Ocinei Trindade — Entre a morte e o perdão

Ocinei 21-06-16

 

 

— Estava em Orlando me divertindo, na terra da magia e da fantasia. De repente, eu e um grupo de amigos, além de muitos desconhecidos amigáveis, decidimos entrar na Boate Pulse. Lugar daqueles que a gente vai para ser igual a todo mundo e ver se há alguém diferente para dividir os dias, pois sabe como é, né? Todos nós queremos alguém para viver uma eternidade, nem que seja por umas horas, uma noite, uma semana. Ah, tá bom, eu quero alguém sim pra chamar de meu. E se o amor da minha vida estiver na boate? Bem, caso não esteja, pelo menos a gente desfila e pega geral. Vai que dá certo? Fico enlouquecido quando toca Lady Gaga. Não sei o que me dá. No último dia 12, tinha um cara bem gato na boate. Não sei se era latino ou grego. Depois disseram que era do Afeganistão. Aí, lembrei daquele lugar cheio de gente doida, do Talibã, e daquelas mulheres vestidas de burca. Muito louco, né. Só sei que gostei do afegão, baby. Achei que ele também gostou de mim, mas assim, do nada, o cara surgiu com uma bazuca na mão (e que bazuca, honey). Depois o bofe-escândalo desatou a atirar. Gritei feito bicha histérica e corri. Tive que fugir, mas não sabia pra onde. Me deu uma tristeza, um vazio, uma solidão. Lembrei da minha família e dos meus amigos. Eu quis estar com eles — disse o jovem de vinte e dois anos.

— Nossa, eu tinha muita coisa para estudar, mas estava de saco cheio e meio deprimida. Faz um mês que terminei meu namoro com um guri. Pensei que a gente fosse voltar, mas que nada. Soube até que ele está ficando com uma talzinha aí. Me disseram que é bonita. Eu disse que não estava nem aí mais para aquele imbecil. Pior que eu menti. Se ele quisesse voltar, eu acho que não resistiria mentir por muito tempo. Então, voltando à conversa anterior, eu tinha prova de geometria supercomplicada no dia seguinte, mas optei dar um tempo e me fazer feliz por algumas horinhas. Minhas amigas me convidaram para ir na boate Kiss de Santa Maria, tinha uma banda que adoro, a Gurizada Fandangueira, e sei que meu ex também adora. Vai que eu encontrasse ele lá? Me produzi toda e fui mais linda possível, pois se ele estivesse com a periguete, eu não podia estar de baixo, veja só. Era janeiro de 2013. Lá pelas tantas, uma gritaria, uma confusão com fogo e fumaça na boate. Não entendi nada. — comentou a linda morena de vinte anos apenas.

— Já eu adoro o rock do Callejeros. O quê? Você não conhece a banda argentina? Hombre, tienes que conocir. Outro dia, nem faz tanto tempo assim, foi em 2005, fui assistir a Callejeros na boate República Cromagnon. Não sabe onde fica? Carajo, pelo visto você nunca esteve em Buenos Aires, não é? Melhor lugar da América do Sul, quiçá, de toda a América. Vivo na melhor cidade do mundo. Tierra de gente inteligente y guapa.  Buenos Aires é grandiosa. Temos os melhores vinhos, as melhores carnes, o melhor futebol, temos um deus que se chama Diego Maradona e agora um Papa. Hombre, Jorge Bergoglio é tudo de bueno, Temos a música mais envolvente, a dança mais apaixonante que é o tango, além do tango eletrônico, lógico. Somos evoluídos, o casamento gay é normal, plantar maconha em casa e fumar marihuana na rua é normal. Bem, só para lembrar que eu estava naquele exato dia na Cromagnon e algo estranho aconteceu. Também acho que sinais de fogo apareceram. Fue mucho loco — lembrou o portenho passional de dezenove anos.

— Eu tenho dezoito anos. Acho que já faz seis anos, se eu não me engano, era junho de 2008. Fui a ao aniversário de um amigo na Baronetti, em Ipanema, boate supermaneira, mermão. Pô, brother, tava cheio de gatinha naquela noite. Zuamo tudo, tá ligado? Pegamu xeral. Foi bem irado, alto astral. Me amarrei de montão. Aí, por volta das cinco horas da madruga, decidimos sair. Cara, pintou uma confusão de repente do outro lado da rua. Quando dei por mim, eu estava caído no chão apanhando. Levei muita porrada. De repente, o segurança da boate que era policial militar mas não estava de serviço, deu dois ou três disparos para apartar a galera. Cara, não vou te negar não, parada sinistra aquela. Demorei um pouco pra perceber que um dos tiros pegou em mim, mermão. Muito over aquela parada, um tiro bem no meio do meu peito — lamentou o jovem lindo e louro.

— Vocês são todos velhos. Eu tenho seis anos apenas, mas sou uma menina muito inteligente. Sei tudo o que gente grande fala em faz. Eu presto atenção em tudo. Nasci em Aurora, no Colorado. Onde fica? Well, well, let me say: United States of America, of course. Yes, I am American. Bem, eu gosto de fazer muita coisa. Gosto de brincar com minhas bonecas, jogar videogame com meu pai e adoro quando ganho dele. Sei que ele finge perder pra mim às vezes, mas é que ele não gosta de me ver triste. Como eu vim parar aqui? Isso eu não sei direito. Minha cabeça às vezes mistura fantasia e realidade. Sabe coisas da Disney, da Pixar, da Marvel? Então, é meio assim. Só sei que eu estava no cinema para ver Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Adoro o Homem-Morcego. Eu queria morar em Gotham City. Naquele dia, em julho de 2012, lembro bem o ano, um homem muito estranho entrou no cinema e atirou na direção de todo mundo. Eu contei direitinho: os tiros atravessaram doze pessoas. Saiu muito sangue e elas ficaram caídas no chão — contou a garotinha.

— Eu sou pedreiro. Nasci no Rio de janeiro. Não sei ler, nem escrever. Não sei ao certo minha idade. Meus pais tiveram doze filhos. Sou o sétimo. Nasci e cresci na Rocinha. Sou casado e tenho seis filhos. No dia 13 ou 14 de julho de 2013, mais de trezentos policiais fizeram operação na favela. Era pra prender bandido e suspeito de bandidagem. O tráfico de drogas come solto nos morros. Fizeram uma tal de UPP. Chamam de Polícia Pacificadora. Naquele dia me confundiram com traficante. Sabe como é. preto e favelado já não têm muito cartaz com a sociedade. E o pessoal da polícia parece ter mais raiva ainda de preto e favelado. Prenderam um bocado de gente, mas nem sei no que deu. A polícia prende, mas tem advogado pra soltar, aí já viu. A polícia no Brasil tem fama de violenta e corrupta. Mas como eu posso subornar policial se nem tenho onde cair morto? Só sei que eu desapareci. Não voltei mais pra Rocinha, nunca mais vi meus filhos e minha mulher. Eu sumi. É só o que me lembro. Eu sumi — relatou o perturbado pedreiro.

—  Voilá!  Très bien! Acho que sou o mais velho dentre todos aqui. Tenho 42 anos e sou francês. Nasci e sempre vivi em Paris. Trabalhava no prédio do jornal Charlie Hebdo. Não, eu não sou chargista, nem cartunista, nem jornalista. Eu cuidava da zeladoria do prédio onde funciona o jornal. Era tenso trabalhar ali. Havia muitas críticas às publicações. Religiosos de todo gênero torciam o nariz com as piadas que faziam. Ah, judeus, cristãos em geral, mas sobretudo os muçulmanos que não gostavam que criticassem o profeta Maomé.  Acho meio esquisito não poder fazer piada de um profeta, já que fazemos piada direto sobre Jesus Cristo, Santa Maria e do próprio Deus. Entretanto, não dá para saber o que passa na cabeça das pessoas. Havia um grupo extremista do Estado Islâmico que estava bastante furioso com o pessoal do jornal e fizeram ameaças. Nós franceses estamos mais que acostumados com a liberdade de expressão, mas tem árabes que não sabem o que é democracia, por exemplo. Só sei que no dia 7 de janeiro de 2015, bem recente, Paris ficou em choque. Terroristas entraram na sede do jornal e atiraram pra todo lado. A França e a Europa entraram em alerta. Disseram que mataram doze e feriram muitos — comentou o funcionário do edifício alvejado.

— Eu sou Ocinei Trindade. Tenho 46 anos, sou jornalista, estou fazendo pós-graduação para dar aulas futuramente na universidade, e tentar sobreviver no Brasil que está um caos política e economicamente. Estudar é preciso. Pensar e refletir idem. Estou sem trabalho fixo. Milhões de brasileiros também estão.  Eu escrevo para meu blogue quando estou inspirado e estou colaborando com a coluna Opiniões do jornal Folha da Manhã por uma temporadaEu converso com mortos. Sim, com mortos. Converso com Freud, Shakespeare, Machado de Assis, Clarice Lispector, Schopenhauer, Marx, Sócrates, Aristóteles, Platão e companhia. Converso até com meus pais, avós e amigos mortos. Eu penso muito. Sofro muito por pensar muito, mas sofro também quando a mente está vazia e não há inspiração para escrever. Bem, minha memória não cabe tudo e nem me lembro de tudo. Eu queria dizer a vocês sete que estão aqui nestes relatos, que eu não sei o nome de vocês com certeza, mas poderia dar um nome qualquer para que não ficassem no anonimato. Sei que de fato, vocês existem na frágil e falível história humana. Eu recorri à Internet para recriar alguns fatos marcantes dos últimos tempos, como incêndios em boates, atentados frequentes nos Estados Unidos, crimes bárbaros no Brasil, ataques terroristas na Europa e no mundo. Não deu pra falar de todas as atrocidades na Venezuela, Síria, África, América Latina. O mundo está bastante complicado, apesar dos avanços tecnológicos. Bem, quero dizer aos sete que, além de eu falar com mortos, eu invento e reinvento mortos. Vocês sete, por exemplo, não sobreviveram a essas tragédias. Vocês e outros tantos morreram, não existem mais. Vocês são mortos, por isso converso com vocês também. Mas há resquícios de memórias. Vocês deixaram famílias e amigos de luto. Alguns ainda choram a ausência de vocês.  A vida é muito curta e passa muito rapidamente. Quero dizer que a maioria da Humanidade não soube da existência, nem da morte de vocês. Milhões e milhões, bilhões e bilhões de pessoas morreram também, antes de vocês. Morreram por coisas mais estúpidas, como por exemplo, guerras e governos corruptos, organizações criminosas como tráfico de drogas, de mulheres e crianças. Morreram por doenças banais, fome, desnutrição, falta de comida, moradia e assistência médica. O pior é que em pleno século XXI, com todo o avanço e conquistas, milhões de pessoas continuam morrendo por esses mesmos motivos e por qualquer tipo de violência (sexual, inclusive) e imbecilidade. Ainda há gente sendo escravizada. Há intolerância e desrespeito de todo tipo. As pessoas continuam morrendo por falta de amor, respeito e compaixão. Holocaustos não cessam. Acho que a humanidade é um projeto que não tem dado certo há milênios, desde que aprendemos a escrever e a registrar a História. Pensando bem, eu não sei quem está em melhor situação. Se vocês que estão mortos, ou se nós que pensamos estarmos vivos. Tenho a sensação de que nós já morremos também, mas ainda podemos inventar histórias e sonhar com final feliz. Não sei bem a quem pedir perdão e a quem perdoar. Viver e morrer são coisas confusas e doloridas. Só sei que todos nós temos que seguir sobrevivendo. Até o fim.

 

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Caio e Rafael botam panos quentes na polarização Sérgio/Bacellar

Rafael e Caio quando selaram em fevereiro um pacto de não agressão para as eleições de outubro (foto: divulgação)
Rafael e Caio quando selaram em fevereiro um pacto de não agressão para as eleições de outubro (foto: divulgação)

 

Os pré-candidatos a prefeito Rafael Diniz (PPS) e Caio Vianna (PDT) se posicionaram sobre a troca de farpas entre o ex-prefeito Sérgio Mendes (PPS) e o ex-vereador Marcos Bacellar (PDT), tratada aqui e aqui, nas postagens abaixo, com relação às eleições municipais de outubro:

— No Facebook se fala muita coisa. Sérgio é só mais um. Campos precisa ser pacificada — pontuou Caio.

— Desde o início, tenho dito que todos os pré-candidatos têm que ser respeitados — lembrou Rafael.

 

Leia amanhã a íntegra da matéria na edição impressa da Folha

 

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Com oposição sob ameaça de divisão, Bacellar parte para dentro de Sérgio

Caio e Bacellar x Sérgio e Rafael (montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Caio, Bacellar, Sérgio e Rafael (montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Em seu estilo combativo de sempre, hoje o ex-vereador Marcos Bacellar (PDT) respondeu aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, à provocação velada feita ontem (aqui) pelo ex-prefeito Sérgio Mendes (PPS) à pré-candidatura de Caio Vianna (PDT) à Prefeitura de Campos.

Ainda ontem, o blog já havia registrado aqui a posição de Bacellar em defesa de Caio contra o ataque dos Garotinho. Bem como as provocações inominadas de Sérgio contra a situação da prefeita Rosinha Garotinho (PR) e a oposição representada pelo filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PEN).

Enquanto Bacellar defende Caio, Sérgio é presidente do PPS, que tem no vereador Rafael Diniz seu pré-candidato a prefeito. Rafael e Caio selaram um pacto de não agressão em 10 de fevereiro, noticiado aqui, pelo jornalista Alexandre Bastos.

Passados mais de quatro meses e faltando pouco mais de três para a eleição, os dois jovens pré-candidatos de oposição, lideram a corrida em empate técnico com o vereador Tadeu Tô Contigo (PRB) e o vice-prefeito Chicão Oliveira (PR).

Conforme registrado aqui, na última pesquisa do instituto Pro4, em consulta estimulada, Caio ficou em primeiro, com 15,2%, seguido de Tadeu (13,4%), de Rafael (11,3%) e de Chicão (8,4%). A margem de erro é de 3,9% para mais ou para menos.

Dentro dessa disputa voto a voto, fontes dão conta de que o acordo entre Caio e Rafael, até pelos perfis aparentemente semelhantes, estaria sendo desrespeitado já durante a pré-campanha, antes mesmo da homologação das candidaturas nas convenções partidárias. Isso teria gerado a reação pública, mas velada de Sérgio, que por sua vez mereceu a resposta sempre direta de Bacellar.

Abaixo vamos a ela:

 

— Abriram as portas do cemitério. Com isso, as múmias despertaram. O ex-prefeito Sérgio Mendes, um político local que foi varrido para a tumba em 1996, é um dos zumbis a desfilar pela rede social escrevendo asneiras. Agora mesmo está agredindo gratuitamente pré-candidatos de oposição. Tenta agir em nome do vereador Rafael Diniz (PPS). Resta saber se tem procuração para esta empreitada suja. Mas vamos ao histórico da personagem: Com a prefeitura que ganhou do seu mentor Anthony Garotinho, hoje desafeto, o máximo que Sérgio Mendes conseguiu foi andar trôpego nos verões do Farol de São Thomé, urinar em via pública e atrasar salários de servidores. Saiu da prefeitura pela porta dos fundos. Dois anos depois teve menos de quatro mil votos ao postular um mandato na Alerj. Não conseguiu eleger a esposa como vereadora e, mais recentemente, no governo Mocaiber (quem diria!), foi parar na Codemca para cuidar dos cemitérios da cidade. Sua gestão na Codemca foi deprimente. Não suportaria cinco minutos de auditoria. Não custa deixar uma pergunta no ar: de que estaria vivendo Sérgio Mendes, já que nunca conseguiu exercer a profissão de jornalista?

 

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Da lua cheia que subiu o Paraíba com dois urubus até a rabiola de uma pipa

(Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
(Foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Ontem, tive a sorte de estar no lugar certo, na hora certa. Mas, sem o equipamento apropriado, tive que improvisar. Numa das mesas externas do Restaurante do Ricardinho, ao lado da Igreja Nossa Senhora da Penha, em Atafona, à beira da foz do Paraíba do Sul, a lua cheia nasceu antes mesmo do sol se pôr.

Havia deixado minha Canon SX 510 HS em Campos. Não que seja uma máquina profissional, mas me daria mais recursos de zoom, fotometria, definição e agilidade do que a câmera do iPhone. Foi com esta, na ausência de alternativa, que passei a enquadrar lua, rio, cerca, barcos e casario, enquanto marcava o voo aleatório dos pássaros ao redor, à caça do instante de intersecção com um cenário já deslumbrante, mas ao qual tentava imprimir também a vertigem e a velocidade da vida animal.

Acabei dando a sorte de pegar dois urubus batendo suas asas em sentido oposto, como o sol que ainda não conhecera seu jazigo do oeste, na Serra do Imbé, enquanto a lua cheia já rompêra seu cordão umbilical com o leste, abandonado no Atlântico. Mesmo sem a vista do oceano, foi a mesma lua que o jornalista Aldir Sales fotografou no mesmo momento, do terraço do seu apartamento em Campos, na Pecuária.

Capturada com mais recurso material, numa Sony HX 300, mas também mais técnica humana, segue abaixo a mesma lua que subiu o rio nas asas dos urubus, à velocidade da luz refletida do sol, até Aldir flagrá-la (aqui e aqui) no flerte com a rabiola de uma pipa:

 

 

(Foto de Aldir Sales)
(Foto de Aldir Sales)

 

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Fogo amigo: defesa de Auxiliadora com ataque à educação e cultura

Chicão, favorito nas pesquisas como candidato governista a prefeito, Rosinha e sua amiga Patrícia Cordeiro (foto: divulgação)
Chicão, favorito nas pesquisas como candidato governista a prefeito, Rosinha e sua amiga Patrícia Cordeiro (foto: divulgação)

 

 

Não é só a oposição que anda se estranhando (aqui) com a oposição em Campos. Dentro de um governo municipal com 10 pré-candidatos anunciados, as divisões internas são ainda mais intestinas. Algumas foram evisceradas nos comentários da matéria publicada aqui, sobre a pesquisa do instituto Pro4 que deu larga margem de vantagem ao vice-prefeito Chicão Oliveira (PR) na disputa governista tentar suceder a prefeita Rosinha Garotinho (PR).

O mais curioso é que, na defesa dos seus candidatos, com a radicalidade típica do garotismo, alguns militantes acabam revelando não só as cisões presentes em relação à eleição do próximo governo, mas aquelas fizeram a diferença — em alguns casos para pior — nos oito últimos anos da administração Rosinha.

Senão, vejamos o comentário feito aqui por Walker Pessanha, defensor a pré-candidatura a prefeita da vereadora Auxiliadora Freitas (PHS):

— (…) Qdo o senhor diz do desgaste da professora Auxiliadora em relação à educação ao meu ver é um grande equívoco. Penso que o senhor não deve ter acompanhado o mandato e a vida pública da professora. Pelo contrário ele teve maus desgaste com o governo justamente por defender as idéias dela pela educação. Teve que lutar para ter seus projetos colocados em pauta na câmara e atendidos. Se houve algum avanço e conquista para a categoria foram as leis e indicações que ela fez e lutou. A lei orgânica do município da educação e cultura avançaram por ela. Foi a melhor secretaria de educação. Ela fez política de educação e não eventos. Ela representa o segmento por causa. Infelizmente ela não e executivo senão a educação e cultura estariam com muito mais conquistas (…)

Aos olhos do leitor um pouco mais perspicaz e informado, na defesa de Auxiliadora, secretária municipal de Educação (2009) e presidente da Fundação Trianon (2010/12) durante o primeiro governo Rosinha, fica clara a crítica do seu defensor à situação atual da educação — avaliada aqui como a antepenúltima entre os 92 municípios do Estado do Rio — e à cultura públicas de Campos. Esta última, entregue pessoalmente por Rosinha ao questionado comando da presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patrícia Cordeiro.

Não por outro motivo, o “Ponto final”, coluna de opinião da Folha, afirmou aqui, na edição do último dia 7 de junho:

Patrícia não tem intenção ou substância para romper com a política dos shows de pouca qualidade e altos cachês, na prioridade “cultural” dos oito anos de gestão da prefeita Rosinha Garotinho (PR). Por tragicômico que possa parecer, ter Patrícia ali, para manter as coisas como estão, é uma das poucas coisas que restou a Rosinha dentro do governo Rosinha.

E, no mesmo dia 7, a afirmação foi confirmada aqui, em publicação no próprio Diário Oficial (DO) do município, no qual Rosinha liberou R$ 450 mil, mesmo em tempo de crise, para “eventos culturais” sob responsabilidade de Patrícia Cordeiro. Tanto pior que foram recursos oriundos da terceira “venda do futuro” feita pelos Garotinho, para ser paga até 2026, pelas três próximas gestões municipais. Se não bastasse, hoje a presidente da FCJOL foi aquinhoada com mais R$ 33,5 mil,  segundo publicação de hoje (aqui) do DO.

Destinado sempre ao mesmo fim, de Rosinha à amiga Patrícia, os cofres públicos do município já sangraram em quase R$ 1 milhão só neste ano.  Sempre segundo dados do DO, foram mais R$ 149 mil (aqui) em 23 de março, R$ 55,9 mil (aqui) em 18 de maio, R$ 52 mil (aqui) em 24 de maio e R$ 204,6 mil (aqui), no dia 31 do mesmo mês.

E tudo isso sob reprovação severa de quem defende a vereadora governista para suceder Rosinha: “Ela (Auxiliadora) fez política de educação e não eventos”. Isso quer dizer que hoje se faz?

 

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Fogueira das vaidades: oposição x governo, oposição x oposição

Pacto de fevereiro entre pré-candidatos a prefeito da oposição, visando eleição em outubro, começa a correr risco na primeira pesquisa de junho (foto: dibulgação)
Pacto de fevereiro entre pré-candidatos a prefeito da oposição, visando eleição em outubro, começa a correr risco na primeira pesquisa de junho (foto: divulgação)

Se as eleições serão daqui a pouco mais de três meses, o caldo já começa a ferver na sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR). Divulgada com exclusividade aqui e aqui, na Folha e neste blog, a pesquisa mais recente do instituto Pro4, feita entre 8 e 10 de junho, com 620 eleitores, nas sete zonas eleitorais de Campos, colocou lenha na fogueira não só entre oposição e um governo cada vez mais agarrado ao vice-prefeito Chicão (PR) como tábua de salvação, mas também entre oposição e oposição.

No primeiro caso, como o jornalista Alexandre Bastos registrou aqui, assustado com a liderança de Caio Vianna (PDT) tanto na consulta espontânea, quanto nos dois cenários estimulados pelo Pro4, o garotismo já começa a bater no filho do seu principal dissidente, o ex-prefeito Arnaldo Vianna. Aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, o sempre combativo ex-vereador Marcos Bacellar (PDT) já começou a semana alfinetando:

— O alto índice de aceitação do pré-candidato Caio Vianna nas pesquisas para as eleições municipais em Campos dos Goytacazes tem deixado o Coronel Bolinha de cabelo em pé.

Bem, mas se essa era a parte esperada, a novidade ficou por conta do ex-prefeito Sérgio Mendes (PPS). Tão ligado ao vereador e pré-candidato a prefeito Rafael Diniz (PPS), quanto Bacellar a Caio, Sérgio foi mais sutil ao evitar nomes e apelidos, mas não menos contundente. Aqui, ele também usou seu perfil no Facebook para rasgar o verbo antes mesmo de desejar uma boa semana:

— Marido mandando na prefeitura no lugar da mulher: basta! Mulher mandando no lugar do ex ou do rebento: nem pensar! Penso que carecemos de alguém com vôo próprio, ética, coragem, competência, determinação, sobretudo independência, para uma efetiva mudança. Boa semana amigos!!!

Pelo visto, mal saiu a primeira pesquisa e já começa a perigar o acordo de paz entre Caio e Rafael, anunciado em 10 de fevereiro, aqui, também no Blog do Bastos. Na ocasião, os dois jovens e promissores políticos posaram para foto e ensaiaram o discurso conjunto:

—  A maturidade tem que prevalecer. Campos é maior do que desejos pessoais.

Bem, às certezas de que haverá segundo turno e de que o candidato governista, independente de quem for, estará nele, ameaça se repetir uma terceira: apostar na divisão da oposição é o segredo do sucesso de Garotinho.

 

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Lua ainda suja de placenta pra começar bem a semana

(Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
(Foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Para começar bem a semana, nem que seja por uma câmera de celular, a lua cheia ainda suja de placenta do final da tarde de ontem (19), no Cais do Ricardinho, ao lado da Igreja Nossa Senhora da Penha, em Atafona.

Nascida ontem entre os coqueiros da foz do Paraíba do Sul, subiu o rio e voou hoje à capa da Folha:

 

 

Capa de hoje (20) da Folha
Capa de hoje (20) da Folha

 

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Chicão bem na frente para ser o candidato a prefeito dos Garotinho

(Infográfico de João Vitor Marques)
(Infográfico de João Vitor Marques)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Se a nomeação (aqui) para a presidência do PreviCampos, no meio da última semana, do empresário e procurador Nelson Afonso Oliveira, irmão de Dr. Chicão Oliveira (PR), foi visto por analistas políticos como claro indicativo de que o vice-prefeito deve ser o candidato governista à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR), essa tendência é aprovada pela maioria da população campista. Em consulta estimulada do instituto Pro4, feita entre 8 e 10 de junho, nas sete zonas eleitorais do município, com 620 eleitores, a partir de um disco com os nomes de todos os 10 pré-candidatos governistas, Chicão liderou com folga. Além da margem de erro de 3,9 pontos percentuais para mais ou menos, o vice deveria ser o candidato dos Garotinho para 17,7%, seguindo do presidente da Câmara Municipal Edson Batista (PTB), com 7,4%, e de Thiago Ferrugem, ex-secretário de Desenvolvimento Humano, que ficou com 6,3%.

Mas se Chicão é o mais popular na dezena de pré-candidatos rosáceos, nem para ele deve ser fácil superar o desejo majoritária do campista por mudanças na maneira de governar o município. Em outra consulta estimulada, quando exposto às alternativas “O melhor é votar no candidato apoiado pela prefeita Rosinha, porque o trabalho dela precisa de continuidade” e “Ou o melhor é votar em outro candidato, para que ele faça as mudanças que Campos precisa”, sete entre cada 10 campistas ficaram com a segunda opção. Se 24,8% preferem a continuidade, 70,8% acham que um candidato de oposição seria o melhor.

Independente do desejo popular por mudança em relação aos oito últimos anos de governo Rosinha, na mesma pesquisa do Pro4, registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número 000696/2016 e cuja primeira parte foi noticiada (aqui) pela Folha no último domingo, Chicão já havia surgido como pré-candidato governista com mais intenções de voto, hoje, entre os campistas. No cenário estimulado em que seu nome foi colocado junto aos demais pré-candidatos, ele ficou em quarto lugar, com 8,4%, mas em empate técnico com os três primeiros da oposição: o vereador Rafael Diniz (PPS), em terceiro, com 11,3%; o também vereador Tadeu Tô Contigo, em segundo, com 13,4%; e Caio Vianna, em primeiro, com 15,2%.

Como nos cenários estimulados do Pro4 estava ainda Mauro Silva, líder governista na Câmara Municipal e já lançado pré-candidato próprio do PSDB, o 1,9% do vereador poderia ser transferido a Chicão, caso os rosáceos decidam lançar apenas um candidato. A hipótese se reforça com a não divulgação de outra pesquisa, do instituto Precisão, que várias fontes governistas informaram ter sido feita em período próximo à do Pro4. As prévias garotistas marcadas ontem para 23 de julho, portanto, podem ser uma mera formalidade.

 

Página 3 da edição de hoje (19) da Folha
Página 3 da edição de hoje (19) da Folha

 

Pubicado na edição de hoje (19) da Folha da Manhã

 

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Fabio Bottrel — Um conto em três atos

(Pintura de Eliseu Visconti)
(Pintura de Eliseu Visconti)

 

 

Toc, toc, toc…

Toc, toc, toc…

Daniel escutava o ruído do ponteiro dos segundos como se arranhasse o seu tímpano a cada batida…

Toc, toc, toc…

Enquanto a folha branca continuava em branco, estava sentado, tentando preencher o papel com sentimentos há duas horas e sequer a primeira palavra havia chegado. Sentia que estava chegando, era torturante, tinha vontade de gritar para que ela chegasse logo, pois já estava pronto para escrevê-la, mas sabia, de nada adiantaria. Continuou com as mãos sobre o papel, esperando as palavras chegarem, seu olhar de vez em quando se distraía e esquivava para frente, da sua janela via um mar de luzes contrastar com as esparsas estrelas no tapete negro do céu. Estava no alto da torre do condomínio Splendore, rente a Avenida XV de Novembro, à sua frente todo o bairro de Guarus tomava textura de uma obra impressionista com o amarelado das luzes se deitando no rio Paraíba à meia-noite. O conto tinha data de entrega para o dia seguinte e ele ainda não havia começado, sentia a ansiedade subir a garganta como uma pia ao ser desentupida. Decidiu abrir a última cerveja que tinha, já perdeu as contas de quantas vezes havia levantado para ir ao banheiro sem ter vontade e beber água sem ter sede, sabia de seu cérebro criando fugas para esses momentos de dificuldades e prometeu para si mesmo que essa seria a última.

Ploc, ploc, ploc…

Se arrependeu de ter aberto a cerveja, agora era mais uma coisa para distraí-lo, ficava escutando as borbulhas da espuma estourar, perfumando o ar…

Ploc, ploc, ploc…

Decidiu aceitar que ainda não estava preparado para escrever, voltou à idealização da história.

— Sobre o que é a minha história?

Não sabia, e chamava a si mesmo de idiota por tentar escrever uma história da qual nem fazia ideia. À altura dos anos de sua dedicação, não havia espaço para esse tipo de amadorismo. Decidiu começar primeiro com os personagens.

— Sobre quem é essa história?

— Pode ser sobre mim. — Ouviu uma voz na sua cabeça.

— Quem é você?

— Seu personagem. — Disse a voz.

— Qual o seu nome?

— Não sei, você ainda não me deu um.

Daniel analisou a voz pelo tom suave e um pouco grave, vislumbrou seu personagem como um jovem rapaz.

— Rafael. O que acha? — Perguntou Daniel.

— Pode ser Rafuxo?

— Rafuxo, apesar de ser uma boa marca de perfil, soa cômico, e não sei se adequaria ao contexto da história.

— Sobre o que é a história? — Perguntou Rafael.

— Ei, você já escreveu meu nome como Rafael, eu ainda nem aceitei… — Continuou Rafael.

— Pare de me chamar de Rafael, não gostei desse nome!

— Ok! Eu também não sei sobre o que é a história…

— Não sabe? Eu te ajudo a encontrar uma. — Retrucou o personagem. — Pode me chamar de João. O que acha?

— Acho que é um bom nome, João. Mas você decidindo as coisas assim me sinto sem domínio sobre a obra.

— Relaxa, você ainda nem começou a criá-la.

— Ok. Mas precisamos de mais personagens para interagir com você, senão viraria um monólogo e não é minha intenção.

— Nem eu gostaria de ser sozinho como você! Trate de me dar um destino diferente.

Pelo personagem ter surgido de Daniel, sabia da vida de seu autor, pois ainda não tinha uma própria, nem mesmo uma história, até o momento era um amigo que viviana cabeça do seu criador.

O autor ficou pensativo com a última frase do personagem: “Trate de me dar um destino diferente. ” Acendeu um cigarro e olhando a fumaça se esvair ficou a refletir sobre a vida. Sabia que estava perdendo o foco da história, mas das suas reflexões surgiam novas referências de escrita, era um ofício de autodescoberta.

Daniel era solitário como todo escritor dedicado às necessidades da sua arte, os artistas de hora vaga poderiam se dar ao luxo de ter uma vida normal, mas esses ele não chamava de artistas. Era gente que se completava de vazios em concursos de vida finda, almejando passar despercebido sua covardia de jamais suportar ser um artista. Ele ficava a observar os que falavam com propriedade sem ter no sangue a veia da verdade, utilizando de títulos em papel barato para dar credibilidade a uma obra que só existe para si própria. Se não fosse pelo seu cachorro – Balzac, ninguém saberia se estava vivo ou morto, só saía do seu apartamento para levá-lo a fazer as necessidades, raramente encontrava alguém que lhe despertasse mais interesse que os livros. Às vezes passava semanas isolado, concentrado em suas obras e tinha em seus personagens seus amigos mais próximos, enquanto eles existirem nunca estará só, quando tem de matar um deles, mata também a si próprio na dor d’uma despedida de alguém que só existiu dentro de alguém: não há corpos para todas as almas. Às vezes observava nas expressões das pessoas uma pena ao descobrir sua solidão carente mesmo de família, seu único parente tinha quatro patas. Daniel não gostava quando olhava essa expressão, preferia não falar da sua vida fora do padrão, as pessoas não entendiam, suas necessidades não eram superficiais, mas profundas, assinou a vida e a morte com a arte em primeiro lugar, esse era o sentido da sua existência e a existência é muito maior que a vida.

Já era madrugada e a cerveja havia acabado, não tinha mais dinheiro para comprar outra – mazelas do ofício que escolhera, essa própria foi deixada em sua casa por um amigo. Estava cansado, preparou sua cama para deitar, estava frio e se cobriu com o edredom mais grosso que possuía. Ao deitar o sono se foi, ficou a olhar para o teto até que escutou uma voz feminina.

— Tire a mão de mim, seu crápula!

— Eu não encostei em você, sua maluca! — Ouviu João responder a voz que acabara de aparecer.

— Encostou, sim! Só porque ainda estamos na cabeça do autor não significa que você pode fazer o que bem entender!

— Não crie essa mulher doida, Daniel! — Suplicou João para o autor.

— Eu ainda não a conheço.

— Prazer, Amanda.

— Por que vocês já vêm definindo até o nome? Eu sou o criador de vocês, essa é a minha função.

— Você não consegue colocar umapalavra no papel e reclama de já aparecermos com o mínimo para uma personagem decente. Ah, me poupe! Odeio ser criada por um escritor com bloqueio, temos de fazer trabalho em dobro!

— Eu não estou com bloqueio.

— Não… então por que está aí olhando pro teto?

— Tá bem. Então me ajude a criar a história.

— Aí, tá vendo?! — Replicou Amanda. — Tão bom quando a gente já nasce naqueles escritores que sentam de frente para o computador e escrevem tão rápido do teclado chegar a tremer. A gente já vem ao mundo dentro de uma história em vez de ficar discutindo o que deve acontecer… Mas tudo bem… a história pode se passar em Campos dos Goytacazes e…

ZzZzZzZzZzZzZZzZz…

— Acho que ele dormiu… — Disse João.

— Pois é, tadinho… parecia cansado mesmo. Vamos ter de esperar ele acordar para existirmos.

— Só espero que ele se lembre d’a gente quando acordar…

 

***

 

— Au! Au! Au!

Daniel abriu um dos olhos, o dia já havia amanhecido e seu cachorro alertava a hora de ir passear. Espreguiçou dando um aperto no edredom, sentou na cama ainda sonolento, olhou sua cara amassada no espelho do armário e levantou. Escovou os dentes duas vezes, como sempre fazia depois de lavar o rosto na pia. Colocou um pouco de ração para o cachorro, enquanto o bichinho comia ele trocava de roupa e logo depois esperava Balzac na porta.

Sempre dava a volta no quarteirão, mas naquele dia algo lhe tirou da rotina. Viu um carro todo amassado oriundo de um acidente, ao lado a mãe desesperada chorava por ter perdido o filho, não estava morto, não estava ali, havia sumido, sem mais nem menos. Daniel ficou estático olhando para o acidente e tentando entender enquanto alguns fanáticos religiosos discutiam ao seu lado o poder de deus – quem levou aquela criança antes do acidente, enquanto outros diziam ser um delírio, que já não havia ninguém no carro mesmo. Chegava perto da multidão para escutar os murmurinhos, era sua matéria-prima mais autêntica e lamentou não estar em posse do seu caderninho de anotações, sabia, na mesma velocidade que a ideia chegava, ela também se esvaía. De súbito a voz feminina lhe veio à cabeça.

— Nem pense fazer isso comigo!

— Sim! Essa ideia é perfeita. Esse será o conflito central! — Disse o autor.

— Então eu não entro nessa história? – Perguntou João.

— Claro que entra! Você será o pai da criança perdida, marido da Amanda.

— Pelo amor de Deus, mas isso é sofrimento em dobro! — Podia até mesmo sentir Amanda pestanejando dentro de sua cabeça, estava pronta para ser escrita.

— Ah, como se fosse uma benção aguentar uma mulher doida que nem você! — Respondeu João com desanimo ao saber a escolha da história de sua vida.

Daniel correu para a casa enquanto seu cachorro não entendia e latia, ainda não havia acabado o passeio e isso era trapaça. Prometeu para o bichinho que compensaria na parte da tarde, levaria para a Praça do Liceu onde ele poderia se soltar, correr e ficar mais tempo do que os passeios cotidianos. Correu o máximo que pôde com medo da ideia desaparecer antes de poder escrever, tanto que nem Balzac conseguiu alcançá-lo.

Ao bater a porta do apartamento nem mesmo trancou, correu para o escritório, sentou e sentiu suas mãos tremularem, as ideias haviam chegado de supetão e todas ao mesmo tempo vigorosas para serem escritas pelas trêmulas mãos.

O barulho das primeiras teclas soou como a sinfonia mais harmônica aos seus ouvidos e seu corpo extasiou quando viu na tela as primeiras palavras em negrito:

 

 

Primeiro Ato

Continua no próximo sábado…

 

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Das lágrimas, versos ao campeão

Ocinei Trindade
Ocinei Trindade

Quando Muhammad Ali morreu, na noite de 3 de junho, alguma coisa em mim se quebrou. Talvez porque Ali fosse a maior referência ainda viva do meu pai sobre mim. Não por outro motivo, escrevi sobre ele (aqui), no artigo do domingo seguinte. E depois aqui, na terça sequente, para anunciar a exibição e debate do documentário “Quando éramos reis”, de Leon Gast, sobre a disputa de título entre Ali e George Foreman, em Kinshasa, capital do Zaire, hoje República Demorática do Congo, pulsando no coração da África e no Cineclube Goitacá.

Após o filme, na última quarta (aqui), em meio ao debate, confesso que o mais comovente, para mim, foi perceber o poeta e jornalista Ocinei Trindade em meio às lágrimas, pelo que acabara de assistir. Longe de um entusiasta, como eu, do mundo das lutas, o pranto alheio (e comum) confirmou aquilo que o comediante judeu Billy Crystal disse (para quem entende inglês, aqui) no belo discurso funerário sobre o mitológico campeão de boxe, seu “big brother” muçulmano: “Ele tinha a capacidade de extrair, sempre, o melhor de todos nós”.

Lembro que, no correr do debate, Ocinei comentou que o título do filme era equivocado: “Com B. B. King, James Brown, George Foreman e Muhammad Ali, o nome desse filme não deveria ser ‘Quando éramos reis’, mas ‘Quando éramos deuses’”. Como entre os antigos gregos que criaram o pugilato e uma tal Civilização Ocidental, aqueles deuses descidos em 1974, na África que pariu o homem, eram mais divinos, justamente por humanos.

Nos versos escritos hoje (aqui) pelo poeta, a intersecção que há entre homens e deuses:

 

 

 

 

Quando Muhammad Ali me fez chorar

 

Não era só um filme, era uma vida.

Não era uma despedida, era um encontro.

Não era só uma luta, era missão.

Não era só uns milhões de dólares, era tudo.

Não era só um espetáculo, eram ossos e músculos.

 

Havia sangue e suor escorrendo pelo meu corpo.

Existe ainda alguém desafiando deuses e heróis?

Senti um aperto no peito, desses que corrói.

Destruir gigantes no Olimpo não é fácil.

Imagina só o Titã que sabe na alma onde dói.

 

Toda a beleza que sua realeza invoca.

Não sei bem o que provoca aqui dentro.

Só sei que estou dentro de um ringue de lutas.

É uma estranheza assim meio filha da puta

que não quer me parir, não quer sair, nem partir.

 

Desconfio que Muhammad Ali é um puro pretexto.

Serve para me levar aos lugares sombrios onde nunca vou.

Ajuda-me a imaginar o rei ou o homem que eu sempre sou:

Vencido, desiludido, impedido, sentido.

Amargurado, angustiado, atribulado, atrelado ao show.

 

Quando o outro importa mais que eu, onde me ponho?

Um mundo cercado de mediocridade e casebres medonhos.

Não sei bem onde se esconderam aqueles antigos e alegres sonhos.

É uma multidão a repetir palavras, frases e sons enfadonhos

Um homem tristonho e vazio não merece muito além de rima feia.

 

Chicoteia a minha pele que não para de ressecar e murchar.

Será que a velhice não passa de uma outra combatida ilusão?

Percebo mais perto a morte rondando o jardim sem flores.

Pressinto, decerto, a vida mais ávida por idiotices e dissabores.

É a melancolia, sim, instalada entre o umbigo e a garganta.

 

Não sei se adianta muito eu chorar ou lágrimas disfarçar.

Só sei que ali diante de Ali, eu me senti ainda mais diminuído.

Fui engolido por todos os fanáticos estúpidos maometanos.

Fui devorado por todos os cristãos imbecis e profanos.

Fui esmagado por judeus intolerantes, gananciosos e insanos.

 

Antes de estar ali com Ali, encontrei Jesus no templo.

Não muito tempo ali permaneci, mas sei que o vi e ele a mim.

Estava disfarçado em mortalha e capuz escondido atrás da palavra.

Pediu para que eu orasse e não me comportasse como hipócritas exibidos.

Obedeci, mas depois, talvez, percebi que não o atendi tão bem assim, remido.

 

Eu menti para os meus seguidores e seus fingidores.

Omiti a verdade de mim mesmo provavelmente,  receio.

Clamei ao Tempo uma pausa, uma outra ilusão, mas ela não veio.

Talvez precisasse de uma mão sem luvas para me esbofetear.

O soco de Ali para me nocautear além do Oceano e eu afogar certeiro.

 

Creio que todo aquele gozo foi deveras insuficiente para toda a gente.

Deveria eu ter sido bem mais pecador e, quem sabe, ainda mais indecente.

Poderia me desnudar inteiro, sóbrio ou ébrio, pelas ruas de Kinshasa.

Não fiz tudo, nem tudo chorei, nem toquei Maomé, nem Jesus, nem Ali.

Voltei sozinho e tocado por eles para a casa onde moram palavras cheias de si.

 

Campos, 17.06.2016

 

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Guilherme Carvalhal — A Cabeça Falante

Carvalhal 16-06-16

 

 

Quando anunciaram a mais fantástica invenção desde a lâmpada elétrica, o público da quermesse se dispôs à frente daquele homem de cartola e vestimenta mística. Entre eles havia uma mesa coberta e cobrou 10 reais de cada um para apresentar algo capaz de mexer com a fé do mais fiel dos homens. Amealhou as notas e descobriu a mesa, revelando uma cabeça humana que se mexia e falava.

Todos riram daquela peça, evidenciando que por baixo da toalha se escondia alguém cuja cabeça apontava para fora pela parte superior através de um buraco. Todos fizeram perguntas e interagiram, muitos se sentindo tapeados por um truque barato e  reclamando seu dinheiro de volta. Diante da sensação geral de ludibrio, o homem da cartola arrancou a toalha que cobria a parte de baixo, entre as pernas da mesa, e ali se viu o vazio. Não havia ninguém escondido e a cabeça falava por si só, sem estar presa a corpo algum. O pânico tomou conta da maioria, que saiu correndo em desespero querendo se distanciar dessa bruxaria. O homem da cartola, previamente ciente do pânico a acometê-los, gargalhava, a parte do seu espetáculo em que encenava o feiticeiro a espantar os tolos com seus poderes aprendidos nos círculos herméticos de Karnak.

Posteriormente à debandada, sobraram alguns ainda reticentes com a paranormalidade daquela cabeça. Palpitavam tratar-se de tecnologia moderna, questões de transistores, chips ou nanotecnologia, apta a produzir uma inteligência artificial que movia uma cabeça inorgânica articulada. O homem da cartola então os desafiou:

— Descrentes, somente a erudição antiga da pedra filosofal e da cabala é capaz de um fenômeno desses. Não há nada de tecnologia aqui, apenas elementos alquímicos muito além de seu conhecimento. Se duvidam, coloco-os à prova: quaisquer dúvidas que tiveram, basta fazê-la, pois a cabeça falante consultará de Dagon a Tutatis para responder e provar a extensão de sua sabedoria.

Ninguém, à exceção de um, ousou dar um passo em frente, alarmados e reticentes quanto às profecias que a cabeça poderia revelar. Gideão se posicionou temerário à dianteira, intentando mostrar sua superioridade em relação aos demais:

— Diga-me então, cabeça — perguntou incrédulo e com voz empostada de deboche — minha esposa está de caso com outro homem? — e virou-se confiante aos espectadores.

— Sim — disse a cabeça para espanto geral — Ela encontra-se sorrateiramente com Aderval em rápidas aventuras amorosos quando o senhor sai para caçar. Estão há oito meses nessa, desde uma noite em que a deixou sozinha e ele passou pela sua janela e foi convidado a entrar.

O olhar de pasmo no rosto de Gideão transparecia a sucedânea de conjecturas traçadas em seu pensamento. Lembrou-se de momentos suspeitos flagrados entre a esposa e Aderval, como trocas de sorriso mais íntimas do que mera amizade ou umas visitas inesperadas dele, frutos da vontade de se aproximar de sua senhora. Então, absorveu o relato daquela misteriosa cabeça, que jamais havia tido contato algum com as pessoas dessa cidade e jamais saberia mencionar as relações existentes entre seus moradores, e tornou aquilo algo tateável, a prova de um crime entregue em um envelope, perdendo o aspecto galhofeiro e embarcando em uma jornada interna.

Enquanto muitos se seguravam para rir da pilhéria e do adultério exposto publicamente, ele pôs-se em correria para casa. O homem da cartola desafiou mais algum dos restantes, porém todos deram para trás aturdidos com a possibilidade de alguma verdade escondida vir à tona.

Poucos instantes depois, quatro estalos de tiros originados da lateral da igreja chegaram aos ouvidos. O povo correu para perto e lá encontrou Aderval e sua suposta amante caídos ao chão mortalmente baleados por Gideão, este com seu revólver na mão e ar de perdido, meio aliviado, meio arrependido.

A turba então se voltou furiosa contra o homem da cartola. Culpando-o pela tragédia e pelas mentiras propagadas só para gerar o caos entre aquela boa gente, partiram para cima dele e o apanharam entre seus gritos de aflição; surraram-no e deixaram-no ferido ao chão:

— Espere — disse um dos homens ao terminarem de linchá-lo — Temos que nos livrar dessa cabeça dos demônios.

Todos rodearam a mesa e assistiram à expressão assustada da cabeça. Seu rosto todo se fechou com o semblante de uma pessoa encarando o destino fatídico, vivenciando seus últimos momentos quando a morte se expressa abertamente:

— Não, por favor, eu não fiz nada — ela implorava — Eu apenas respondi a uma pergunta. Não fui eu quem matou o casal. Por favor, tenham compaixão de mim. Sou inocente. Eu não fiz nada.

Jeremias se aproximou com seu martelo de demolição. Levantou-ou com toda sua força após a aglomeração liberar espaço. Nesse instante, a expressão da cabeça pedindo clemência chegou ao ápice e muitos esconderam o rosto não querendo presenciar esse espetáculo. Seus pedidos continuaram e caso houvesse lágrimas em seus olhos, ela choraria. O golpe fluiu rápido, explodindo a cabeça e espalhando pedaços de crânio e cérebro sobre as pessoas em volta. Atônitos, todos voltaram para casa com as mãos sujas de sangue e a lembrança daquele uivo horrorizado emitido pela cabeça em seus segundos finais.

 

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