Carol Poesia — O que é um livro?

Carol 18-10-16 (1)

 

 

 

No dia 15 de outubro, dia do professor, Amadeus recebeu por e-mail o requerimento de uma aluna:

 

“Solicito, mais uma vez, a troca do livro que tenho que ler para o programa de leitura, por motivos religiosos. Alexandra.”

 

O programa de leitura, ao qual a aluna se refere, era um artifício de incentivo à leitura, criado pela instituição em que trabalhava. Todo semestre alguns títulos eram pré-selecionados pelos professores e os alunos votavam naquele em que gostariam de ler.

Não era a primeira vez que Amadeus recebia aquele tipo de requerimento. Certa vez, foi eleito o livro Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva, livro premiadíssimo no Brasil e sugerido pelo MEC para alunos do Ensino Básico. Pois bem. O livro foi adotado para alunos do Ensino Médio, e, mesmo assim, Amadeus foi ameaçado de processo pela mãe de uma aluna que não “se conformava” com as “passagens de sexo”. Ora, o protagonista do livro é um jovem de vinte e um anos que fica paraplégico, é claro que, em meio a suas reflexões e memórias ele iria ponderar a questão sexual.

Esses embates lembram a Amadeus que o óbvio nunca pode ser dispensado.

Reunião de pais, esclarecimentos, debates… Se os reclamantes se propusessem a ler de verdade, veriam que a pertinência do romance vai além dessas passagens, trata da resiliência e de outros aprendizados importantes. Além disso, se se propusessem a um encontro estético honesto com a obra, veriam que o lirismo com o qual o autor consegue tecer uma história tão trágica, que vem a ser, inclusive, a sua história, faz valer a pena cada linha do livro, inclusive os parágrafos que narram seus namoros.

Mas não. A sociedade, de uma forma geral, é tão “afetada” com sexo, e tão “protegida” contra o prazer que até mesmo uma única palavra no título é capaz de gerar uma recusa preconceituosa e bloquear a leitura. Inclusive no Ensino Superior! Foi assim com O julgamento de LÚCIFER (Adriano Moura), livro que trata das barbáries da humanidade. Foi assim com Memória de minhas PUTAS tristes (Gabriel García Márquez), autor vencedor do Prêmio Nobel de Literatura.

Fadigado, Amadeus deixa de lado o cansaço, e, mais uma vez, acredita na educação:

 

“Prezada Alexandra,

Boa tarde!

Venho, por meio deste e-mail, fornecer-lhe alguns esclarecimentos a respeito do seu  requerimento.

O livro escolhido pelos alunos, para esse semestre, Memórias de minhas putas tristes, é uma obra de ficção. O que isso significa? Significa que, como qualquer obra de ficção, ele não tem a obrigação de se submeter ao que o senso comum nomeia como “verdade absoluta”, nem tampouco a verdades individuais. Trata-se de uma obra de arte, tal como uma novela, um filme, uma música, uma peça de teatro, ou seja, não carrega em si a obrigatoriedade de uma intenção moralizante, embora possa trazer muitos aprendizados à humanidade.

Temos que ter a clareza, Alexandra, da intenção de uma obra de arte. Qual seja: a arte existe para ‘desautomatizar’ o indivíduo, para promover um encontro estético, para suscitar questões e discussões de diversas ordens. Não existe arte sem problematização, o que não quer dizer que o leitor tenha que concordar com o ponto de vista do narrador ou do eu-lírico, que pode, por sua vez, nem vir a ser o ponto de vista do autor em si.

O que isso quer dizer? Quer dizer que no Brasil, país de NÃO leitores, é comum a equivocada equivalência feita entre ‘falar sobre’ e ‘concordar com algo’. Falar sobre um assunto, problematizar um tema NÃO significa concordar ou discordar de algum posicionamento! Ou, num vocabulário mais místico, NÃO significa compactuar com alguma ideologia. Se você for leitora do livro, entenderá isso na prática.

Como eu já li a obra várias vezes, entendo seu valor literário e sua pertinência temática, que serão bem explorados durantes os debates. Se você se dispuser a lê-lo, entenderá a sua importância e beleza. Não por acaso, Gabriel García Márquez ganhou o maior prêmio de literatura mundial — o prêmio Nobel, reservado aos autores mais importantes do mundo.

Não posso garantir que você vá gostar do livro, mas posso garantir, como leitor, escritor, professor e mestre em Teoria da Literatura, que essa obra fará diferença na sua bagagem literária e cultural. E a minha responsabilidade, como seu professor, é garantir a leitura de livros que acrescentem ao seu intelecto, afinal o intelecto é substância a ser trabalhada pelo meio acadêmico. Outras substâncias, como a espiritualidade, não obstante sua importância social e humana, fica a encargo das instituições religiosas, não sendo, portanto, uma premissa para o nosso trabalho.

Vale a pena acrescentar, a título de esclarecimento, que as universidades NÃO se opõem às instituições religiosas, trata-se apenas de campos do saber distintos. Campos esses, de que nós podemos usufruir livremente, uma vez que temos sabedoria para distinguí-los.

Nesse sentido, deferir sua solicitação seria permitir que um aluno ignorasse os benefícios intelectuais de uma obra tão criteriosamente seleciona, tão analisada pelos estudos literários e mundialmente reconhecida pelo seu valor, e perpetuasse assim um olhar equivocado, fruto de um preconceito que, ao que tudo indica, nem é religioso em si, mas decorre, possivelmente, da falta de esclarecimentos básicos no que diz respeito ao estudo de linguagens, muito comum à realidade educacional brasileira.

Agradeço, sinceramente, a possibilidade dessa discussão, que muito me interessa. Será um prazer imenso tê-la nos debates sobre o livro, para que você possa fazer suas colocações e, inclusive, contestar-me.

Não é uma preocupação para mim que você ou qualquer outro aluno, colega, leitor, concorde com o MEU ponto de vista. A minha obrigação, como professor, é que você ou qualquer outro aluno tenha conteúdo e capacidade para tecer uma boa argumentação a favor do SEU ponto de vista. E capacidade para argumentar a gente só consegue lendo, caso contrário, nossos debates ficariam reduzidos a “achismos”, o que não condiz com a qualidade pretendida pela instituição e por mim.

Atenciosamente,

Professor Amadeus”

 

 

Alexandra rapidamente respondeu ao e-mail de Amadeus:

 

“Ok. Mas eu gostaria de saber se minha solicitação para troca de livro será deferida, porque senão eu não vou fazer a prova.

Alexandra”

 

 

Amadeus, professor:

 

“Prezada Alexandra,

Entendo o exercício de sua liberdade.

Infelizmente não será possível a troca; além de tudo que o que já lhe expliquei, ela abriria precedentes e fragilizaria o processo democrático através do qual o título foi coletivamente eleito.

Atenciosamente e sempre à disposição,

Professor Amadeus”

 

 

Após a resposta de Amadeus, Alexandra procurou uma instância superior. E Amadeus se perguntou, como tantas vezes já havia feito, como tantos professores devem fazer todos os dias, se não seria mais simples deferir a bendita solicitação. Para ele seria, sim, mais simples, mais cômodo, menos cansativo, menos polêmico, mas não seria honesto. Alexandra podia ter desistido de aprender, por um equívoco conceitual bobo que ela associou a questões religiosas. Mas Amadeus não se sentia no direito de deixar de ensinar. E sabia que toda vez que ensinava, aprendia.

Respirou fundo, tomou um café quente e ligou a TV:

 

Notícia 1: “classe artística reage ao fechamento do ministério da cultura”.

Notícia 2: “dentre as propostas do movimento Escola sem Partido está a punição para professores que derem  opinião em sala de aula”.

Notícia 3: “de acordo com a nova proposta, as disciplinas de artes, sociologia, filosofia e educação física deixam de ser obrigatórias nas escolas”.

 

Respirou fundo, tomou mais um café, fez as contas de quantos anos faltam para a sua aposentadoria e foi dar aula.

 

 

[Dedico esse texto aos meus colegas professores, sobretudo aos meus pais — professores incansáveis —, e aos amigos que com sua postura contribuem decisivamente para a minha formação — Analice Martins, Adriano Moura, Douglas Lemos, Wendel Sampaio, Alcimere Maria e Lúcia Bastos.]

 

0

Fabio Bottrel — Quando te conheci, Atafona

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Gregory Alan Isakov – ThatSea, theGambler

 

 

 

 

Atafona, 19/12/15 (Foto de Diomarcelo Pessanha)
Atafona, 19/12/15 (Foto de Diomarcelo Pessanha)

 

 

Sobre o dia em que conheci Atafona, em um sarau na casa de Aluysio Abreu Barbosa, entre os maiores poetas dessa terra.

 

“No meio da poesia, desnudei-te, Atafona, logo no primeiro dia.

Entre seus amantes descobri suas glórias e suas mazelas, teus sorrisos e tuas lágrimas.

 

— Escute com atenção, meu rapaz, quem bebe da minha água jamais se esquecerá.

Preste bem atenção, meu rapaz, quem pisa na minha areia não se calará.

Viu, rapaz, o silêncio para escutar Rudá?

 

Quando a bebida acaba, o corpo perdido na sala.

Quando a guerra acaba, o soldado perdido no campo de batalha.

 

— Perceba, meu jovem, na minha areia só deita os feitos de poesia.

Veja o que a vida te reserva nos sorrisos de peitos nus.

Aprume, rapaz, o silêncio já vem de novo…”

 

0

Paula Vigneron — Espelho

Atafona, 31/07/14 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, 31/07/14 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

O sol atingia indiscriminadamente as bancas do mercado. Frutas, legumes e verduras, espalhados por balcões, pareciam frescos. “Foi tudo colhido ontem e hoje, dona moça. Pode ficar despreocupada”, informou o feirante ao perceber os olhares de Paula. A mulher sorriu em agradecimento e selecionou o que precisaria.

Sábado era dia de cozinhar para Jorge. O marido gostava de saladas criativas, segundo suas próprias palavras. E ela se sentia disposta para satisfazer os desejos do homem. Moravam juntos há 15 anos. Optaram pela não assinatura de papéis e festas para iniciar a nova fase. As comemorações foram a dois, com viagens, jantares e presentes. Viviam em um apartamento próximo ao rio que cortava a cidade. Ali, eram felizes.

Ambos atuavam no ramo da hotelaria, mas estavam de férias. Este era o primeiro dia de descanso. Paula se dedicava a fazer as vontades do homem. Cuidava dos detalhes para que os dias corressem conforme os planos dele. Sentia ser essa a sua missão de esposa. E gostava de assumir o papel com dedicação e carinho. A mãe costumava lhe dizer que, sim, ela poderia trabalhar fora de casa, mas sua verdadeira função era ser mulher.

Após selecionar os produtos que queria comprar, foi ao caixa e pagou a mercadoria. O final da manhã correra exatamente como planejado. No caminho para casa, sorria e cumprimentava os vizinhos. Todos a olhavam com expressões respeitosas e comovidas. A mulher não entendia o porquê. Abriu o portão e foi recebida por Nina, a cadela adotada há 10 anos. Mesmo cansada, sempre ia para a escada acompanhar os donos.

Acariciou a cabeça de Nina e entrou. O cheiro de limpeza indicava que Flávia havia chegado. Ela trabalhava na casa do casal desde os primeiros meses. Era uma grande amiga com quem Paula dividia segredos e histórias. Cuidadosa, passava a maior parte do dia com o casal.

“Oi, Paula.”

“Oi, Flávia. Como estão as coisas?”

“Tudo ótimo. E você? Precisa de ajuda por aí?”

“Não. Está tudo certo. Vamos cozinhar juntas?”

“Claro. Quero companhia para conversar. Vou fazer a salada que Jorge gosta. O que acha? Ele vai ficar feliz”, disse, sorrindo, enquanto se dirigia à cozinha. Flávia seguiu-a, observando seus passos. Às vezes, pensava em qual poderia ser a melhor saída.

No cômodo, a mulher já organizava o material que usaria. Por não terem feito festas e tradicionais chás para a montagem da casa, o casal comprou tudo. Poucos amigos colaboraram. Apesar do tempo, quase todos os objetos estavam bem conservados. Os dois eram caprichosos e se orgulhavam disso.

“Quando estivermos velhinhos e nada mais nos servir, vamos guardar todas as lembranças. Cada uma delas é parte de nossa história”, disse Jorge, em uma noite de jantar. E sorriu. O marido tinha um jeito peculiar de sorrir. Malandro e terno. Ela ainda se encantava com esse traço.

“O que acha de fazer aquele molho adocicado, Flávia? Ele adora!”

“Ele adora, eu sei. Adora tudo que vem de você. Mas e você, Paula?”

A mulher retornou aos afazeres, cortando os ingredientes. Acendeu o fogo e levou as panelas. Sentia-se plena. Cada detalhe exigia atenção máxima para não desandar. Embora Jorge não cobrasse, ela tentava ser impecável no que fazia para o marido. Esticou a mão e alcançou o rádio, que ecoava canções brasileiras. Suas preferidas.

As duas dividiam as tarefas. O almoço estava quase pronto quando Paula foi arrumar a mesa. Três pratos, três garfos e facas e três copos. Ajeitou papéis, canetas e contas espalhadas pelo vidro. Colocou a toalha e distribuiu os objetos. Sorria. A foto dos dois estava a poucos metros dela. Andou, segurou o retrato. A emoção que ainda sentia por ter o marido era incomum. Parecia uma adolescente apaixonada. Olhou-se no espelho, que estava posicionado próximo à mesa. Nem as rugas faziam diferença na expressão de menina que conservava ao se lembrar de Jorge.

A amiga trouxe a salada e o molho. Paula ajudou-a, reorganizando o espaço.

“Ficou ótimo. Bonito e atraente. O que achou, Jorge?”

Flávia olhou para a mulher, que sorria.

“Que bom que gostou, querido. Sente-se ao meu lado. Não. Você está ótimo. Verifique no espelho. Ficarei aqui, em direção a ele.”

E se posicionou na cadeira ao lado da de Jorge. Os três comeram enquanto Paula comentava sobre o dia. Acordara mais cedo do que o previsto para ir à feira. Flávia ouvia as palavras, mas não erguia a cabeça. Sua voz também não era ouvida.

“Então, nosso almoço está aprovado, meu amor? Isso me deixa satisfeita. E que seja apenas um feliz começo das nossas esperadas férias.”

Inclinou-se para beijar o marido. O espelho refletiu a imagem de Paula.

 

0

Ocinei Trindade — Campos não pode parar, mas Rosinha e Garotinho…

(Foto: Gerson Gomes - site Campos 24 horas)
(Foto: Gerson Gomes – site Campos 24 horas)

 

 

Não tem jeito. Nas próximas semanas, talvez meses, ou até nos próximos dois anos, a derrota de Anthony Garotinho nas eleições municipais em Campos dos Goytacazes estará em rodas de conversas, postagens nas redes sociais, nas análises políticas dos especialistas e acadêmicos. Enfim, prato cheio para quem é defensor ou opositor ao ex-governador. Creio que os políticos, sobretudo os piores deles, são contantes fontes de inspiração para jornalista, cronista, roteirista, humorista e queixosos em geral. Quase sempre adoramos criticar políticos. Nisto, Garotinho é “muso”. Onde ele errou, afinal? Especulações não faltam. Do boteco às universidades, dos terreiros de umbanda aos templos evangélicos, da Pelinca ao Custodópolis, todos têm algum palpite.

Na véspera da eleição, assisti a um vídeo de um dos integrantes do governo municipal no Facebook, onde o homem se dirigia aos cristãos evangélicos e católicos para que, naquele domingo de votação, as pessoas de bem não votassem no candidato do PPS, não votassem no número 23, pois este partido político era defensor do aborto e da homossexualidade, coisas que a família cristã não concorda e não aprova, seguindo os preceitos bíblicos. O pedido me causou surpresa e espanto, confesso, pelo conteúdo do discurso e pelo assessor governista estar dentro da sala da casa da família Garotinho, ambiente conhecido e utilizado pelo próprio secretário de governo em postagens na rede. Não resisti e acabei comentando na referida postagem o seguinte argumento:

“O pedido não deveria ser para votar no Dr.Chicão em vez de pedir para não votar em outro candidato (que aliás são seis)? Os gays e mulheres que abortam não devem votar no Dr. Chicão, é isso? O direito ao aborto garantido por lei em casos específicos é bem anterior à existência do PPS, e a união civil homoafetiva é garantida por lei, e já foi reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal. Que força tem o PPS nessa decisão? O Brasil sendo um país laico deve envolver igreja em assuntos políticos e eleitorais? E as outras crenças e os não cristãos devem votar em qual candidato? Quem não é cristão ou ateu não deve votar em Dr.Chicão? Sinceramente, são muitas questões que não cabem em urnas eletrônicas. Estou a meditar em ‘Ezequiel 7’, seria oportuno refletirmos todos o nosso papel na sociedade. Boa eleição a todos. Vale lembrar que Deus não vota em ninguém, mas elege benfeitores”.

Não me responderam até hoje. Frustrante. Aliás, a derrota nas urnas também frustrou 81 mil pessoas que votaram em Chicão Oliveira, apoiado por Rosinha e Garotinho, cujo slogan de campanha foi “Campos não pode parar”.  Só que Campos parou. A cidade parou para comemorar a vitória de Rafael Diniz.  Dos 359 mil eleitores, 292 mil compareceram às urnas. Destes, 151 mil  elegeram Diniz com quase 55% de preferência na disputa. Chicão recebeu 29% dos votos válidos; Caio Vianna, 11%; Nildo, quase 2%; e Pudim e Rogério, menos de 1% dos votos cada um. Campos parou para pensar e a maioria decidiu que o clã Garotinho se retirasse do poder. Dizem que será para sempre seu banimento local, mas o cantor Oswaldo Montenegro, em sua linda canção´”Sempre não é todo dia”, é mais cauteloso. Um dos versos diz: “Eu hoje acordei tão só, mais só do que eu merecia, eu acho que será pra sempre, mas pra sempre não é todo dia”. Não sei se Garotinho canta e concorda.

Costumo brincar com os números das cartas do tarô em meus textos quando me refiro aos candidatos nas eleições brasileiras. A carta 22, número do PR, partido de Garotinho e Rosinha, é a carta do Louco. Cá entre nós, tremenda loucura escolher Dr.Chicão para ser prefeito de Campos, não? Quem em sã consciência pode acreditar que ele governaria e teria autonomia no cargo? Talvez, 81 mil pessoas com alguns problemas de cognição, interpretação de textos e fatos, além de interesses pessoais que ficaram ameaçados, pois cargos e benefícios tendem a ser extintos pela nova gestão que prometeu auditoria e cobrança de prestação de contas do governo nos últimos oito anos. A carta 23, número do PPS, partido de Rafael Diniz, é a carta do Lavrador.  Em resumo, na terra de tradições agrícolas e canavieiras, o Lavrador derrotou o Louco.

E é assim mesmo, jogo é jogo. Outras disputas virão. Creio que o eleitor está mais maduro e consciente, inclusive, para punir nas urnas candidatos que se comportam mal. Pena que a gente ainda não aprendeu a votar direito para vereador. Mas está em tempo, espero, pois a Câmara de Vereadores de Campos precisa de novos e bons políticos também. Na véspera do Dia das Crianças, Garotinho não foi um bom menino, e este ano e no ano que vem, vai ficar sem presente. Aguardemos por 2018, o ano que o Brasil espera por uma redenção para livrar-se de crises, inflação, desemprego, desesperança, de Luiz Fernando Pezão e de Michel Temer, entre outros. Adivinha o que Garotinho vai querer ganhar em 2018?

Até lá, alguns acreditam, a Operação Lava-Jato poderá redesenhar o perfil dos políticos brasileiros, punindo e prendendo os que roubam e enganam a população. As listas de empreiteiras campistas e nacionais como a Odebrecht, por exemplo, estão aí para auxiliar nas investigações de policiais, juízes e promotores honestos. Como livrar-se de Garotinho nos próximos anos ou para sempre? O candidato a prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, também quer saber. Semana passada, o blogueiro Lauro Jardim do jornal O Globo, revelou a impaciência de Crivella que não atendeu aos telefonemas insistentes de Garotinho, e desabafou para quem estava perto: “Não sei como me livrar dele”. Bem, quanto a isto, a população de Campos já sabe como fazer.

 

0

Pausa no “Opiniões”

pausa

 

 

Por motivos de ordem pessoal e após muito trabalho, na cobertura das eleições municipais deste ano da Graça de 2016, este “Opiniões” vai ficar as duas próximas semanas sem atualizações, a não ser dos seus colaboradores às terças, quintas e sábados.

Se Deus quiser, leitor, nos reencontramos no próximo dia 24. Inté!!!…

 

0

Após nocaute das urnas de Campos, onde está Michael Spinks?

 

Onde está Michael Spinks?

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Tyson vs Spinks 1Era 27 de junho de 1988, poucos meses antes do garotismo chegar ao poder em Campos pela primeira vez. Foi quando um jovem de então, com apenas 28 anos, derrotou nas urnas a velha liderança do ex-prefeito Zezé Barbosa (1930/2011). Já em Atlantic City, alguém ainda mais jovem deveria enfrentar seu grande teste.

“Iron” Mike Tyson já tinha impressionado o mundo, ao ser o campeão de boxe peso pesado mais jovem da história. Tinha apenas 20 anos, quando derrotou o campeão Trevor Berbick (1954/2006) em 22 de novembro de 1986, em Las Vegas. A agressividade do estilo de Tyson fez com que o Berbick tivesse quatro quedas consecutivas no mesmo nocaute final, caindo e tentando se levantar para cair de novo, bêbado pela potência destruidora de uma força da natureza.

Conquistado o cinturão do Conselho Mundial de Boxe, Tyson trabalharia no ano seguinte para unificar o título da categoria mais importante do boxe profissional. Em 7 de março de 1987, contra James “Quebra Ossos” Smith, e em 1º de agosto do mesmo ano, contra Tony Tucker, o jovem campeão se tornou dono também dos cinturões da Associação Mundial de Boxe e da Federação Internacional de Boxe.

Mas, nos dois combates, o “baixinho” Tyson (1,78m) teve sua temida fúria em parte contida pela envergadura maior dos oponentes. Ganhou de Smith (1,93m) e Tucker (1,96m) por pontos, na decisão dos jurados, não com os nocautes brutais pelos quais se notabilizara.

Não por outro motivo, com apenas 21 anos, Tyson começou a ser questionado por parte do público e da mídia especializada. Ambos iniciaram uma campanha para lembrar ao jovem fenômeno que ainda havia outro campeão na categoria, igualmente invicto: Michael “Jinx” Spinks.

Campeão olímpico em Montreal-1976, na verdade Michael Spinks não só nunca havia perdido uma luta em sua carreira profissional, como sequer tinha sofrido uma queda, até seus 31 anos. Pugilista técnico, veio da categoria dos meio pesados. Era considerado o irmão “ajuizado” do errático Leon Spinks, que por sua vez ganhara e perdera o cinturão dos pesos pesados em 1978, em dois combates decididos por pontos, contra o legendário campeão Muhammad Ali (1942/2016), maior lutador de todos os tempos.

Por conta do seu respeitável cartel de 31 lutas, 31 vitórias e 21 nocautes, Michael Spinks se tornou um mantra na boca dos detratores de Mike Tyson. Até entrar no ringue naquela noite de junho de 1988, para defender seu cinturão, Tyson teve que ouvir durante todo o ano anterior a advertência, transformada em campanha para provocá-lo: “Mas tem o Michael Spinks! Mas tem o Michael Spinks!”.

No Trump Plaza Cassino, com a presença do proprietário Donald Trump, hoje candidato republicano a presidente dos EUA, espécie de “Bolsonaro” acima do Equador, o clima era de tensão e expectativa. E, soado o gongo inicial, a luta durou exatamente 91 segundos.

Após aguardar um ano por aquele combate, transmitido ao vivo pela TV para todo o mundo, o desavisado saiu da sala para pegar uma cerveja na geladeira da cozinha. E se surpreendeu quando voltou para constatar, incrédulo, um Spinks humilhantemente atirado fora das cordas do ringue, com as órbitas perdidas dos olhos em direções opostas ao mesmo nada.

Após encerrar a luta com um gancho de direita devastador contra a testa do desafiante, ainda na metade do primeiro assalto, Tyson abriu os dois braços e repetiu ao mundo sua indagação: “Where’s Michael Spinks? Where’s Michael Spinks?” (“Onde está Michael Spinks? Onde está Michael Spinks?”).

Depois do resultado das urnas de Campos no último domingo, com uma vitória avassaladora de Rafael Diniz (PPS) nas sete Zonas Eleitorais do município, ainda no primeiro turno, na qual o jovem neto de Zezé Barbosa derrotou 28 anos depois o envelhecido algoz do seu avô, tem muita gente até agora perguntando a mesma coisa.

 

Publicado hoje (09) na Folha da Manhã

 

Confira no vídeo abaixo o massacre de Tyson sobre Spinks:

 

 

 

0

Fabio Bottrel — Cidades e Pessoas

 

Música: Joan Manuel Serrat- Cantares

 

 

 

 

Bottrel 08-10-16

 

 

Sempre tive adoração pelas mulheres que fizeram da minha vida poesia, como se o meu amor fosse recordações da infância perdida, nunca entendi o prazer do mulherengo ao se completar de vazios. Assim também fui com as cidades que fizeram parte da minha vida, amei todas como se não existissem outras e mesmo que o relacionamento esteja distante, a gratidão é eterna.

Caminhando sobre o mar de pedras brancas da Praça do Liceu iluminada pelo sol que acabara de acordar, fiquei a imaginar a semelhança do destino da cidade quanto ao de uma pessoa enquanto me vinha à cabeça o poema Cantares de Antonio Machado, tudo passa e tudo fica, porém o nosso é passar, descobrimos quem somos ao ver os entes que ficam e os que deixamos pelo caminho.

Campos, ao andar se faz caminho, e ao voltar a vista atrás, se vê a senda que nunca se há de voltar a pisar. Em sua beleza vi essência desse poema e como um cônjuge sofrido como nunca merecestes ser, enfim tomastes a coragem de seguir em frente, e seus filhos esperançosos que volte a sorrir.Como “manancial de nova vida onde jamais bebi, água, vens tu até mim, bem sei que à noite “enquanto tu dormias, sonhei, bendita ilusão! Que era Deus que trazia dentro do coração.”

 

Tudo passa e tudo fica

porém o nosso é passar,

passar fazendo caminhos

caminhos sobre o mar

 

Nunca persegui a glória

nem deixar na memória

dos homens minha canção

eu amo os mundos sutis

leves e gentis,

como bolhas de sabão

 

Gosto de ver-los pintar-se

de sol e grená, voar

abaixo o céu azul, tremer

subitamente e quebrar-se…

 

Nunca persegui a glória

 

Caminhante, são tuas pegadas

o caminho e nada mais;

caminhante, não há caminho,

se faz caminho ao andar

 

Ao andar se faz caminho

e ao voltar a vista atrás

se vê a senda que nunca

se há de voltar a pisar

 

Caminhante não há caminho

senão há marcas no mar…

 

Faz algum tempo neste lugar

onde hoje os bosques se vestem de espinhos

se ouviu a voz de um poeta gritar

“Caminhante não há caminho,

se faz caminho ao andar”…

 

Golpe a golpe, verso a verso…

 

Morreu o poeta longe do lar

cobre-lhe o pó de um país vizinho.

Ao afastar-se lhe viram chorar

“Caminhante não há caminho,

se faz caminho ao andar…”

 

Golpe a golpe, verso a verso…

 

Quando o pintassilgo não pode cantar.

Quando o poeta é um peregrino.

Quando de nada nos serve rezar.

“Caminhante não há caminho,

se faz caminho ao andar…”

 

Golpe a golpe, verso a verso.

 

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

 

 

0

Do legado de Ulysses que nos governa, a quem vai governar Campos

Ponto final

 

 

Um século

Se fosse vivo, Ulysses Guimarães teria completado ontem 100 anos. Para quem hoje tem menos de 40, talvez seja difícil dimensionar a importância do parlamentar na história recente do Brasil. Foi figura de proa em todos os passos da redemocratização do país, num protagonismo assumido desde sua corajosa anticandidatura a presidente contra o genereal Ernesto Geisel (1907/96), em 1973; passando pela luta pela anistia dos presos e exilados políticos na luta contra a Ditadura Militar (1964/85), em 1979.

 

“Diretas Já”

Junto a vários outros políticos de peso, como os também experientes Tancredo Neves (1910/85) e Franco Montoro (1916/99), além dos mais jovens Mário Covas (1930/2001) Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, Ulysses esteve à frente do movimento “Diretas Já”. Entre 1983 e 1984, a luta pela emenda constitucional gerou as maiores manifestações populares até o Brasil de então, para pedir nas ruas o direito de eleger no voto popular o presidente em 1985. Os militares venceram, mantendo a eleição presidencial no colégio eleitoral do Congresso, mas nela foram derrotados por Tancredo.

 

“Ódio e nojo à Ditadura!”

Com a morte súbita do novo presidente, antes mesmo de assumir, e com o perigo do retorno dos militares inconformados com a perda do poder após 21 anos, Ulysses foi o esteio moral que garantiu a posse do vice de Tancredo, José Sarney, ex-aliado dos generais. Garantida a transição, Ulysses abraçou uma nova missão, certamente sua maior. Presidiu entre 1987 e 88 a Assembléia Nacional Constituinte, na qual foi parida a chamada “Constituição Cidadã”, que nos rege até hoje. E, ao promulgá-la, disse fazê-lo com “ódio e nojo à Ditadura!”.

 

Último combate

Com o fracasso do governo Sarney, incapaz de conter o avanço da hiperinflação herdada dos militares, Ulysses e seu PMDB acabaram sendo os maiores prejudicados quando a eleição direta a presidente finalmente veio, em 1989. Ao concorrer naquilo pelo que mais lutou, o experiente parlamentar não foi além do sétimo lugar na disputa majoritária pelo Palácio do Planalto. Mas, eleito Fernando Collor de Mello, quando a maioria achava que Ulysses cairia no ostracismo, assumiu na Câmara a condição de líder do impeachment do jovem e destemperado presidente.

 

O mito e o legado

Batizado com o nome latino do maior navegador grego, que penou no mar durante 10 anos antes de regressar para sua casa, após lutar na legendária Guerra de Tróia, Ulysses morreria no mar de Angra dos Reis, num acidente de helicóptero em 1992. Seu corpo, num reforço do mito tão ao gosto das civilizações clássicas, nunca foi achado. Mas enquanto vivermos numa democracia, sob a égide das leis da Constituição de 1988, seu legado respira, sua, saliva, aconselha, grita, acolhe e luta. Num tempo tão pobre de lideranças políticas no Brasil, o contraste do que foi Ulysses como homem público deveria constranger a todos nós.

 

Rafael no “Panorama”

Prefeito eleito de Campos, Rafael Diniz (PPS) será entrevistado hoje na Rádio Continental (AM 1270), do Grupo Folha. No programa “Panorama Continental”, apresentado por Cláudio Nogueira, Diniz responderá a perguntas dos ouvintes e traçará um perfil do planejamento para seu governo, que se inicia em 1º de janeiro. Nogueira promete buscar do prefeito a revelação de pelo menos um nome do secretariado que está sendo montado. É ouvir e conferir. Na internet, a Continental pode ser ouvida no site www.radiocontinentalam.com.br

 

Presidência

Divulgado o resultado das urnas, a expectativa agora é por saber quem será o presidente da Câmara de Campos. Despontam Marcão (Rede), aliado de Rafael e mais votado no pleito, e Thiago Virgílio (PTC), do palanque rosáceo. Marcão tem menos vereadores em seu grupo, mas já se movimenta para saber qual é a aceitação entre os pares, até mesmo os eleitos em outros palanques. Virgílio tem um grupo maior, mas é um dos 37 investigados no “escandaloso esquema” denunciado pelo Ministério Público Eleitoral quanto à possível troca do Cheque Cidadão por voto. Se condenado, pode perder o mandato.

 

Com a colaboração dos jornalistas Antunis Clayton e Arnaldo Neto

 

0

Guilherme Carvalhal — Preço

Carvalhal 06-10-16

 

 

Após seguir as indicações de um viajante andaluz acerca do reino das amazonas, Ulrico Schimidel rumou ao norte desmembrando-se do grupo de espanhóis que seguia ao Prata. Durante essa jornada que acabou caindo em meio ao reino batizado por ele como Cornucópolis.

Essas paragens de ponto hoje indeterminado, cogitado como a umas tantas léguas a noroeste de Belém, constavam de uma área mais larga que as tradicionais tribos, onde funcionava uma agricultura mais eficaz que a assistida por essas bandas e providenciava maior fartura do que em quaisquer outros aldeamentos de índios.

Pelos muitos campos coletivos abundavam as roças de mandioca, milho e feijão, além de diversas hortaliças. Complementavam sua dieta com uma sempre farta disponibilidade de carne de caça pelos arredores. Além dos víveres alimentícios, abundavam a madeira e a cerâmica, utilizadas para armazenamento de alimentos para as épocas de baixa produção. Entre as benfeitorias constavam boas ocas, pontes, cercas contra animais e outras estruturas. Um povoado de muita felicidade entre seus moradores.

Constatou o viajante alemão uma nódoa nesse paraíso terreno. Ao centro desse vilarejo existia uma enorme cabeça granítica perfeitamente esculpida de uns dois metros de alturas e três de larguras. Rezava a lenda local que ela caiu do céu em tempos imemoriais e que desde então todos a celebravam como seu deus. E para agradá-la de tempos em tempos sacrificavam alguns de seus jovens, imolando-os em uma imensa pira ao lado do ídolo pétreo.

Ulrico presenciou uma dessas cerimônias de holocausto. Colocaram três rapazes e três moças, nenhum passando dos 20 anos. Amarram-nos a um poste de madeira sobre um amontoado de folhas secas, as quais queimaram e deixaram lá até arder. Entretanto, o laço a prendê-los servia para evitar que pulassem fora movidos por instintos, já que nenhum deles se lamentou por morrer. Na verdade consideravam uma honra falecer para garantir a prosperidade da coletividade, marcando-se eternamente na alma de cada conterrâneo.

Abismado diante de cadáveres chamuscados em tão tenra idade, o visitante comentou com o cacique acerca da crueldade da ritualística. O líder então o convidou para uma longa caminhada pela região, na qual apontou várias outras tribos extintas, fosse pelas intempéries, pela guerra, por doenças ou pela fome. Dentre todas, apenas a sua prosperou. A única que realizava costumeiros sacrifícios humanos.

O cacique conhecia a falsidade daquela estátua. Seus ancestrais mantiveram a verdade enquanto enganaram o restante da população: esculpiram-na para dar uma razão de ser aos habitantes após anos e anos de privações. Então, precisando atender aos desejos de um deus caprichoso, todos se mobilizaram e saíram do seu comodismo, movidos pela premência em expandir sua comunidade. Se precisavam ceder jovens e boa parte de seus bens, precisariam sempre pensar em levar a tribo adiante, pois sempre haveria um deus a devorá-los. Esse desespero os movia.

Ulrico não sabia se vangloriava ou lamentava tal sabedoria. Lembrava dos povoados percorridos e os comparava. Encontrava o limite entre bem e mal extrapolado e ponderava acerca das possibilidades. Assustou-o caso em outros continentes algum déspota decidisse se valer de tal artimanha.

Como não se decidia quanto à qualidade dos ensinamentos proporcionados por esse povoado, livrou-se da responsabilidade de transmitir uma filosofia que poderia ser boa ou má. Rasgou de seu diário as páginas que retratavam essa tribo e preferiu deixá-la flanar ao esquecimento do tempo.

 

0

Democracia irrefreável das redes sociais — Obama 2008 a Campos 2016

Yes we can

 

 

 

Você decide!

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Começou com a primeira eleição de Barack Obama a presidente dos EUA em 2008. O então jovem e carismático senador democrata de 47 anos disputou o pleito contra o candidato republicano John McCain, enfrentando por tabela o estabelishment dos EUA, personificado nos interesses das poderosas indústrias bélica e petrolífera do seu país.

Verdade que jornais liberais tradicionais como New York Times e Washington Post até demonstravam uma simpatia tímida por aquele candidato filho de um africano do Quênia, com nome esquisito e muito parecido com o do (hoje, falecido) inimigo nº 1 do país. Mas contra o poder de redes de TV conservadoras como a Fox, foi com o uso dos blogs e, sobretudo, da democracia irrefreável das redes sociais, que o slogan “Yes We Can” (“Sim, nós podemos”) se tornou um fenômeno entre o eleitorado da maior potência mundial.

Com essa nova maneira de fazer política, antevendo a capacidade de mobilização das massas em tempo real através das plataformas digitais, a campanha de Obama conseguiu atrair um público que até então não estava envolvido do processo político. O The Huffington Post, conceituado agregador de blogs estadunidenses afirmou: “Se não fosse a internet, Barack Obama não seria presidente. Se não fosse pela internet, Barack Obama não teria sido nem o candidato”.

A última referência diz respeito ao fato de que, para conseguir a vaga do Partido Democrata, Obama teve que competir com a inicialmente favorita Hillary Clinton, esposa do popular ex-presidente Bill Clinton. E, passados oito anos do primeiro presidente negro eleito e reeleito na história dos EUA, Hillary agora caminha para sucedê-lo como a primeira mulher no cargo mais importante do mundo.

A verdade é que, após sua vitória em 2008, primeiro contra Hillary, nas primárias dos Democratas, e depois nas urnas contra McCain, a mídia dos EUA e do mundo apelidou o feito de Obama como “a eleição do Facebook”. Após a sucessão presidencial dos EUA, o brasileiro mais atento à política, inclusive internacional, sobretudo às formas de interação entre o eleitor e seus representantes, passou a se perguntar: quanto tempo isso vai levar para chegar aqui?

Chegou antes pelo mundo muçulmano do Oriente Médio e do Norte da África, também conhecida como África Saariana ou Magreb, para os árabes. A partir de dezembro de 2010, com mobilizações feitas a partir das redes sociais, as revoluções populares se alastraram em escala exponencial na Tunísia, Egito, Líbia e Síria, onde provocaram quedas de governos e até linchamentos de ditadores — quem não se lembra da morte, pelas mãos do seu próprio povo, do outrora temido ditador líbio Muammar Kadafi (1942/2011)?

Também ocorreram grandes protestos na Argélia, Bahrein, Djibuti, Jordânia, Omã, Iémen e Iraque — país que Obama cumpriria sua promessa de desocupar. Em escala menor, mas sempre arrebanhados nas redes sociais, protestos menores aconteceram no Kwait, Líbano, Mauritânia, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão e Saara Ocidental. Greves, manifestações, passeatas e comícios contaram com o uso de mídias como Facebook, Twitter e YouTube para se organizar e sensibilizar a comunidade internacional, driblando as tentativas de repressão e censura da Internet por parte dos Estados.

Ainda que não tenha levado a bom fim em grande parte dos países da Primavera Árabe, como na Síria, cuja Guerra Civil ali iniciada até hoje choca o mundo, o fenômeno de mobilização das massas a partir das redes sociais finalmente chegou ao Brasil em junho de 2013. Naquilo que ficou conhecido como “Jornadas de Junho”, o início foi restrito a poucos milhares de participantes, em São Paulo, pela redução da tarifa do transporte público.

Viralizada nas mídias sociais, a forte repressão policial, sobretudo no protesto do dia 13, multiplicou a participação popular em várias cidades brasileiras. Milhões foram às ruas, não mais apenas pela redução da passagem de ônibus e contra a ação da Polícia, mas por uma gama variada de temas, como gastos públicos em grandes eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas, má qualidade do serviço público e corrupção política.

Passado o susto, sobretudo dos petistas, que viram perdido o monopólio das ruas que dominavam desde o final dos anos 1980, apesar da grande repercussão nacional e internacional, houve quem dissesse que “o gigante tinha adormecido”. Mas num país cindido com as figadais eleições presidenciais de 2014, pela grave recessão econômica que se procurou maquiar até o pleito e pela corrupção endêmica no governo federal eviscerada pela operação Lava Jato, cuja primeira fase se deu em 17 de março de 2014, as redes sociais voltaram a despertar o gigante.

Se foram a Câmara e o Senado Federal, sob o controle do Supremo Tribunal Federal (STF), que cassaram o segundo mandato presidencial de Dilma Rousseff (PT), a verdade é que as instâncias máximas dos poderes Legislativo e Judiciário foram obrigadas a fazê-lo pela pressão popular mobilizada pelas mídias sociais. Em 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto e 13 de dezembro de 2015, milhões de brasileiros foram às ruas contra o governo Dilma e a corrupção, nas maiores mobilizações populares da Nova República — a partir do fim da Ditadura Militar (1964/85).

Mas o ápice do movimento foi nas manifestações populares de 13 de março, as maiores da história do Brasil. Nelas, se estima que 3,3 milhões de brasileiros tomaram as ruas de pelo menos 250 cidades, mobilizados pelas mídias sociais, para selar o fim antecipado dos 13 anos do lulopetismo no poder.

Em seus resultados variados, se pode gostar ou não daquilo que começou com a eleição de Obama em 2008, passou pela Primavera Árabe de 2010, pelas Jornadas de Março de 2013 e pelos protestos 2014/15 que levaram ao impeachment de Dilma. Só não se pode negar que nenhum desses fatos históricos aconteceria sem a democracia irrefreável das redes sociais.

A eleição de hoje, a prefeito de Campos, talvez seja o primeiro teste real das ativas mídias sociais goitacá nas definições do destino da cidade. Instituições como Ministério Público Estadual (MPE), Justiça Eleitoral e Polícia Federal (PF) locais têm se desdobrado para fazer com que a decisão, leitor, seja apenas sua, na urna.

Você, e mais ninguém, vai decidir em que tempo estamos vivendo.

 

Publicado hoje (02) na Folha da Manhã

 

0