Crítica de cinema — Cinema veloz, furioso e monopólico

De olhos bem abertos

 

Velozes e furiosos 7

 

Mateusinho 2Velozes e furiosos 7 — O escritor argentino Jorge Luis Borges, com a elegância e diplomacia que o caracterizava, dizia que quando você está lendo um livro com desprazer, deve abandoná-lo pois ele, naquele instante, não foi feito pra você.

Confesso que pensei nessa frase de Borges ao assistir “Velozes e furiosos 7”, adaptando-a da literatura para o cinema. Um filme que não tinha sido feito pra mim. E não porque o considerasse artisticamente inferior àquilo que poderia ser o meu ‘patamar cinéfilo’. Longe disso. Simplesmente porque é um tipo de cinema que não me causa prazer.

Entretanto, devo reconhecer que “Velozes 7” tem seus méritos. O primeiro (para os produtores) talvez seja a capacidade de manter a franquia no topo das bilheterias. Aqui no Brasil, na primeira semana de exibição levou mais de sete milhões de espectadores, ficando no alto do ranking dos filmes mais assistidos. Não apenas isso, “Velozes 7” superou “Tropa de elite 2” como o filme de maior renda na história do mercado nacional. O sucesso local inclusive supera, em termos proporcionais, o que vem acontecendo nos Estados Unidos.

Semelhante êxito não vem por acaso. Entre os fatores que ajudaram à assistência massiva de público certamente poderíamos apontar a morte de Paul Walker, o co-protagonista, que viera a falecer durante a rodagem, ainda na sua fase inicial (sua participação só pode ser ‘completada’ graças à tecnologia digital). A esse trágico acontecimento, se soma uma boa campanha de divulgação que deu a entender, espertamente, ser este o ultimo filme da saga. Diante do espetacular faturamento, receio que a contagem dos filmes “Velozes e furiosos” atinja os dois dígitos.

Mas não sejamos injustos: há fatores endógenos, próprios do filme, que contribuem para o seu sucesso. Entre eles devemos destacar as cenas de ação, é claro, recheadas de perseguições automobilísticas, explosões, lutas e disparos, e que foram realizadas com a perícia, o exagero e a grandiosidade que se espera nesta classe de histórias. Além disso, agregam-se ao elenco estável da série os nomes de Jason Statham (o astro daquela outra franquia chamada “Carga explosiva”) interpretando aqui o vilão, e Kurt Russell, cuja aparição funciona como uma espécie de homenagem àquela classe de filmes de ação que o astro interpretara na sua juventude, especialmente as “Fugas” de Nova York e Los Angeles, ambos de John Carpenter.

O roteiro, por sua vez, tem a astúcia suficiente para conceber uma história que justifique desde a variedade de paisagens e locações quanto as peripécias dos protagonistas, que deverão cumprir uma série de ‘trabalhos’ encomendados pelo suposto agente da CIA (Russell), com o objetivo final de derrotar o vingativo Deckard Shaw (Statham). De toda sorte, compreender os meandros da trama é totalmente prescindível.

A grande jogada dos produtores de Velozes talvez tenha sido saber mudar a natureza da franquia antes que esta se esgotasse. Até o quinto filme, tratavam-se das aventuras de um grupo de semi-marginais cuja paixão pelas corridas ilegais de rua os levavam a cometer diversos crimes, enquanto eram perseguidos por policiais infiltrados. A partir do sexto, a equipe de Dominic Toretto transformou-se num grupo altamente especializado na realização de ‘trabalhos’ por encomenda das autoridades, visando capturar outros bandidos mais perigosos.

A despeito do conselho de Borges, não posso apenas abandonar “Velozes 7” alegando não ser ele o tipo de filme pra mim. Em primeiro lugar porque a função de crítico me obriga a analisá-lo, entendê-lo e orientar o leitor para que saiba de que classe de filme se trata. Mas também porque não há para onde fugir: os filmes da categoria de “Velozes e furiosos” praticamente monopolizam as salas a nível mundial. Que fique claro: o problema não é que seja mau cinema (acho que não é); o problema é que seja o único cinema.

 

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Sarau em Homenagem a Kapi, no Sinasefe, em 2 de maio

Kapi

 

 

“Eu quero que a Alemanha se dane! Eu quero falar é de Kapi”. Foi com essa assertiva que o professor Marcelo Sampaio realinhou o debate que se seguiu a apresentação do documentário “Pina”, sobre o trabalho da bailarina e coreógrafa alemã de dança Pina Baush, no Cineclube Goitacá, no último dia 8 de abril, seis após a morte do diretor teatral, turismólogo e poeta Antonio Roberto de Góes Cavalcanti, o Kapi. Naquilo que, de maneira espontânea, acabou substituindo sua missa de sétimo dia, quase todos os presentes passaram a comungar lembranças de Kapi, a partir da provocação do Marcelo. Presente àquela quarta de Cineclube convertida numa pungente e bem humorada sessão de catarse coletiva, o poeta, professor, artista multimídia e produtor cultural Artur Gomes recebeu e acolheu a proposta de promover um sarau dedicado a Kapi, baseado em sua obra literária. E, numa outra feliz coincidência, daquelas que o filósofo (alemão) Nietzsche dizia não haver, o evento acabou marcado para o próximo dia 2 de maio, quando se completará um mês sem o artista campista.

O Sarau em Homenagem a Kapi começará às 19h do primeiro sábado de maio, na sede local do Sindicato Nacional dos Servidores Profissionais da Educação Básica e Profissional (Sinasefe), na rua Álvaro Tâmega, nº 132, como o Artur anunciou aqui, na democracia irrefreável das redes sociais. A entrada é gratuita, mas doações de material de limpeza e higiene pessoal estarão sendo arrecadados para a Casa Irmãos da Solidariedade, que cuidou de Kapi em seus últimos meses de vida, como vem fazendo há décadas com os soropositivos do município. O sarau contará com a presença do violonista fidelense Paulo Celso Ciranda, que apresentará várias músicas que compôs sobre as letras de Kapi. Atores, autores e amigos do homenageado também interpretarão seus poemas, incluindo “Canção amiga” e “Goya Tacá Amopi”, vencedores do FestCampos de Poesia, respectivamente, em 2002 e 2005.

Numa cidade que não se destaca pela memória ou pelo valor dado aos seus criadores, esse sarau para Kapi mantém viva não só a obra de um grande artista, como a esperança de que a arte em Campos possa conhecer melhores dias. Para quem tem algum compromisso com ela, comparecer deveria ser uma obrigação. Felizmente, não é.

Abaixo, fragmentos de uma obra que não será esquecida:

 

ACENOS

 

Quem parte

deixa saudade,

deixa acenos,

esquece livros.

Deixa tolhido

um mundo de desejos,

vida desarrumada

e a gente sem prumos.

Quem fica

fica de lembranças,

fica mais criança,

fica solidão.

Quem parte,

parte inteiramente,

parte de repente

sem um avisar.

Quem fica

fica de inocente

regando as sementes

de um tal regressar.

Quem fica

fica sem despedida

fica sem guarida

e morre um pouco em vida

pois quem parte

parte corações

mata as ilusões

e parte.

 

 

 

BRILHANTE

 

mil coisas disseram

eu muito entendi

muito sei

entender também rola por aí

pessoas sabem que são

bem mais que prazeres

a coisa vital

entender

pode ser pele a pele igual

pessoa comum

brilhante é ser tudo igual

bem diferente

de gente que não sabe ser

 

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Crítica de cinema — Animação e história: ficção mostra a realidade

Bagdá Café

 

cada um na sua casa

 

Mateusinho 4Criadora das aclamadas sequências “Shrek”, “Madagascar”, “Kung Fu Panda”, a americana DreamWorks Animation voltou à cena, após “Os Pinguins de Madagascar” e uma crise gerada por prejuízos em bilheterias e demissões no último ano, com a animação “Cada um na sua casa”. Dirigida por Tim Johnson, a produção americana conta com vozes de Rihanna, Jim Parsons, Jennifer Lopez e Steve Martin.

Após uma ameaça de invasão dos inimigos górgons, os extraterrestres boovs se dirigem para o planeta Terra. Ao chegarem, os novos habitantes retiram os humanos de suas cidades e os enviam para outros locais. Dominados os “selvagens nativos”, conforme afirma o capitão dos boovs, Smek, o grupo assume residências, ruas e a nova realidade em um local estranho e distante de sua origem. O líder acredita que os humanos precisam de seus ensinamentos por serem simples e atrasados. Entretanto, a adolescente Tip e seu gatinho de estimação continuam na Smeklândia, novo nome dado a Terra. Em sua busca pela mãe, a menina encontra Oh, um boov que se une a ela por estar fugindo dos alienígenas.

Composta por cenários coloridos e bonecos que mudam de cor de acordo com o humor — característica semelhante a personagens da saga “Harry Potter”, da britânica J.K. Rowling —, a animação faz alusão, de maneira lúdica e leve, a importantes questões históricas e sociais, como a ocupação indevida de terras por grupos que julgam inferiores as pessoas que as habitam. Ao pousarem no planeta Terra, os boovs iniciam a colonização — termo, inclusive, utilizado no filme — com o intuito de dominação e modificação de hábitos e costumes. A fuga dos ETs, que se desesperam com medo de uma invasão de górgons, traz à memória a vinda da Família Real para o Brasil, em 1808. A mesma atitude de entrega e covardia (um dos lemas dos extraterrestres, junto à ideia de liderança, fuga e “picar a mula”) é um dos pontos da ficção e de certos acontecimentos da História do Brasil.

Depois de fugir de Portugal devido a ameaças do francês Napoleão Bonaparte, a corte aportou em Salvador e, em seguida, no Rio de Janeiro, onde permaneceu até 1822. A estada dos portugueses trouxe prejuízos — principalmente financeiro — para a população, cuja essência havia começado a ser dizimada com a colonização do país, nos anos de 1500. Este pode ser considerado outro aspecto comum ao filme e a fatos do Brasil. Na terra recém-descoberta, os colonizadores passaram por uma fase de estranhamento quanto ao comportamento e ao hábito dos nativos, assim como os boovs em relação à cultura humana, e tentaram modificar a realidade na qual eles viviam. Em determinada cena, Oh, sem saber a real função dos objetos terrestres, transforma rolos de papel higiênico em enfeites para festa. Os sentimentos que envolvem as pessoas também são desconhecidos pelo grupo dos extraterrestres.

Em diferentes momentos da animação, os alienígenas mudam as principais características das cidades em que chegam, após realocarem as pessoas, por se considerarem os únicos capazes de decidir o que pode ser útil ou não. É feita a retirada de bicicletas, lixeiras e outros objetos comuns à vida humana, mas não à boov. Eles fogem dos górgons tal como os portugueses fugiram de Napoleão Bonaparte por medo de terem suas terras dominadas.

O exercício de estranhamento a partir do ponto de vista dos boovs, no entanto, é uma atividade interessante para que crianças e adultos possam compreender e aceitar as diferenças entre os inúmeros grupos sociais existentes no planeta Terra, colaborando, mesmo indiretamente, para ajudar a manter as peculiaridades e a história de cada ser humano.

A partir da mudança do ponto de vista de Oh quanto à transferência dos extraterrestres para a Terra — a suposta atitude certa do capitão Smek se torna errada a partir da ampliação do conhecimento do boov sobre a espécie humana — e o respeito com que ele trata a adolescente Tip, “Cada um na sua casa” oferece ao público, em aproximadamente 1h30, momentos de ensinamentos que tornam a diversão na sala de cinema adequada para reflexões.

 

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Crítica de cinema — Um robô trapalhão

Cinematógrafo

 

Chappie

 

Mateusinho 3Chappie — Nos filmes produzidos ou coproduzidos nos Estados Unidos, os ETs vêm à Terra para pilhá-la, salvá-la ou transformá-la em campo de batalha sideral. Particularmente num, eles vêm fugidos da miséria e se instalam na África do Sul, residindo e favelas paupérrimas e sendo discriminados por brancos e negros. O filme é um libelo ao racismo, mostrando que ele é um fenômeno de que qualquer ser humano pode ser vítima, ao mesmo tempo que está muito arraigado nas sociedades. Foi com este assunto que o diretor sul-africano Neill Blomkamp. estreou no cinema. Seu filme “Distrito 9” tornou-se um clássico. Em seguida dirigiu “Elysium” (2013). Cooptado pelo cinema dos Estados Unidos, ele volta com “Chappie”, com roteiro do próprio Blomkamp e de Terri Tatchell. O filme é desenvolvimento do curta “Tetra Vaal ”, dirigido pelo diretor em 2004.

Ambientado em Joanesburgo, África do Sul, ele mostra o profundo contraste entre ricos e classe média, morando no miolo de uma cidade tipicamente ocidental, e os pobres, morando em favelas piores que as do Rio de Janeiro. A atividade dos favelados que chama a atenção no filme é a transferência de renda por meio de violência. São as gangues armadas, distintas das gangues de gravata que também transferem renda por meio da corrupção no Brasil.

Diante de tamanha violência, uma empresa (Tetra Vaal) é contratada pelo governo para cuidar do policiamento da cidade, substituindo os policiais humanos por androides. Resolve-se o problema? Evidente que não. Como não há nenhum programa de promoção social, a marginalidade continua, só que agora combatida por super-policiais que podem ser destruídos sem que os humanos sofram com a morte de pessoas. Basta reparar os robôs danificados ou simplesmente substituí-los por outros.

A empresa é dirigida por Michelle Bradley (Sigourney Weaver) e nela trabalham o jovem engenheiro Deon Wilson (Dev Patel), que deseja dotar os androides de consciência e sentimentos humanos, o militar aposentado Vincent Moore (Hugh Jackman), empenhado em desenvolver um super-robô que superará os que estão em operação. Deon consegue alcançar seu intento e cria um androide humanizado semelhante a Pinóquio, como observou Gustavo Oviedo. Ele, porém, é sequestrado por três facínoras, entre eles uma impiedosa mulher. O robô é criado pela trinca e toma a mulher e um homem como pais, reconhecendo que Deon é seu criador.

Depois de cometer vários crimes, o androide adquire plena autonomia e muda para o lado do bem. A ideia de criar um robô plenamente humano seria boa se já não tivesse sido pensada muitas e muitas vezes antes. O diretor declarou numa entrevista que desejou colocar em discussão a questão da consciência. Tudo bem, mas ele passa ao largo das neurociências nesta discussão. Provisoriamente (porque em ciência tudo é provisório), tem-se por assentado que a consciência é uma emergência imaterial do supercomplexo cérebro humano, formando ao longo de pelo menos sete milhões de anos, sem considerar a história anterior do cérebro animal. Em outras palavras, o cérebro humano é material, ocupa quase todo espaço da caixa craniana, pode ser tocado e cortado quando exposto. A consciência e os sentimentos humanos podem ser externados, mas não tocados. São, portanto, imateriais, mas intimamente ligados ao cérebro como emergências de seu funcionamento hipercomplexo.

A criação de uma consciência artificial e externa ao ser humano não é trabalho de engenheiros, mas de neurocientistas, que não têm esperança de conseguir um dia o êxito do engenheiro Deon. As máquinas naturais não podem ser igualadas por máquinas artificiais. Por isso, o filme soa superficial e imaturo. Também não convincente com uma mulher cruel transformando-se numa doce mãe de um robô. Para falar a verdade, até mesmo meio caricato ao tornar uma mulher endurecida pela sobrevivência em meio violento numa terna e carinhosa mãe. Meio maniqueísta em traçar em linhas claras a distinção entre um engenheiro do bem lutando contra um militar do mal. Em simplificar a consciência humana num programa que pode ser armazenado num pendrive e transferido para robôs ou vice-versa. Mas o contato com más companhias pode influenciar uma pessoa. Parece que ficou meio enlatado ao ser cooptado pelos Estados Unidos. Enfim, “Chappie” é um filme mal resolvido.

 

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Crítica de cinema — Muita ação, veículos de sonhos e destreza surreal em 3D

Colyseu

 

 

Velozes e furiosos 7

 

Mateusinho 4Velozes e furiosos 7 — Poucos objetos promovem tanta sedução quanto os carros fazem com os homens . O carro seduz porque é uma espécie de extensão do corpo. Dá a sensação de que o indivíduo se torna mais potente, menos lento, mais robusto, menos vulnerável.

A sedução passa, primeiramente, pela potência do motor. Curiosamente, a unidade de medida dos motores é “cavalo de força”. Uma alusão à masculinidade dos equinos e a força de seus corpos. Quanto mais cavalos um motor possui, mais virilidade sugere. Corridas de carro são mania mundial. A relação entre velocidade e masculinidade já mereceu estudos psicológico-comportamentais interessantes.

Para o psicólogo Francesco Albanese, que há anos estuda psicologia do trânsito, é preciso voltar a Freud e à psicanálise. Por estar associado subjetivamente a atributos considerados viris, como velocidade e potência, o carro se presta melhor a ser alvo de um processo de identificação masculina. E onde há identificação, há projeção da própria personalidade. Há, porém, uma explicação neurobiológica para o fascínio pelas altas velocidades: a consciência (ainda que parcial) do risco desencadeia no organismo reações neurológicas e hormonais. A elevação dos níveis de adrenalina induz à hiperatividade do sistema nervoso e confere uma espécie de euforia artificial que, para alguns, pode resultar em satisfação. O carro dá ao motorista a oportunidade de experimentar seu corpo elevado a velocidades que, por si só, não alcançariam. Correr faz parte do sonho humano por superação.

Nas telas, o fascínio por automóveis e velocidade já foi explorado em produções  de grande sucesso  como  “Juventude transviada”(1955) com James Dean ao volante de um Chevrolet Special Deluxe 1941 ; “Viva Las Vegas”(1964), com Elvis Presley; na série 007, com Sean Connery e outros atores no papel do agente secreto James Bond; na comédia dirigida por Robert Stevenson “Se meu fusca falasse” (1968) e na animação japonesa “Speed Racer”(60’/70’) com seu poderoso Mach5.

O estúdio Universal Pictures lançou o 7º filme da sua franquia “Fast and furious”, “Velozes e Furiosos 7” no Brasil. Com direção de James Wan (de “Jogos Mortais”,de 2004; e “Invocação do Mal”, de 2013) e produção de Michael Fottrell, Vin Diesel e Neal H. Moritz, que contaram com US$ 230 milhões para manutenção do elenco, efeitos em 3D, equipes de dublês, locações maravilhosas e muito carro bacana para destruir. Segundo o Wall Street Journal os veículos foram destruídos durante as filmagens do longa em Colorado, Atlanta e Abu Dhabi. A lista dos possantes que foram para o ferro-velho é de deixar qualquer apaixonado por carros babando: foram muitos Mercedes-Benz, um Ford Crown Victoria e um Mitsubishi Montero.

No elenco, atores já conhecidos dos filmes anteriores da franquia como Vin Diesel (“O Resgate do Soldado Ryan”, de 1998; “Eclipse mortal”, de 2000; e “Riddick — A ascensão”, de 2013) é o alpha da equipe motorizada Dominic “Dom” Toretto. Diesel, além de protagonista, é produtor da franquia V&F. Paul Walker (“ Mergulho radical”, de 2005; “Contagem Regressiva”, de 2013 e “Distrito 13”, de 2013) vítima fatal de um acidente automobilístico em novembro de 2013, antes do fim das filmagens, é Brian O’Conner , bem treinado e corajoso membro da equipe de Dom, viciado em adrenalina com dificuldades em levar uma vida tranquila com sua esposa, Mia Toretto, interpretada pela bela atriz panamenha (filha da modelo brasileira Maria João Leão de Souza) Jordana Brewster (de “Uma história a três”, de 2001; e Annapolis, de 2006). Jason Statham (ator e lutador de artes marciais britânico – “Collateral”, de 2004, “Carga Explosiva” de 2002, 2005 e 2008; além de “Os Mercenários”, de 2010, 2012 e2014) é o frio e explosivo vilão Deckard, que não deixa nada de pé em busca de sua vingança. Dwayne Johnson ou The Rock (“A Rocha” — ex jogador de futebol americano e lutador de wrestling profisssional  (“O escorpião rei”, de 2002; e “Hércules”, de 2014) interpreta o chefe da agência de inteligência norte americana Luke Hoobs (Tyrese Gibson de “Transformes”, de 2007; e “Legião”, de 2009) como o engraçadinho Roman Pearce ( Ludacris, ator e rapper americano) de Tej, o especialista em tecnologia. Michelle Rodriguez (“Girlfight”, de 2000; “Residentl evil”, de 2002; “Avatar”, de 2009 e “Resident evil: Retribution”, de 2012) como Leticia “Letty” Ortiz, esposa de Dom que sofre de amnésia temporária. Nathalie Emmanuel (“Twwnty8k”, de 2012; e “Games of thrones”, de 2013) como a toda linda hacker Megan, criadora do programa “Olho de Deus”, que consegue acessar  todas as câmeras de vigilância e celulares do mundo. Participação de Kurt Russell (“Fuga de Nova York”, de 1981; “Stargate”, de 1994; e Vanilla Sky”, de 2001) de Mr.Nobody.

Na trama, a equipe motorizada de Dom precisa resgatar a hacker, que está nas mãos de uma gangue também motorizada, e o dispositivo contendo o programa Olho de Deus, para deixarem de ser a caça e virarem caçadores do vilão vingativo e explosivo Deckard. Além das várias explosões, muitos tiros e lutas corporais eles encenam um salto de um avião, com seus carros mexidos, de paraquedas.  A seguir, aterrissam em estrada sinuosa no alto de montanha no Azerbaijão entre floresta e precipícios. Aprontam na festa de arromba do príncipe árabe (estilo ostentação) conseguindo, com um super-carro (Lykan Hypersport – de 0 a100 Km/h em menos de 3 segundos e valor US$ 11 milhões),  voar entre o alto de três torres em Dubai, acabando em uma galeria de arte da terceira torre, atropelando estátuas de terracota chinesas. O grand finale fica para as cenas noturnas nas ruas de Los Angeles, onde a equipe está em casa. A disputa entre a turma de Dom e os vilões, envolve carros preparadíssimos (claro), drones e helicópteros hiper armados. As perseguições e combates destroem com força as ruas e prédios da cidade para no final amansar em uma praia pacata da República Dominicana. Os efeitos convincentes em 3D, os super-carros, as locações, as lindas moças e o número generoso de cenas de ação com lutas entre os fortões, tiroteios, explosões e perseguições com destrezas surreais, deixam os espectadores fixados na tela.

A antiga fórmula da franquia continua dando  certo. Acrescido da comoção com o falecimento do astro Paul Walker, “Velozes e Furiosos 7”  se transformou correndo (com trocadilho) no líder de bilheteria 2015 em mais de 67 países, e a arrecadação já passa do bilhão de dólares. Pule de 10 a produção de 8º filme.

Seguro que a diversão e adrenalina são garantidas.

 

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Soffiati, meu capitão, lança livros sobre Sete Capitães e manguezais

Charge de Marco Antonio Rodrigues
Charge de Marco Antonio Rodrigues

A vantagem de uma formação autodidata é a livre escolha dos mestres. A maior parte dos meus, conheci apenas pelas obras, sem qualquer dimensão pessoal que as excedesse. Rara e prazenteira exceção é o historiador, professor, escritor, ambientalista e crítico de cinema Aristides Soffiati, sujeito que amo como a um irmão e respeito como maior intelectual vivo destas terras de planície cortadas pelo Paraíba do Sul. Por e-mail, ele avisa que estará lançando dois livros no próximo dia 8 de maio, a partir das 17h30, no auditório da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Campos, da qual se aposentou como professor: “Roteiro dos Sete Capitães” e “Pé no Mangue”.

O primeiro se trata de uma análise crítica, sob a ótica da história e da geografia, do documento original do séc. XVII no qual um escrivão anônimo narra as três expedições portuguesas sobre as terras que depois viriam a se tornar Campos dos Goytacazes. Soffiati, a quem não sem motivo chamo de meu capitão, refez a pé, nos anos 1980, o roteiro daqueles que nos colonizaram mais de 300 anos antes, e assina o livro junto com Adelmo Henrique Daumas Gabriel, Margareth da Luz, Roberto B. Freitas, Fabiano Vilaça dos Santos e Paulo Kanus. O segundo é uma coletânea de artigos acadêmicos sobre uma das obsessões de Aristides: os manguezais, berçários da vida do rio e do mar.

Confira abaixo as capas dos livros e o vídeo da pertinente cena final do filme “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989), do mestre australiano Peter Weir:

 

Roteiro dos Sete Capitães

 

 

Pé no Mangue - capa

 

 

 

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Poema do domingo — Ivan Junqueira

“O abraço”, óleo sobre tela de 1917, de Egon Schiele
“O abraço”, óleo sobre tela de 1917, de Egon Schiele

 

 

Quando solene e agudo

 

Quando solene e agudo eu te penetro,

mais agudo que o gume de uma adaga,

e à tua ilharga, que de suor se alaga,

me enlaço como quem abraça um cetro,

e lambo a tua espádua que naufraga

sob o sêmen fugaz com que perpetro

em ti o que não falo ou mal soletro

tal o peso do pasmo que me esmaga,

sou como um rei na cripta de uma vaga

cuja espuma engalana cada imagem

ou palavra que ruge na voragem

das páginas sagradas desta saga.

Quando me afundo em ti, útero adentro,

como Deus, numa esfera, estou no centro.

 

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Artigo do domingo — Tempo (e dinheiro) perdido

A persistência da memória - Salvador Dali
“A persistência da memória”, óleo sobre tela de 1931, de Salvador Dali

 

 

Por Ricardo André Vasconcelos(*)

 

Com a sucessão de 2016 às portas, a palavra de ordem no califado da Lapa é recuperar terreno perdido no desgaste de sete anos de uma administração que vinha superando a falta de criatividade com abundância de recursos. Com a nova realidade imposta pela queda dos preços do petróleo e a recessão iminente com a paralisia do governo Dilma, o dinheiro jorra com menos intensidade, mas como eleição não espera, tem data certa e o projeto político do grupo que retomou a Prefeitura em 2008 passa, obrigatoriamente, pela manutenção do poder, é preciso fazer alguma coisa.

Para isso, o governo Rosinha & Garotinho está saindo dos gabinetes e mostrando a cara nas ruas, organizando ações itinerantes, como vem fazendo há semanas a secretaria de Educação com ações nas escolas aos sábados. Da mesma forma, há movimentação nos 18 condomínios onde foram assentadas cerca de 6 mil famílias no projeto batizado de “Morar Feliz”. Em nenhuma das novas comunidades — algumas com até oitocentas famílias — foi instalada creche, escola ou posto de saúde, mas o “Viver Feliz”, que é  uma espécie de “prefeitura itinerante”, vai levar a essas comunidades, serviços como segunda via de carteira de identidade, plantio de árvores, preparação de currículos…. Tudo com custo perto de zero, muita gente na rua, o indispensável foguetório e algum serviço à população. Melhor que nada.

Além disso, outras áreas como as fundações dos Esportes e Jornalista Oswaldo Lima, estão sendo cobradas a implantar projetos simples, baratos e de grande repercussão. Na falta de dinheiro para grandes shows, a cobrança é por criatividade. Tirar o assento dos gabinetes refrigerados e enfrentar o mormaço de outono é a ordem geral. Daqui para frente a cobrança será mais contundente e aguente quem quiser contracheque no final do mês. Quem se banqueteou com as carnes, agora se contente com os ossos. E com um sorriso sincero na cara, mesmo para aqueles que tiveram redução de salário na reforma administrativa confirmada pelo decreto 088/2015, publicado na última sexta-feira.

A decisão de botar o governo na rua é a marca da volta do Garotinho ao comando efetivo da tropa. Ele avalia, com a concordância geral de qualquer um que preste a mínima atenção ao paquidérmico governo Rosinha, que na falta de recursos para obras, a solução é compensar com a presença física da administração nas ruas. Pelas contas alardeadas pelo próprio secretário de Governo e prefeito em exercício de fato, a Prefeitura de Campos deve arrecadar menos R$ 1 bilhão em relação ao ano passado neste ano de 2015 e no próximo, o ano da eleição, a perspectiva é tão sombria quanto. Contas feitas com mais isenção apontam que, na verdade, a redução existe e o tamanho dela é o suficiente para uma economia agora para gastar na hora certa (certa para eles!). Se o preço é ver pais mendigando, pelas redes sociais, assistência médica para suas crianças enfermas, remedia-se, se der tempo.

E a receita para atravessar a crise é a de sempre: militância do contracheque na rua e mídia aliada generosamente paga no rádio e TV trombeteando o que o governo fez ou pretende fazer, além da velha cantilena dirigida aos antecessores. A novidade é a tentativa de intimidar os que têm coragem de discordar dessa turma. Ameaçam jornalistas e blogueiros com processos (aqui, aqui e aqui), como se a Justiça fosse — a exemplo da Câmara Municipal — também um apêndice do Centro Administrativo da Prefeitura, um puxadinho do Cesec. Enganam-se: vocação de indústria dos processos é a falência.

Os motivos para o desgaste vão além dos sete anos de governo. Tem a demissão de cinco mil terceirizados, obras paradas (outras arrastadas), além de um trabalho de uma oposição em ascensão que soube explorar alguns pontos fracos da administração Rosinha como a falta de transparência, gastança generalizada e sucateamento da Saúde. Isso tudo no governo que teve mais recursos na história de Campos. A decantada experiência de dois ex-governadores no comando da prefeitura foi demolida pela realidade. Em sete anos passaram pelas suas mãos cerca de R$ 15 bilhões de reais  (soma dos sete orçamentos) sem que nenhuma obra estruturante fosse realizada pensando a cidade para as próximas décadas.

Excetuando obras como os bairros legais (que sempre precisarão de outras obras de manutenção e reformas) e as casas populares (6 mil das 10 mil previstas estão prontas), o que se viu foi uma gastança desenfreada nos últimos sete anos: Sambódromo de R$ 100 milhões para seu utilizado uma vez por ano; enfeite milionário da Beira-Valão e a Cidade da Criança (orçada em R$ 10 milhões e já está em R$ 16 milhões), são apenas alguns exemplos das prioridades de uma administração mais preocupada no alarido imediato que no futuro. O que interessa, para eles, é o voto na próxima eleição e não a cidade que teremos na próxima década.

Quando fizerem um balanço histórico dos últimos anos do século XX e os primeiros deste, serão debitados na conta do garotismo muitos dos males que assolarão as gerações futuras como reflexo das ações não realizadas enquanto havia recursos de sobra.

O julgamento da história é implacável.

 

(*) Jornalista e autor do blog Eu Penso Que…

 

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Sob ajuste fiscal, Brasil real tem certeza, enquanto Brasil oficial ainda não sabe o que fazer

Vergonha na cara 1

 

 

Jornalista Ruy Fabiano
Jornalista Ruy Fabiano

Os dois Brasis

Por Ruy Fabiano

 

Há evidente descompasso entre as ruas e o discurso parlamentar. Mesmo agora, com novas denúncias – as pedaladas fiscais do governo Dilma, o rombo gigantesco nos fundos de pensão das estatais e a prisão do tesoureiro do PT —, a oposição ainda hesita quanto à hipótese do impeachment.

O “Fora Dilma”  a incomoda tanto quanto ao PT. Mais: não obstante tenha ingressado na Justiça Eleitoral com um questionamento à lisura das urnas eletrônicas, a oposição parece convencida de que, no fim das contas, não houve fraude alguma. Não mais concede à hipótese nem o benefício da dúvida.

Uma coisa é abdicar da causa (ou postergá-la) por sabê-la sem praticidade e fora de seu alcance; outra, dá-la por incorreta, legitimando o discurso do adversário. As pesquisas mostram que a grande maioria da população tem sérias dúvidas a respeito.

Na sua essência, as pesquisas demonstram que a população não crê em soluções paliativas para a crise. E o Congresso não tem feito outra coisa senão buscá-las. Eis aí o impasse: a falta de interlocução entre representantes e representados.

O encontro esta semana, em Brasília, entre líderes oposicionistas e entidades que organizaram os protestos, evidenciou essa falta de intimidade. A tolerância do Brasil institucional com os desmandos dos governos do PT é bem maior que a do Brasil real, que pede providências e maior rigor para os que delinquiram.

Exemplo disso é a bizantina discussão jurídica quanto à constitucionalidade de a presidente responder por atos que praticou no mandato anterior, do qual este é mera continuidade, já que não houve interrupção.

A Constituição é anterior ao princípio da reeleição e diz que o presidente da república não responde por atos estranhos a seu mandato. Os atos em pauta foram praticados no exercício do mandato presidencial — portanto, não lhe são alheios. Não é preciso ser jurista para entender isso. Montesquieu, há três séculos, já tratava do espírito das leis — e é disso que se trata.

No curso da semana, vieram à tona os rombos nos fundos de pensão de três estatais: Funcef (Caixa Econômica), Postalis (Correios) e Petros (Petrobrás) — mais de R$ 5 bilhões para cada um dos dois primeiros e mais de R$ 13 bilhões no terceiro. A conta será rateada entre os funcionários e o Tesouro (isto é, nós).

Os autores da proeza, todos indicados pelo PT, não são nem mencionados. Os servidores do Postalis terão de descontar, durante doze anos, 25% de seu salário para cobrir o rombo. Quem ganha, por exemplo, R$ 1 mil, terá de pagar, entre outros descontos, R$ 250, para cobrir um rombo que não criou.

Esse escândalo, no entanto, não acresceu qualquer urgência à proposta de uma CPI dos Fundos de Pensão, contra a qual se move, até aqui com pleno êxito, o vice-presidente e articulador político do governo Michel Temer.

O que se tem é o contrário: a retirada de assinaturas de apoio a uma CPI do BNDES no Senado — um escândalo dentro do escândalo. O BNDES, em plena crise, continuou a mandar auxílio milionário aos vizinhos bolivarianos, sob a rubrica de “ultrassecreto”. A CPI conseguiu as assinaturas na Câmara, mas não se sabe se será instalada ou não. Há outras na fila e Michel Temer move-se mais uma vez para sabotá-la.

É interessante notar o que o mandato faz com alguns personagens. O ex-craque Romário, hoje senador pelo PSB do Rio, notabilizou-se pela fúria e audácia com que investia contra os desmandos dos cartolas da CBF.

Não as exibiu, porém, contra os cartolas do BNDES, que fazem com que os da CBF pareçam aprendizes de escoteiros-mirins. Tirou sua assinatura do pedido de CPI e não deu qualquer explicação. Nem precisa: certos gestos são auto-explicáveis.

São tantos os escândalos que é difícil relacioná-los de memória. Todos têm a marca do governo e do PT, alguns com o apoio de partidos aliados, como PP e PMDB. Não obstante, dá-se credibilidade à tese de que a presidente atual e seu antecessor, em cujos governos tudo começou, nada sabiam.

Nixon, nos anos 70, valeu-se também do mesmo argumento — e por um delito que aqui nem seria considerado como tal: um ato de espionagem política na sede do Partido Democrata. Renunciou para evitar o impeachment.

O Brasil oficial perdeu a noção de compostura. Antes mesmo que as investigações da Operação Lava-Jato tenham sido concluídas — e, portanto, antes que se saiba a real extensão dos delitos cometidos —, o governo anuncia um acordo de leniência com as empresas infratoras, para que continuem a prestar-lhe serviços.

O mais estranho é que esse acordo é promovido pelo Executivo, parte envolvida nos delitos da Petrobras. O Ministério Público, incumbido das investigações, ficará de fora. E o TCU, em vez de exercer o controle das contas, será avalista do acerto.

No STF, a turma que presidirá o julgamento, cujos réus, em sua maioria, pertencem ou têm ligações com o PT, terá à frente um ex-advogado do partido, Dias Tofoli, que, a exemplo do que ocorreu no Mensalão, não vê qualquer conflito em julgar antigos clientes. Nem ele, nem a Corte — e nem o Senado, que esta semana arquivou sumariamente um pedido de impeachment contra Tofoli.

Em suma, o Brasil real, submetido aos rigores do ajuste fiscal, está paralisado de espanto, enquanto o Brasil oficial espanta-se com esse espanto — e não sabe o que fazer.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

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