Paula Vigneron — Quinze minutos

A manhã estava estranha. Maria não podia definir o motivo de senti-la diferente das demais. O vento balançava as árvores plantadas perto do ponto final. As ruas, pouco movimentadas, contribuíam para a sensação que a dominava. Olhou as horas. Nove e quarenta e cinco. O calendário indicava que trinta anos tinham passado desde a última vez em que estivera ali. Na época, optou por um vestido azul marinho. Mais curto do que os habituais. Queria despedir-se dele com uma aparência leve para não pesar o seu caminho. Se deveria partir, que partisse sem dores ou receios. Desejava, mesmo com os nervos à flor da pele, não demonstrar os medos que pulsavam em seu coração. Como seria a distância de Marcos?
Nove e cinquenta. Cinco minutos mergulhada em recordações. Trinta anos sem esquecer passos, palavras, gestos, sorrisos lacrimejados e o olhar do menino que estava prestes a se tornar um homem. Pronto para crescer longe dela.
Maria havia conhecido o rapaz em uma festa. Adolescentes, encantaram-se imediatamente. A atenção dele foi despertada pela beleza da garota. E a dela, pela sua inteligência ao se posicionar sobre diversos assuntos e uma perceptível sensibilidade para lidar com o próximo. “Quantos garotos são assim?”, questionou a si mesma.
O ônibus dele partiria às dez. Em ponto. Sem atrasos, desculpas ou desistências. Agora, seu relógio marcava nove e cinquenta e três. Sete minutos de despedida que se eternizaram por trinta anos. Todos os dias, a mulher se lembrava da partida dele. Como estaria hoje agora? “Marcos, você ainda é capaz de me reconhecer?”, perguntou, em voz alta, às memórias que ecoavam em sua cabeça. Acendeu um cigarro. O vício cresceu à medida que os dois se distanciavam. Ela precisava calar a ansiedade.
“Pode ter certeza de que não me esquecerei de você, minha pequena.”
Embora eles tivessem a mesma idade, ele a tratava como uma criança. Perdia noites de sono para acalmá-la, por telefone, quando seus planos desandavam. Escolhia delicadamente as palavras que poderiam confortar Maria. Quando feliz, por quaisquer razões, ambos comemoravam juntos. Mantiveram-se assim por anos. A rotina foi modificada pela mudança. Marcos havia sido convidado para morar em outra cidade, na casa de seus tios. Conseguira seu primeiro e importante emprego. Não poderia recusar a oportunidade.
“Você me entende, Maria?”
“Entendo, Marcos. E acho que a sua escolha está certa. Não é sempre que temos uma chance como essa.”
“Eu vou, mas eu volto assim que tiver tempo. Em breve, em um ônibus igual a este, chegarei de malas prontas e ficarei definitivamente. Aguarde um pouco. Só um pouco.”
Ela esperaria o tempo que fosse necessário. Ele acreditava, embora temesse que a namorada mudasse de ideia. Todos os receios e anseios foram silenciados. Não poderia haver empecilhos.
Nove e cinquenta e cinco. Dois minutos que pareceram dias. Como era relativo o tempo.
“Eu também não me esquecerei de você, menino. Jamais. Estarei aqui, à sua espera, quando o seu ônibus estacionar.” Em troca, ele lhe entregou uma rosa vermelha, que ela guarda dentro de um livro da adolescência.
Nos primeiros meses, a troca de cartas era constante. Saudades, sentimentos e histórias. Nomes antes desconhecidos por ambos eram citados nos relatos cotidianos. “Mas queria mesmo que você estivesse aqui”, escreviam sempre. Era o desejo do casal. Um desejo calado pelo tempo. Afastaram-se. Afazeres. Trabalhos, escola. Provas, leituras, novas companhias. Dois anos se passaram até que a última mensagem de Marcos chegasse a Maria.
“Não é justo. Não posso te manter presa a mim. Minha vida mudou completamente. Não me vejo retornando à rotina até então conhecida por nós dois. Sinto que ficarei por aqui, Maria. E torço, acima de tudo, por sua felicidade. Grande beijo. Marcos.”
Uma mancha ainda é visível no canto direito da carta, abaixo da assinatura. A primeira reação de Maria ficara registrada com as letras de Marcos. Limpou os olhos. Seus sentimentos variaram entre tristeza, leveza e revolta. “Como ele pode determinar o que é melhor para mim? Ninguém pode escolher pelo outro. Pode ser que haja outra pessoa.” A resposta, ela nunca soubera.
Nove e cinquenta e nove. Um ônibus, que lembrava o de Marcos, estava no sinal. Faltavam alguns segundos para chegar ao ponto onde ela esperava sentada. Trinta anos. O cigarro queimava entre seus dedos. A pele amarelada estava acostumada. O coração de menina novamente pulsava em seu peito.
Dez horas. Em ponto. Sem atrasos, desculpas ou desistências. Levantou-se. Pelas janelas, avistou os passageiros. Apenas cinco ocupavam as cadeiras. Dois homens, uma mulher e um casal de idosos, que conversava animadamente. Trinta anos de espera. Esperança vã.
“Aguarde um pouco. Só um pouco.”
A voz do seu menino continuaria a ecoar em sua cabeça por outros anos. Talvez mais trinta. Ou dez. Por dias. Até o último minuto.
“Falta pouco”, pensou. “Só um pouco.”













