Tomamos no Cunha — Todos nós!

Há algum tempo considero Elio Gaspari, entre os vivos, o maior jornalista do Brasil — e capaz de brigar de igual para igual com qualquer um dos mortos. Seu leitor assíduo há pelo menos 10 anos, às quartas e domingos, em O Globo, por indicação do também grande jornalista (e amigo, ou confrade, como ele gosta de dizer) Ricardo André Vasconcelos, li e me embasbaquei com sua quadrilogia “A Ditadura Envergonhada”, “A Ditadura Escancarada”, “A Ditadura Derrotada”, “A Ditadura Encurralada”.

Independente dos adjetivos, creio que ninguém poderá compreender o que foi a Ditadura Militar no Brasil, entre 1964 e 1985, na qual nasci e me tornei adolescente, sem ler essa impressionante reportagem com fôlego de maratonista, cujo ritmo é mantido página a página, tendo como grande virtude a fluidez da impressionante quantidade de informação. Particularmente, naquilo que consegue passar ao leitor, enquanto o seduz pela qualidade do prosista, Gaspari, que nasceu na Itália, me lembra o francês Fernand Braudel (1902/85), a quem julgo pela junção das mesmas duas qualidades o maior historiador moderno.

Mas é no Brasil de hoje que estamos e, pela crise na qual o país está mergulhado muito acima do pescoço, é do Brasil de hoje que devemos falar. Li só agora há pouco o artigo publicado hoje, aqui, em O Globo, pelo Elio Gaspari, tratando do sequestro do governo, da oposição e, tanto pior, meu e seu, leitor, por uma figura como Eduardo Cunha (PMDB), ex-aliado íntimo e hoje adversário maior (no tamanho, não na oposição) do nosso secretário municipal de Governo Anthony Garotinho (PR). Talvez sequer se enxergue as cordas que nos amarram, já ao ponto de cortar a circulação do sangue, sem ler o passo a passo detalhado do plano dessa canalha que nos sequestra, desvelado no brilhante artigo que este “Opiniões” se sente no dever de reproduzir abaixo:

 

 

Tomei no Cunha
(Arte do Blog do Noblat)

 

 

Jornalista e escritor Elio Gaspari
Jornalista e escritor Elio Gaspari

Cunha sequestrou o governo e a oposição

Por Elio Gaspari

 

O Planalto acha que precisa de Eduardo Cunha para segurar o impeachment, e a oposição acha que precisa dele para consegui-lo. Já o doutor acha que o Planalto e meia dúzia de notáveis de Brasília podem livrá-lo dos efeitos da Lava-Jato. É engano.

De acordo com a documentação bancária conhecida, desde o dia 23 de abril de 2014 Eduardo Cunha sabe que a Lava-Jato chegaria a ele. Foi quando fechou sua conta Orion no banco suíço Julius Baer, onde ficavam os cofrinhos de Renato Duque, Jorge Zelada e Paulo Roberto Costa.

A Lava-Jato tinha um mês de existência e já haviam sido presos Alberto Youssef e Paulo Roberto Costa. No dia 20 de maio, no mesmo banco, Cunha fechou a conta Triumph, aberta em 2007. Nenhuma delas era facilmente identificável a partir de seu nome. Tanto era assim que deixou outras duas em atividade.

Em 2011 a Orion recebera um depósito de 1,3 milhão de francos suíços saídos de uma conta Acona, do BSI. Ela pertencia ao engenheiro João Augusto Henriques, um ex-diretor da BR Distribuidora que quase chegara a diretor Internacional da Petrobras, mas indicara o doutor Zelada para o lugar.

Em novembro do ano passado a conta Acona foi bloqueada a pedido do governo brasileiro. Nessa época poucas pessoas falavam de Henriques. O governo, a Petrobras e Cunha preferiram esquecer o que ele dissera ao repórter Diego Escosteguy em 2013: “Do que eu ganhasse (nos contratos intermediados com a Petrobras), eu tinha de dar para o partido (PMDB). Era o combinado, um percentual que depende do negócio”.

A notícia do bloqueio da conta de Henriques no BSI chegou a Cunha, que se inquietou. Descobriu que a iniciativa partira de autoridades brasileiras. Calado, o Ministério Público estava atrás do poderoso Henriques.

Cunha foi eleito presidente da Câmara em fevereiro, entrou atirando e anunciou que convocaria os 39 ministros da doutora Dilma para sabatinas. Onze dias depois, colocou em votação e viu aprovada a imposição do orçamento impositivo. Surgira a expressão “pauta-bomba”.

Em março o doutor entrou na Lista do Janot e passou a ser investigado pelo Supremo Tribunal. Uma semana depois, outra bomba: a Câmara aprovou uma mudança no cálculo do salário-mínimo.

No dia 17 de abril o banco Julius Baer fechou as duas outras contas ativas (Netherton e Kopek), que Cunha talvez tenha suposto serem inalcançáveis. Bomba de novo: menos de um mês depois a Câmara aprovou mudanças no cálculo do fator previdenciário.

Em agosto o juiz Sérgio Moro aceitou uma denúncia do Ministério Público contra Henriques. Bomba: a Câmara aprovou a proposta de emenda constitucional que vincula os salários de advogados públicos e policiais aos vencimentos dos ministros do Supremo Tribunal.

Em setembro, como era de se prever, Henriques foi preso. Desde o bloqueio da conta Acona isso era pedra cantada.

Todas as bombas aprovadas pela Câmara, bem como aquelas que estão guardadas no paiol, podem ser defendidas em discussões pontuais. O problema é que, no conjunto, simplesmente destroem as finanças do país. Custam R$ 284 bilhões ao longo dos próximos anos.

O governo e a oposição acham que podem fazer acordos com Eduardo Cunha. Deixando-se de lado o fato que um acerto serviria para derrubar a doutora Dilma e o outro para preservá-la, o que há de mais intrigante nessas operações é que nem Cunha, nem a oposição e, muito menos, o Planalto, controlam o Ministério Público e a Lava-Jato. Se controlassem, ela já teria acabado há muitos meses. Trata-se de um caso de contaminação voluntária de reputações, algumas até boas.

Uma alma danada vem chamando o presidente da Câmara de “Al Pacino”. Fica a dúvida do que isso significa. Na vida real ele é um grande profissional, com um Oscar no papel de Serpico, um corajoso policial honesto. Esteve também em filmes como “Um Dia de Cão” (baseado numa história verdadeira) e “O Poderoso Chefão”.

 

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Quem são os caras da renovação política de Campos?

(Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Os caras (montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Eles são jovens, todos têm menos de 40 anos, alguns menos de 30, e revelam no monopólio do gênero que ter a cidade pela primeira vez governada por uma mulher, mesmo duas vezes seguidas, serviu de pouco ou nada para romper o predomínio masculino das representações políticas na terra da heroína histórica Benta Pereira (1675/1760). Um deles é deputado estadual governista, outro, vereador e pré-candidato a prefeito de Campos, assim como outros dois podem vir a ser, em meio a outros pré-candidatos a vereador, todos militantes políticos.

Outro jovem, filho da prefeita Rosinha Garotinho (PR) — também primeira mulher a ser eleita governadora do Estado do Rio —, Wladimir Garotinho disse (aqui) em entrevista à Folha do último domingo que não será candidato a nada em 2016, mas evocou a teoria da evolução do naturalista inglês Charles Darwin  (1809/82) para pregar a renovação no grupo político liderado pelo pai, o secretário municipal de Governo Anthony Garotinho (PR): “Tudo (…) precisa se reciclar ou estará fadado à extinção. Pode ser difícil para alguns aceitarem isso, porém, é o ciclo natural”.

E o que pensam outros jovens políticos de Campos sobre essa “seleção natural” de renovação na representação popular, tanto no grupo que hoje é governo, quanto naqueles que se lhe opõem? Leia e descubra que, até entre os jovens, na terra onde ainda se pergunta “De que família mesmo você é?”, permanecem reproduzidas velhas diferenças — e semelhanças.

 

 

Página 3 da edição de hoje da Folha
Página 3 da edição de hoje da Folha

 

 

Cara - Bruno DauaireA renovação já começou no PR por Garotinho. Prova disso foi a oportunidade da minha candidatura. Eu vim de uma escola política diferente. Claro que de nada valeria ser jovem e exercer um mandato retrógrado, porque a renovação não está ligada necessariamente a novos nomes ou candidatos mais jovens e sim à necessidade de acompanhar o ritmo intenso com que tudo se transforma, com que surgem as demandas da população. Quanto às eleições, ainda não há definição sobre candidaturas a prefeito. As alianças não se consolidaram. Qualquer avaliação agora é prematura. A declaração de Wladimir de que não vai disputar o mesmo cargo que eu (em 2018, como disse na mesma entrevista da Folha) é uma demonstração de amizade e consideração pelo trabalho que venho realizando na Alerj. É claro que penso no futuro e tenho muitos sonhos na vida pública. Mas estou focado agora no meu mandato na Alerj.

Bruno Dauaire (PR), deputado estadual

 

Cara - Rafael DinizEm primeiro lugar é importante destacar que renovação vai muito além da idade. Existem jovens com ideias velhas e pessoas mais experientes com uma mente moderna, voltada para o futuro. No caso específico de Campos, o que sentimos nas ruas é a vontade de encerrar o ciclo de um grupo político que sempre apostou no poder pelo poder, com práticas ultrapassadas e eleitoreiras. Como podem falar em renovar se deixaram a Educação rastejando nas últimas colocações do Ideb? Não existe renovação sem Educação! Como podem falar em futuro se investem mais em propaganda do que na Agricultura, vocação histórica da nossa cidade? Como podem falar em mudanças, se o atual governo teve mais de R$ 13 bilhões nos últimos anos e, mesmo assim, vai vender o nosso futuro para pagar dívidas? Quem deseja falar em renovação deve, antes, cobrar do atual governo mais transparência, gestão, planejamento e competência.

Rafael Diniz (PPS), vereador e pré-candidato a prefeito

 

Cara - Caio ViannaA renovação é sempre necessária, mas não implica apenas na mudança de nomes. Precisamos sempre renovar hábitos e rever modelos. Não adianta criticar a conduta do vizinho, mas fazer o mesmo ou pior em nosso próprio dia a dia. Na minha área, engenharia de sistemas, o processo de renovação é constante, mas a definição é diferente: chamamos de evolução. Precisamos evoluir. Campos precisa de gestão. Uma gestão que esqueça os calendários eleitorais, os projetos personalistas e busque o bem comum. Prefiro discutir ideias a discutir pessoas. No PDT, participo de uma corrente de pensamentos que debate muito esse tema. Uma corrente da qual também participa o senador Cristovam Buarque, o ex-ministro Ciro Gomes, o ex-prefeito Arnaldo Vianna e outros grandes nomes. É um debate que não se esgota. Temos a oportunidade de somar essas experiências.

Caio Vianna (PDT), possível pré-candidato a prefeito ou vereador

 

Cara - Thiago FerrugemA renovação política é fundamental para o país, mas não é a renovação de idade, o que precisamos é de renovação de idéias, de comportamento, de um novo jeito de fazer política. Quanto maior a capacidade de dialogar com a sociedade, mais democrático e justo o governo é. Os governos precisam estar mais presentes na vida da sociedade com uma escuta ativa, já as oposições precisam ser propositivas na construção de um país melhor. Em relação às eleições do ano que vem, me sinto preparado para qualquer desafio. Tive a oportunidade de trabalhar em dois lugares estratégicos para o desenvolvimento do município, tanto na Fundação Municipal da Infância e Juventude, quanto na secretaria municipal de Desenvolvimento Humano e Social que reúne Procon, Assistência Social, Assistência Judiciária e Defesa Civil. Essa experiência me possibilitou conhecer bem o município e ter a capacidade de ajudar Campos a ser ainda melhor.

Thiago Ferrugem (PR), possível pré-candidato a prefeito ou vereador

 

Cara - Helinho NahimConcordo no que diz respeito à necessidade de renovação, tanto no quadro governista, quanto na oposição, afinal renovações são sempre importantes. Mas acho que renovação tem que vir com preparo, conhecimento das necessidades da população, e não simplesmente de pessoas que se intitulam renovadoras, mas não representam o verdadeiro espírito da mudança e de representação do novo. Precisamos parar de confundir renovação com uma simples troca de nome. Se você troca o nome, mas as práticas continuam as mesmas, você não tem renovação, tem continuação disfarçada. Quanto à minha relação pessoal com Wladimir, reitero o que disse (aqui) em meu depoimento anterior em entrevista à Folha: temos maturidade e, mesmo sendo jovens, experiência suficiente para trocar opiniões e respeitarmos o lado em que cada um de nós se encontra.

Helinho Nahim (DEM), pré-candidato a vereador

 

Cara - Gustavo MatheusA mudança é mais que importante. É necessária. Mas ela não pode ser exclusividade do discurso e da idade, tem que ser demonstrada na prática. Sobre renovação no grupo de Garotinho, acho que um paradoxo. Como renovar sob a tutela garotista? Um modelo político falido e reprovado na última eleição pela maioria da população campista. Não adianta trocar um cabelo grisalho por um loiro se eles seguirão com a mesma postura, defendendo as mesmas coisas. Isso não é renovar, é tingir o cabelo. Avisem ao Wladimir e ao Garotinho que a Loreal faz isso há anos. Mudam o cabelo, mas a cabeça é a mesma. E enquanto a cabeça for do ex-governador, não há tinta que dê jeito. A novidade não está na idade. O que este governo trouxe de novo, de moderno para o município? Eles seguem com a mesma política velha e cansada de sempre. Renovação de verdade só com a saída deste grupo que está no poder. O resto é balela.

Gustavo Matheus (PV), pré-candidato a vereador

 

Cara - Alexis SardinhaGraças a Deus, eu e Wladimir temos concepções diferentes do sentido da palavra “renovação”. Se ele acha que renovação diz respeito à troca de nomes no cenário político, eu acho que renovar equivale a mudar o projeto político em vigor. Do que adianta levantar esta bandeira se no fundo ele defende a perpetuação da dinastia Garotinho? Helinho Nahim e Gustavo Matheus, ambos primos de Wladimir, são pré-candidatos à Câmara Municipal, assim como o afilhado de sua mãe, Thiago Ferrugem. Todos são jovens, mas todos fizeram ou fazem parte do grupo de Garotinho. Não acho que isso seja renovação. Considero a posição dele até egoísta: se existe vontade de mudar, porque ele não rompe com seu grupo e forma um verdadeiramente novo? Tenho esperança que os Garotinhos serão afastados em breve da Prefeitura pela vontade popular, pois é preciso construir um novo jeito de governar, sem empreiteiros e democrático.

Alexis Sardinha (PT), militante

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Artigo do domingo — Da “venda do futuro” ao teatro de “O Inimigo do Povo”

O inimigo do povo

 

 

Gustavo Alejandro Oviedo
Gustavo Alejandro Oviedo

Uma antecipação longe demais

Por Gustavo Alejandro Oviedo(*)

 

Garotinho anunciou ontem (aqui), durante o programa “Entrevista Coletiva”, da rádio DiárioFM (que gentilmente lhe concede espaço semanal), que o dinheiro da antecipação dos royalties deverá aparecer nos cofres da Prefeitura “nos primeiros dias de novembro”.  Em setembro, no mesmo programa, disse (aqui) que o dinheiro chegaria em outubro. Em agosto, também lá, falou que os valores iam estar, no mais tardar, para meados de setembro.

Até dá pra entender o motivo da preocupação do secretário de Governo em prometer, a cada mês, a felicidade para o mês seguinte: a enorme insatisfação de empreiteiros e cidadãos campistas, que aguardam com ansiedade o momento em que a Prefeitura possa lhes pagar o que está devendo, seja para continuar as obras interrompidas, seja para regularizar os serviços e salários em atraso.

Em que pese o voluntarismo e o esforço de Garotinho, parece que, mais uma vez, o seu prognóstico não poderá ser cumprido. Restam ainda uma série de passos burocráticos a serem realizados a nível federal, que envolvem a Caixa Econômica e a Comissão de Valores, para somente depois, se tudo der certo, lançar a proposta de antecipação de royalties ao mercado internacional e, só então, aguardar que algum banco apareça para entregar a grana.

Mas, como não se duvida aqui da competência de Garotinho em atingir seus objetivos, mais cedo ou mais tarde essa operação financeira será efetivada. O problema, claro, são os objetivos de Garotinho.

No programa de rádio já citado, também ontem, o marido da prefeita disse que a antecipação dos royalties irá render aproximadamente R$ 1,18 bilhão. Esse valor será pago com, no máximo, 10% das receitas anuais de royalties. Garotinho confunde esse percentual com a taxa de juros, e declara, eufórico: “é menos de 1% ao mês!”.

O leitor me desculpará por ter que ler o que já escrevi em outra oportunidade, mas, dado que Garotinho repete a sua explicação, eu repito a minha refutação:

— Dez por cento (10%) ao ano não é a taxa de juros, mas o limite da parcela a ser paga a cada ano. Garotinho sabe disso: a taxa de juros será determinada pelo mercado, em função do risco da operação. Ou seja, não está definida.

— Sendo que o valor da parcela anual a ser paga variará a cada ano, dependendo da quantia a ser recebida de royalties, não há como saber quanto tempo se demorará em liquidar a operação. Mas uma coisa é certa: se pegar mais de R$ 1 bilhão, a administração Rosinha comprometerá, no mínimo, na melhor das hipóteses, com vento a favor e no aclive, os próximos 20 anos.

— Se Garotinho precisa desesperadamente esse dinheiro para fechar as contas deste ano, pois, como ele mesmo reconheceu, as escolas estão sujas por falta de funcionários (ciente disso, é curioso que priorize 10 milhões pagos recentemente à publicidade, não à manutenção das escolas) cabe perguntar: será que o empréstimo resolve também a situação para o próximo ano. Ou em 2016 será necessário acudir a outra antecipação? Reparem que ano que vem há de se pagar a primeira parcela desta antecipação, mais a segunda parcela do empréstimo contraído ano passado.

Diante do exposto, qualquer campista com um mínimo de preocupação em relação ao futuro do município tem que, no mínimo, se inquietar. Ainda mais quando o governo municipal se nega a explicar com transparência uma operação financeira que será suportada em mais de 90% pelas próximas administrações — pensando bem, talvez a falta de esclarecimento de deva precisamente a isso.

Nesse sentido, há de se destacar a atitude (aqui) do promotor de justiça Victor Queiroz que, na ação movida pelos vereadores da oposição visando barrar a operação financeira, recomendou intimar a Prefeitura para que apresente à Justiça todas as informações pertinentes à antecipação. O pedido do Ministério Público não passa do razoável, mas, em Campos, é exatamente por isso que deve ser celebrado.

Para Garotinho, os vereadores autores dessa ação são (aqui) inimigos do povo campista, assim como este jornal e qualquer pessoa que seja contrária a antecipação dos royalties. É bom lembrar ao secretário que, para poder fechar as contas de 2015, ele reduzirá em 10% os royalties de Campos durante, insisto, pelo menos as próximas duas décadas. Também, não estaria mal que, considerando o seu passado teatral, recordasse o enredo de uma obra de Henrik Ibsen chamada, justamente, “O Inimigo do Povo”.

 

(*) Advogado, publicitário e crítico de cinema

 

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Poema do domingo — E amanhã tem que acordar cedo pra trabaiá

Era um domingo frio de vento assobiado, virado sudoeste desde o sábado anterior. Ao sopro do novo horário de uma hora mais cedo, acordara pouco após a aurora e, a contragosto, a deixara no plantão de final de semana. E pensou em si, na idade dela, de quando morava sozinho em Atafona, enquanto aprendia a ler os ventos e escrevia versos:

 

 

(Foto de Tércio Teixeira - Folha da Manhã)
(Foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

 

tempo

 

ver Deus olhando nuvens

do pôr do sol da praia

sopro do vento nordeste

virando terral

virando o mar

virando outro cheiro

virando o tempo

mas tempo é tempo

é nada mais

é só tempo

tempo da morte

tempo da vida

crediário duma

prestação doutra

território do ponteiro

demarcado por mijo monótono

comum lugar do tic

perseguido por tac

e amanhã tem que acordar cedo

pra trabaiá

 

atafona, 08/12/95

 

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Campos na rota dos milhões desviados no Petrolão

Segundo nota publicado hoje, aqui, pelo jornalista Lauro Jardim, em sua coluna dominical de O Globo, Campos também está na rota dos milhões de reais de dinheiro público desviados no escândalo do Petrolão. Confira a transcrição abaixo, no acerto de contas entre Fernando Baiano, apontado como operador do PMDB no Petrolão, e Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras e peça chave do esquema, que já foi superintendente da maior estatal brasileira na Bacia de Campos:

 

Paulo Roberto Costa, peça chave do Petrolão e ex-superintendente da Petrobras na Bacia de Campos (foto de Aílton de Freitas - Agência O Globo)
Paulo Roberto Costa, peça chave do Petrolão e ex-superintendente da Petrobras na Bacia de Campos (foto de Ailton de Freitas – Agência O Globo)

 

 

Jornalista Lauro Jardim
Jornalista Lauro Jardim

Por Lauro Jardim

 

Fernando Baiano aproveitou sua delação premiada para acertar contas com seu ex-companheiro de traquinagens, Paulo Roberto Costa. Baiano relatou aos procuradores uma história de contornos cinematográficos que ficou perdida no meio da Lava-Jato – o dinheiro que supostamente foi levado do escritório de Costa por suas filhas, no dia de sua prisão.

De acordo com Baiano, Costa conseguiu mandar R$ 3 milhões em dinheiro vivo para Campos. O destinatário final era Felipe, sobrinho de sua mulher, Marici.

O dinheiro, ainda segundo Baiano, voou do Rio para o Norte Fluminense de helicóptero e quem o entregou nas mãos de Felipe foi um personagem já conhecido da Lava-Jato, o ex-policial federal Jayme Alves de Oliveira Filho, o Careca.

Esses milhões não constam da declaração de bens feita por Costa aos procuradores, quando o ex-diretor da Petrobras fez sua delação.

 

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“Venda do futuro” — O suspense

De um lado o governo Rosinha Garotinho (PR) usa o grupo de comunicação do seu marido e secretário de Governo, Anthony Garotinho (PR), para anunciar estar na “reta final” da “venda do futuro” de Campos. Do outro, em parecer sobre ação popular dos cinco vereadores de oposição, o Ministério Público Estadual quer saber (aqui) se essa tentativa de antecipação de receitas futuras realmente existe e em quais termos será realizada. Enquanto o suspense paira sobre a planície goitacá, o economista e analista político Ranulfo Vidigal usou a democracia irrefreável das redes sociais para tentar diminuir a apreensão coletiva, nesta manhã nublada de sábado, ao acrescer sua própria análise àquela feita sobre o polêmico assunto por Edilson Rodrigues Tavares, da secretaria do Tesouro Nacional do ministério da Fazenda.

Confira aqui e na transcrição abaixo, após relembrar o que o povo campista pensa dessa operação, em pesquisa feita no final de junho pelo instituto Pro4:

 

 

Info Pro4 30-06-15
Clique na imagem para ler a matéria da pesquisa

 

 

Edilson Rodrigues Tavares do Ministério da Fazenda, em postagem no facebook comentando a “Venda do Futuro” pelas prefeituras petrorrentistas:

“Pois é, mas ainda não passou por aqui e acredito que nem vai passar. Saiba que todo crédito, no caso um título, referente a royalties de petróleo, pode ser negociado em qualquer parte do mundo, nos dias de hoje. Porém uma triangulação dessa forma envolvendo Prefeito, ANP, Petrobras, Caixa Econômica, bolsa de valores e credor tem uma série de riscos. Além disso, envolve riscos da produção do poço de petróleo, preços do barril de petróleo no mercado internacional e etc. Assim se a taxa de juros cobrada é função dos riscos da operação e essa não é nada trivial, acredito que não ficará barato. O modo mais simples seria obter uma garantia do Tesouro Nacional para se obter juros bem mais baixos, que no caso descrito não foi solicitada. Assim acredito que se pagará mais do que o dobro de juros do que uma operação interna com garantias do Tesouro Nacional”.

Resumo da ópera: O clima não é bom para as prefeituras petrorrentistas, dado que Levy está à beira da queda, os juros lá fora pagos pelos títulos brasileiros superam 15% ao ano; o câmbio continua volátil, o petróleo continua a 50 dólares e sofre os efeitos do acordo EUA/China e a Petrobrás acaba de cancelar o lançamento de títulos de dívida no mercado, por falta de comprador. Portanto,tem muita água pra passar debaixo da ponte. Sem esquecermos que ainda falta também a CEF aprovar internamente, então…

 

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Cunha é a moeda no leilão pelo impeachment de Dilma

Quando se fala de política nacional, há alguns o Ricardo Noblat se tornou referência como jornalista e blogueiro. Considerado inimigo pelo que restou do lulopetismo — tratamento biliar que esse movimento político, a exemplo local do garotismo, reserva a todos seus eventuais críticos —, ele trouxe hoje, aqui, em seu blog, um texto que desvela o ponto em que chegou o Brasil: leiloar entre governo e oposição o impeachment de uma presidente desastrosa na condução da economia nacional, com um dígito de popularidade e beneficiada política direta do maior escândalo de corrupção da história do país, tendo como moeda de paga a sobrevivência política de Eduardo Cunha (PMDB). Se, com trocadilho, por favor, Cunha é a moeda, fique Dilma ou saia, a certeza é do prejuízo de todos nós.

Abaixo, o esclarecedor texto do Noblat, intercalado pelas necessárias charges, também de hoje, de dois mestres na arte do José Renato, meu companheiro neste “Opiniões”: Chico Caruso e o Amarildo.

 

 

Chico Caruso 16-10-15

 

 

Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat

Leilão define a sorte do impeachment

Por Ricardo Noblat

 

Que país é este capaz de reagir com naturalidade à notícia de que Lula e o governo negociam com Eduardo Cunha o sepultamento de pedidos de impeachment contra Dilma em troca da preservação do mandato dele, acusado no Conselho de Ética da Câmara de quebra de decoro parlamentar?

Lula desembarcou em Brasília, anteontem, como parte da operação de resgate duplo de Dilma e de Eduardo. No dia seguinte, o Procurador Geral da República denunciou pela segunda vez Eduardo ao Supremo Tribunal Federal pelo crime de ter escondido na Suíça dinheiro que recebeu como propina por negócios feitos com a Petrobras.

Pensa que Lula se chocou com isso? Que Dilma se chocou com isso? Que alguém dentro do governo ou dos partidos políticos se chocou com isso?

O cadastro de Eduardo é antigo. O modo dele de fazer política é antigo e, como observou outro dia o vice-presidente Michel Temer, peculiar. Logo… Logo o que Eduardo faz ou deixa de fazer não é novidade. É mais do que previsível.

Em 2003, quando o PT subiu com Lula pela primeira vez a rampa do Palácio do Planalto, poderia soar como novidade a disposição de ambos de se render a qualquer tipo de tentação para não abrir mão do poder.

Hoje, não mais. Não mais depois que uma sofisticada organização criminosa inventou o mensalão que desembocou no petrolão.

É por isso que nada mais surpreende um país anestesiado. Nem mesmo o leilão do qual participam o governo e a oposição para ver quem paga mais pela companhia de Eduardo.

Não é ele quem está em jogo, mas o poder. Se Eduardo arquivasse na próxima semana pedidos de impeachment que ainda não examinou, acabaria a história de derrubar Dilma.

O governo teria vencido.

Se admitisse a tramitação na Câmara de qualquer pedido, o processo do impeachment estaria apenas começando. Brilhariam os olhos da oposição, particularmente os de Aécio Neves.

Já, já ou mais adiante, o provável é que o governo vença o leilão. Ele tem muito mais a oferecer a Eduardo. Nada que seja confessável.

 

Amarildo 16-10-15

 

 

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Se vão vender o futuro de Campos, que tenham a dignidade de mostrar o recibo

 

Ponto final

 

 

 

Campos-Brasília-Nova York

Na madrugada de quinta, as redes de WhatsApp que movimentam a política goitacá pulularam com a “venda do futuro” de Campos, como é popularmente chamada a tentativa de antecipar as receitas futuras do município. Pessoalmente em Brasília, o marido da prefeita Rosinha Garotinho (PR) e seu secretário de Governo, Anthony Garotinho (PR), tentava usar a Caixa Econômica como intermediária da operação a preço de dólar com a Bolsa de Nova York. O valor da brincadeira, descontada a diferença do câmbio sempre desfavorável: R$ 1,1 bilhão.

 

Religião-política-dinheiro público

Na mistura indesejada de religião, política e dinheiro (público), o secretário teria chegado a pedir pelo WhatsApp que seus partidários em Campos orassem, como na hipnose coletiva de um culto, pela “venda do futuro”. Depois, teria mandado mensagens pedindo graças aos mesmos correligionários, a maioria paga com dinheiro público, dando a entender que o futuro do município já teria sido vendido à sua revelia, posto que todas as pesquisas e enquetes registram rejeição de 80% a 90% dos campistas à operação.

 

Perguntas laicas

Em Campos, dos seus vereadores de oposição Marcão (PT), Nildo Cardoso (PSD), Rafael Diniz (PPS), Fred Machado (PPS) e Zé Carlos (PSDC), qualquer cidadão pode esperar qualquer motivo, coletivo ou pessoal, para terem ingressado com uma ação popular contra a operação financeira, buscada em Nova York com escala em Brasília. Mas é sem juízo de valor que o promotor Victor Queiroz se manifestou, a pedido do juiz Rodrigo Rebouças, da 5ª Vara Cível. Nem contra, nem a favor, o Ministério Público Estadual (MPE) sugeriu um prazo de 72h para a Prefeitura de Campos informar se a decantada operação existe e em quais termos.

 

O recibo

Enquanto os leitos sobram nos hospitais conveniados sem dinheiro e as unidades públicas de saúde ficam lotadas de doentes com carência de tudo, o que esperar quando se denuncia publicamente que verbas federais do Sistema Único de Saúde (SUS) são retidas pela Prefeitura para fazer caixa, e o Ministério Público Federal (MPF) local se atém em vistorias sem efeito prático além dos flashes da imprensa? Quem se presta a comemorar a “venda do futuro” pode não estar errado. Se o presente é este, o porvir já foi vendido. Que se tenha pelo menos a dignidade de mostrar o recibo.

 

Publicado hoje na coluna “Ponto Final”, da Folha da Manhã

 

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Ministério Público quer em 72h todas as informações da “venda do futuro”

Investigação

 

 

Se a operação financeira de antecipação de receitas, popularmente conhecida como “venda do futuro” realmente já se concretizou, no valor de aproximadamente R$ 1,1 bilhão, como revelou aqui o jornalista e blogueiro Alexandre Bastos, o governo Rosinha Garotinho (PR) terá explicações a dar. Pelo menos é o que o promotor estadual Victor Queiroz pediu na última terça, dia 15, à Prefeitura de Campos, que terá prazo de 72 horas para prestar esclarecimentos, a contar do seu deferimento pelo juiz Rodrigo Rebouças, da 5ª Vara Cível de Campos. Foi ele quem pediu a manifestação do Ministério Público Estadual (MPE) na ação popular 0039697-59.2015, feita para buscar uma liminar e impedir a antecipação de receitas. A ação foi impetrada pelos cinco vereadores de oposição: Marcão (PT), Nildo Cardoso (PSD), Rafael Diniz (PPS), Fred Machado (PPS) e Zé Carlos (PSDC).

Alheio à sempre conturbada política goitacá, o promotor Victor Queiroz disse que se manifestou, a pedido do Judiciário, para saber apenas duas questões: “Primeiro, se a operação de fato existe. Se existe, em quais critérios?”. E ressaltou: “Não tenho nenhum juízo de valor. Só posso fazê-lo após ter acesso a todas as informações”

 

Leia amanhã a íntegra da matéria na Folha da Manhã.

 

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Chicão diz que Grupo Imne foi descredenciado por não ter autorização dos Bombeiros

Em resposta à postagem feita (aqui) no blog em relação ao descredenciamento do Grupo Imne para o atendimento dos pacientes oncológicos e renais pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a secretaria municipal de Saúde enviou a nota que este “Opiniões” republica abaixo:

 

Dr. Chicão de Oliveira, vice-prefeito e secretário de Saúde de Campos (foto: divulgação)
Dr. Chicão de Oliveira, vice-prefeito e secretário de Saúde de Campos (foto: divulgação)

 

O secretário de Saúde e vice-prefeito Doutor Chicão, disse que foram constatadas irregularidades na documentação do Hospital Dr. Beda, como a falta de certidão do Corpo de Bombeiros para funcionamento. As irregularidades foram constatadas pela Comissão de Contratos e Convênios do Conselho Municipal de Saúde:

— O Dr. Herbert Sidney Neves, do grupo Imne, sabe que seu hospital não tem essa autorização dos Bombeiros e que o município está oferecendo todo o apoio para resolver essa questão e manter os serviços à população — informa Doutor Chicão.

Doutor Chicão reforça que a constatação das irregularidades ainda será apresentada aos demais conselheiros e a ele, que preside o Conselho, em assembleia que será realizada na próxima terça-feira (20/10), para posterior envio do parecer aos órgãos de controle. Ele esclarece que essa não representa nenhuma decisão da secretaria de Saúde e, sim, uma avaliação técnica mediante documentos apresentados pela própria unidade.

O não cumprimento dessas exigências administrativas faz com que a própria entidade fique impedida de renovar contrato com órgãos públicos e de fazer nova contratualização de serviços com o governo municipal. A habilitação dos serviços oncológicos e renais não é feita pelo município, e sim, pela secretaria estadual de Saúde. Cabe ao Conselho informar aos órgãos de controle os dados apresentados na avaliação realizada.

 

A nota da secretaria de Saúde foi publicada primeiro aqui, no Blog do Ralfe Reis

 

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