70 anos do fim da II Guerra — A César o que é de César
Ao analisar aqui a disputa eleitoral a presidente e governador ainda no primeiro turno, em setembro do ano passado, e projetar acertadamente a vitória final de Dilma Rousseff (PT) e Luiz Fernando Pezão (PMDB), o blog usou como analogia a arte da guerra que definiu os campos de batalha da II Guerra Mundial (1939/45). No maior espetáculo de barbárie da história humana, ao custo final de mais de 60 milhões de vidas, o nazismo alemão de Adolf Hitler (1889/1945) acabou derrotado pelo comunismo soviético tão homicida quanto de Josef Stálin (1879/1953).
Na comemoração destes 70 anos do fim da II Guerra, que só acabaria com a rendição do Japão após receber duas bombas atômicas na cabeça como ultimato do capitalismo yankee, necessária a leitura do excelente artigo do jornalista português Carlos Fino, que o blog pede licença para reproduzir abaixo. Afinal, vivendo num tempo de paz construído a partir daquela guerra, na qual também correu sangue brasileiro e campista, é sábio seguir o antigo dito de um rabi da Galileia: “A César o que é de César” (Mt. 22:21).
Confira:


Vitória contra o nazismo — O seu a seu dono
Por Carlos Fino
Quando Mário Soares visitou a URSS, em Novembro de 1987 — numa viagem que acompanhei como intérprete da delegação nacional — o primeiro acto público do então presidente português foi depor uma coroa de flores no túmulo do soldado desconhecido, junto às muralhas do Kremlin.
Soares quis assim, nas suas próprias palavras, “prestar homenagem ao povo soviético pela sua contribuição decisiva para a derrota do nazismo”.
O gesto e a declaração foram bastante apreciados em Moscovo, onde a Segunda Guerra Mundial não é uma vaga lembrança de um passado distante, mas algo presente ainda hoje pelo colossal impacto negativo na economia do país e acima de tudo pelo preço de sangue que custou — um total de 26 milhões mortos, estimando-se que cerca de 60% dos lares soviéticos tenham perdido pelo menos um membro do seu núcleo familiar.
Soares não queria um regime comunista em Portugal e fez tudo para o evitar. Mas isso não o impedia, como político hábil e conhecedor das realidades internacionais, de reconhecer o enorme sacrifício dos soviéticos, em particular do povo russo, para derrotar o nazismo.
Números impressionantes
Os números são, de facto, impressionantes, e não deixam margem para dúvidas: foi o Exército Vermelho, com 11 milhões de mortos, que em batalhas duma violência e grandeza inauditas — como as de Kursk e Estalinegrado — inflingiu as maiores derrotas ao aparelho militar nazi, quebrando-lhe a espinha dorsal, numa impressionante contra-ofensiva que haveria de culminar com a tomada de Berlim.
Basta dizer que nos campos de batalha da URSS a Alemanha sofreu 3/4 de todas as suas perdas na guerra.
Foi também a frente leste que arcou com as maiores destruições. Em 1943, antes da contra-ofensiva vitoriosa, a URSS tinha perdido 2/3 da sua capacidade industrial — uma escala sem qualquer paralelo na frente ocidental.
Notando que os soviéticos pagaram o preço mais elevado da carnificina — 95% das perdas militares dos exércitos aliados — o escritor e jornalista britânico Max Hastings escreve que o Exército Vermelho “foi o principal motor da destruição do nazismo” (in “Inferno: The World at War, 1939-1945”).
Paradoxo trágico
Há um paradoxo trágico nessa vitória que também não pode ser esquecido— o regime estalinista era tão brutal quanto o hitlerista. Na altura da guerra já tinha provocado milhões de mortes e acabaria depois por impor nos territórios libertados ditaduras comunistas que esmagaram a vida democrática dos países do leste europeu.
É isso que explica, ainda hoje, a desconfiança desses Estados — em particular os Bálticos, mas também a Polónia, a Roménia e a Bulgária — face à Rússia e o seu alinhamento preferencial com os Estados Unidos.
Acresce, desde há pouco mais de um ano, o descontentamento ocidental com o regime de Pútin devido ao apoio que este dá aos autonomistas da Ucrânia.
Mas essa realidade trágica passada e esse desconforto presente não apagam o papel histórico que a URSS teve na derrota da Alemanha nazi. E invocá-los para não comemorar com os russos essa vitória histórica não parece ser a melhor política.
Que os Estados Unidos a fomentem, procurando isolar Moscovo, compreende-se. Desde a última guerra, confessadamente, Washington faz tudo para impedir a criação de um pólo de poder alternativo na Europa, fomentando por isso o desentendimento dos europeus com a Rússia.
Mas essa hostilidade só contribui para aproximar a Rússia da China, o que pode revelar-se, a prazo, altamente negativo para os interesses ocidentais, incluindo dos próprios Estados Unidos.
A Alemanha parece entendê-lo. Daí que Merkel, embora ausente da parada da vitória, tenha enviado na véspera o seu ministro dos Negócios Estrangeiros à Rússia e decidido ela própria ir a Moscovo encontrar-se com Pútin no dia seguinte.
Moscovo, por seu turno, parece não ter ainda perdido inteiramente a esperança de reconstituir os laços com o Ocidente. Pútin reafirmou-o agora na parada da vitória ao agradecer a contribuição dos aliados para a derrota do nazismo. E o responsável pela política externa do Kremlin disse há dias estar pronto para reatar os laços com a Otan/Nato.
A anterior aproximação com a China, que terminou em ruptura, deixou marcas negativas na Rússia, e esta preferirá sempre algum equilíbrio entre os dois pólos do que apostar tudo num só.
Resta saber se haverá disposição a ocidente para reatar o diálogo com Pútin, tudo parecendo depender da forma como for ou não resolvido o conflito na Ucrânia.
Por enquanto, a História hesita. Mas o compasso de espera não deverá ser longo.
Seja como for, no que respeita à derrota do nazismo, não pode haver dúvidas — o sacrifício dos soviéticos, em particular dos russos, foi crucial. E é de elementar justiça reconhecê-lo. O seu a seu dono.
Publicado aqui, no portugaldigital.com




































