemos uma eleição para a Mesa com toda formalidade regimental e lisura.
Ferrugem – Infelizmente essa prática ainda insiste no Brasil. Rafael tem sido apenas mais do mesmo. De diferente nem o discurso. Eu jamais me sentiria confortável em ter um parente trabalhando em um órgão cuja minha obrigação é fiscalizar. Acho que estas nomeações vão além da própria eleição do vereador Marcão para chefe do Legislativo. Mas com as redes sociais irrefreáveis, o eleitor tem feito seu julgamento.
Folha – Até que ponto a proibição da Justiça para Garotinho voltar a Campos facilitou o trabalho do novo governo e dificultou a vida da nova oposição?
Ferrugem – Tenho uma visão menos maniqueísta dos conceitos de oposição e situação. Não tenho dúvidas de que o Garotinho é um político singular. Políticos com o perfil como o dele, arrojado, faz com que o amor e o ódio estejam em seu entorno. Mas não o impedem de cumprir com o seu papel. Foi o Garotinho, com todo o seu arrojo e singularidade, que trouxe à tona as mazelas dos bastidores da política, não só local, mas nacional. Foi o Garotinho, por exemplo, que deu destaque as nomeações de parentes de edis pelo prefeito. Tanto foi assim, que as denúncias feitas por ele nas redes sociais ganharam as ruas e se tornaram pauta de infinitas conversas na famosa rua “do homem em pé”, no Centro da nossa cidade. Assim, com o fortalecimento das redes sociais, a presença física deixou de ser fundamental.
Fred – Esse senhor, que foi citado, não nos incomoda em nada. Ele nos incomodou deixando a cidade com mais de R$ 2,4 bilhões em dividas, notas atestadas sem empenhos, escolas e UBS sucateadas, obras inacabadas e não pagas, mais uma série de artimanhas para tentar travar nosso governo. Mas com uma gestão responsável iremos reverter esse quadro. Quanto à oposição a dificuldade é deles, e eles que podem responder. Falei durante a posse e na primeira sessão legislativa que ainda há tempo de abandonarem a canoa furada e vivermos um novo tempo.
Folha – Com o declínio de Garotinho, que tem colecionado erros e derrotas eleitorais sucessivos desde 2014, há espaço em Campos para uma nova oposição? Quem pode ser para Rafael, o que ele foi para Rosinha?
Fred – Acho cedo falarmos em oposição, precisamos deixar o governo trabalhar. Como sempre fala nosso prefeito: “precisamos voltar a entregar Campos dos Goitacazes ao seu devido dono, que é a população campista”. Temos que dar as mãos às pessoas do bem, que acreditam na mudança, inclusive, pessoas estão nos procurando para formarmos uma grande aliança em prol do município. Entre elas, pessoas que viveram do outro lado e hoje se dizem enganadas e dispostas a nos ajudar. O declínio e as derrotas eleitorais sucessivas, nada mais são do que a realidade vivida por essas pessoas.
Ferrugem – O Garotinho é um político inegavelmente vitorioso. Em uma análise holística vamos ver altos e baixos ao longo de sua trajetória. Ele já passou por outros momentos assim. Se pegarmos o período de 2004 a 2008, por exemplo, vemos isto. Assistimos também a sua volta por cima. Ele é uma fênix e não deve ser desprezado. A exemplo da oposição na Legislatura passada, eles atuaram dentro da Câmara em conjunto, mas em palanques eleitorais distintos. Tanto que dois deles foram candidatos a prefeito. Não sei se alguém ali vai cumprir este papel, mas, com toda certeza, eu não serei. Rafael se comportou de forma oportunista com objetivo de alcançar o poder puro e simplesmente pelo poder. Na Legislatura passada o governo anunciou que não teria o carnaval. O que fez ele? Criticou. Depois o governo conseguiu realizar o carnaval, ato contínuo, Rafael mudou opinião e passou a criticar a realização do Carnaval. Nós não nos comportaremos de forma irresponsável e incoerente. Atuaremos com senso de justiça e em defesa do povo de Campos.
Folha – Os desdobramentos da Justiça, em Campos, no Rio, em Brasília e em Curitiba, podem mudar o cenário da política fluminense e goitacá? Quais são suas expectativas?
Ferrugem – O que temos acompanhado no cenário, principalmente nacional, é o crescimento das forças políticas conservadoras, que é um fenômeno global e cíclico, mas que vem ganhando intensidade com esses desdobramentos, especialmente com as atuações das Operações Lava Jato e Calicute. Primeiramente esperamos que o Judiciário alcance o real sentido da justiça. E esperamos que a população assimile que cabe apenas a ela o papel de transformação, de mudança de cenário. Se assim não fizerem, mudarão apenas os atores e manterão o roteiro que aí está.
Fred – Acho que estes desdobramentos mudarão não só o cenário da política fluminense e goitacá, como também mudará o cenário político nacional. Minha expectativa é que a população brasileira não deixe que esse movimento esfrie e cobre sempre que os culpados sejam punidos. Nosso papel como legisladores municipais nos cobra um posicionamento no nível de município. E tenho certeza que faremos nossa parte diante de sociedade, abrindo CPIs que possam estar mostrando que Campos se envergonha de ter políticos envolvidos no esquema da Lava Jato, no qual foi citado o clã da família Garotinho.
Folha – O que esperar da nova Câmara e do novo governo municipal? Em seu entender, quais as principais dificuldades que uma e outro devem enfrentar em 2017?
Fred – Podem esperar muito trabalho, muita disposição, coragem e fé. Precisamos resgatar a confiança na classe política tão abalada com operações como a Chequinho, Lava Jato e outras. Acredito que nossa dificuldade será o imediatismo de certas pessoas que acham que todos os problemas herdados serão resolvidos em um passe de mágica. Precisamos de paciência da população para resolvermos os problemas financeiros e estruturais herdados. E nós, como legisladores, temos que buscar harmonia, parcerias e principalmente mostrar aos nossos eleitores que o caminho é árduo, mas a vitória e o sucesso estão próximos.
Ferrugem – Na Legislatura passada, Rafael Diniz chamou a Câmara de “puxadinho” da Prefeitura. E me parece que gostou deste termo e quer perpetuar assim. É certo que a interferência do Executivo atrapalhará, e em muito, o andamento dos trabalhos do Legislativo. Mas acredito que, ainda assim, teremos bons debates e propostas, justamente por termos uma pluralidade de parlamentares de ambos os lados, oposição e situação, com formações distintas e que poderão contribuir muito com nosso município. Em relação ao governo, é nítido que o prefeito se preparou para disputar as eleições, mas se esqueceu de se capacitar para governar. Ele abusou da retórica brincando com a esperança do povo, e agora não consegue corresponder, em nada, às expectativas. Mesmo assim, torço para que dê certo. Torço porque é aqui que eu moro e crio meu filho. Mas, sinceramente, do jeito que esse governo começou, confesso que como cidadão campista me deixa assustado esse final.
Nos últimos tempos, não foram raras as vezes em que o cenário político brasileiro adquiriu contornos surreais. Houve diversos momentos em que, surpreendida, desabafei com meus próprios botões: “Nunca poderia imaginar que iria testemunhar algo parecido”. Pertencente a uma geração que surfou em ondas de bonança e otimismo, devo confessar que venho amargando uma dolorosa decepção frente a expectativas geradas por um período relativamente estável da política brasileira que, analisado o “conjunto da obra”, revela-se como exceção e não como a regra da história das nossas instituições.
Na última semana, experimentei novamente esta perplexidade quando assisti alguns dos vídeos que registravam crimes ocorridos no Espírito Santo, quando deflagrou-se o movimento de familiares dos policiais militares que reivindicavam melhores condições de trabalho para esta categoria. Meu assombro tornou-se ainda maior quando alastrou-se pelos ares da nossa planície a ameaça de que a cidade viveria momentos semelhantes àqueles vivenciados pelos capixabas. Presenciar alguns conhecidos estocando mantimentos e construindo verdadeiras barricadas dentro de suas casas acabou por forçar um pouco mais as fronteiras do surreal e o óbvio pululante dos últimos tempos tornou-se ainda mais escancarado: meus amigos, as coisas vão mal, muito mal.
Pude observar muitas pessoas, de todos os espectros políticos, divididas a respeito de como deveriam se posicionar diante da mal disfarçada “greve” dos policiais. Afinal, dada a crítica situação financeira de muitos estados, qualquer movimento de trabalhadores que pleiteie o direito de exercer sua profissão de forma digna merece apoio e compreensão. Mas, por outro lado, quando se trata de uma categoria de trabalhadores que detém o monopólio do uso legítimo da força física e que é responsável por conter um estado de “anarquia” generalizada, como apoiar uma paralisação geral que pode colocar muitas vidas em risco?
As cenas exibidas pelos vídeos gravados nas cidades do ES criaram uma espécie de pânico coletivo que se espalhou através do Facebook e do WhatsApp. Mais de cem corpos foram contabilizados nesses últimos dias. Corpos que pertenciam, em sua grande maioria, a moradores das periferias. Grande parte deles, vítimas de acertos de conta entre facções rivais e grupos de extermínio paramilitares, segundo afirmaram os noticiários.
Além do vertiginoso aumento de homicídios, muitos foram os vídeos que registraram crimes contra a propriedade. Pessoas chegavam às lojas munidas de carros e motocicletas que pudessem abarcar o máximo possível de itens saqueados. Uma mulher arrastava pelas ruas um “cabide” repleto de calçados. Um casal se esforçava para carregar cuidadosamente um televisor retirado de uma loja de departamentos. Senhoras, “mães de família”, se acotovelavam em meio à multidão que se embolava disputando eletrodomésticos. Famílias inteiras se organizavam para pegar todos os alimentos que conseguissem transportar. Muitos dos que foram flagrados pelas câmeras cometendo esses delitos, são considerados pelos seus pares, tal como também consideram a si mesmos, cidadãos “comuns” e “de bem”.
O hipotético “estado de natureza” criado pelo teórico político Thomas Hobbes foi evocado como metáfora por/ alguns dos meus colegas de profissão nos agitados debates travados nas redes sociais. No “estado de natureza hobbesiano”, que precederia a criação do Estado tal como o conhecemos hoje, o que impera é a lei do mais forte. Sem a ameaça de um ente superior controlador e punitivo, os indivíduos agiriam livremente de acordo com seus interesses egoístas, tendo como único limite o poder dos outros indivíduos de coibir suas próprias ações. Outra metáfora trazida para o debate faz alusão ao enredo do filme estadunidense “The Purge” (no Brasil, “Uma Noite de Crime”), que conta a história de uma sociedade distópica na qual toda a sorte de crimes é permitida durante um dia do ano, como medida que objetivaria a diminuição dos índices de criminalidade ao longo do resto do ano.
No ES, a ausência da atuação das forças de segurança explicitou conflitos que jazem latentes em todo o Brasil e que se manifestam ora ou outra de maneira mais “explosiva”. É imprudente interpretar o fenômeno dos saques massivos através de uma perspectiva moralizante individual, como uma mera questão de classificar como “maus” aqueles que se lançaram sobre as lojas e como “bons” aqueles que permaneceram “obedientes” mesmo diante da cessão momentânea da ameaça de punição. Mais do que apontar falhas individuais de “caráter”, faz-se necessário perceber como os conflitos entre os interesses das distintas classes teve papel crucial na condução dos acontecimentos no ES.
O ímpeto de adquirir produtos e acumulá-los é uma marca da sociedade moderna. Creio que cabe trazer para a nossa realidade, salvaguardando as diferenças de ambos os contextos, uma frase proferida pelo sociólogo Zygmunt Bauman, em 2011, em uma ocasião na qual proliferavam-se saques a lojas de departamentos em Londres: Tais fenômenos “são uma combinação de desigualdade social e consumismo. Não estamos falando de uma revolta de gente miserável ou faminta ou de minorias étnicas e religiosas reprimidas. Foi um motim de consumidores excluídos e frustrados.
(…) Estamos falando de pessoas humilhadas por aquilo que, na opinião delas, é um desfile de riquezas às quais não têm acesso. Todos nós fomos coagidos e seduzidos para ver o consumo como uma receita para uma boa vida e a principal solução para os problemas. O problema é que a receita está além do alcance de boa parte da população. ”
Cidadãos trancados em casa devido ao medo, cidadãos saqueando lojas para adquirir produtos, cidadãos assaltando e matando impunemente e policiais-cidadãos buscando melhores condições de trabalho, são alguns dos atores desse jogo, unidos por um cenário que tem como pano de fundo a perda de direitos trabalhistas e o sucateamento dos serviços públicos oferecidos pelo Estado, de modo geral, num contexto de crise econômica seletiva, uma vez que a contenção de gastos não afeta todas as camadas da população da mesma maneira. Seria frutífera a percepção, por parte desses grupos, desses mecanismos econômicos e políticos que criam uma conjuntura de escassez que estimula paulatinamente a oposição de “todos contra todos”, acentuando os interesses corporativos e individuais e escamoteando as raízes comuns de um mesmo mal. http://oglobo.globo.com/mundo/foi-um-motim-de-consumidores-excluidos-diz-sociologo-zygmunt-bauman-2690805#ixzz4Y8gEMOU9
Depois da expulsão da deputada licenciada Clarissa Garotinho (RJ), o Partido da República agora está em pé de guerra com seu pai, o deputado Anthony Garotinho, presidente da legenda no Rio. Por ter usado as inserções da propaganda partidária gratuita, regionalizada, para promoção pessoal e ataque a adversários, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cassou as 80 inserções que o PR teria direito no primeiro semestre em todo país.
A primeira iniciativa do presidente nacional do PR, o ex-ministro Antônio Carlos Rodrigues, foi suspender a regionalização da propaganda partidária para o Rio, o que vai complicar a campanha de Garotinho na disputa pela renovação de seu mandato em 2018. Mas um processo de expulsão de Garotinho não está descartado.
O presidente Antônio Carlos Rodrigues disse que há uma revolta muito grande entre os dirigentes dos outros estados, que serão prejudicados esse ano por culpa de Garotinho. Seis dirigentes já procuraram o líder Aelton de Freitas (MG) para entrar no Conselho de Ética para abrir processo contra Garotinho.
— Como a Executiva Nacional deu autonomia para os 27 estados regionalizarem a propaganda partidária, a gente nunca esperava que o Garotinho fosse fazer isso. Ele não é uma pessoa inexperiente, e não foi por falta de alerta. Há uma revolta grande no PR contra ele, porque o mau uso da propaganda partidária no Rio queimou as 80 inserções que teríamos no primeiro semestre. Infelizmente não cabe recurso no TSE, porque há prova documental do mau uso das inserções pelo Garotinho — disse Antônio Carlos Rodrigues.
A internet é um território livre e as redes sociais são “búnqueres”, as trincheiras virtuais, é o lócus onde se pode eventualmente exercer a Cidadania.
As redes sociais ampliaram concretamente o espaço dos debates, o espaço do livre pensar e a Democracia – vamos combinar logo de cara – é o sistema político mais propício para que o indivíduo possa se declarar verdadeiramente um cidadão.
Nas redes sociais podemos observar muitas formas de expressão, nelas podemos enxergar a sociedade como ela é composta de vários vernizes ideológicos; esquerda, direita, centros – à esquerda ou direita – e também os seus extremos. Mas de uma coisa não podemos nunca o foco perder: o respeito às opiniões do outro.
Não precisamos concordar, sim respeitar. E o outro somos nós.
Nos reconhecemos enquanto indivíduo quando reconhecemos o outro e respeitamos o pensar diferente do nosso pensar. E isso é Cidadania.
Os tablets, os smartphones, os notebooks e computadores, todos conectados, formam as novas ágoras, o equivalente às antigas praças gregas (sim, foi na Grécia que surgiu a democracia). Nelas os cidadãos se reuniam e discutiam os destinos que a sociedade deveria seguir. E hoje, nos reunimos isolados em nossos quadrados, virtualmente. Debatemos e tentamos mudar o mundo sem nos tocar na segurança das nossas individualidades.
Mas a grande arma que podemos e devemos usar é o nosso senso crítico, é o pensar de forma analítica e crítica aliada ao respeito que temos a obrigação de ter, com o contraditório. Com o que pensa o outro.
Desde que voltei de férias, há pouco menos de duas semanas, ainda não recuperei o ritmo anterior de postagens. Confesso que problemas na alteração de provedor, configuração, operacional e layout, entre a antiga Folha Online e a nova Folha 1, inibiram a retomada de produção própria, problema que espero estar sanado até o início da semana que vem.
Mas à parte esse processo de mudanças técnicas internas, algumas radicais, muitas trabalhosas e todas enfadonhas, este “Opiniões” arranjou tempo para convidar mais quatro novos colaboradores. Em periodicidade mensal, eles se revezarão a partir de amanhã (17/02), toda sexta-feira.
Amanhã, quem puxará os novos reforços a campo será o designer e educador Sérgio Provisano. Nas sextas seguintes, estrearão, respectivamente, a cientista social e professora da Uenf Luciane Soares da Silva (24/02); o jornalista e ativista cultural Rogério Siqueira (03/03), e o advogado e professor Carlos Alexandre de Azevedo Campos (10/03).
Abaixo, em palavras próprias, um pouco da formação e do que cada um pretende trazer, sempre às sextas, a você, leitor do blog:
Sérgio Provisano — Liceísta e flamenguista de mil costados. Designer industrial e comunicador visual formado pela UFRJ. Pedagogo pós-graduado em Gestão Escolar pelo Isepam, é professor concursado da Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes, onde atua na Educação Infantil. Gosta de discutir e trocar ideias sobre vários assuntos. Entre eles, Artes, Música, Poesia, Literatura, Educação e assuntos do cotidiano em geral. Faz parte daquela geração que veio ao mundo para desafinar o coro dos contentes.
Luciane Silva — Gaúcha de Porto Alegre, alvinegra de coração, professora associada da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Darcy Ribeiro desde 2010. Formada em Ciências Sociais pela UFRGS. Doutora em sociologia pela UFRJ, com pesquisa “Funk para além da festa: um estudo sobre disputas simbólicas e práticas culturais na cidade do Rio de Janeiro”. Tem como principais interesses de pesquisa: racismo, pensamento social brasileiro e cultura urbana contemporânea. Atualmente coordena o Núcleo de Estudos da Exclusão e da Violência (NEEV). Pretende escrever sobre cultura urbana e juventude, com atenção especial à temática dos direitos humanos no Brasil.
Rogério Siqueira — Jornalista e ativista da cultura, tem passagem pelas redações da Band FM, site Ururau e Super Radio Tupi, de Rio Bonito. Na área política atuou com assessor de imprensa e legislativo na Câmara Federal e na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ajudou a coordenar a Comissão Especial para acompanhamento dos impactos e do legado dos mega eventos esportivos: V Jogos Mundiais Militares 2011 do CISM, Copa das Confederações Fifa – 2013, Copa do Mundo Fifa -2014 e Jogos Olímpicos e Para Olímpicos de 2016. É membro fundador do coletivo cultural Domingo Livre, que reúne artistas de várias vertentes na da cena independente. Músico amador, nas horas vagas compõe para fugir do estresse. Poeta de bar. Na playlist nunca falta samba, forró pé-de-serra, jazz, afrobeat, RAP, salsa, pagode e flamenco, com destaque para as bulerías. Preferiu estudar espanhol ao inglês, por se identificar mais com a América Latina. Atualmente exerce a função de diretor-executivo da Superintendência de Igualdade Racial. No blog pretende falar de política, música, cinema, além de compartilhar sua própria produção de crônicas e contos.
Carlos Alexandre de Azevedo Campos — Mestre e doutor em Direito Público pela UERJ, é professor-adjunto de Direito Financeiro e Tributário da UERJ (Graduação, Mestrado e Doutorado), professor de Direito Tributário e Constitucional na UCAM e na FDC, membro da ADBF e da IFA e ex- assessor de Ministro do STF. É autor dos seguintes livros: Dimensões do Ativismo Judicial do STF (Forense, 2014), Estado Fiscal e Tributação (coordenador – Editora GZ, 2015), Estado de Coisas Inconstitucional (Juspodivm, 2016), Escritos de Direito Constitucional e Tributário (Editora Gramma, 2016). Vou escrever no blog sobre os hard cases jurídicos no STF, os casos cruciais, a judicialização da política, o ativismo judicial e as mais relevantes questões do Direito Financeiro e Tributário no Brasil, no Estado do Rio e em Campos.