Poema do domingo — Para alongar o caminho do verso de um sírio pagão

Adonis
(Capa do livro de Adonis pela Cia. das Letras)

Tentar resumir toda a complexidade política, religiosa e histórica por trás da guerra civil na Síria, bem como seus reflexos diretos tanto na morte por afogamento do menino refugiado Aylan Kurdi, em 2 de setembro, quanto no massacre de 130 pessoas, a tiros de fuzil e explosões, na última sexta-feira 13, em Paris, é pretensão demais para este prólogo em prosa à poesia. Mas a escolha sobre a vida e a obra do poeta sírio nascido Ali Ahmad Said, que se tornou conhecido no mundo literário como Adonis, é uma tentativa modesta nessa direção.

Só recentemente conheci o autor, considerado o maior nome da poesia árabe moderna, e parte da sua obra. Quando ele esteve presente na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2012, uma amiga muito querida, que também estava por lá, me trouxe de presente o livro “Adonis — [poemas]”, coletânea editada pela Companhia das Letras, elaborada e traduzida pelo também poeta Michel Sleiman, professor de língua e literatura árabe na Universidade de São Paulo (USP), com impecável apresentação de Milton Hatoum, outro escritor, tradutor e professor.

E, como o assunto é poesia, talvez não seja irrelevante lembrar que a Flip de 2012 começou no final de junho, exatamente o mesmo mês e ano em que o oceano Atlântico levou o bar de Neivaldo Paes Soares (1957/2015), instalado na antiga casa de barco da família Aquino, no Pontal de Atafona. Na, literalmente, última noite do bar ainda de pé, já açoitado por Iemanjá em sua face norte, foi com essa amiga que eu e Neivaldo bebemos e proseamos até madrugada alta, iluminados pela luz bruxuleante das lamparinas e lampiões.

Tales de Mileto
Tales de Mileto (624/558 a.C.)

Um ano antes, em junho de 2011, quando da morte de Suad Moussallem, esposa do médico e amigo Makhoul Moussallem, testemunhei aqui a ressalva satírica aos ocidentais feita pelos indivíduos do Oriente Médio esclarecidos em relação à Grécia Antiga, à qual por sua vez se deve a invenção da filosofia, do teatro, da democracia, da individualidade humana e da tal Civilização Ocidental: “Eles pensam que os gregos são deles”. De fato, assim como a filosofia e, no seu rastro, todas as ciências modernas, tiveram início histórico com Tales de Mileto (624/558 a.C.), colônia grega na Ásia Menor, onde hoje fica a Turquia, perto de Bodrum, praia na qual, 26 séculos depois, deu o corpo inerte e pálido do menino Aylan.

Se de Tales se dizia, desde a Antiguidade, ser filho de uma fenícia (libanesa), igualmente fenícia em sua origem, antes de ser agregada à mitologia pagã dos antigos gregos, é a fábula de Adonis, nascido de uma árvore para se tornar um símbolo de mistério da natureza. Na definição de Hatoum: “um deus da vegetação e da fertilidade, ligado ao ciclo de nascimentos, mortes e renascimentos”. A escolha do pseudônimo do poeta sírio, longe do acaso, tem a intenção de reintroduzir essa dimensão mítica e pagã pré-islâmica no mundo muçulmano, parido nas revelações do profeta Mohammad (Maomé), no séc VII d.C., que fundamentariam o árabe como língua literária na poesia do Corão, livro sagrado do Islã.

Charles Baudelaire
Charles Baudelaire (1821/67)

Educado no liceu francês de Tartus, cidade portuária síria, foi a partir de sua audácia, desde adolescente, que Adonis conquistou sua bolsa de estudo. Aos 13 anos, ele declamou sem convite seus poemas ao presidente da Síria, um dos três que o país teria só naquele ano de 1943, em plena II Guerra Mundial (1939/45). Formaria-se depois em filosofia na Universidade de Damasco, capital da Síria, em 1954, onde tomou contato com poetas ocidentais, como os franceses Charles Baudelaire (1821/67), Arthur Rimbaud (1854/91), Stéphane Mallarmé (1842/98) e René Char (1907/88), além do belga Henri Michaux (1899/1984) e do tcheco de língua alemã Rainer Maria Rilke (1875/1926).

Arthur Rimbaud
Arthur Rimbaud (1854/91)

O contato com a poesia pré-modernista e modernista do Ocidente fez com que Adonis fosse um dos principais introdutores, na Civilização Islâmica, desse movimento referencial nas artes e no pensamento humano, ao qual o nazifascismo do italiano Benito Mussolini (1843/1945) e do austríaco-alemão Adolf Hitler (1889/1945) não deixou de ser uma tentativa antropológica de reação. Ao rigor marcial proposto pelos dois ditadores europeus, traduzido em sua Síria e todo mundo islâmico pelo misto de nacionalismo e socialismo do Baath, o poeta se insurgiu assim que prestou serviço militar, dois anos dos quais passou 11 meses preso por “subversão”.

Mallarmé
Stéphane Mallarmé (1842/98)

Por seu verso e sua vida libertárias, as contestações do socialismo nacionalista e do fundamentalismo religioso se tornaram insuportáveis na Síria, forçando o poeta a se mudar em 1956 para Beirute, capital do Líbano e considerada a mais ocidental das grandes cidades de cultura árabe, e depois para Paris. Adonis passou a morar definitivamente na capital francesa a partir de 1985 e, ironicamente, só não foi uma vítima dos terroristas do Estado Islâmico (EI), na sexta-feira 13 de 2015, simplesmente porque deu a sorte de não estar em nenhum dos locais atacados. Muito antes disso, quando ainda morava no Líbano, fundou as revista “Chiir” (1957/64) e depois a “Mawáqif” (“Posições”).

Em “Chiir”, Adonis se preocupou em estreitar o contato da cultura árabe com a ocidental, traduzindo grandes poetas do Modernismo, como os estadunidenses Robert Frost (1874/1963) e T.S. Elliot (1888/1965), à língua na qual o arcanjo Gabriel sussurrou as revelações de Alá ao ouvido do profeta. A partir dessa semeadura, tratou da colheita  na segunda revista, com o objetivo de revelar e/ou consolidar os novos poetas em língua árabe, a partir do conturbado ano de 1968, onde a contestação aberta ao status quo ditou as revoluções estudantis que tomaram as ruas da França, dos EUA, da antiga Tchecoslováquia e do Brasil, contra governos de direita e esquerda.

Nas palavras da crítica literária libanesa Khalida Said, a revolução promovida por Adonis no final dos anos 1960, em sua revista:

 

— “Mawáqif” extrapolou questões literárias e abordou  temas que até então eram tabus, sobretudo ligados ao nacionalismo e à identidade, à inspiração divina, ao texto religioso, à situação da mulher, da universidade, da educação, às relações entre o Ocidente e o Oriente, à violência, à criação artística e à nova escrita. Assim, operava uma revisão da questão da modernidade e de seus conceitos na poesia e na arte, ou ainda na crítica e no pensamento histórico, filosófico, religioso, social e político.

 

Ao fugir do engajamento proposto pelos nacionalistas, desagradou o socialismo laico do Baath, ao mesmo tempo em que promovia uma ruptura formal e temática com a rica literatura clássica do Islã, para o desagrado dos conservadores religiosos. Guardadas as proporções devidas, Adonis conseguiu contrariar o mesmo dogmatismo de pensamento hoje representado no Brasil pelo PT e demais viúvas do Muro de Berlim (1961/89), de um lado, e do fundamentalismo evangélico e das viúvas da Ditadura Militar (1964/85), no outro. Contra ambos, valeu e continua valendo a resposta do poeta em seu corajoso e ainda não datado “Manifesto para o 5 de junho de 1967”, publicado neste mesmo ano em revistas árabes e, em 1968, na francesa “Esprit”:

 

— Para englobar uma dimensão mais profunda e mais vasta: a do homem em sua verdadeira essência. Não é poeta aquele que não situa no coração de sua intuição poética a transformação do mundo.

 

Abu-Nuwas
Abu-Nuwas (756/814)

Importante também destacar que a modernidade que Adonis introduziu não só na literatura, mas na própria estrutura do pensamento de quem o faz em árabe, revolucionando a tradição que os imbecis do EI querem manter intocada sob a mira de fuzis, se deu com um profundo conhecimento daquilo que se propôs a reformular. Em busca de renovação, o poeta a encontrou na tradição, na necessidade de releitura dos seus pares da Idade Média, mais longa da História do homem e na qual o Islã foi a luz do mundo a partir da Falsafa (“Filosofia” em árabe), do diálogo profícuo com o saber greco-romano da Antiguidade — aquele mesmo iniciado com Tales de Mileto, filho de uma libanesa. No seu livro “Introdução à poesia árabe”, de 1971, o sírio explicou a ponte que fez entre os mestres medievos do Islã com os pré-modernistas e modernistas do Ocidente:

 

Abu Tammam
Abu Tammam (788/845)

— Foi a leitura de Baudelaire que mudou minha compreensão de Abu-Nuwas e revelou sua particular qualidade poética e modernidade; a obra de Mallarmé me esclareceu os mistérios da linguagem poética de Abu-Tamman e a dimensão moderna dessa linguagem. A leitura de Rimbaud me conduziu à descoberta da poesia dos escritores místicos em todo seu esplendor e singularidade, e a nova crítica francesa me indicou a novidade da visão crítica de al-Jurjani.

 

O sírio Abu Tammam (788/845), assim como os persas Abu-Nuwas (756/814) e al-Jurjani (1339/1414), são certamente menos conhecidos no Ocidente que seus pares franceses, mas não menos talentosos ou inovadores, na ruptura com a lírica tradicional de seus tempos. E é na certeza disso que Adonis produz sua própria poesia, na qual a tradição literária, como na prosa do modernista estadunidense Ernest Hemingway (1899/1961), traz em si a demanda da experiência individual.

Com base no poeta francês Alain Jouffroy, como sugere Hatoum em sua introdução no livro que me foi presenteado, Adonis é “capaz de questionar frontalmente todos os dogmas e destruir radicalmente um sentido definitivo à vida e à morte, mas sem resignação, sem se limitar à constatação fácil demais do niilismo”.

Calçado na diversidade, sem se submeter a dogmas de ordem divina ou laica, tampouco à vertigem da ausência de sentido da tal pós-modernidade, cessemos de deitar tanta prosa para que se erga, neste domingo carioca antes do show do Pearl Jam no Maraca, o poema do sírio pagão, a rasgar uma nesga de luz entre as sombras do socialismo nacionalista do ditador sírio Bashar al-Assad e seus iguais em oposição no fundamentalismo religioso dos facínoras do EI.

Que os homens consigam alongar o caminho do verso, enquanto aprendem e ensinam a ver o mundo ao redor:

 

 

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Catacumbas da Catedral de Lima, no Peru (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Canções para a morte

 

1.

A morte quando passa por mim é como se

o silêncio a abafasse

é como se dormisse quando eu dormisse.

 

2.

Ó mãos da morte, alonguem meu caminho

meu coração é presa do desconhecido,

 

alonguem meu caminho

quem sabe descubro a essência do impossível

e vejo o mundo ao meu redor.

 

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Artigo do domingo — Mariana: tragédia humana, ambiental, política e da mídia

(Charge do Amarildo)
(Charge do Amarildo)

 

 

Aldir Sales
Jornalista Adir Sales, em Ouro Preto

Por Aldir Sales

 

Após 17 dias da maior tragédia ambiental da história de Minas Gerais e uma das maiores do Brasil, ainda é impossível calcular o tamanho real dos prejuízos depois do rompimento da barragem de Fundão, repleta de rejeitos de minério de ferro pertencentes à mineradora Samarco, em Mariana, na região central do estado mineiro. Oficialmente, sete pessoas morreram, cinco corpos aguardam identificação; outras 12 estão desaparecidas e 637, desabrigadas. Sem contar o dano ambiental irreversível que a onda de rejeitos tem causado no Rio Doce, exterminando a fauna e deixando milhares de habitantes sem água em cidades importantes como Governador Valadares, Colatina e Linhares. Além da total irresponsabilidade da empresa, que lucrou R$ 7,5 bilhões somente em 2014, o desastre de Mariana pode ser dividido em quatro partes. Essa também foi uma tragédia humana, ambiental, política e da mídia. Uma tragédia que vem escancarando uma série de outros desastres em que o nosso país está mergulhado.

A mídia tem uma grande importância após um desastre como esse. É a partir da pressão popular e dos meios de comunicação que as engrenagens da justiça se movem. Com a popularização da internet e das redes sociais, o jornalismo tradicional tem sido contestado. E com razão. Não dá mais para mentir ou maquiar certas informações, pois elas são, cada vez mais, de domínio público e não das corporações. É inadmissível que alguns veículos ainda tentem minimizar as responsabilidades de uma tragédia sem precedentes como essa por causa de interesses comerciais. Dessa forma, não dá para engolir que “a lama da barragem de uma mineradora causou destruição em Minas Gerais”. Não! Lama é apenas água com terra. O que está escorrendo pelo Rio Doce e destruiu a vida de centenas de famílias é rejeito de minério de ferro. É lixo de mineração. E essa mineradora tem nome, é a Samarco, que é controlada pela Vale e BHP, duas das maiores empresas do ramo em todo o mundo.

A Vale lucrou R$ 62,8 bilhões apenas em 2015. A empresa continua investindo em propaganda em vários meios de comunicação, o que coloca em dúvida certas posturas da mídia nessa cobertura. E a internet tem tido papel fundamental como fonte alternativa nesse caso, colocando em xeque os meios de informação tradicionais.

Voltando à tragédia humana, não dá para acreditar em uma palavra da Samarco. Ela tem mentido, omitido e negado informações fundamentais desde o primeiro momento. Para entender melhor, o local onde tudo aconteceu faz parte de um complexo de três barragens de rejeitos. A maior de todas, a de Germano, e outras duas: Fundão e, logo abaixo, a represa de Santarém. Inicialmente, a Samarco anunciou que apenas Fundão se rompeu. No entanto, horas mais tarde, no mesmo dia, a mineradora veio a público dizer que a de Santarém também teria cedido. A Samarco tem impedido o acesso da imprensa e até mesmo dos órgãos de fiscalização ao local com o discurso da “falta de segurança”. Mas por qual motivo? A resposta apareceu quando o Corpo de Bombeiros sobrevoou a área com um drone e constatou que existe uma trinca de aproximadamente três metros em Germano e a barragem de Santarém ainda continua de pé. Somente após a divulgação das imagens, a empresa admitiu o risco real do colapso das estruturas restantes. E se algo pior tivesse acontecido durante esse silêncio?

O distrito de Bento Rodrigues foi tomado por um mar de lixo de minério e nem todos os moradores conseguiram se salvar. Muitos passaram a noite no alto de um morro, dentro de uma mata. A Samarco garantiu que a lama de rejeitos atingiria apenas Bento, no entanto, outros distritos e a cidade vizinha de Barra Longa foram surpreendidos e tomados pela enxurrada. No mínimo, uma incompetência colossal. Como uma mineradora do porte da Samarco, que lida com uma atividade de altíssimo risco e fatura bilhões, não possui um plano de ação em casos de emergência e ainda tem a cara de pau de fazer a população, a imprensa e o governo de bobos?

Do ponto de vista ambiental, ainda nem temos como ter a real noção dos estragos, pois a lama de rejeitos continua avançando pelo Rio Doce. Lixo e produtos tóxicos que estão matando um dos ecossistemas mais importantes da Região Sudeste. Apenas duas semanas depois foi que a Samarco começou a agir para não deixar os rejeitos chegarem ao oceano e, mesmo assim, por causa de uma ordem judicial. Por fim, essa também é uma tragédia política, pois é a comprovação de como nosso sistema é falido. De acordo com levantamento do jornal Estado de Minas, a Vale doou R$ 30,4 milhões a candidatos na campanha eleitoral de 2014, desde a presidência da República aos cargos de deputado estadual. Todos que deveriam estar fiscalizando as ações da empresa antes e depois do que aconteceu em Mariana.

Felizmente, existe um movimento forte de responsabilização da empresa, principalmente em Mariana e Ouro Preto. Também há uma vertente que defende a manutenção da empresa e dos empregos que ela gera na região, mas sem deixar de punir. Desde as vaias ao anúncio do nome da Samarco, em um fórum sobre literatura, até as passeatas em protesto pelas ruas da cidade, Mariana dá uma lição de como ajudar as vítimas sem esquecer das responsabilidades. Mas é preciso que a cobrança continue para que essa tragédia não seja ainda mais ampliada.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Pausa entre poesia e poesia

Após algumas semanas de muito trabalho, o blogueiro vai se permitir uma folga de hoje à próxima segunda, com hiato no domingo, para a já tradicional postagem de poema. Tanto pior que, como estamos no meio das merecidas férias do chargista José Renato, parceiro deste “Opiniões”, o blog fica sem opção de novas atualizações. De qualquer maneira, como a poesia nos espera na próxima, daqui a três dias, que a poesia também por ora se despeça, nos traços da charge do mestre Amarildo sobre os versos do vate, no sentido de quem vaticina, vê antes, para nos salvar previamente da boçalidade humana:

 

Drummond rio Doce

 

 

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Saúde de Campos: Secretário de Rosinha devolve cobranças a Pudim e Marcão

Secretário Geraldo Venâncio devolveu cobranças na Saúde de Campos ao deputado Pudim e ao vereador Marcão (montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Secretário Geraldo Venâncio devolveu cobranças na Saúde de Campos ao deputado Pudim e ao vereador Marcão (montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

“Antes da secretaria estadual de Saúde fazer um interferência na Sáude Pública de Campos, como propôs ontem Geraldo Pudim (PMDB), seria interessante que o deputado pressionasse o governo Luiz Fernando Pezão (PMDB) para enviar a Campos os remédios que está devendo aos doentes do município, alguns desde junho”. Foi o que disse o secretário municipal de Saúde, Geraldo Venâncio (PR), que hoje procurou a redação da Folha para apresentar uma lista de medicamentos que seriam de responsabilidade estadual, mas estariam em atraso.

Novo secretário de Saúde da prefeita Rosinha Garotinho (PR), que reassumiu o cargo após já tê-lo ocupado antes do vice-prefeito Chicão Oliveira (PP), Geraldo buscou reagir ao ex-companheiro de grupo político e partido. Depois de ter saído recentemente do PR, para ser candidato a prefeito pelo PMDB, Pudim ontem disparou (aqui) da tribuna da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), com base em reportagens da Folha:

—  A população de Campos está assistindo a uma disputa que envolve promotores, juízes, Prefeitura, hospital filantrópico e empresa privada. A secretaria estadual precisa entrar em ação para intermediar os mais variados conflitos. O que não podemos é continuar vendo pacientes sofrendo. São vidas que estão em jogo.

Por outro lado, segunda a lista apresentada por Geraldo, 534 pacientes atendidos no sistema público de Saúde de Campos estariam à espera de nove medicamentos, cujo repasse seria de responsabilidade da secretaria estadual.

Confira:

 

lista estadual 1
(Clique na imagem para ampliá-la)

 

lista estadual 2
(Clique na imagem para ampliá-la)

 

O secretário de Saúde de Rosinha aproveitou para estender a cobrança que fez a Pudim, também ao vereador Marcão Gomes (PT):

— Em seus pronunciamentos na Câmara e seus artigos na Folha, Marcão costuma fazer (aqui) muitas cobranças à Saúde Pública de Campos. Como o vereador é do PT, partido do governo federal, ele poderia cobrar o envio de seis tipos de vacinas, dois de soros, além de imunoglobulinas, cujo envio é de responsabilidade do ministério da Saúde, mas que vêm faltando para os doentes do município.

Confira:

Lista federal 1
(Clique na imagem para ampliá-la)

 

Lista federal 2
(Clique na imagem para ampliá-la)

 

Lista federal 3
(Clique na imagem para ampliá-la)

 

 

Confira a reportagem completa amanhã, na Folha da Manhã, bem cedo nas bancas e nas casas dos assinantes

 

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Quando os idiotas reais do mundo virtual atrapalham de verdade

 

Patolino e Pernalonga

 

 

Após um dia de problemas no acesso a este “Opiniões”, foi finalmente detectado o motivo pelo qual o blog passou por dificuldades técnicas (relembre aqui). Ao postar às 23h53 da última segunda (16/11) uma animação do Pernalonga e do Patolino tirando e colocando cartazes “Pray for Paris” (“Ore por Paris”) e “Pray for Mariana” (“Ore por Mariana”), no sentido de satirizar a mesquinhez humana condensada na comparação entre mortos e tragédias, que tanto sucesso fez entre os imbecis reais do mundo virtual, o fato é que arquivo do vídeo veio tão corrompido quanto o objeto da analogia. Não por outro motivo, o blog teve que retirar a postagem do ar.

Mas como rir dos idiotas sempre deixa a alma mais leve, quem quiser se divertir mais uma vez à custa da boçalidade alheia, basta conferir aqui.

 

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Pudim quer interferência na Saúde de Campos e Jair dispara: “Garotinho foi covarde!”

Geraldo Pudim e Jair Bittencourt (montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Geraldo Pudim e Jair Bittencourt (montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Esquentou a chapa para os Garotinho na sessão de hoje da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Usando matérias da Folha da Manhã, o ex-aliado garotista Geraldo Pudim, hoje deputado estadual e pré-candidato a prefeito de Campos pelo PMDB, não só usou a tribuna da Alerj para denunciar o caos da Saúde do município, como cobrou a interferência do governo estadual Luiz Fernando Pezão (PMDB):

— Solicito uma interferência da secretaria estadual de Saúde para que possamos buscar uma solução. Existem muitas vidas em jogo e não podemos ficar de braços cruzados.

Por sua vez, outro ex-aliado dos Garotinho convertido em opositor, o deputado Jair Bittencourt (PR) falou sobre o atentado a tiros sofrido (aqui) pelo ex-prefeito de São Fidélis David Loureiro, na última sexta-feira, dia 13. Citado nominalmente nas insinuações feitas (aqui) pelo secretário do Governo de Campos, Anthony Garotinho (PR), no blog deste, o ex-prefeito de Itaperuna usou a tribuna da Alerj para responder duramente:

— Garotinho foi covarde e leviano!

Com seu blog fora do ar (aqui) boa parte do dia, por problemas técnicos ainda mais graves que o deste “Opiniões”, todas as informações foram apuradas pelo jornalista Alexandre Bastos.

 

Amanhã, confira a cobertura completa dessa sessão do descarrego contra os Garotinho na Alerj

 

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Desculpas a quem não conseguiu comentar hoje no blog

problemas técnicos

 

Todos os leitores deste “Opiniões” que hoje tenham tentado fazer qualquer comentário sobre qualquer postagem, encontraram dificuldades inesperadas, incluindo o próprio blogueiro. O problema já foi devidamente encaminhado ao nosso setor técnico, do qual esperamos uma solução ainda hoje.

Ainda que alheio à nossa vontade, pedimos desculpas a você, leitor, pelo contratempo.

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Após fracasso de 2014, o que a eleição da OAB em 2015 deveria ensinar para 2016

Ponto final

 

 

Sabedoria latina

Pode ser que o presidente da OAB-Campos, Carlos Augusto Monteiro, o Guru (aqui), não tenha tornado sua instituição dependente dos interesses do governo Rosinha Garotinho (PR), exercido de fato pelo marido e secretário de Governo desta, Anthony Garotinho (PR). Mas numa categoria que tem todo seu alicerce teórico na Roma Antiga, a fracassada tentativa do presidente da OAB em se reeleger, ontem, por uma margem de votos bem mais larga que o esperado, prova um velho dito latino: “À mulher de César, não basta ser honesta, é preciso parecer”.

 

Há dúvida?

Não por ter sua esposa trabalhando como DAS da prefeita Rosinha, prática que não é isolada no meio jurídico de Campos. Talvez nem por escrever periodicamente no jornal do grupo de comunicação de Garotinho. Mas se prestar a defender publicamente (aqui) a “venda do futuro” tentada a ferro e fogo pelos governantes do município, a despeito da esmagadora maioria da população ser (aqui) frontalmente contrária à tentativa de antecipação das receitas dos royalties, sem contar a promoção de uma reunião oficial da OAB com o próprio Garotinho, na CDL, são decisões que certamente não ajudaram Guru em sua tentativa de reeleição. Na dúvida, leitor, pergunte você mesmo a qualquer advogado da cidade.

 

Pena de ressaca

Que a lição que Guru foi obrigado a aprender da maneira mais dura, sirva também de alerta ao seu sucessor, Humberto Nobre (aqui), que assume a OAB em janeiro e foi ׅ“acusado” publicamente pela situação, durante a campanha, de já ter sido subsecretário e secretário do governo Rosinha. Mas como o triunfo eleitoral de Humberto e sua vice, Marta Oliveira, foi coletivo, com o peso individual de ex-presidentes queridos na categoria, como Filipe Estefan (aqui) e Andral Tavares Filho (aqui), a promessa de independência feita já na festa de vitória deve ser mantida, sob pena de uma ressaca do Pontal de Atafona em maré alta de lua cheia.

 

Velhas novidades

Na verdade, o exemplo de ontem da OAB deveria abrir os olhos dos dirigentes de todas as entidades de classe e representativas de Campos, a maioria ainda subserviente a quem manda e desmanda nesta planície há 26 anos. São os mesmos olhos que já deveriam estar arregalados desde 26 de outubro de 2014, quando depois de não conseguir ir além do primeiro turno da eleição a governador do Rio, Garotinho foi derrotado (aqui) no segundo em nada menos do que cinco das sete zonas eleitorais do município, ao apoiar Marcelo Crivella (PRB) contra o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB).

 

Homens e ratos

Como, peso da máquina da Prefeitura à parte, todas as pesquisas eleitorais feitas em 2015 apontam (aqui e aqui) uma clara vantagem da oposição no enfrentamento que promete ser figadal na eleição municipal de 2016, quem permanecer cego às projeções de agora pode fazer com que suas próprias instituições colidam de cara contra o muro do novo nas urnas do ano que vem. Afinal, reza a sabedoria popular, que os últimos a abandonar um barco naufragando são os ratos. Os homens costumam ser mais céleres.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Poema do domingo — “Ser pedaço de flor e ainda ter seu perfume celebrado”

Manuela Cordeiro + Festival Drummond 2002
Manuela Cordeiro no Festival Drummond Cem Tempo, em 2002, no auditório do antigo Cefet-Campos, no qual conquistaria o primeiro lugar. Ao fundo, Drummond, que então fazia 100 anos de nascimento, abençoa a jovem de 16 (Facebbok – Manuela Cordeiro)

Conheço a Manuela Cordeiro, 29 anos, desde que ela era ainda uma adolescente. Trabalhava com seu pai, o jornalista Celso Cordeiro Filho, quando este disse que a filha também arriscava versos e me convidou a acompanhá-lo a um festival estudantil de poesia do Auxiliadora, do qual ela participaria. Curioso da produção das gerações posteriores, fui conferir e me impressionei de cara com a maturidade da sua poesia, pela já qual se via alguém precocemente esclarecido sobre a arte de versejar como fim em si mesma, além do narcisismo de quem não sabe projetar além de um confessionário de padre, ou divã de psicanalista, ao escrever um poema.

De fato, desde seu início, foi o outro que empurrou Manuela aos versos. Em sua prosa: “A poesia entrou na minha vida na infância para tentar expressar, em versos, o meu sentimento de perplexidade face às vidas perdidas de outras oito crianças, na chacina da Candelária de 1993”. Talvez antes mesmo de ler Walt Whitman (1819/92), sua colega campista estivesse precocemente ciente da lição encerrada no verso do vate estadunidense: “the other I am” (“eu sou o outro”).

Depois dos festivais estudantis, na transição da sua adolescência à juventude, cruzei sempre com Manuela nos FestCampos de Poesia Falada do início dos anos 2000, quando o Palácio da Cultura ainda abrigava cultura, diferente dos tristes dias atuais. Foi mais ou menos por essa época, na edição do Festival Drummond Cem Tempo, em 2002, numa homenagem organizada pelo também poeta Fernando Leite ao centenário de Carlos Drummond de Andrade (1902/87), realizado no auditório do antigo Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) de Campos, hoje Instituto Federal Fluminense (IFF), que participei e vibrei muito com a conquista do primeiro lugar, em meio a tanta gente boa adulta, pela menina de apenas 16 anos. No mesmo ano, em Washington, ela participaria de um encontro internacional de jovens poetas na capital dos EUA.

Paralelamente à poesia, Manuela desenvolveu sua carreira acadêmica com brilho semelhante. Do Auxiliadora, ela se graduou em ciências sociais na Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), após um intercâmbio na Fairfield University, em Connecticut (EUA). Daí, a campista ganhou o Rio, onde fez mestrado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e o Norte do Brasil. Sua primeira parada foi em Tocantins, onde passou oito meses trabalhando como consultora de uma ONG de Campinas (SP), no diagnóstico e fomento a conselhos comunitários em Araguaína e Xambioá, região próxima ao Bico do Papagaio, nas margens do rio Araguaia, famosa pela luta de guerrilha do PC do B, entre 1968 e 74, contra a Ditadura Militar no Brasil (1964/85).

Concluído o mestrado, a poeta investiu no doutorado em antropologia pelo Museu Nacional e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e foi morar outros seis meses em Rondônia, onde desenvolveu sua tese sobre o processo de ocupação da região de Ariquemes, em homenagem à tribo extinta dos índios arikeme, a partir das políticas do governo militar da década de 1970. Com doutorado concluído na academia e na paixão pelo Norte do Brasil, onde, segundo ela, “aprendi a comer pimenta, a saber o que é farinha de qualidade, a celebrar os rios, igarapés e outros corpos de água”, a opção foi o concurso para o magistério na Universidade Federal de Roraima (UFRR), em Boa Vista, única capital de estado brasileira no hemisfério norte do globo, onde a goitacá mora e trabalha desde 2013.

Na poesia, Manuela guarda como principais influências o pernambucano João Cabral de Melo Meto (1920/99), o matogrossense Manoel de Barros (1916/2014) e o amazonense Thiago de Mello, três autores cuja universalidade se fundamenta no regionalismo e no canto à natureza dos seus versos. Dos poemas que ela enviou a pedido do blog, todos de quando seus “espíritos vivos” ainda não faziam morada no Extremo Norte do país, a escolha recaiu sobre aquele cujas palavras comungam um pecado: “ser pedaço de flor e ainda ter seu perfume celebrado”.

Confira abaixo:

 

 

passarinho
“Pequena demais para ser tudo”, cambacica encara seu outro em Atafona, na manhã de 1º de março de 2015 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Poema surdo

 

A minha casa é a morada dos meus espíritos vivos:

Minhas feridas e o tempo tecido.

Tempo tecido que é teia vã

E marca o trabalho de tecer a cicatriz de amanhã.

Rezo baixo a maculação dos meus passos

diretos, indiretos, esparsos.

Nessas palavras comungo o pecado:

de ser pedaço de flor e ainda ter seu perfume celebrado.

As mesmas mãos cansadas, em versos sintéticos debruçadas

são de repente uma estrofe incompleta.

Minha pobre tinta aquecida na chama da linha solitária

mata a minha sede, mas não cura a minha cara.

A poeira da minha casa empoleirada

na janela da calçada, na porta aberta por esquecer.

Escrever por recorrer não é nada,

triste é quem vive a poeira de sua casa a esconder.

Minhas letras largadas, meu tempo alagado de sonhos,

minhas costas enlanguescidas.

O poema se larga de mim e se alaga, espaço, sufocado

que quando sai para ser lido, poema surdo

já é muito largo para ser título

e pequeno demais para ser tudo.

 

2006

 

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Artigo do domingo — Oração em árabe a um Deus de paz

 

O AFERIDOR

(Manoel de Barros)

 

Tenho um Aferidor de Encantamentos.

A uma açucena encostada no rosto de uma criança

O meu Aferidor deu nota dez.

Ao nomezinho de Deus no bico do sabiá

O Aferidor deu nota dez.

A uma fuga de Bach que vi nos olhos de uma criatura

O Aferidor deu nota vinte.

Mas a um homem sozinho no fim de uma estrada

sentado nas pedras de suas próprias ruínas

O meu Aferidor deu DESENCANTO.

(O mundo é sortido, Senhor, como dizia o meu pai)

 

 

França

 

 

Apesar da sexta-feira 13, tudo corria muito bem. Primeiro foi o Leonardo Moreira, motorista da Folha, quem me levou um exemplar do jornal Lance! do dia anterior, que trazia em suas páginas 6 e 7 uma excelente reportagem sobre os 120 anos de história do Flamengo e uma entrevista com Zico, ídolo maior do clube e do menino que fui.

Depois, numa dessas lembranças involuntárias, eis que o Facebook traz, na lembrança das postagens de 13 de novembro de 2014, alguns escritos sobre a morte naquele dia do poeta Manoel de Barros (1916/2014). Ao lado de João Cabral de Melo Neto (1920/99), Manoel esteve entre as maiores influências ainda contemporâneas e conterrâneas em brasilidade aos meus versos.

Pelo refinamento das suas artes, pela dedicação a elas devotada e pela generosidade pessoal que sempre demonstraram para além da obra, aprendi a gostar de Zico e Manoel como dois amigos chegados de data longa. Pensando nas alterações à órbita da minha vida pelo peso da gravidade de ambos, feliz e grato ao artesão da bola e do verso, cheguei a comentar com mais de uma pessoa próxima: “Hoje, apesar da sexta-feira 13, nada vai estragar meu dia”.

E vai daí que chegou, na vertigem de uma bofetada, a notícia do atentado em seis pontos de Paris, com tiroteios e explosões, matando 129 pessoas e ferindo 352, incluindo dois brasileiros, 90 delas em estado grave, depois assumido pelo Estado Islâmico (EI). A ação chocou um mundo politicamente repartido entre esquerda e direita na capital da França, a partir da posição das bancadas na Assembleia Nacional da Revolução Francesa (1789) — separando a defesa da Liberdade na destra e da Igualdade, na canhota, até os dias de hoje.

Por certo, para quem possui a Fraternidade hasteada dentro de si, não cabe nenhuma comparação mesquinha de tragédias, entre a parisiense com a ocorrida em Mariana (MG). Foi lá, na divisa com o também município histórico de Ouro Preto, que duas barragens de resíduos da mineradora Samarco se romperam, no último dia 5, ao saldo de oito pessoas mortas, 12 desaparecidas e 632 desabrigadas, além de comprometer toda a vida animal e vegetal do rio Doce, que corta a região.

Para além dos animais e plantas, uma vida humana é uma vida humana. Tem o mesmo valor em Paris, Minas ou Síria, na qual o Estado Islâmico reuniu muçulmanos sunitas radicais e vicejou numa guerra civil que já matou 250 mil pessoas, provocando o êxodo de outras 11 milhões, no vácuo da tentativa desastrosa das potências ocidentais de derrubar o ditador local Bashar al-Assad. Alinhado geopolítico da Rússia de Vladímir Putin, ele sucedeu ao pai, Hafez al-Assad, que governou a Síria por 30 anos, até morrer e deixar o país de herança.

Não creio que quem aproveita a noite de sexta-feira na Cidade Luz para, sem aviso prévio, ser abatido a tiros de fuzil disparados por um radical religioso, agonize menos do que alguém afogado na lama tóxica de Mariana ou nas belas águas azul turquesa do Mar Egeu. Ou será que, na sucessão (e banalização) das tragédias, você, leitor, já se esqueceu (aqui) do menino sírio Aylan Kurdi, de apenas três anos, cujo corpo pálido, inerte, com rosto enfiado no cascalho da praia de Bodrum, deu no balneário turístico da Turquia, há pouco mais de dois meses? Ou que aquela criança apenas deu cara aos mais de 2.300 afogados só neste ano, fugitivos da guerra e da fome, no Oriente Médio e na África, num total de duas mortes por hora no Mar Mediterrâneo — o “Mare Nostrum” (“Mar Nosso”) dos antigos romanos?

Ontem, um pouco antes de escrever este artigo, nas entrevistas com testemunhas dos atentados em Paris, li que os terroristas gritavam em árabe, enquanto matavam seus semelhantes ou antes de fazê-lo a si mesmos: “Allahu Akbar!” (“Deus é grande!”). Também ontem, acompanhando a repercussão do caso na democracia irrefreável das redes sociais, notei que o advogado, publicitário e crítico de cinema Gustavo Alejandro Oviedo, argentino caído em Campos, tinha postado em seu mural no dia 12, véspera da tragédia francesa, uma foto do interior da belíssima Mesquita Azul, em Istambul, construída por ordem do grande sultão Ahmed I (1590/1617) para ser maior que a bizantina e cristã Igreja de Santa Sofia, uma diante da outra.

Embora de criação católica na infância e alguma convivência evangélica na adolescência, não tenho religião. Mas creio, sinceramente, na ideia de Deus, em sua força aglutinadora e civilizatória para a humanidade ao longo da História. E, certamente, raras vezes estive num lugar criado pelo homem tão lindo quanto a Mesquita Azul. Fui lá em julho de 2009, com meu filho Ícaro, então com 10 anos, numa viagem de mais de um mês pela Grécia Antiga, hoje dividida entre os estados modernos da Grécia e da Turquia.

Segundo a tradição islâmica, nos descalçamos, lavamos pés, mãos e rostos numa das muitas fontes públicas ao lado do portal de entrada. Ganhamos o interior do templo e, sobre o imenso tapete persa que cobre todo o piso, inebriados pelas orações cantadas dos seis minaretes, naturalmente nos prostramos, até encostar nossas testas ao chão, como faziam os fiéis ao redor. Foi quando repetimos em oração a única frase em árabe que eu sabia e ensinei ao meu filho: “Allahu Akbar!”

Com felicidade e gratidão muito próximas às ensejadas pela arte de Zico e Manoel de Barros, tive a certeza de que estávamos curvados diante de um Deus de paz.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Para mais de sete entre cada 10 campistas, governo Rosinha é exemplo a não ser seguido

(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr. — clique na imagem para ampliá-la)

 

Você quer ver mudanças na maneira de administrar Campos a partir de 1º de janeiro de 2017? Pois para 73,9%, ou mais de sete entre cada 10 campistas, o governo Rosinha Garotinho (PR) serve apenas como exemplo a não ser seguido pelo prefeito que será eleito em outubro de 2016.

De acordo com a pesquisa do instituto Pro4, realizada com 981 eleitores das sete Zonas Eleitorais (ZEs) do município, entre 22 e 24 de outubro, hoje 39,1% do eleitorado campista quer mudança total do sucessor de Rosinha. Foi a maior parcela, seguida dos 34,8% que querem mudar muita coisa. Apenas 14,3% quem poucas mudanças na maneira rosácea de governar, enquanto irrisórios 6,1% desejam total continuidade. Em outras palavras, em cada 10 campistas, menos de um quer manter as coisas como estão. A margem de erro da amostragem é de 3,1 pontos percentuais para mais, ou menos.

Esse sentimento de mudança já tinha sido revelado em outros índices da mesma pesquisa Pro4 divulgada desde a edição último domingo (08/11), na qual foi revelado (aqui) que se tivesse condições jurídicas e se a eleição fosse hoje, Arnaldo Vianna (PDT) seria eleito prefeito mais uma vez, e em turno único, com 55,2% dos votos válidos. Este foi o resultado da consulta estimulada, muito embora o pedetista tenha liderado com folga também a espontânea (19,2%), na qual Rosinha apareceu em segundo lugar (com distantes 3,8%), e seu marido e secretário de Governo, Anthony Garotinho (PR), teve a lembrança de apenas 0,2% dos campistas — exato 0,1 ponto percentual à frente de Beto Cabeludo (aqui), que disputou pelo PTB, mas não venceu a última eleição para vereador.

A liderança de Arnaldo na corrida à sucessão de Rosinha, embora não tão folgada, foi também registrada por uma pesquisa do instituto Pappel, que ouviu 1.400 eleitores entre 21 e 28 de outubro, para conferir ao ex-prefeito 29,43% das intenções de voto na consulta estimulada, seguido do vereador independente Alexandre Tadeu, o “Tô Contigo” (PRB), com 11,29%, e do vereador de oposição Rafael Diniz (PPS), com 8%. A pesquisa foi divulgada (aqui) pelo Blog do Bastos, na Folha Online, na última sexta-feira (13/11), e (aqui) na edição de ontem (14/11) da Folha da Manhã.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Garotinhos não poderão usar “venda do futuro” para pagar dívidas

Charge de José Renato publicada na Folha da Manhã em 15/08/15
Charge de José Renato publicada na Folha da Manhã em 15/08/15

 

 

Se não conseguiu impedir a “venda do futuro”, depois da decisão de hoje do juiz titular da 5ª Vara Cível de Campos, Rodrigo Pinheiro Rebouças, a ação popular  0039697-59.201, dos cinco vereadores de oposição, conseguiu impor os critérios da lei ao governo Rosinha Garotinho (PR) sobre a operação autorizada pelos vereadores governistas na Câmara Municipal de Campos.  Muito embora não tenha proibido a realização da operação que os Garotinho pretendiam realizar, a decisão na prática a inviabiliza, na medida em que impõe uma série de condições e restrições. Entre elas:

 

  1. Realização de licitação — “Some-se a isso o fato de que a alienação de créditos de entes públicos – como, aliás, qualquer venda de bens de sua propriedade – exige a realização de prévia avaliação e submissão a procedimento de licitação. Assim, mesmo se o município buscar contratar com algum banco oficial, deverá se submeter aos ditames do procedimento licitatório. Não se aplica, no caso, a regra prevista no art. 24, VIII da Lei 8.666/93, porque, para a realização deste tipo de operação financeira, estes bancos devem concorrer em igualdade de condições com as instituições privadas, com o objetivo de se alcançar o maior deságio em favor do Município, não havendo qualquer monopólio ou banco público criado para este fim específico que justifique eventual dispensa licitatória.”  (Trecho da decisão)

 

  1. Vedação da utilização das receitas eventualmente arrecadas com despesas correntes (pagamento de pessoal, manutenção e adaptação de prédios, pagamento de fornecedores e conveniados) — “DEFIRO PARCIALMENTE a Tutela Antecipada para que eventual operação realizada pelo Município de Campos dos Goytacazes/RJ, durante o mandato da atual Chefe do Executivo, respeite os ditames da Lei de Responsabilidade Fiscal, especialmente a previsão do seu art. 44, pois a verba objeto desta ´antecipação´ não poderá ser utilizada em despesas correntes, salvo as da Previdência Social, como acima explicado. Ou seja, a utilização da verba decorrente da ´antecipação dos royalties´ não poderá ser utilizada: a) em dotações orçamentárias para a manutenção de serviços anteriormente criados, inclusive as destinadas a atender a obras de conservação e adaptação de bens imóveis; b) em dotações orçamentárias para despesas às quais não corresponda contraprestação direta em bens ou serviços, inclusive para contribuições e subvenções destinadas a atender à manifestação de outras entidades de direito público ou privado. Caso a operação tenha por objetivo ceder direitos relativos a período posterior ao do mandato da atual Chefe do Poder Executivo, o numerário arrecadado poderá ser utilizado EXCLUSIVAMENTE para capitalização de Fundos de Previdência ou para amortização extraordinária de dívidas com a União”

 

  1. As eventuais receitas arrecadadas não poderão ser consideradas para fins do cálculo com despesas de pessoal — “Em ambas as hipóteses, o numerário arrecadado não poderá compor a Receita Corrente Líquida do Ente Municipal, a qual serve de base de cálculo para os percentuais previstos no artigo 19 da Lei de Responsabilidade Fiscal, referentes ao limite para aplicação de receita para gasto com pessoal”.

 

  1. Caso opte por realizar a operação no exterior, deverá cumprir todas as regras previstas na Resolução 43/2001 do Senado, o que não vinha ocorrendo. Em síntese, terá que pedir nova autorização do Senado, específica para a operação, que deverá ser chancelada pelo Tesouro Nacional.

 

Embora não represente os vereadores Rafael Diniz (PPS), Marcão (PT), Fred Machado (PPS), Nildo Cardoso (PSD) e José Carlos (PSDC) na ação, o advogado e blogueiro José Paes Neto analisou a decisão:

— O Judiciário mais uma vez colocou ordem na casa. Não impediu por completo a venda futuro mas colocou condicionantes com o objetivo de moralizar a operação e garantir que a as receitas atendam ao interesse público e não apenas de um grupo político decadente.

Confira abaixo a a reprodução da matéria (aqui) no site do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ) sobre a decisão, seguida da sua íntegra:

 

TJ copy
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Liminar venda do futuro 1
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Liminar venda do futuro 2
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Liminar venda do futuro 3
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Liminar venda do futuro 4
(Clique na imagem para ampliá-la)

 

Leia a reportagem completa amanhã, na edição impressa da Folha, bem cedo nas bancas e na casa dos assinantes.

 

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