Jacques Tati em seu mais famoso personagem, Monsieur Hulot
Arthur Soffiati, historiador, ambientalista, escritor e crítico de cinema
Presença de Jacques Tati
Por Arthur Soffiati
Jacques Tati (1907-1982) parece ter tentado criar um personagem de humor como Carlitos, Buster Keaton e Harold Lloyd. Seria a França dando a sua contribuição para a comédia no cinema. Ele chegou tarde e não conseguiu o sucesso alcançado pelos Estados Unidos. Os curtas “On demande une brute” (1934), “Gai dimanche” (1935), “Cuida da tua esquerda” (1936) e “Escola de carteiros” (1947) não criaram um personagem. Mas revelaram seu caráter de mímico e a grande agilidade de Tati.
“Carrossel da esperança” (1949), seu primeiro longa, retoma o personagem do carteiro diligente e atrapalhado que se esforça por imitar um carteiro norte-americano. Algumas cenas de “Escola de carteiros” são retomadas no filme. Tati começa a revelar suas qualidades de comediante e diretor. “Carrossel da esperança” foi filmado em preto-e-branco e em cores. Esta segunda versão foi encontrada muitos anos depois. Foi o primeiro filme em cores da França. A restauração foi um trabalho de pesquisa e de artesanato. Mas Tati ainda não encontrara seu lugar.
Finalmente, em “As férias do senhor Hulot” (1953), ele cria um personagem que vai imortalizá-lo como um dos grandes comediantes do cinema. Hulot é um homem desajeitado e trapalhão fora do seu tempo. Ele não faz crítica explicita à modernidade, mas, com simplicidade, mostra que os tempos modernos excluem o ser humano. Hulot vive o presente como se estivesse no passado. Daí as situações cômicas que ele cria.
Em “Meu tio” (1958), Hulot alcança seu momento mais lírico. O filme tem um roteiro explicito. É claro o contraste de uma França antiga e uma França que se americaniza. Hulot vive uma vida simples, morando numa casa com acesso complicado. Sua irmã casou-se com o executivo de uma empresa de tubos de borracha que, para demonstrar sua posição social, tem uma casa toda automatizada e um automóvel moderno. O filho do casal gosta do tio porque ele representa a liberdade e a simplicidade. Até mesmo o cachorro do casal gosta da liberdade que Hulot lhe proporciona de viver entre vira-latas.
Mas o executivo considera Hulot um vagabundo e mau exemplo para o filho, conseguindo-lhe um emprego na fábrica de tubos. As cenas decorrentes de um desajeitado tentando um emprego moderno são impagáveis. O filme mereceu um Oscar e rendeu recursos de bilheteria.
Num esforço descomunal, Tati reuniu todos os seus recursos para “Playtime” (1967), filme ambicioso. Para tal, construiu uma cidade a fim de fazer um filme “limpo”, em que entrasse apenas o que o diretor desejava. Mais uma vez, Hulot se movimenta num mundo moderno de modo antigo. Não há crítica explícita à modernidade, como em “Tempos modernos”, de Chaplin. Hulot se limita a criar situações impagáveis num mundo dominado por uma tecnologia que ultrapassa a escala humana. Quem se formou num mundo analógico entenderá bem as dificuldades de Hulot num tempo que ainda não é digital.
O filme não foi bem de bilheteria. Começa o declínio de Tati, que morrerá endividado. O curta “Aula noturna”, de 1967, nada acrescenta à sua filmografia, sendo mesmo uma espécie de retorno a seus primórdios. Mas seu personagem marcante retorna em “As aventuras do sr. Hulot no tráfego louco” (1971). Ele não mais financia seus filmes, mas continua a viver à moda antiga num mundo novo.
Um traço que observei na filmografia de Hulot e que ainda não encontrei comentado: sua relação com as mulheres. Elas são moças esbeltas e discretas que entram na vida do comediante, produzindo uma forma de encantamento. Mas não existe aproximação mais íntima.
Por fim, “Parada” (1974), seu canto do cisne. O centro do filme não é mais o senhor Hulot, mas o próprio Jacques Tati, que, aos 67 anos, demonstra toda sua agilidade e capacidade mímica. Ele volta aos tempos em que imitava lutadores de boxe e tenistas, além de outros. O filme foi produzido na Suécia. É pequena a filmografia do grande diretor e ator francês.
Publicado hoje na Folha da Manhã.
Confira o trailer de “Meu tio”, momento mais lírico de Jaques Tati:
Christiano Fagundes, advogado, professor de direito, autor de 24 livvros e membro da ACL
Cecília Meireles: “uma tal intimidade com a morte”
Por Christiano Fagundes
Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu, no Rio de Janeiro, em 7 de novembro de 1901. Órfã de pai e mãe, desde os 3 anos de idade, foi criada pela avó materna. No ano de 1919, estreia em livro, com a obra Espectros. Trata-se de um livro de poemas que foi bem recebido pela crítica.
Pode-se afirmar que a produção literária de Cecília Meireles é ampla, pois, conquanto seja mais conhecida como poetisa, escreveu contos, crônicas e literatura infantil.
Um dos traços fundamentais da poesia de Cecília Meireles é a sua consciência da fugacidade do tempo, da transitoriedade da vida, das coisas. A seguir, um comentário feito pela própria escritora:
“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos 3 anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno que, para outros, constituem aprendizagem dolorosa e, por vezes, cheia de violência. Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade” (Christiano Fagundes, 2010, p.11)
Mister registrar que uma das marcas do lirismo de Cecília Meireles é a musicalidade de seus versos, com o registro de muitas aliterações. No poema “Rômulo rema”, constante da obra “Ou isto ou aquilo”, a aliteração faz-se presente: Rômulo rema no rio/A romã dorme no ramo, /a romã rubra. (E o céu). /O remo abre o rio./O rio murmura./ A romã rubra dorme/ cheia de rubis. (E o céu). / Rômulo rema no rio./ Abre-se a romã./ Abre-se a manhã./ Rolam rubis rubros do céu./ No rio,/ Rômulo rema
A leitura oral do poema evidencia a repetição dos fonemas /R/ e /M/, cujo som lembra o movimento das águas do rio. A expressão “E o céu”, colocada entre parênteses, chama a atenção para a chegada da manhã que aparecerá nos próximos versos. “O rio murmura” sugere uma tensão entre o meio ambiente e as ações do homem em desrespeito à natureza. Trata-se de poema rico em aliteração, musicalidade, personificação, sensorialismo e ludismo.
A fugacidade do tempo, com a passagem da madrugada para a manhã, também está presente. Há uma sugestão de movimento percorrendo todo o poema: “Rômulo rema no rio”; “o remo abre o rio”; “abre-se a romã/ abre-se a manhã”; “rolam rubis”.
No livro “Romanceiro da Inconfidência”, Cecília Meireles retoma uma forma poética de tradição ibérica, denominada romance (composição de caráter popular, escrita em redondilhas), para reconstruir o episódio da Inconfidência Mineira.
Cecília dedicou-se ao magistério primário e universitário, fez crítica literária e colaborou na imprensa, vindo a falecer em 9 de novembro de 1964. Recebeu, post mortem, o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. A seguir, uma outra declaração da poetisa:
“Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde, foi nessa área que os livros se abriram e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano”. (Christiano Fagundes, 2010, p.12).
A poesia está presente no cotidiano. Faz parte da vida do homem, desde os primeiros dias de vida, embalando as cantigas de ninar, perpassando pelas brincadeiras com os colegas de escola, chegando às mensagens de amor. Está presente nos momentos festivos e nos de dor.
Inspirados em Cecília, poetisa que tinha a plena convicção da efemeridade e que venceu, ainda criança, a dor da despedida, sejamos como Rômulo: rememos, pois remar é, cada vez mais, preciso. Reinventemo-nos na perspectiva de um rio iluminado pela manhã e pelo amanhã.
Empresário, advogado e pré-candidato a prefeito de Campos, Edmar Ptak (Agir) é o convidado do Folha no Ar desta quinta (18), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele analisará a política goitacá na polarização entre Garotinhos e Bacellar.
Edmar também falará da sua pré-candidatura a prefeito e da perspectiva de confirmá-la na convenção municipal do Agir neste domingo (21). Por fim, analisará a nominata do seu partido e tentará projetar, com base nas pesquisas (confira aqui, aqui, e aqui), a eleição a prefeito e vereador de 6 de outubro, daqui a exatos 81 dias.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
Em meio ao noticário negativo, por conta de uma denúncia anônima de assédio, a Uenf brilha em sua homenagem a duas grandes mulheres de Campos: Zezé Motta e Arlete Sendra (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Uenf e violência contra a mulher
Desde que foi fundada em 1993, fruto de um pleito da sociedade goitacá no qual a Folha foi figura de proa, a Uenf teve capital importância na transformação de Campos em polo universitário. E no próprio pensamento da cidade. Verdade, essa mudança não foi o suficiente para evitar que, 31 anos depois, casos de violência contra a mulher sejam registrados quase diariamente na cidade. De fato, matéria da Folha publicada (confira aqui) no último dia 10, com dados da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), contabilizou seus 1.637 atendimentos só no 1º semestre de 2024 — 244 a mais que o mesmo período de 2023.
Por que é preciso evidência?
É uma realidade inadmissível. Que tem que ser combatida com todo o rigor da lei. O mesmo que, só no 1º semestre de 2024, gerou a prisão de 78 agressores de mulheres em Campos — 56 a mais que no mesmo período de 2023. Um dos crimes praticados por homens contra mulheres é o assédio, moral e/ou sexual. Porém, casos como o do jogador Neymar provaram que só a denúncia não basta. Acusado de agressão e tentativa de estupro por uma modelo brasileira em maio de 2019, e depois revelado como agredido no vídeo do hotel em Paris, exemplificou o óbvio: mulheres também podem mentir como homens. É preciso evidência.
À espera da evidência do vídeo
Sem abandonar o exemplo do futebol, foram as evidências que renderam as justas condenações e prisões por estupro dos ex-jogadores Robinho e Daniel Alves. Essas evidências, até aqui, inexistem na acusação de um suposto assédio contra uma suposta aluna da Uenf. Feita (confira aqui) com cartazes colados no prédio da reitoria da universidade na última sexta (12), contra o coordenador do curso de Ciências Sociais do Centro de Ciências do Homem (CCH). Até o momento, a única evidência veio em um vídeo interno da Uenf que teria flagrado (confira aqui) quem colou o cartaz com a denúncia anônima. E teria sido não a suposta aluna, mas uma servidora.
Apuração até o fim!
Se isso for confirmado, não espantará quem conhece há algum tempo a Uenf. Por disputas internas de poder, há décadas a universidade convive com a montagem de dossiês pessoais para ameaça e chantagem. Como um protótipo da rede de assassinato de reputações hoje atribuída aos Bolsonaro. De direita ou esquerda, pessoas e suas ações podem ser igualmente sórdidas. Mas são muito menores que a Uenf. Que tem que ir até o fim na apuração. Se houve assédio, contra quem o praticou. E contra quem, sabendo, acobertou. Se não houve, contra quem fez uma denúncia anônima e falsa. E contra quem agora age, na cara dura, para tentar acobertá-la.
Posição do acusado
Acusado na denúncia anônima como assediador, o coordenador do curso de Ciências Sociais do CCH da Uenf, professor Hamilton Garcia, se posicionou: “Esperamos a divulgação do vídeo que identifica quem colou os cartazes para tomar as providências cabíveis na Justiça. Tanto na Criminal, por calúnia e difamação, quanto na Cível, por danos morais. O caso todo é muito desagradável, mas precisamos entender de uma vez por todas quem está por trás deste virtual ‘gabinete do ódio’ uenfiano”. De formação marxista, mas crítico ao lulopetismo, Hamilton é visto por alguns de seus pares mais sectários de esquerda como um “traidor” político.
Posição da reitora
Antes da notícia da existência do vídeo, a reitora da Uenf, professora Rosana Rodrigues, falou na segunda (15) sobre o caso. Ela negou ter sido procurada por qualquer suposta vítima para falar sobre o suposto assédio: “a Uenf tem canais apropriados para denúncias que resguardam o(a) denunciante. Haverá apuração via processo administrativo e legal. Nunca recebi qualquer informação sobre os assédios relatados. Assédio é intolerável. Ocupo a posição em que estou hoje para dar voz a quem nunca foi ouvida(o) pelo sistema patriarcal, machista e misógino. Mas, infelizmente, a onda das fake news chegou até a universidade”, lamentou a reitora.
A dubiedade da acusação
Como os cartazes também acusaram o diretor do CCH de acobertamento do suposto assédio, que teria acontecido no ano passado, a denúncia foi, no mínimo, dúbia. Mas, pensando bem, esperar o contrário seria demais. Diretor do Centro, o professor Geraldo Timóteo disse: “À frente do CCH, nunca recebi nenhuma denúncia de assédio sexual. Vamos esperar a divulgação do vídeo para ingressarmos na Justiça”. Diretor do CCH até 2023, o professor Rodrigo Caetano disse: “Espero a posição oficial da reitoria e o acesso ao vídeo com quem colou os cartazes. Só garanto nunca ter sido procurado por nenhum aluno com nenhuma denúncia de assédio”.
Repúdio oficial: “sem provas e sem denunciante”
Na manhã de ontem, o Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) do CCH divulgou (confira aqui) nota de repúdio. Que entrou de sola: “O Lesce vem a público manifestar a indignação e repúdio à divulgação, por meio de cartazes anônimos, em dependências da Uenf, de grave acusação de assédio contra o coordenador do curso de Ciências Sociais, professor membro deste Laboratório, envolvendo também o diretor do CCH e a reitora (…) O Lesce espera pronta resposta das autoridades universitárias no sentido do pleno esclarecimento e apuração dos fatos, considerando a gravidade de uma denúncia desse teor, sem provas e sem denunciante”.
Campistas: Zezé, Arlete e Uenf
Até que o vídeo e a verdade sejam revelados, é triste ver a Uenf em meio a noticiário negativo, por uma denúncia anônima de assédio sem provas. Mas, ontem, a universidade também brilhou positivamente. A coluna do Lauro Jardim, de O Globo, anunciou (confira aqui) que a atriz, cantora, mulher, negra e campista Zezé Motta receberá um título de doutora honoris causa da Uenf. Cujo site também destacou (confira aqui) que outra grande mulher campista, a professora de Letras e dramaturga Arlete Sendra, aposentada em 2020 após lecionar 24 anos no CCH, receberá o título de professora emérita da universidade. Parabéns às duas! Aliás, às três!
Adolescente de 14 anos, nadadora infantil, atleta do Flamengo, campeã brasileira e campeã estadual, Nicole de Thuin é a convidada do Folha no Ar desta quarta (17), ao vivo, à partir das 7 da manhã, na Folha FM 98,3. Ele será acompanhada pela mãe, a ex-Paquita da Xuxa, atriz, cantora e jornalista Roberta Cipriani.
Nicole falará como concilia a rotina de treinamento de atleta de competição com a escola e a vida normal de adolescente. Depois, às vésperas das Olimpíadas de Paris 2024, dirá como projeta as Olimpíadas de 2028, já definidas para Los Angeles. Por sua vez, Roberta falará da sua trajetória como ex-Paquita, atriz, cantora e jornalista, além de mãe de atleta.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
Em meio a notícias negativas (confira aqui, aqui e aqui) por conta de uma denúncia anônima de assédio dentro da Uenf, a maior universidade do Norte Fluminense gerou hoje uma notícia bastante positiva. De reconhecimento a uma mulher negra e campista de grande contribuição à cultura nacional: “(a atriz e cantora) Zezé Motta, 80 anos, vai receber um título de doutora honoris causa da Uenf”. Foi o que noticiou hoje (confira aqui) o jornalista João Paulo Saconi, na coluna do Laura Jardim, em O Globo.
— Eu fico muito feliz em saber que sirvo de referência. Penso que valeu a pena todas as batalhas que enfrentei até aqui como mulher preta, como atriz e cantora. Tenho muito orgulho em ser uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado contra a Discriminação Racial no Brasil. Neste 2024 essa homenagem vem com um sabor ainda melhor, pois estou comemorando meus 80 anos de vida e 40 anos de criação do Cidan, Centro de Informação e Documentação do Artista Negro no Brasil. Estou viva, em atividade, lúcida e com prestigio. Ando com a agenda cheia de trabalho. Isso tudo é uma benção, todo dia eu agradeço — disse Zezé, em declaração publicada na íntegra, também hoje, no (confira aqui) site da Uenf.
— A concessão do título de doutora honoris causa a Zezé Motta reflete o compromisso da Uenf com a valorização de figuras que, através de suas obras e ações, contribuem significativamente para o enriquecimento cultural e a promoção da justiça social. Zezé Motta representa os valores de excelência, integridade e dedicação que nossa universidade preza e promove — disse no site da Uenf sua reitora, a professora Rosana Rodrigues. Que completou ao blog:
— Vamos preparar uma belíssima cerimônia! — prometeu a reitora, no evento ainda sem data marcada para entrega do título.
A pessoa que colou cartaz no prédio da reitoria da Uenf na sexta (12), com denúncia anônima (confira aqui) de assédio na universidade, já teria sido identificada em vídeo do sistema interno da instituição. Seria uma servidora, não a aluna que teria sido a suposta vítima do suposto assédio. Se essa informação for confirmada, além da investigação interna, pode gerar consequências também no Judiciário.
Hoje, o coordenador do curso de Ciência Sociais, professor Hamilton Garcia; e o diretor do Centro de Ciências do Homem (CCH), professor Geraldo Timóteo; adiantaram que pretendem ingressar na Justiça Criminal e Cível contra o(a) autor(a). Embora não nominados, os dois tiveram seus cargos citados na denúncia anônima. Que gerou, na manhã de hoje, carta de repúdio (confira aqui) do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce), do CCH da Uenf.
— Esperamos a divulgação do vídeo que identifica quem colou os cartazes para tomar as providências cabíveis na Justiça. Tanto Criminal, por calúnia e difamação, quanto na Cível, por danos morais. O caso todo é muito desagradável, mas precisamos entender quem está por trás deste virtual “gabinete do ódio” uenfiano. Neste sentido, é melhor que isso seja divulgado na imprensa séria, para que as pessoas sérias possam acompanhar o caso com a seriedade que merece — disse Hamilton Garcia, coordenador do curso de Ciência Sociais do CCH da Uenf.
— Nem como diretor do CCH, nem como coordenador do curso de Ciências Sociais, nunca recebi nenhuma denúncia de assédio sexual de uma aluna ou aluno. O que cabe, nesses casos, é proteger a vítima e evitar que possa haver uma nova vítima. Se existe a vítima, ela precisa ser identificada internamente. Para, com sua identidade preservada, ser ajudada a se recuperar do quadro de depressão de que fala a denúncia anônima. Agora, se não existe a aluna que teria sido vítima, e se há o vídeo que prova que uma servidora colou os cartazes, além do crime de difamação, há também o de falsidade ideológica. Vamos esperar a divulgação do vídeo para, além da apuração interna, ingressarmos na Justiça — disse o diretor do CCH, professor Geraldo Timóteo.
Ontem, antes da notícia da existência do vídeo, a reitora da Uenf, professora Rosana Rodrigues, falou sobre o caso. Ela também negou ter sido procurada por qualquer suposta vítima para falar sobre o suposto caso de assédio, como foi dito nos cartazes da denúncia anônima colados na reitoria:
— Estamos lidando com essa situação com muita cautela. A universidade tem canais apropriados para denúncias que resguardam o(a) denunciante. Embora essa não seja a forma de se denunciar qualquer ação, haverá apuração via processo administrativo e legal. Posso garantir que a “Rosana” nunca recebeu qualquer informação sobre os assédios relatados. Assédio é intolerável em qualquer ambiente, sobretudo dentro de uma universidade. Entendo perfeitamente que ocupo a posição em que estou hoje para dar voz a quem nunca foi ouvida(o) pelo sistema patriarcal, machista e misógino. E jamais vou me calar ou proteger quem pratica tais atos. Infelizmente a onda das fake news chegou até a universidade
Hoje, também foi ouvido o professor da Uenf Rodrigo Caetano. Como ele foi o diretor do CCH até dezembro de 2023 e um dos cartazes fala que o suposto assédio teria sido praticado no ano passado, ele destacou essa dubiedade temporal da denúncia anônima:
— Espero a posição oficial da reitoria e o acesso a esse vídeo com quem colou os cartazes para conversar com advogados e saber como me posicionar. Não queria falar nada antes. Só garanto nunca ter sido procurado por nenhum aluno com nenhuma denúncia de assédio. E que denúncias anônimas como essa, confusas e, no mínimo, dúbias, afetam a honra e a dignidade das pessoas, de servidores públicos íntegros e dedicados à Uenf, assim como suas famílias. Precisamos e vamos chegar ao fim disso. Se não a Uenf pode virar um inferno! — advertiu o professor Rodrigo Caetano.
“O Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) vem a público manifestar a indignação e repúdio à divulgação, por meio de cartazes anônimos, em dependências da Uenf, de grave acusação de assédio contra o coordenador do curso de Ciências Sociais, professor membro deste Laboratório, envolvendo também o diretor do CCH e a reitora da universidade”. Foi como o Lesce abriu sua carta de repúdio, divulgada na manhã de hoje, ao fato que teria ocorrido (na sexta (12) e foi noticiado (entenda o caso aqui) ontem (15).
Confira abaixo a íntegra da carta de repúdio do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado, do Centro de Ciências do Homem (CCH), da Uenf:
Nota de repúdio do Lesce, do CCH da Uenf, à denúncia anônima colada em cartaz no prédio da reitoria (Reprodução)
Odisséia Carvalho, Gilberto Gomes, Carla Machado, Jefferson Azevedo e Wladimir Garotinho (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
“Vamos aguardar as próximas pesquisas, mas não houve migração de Carla (Machado, PT) para Wladimir (Garotinho PP), mas sim para o professor Jefferson (Azevedo, PT)”, disse a presidente do PT goitacá, ex-vereadora e pré-candidata a vereadora Odisséia Carvalho. “Tenho certeza que Carla vai apoiar o professor Jefferson a prefeito de Campos”, apostou o secretário de Comunicação do PT de Campos e pré-candidato a vereador, Gilberto Gomes.
Odisséia e Gilberto se posicionaram sobre a questão que ecoou aqui no final de semana: “Impedida de concorrer a prefeita de Campos por toda a jurisprudência do TSE e do STF, como a Folha adiantou (confira aqui) desde novembro de 2023, Carla Machado tirou (confira aqui) seu nome da disputa de 2024. E deixou aberta a dúvida: para onde irão os seus 18,7% de intenção de voto?”
A única pesquisa registrada em 2024 foi a Prefab Future feita em 26 de abril, quando Carla ainda era pré-candidata. Quando ela foi a única, além de Wladimir, a alcançar dois dígitos de intenção de voto na consulta estimulada: 18,7%. Candidato natural à reeleição, o prefeito de Campos apareceu liderando com razoável vantagem: 53,7% de intenção de voto na estimulada.
— Na verdade, todo mundo sabia que Carla não poderia ser candidata. Insistiram, não sei por que, até a última hora, ainda prejudicando a possível candidatura do professor Jefferson. Para mim, até de maneira proposital. Não queriam deixar que o professor Jefferson fosse candidato, mas é uma questão interna do PT. Agora é ver para onde o voto dela vai migrar. Pelas pesquisas internas que temos, mais de 50% migram para minha pré-candidatura. Mas estou focado no trabalho, na Prefeitura — disse Wladimir (confira aqui) na Feijoada da Folha, em 29 de junho.
O prefeito foi respondido pelo prefeitável petista Jefferson, ex-reitor do IFF:
— Curiosa a postura de tentar atrair parte do eleitorado da deputada estadual Carla Machado depois dos ataques agressivos que promoveram contra a sua pré-candidatura a prefeita. Preferem agir assim do que conquistar o voto no debate público da cidade. Um governo muito mal avaliado no transporte público e na saúde. Não tenho dúvidas de que esses eleitores estarão com a nossa pré-candidatura. É necessário aguardar novas pesquisas para uma avaliação mais precisa da situação.
Além de Jefferson, Odisséia também respondeu mais a Wladimir:
— Não procede essa narrativa do atual prefeito. É muito estranho que votos que se orientavam à oposição, de eleitores críticos à sua gestão, mudem subitamente para o governo sem uma razão coerente. Quem tinha a intenção de votar em Carla Machado, considerando suas gestões em São João da Barra, as compara com a de Campos e é crítico à gestão Wladimir. Vamos aguardar as próximas pesquisas, mas com certeza não houve migração de Carla para Wladimir, mas, sim, para o professor Jefferson. Também não procede a afirmativa que a pré-candidatura de Carla atrapalhou a candidatura de Jefferson. Tínhamos três pré-candidaturas a prefeito: Carla, Jefferson e Hélio Anomal. O nome do PT foi levado e as propostas apresentadas pelos três.
Prefeita de Cardoso Moreira e pré-candidata à reeleição, Geane Vincler (União) é a convidada do Folha no Ar deste terça (16), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ela analisará sua trajetória nos últimos quatro anos, da eleição a prefeita por apenas 8 votos de vantagem em 2020 ao favoritismo nas pesquisas (confira aqui) à reeleição em 2024.
Geane também tentará projetar o impacto da mudança da condição de Neto Sardinha (PL): de pré-candidato a prefeito de oposição a (confira aqui) apoiador da prefeita. Por fim, ela falará da montagem de nominata do seu grupo político e da eleição à Câmara Municipal de Cardoso.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.
A Uenf, sua reitora, Rosana Rodrigues, e seu coordenador do curso de Ciências Sociais, Hamilton Garcia (Montagem: Joseli Mathias)
“Infelizmente, a onda das fake news chegou à universidade”. Foi como a reitora da Uenf, Rosana Rodrigues, reagiu à colagem de dois cartazes em um dos banheiros da reitoria na sexta (12). Para fazer a denúncia anônima de um suposto assédio que teria sido praticado em 2023 pelo coordenador de Ciências Sociais a uma aluna. E de que esta, por sua vez, teria levado essa denúncia ao diretor (do CCH, Centro de Ciências do Homem) e à reitora, que não teria feito nada.
— Estamos lidando com essa situação com muita cautela. A universidade tem canais apropriados para denúncias que resguardam o(a) denunciante. Embora essa não seja a forma de se denunciar qualquer ação, haverá apuração via processo administrativo e legal. Posso garantir que a “Rosana” nunca recebeu qualquer informação sobre os assédios relatados. Assédio é intolerável em qualquer ambiente, sobretudo dentro de uma universidade. Entendo perfeitamente que ocupo a posição em que estou hoje para dar voz a quem nunca foi ouvida(o) pelo sistema patriarcal, machista e misógino. E jamais vou me calar ou proteger quem pratica tais atos. Infelizmente a onda das fake news chegou até a universidade — disse Rosana.
A reitora também confirmou que levou a situação, na própria sexta, ao Conselho Universitário da Uenf. Que deve emitir uma nota de repúdio. Coordenador do curso de ciências sociais, o cientista político Hamilton Garcia também se posicionou sobre a denúncia anônima a ele dirigida:
— Tomei contato a pouco com a peça difamatória que circula em banheiros da universidade, disseminada também, como seria de se esperar, em grupos de estudantes. O que me intriga, além do rol de implicados no suposto assédio, que vai da CooCISO à Reitoria, é por que, ao que se diz, foi uma servidora e não uma estudante a espalhar tais cartazes? Aguardemos as providências administrativas e legais que podem nos ajudar a entender quem está por trás deste virtual “gabinete do ódio” uenfiano — cobrou Hamilton.
Abaixo, as imagens dos cartazes colados no banheiro da reitoria. O caso é grave e demanda o devido esclarecimento. Mas a denúncia anônima traz aparentes indícios de má-fé. Quando diz “fui assediada pelo coordenador no curso de ciências sociais”, a suposta aluna não diz se o suposto assédio teria sido moral ou sexual. O que, quase sempre, empurra à apreensão do segundo caso. Ademais, a reitora foi assertiva ao negar ter recebido tal denúncia.
Cartazes com a denúncia anônima colada no banheiro da reitoria (Foto: Reprodução)
Uenf tem curso de cinema cobrado pelo doutorando em sociologia e cineasta Fernando Souza, o sociólogo Roberto Dutra e o antropólogo e cineasta Gabriel Barbosa (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Por Fernando Souza, Roberto Dutra e Gabriel Barbosa
Na noite do dia 19 de junho, aconteceu uma exibição seguida de debate com o documentário “Rio, Negro” (2023) de Fernando Sousa e Gabriel Barbosa, na Casa de Cultura Villa Maria, oportunidade em que celebramos o dia do cinema brasileiro e retomamos com o público presente a proposta de criação do curso de cinema na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, a Uenf. Além desse importante marco, a exibição contou com uma plateia de quase 40 pessoas. Foi uma noite para guardar na memória que contou ainda com as presenças generosas do jornalista Aluysio Abreu Barbosa e do estudante de cinema da UFF Gabriel Belchior, na mediação da conversa.
Campos, é bom lembrar, é uma cidade de Cinema. Em seus tempos áureos, contou com quase 70 salas de cinema e a planície goitacá já serviu de locação para filmagem de importantes novelas e obras cinematográficas, tais como: “Escrava Isaura” (1976), de Walcyr Carrasco; “Na boca do mundo” (1978), de Antonio Pitanga; e “Ganga Zumba” (1963) e “Xica da Silva” (1976), ambos de Cacá Diegues. Sem falar das produções locais, como “Sobre o domínio da fé” (1995) de Maria Helena Gomes; “Forró em Cambahyba” (2013) de Vitor Menezes e mais recente “Faroeste Cabrunco” (2022) de Vitor Van Ralse. Não menos importante, temos pelo menos dois filhos ilustres de expressão nacional atuando no cinema e na televisão: o ator Tonico Pereira e a atriz e cantora Zezé Motta. Esta, muito em breve, será primeira personalidade a ser condecorada com a titulação de doutora honoris causa pela Uenf.
A celebração do dia do cinema brasileiro em Campos aconteceu às vésperas do lançamento do estudo lançado pela Fundação Getúlio Vargas sobre a aplicação da Lei Paulo Gustavo no Estado do Rio de Janeiro, que revelou o impacto de R$ 852,2 milhões como resultado desta política pública na economia estadual. Esse investimento federal se reverteu em R$ 132 milhões em arrecadação de impostos, gerando quase 12 mil empregos diretos. Em 2023, somente a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (Secec – RJ) foi responsável pela execução de R$ 139 milhões em recursos destinados pela União através da Lei Paulo Gustavo. Trata-se do maior volume de recursos da história investidos no setor cultural fluminense.
Apesar do setor do audiovisual abarcar o maior volume de recursos, também foram abertos editais de fomento nos segmentos de teatro, conexões urbanas, dança, circo, música, artes visuais, manifestações tradicionais, bandas e fanfarras, artesanato, arte-educação, HQ e diversidades em diálogo. Os resultados da Lei Paulo Gustavo no estado revelam o potencial do setor criativo e da cultura, mas não dão conta da complexidade que envolve a execução dos mesmos recursos da lei direcionados para todos municípios do estado, especialmente do interior. Para se ter uma ideia, a soma dos valores recebidos pelas 9 cidades do Norte Fluminense chega a R$ 8 milhões. Destes, Campos dos Goytacazes ficou R$ 3,8 milhões.
É importante frisar igualmente que os resultados da Lei Paulo Gustavo foram anunciados em um contexto em que se avizinham as eleições municipais. E, com elas, as discussões em torno das pautas mais cotidianas da população. O abastecimento de água, o transporte público, o saneamento básico, a educação de nossos filhos e a segurança pública (apesar desta não ser diretamente responsabilidade municipal) continuam a pautar as discussões dos postulantes às prefeituras. Apesar da urgência de tais temas, a Cultura permanece alijada do debate eleitoral. Não obstante, nos últimos anos, diversos instrumentos de políticas públicas culturais foram implementados, gerando impactos diretos na geração de emprego e renda.
Além da implementação da Lei Paulo Gustavo, pelo menos até 2027 teremos a Lei Aldir Blanc 2, política consolidada como uma grande conquista municipalista para o futuro do investimento público no setor criativo e da cultura. Nos próximos anos, de forma descentralizada e regular, devem ser repassados pela União aos municípios brasileiros 1,5 bilhão por ano, a princípio, até 2027. Ambas as leis são fruto da mobilização de trabalhadores da cultura, que se organizaram durante o período da pandemia com o objetivo de garantir uma renda mínima para os profissionais que atuam neste campo, em suas diferentes expressões artísticas. Os municípios precisam organizar seus arranjos administrativos para atrair e receber esses recursos, fomentar políticas públicas e criar um ambiente de negócios juridicamente seguro para o desenvolvimento da indústria criativa e da cultura.
Há muito trabalho a ser feito, muitas oportunidades podem ser aproveitadas para dinamizar o crescimento da economia criativa e da cultura no interior do estado, especialmente no Norte e Noroeste Fluminense. Segundo dados do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual , vinculado à Agência Nacional de Cinema (Ancine), há 2.145 produtoras independentes regulares atuando no Estado do Rio de Janeiro, com apenas 224 produtoras cadastradas em todos os 91 municípios do interior do estado. Campos possui 6 produtoras cadastradas.
À baila desse debate, é importante frisar a necessidade de formação de mão de obra em nível técnico, de graduação e pós-graduação, seja para atuar no ensino, na pesquisa, no mercado de trabalho ou nas gestões públicas municipais do interior do estado, que ainda carecem de quadros qualificados nesta área em suas secretarias. Há necessidade de investimentos na revitalização de patrimônios como o Cine São José e criação de equipamentos culturais, possibilitando a dinamização das economias dos bairros, revelando novos talentos e democratizando o acesso à cultura ao grande público. Há um grande potencial regional para a mobilização de recursos públicos e privados no investimento em infraestrutura na área, a criação de um ambiente produtivo e de negócios no interior do estado.
Entre os desafios e oportunidades, a Uenf também pode e deve ser bem-vinda a ocupar um lugar estratégico na gestão de equipamentos culturais e na oferta de novos cursos no campo criativo e da cultura. Nessa esteira de debate é que retomamos a proposta de criação do curso de cinema na Uenf, em nível técnico, de graduação e, futuramente, pós-graduação, garantindo a formação e qualificação necessária para futuros profissionais atuarem na criação de um polo regional de produção de cultural, na realização e produção cinematográfica. E também para atuarem no mercado de trabalho e na gestão de políticas públicas do setor criativo e de cultura no Norte, Noroeste e no raio de ação mais próximo da Uenf, que abrange número considerável de cidades do Espírito Santo e Minas Gerais.
Em termos práticos, a boa notícia é que a proposta de criação do curso de cinema está sendo acolhida e tratada como prioridade estratégica para a expansão da universidade e o desenvolvimento da região, no âmbito da comissão que compõe o Plano de Desenvolvimento Institucional do Centro de Ciências do Homem da Uenf. Nossa cidade e nossa região assistem às contradições do petrorrentismo se tornarem agudas e insuperáveis em seus próprios termos. Nem as atividades e tampouco as elevadas rendas do petróleo deram origem a dinâmicas internas, sustentáveis e inclusivas de desenvolvimento econômico com qualificação do trabalho, aumento de produtividade e elevação educacional e cultural em larga escala.
Para superar a contradição entre o desenvolvimento petrorrentista insulado nas franjas do litoral e o subdesenvolvimento reinante no interior de Campos e de seu entorno, precisamos de processos internos de transformação e inovação educacional e produtiva. Que sejam acoplados à emergência de uma economia criativa com alta agregação de valor e uso de trabalho qualificado em grande escala.
O curso de cinema é capaz de dar propulsão, a partir da Uenf e em perfeita sintonia com sua missão histórica, a uma dinâmica como essa. Embora sozinha nenhuma universidade possa criar nem sustentar nenhum processo social, sua tarefa de desafiar a ditadura da falta de alternativas pode permitir uma nova articulação entre cultura e economia, em torno de uma política de desenvolvimento que aproveite a grandeza e a criatividade de nosso povo.
A tradição de Campos com o cinema não é um traço do passado a ser apenas recuperado e preservado. É também, e acima de tudo, uma fonte de imaginação, planejamento e construção do futuro.