Entre Dilma ou Marina, não subestime a capacidade do PSDB de fazer bobagem

Tucano petista

 

Ricardo Noblat
Jornalista Ricardo Noblat

Não subestime o PSDB

Por Ricardo Noblat

O destino desta eleição presidencial — a sétima desde a redemocratização do país com o fim da ditadura de 64 — está nas mãos dos eleitores do PSDB. Dos que pretendem votar em Aécio porque o consideram o melhor candidato. Ou dos que votarão nele simplesmente porque querem pôr um fim a 12 anos de governos do PT.

É isso o que fica claro com a mais recente pesquisa de intenções de voto do Datafolha (aqui).

Em uma semana, a vantagem de Dilma sobre Marina quase dobrou. Passou de sete pontos percentuais para 13. Dilma está com 40% e Marina com 27%.

Mas quando o Datafolha simulou um eventual segundo turno entre as duas, elas apareceram empatadas dentro da margem de erro da pesquisa. Só há uma explicação para isso: foi o voto anti PT que empurrou Marina para cima de Dilma.

É por isso que nesta última semana de campanha, Dilma, Lula e o PT continuarão com gosto de sangue na boca contra Marina. Se ela pensa que apanhou o suficiente está enganada.

Daqui até a próxima quinta-feira, último dia de propaganda eleitoral no rádio e na televisão, apanhará ainda mais feio. E se passar para o segundo turno nem queira saber. A pancadaria derrubou Marina. A pancadaria poderá derrotá-la.

Tudo o que Marina diz está sendo usado contra ela. E o que não diz, também.

Para quem pretende governar, Marina seria refratária a acordos que não sejam à esquerda. Um dia desses, no entanto, ela pediu votos para Paulo Bornhausen, filho de um político conservador de Santa Catarina, candidato ao Senado pelo PSB.

Pois bem: Marina foi acusada de defender a “Nova Política”, mas de praticar a velha. É infernal!

Neca Setúbal, acionista do Banco Itaú, é apontada pela propaganda de Dilma como a banqueira de Marina. Ora, Kátia Rabello, ex-presidente do Banco Rural e banqueira do mensalão do PT, está presa. Menos mal para Marina.

Bancos e empreiteiras financiam o Instituto Lula. Não há, hoje, político lobista mais bem-sucedido do que Lula. Que enriqueceu em pouco tempo. A campanha de Dilma é campeã na arrecadação de dinheiro entre os banqueiros.

Ao se eleger presidente pela primeira vez, Lula decretou que a esperança vencera o medo. A esperança era ele. O medo, tudo o que os adversários usaram para evitar sua vitória.

Dilma tem dito que a verdade vencerá a mentira. Como se ela fosse o alvo preferencial de mentiras. Dilma abusa da mentira para aumentar a rejeição de Marina e – se possível – excluí-la do segundo turno. Morre de medo dela.

É natural que Aécio aspire a disputar o segundo turno contra Dilma. Se não for possível decidir a parada no primeiro, tudo o que Dilma deseja é enfrentar Aécio no segundo.

Nos mais importantes redutos eleitorais de Dilma, o Norte e o Nordeste, Aécio é fraco. Marina, não. O eleitor de Aécio votaria em Marina – ou está votando nas simulações de segundo turno. O de Marina se dividiria entre Aécio e Dilma.

Uma coisa será o PSDB anunciar seu apoio formal a Marina caso Aécio não vá para o segundo turno. É o jeito. Outra, suar a camisa para eleger Marina.

No final de 2005, quando Lula enchia a cara com receio de não chegar ao fim do mandato por causa do escândalo do mensalão, o PSDB desistiu de pedir o impeachment dele. Achou que Lula não se reelegeria. Lula se reelegeu. E elegeu Dilma em seguida.

Desta vez, o PSDB pode achar que um segundo governo Dilma, bem pior do que o primeiro, talvez seja melhor do que governar com Marina.

A capacidade do PSDB de fazer bobagem não deve ser subestimada.

 

Publicado aqui no Blog do Noblat.

 

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Artigo do domingo — O jogador e a jogada

Didi, gênio dos passes oblíquos e dissimulados, como os olhos de Capitu

 

Nos preparativos para a Copa de Suécia, em 1958, o meia direita reserva Moacir arrebentava nos treinos. Isto aliado ao fato de ser jogador do Flamengo, clube de maior torcida no Brasil, desde antes de lá até aqui, fazia com que parte da imprensa cobrasse a escalação do rubro-negro no lugar do craque campista Didi (1928/2001), então jogador do Botafogo e titular da posição no scratch nacional desde a Copa do Mundo anterior, em 1954, na Suíça, quando ainda atuava pelo Fluminense. Apelidado por Nelson Rodrigues (1912/80) de “príncipe etíope”, pela elegância em cada gesto dentro do campo e fora dele, Didi respondia laconicamente à cobrança por Moacir: “Treino é treino, jogo é jogo”.

É a frase que outro campista, Anthony Garotinho (PR), tem usado desde o início deste mês anterior às eleições de outubro, quando ainda liderava as pesquisas do primeiro turno ao governo fluminense, embora sua grande rejeição já indicasse que a vaca poderia ter o brejo por destino no segundo turno. Como nem tudo que começa bem, acaba da mesma maneira, na comparação com as três últimas consultas Ibope divulgadas em 2 (aqui), 9 (aqui) e 23 de setembro (aqui), Garotinho patinou, respectivamente, entre 27%, 25% e 26%, ao passo que Luiz Fernando Pezão (PMDB) saiu de 19% para 25%, até chegar aos atuais 29%, num impressionante crescimento de 10 pontos percentuais.

Considerado que, nas mesmas três consultas, Crivella ficou estático nos 17%, enquanto Lindberg Farias (PT) caiu progressivamente de 11% para 9%, até aos 8%, não é preciso ser grande leitor de pesquisas para concluir que, neste mês anterior à eleição, o único candidato que cresceu pelo Ibope foi Pezão. E dois dígitos de crescimento em apenas um mês é capaz de impressionar em qualquer campanha eleitoral do planeta.

Isso se formos falar de primeiro turno, pois no segundo as coisas se tornaram ainda mais dramáticas ao político da Lapa. No Ibope divulgado em 2 de setembro, mesmo ainda líder folgado no primeiro, Garotinho não conseguia ir além do empate exato com Pezão (35% cada) ou com Crivella (34% cada) no segundo turno. Na amostragem seguinte do instituto, ele já perdia o turno final para Pezão por 33% a 40%, enquanto empatava tecnicamente com Crivella, em 34% a 33%. Mas no último Ibope, já ultrapassado no primeiro turno, Garotinho viu aumentar assustadoramente suas chances de derrota no segundo, tanto para Pezão (33% a 43%), quanto para Crivella (36% a 34%).

Critério chave para a definição do segundo turno, a grande rejeição de Garotinho parece ser sua maior dificuldade eleitoral. No Ibope, o número de eleitores que não votariam nele sob nenhuma circunstância era de 34% e subiu para 36%, onde se manteve. E qualquer especialista em pesquisa vai dizer que é muito difícil alguém acima dos 30% de rejeição conseguir se eleger num pleito em dois turnos.

Mas se o quadro é ruim para Garotinho em quaisquer números das últimas amostragens do Ibope, eles não parecem melhores nas três últimas consultas Datafolha, divulgadas em 4 (aqui), 10 (aqui) e 26 de setembro (aqui). Muito pelo contrário, comparando-as, Garotinho só fez cair suas intenções de voto, saindo de 28% para 25%, até chegar aos atuais 23%, oito pontos percentuais atrás de Pezão, que usou a mão oposta para sair dos 23%, passar aos 25%, até atingir os 31% divulgados anteontem. Ou seja, enquanto o primeiro perdeu cinco, o segundo ganhou oito pontos em menos de um mês, nas intenções de voto para daqui a menos de uma semana.

Ainda pela Datafolha, Crivella (18%, 19% e 17%) e Lindberg (11%, 12% e 12%) tiraram o mês de setembro para patinar no gelo das intenções de voto ao primeiro turno. Já em relação ao segundo, Garotinho sempre perdeu nas três pesquisas, tanto para Pezão, quanto para Crivella. Para este último, a derrota garotista de 33% a 45% inicialmente manteve seus índices, para subir aos atuais 30% a 49%. Se parece ser uma diferença insuperável neste menos de um mês até de 26 de outubro, o que dizer então da projeção entre Pezão e Garotinho, que começou em 45% a 36%, subiu para 47% a 35%, até chegar ao vareio eleitoral de 54% a 30%, quase o dobro na diferença de votos a favor do governador no turno final?

Assim como no Ibope, também pelo Datafolha é a rejeição que explica as projeções de desempenho tão desastrosas de Garotinho, caso ele consiga chegar ao segundo turno. Entre os eleitores fluminenses ouvidos pelo instituto paulista, inicialmente 44% não votariam em Garotinho de jeito nenhum, percentual que subiu para 46%, até atingir os atuais 49%, praticamente uma derrota imposta pela maioria desde o primeiro turno e apenas postergada ao segundo.

Na velha questão entre o ovo e a galinha, do cachorro perseguindo o próprio rabo a girar a roda da dúvida entre causa e consequência, nada indica que as reações sempre destemperadas, ressentidas e acusatórias de Garotinho vão mudar alguma coisa, pelo menos não para o melhor de si ou dos seus. De qualquer maneira, com quem padece de ideação persecutória, recomenda-se cuidado na hora de se lembrar que o mundo certamente tem coisas mais importantes para fazer do que pensar ou tentar ferrar um único indivíduo. Neste delírio do “eu contra o mundo”, responderia o mundo, acaso se importasse: “Inclua-me fora!”

O mundo foi o que o Brasil conquistou naquela Copa de 1958, contra a Suécia, com Didi como titular, líder e craque do início ao fim da campanha. Quando os suecos abriram o placar do último jogo e despencou sobre os ombros brasileiros todo complexo de vira-latas acumulado oito anos seguidos, desde a derrota dentro do Maracanã contra o Uruguai, na final da Copa de 1950, foi Didi quem buscou a bola no fundo das redes. Após colocá-la embaixo do braço, foi caminhando vagarosamente ao meio de campo, com toda a elegância que Deus lhe deu, enquanto serenava os ânimos dos demais jogadores, falando a todos de maneira calma, mas grave: “Acabou a brincadeira. Agora vamos enfiar bola nos ouvidos desses gringos”.

O placar final daquele jogo, do qual sairíamos, de virada, com nossa primeira Copa do Mundo de futebol: Brasil 5 x 2 Suécia.

E, a propósito, diferente do que Garotinho postou na sexta em seu blog, ao lembrar mais uma vez a frase “treino é treino, jogo é jogo” para descer a botina sobre a nova pesquisa Datafolha (aqui), Didi nunca foi conhecido como “folha seca”, apelido na verdade dado ao seu chute de perna direita, que fazia a bola descair como folha na última hora, num efeito criado por ele para enganar o goleiro. Pode até parecer detalhe prosaico, e é, mas quem confunde o jogador com a jogada sempre corre o risco de pisar na bola.

 

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Ponto final — E agora, quem poderá ajudar?

Ponto final

 

“Mas alerto a vocês que não devem se assustar a cada pesquisa”. Foi o que Anthony Garotinho (PR) pregou (aqui) em seu blog na última quinta (25), ainda no susto de dois dias antes, quando Ibope e GPP registraram a virada de Luiz Fernando Pezão (PMDB) como novo líder da corrida a governador. Mas se os 29% a 26% do Ibope (aqui), ou os 28% a 22% do GPP (aqui), favoráveis a Pezão contra Garotinho, bastariam para provocar calafrios na curva da Lapa, o que dizer da pesquisa Datafolha divulgada ontem (aqui), com 31% do primeiro contra apenas 23% do segundo, a apenas oito dias de 5 de outubro?

Na comparação com a consulta anterior do Datafolha, a mais recente não deixa dúvida: Pezão cresceu seis pontos, passando de 25% a 31%, enquanto Garotinho e Marcelo Crivella (PRB) caíram. O primeiro quedou de 25% a 23%, perdendo os mesmo dois pontos percentuais do sobrinho de Edir Macedo, que diminuiu de 19% para 17%. Na margem de erro de três pontos para mais ou para menos, Pezão se isolou oito pontos percentuais na liderança, enquanto Garotinho e Crivella estão empatados tecnicamente.

Nas projeções de segundo turno, a tendência é a mesma, embora alcance proporções ainda mais assustadoras. Pezão conquistaria em 26 de outubro quase o dobro da votação do adversário, caso este seja Garotinho, num impressionante massacre eleitoral de 54% a 30%. Ainda que por diferença um pouco menor, o político da Lapa também tomaria outra surra de votos se enfrentasse Crivella no segundo turno, para quem perderia por 49% a 30%.

Determinante no segundo turno, sejam quem forem os dois escolhidos pelas urnas do primeiro, a rejeição é outro fator amedrontante para Garotinho. De fato, este foi o único índice em que ele conseguiu crescer entre as duas últimas amostragens Datafolha, nas quais passou de 46% a 49%, liderança negativa ainda mais isolada do que a de Pezão nas intenções de votos. Para se ter uma ideia, o segundo colocado na rejeição é o petista Lindberg Farias, com 20%, menos da metade do ex-prefeito de Campos.

Na mesma postagem em seu blog em que já parecia prever o brejo como destino da vaca, Garotinho citou o trecho bíblico: “Até aqui nos ajudou o senhor”. Esqueceu-se de dizer que se trata de passagem do primeiro livro de Samuel (7:12), que ungiu Saul e David reis de Israel, assim como de revelar quem conseguirá ajudá-lo daqui em diante a ser coroado governador do Rio. Pelo susto que o político da Lapa tem tomado a cada nova pesquisa, a ajuda não virá do eleitor.

 

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Qual medo vencerá? De Marina ou mais quatro anos de Dilma?

medo

 

Nelson Motta
Jornalista Nelson Motta

No jogo sujo, todos perdem

Por Nelson Motta

Quando os estrategistas da campanha de Dilma Rousseff festejavam o efeito devastador dos ataques massivos a Marina Silva, mostrando-a como uma ameaça às conquistas sociais e um salto no escuro, comemoravam o inverso da proposta que levou Lula ao poder: a vitória do medo sobre a esperança.

Mas, no segundo turno, quando o tempo de televisão é igual e os ataques e mentiras podem ser rebatidos no ato e com a mesma força persuasiva, será que os debates cara a cara vão mostrar, sem intermediários, quem é quem e o que quer fazer? Quem será a esperança e quem será o medo? Qual a melhor atriz?

Mas até o dia da eleição muita lama ainda vai rolar. Se a delação premiada de Paulo Roberto Costa equivale à queda de um Boeing carregado de políticos, empresários e funcionários poderosos e intocáveis, imaginem a de seu chefe Alberto Youssef. O medo de uns é a esperança de outros.

Até as grandes empreiteiras estão com medo e, na esperança de redução das acusações e das penas, já se uniram para oferecer sua colaboração nas investigações, mas foram rejeitadas pelo procurador-geral Rodrigo Janot como um “cartel de leniência”. Cada uma terá o seu processo.

Pena que as bombas vão explodir depois das eleições, mas, seja quando for, assim como o julgamento público do mensalão, serão altamente educativas para a sociedade, como um antídoto do veneno das campanhas eleitorais, que deseducam e abusam do eleitor.

Em vez de uma polarização entre velhos adversários conhecidos, a eleição vai se tornando um plebiscito sobre o governo Dilma e o PT. E o pior que pode acontecer nesses casos é vitória do “sim” ou do “não” por diferença mínima, que, mais que uma conquista eleitoral, significa que o país está radicalmente dividido, não entre conservadores e progressistas, esquerda e direita, mas pelo marketing politico mais, ou menos, eficiente.

Nesse cenário, haverá esperança que possa vencer o medo que metade do Brasil tem de uma vitória de Marina, ou o medo que a outra metade tem de mais quatro anos de Dilma? Depois da guerra suja, os vencedores serão os melhores marqueteiros, o grande perdedor será o país.

 

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Ponto final — Tensões garotistas

Ponto final

 

Pressionado pelas últimas pesquisas Ibope e GPP, que registraram a virada de Luiz Fernando Pezão (PMDB) na corrida eleitoral ao governo do estado, Anthony Garotinho (PR) enfrenta tensões em sua candidatura e seu grupo político. Como mostra a reportagem do jornalista Alexandre Bastos na página seguinte (aqui), a Prefeitura de Campos tem atrasado por meses o pagamento dos prestadores de serviço, sobretudo dos pequenos, apesar do gigantesco orçamento de R$ 2,5 bilhões neste ano eleitoral.

Por conta deste e de outros problemas na Prefeitura e na campanha a governador, circulou nos corredores da Câmara Municipal que Garotinho teria dado uma severa reprimenda no secretário de Governo Suledil Bernardino (PR), pela condução das coisas em Campos. E as mesmas fontes deram conta que o caldo teria entornado também no Rio, entre o deputado estadual candidato à reeleição Geraldo Pudim (PR) e o ex-presidente do partido em Campos, Wladimir Garotinho.

Apesar das declarações públicas em contrário, não é segredo que Pudim e Wladimir não se suportam. O primeiro se opôs à candidatura do segundo à Alerj, que em resposta lançou Bruno Dauaire (PR) em seu lugar. Mas dessa vez a discussão teria beirado às vias de fato, como de fato foi entre os militantes do PR e do PMDB, após os primeiros hostilizarem um comício de Pezão, na noite de quarta, em Bangu, como mostra matéria da página anterior (aqui), do jornalista Arnaldo Neto, baseada em reportagem do jornal O Dia (aqui).

Enquanto isso, o Legislativo Municipal se presta a ecoar boatos, já que não realiza mais sessões e sua assessoria só foi saber da paralisação do Portal da Transparência, desde junho, ao ser indagada pela Folha, como revelado na página anterior pelo jornalista Mário Sérgio Junior (aqui). Ainda assim, será palco da disputa seguinte à de governador, pela governabilidade de Rosinha (PR): a presidência da Câmara de Campos. Aí as tensões se dividem desde já entre os vereadores Edson Batista (PTB) e Paulo Hirano (PR). 

 

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E não adianta chamar Freud

Pink Freud

 

Jornalista Ricardo André Vasconcelos
Jornalista Ricardo André Vasconcelos

A rejeição e o segundo turno

Por Ricardo André Vasconcelos

 

Faltando pouco mais de nove dias e três programas de televisão para o primeiro turno, há poucas ou nenhuma chance de mudança significativa no quadro da disputa pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro. A pesquisa Ibope divulgada nesta terça-feira, reflete uma evolução que vinha sendo percebida há pelo menos três semanas, ou seja, estagnação das intenções  de voto do até então líder das pesquisas, Anthony Garotinho (PR), e a  ascensão de Luiz Fernando Pezão (PMDB).

Crivella (PRB) e Lindberg (PT) estão longe de ter chance de estar no segundo turno. Salvo um fato novo extremamente grave que tire um dos dois com assento já garantido.

Por isso, as articulações já se voltam para o segundo turno e chama atenção as dificuldades que Garotinho terá, primeiro para costurar alianças com os candidatos desclassificados no primeiro turno, e, principalmente, enfrentar a rejeição do eleitor ao seu nome, que gira em torno dos 40%.

Nos últimos dois anos Garotinho esteve diariamente num programa de rádio transmitido para todas as regiões do Estado, desempenhou com eficiência seu mandato de deputado federal e, como líder do PR na Câmara Federal, foi presença constante na mídia. Além disso, os dois mandatos que comandou no Governo do Estado, entre 1999 e 2006, ainda estão na memória do eleitor e, daí ser ele o mais conhecido dos candidatos e justamente está aí também seu “calcanhar de Aquiles”, seu ponto fraco: 39% dos eleitores, segundo a pesquisa do Ibope desta terça-feira, não votariam nele “de jeito nenhum”.

Vice-governador nos últimos sete anos e meio e titular a partir de abril, Pezão por sua vez era conhecido por pouco mais da metade do eleitorado no início da campanha e foi conquistando o eleitor beneficiado tanto pela máquina do Estado quanto pelos 10 minutos de exposição no programa eleitoral no rádio e TV contra dois minutos de Garotinho. Com pouca rejeição (16%), Pezão saiu de 15 pontos em julho para chegar à liderança com 29, enquanto Garotinho saiu de 21 pontos para 26, ou seja, cresceu apenas cinco pontos durante a campanha enquanto o adversário dobrou suas intenções de votos

No segundo turno os dois candidatos terão o mesmo tempo de televisão — 10 minutos cada — e a escolha da estratégia do programa e do discurso nas ruas serão importantes, mas o vital será resolver o problema da rejeição.

E não adianta chamar Freud.

 

Publicado aqui, no blog “Eu Penso que…”, e hoje na Folha.

 

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Ponto final — Nem Freud

Ponto final

 

“Aguardemos a nova previsão do tempo ainda esta semana da Datafolha”. Foi assim que esta coluna ontem concluiu (aqui) sua análise da virada eleitoral de Luiz Fernando Pezão (PMDB) sobre Anthony Garotinho (PR) na disputa do governo fluminense, consumada na pesquisa Ibope (aqui) divulgada na terça (23). Mas não foi nem preciso esperar o Datafolha. Ainda na noite de terça, o GPP não só confirmou a virada de Pezão (aqui), como ampliou a vantagem que este hoje tem sobre Garotinho em intenções de voto.

Se o Ibope de terça colocou Pezão com 29%, contra 26% de Garotinho, no mesmo dia o GPP daria 28% ao governador, deixando o deputado federal com apenas 22%. A diferença de três pontos percentuais do primeiro instituto, num empate técnico dentro da sua margem de erro de 2% para mais ou menos, se transformou numa disparada de seis pontos nos números do segundo, cuja margem de erro é de 1,3%.

Sem repercutir o GPP, divulgado parcialmente pelo jornalista Felipe Patury, da revista Época, Garotinho tentou reagir aos números do Ibope com acusações contra o mais conceituado instituto de opinião do país e seu proprietário. E nesta manifestação conseguiu resumir todos os motivos para ter sido ultrapassado nas pesquisas ainda no primeiro turno, sendo também derrotado por Pezão em todas as projeções do segundo turno, assim como pelo senador Marcelo Crivella (PRB).

Em conversas pessoais, garotistas pensantes já admitem não só ser o brejo o destino provável da vaca, como creditam ao destempero do líder essa condução do rebanho. No segundo turno, se Garotinho lá estiver, nada indica que a tática infantil do “eu contra o mundo” irá mudar. Tampouco que seja capaz de reverter uma rejeição de 46%, segundo o Datafolha (aqui), ou mesmo de 39%, para o Ibope. Diante disso, como ressalva o jornalista Ricardo André Vasconcelos em artigo na página ao lado (aqui): “Nem adianta chamar Freud”.

 

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Ainda quer mais tempo para prosseguir?

Calvin e Haroldo - autoritarismo

 

Antropólogo Roberto DaMatta
Antropólogo Roberto DaMatta

Autoritarismo

Por Roberto DaMatta

 

Talvez a palavra “autoritarismo” seja a mais adequada para caracterizar a nossa índole política. Veja bem: eu falo em caracterizar, e não em definir. Somos também anárquicos, malandros e lenientes — portanto, antiautoritários em certas situações, e tais comportamentos dependem de ideologias, partidos e pessoas. Sobretudo dos amigos, e daí vem, paradoxalmente, o problema da impunidade que impede castigar delitos flagrantes precisamente porque não julgamos os crimes, mas quem os praticou. Se o autor é um desconhecido, somos implacáveis e fascistas, mas, se é um amigo, ele tem a nossa condescendência e a nossa compaixão.

Afinal, falamos autoritariamente, mas sem perceber: “Este eu conheço! É pessoa de bem, tinha suas razões!”. O crime, como disse um dia o presidente Lula, foi cometido por meros (e inocentes) “aloprados”; e o mensalão foi uma trivialidade num sistema político recheado de corruptos. O problema é que a trama dos favores que une os poderosos é muito densa para não ser descoberta por algum maldito jornalista investigativo ou revelada por alguma rede ou câmara de televisão.

No Brasil, o crime hediondo e depravado é feito por quem não conhecemos; já o crime cometido por quem faz parte do nosso círculo de relações é um erro de cálculo ou um descuido. Donde o inocente e mendaz: “Eu não sabia…” Nosso autoritarismo ainda não entendeu que, numa democracia, somos simultaneamente construtores e habitantes de um mesmo teto!

O dado novo é a desmistificação do governante como uma pessoa predestinada e superior que pode tudo. Sobretudo roubar. E a questão hoje em dia não é mais de ter sido pobre ou das competências de como resolver os problemas, mas do modo pelo qual esses problemas serão resolvidos. No Brasil atual, nem Stalin ou Hitler teriam sucesso, porque o modo de governar está intrinsecamente ligado à roubalheira amistosa, vista como normal, aceitável e inevitável. O governar como um serviço e uma entrega baseada no resgate de valores, mais do que de rotineiras receitas técnicas, é o que está faltando neste nosso Brasil prestes a eleger um novo presidente.

É preciso liquidar com o autoritarismo do “todos fazem” e nós também fizemos, mas, infelizmente, a imprensa reacionária propagou de modo exagerado e ilegítimo o nosso delitozinho, inventando um “mensalão” petista que jamais existiu. O do PSDB é real, o nosso é fantasia reacionária. Por isso, tivemos que lutar para realizar uma revisão de todo o quadro legal e praticamente reformulamos as sentenças e a tese do julgamento.

Contra isso, só um temporal de ética que comece discutindo o personalismo. Esse personalismo que atribui mais responsabilidade às pessoas do que às questões que demandam a cooperação de todos para serem resolvidas.

Quem é a autoridade? Saber quem manda (ou é o “dono da bola”) é, sem sombra de dúvida, a questão que mais nos aflige. Competir com uma pessoa — usando argumentos pífios — é mais importante do que contribuir para resolver um problema crucial. Quando o mandão é obvio, não há problema. Mas, quando não existe consenso sobre quem é o mais importante, ficamos aflitos, e o conflito deflagra os bate-bocas mal-educados, visando à “desconstrução”, que são a primeira consequência do nosso desconforto com a igualdade.

No fundo, sempre achamos que as pessoas são mais importantes que os problemas e é exatamente isso que tipifica o personalismo que leva ao autoritarismo. Nele, o centro é sempre a pessoa, e elas são tão poderosas que frequentemente fazem com que os problemas (bem como as normas e leis) sejam esquecidos ou ultrapassados.

O dinamismo democrático conduz a uma troca de cadeiras. Se não fosse um exagero, eu diria que essa transparência e esse embaralhamento entre o público e o íntimo têm tido um efeito revolucionário de desmistificar precisa e paradoxalmente os revolucionários de plantão. É o que o nosso pífio programa eleitoral tem o dom de revelar. Nele, os batedores de carteira usuais surgem com clareza, mas é fascinante descobrir o fascismo aberto dos candidatos revolucionários para quem todo o mal do mundo é produzido pelos banqueiros. A satanização é um reducionismo absurdo.

Como contrapeso, porém, temos a campanha dilmista falando de um futuro governo aberto às forças do empreendedorismo, do lucro e do mercado que o PT sempre rejeitou, ao lado de uma visão francamente autoritária e contraditória relativamente ao papel da mídia. Ao jornal cabe informar! — diz a presidenta. E nós, na nossa luta para desmistificar o mundo público nacional, livrando-o dos seus sofismas personalistas, familísticos e autoritários, ficamos abestalhados com a revelação da índole (do geist, como diria um sociólogo alemão) deste governo que tem desmantelado o Banco Central, a Petrobras, os Correios e agora um impecável IBGE nesta ultima década, e que ainda quer mais tempo para prosseguir.

 

Publicado aqui na globo.com

 

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