70 anos do fim da II Guerra — A César o que é de César

Ao analisar aqui a disputa eleitoral a presidente e governador ainda no primeiro turno, em setembro do ano passado, e projetar acertadamente a vitória final de Dilma Rousseff (PT) e Luiz Fernando Pezão (PMDB), o blog usou como analogia a arte da guerra que definiu os campos de batalha da II Guerra Mundial (1939/45). No maior espetáculo de barbárie da história humana, ao custo final de mais de 60 milhões de vidas, o nazismo alemão de Adolf Hitler (1889/1945) acabou derrotado pelo comunismo soviético tão homicida quanto de Josef Stálin (1879/1953).

Na comemoração destes 70 anos do fim da II Guerra, que só acabaria com a rendição do Japão após receber duas bombas atômicas na cabeça como ultimato do capitalismo yankee, necessária a leitura do excelente artigo do jornalista português Carlos Fino, que o blog pede licença para reproduzir abaixo. Afinal, vivendo num tempo de paz construído a partir daquela guerra, na qual também correu sangue brasileiro e campista, é sábio seguir o antigo dito de um rabi da Galileia: “A César o que é de César” (Mt. 22:21).

Confira:

 

Queda de Berlim em 2 de Maio de 1945
Queda de Berlim em 2 de Maio de 1945

 

 

Jornalista Carlos Fino
Jornalista Carlos Fino

Vitória contra o nazismo — O seu a seu dono

Por Carlos Fino

 

Quando Mário Soares visitou a URSS, em Novembro de 1987 — numa viagem que acompanhei como intérprete da delegação nacional — o primeiro acto público do então presidente português foi depor uma coroa de flores no túmulo do soldado desconhecido, junto às muralhas do Kremlin.

Soares quis assim, nas suas próprias palavras, “prestar homenagem ao povo soviético pela sua contribuição decisiva para a derrota do nazismo”.

O gesto e a declaração foram bastante apreciados em Moscovo, onde a Segunda Guerra Mundial não é uma vaga lembrança de um passado distante, mas algo presente ainda hoje pelo colossal impacto negativo na economia do país e acima de tudo pelo preço de sangue que custou — um total de 26 milhões mortos, estimando-se que cerca de 60% dos lares soviéticos  tenham perdido pelo menos um membro do seu núcleo familiar.

Soares não queria um regime comunista em Portugal e fez tudo para o evitar. Mas isso não o impedia, como político hábil e conhecedor das realidades internacionais, de reconhecer o enorme sacrifício dos soviéticos, em particular do povo russo, para derrotar o nazismo.

Números impressionantes

Os números são, de facto, impressionantes, e não deixam margem para dúvidas: foi o Exército Vermelho, com 11 milhões de mortos, que em batalhas duma violência e grandeza inauditas — como as de Kursk e Estalinegrado — inflingiu as maiores derrotas ao aparelho militar nazi, quebrando-lhe a espinha dorsal, numa impressionante contra-ofensiva que haveria de culminar com a tomada de Berlim.

Basta dizer que nos campos de batalha da URSS a Alemanha sofreu 3/4 de todas as suas perdas na guerra.

Foi também a frente leste que arcou com as maiores destruições. Em 1943, antes da contra-ofensiva vitoriosa, a URSS tinha perdido 2/3 da sua capacidade industrial — uma escala sem qualquer paralelo na frente ocidental.

Notando que os soviéticos pagaram o preço mais elevado da carnificina — 95% das perdas militares dos exércitos aliados — o escritor e jornalista britânico Max Hastings escreve que o Exército Vermelho “foi o principal motor da destruição do nazismo” (in “Inferno: The World at War, 1939-1945”).

Paradoxo trágico

Há um paradoxo trágico nessa vitória que também não pode ser esquecido— o regime estalinista era tão brutal quanto o hitlerista. Na altura da guerra já tinha provocado milhões de mortes e acabaria depois por impor nos territórios libertados ditaduras comunistas que esmagaram a vida democrática dos países do leste europeu.

É isso que explica, ainda hoje, a desconfiança desses Estados — em particular os Bálticos, mas também a Polónia, a Roménia e a Bulgária — face à Rússia e o seu alinhamento preferencial com os Estados Unidos.

Acresce, desde há pouco mais de um ano, o descontentamento ocidental com o regime de Pútin devido ao apoio que este dá aos autonomistas da Ucrânia.

Mas essa realidade trágica passada e esse desconforto presente não apagam o papel histórico que a URSS teve na derrota da Alemanha nazi. E invocá-los para não comemorar com os russos essa vitória histórica não parece ser a melhor política.

Que os Estados Unidos a fomentem, procurando isolar Moscovo, compreende-se. Desde a última guerra, confessadamente, Washington faz tudo para impedir a criação de um pólo de poder alternativo na Europa, fomentando por isso o desentendimento dos europeus com a Rússia.

Mas essa hostilidade só contribui para aproximar a Rússia da China, o que pode revelar-se, a prazo, altamente negativo para os interesses ocidentais, incluindo dos próprios Estados Unidos.

A Alemanha parece entendê-lo. Daí que Merkel, embora ausente da parada da vitória, tenha enviado na véspera o seu ministro dos Negócios Estrangeiros à Rússia e decidido ela própria ir a Moscovo encontrar-se com Pútin no dia seguinte.

Moscovo, por seu turno, parece não ter ainda perdido inteiramente a esperança de reconstituir os laços com o Ocidente. Pútin reafirmou-o agora na parada da vitória ao agradecer a contribuição dos aliados para a derrota do nazismo. E o responsável pela política externa do Kremlin disse há dias estar pronto para reatar os laços com a Otan/Nato.

A anterior aproximação com a China, que terminou em ruptura, deixou marcas negativas na Rússia, e esta preferirá sempre algum equilíbrio entre os dois pólos do que apostar tudo num só.

Resta saber se haverá disposição a ocidente para reatar o diálogo com Pútin, tudo parecendo depender da forma como for ou não resolvido o conflito na Ucrânia.

Por enquanto, a História hesita. Mas o compasso de espera não deverá ser longo.

Seja como for, no que respeita à derrota do nazismo, não pode haver dúvidas — o sacrifício dos soviéticos, em particular dos russos, foi crucial. E é de elementar justiça reconhecê-lo. O seu a seu dono.

 

Publicado aqui, no portugaldigital.com

 

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A mentira une petistas Dilma e Lula ao tucano Beto Richa

Tucano e PT

 

 

Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat

Dilma, Beto Richa e Lula — Construindo mentiras

Por Ricardo Noblat

 

O que foi que na semana passada aproximou a presidente Dilma do ex-presidente Lula e do governador Beto Richa (PSDB), do Paraná?

A construção de uma mentira. Cada um construiu a sua para escapar de situações embaraçosas que lhes causariam danos políticos.

Dilma e Richa precisaram mentir se expondo. Uma vez desmascarados ficam mal na foto. Lula não se expôs. Mentiram por ele. É um craque.

Na última quarta-feira, Dilma confirmou sua presença na cerimônia militar que dali a dois dias marcaria, no Rio, os 70 anos do fim da 2ª. Guerra Mundial. Foi um Deus nos acuda entre os militares das três armas.

Não que ela não fosse bem-vinda entre eles. É que por lá estariam também militares da reserva. E esses, por mais conservadores, preferem manter distância de Dilma.

Imagine se ela fosse hostilizada. Luiz Fernando Pezão (PMDB), governador do Rio, telefonou para Dilma e a aconselhou a não por os pés por lá.

Os comandantes militares fizeram chegar a Dilma o mesmo recado. Sim, eles poderiam até garantir a segurança dela, mas um bom tratamento, não.

Dilma cancelou sua ida. E o que mais fez?

Mandou improvisar às pressas uma cerimônia para na sexta-feira celebrar a mesma efeméride ao pé da rampa do Palácio do Planalto. Ela ficou lá em cima.

À distância segura, assistiu a um modesto desfile militar. Em ambiente fechado, condecorou quatro pracinhas que lutaram contra os alemães.

Foi a primeira vez que se lembrou em Brasília o fim da 2ª. Guerra Mundial. Para todos os efeitos, pois, Dilma não foi ao Rio porque não quis.

Na época da ditadura militar de 64, ela pertenceu a uma organização de esquerda que pegou em armas para derrubar o regime. Viveu anos na clandestinidade. Acabou presa e torturada.

Mais de 40 anos depois, ela está de volta à clandestinidade. Dessa vez como a presidente rejeitada por 70% dos brasileiros. Só ousa se exibir em ambientes fechados. Evita falar no rádio e na televisão

Como Dilma, Richa perdeu o direito de circular livremente. Sua polícia usou bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e cães para reprimir uma manifestação de professores. A violência deixou 213 feridos.

O nome de Richa passou a ser vaiado em qualquer lugar público do Paraná. Para salvar a sua, Richa entregou as cabeças de dois secretários de Estado e a do comandante da PM.

Não bastou. Ele então começou a reescrever o que aconteceu. Antes dissera que a policia reagira a provocações. Agora diz que lamenta e pede desculpas.

Antes admitira ter sido avisado pelo prefeito da cidade e o ministro da Justiça sobre a pancadaria que durou mais de duas horas. Agora afirma que não detinha o comando da operação policial. Jura inocência.

Ora, um único telefonema dele teria abortado o massacre. Perdeu, Richa!

Lula perde com o recém-lançado livro de dois jornalistas uruguaios sobre o governo do ex-presidente José Mujica. Está dito lá que Mujica ouviu de Lula, a propósito do mensalão, que só assim se pode governar o Brasil.

Foi a confissão que Lula jamais fizera. Diante do estrago em sua imagem, Lula providenciou um desmentido. E ele foi feito pelo próprio Mujica. Não convenceu. Mas criou uma versão a ser disseminada em favor de Lula.

Dilma, Richa e Lula, artesãos da mentira.

O mais amador deles é Richa. Que produziu o seguinte desabafo a propósito do massacre dos professores nas ruas de Curitiba:

— Não tem ninguém mais ferido do que eu. Estou ferido na alma.

Comovente!

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

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Crítica de cinema — Bisogno e “7Solidões” não estarão sós

Colyseu

 

7Solidões (1)

 

Mateusinho 47Solidões — As atividades que envolvem a economia criativa vão da gastronomia ao audiovisual, passando pela arquitetura, artes cênicas, design, moda e publicidade. Ou seja, todos os processos que envolvam criação, produção e distribuição de produtos e serviços que utilizem o conhecimento, a criatividade e o capital intelectual como principais recursos produtivos.

No Estado do Rio de Janeiro, a economia criativa representa 4,1% do PIB, acima da média nacional e o maior percentual entre os estados brasileiros. No caso específico do cinema, tema da nossa coluna, os filmes feitos por empresas do Rio representam cerca de 60% das estreias nacionais e 94% da renda e do público totais do cinema brasileiro. Cerca de 50% das produções audiovisuais estrangeiras no Brasil são feitas no Estado.

Enquanto isso, aqui no Norte Fluminense, em Campos dos Goytacazes, vivemos no deserto das políticas públicas de incentivo à capacitação (cursos e oficinas), produção (toda cadeia produtiva da indústria cinematográfica) e difusão (mostras e festivais) do audiovisual, em qualquer formato e plataforma. Entra governo sai governo, faz conferências e audiências, reúne o Conselho Municipal de Cultura e continuamos patinando como no minguado Fundo Municipal de Cultura.

No meio de um pequeno oásis, surge o diretor campista Carlos Alberto Bisogno — realizador dos curtas da Trilogia da Paixão: “Efígie” (2009),  “Vertigem” (2010) e “Neve Negra” (2011) — atuando na produção, direção, roteiro, montagem, fotografia, mixagem e designer de som, lançando com uma enorme determinação  lança o média-metragem (50 min) “7 Solidões” , ficção dramática que passa por 3 fases da trajetória de vida do personagem principal vivido por Gael Nunes (filho do diretor) na infância, Rudá Sanchéz na juventude e Orávio de Campos Soares na fase madura. Leva à reflexão sobre conflitos familiares, traumas, liberdade sexual, companheirismo e  amor. Contando com a generosidade de atores e equipe  técnica, Bisogno realiza um filme que não chega a ser denso com cenas bonitas de contemplação, descontração, sensualidade, sexualidade e conflitos valorizadas por uma trilha sonora de extremo bom gosto, formada por clássicos do rock e jazz de sua lista afetiva.

Entre os destaques, as cenas do menino (Gael) com as torres de energia eólica da praia de Santa Clara em São Francisco de Itabapoana ao fundo, as do lindo casal jovem (Rudá Sanchéz e Maria Clara Oliveira)  nas ruínas da praia de  Atafona, na ponte de ferro em Campos dos Goytacazes e a de sexo no banheiro que foi muito linda e inspiradora. Parabéns aos dois! Destaque também para a participação da atriz Adriana Medeiros em cena, como mãe do jovem (Rudá), no crepúsculo do Cemitério do Cajú e do diretor teatral,  professor e presidente do Conselho Municipal de Cultura Orávio de Campos Soares, muito bem, com narração off,  como o personagem maduro, contemplativo e falecido, na maior elegância com uma bata branca. Ótimas cenas também foram rodadas no Borboletário do Zôo em BH,  no Inhotim em Brumadinho/MG e nos corredores do IFF – Campos dos Goytacazes. Torço para 7Solidões ganhar a estrada e participar de mostras paralelas dos festivais pelo Brasil, já que filmes com essa metragem raramente participam  das competitivas.

No fazer cinema que o realizador consegue aperfeiçoar  suas produções e espero que venham mais filmes de jovens e dos experientes cineastas campistas, espelhados  no recente curta-metragem (14min) “Command Action”, produzido em Rio Claro (SP) a partir de uma rifa e selecionado para a Semana de Crítica do Festival de Cannes 2015 (13 a 24 maio).

Saudoso da década de 70 dos Festivais de Cinema  Super-8 no Cine Dom Marcelo, produzido por Nicolau Louzada,  parabenizo os envolvidos no 7 Solidões e transcrevo parte da fala de Bisogno em uma Audiência Pública na Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes, para implantação do Pólo de Audiovisual em 2009:

“A produção cinematográfica movimenta a economia onde ela se realiza, pois se utiliza do comércio e de serviços: serviços alimentícios locais, hospedagens, papelarias, confecções de figurinos, cenários, mão de obra necessária na composição de uma equipe, como eletricistas, costureiras, especialistas em equipamentos de segurança, entre tantos outros. O cinema, imagem em movimento, vai muito além da sua superficial função de entretenimento, ele suscita pensamentos, propõe-nos modelos e comportamentos, condicionam de uma forma positiva ou negativa a nossa atitude e concepção do mundo. É deste fenômeno tão abrangente que tratamos. A nossa sociedade se baseia na transmissão de conhecimentos e valores e para aplicá-los na vida e, desta forma, passar a mensagem às gerações futuras. Este fenômeno social, político, artístico que é o cinema e o audiovisual não pode se negado a ninguém.”

Precisa desenhar, senhores gestores?

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Do melhor da lida blogueira

Stoa Sul da ágora de Atenas, julho de 2009 (foto de Ícaro Barbosa)
Stoa Sul da ágora de Atenas, julho de 2009 (foto de Ícaro Barbosa)

Já escrevi mais de uma vez que o grande barato da lida blogueira é a interatividade, capaz de gerar nos comentários consequências dialéticas tão ou mais interessantes do que as postagens originais que os causaram. Foi o caso da troca desenvolvida aqui, no diálogo com o comentarista Marcus Vinicius, leitor da coluna Ponto Final, publicada na Folha diariamente nos últimos 37 anos,  desde seus tempos mais felizes sob a pena de Aluysio Barbosa, o Bom. Não por outro motivo, na relevância maior de postagem, segue abaixo:

 

 

  • marcus vinicius

    Caro Aluysio acho totalmente desnecessárias as pesquisas aqui vinculadas:
    1-Que os “GAROTINHOS” estão em queda isto é fato não se discute.
    2-Tentar prever o que irá acontecer em 2016 é praticamente impossível,tendo apenas 50% de chance de estar certo pois pode ganhar o candidato da oposição como o candidato apoiado pelos “GAROTINHOS”.
    3-Estas pesquisas servem mais ao governo que a oposição pois eles podem utiliza-las como objeto de estudo para se encontrar uma estrategia para que se mude o curso da politica desfavorável atualmente aos “GAROTINHOS”.
    4-Tentar dizer que os “GAROTINHOS” estão mortos politicamente é uma inverdade pois, quer queira quer não .eles já escreveram seu nome na historia politica do Brasil.
    5-Se a oposição se descuidar, com a habilidade politica que os “GAROTINHOS”possuem somados a maquina municipal e a consciência do eleitorado,que já esta provado a ultima lembrança é a que fica ,ou seja,o que se define a eleição são os fatos gerados 6 meses antes uma eleição,assim sendo,corremos um sério risco de termos esse grupo politico por mais tempo no poder.

     

     

    • Aluysio

      Caro Marcus Vinicius,

      Talvez não seja desnecessário dizer:
      1 – Li todas as pesquisas Pro4 e Pappel para tentar descrevê-las em matérias. Confio em seus núneros. Mas sei tb que são retratos do instante. Tivesse que apostar para 2016, o faria tendo qualquer candidato do garotismo como favorito.
      2 – Concordo. Sinceramente, acredito que o leitor mais atento dessas consultas mais detalhadas do Pro4 foi Anthony Garotinho, melhor intérprete de pesquisas que pessoalmente vi.
      3 – Sobre o que penso da gravidade exercida pelo garotismo na história da política de Campos, indico a (re)leitura: http://www.fmanha.com.br/blogs/opinioes/2014/10/06/ponto-final-qual-o-tamanho-de-garotinho/

      Abç e grato pela chance do debate!

      Aluysio

       

       

      • marcus vinicius

        Caro Aluysio sou leitor da coluna Ponto Final desde a época do seu saudoso Pai,sei que a Folha não omite a relevância dos “GAROTINHOS”na historia politica de Campos do Rio e do Brasil.
        Só para Registrar nunca votei nos “GAROTINHOS” por discordar da forma como governam.
        Dai a querer jogar uma pá de cal nos “GAROTINHOS” ,embora fosse um grande avanço para nosso município,acho que ainda não será dessa vez pois nunca vi um politico com tanta sede de poder,não tem sábado,domingos ou feriados ele respira politica 24 horas por dia.
        A unica chance de nos livrarmos dos “GAROTINHOS” seria se tivéssemos por aqui uma filial da Lava Jato do Dr.Sergio Moro que faria também muito empreiteiro daqui ver o sol nascer quadrado.

         

         

        • Aluysio

          Caro Marcus Vinicius,

          Queira-se ou não, goste-se ou não, não há como escrever sobre política ou sequer viver em Campos sem orbitar em torno da gravidade mais densa do garotismo. A Folha, enquanto porta voz de sua comunidade, não o seria se não reconhecesse isso como fato histórico e (ainda) presente. Certamente, grande parte disso, como vc bem disse, deve-se à capacidade de dedicação, de trabalho e à perseverança quase inumanas de Anthony Garotinho, sem par em qualquer nome dos que se lhe opõem em Campos.
          Por motivos bem diferentes, sobretudo de natureza moral, é a mesma dedicação, trabalho e perseverança que movem tanto o juiz federal Sérgio Moro, quanto o procurador da República Deltan Dallagnol, no brilhante trabalho conjunto na investigação do Petrolão (confira aqui:http://www.fmanha.com.br/blogs/opinioes/2014/12/21/o-bem-que-um-juiz-e-um-promotor-podem-fazer-a-um-pais/). De fato, é um trabalho que só encontra paralelo (confesso) na Operação Mãos Limpas na Itália, responsável lá por desarticular e prender os envolvidos na sórdida mistura entre política e crime que sempre existiu no Brasil, mas passou a ser institucionalizada no país sob o governo do PT.
          Tão certo quanto infelizmente, não se fez perceber ninguém do mesmo nível e com o mesmo compromisso cidadão na nossa comarca, seja no Judiciário, mas principalmente em nossos Ministérios Públicos Estadual e Federal — este, curiosamente tão ativo, por exemplo, durante o governo Mocaiber. Lamento maior que esse, meu caro amigo, só por vc e os demais leitores do Ponto Final, acostumados com meu pai, serem hoje obrigados a se contentar conosco.

          Abç e grato pela chance de dizer algumas coisas!

          Aluysio

 

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Crítica de cinema — Prende a atenção, mas não empolga

Caixa de luzes

 

 

O franco-atirador

 

 

Mateusinho 2O franco-atirador — Pelas várias cenas em que aparece sem camisa a exibir o físico invejável para um senhor de 54 anos, podemos conferir crédito a analogias como a do crítico Lucas Salgado (aqui), do site “AdoroCinema”, de que o estadunidense Sean Penn estaria querendo seguir os passos do irlandês Liam Neeson, brilhando já na terceira idade em filmes de ação, após ser oscarizado mais jovem como ator de drama? No particular dessa aparente mudança de rumo por parte de Neeson, Oscar de melhor ator por “A lista de Schindler” (1993), de Steven Spielberg, o Gustavo Oviedo já expôs (aqui) neste mesmo espaço de Folha Dois a sua tese, na boa crítica que assinou na semana passada sobre o filme “Noite sem fim”, de Jaume Collet-Serra.

Mas e Sean Penn? Após ganhar não apenas um, mas dois Oscar de melhor ator — por “Sobre meninos e lobos” (2003), de Clint Eastwood, e “Milk – A voz da igualdade” (2008), de Gus Van Sant — estaria ele tentando agora dar uma guinada aos filmes de ação? Poderia ser, sobretudo se levado em conta que seu novo filme “O franco-atirador”, ora em cartaz nos cinemas de Campos, é dirigido pelo francês Pierre Morel, mesmo cineasta de “Busca implacável” (2008), com Liam Neeson como protagonista, cujo sucesso de bilheteria abriu uma franquia com as sequências de 2012 e 2014.

Todavia, quando se detém sobre a filmografia de Penn, vê-se que ele estrelava filmes de ação desde “Juventude em fúria”, de Rick Rosenthal, e do excelente “Colors – As cores da violência”, do easy rider Dennis Hopper. E os dois títulos são, respectivamente, de 1983 e 1988. Se, desde o começo de carreira, o (excepcional) ator já evidenciava que testosterona e adrenalina podem caminhar paralelas com capacidade dramática, nada mudou em sua carreira na maturidade, na qual já tinha encarnado mais recentemente outros papéis em longas de ação, como “A intérprete” (2005), de Sidney Pollack, ou “Caça aos gângsteres” (2013), de Ruben Fleischer.

Em “O franco-atirador”, Penn interpreta o mercenário Martin Terrier, enfurnado em Kinshasa, capital do Congo (ex-Zaire), onde trabalha para uma empresa ao estilo da estadunidense Blackwater (atual Academi), cuja atuação mercenária na vida real tanta polêmica causou nas invasões e ocupações dos EUA no Iraque e Afeganistão. A soldo de uma empresa corporativa de mineração, ele é o escolhido para assassinar um ministro local que quer nacionalizar a exploração dos recursos naturais do seu país, cujas riquezas contrastam com a miséria do seu povo.

Efetuada a execução a sangue frio em nome dos anônimos interesses do capital internacional, o protocolo da sua empresa determina que ele abandone imediatamente o país. Na decisão cumprida com rigor militar, o matador de aluguel deixa para trás a paixão da sua vida, a médica Anie (Jasmine Trinca), que estava naqueles cafundós d’África em missão de ajuda humanitária. Ela é o motivo pelo qual Terrier foi escolhido para assassinar o ministro congolês, opção definida por Félix, interpretado pelo espanhol Javier Bardem, Oscar de coadjuvante por “Onde os fracos não têm vez” (2007), dos irmãos Cohen, e cuja figura talvez seja viril demais ao papel do bundão que só conquista a amada após mexer seus pauzinhos para tirar o oponente da disputa.

Arrependido pelo assassinato e por ter abandonado a mulher da sua vida sem nenhuma explicação, Terrier volta ao Congo anos depois, não como mercenário, mas tentando expiar os pecados desta lida, enquanto pisa sobre as pegadas deixadas na África por quem ainda ama, integrando também ele uma missão humanitária. Mas o passado volta para assombrá-lo, em outros matadores de aluguel e dentro da sua própria mente. Após uma tentativa encomendada de assassinato, ele volta para a Europa, primeiro Londres, depois Barcelona, belas cidades mostradas em tomadas aéreas de alguns de seus principais cartões postais. E, na busca de respostas, reencontra o amor que deixou para trás.

Nesse trajeto de retorno do protagonista, destaque à atuação coadjuvante sempre convincente do inglês Ray Winstone, presença na tela cuja virilidade não deixa a dever a Penn e Bardem (ou Neeson), embora por motivos diferentes.

Com seu final tipicamente hollywoodiano, após todo o sangue jorrado na violência gráfica inaugurada no cinema por “Coração valente” (1995), de Mel Gibson, no lugar de uma suposta guinada de Sean Penn aos filmes de ação que sempre fez, “O franco-atirador” acaba mirando na hiperativa militância política do ator, que também assina o roteiro com Dom Macpherson e Pete Travis, na adaptação do romance do francês Jean-Patrick Manchette. Sem ler o livro, a moral da história do filme se baseia na chatérrima (e manjada) ditadura do “politicamente correto”: o capital corporativo multinacional é o vilão e aqueles que querem salvar o mundo, numa adolescência anacrônica de meia idade, são os mocinhos que vencem no final.

Noves fora sua pretensão maniqueísta, o filme é um thriller de ação que prende a atenção, mas não empolga. Ao desavisado monoglota, pede-se o favor de não confundi-lo com o clássico de 1978 homônimo (só) na tradução em português do Brasil, dirigido por Michael Cimino e estrelado por Robert de Niro, Meryl Streep e Christopher Walken — Oscar de melhor filme, diretor, edição, som e coadjuvante (Walken).

Como ator, não sem motivo, Penn já foi apontado como novo De Niro. Nem mais tão novo, apesar do shape sarado, não envelhecerá melhor por esse filme.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Artigo do domingo — Onde já teve curral, coronel se acostuma com a vaca no brejo

(Charge do José Renato publicada na Folha em 03/10/14)
(Charge do José Renato publicada na capa da Folha de 03/10/14, dois dias antes do primeiro turno da eleição a governador do Rio)

 

 

Jornalista e blogueiro Arnaldo Neto
Jornalista e blogueiro Arnaldo Neto

Vacas magras a caminho do brejo

Por Arnaldo Neto

 

Ao ouvir 426 eleitores de Campos em abril deste ano, o instituto Pro4 constatou queda acentuada na popularidade da prefeita Rosinha Garotinho, falta de confiança, desaprovação (aqui) ao seu modo de governar, percepção de desonestidade e convicção (aqui) de má aplicação dos recursos dos royalties do petróleo. Rosinha chegou aos seus piores índices de rejeição, inclusive comprometendo o projeto de sucessão municipal, ao ponto que (aqui) 65% dos eleitores não votariam em um candidato com seu apoio. Fato que acende um sinal de alerta entre os rosáceos que vislumbram a disputa e, para tal, contariam com o aporte do grupo que venceu praticamente todas as eleições municipais nos últimos 26 anos. No entanto, o perfil do eleitorado mudou, assim como a força de alguns lideres políticos, e ser candidato com a chancela rosácea não seria um bom negócio.

A tropa encabeçada por Anthony Garotinho, atual secretário de Governo da esposa, apresenta índices de rejeição mais altos entre os eleitores que têm curso superior e piora à medida que a renda é mais elevada, segundo os números do Pro4. O fenômeno não é novidade para os líderes do grupo, pois já o enfrenta há muitos anos na capital fluminense, desde que ainda residiam no Palácio Guanabara. Prova disso foi o resultado da eleição do ano passado, quando pelos votos dos cariocas, o então deputado ficou apenas na quarta colocação.

Independente de classe social, a pesquisa aponta em seu quadro geral que a maior parte dos campistas espera (aqui) do próximo prefeito uma mudança total na forma de administrar. O desejo total de mudança, menos de três anos após a prefeita ter sido reeleita em primeiro turno, só pode refletir o descontentamento do seu próprio eleitorado, já que também é acusada (aqui) de não ter cumprido nada ou a maior parte daquilo que prometeu para conquistar votos. Outro fator que pode resumir o porquê do acúmulo de rejeição foi exposto pela pesquisa (aqui) em uma matemática bem simples: a cada 10 campistas, menos de um acredita que a cidade esteja melhorando.

Fragilizado eleitoralmente desde que seu líder foi derrotado por duas vezes em 2014, o grupo rosáceo, com os números da Pro4, sofre mais um duro golpe. No ano passado, a primeira derrota foi a de não ter chegado (aqui) sequer ao segundo turno da disputa pelo governo do Rio. A outra, no mesmo pleito, foi declarar apoio ao senador Marcelo Crivella e, mesmo com a máquina na mão, não ter cumprido (aqui) a promessa de lhe dar a vitória em Campos, sendo derrotado pela oposição que se uniu em torno da campanha do governador Luiz Fernando Pezão.

As sucessivas pancadas atingem em cheio as aspirações do grupo em fazer seu sucessor. A situação fica ainda mais delicada ao se deparar com a péssima avaliação de Rosinha, que de novembro de 2014 para o mês passado teve queda de 7,7% entre os eleitores que avaliam seu governo como ótimo e bom, que agora são 26,3%; concomitante ao crescimento de 12,7% entre os que o consideram ruim e péssimo, que chega a perigosos 39,7%. E a gestão ainda enfrenta queda de arrecadação dos royalties, a principal fonte dos cofres municipais, sem falar no desgaste com o servidor público, ao qual nega um reajuste anual previsto na Constituição, episódio que deve piorar a avaliação da imagem da prefeita.

Até o povo voltar às urnas para escolher o sucessor de Rosinha, após pesquisas assinalarem seu alto índice de rejeição e a quem quer que ela apoie, há muita água para correr pelo rio. Mas daria para ter esperança, já que o velho Paraíba — assim como os polpudos recursos dos royalties — não se recuperou da seca dos últimos meses e na administração pública o período é de vacas magras? Parece inevitável: os números e a atual conjuntura apontam que onde já foi seu curral eleitoral, tem coronel que se prepara para assistir a mais uma vaca ir para o brejo.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Hoje e para 2016, pesquisas revelam decadência dos Garotinho em Campos

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(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr. — clique na imagem para ampliá-la)

 

(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr. — clique na imagem para ampliá-la)
(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr. — clique na imagem para ampliá-la)

 

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(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr. — clique na imagem para ampliá-la)

 

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(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr. — clique na imagem para ampliá-la)
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Por Aluysio Abreu Barbosa, Arnaldo Neto e Mário Sérgio Junior

 

Seja na oposição local, ou até mesmo nos nomes de maior destaque no grupo político dos Garotinho, como o deputado estadual e primeiro secretário da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Geraldo Pudim (PR), o garotismo encerrou um ciclo histórico em Campos, desde que chegou ao poder pela primeira vez em 1989 e lá se manteve nos últimos 26 anos. Mas enquanto o deputado prega a renovação dentro do seu próprio grupo, visando sua sobrevida já com chances de êxito na sucessão da prefeita Rosinha Garotinho em 2016, qualquer um que ler as pesquisas mais recentes dos institutos Pro4 e Pappel, ambas feitas no município durante o mês de abril, pode ser levado a crer de que a avaliação do grupo governista junto ao povo, hoje, atravessa sua pior fase desde que os garotistas retomaram a Prefeitura em 2009, após uma brilhante campanha eleitoral em 2008.

De lá para cá, o fato é que 54% dos campistas atualmente não aprovam (aqui) a maneira como seu município tem sido governado, 57,5% não confiam na pessoa de Rosinha, 50,2% acreditam (aqui) que a prefeita não cumpriu nada (20,2%) ou a maior parte (30%) das suas promessas de campanha, 71,3% acham (aqui) que a cidade está parada (58,9%) ou regredindo (12,4%), quadro de estagnação que a fatia mais numerosa (33,1%) joga na conta da Prefeitura. Esta por sua vez, aplica mal os bilionários recursos dos royalties para 81,2% da população, cuja administração municipal é considerada (aqui) desonesta para 49,5%.

A soma de tantos indicativos negativos na percepção de um governo junto ao povo que deveria ser por ele representado, parece ser a causa das projeções sombrias ao futuro do grupo em 2016: 65,5% dos campistas hoje dizem (aqui) que não votarão em nenhum candidato apoiado por Rosinha quando, daqui a menos de um ano e meio, chegar o momento de sucedê-la. O motivo, através do extenso detalhamento feito pelo Pro4, parece simples: 66,7%, quase o mesmo percentual de quem se nega a votar nos rosáceos, querem (aqui) que o(a) próximo(a) prefeito(a) de Campos mude totalmente (33,8%) ou a maior parte (32,9%) das práticas hoje adotadas por quem governa de direito, e de fato, o município.

Todos esses dados foram fruto do levantamento do Pro4, que pormenorizou sua consulta junto a 426 entrevistados, entre 6 e 24 de abril. Realizada no mesmo mês, a pesquisa do Pappel ouviu 910 pessoas para achar números finais ainda piores aos Garotinho. Segundo sua amostragem, descontados a neutralidade do regular para 37,06%, a avaliação popular do governo Rosinha hoje teria 43% de ruim (11,72%) e péssimo (31,28%), contra apenas 19,9% de bom (15,5%) e ótimo (4,4%). Nesse mesmo questionário clássico, desconsiderando-se o regular (31,9%) como mandam os especialistas, o Pro4 aferiu que os donos do poder em Campos têm hoje 39,7% de ruim (13,4%) e péssimo (26,3%), diante de somente 26,3% de bom (22,8%) e ótimo (3,5%).

Apesar das diferenças em alguns números, na tradução lógica do que há de comum nessas duas pesquisas feitas no mesmo período, hoje quatro em cada 10 campistas consideram o governo Rosinha ruim ou péssimo. Na outra ponta, o resultado também é preocupante ao garotismo, pois em ambas as consultas o movimento que governa Campos há 26 anos aparece muito aquém dos 35% de bom e ótimo recomendáveis pelos especialistas para quem busca a reeleição. E, como todos sabem, Rosinha não poderá tentar se reeleger. De fato, segundo o Pro4, apenas um em cada 10 campistas deseja a continuidade integral do atual modelo de gestão no município.

Mas embora o antigarotismo esteja hoje presente em todas as faixas de idade, sexo, escolaridade e renda dos campistas, o Pro4 não deixa dúvidas onde ele está mais enraizado. Entre os 65,5% que declararam a intenção de não votar em 2016 em nenhuma candidato a prefeito(a) apoiado por Rosinha, 68,7% são homens, 69,6% são jovens entre 16 e 24 anos, 90% têm curso superior e 92,9% ganham acima de cinco salários mínimos.

 

Oposição e situação repercutem os números das pesquisas

 

Da esq. à dir., em cima: Fábio Ribeiro, Fred Machado, Dr. Chicão, Marcos Bacellar, Abdu Neme e Rafael Diniz. Embaixo: Mauro Silva, Marcão, Bruno Dauaire, Papinha, Paulo Feijó e Roberto Henriques (motagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Da esq. à dir., em cima: Fábio Ribeiro, Fred Machado, Dr. Chicão, Marcos Bacellar, Abdu Neme e Rafael Diniz. Embaixo: Mauro Silva, Marcão, Bruno Dauaire, Papinha, Paulo Feijó e Roberto Henriques (motagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

“Não dá para falar de desonestidade. O governo Rosinha foi o único, depois de 10 anos, que teve as contas aprovadas. E os royalties são bem aplicados, como no Bairro Legal”

(Fábio Ribeiro, PR, secretário de Administração)

 

“Quem sou eu para dizer se o governo é ou não desonesto? Temos que cobrar dos órgãos de fiscalização. Existe obra orçada em R$ 10 milhões e já está em R$ 17 milhões”

(Fred Machado, PSD, vereador)

 

“A cidade é outra. Seja na questão da mobilidade urbana; Guarus e Donana foram transformadas. Falar que a cidade está parada ou regrediu, eu não vejo dessa maneira”

(Dr. Chicão, PP, vice-prefeito)

 

“A cidade está parada desde o ano passado. Eles dizem que entregam obras, mas estão todas atrasadas. O que eu ouço na rua, é que o ciclo de Garotinho acabou”

(Marcos Bacellar, SD, ex-vereador)

 

“Essa pesquisa mede um momento. É no Brasil que nenhum político é bem avaliado. Agora, dizer que a prefeita não cumpre nada do que prometeu, eu discordo”

(Abdu Neme, PR, vereador)

 

“Ao invés de cumprir com o que prometeu, diminuindo a máquina administrativa, aumentou e inchou ainda mais, gerando gastos e mais gastos”

(Rafael Diniz, PPS, vereador) 

 

“O sentimento das ruas não é o mesmo que mostra a pesquisa. Não retrata o que eu vejo nas ruas, durante eventos nas quais acompanho a prefeita”

(Mauro Silva, PT do B, líder da bancada governista na Câmara )

 

“A pesquisa espelha o que a gente tem visto nos bairros, escolas, postos de saúde. Encontramos uma insatisfação enorme e uma imensa vontade de mudança”

(Marcão Gomes, PT, vereador)

 

“Quando se tem em uma pesquisa que 92,9% vão votar no candidato da oposição, com a experiência que tenho em campanhas, são números que jamais se confirmariam”

(Bruno Dauaire, PR,deputado estadual)

 

“Isso é resultado de obras paradas, mau atendimento na saúde, os índices ruins no Ideb. Campos teve mais de R$ 15 bilhões de 2009 pra cá e a gente não vê mudança”

(Papinha, PP, deputado estadual)

 

“Por conta dessa crise sem precedente, que afeta não só o município, pouca gente está satisfeita. Acredito que Campos esteja refletindo esse descontentamento”

(Paulo Feijó, PR, deputado federal)

 

“Penso que a população está amadurecida para não cair em conversa afiada de pessoas que estão na oposição ao governo atual, mas não de governos anteriores”

(Roberto Henriques, PSD, suplente de deputado estadual)

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Poema do domingo — O Monstrengo

Sujeito viajado e dono de uma cultura geral muito boa para alguém que confessamente não lê livros, meu irmão Christiano certo dia me enchia o saco com a preponderância que ele enxergava em D. Manuel I (1469/1521), O Venturoso, nas navegações portuguesas, sobre seu primo e antecessor no trono lusitano, D. João II (1455/1495), O Príncipe Perfeito. Argumentei que foi no reinado deste que Bartolomeu Dias (1450/1500) dobrou o Cabo das Tormentas, depois disso chamado Da Boa Esperança, transformando o sul da África em porta de conjugado escancarada entre os oceanos Atlântico e Índico.

Tampouco bastou argumentar que no período de D. João II as navegações eram comandadas por navegadores, não por fidalgos (filhos d’algo ou d’alguém), como passaram a ser após D. Manoel assumir a coroa portuguesa e promover as pazes com seus nobres, que passariam a liderar as expedições seguintes, como seria o caso daquela confiada ao fidalgo Pedro Álvares Cabral. Nesta, na posição subalterna amargada durante todo o período manuelino, por ser “apenas” navegador, não um “filho d’algo”, Bartolomeu Dias faria amizade com os índios no litoral da Bahia, após arpoar um tubarão e dá-lo de presente ao povo nativo da recém-achada Terra de Vera Cruz, como narrou com riqueza de detalhes Pero Vaz de Caminha, escrivão da certidão de nascimento do Brasil — única na história das pátrias.

Bartolomeu se despediria do nosso litoral para encontrar morte das mais trágicas na história da aventura humana, no mesmo cabo em que pavimentou sobre as águas o domínio do Ocidente sobre o mundo, no meio milênio seguinte, mas sem nunca chegar ele mesmo às Índias — Moisés jazido marinho e virgem de Canaã.

Como Christiano insistia no ponto de vista endossado na sua visita ao Mosteiro dos Jerónimos, em Belém, onde está o túmulo de D. Manuel, mas não ao Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na cidade de Batalha, ao meio do caminho entre Lisboa e Coimbra, no qual repousa D. João II, apeei da infrutífera argumentação em prosa. Em seu lugar, passei a recitar ao meu irmão, não sem emoção, a estrofe final do poema “O Monstrengo”, que acabei decorando involuntariamente após tanta ouvi-lo num CD, na interpretação marcante de Paulo Autran.

Na verdade, trata-se do quarto poema de “Mar Portuguez”, segunda parte do livro “Mensagem”, vencedor do prêmio Antero de Quental e único de Fernando Pessoa (1888/1935) publicado no seu tempo de vida, em 1934, um ano antes da sua morte. Quando eu mesmo estive em Portugal, em 2004, numa livraria do Chiado, em Lisboa, cheguei a ter nas mãos trêmulas uma edição da “Mensagem” autografada pelo próprio Pessoa. Foi uma emoção tão grande quanto, no já citado Jerónimos, ver o seu túmulo e o de Camões (1524/80), ao lado de Vasco da Gama (1460/1524), de D. Manuel e da urna até hoje vazia de D. Sebastião (1554/88), O Desejado, cuja crença mística no retorno seria uma das principais causas da Guerra de Canudos (1896/97) — no sertão da mesma Bahia cujo litoral fôra descoberto quase 400 anos antes por Bartolomeu —, e à qual o autor de “Mensagem” dedicou toda a terceira e última parte do seu poema.

Especificamente em relação a “O Monstrengo”, desde que o li pela primeira vez seus versos, na impressão reforçada ao tímpano pela voz poderosa de Paulo Autran, sempre quando encaro um desafio cuja consciência racional adverte me exceder as capacidades, ecoo a última estrofe dentro do crânio como mantra e tento me segurar a esse leme no qual sou maior do que eu, o leme de um povo que quer um mar: o leme De El-Rey D. João Segundo!

 

O monstrengo

 

 

IV. O Monstrengo

 

O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: “Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?”

E o homem do leme disse, tremendo:

“El-Rei D. João Segundo!”

 

“De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?”

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso.

“Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?”

E o homem do leme tremeu, e disse:

“El-Rei D. João Segundo!”

 

Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

“Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!”

 

 

Confira o poema, verso a verso, na interpretação definitiva de Paulo Autran:

 

 

 

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Crítica de cinema — Lata velha

Cinefilia

 

Super velozes e mega furiosos

 

Mateusinho 1Super velozes e mega furiosos — Em cartaz desde a última quinta-feira no Kinoplex Avenida, “Supervelozes e megafuriosos” (“Superfast!”) é mais uma comédia montada a partir da sátira a filmes “sérios” de sucesso — no caso, os da franquia “Velozes e furiosos”, agora no sétimo episódio, o de maior êxito comercial, também em exibição em salas de projeção de Campos há mais de um mês.

Roteirizado, produzido e dirigido por Aaron Seltzer e Jason Friedberg, engrossa a lista de longas-metragens sob o comando da dupla na vertente de paródias: “Uma comédia nada romântica” (“Date movie”, 2006), “Deu a louca em Hollywood” (“Epic movie”, 2007), “Espartalhões” (“Meet the spartans”, 2008) “Super-heróis e a Liga da Injustiça” (“Disaster movie”, 2008), “Os vampiros que se mordam” (“Vampires suck”, 2010) “Jogos famintos” (“Starving games”, 2013). Trata-se, portanto, de um (sub)gênero bem familiar ao público de cinema dos últimos anos no Brasil e no mundo, mas de origens mais remotas, e que, apesar de apresentar uma fórmula desgastada, poderia até render algo melhor (ou menos pior) na trama ora em questão.

Por aqui, no final dos anos 1960 e por toda a década seguinte, a partir de um formato adaptado das comédias populares italianas da época, vários filmes de baixo orçamento plasmaram o que se convencionou chamar de pornochanchada. Com o humor popularesco das chanchadas (transposições do teatro de revista para a tela grande) e a deformação da nudez e do erotismo presentes em fitas do cinema novo, alguns títulos dessa linha até pegaram carona em sucessos estrangeiros de público e crítica. Assim, “Laranja mecânica” (“A clockwork orange”, 1971), de Stanley Kubrick, e “Tubarão” (“Jaws”, 1975), de Steven Spielberg, tornaram-se “Banana mecânica” (1974), de Braz Chediak, e “Bacalhau –Bacs” (1976), de Adriano Stuart.

Na década seguinte, crises econômicas que atingiram produtores e espectadores do cinema nacional e o êxito dos Estados Unidos com filmes-catástrofe e seriados televisivos (estes, apelidados no Brasil de enlatados) passaram a trazer, com regularidade, outro tipo de sátira às salas de projeção da antiga Terra de Vera Cruz: os spoof movies. Foi a saturação da franquia Aeroporto (Airport, 1970 – longa estadunidense da linha catastrofista com três sequências até 1979) que gerou, com “Apertem os cintos… o piloto sumiu” (“Airplane!”, 1980), o filão da paródia (spoof) de arrasa-quarteirões. Juntos ou separados, os pilotos de “Airplane!” (com uma continuação, em 1982), Jim Abrahams e os irmãos Zucker (David e Jerry), assinaram as melhores produções de zombaria com o cinema-pipoca e enlatados: “Top secret!” (1984); os dois primeiros “Corra que a polícia vem aí” (“Naked gun”, 1988, 1991); “Top gang!” (“Hot shots!”, 1991).

Com prazo curto ou curtíssimo de validade, spoof movies (principalmente os deste século, impulsionados pela cinessérie “Todo mundo em pânico” (“Scary movie”), que reabilitou o subgênero, após certo recesso nos anos 1990, são como as antigas chanchadas e suas matrizes no teatro. Estas, nos palcos, passavam em revista os fatos históricos mais pitorescos — narrados nas telas, com o auxílio de marchinhas carnavalescas, por exemplo. Já os filmes de paródia, além de apresentarem piadas muitas vezes mais ao gosto do público estadunidense que ao do brasileiro — justificando-se, talvez por isso, o pífio investimento em terras tupiniquins nessa linha cinematográfica, que praticamente se restringiu a “Copa de Elite”, 2014 — muitas vezes não se concentram em produtos do gênero que anunciam parodiar (“Meet the spartans” parte de 300 somente para aludir a toda sorte de sucessos da temporada, “Date movie” não é só sobre comédias românticas…).

Neste sentido, em “Super velozes e mega furiosos”, várias referências são abrasileiradas, mesmo que ao preço da desatualização — fala-se em Ana Maria Braga, Felipe Dylon, dança da boquinha da garrafa —, e é sintomático que o longa só esteja sendo exibido em sua versão dublada em português (pretende-se, com isso, além de tudo, atingir apenas espectadores menos exigentes?). Para piorar, embora algumas atuações sejam até divertidas — caso das interpretações de Dale Pavinski, para o personagem de Vin Diesel (mais expressivo que o original!), de Andrea Navedo, para o da sua namorada durona dele e de Dio Johnson, para o do de ex-The Rock —, a trama se concentra, basicamente, nos dois primeiros episódios da franquia de que debocha, deixando de lado todas as produções que, influenciadas ou não pelo universo “Fast & furious”, surgiram ou ressurgiram desde o inicio deste milênio (“Carga explosiva”, “Corrida mortal”, “Racha”).

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Maior parte dos campistas acha que governo Rosinha desperdiça os royalties e é desonesto

(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr. — clique na imagem para ampliá-la)
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Por Aluysio Abreu Barbosa e Arnaldo Neto 

 

Para 81,2% dos campistas, o dinheiro dos royalties não é bem aplicado pelo governo Rosinha Garotinho (PR), que por sua vez é considerado desonesto para 49,5% da população. Estes foram alguns dados apontados pela pesquisa do instituto Pro4, que entre 6 a 20 de abril aprofundou-se em entrevistas detalhadas com 426 pessoas, com uma margem de erro de 4,7% para mais ou menos nos resultados finais.

Feita no mesmo período de abril, uma consulta menos aprofundada, mas ouvindo 910 pessoas, foi também feita pelo Pappel, outro instituto de pesquisa local. Apesar de alguma diferença nos números da avaliação clássica de governo entre ótimo, bom, regular, ruim e péssimo, ambos constataram  (aqui) que hoje, quatro em cada 10 campistas consideram a administração Rosinha ruim ou péssima —  na soma, 39,7% para o Pro4 e 43% para o Pappel, cujos números foram sempre um pouco piores para os Garotinho.

Na maior riqueza de detalhes revelada pelo Pro4, em relação à aplicação dos royalties pelo município de Campos, só 14,3% consideram que as bilionárias verbas de indenização pela exploração do petróleo são bem aplicados pelos rosáceos, enquanto 4,5% não souberam ou quiseram responder. Sobre a sensação de honestidade do governo municipal, uma minoria de 32,2% da população o considera probo, ao passo que 18,3% não souberam ou quiseram dar nenhuma resposta.

Na mesma pesquisa da Pro4, revelada numa série de matérias iniciada pela Folha no último domingo (03/05), resposta deram os 54% da população que (aqui) não aprovam a maneira como seu município vem sendo administrado, os 57,5% que não confiam na pessoa de Rosinha, os 65,5% que (aqui) não querem votar em nenhum candidato por ela apoiado na hora de sucedê-la, os 66,7% para quem (aqui) o próximo governo de Campos terá que mudar tudo (33,8%) ou a muita coisa (32,9%) a partir de 2017, os 50,2% que acham (aqui) que a atual prefeita não cumpriu a maior parte (30%) ou nada do que prometeu em campanha, além dos 71,3% dos campistas que (aqui) vêem Campos parada (58,9%) ou regredindo (12,4%) sob o atual governo.

Em todos os resultados, as taxas de reprovação se tornam mais negativas entre aqueles que têm curso superior e renda acima de cinco salários mínimos, reforçando com endosso estatístico o que sempre foi uma impressão generalizada desde a ascensão do garotismo ao poder em Campos, em 1989, justamente quando o município começou a receber os royalties do petróleo: quem estuda e ganha mais, não vota no grupo que domina o município há 26 anos.

 

Info Pro4 09-05-15 (2)
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Info Pro4 09-05-15 (5)
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Garotismo acabou ou ainda anda sobrevive?

Ex-vereador Marcos Bacellar (SD) e o vive-prefeito Chicão de Oliveira (PP)
Ex-vereador Marcos Bacellar (SD) e o vive-prefeito Chicão de Oliveira (PP)

Os dados da pesquisa realizada pelo instituto Pro4, revelados na edição de ontem, mostraram (aqui) que para maioria dos campistas a cidade está parada (58,9%) ou regredindo (12,4%). A culpa pela regressão, aos olhos dos campistas, é dividida entre a prefeita e a presidente Dilma Rousseff (PT). O vice-prefeito Dr. Chicão (PP) põe em xeque a expertise do instituto, por não o conhecer, mas acredita que, “existe um desgaste em nível nacional na classe política, devido à crise financeira nacional e estadual, que reflete na ponta, nas cidades”. O ex-vereador Marcos Bacellar fala em paralisação no país, ressaltando que é mais acentuada na cidade “governada por Rosinha e Garotinho”.

Chicão não quis contestar a veracidade da pesquisa, apenas afirmou diversas vezes não conhecer o instituto. Quanto ao resultado divulgado ontem, apontou que sua avaliação é diferente. “A cidade é outra. Seja na questão da mobilidade urbana; Guarus, Donana, a Baixada foram transformadas. Falar que a cidade está parada ou regrediu, eu não vejo dessa maneira”, avaliou o vice-prefeito.

Já o ex-vereador Bacellar, confia no aumento da rejeição e acredita que esse desgaste vai se refletir nas eleições. “A cidade está parada desde o ano passado. Eles dizem que entregam obras, mas estão todas atrasadas. O que eu ouço na rua, é que o ciclo de Garotinho acabou. Ele perdeu o faro para política. Não tem ninguém que ele possa indicar que vença a eleição”, decretou Bacellar.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Fernando Calazans — Messi e ninguém mais

Aqui, escrevi ainda entorpecido pelo espetáculo que Leo Messi proporcionara minutos antes, na última quarta (06/05), na vitória do Barcelona sobre o Bayer de Munique pela semifinal da Liga dos Campeões da Europa. No dia seguinte, ontem foi a vez de mestre Fernando Calazans fazer o mesmo, pelo mesmo motivo, em sua crônica esportiva publicada hoje na Folha Da Manhã. Como o futebol de Messi, vale a pena conferir:

 

Messi após marcar seu segundo gol e do Barça, numa jogada genial, na vitória de 3 a 0 sobre o Bayer de Munique, na última quarta
Messi após marcar seu segundo gol e do Barça, numa jogada genial, na vitória de 3 a 0 sobre o Bayer de Munique, na última quarta

 

Jornalista Fernando Calazans
Jornalista Fernando Calazans

Messi e ninguém mais

Por Fernando Calazans

 

Minha dúvida é se o placar que melhor exprime o grande jogo é Barcelona 3 x 0 Bayern de Munique ou Messi 2 x 0 Bayern de Munique. Fiquemos com o 3 a 0 do Barça, para não anular o gol do nosso Neymar, muito bem feito, e não por acaso em passe de Messi, mais um. Mas foi Messi, o melhor jogador do mundo, que destruiu o Bayern de Pep Guardiola, na primeira partida da semifinal da Liga dos Campeões.

Messi, e ninguém mais. Quanto a essa última afirmação, não tenho dúvida alguma. Era um jogo equilibrado, de marcação implacável inclusive na frente, posse de bola em igualdade, bem jogado, bem disputado e, vejam só que graça, sem chutões pra lá e pra cá.

Apesar de tão interessante, sem gol. Porque Barcelona e Bayern souberam dificultar a vida, um do outro. É bem verdade que o primeiro tempo só terminou sem gol, porque o goleiro do time alemão é Neuer, o Muro de Munique. É goleiro e é líbero, excepcional em qualquer das funções. Apesar do equilíbrio, e da pouca produtividade de Suárez e Neymar, as jogadas mais perigosas eram do Barcelona, que entretanto paravam nas mãos — e nos pés — de Neuer.

Assim prosseguiu pelo segundo tempo adentro, até até que o Bayern se sentiu na obrigação de procurar mais o gol, e o Barcelona começou a explorar o contra-ataque. E prosseguiu até o momento em que Messi se conscientizou da necessidade de decidir a parada, em sua casa e diante de sua torcida em festa, no Camp Nou.

Aos 32 minutos, Daniel Alves brilhou pela direita e deu o passe para Messi, que teve tempo para ajeitar a bola e desferir o chute que nem Neuer conseguiu pegar.

E, não mais do que três minutos depois, Messi enriqueceu sua obra de artilheiro, entre outros atributos. Partiu com a bola na direção do gol, com um drible deixou o Boateng da seleção alemã estatelado na sua área e com uma cavadinha encobriu Neuer, da mesma seleção, numa jogada de genialidade. Teria sido então Messi 2 x 0 Seleção alemã?

Como se tornou público, até aquele ponto Pep Guardiola estava conformado, com esperança de reação no segundo jogo, semana que vem, em Munique. Pois nem isso Messi se dispôs a conceder a seu ex-treinador. Nos acréscimos, com um passe vertical, fez Neymar, seu parceiro, correr livre até a área e tocar fora do alcance de Neuer: 3 a 0.

O futebol, quando quer, sabe ser impiedoso: o maior nome do jogo no primeiro tempo — Neuer — levou três gols no segundo. A Guardiola resta agora não mais do que um tênue fio de esperança. Os dois, e mais o Bayern de Munique, estão pagando o preço de desafiar Messi.

 

Melhor do mundo 

Não entendia bem quando a mídia se referia a Cristiano Ronaldo como “melhor jogador do mundo”. É certo que ele tinha recebido por dois anos seguidos, 2013 e 2014, a Bola de Ouro da Fifa. Não é pouco. Mas acho que quem escrevia ou dizia “o melhor jogador do mundo” devia especificar que era naquele ano, ou naqueles anos, através do prêmio da Fifa. E não dizer simplesmente que ele era (ou é) “o melhor do mundo”.

Por quê? Porque quem sabe alguma coisa de futebol sabe também que o melhor jogador do mundo NÃO é Cristiano Ronaldo.

Cristiano Ronaldo é muito bom, é ótimo, é craque. Mas ser craque, ser ótimo, ser muito bom — tudo isso é pouco perto de Lionel Messi.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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