
A ser levado a sério o que o governo Rosinha (PR) anunciou ontem, por meio do secretário de Governo Suledil Bernardino e da presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Patrícia Cordeiro, se o Supremo Tribunal Federal (STF) não reverter a derrota no Congresso Nacional, que aprovou a nova lei dos royalties, o município de Campos perderá tudo, desde seu questionado carnaval fora de época, a serviços básicos como atendimento nos hospitais da rede conveniada, iluminação pública e até coleta de lixo.
Considerado “terrorismo” pelo ex-candidato a prefeito José Geraldo (PRP), as ameaças de paralisação nas mais variadas áreas do poder público municipal, foram severamente criticadas por dois outros concorrentes de Rosinha em 2012: Makhoul Moussallem (PT) e Erik Schunk (Psol). O primeiro, advertiu que sem o aporte da Prefeitura aos hospitais e profissionais conveniados que atendem pelo SUS, a Saúde Pública de Campos mergulhará num caos.
Considerado que, mesmo recebendo os royalties integralmente e em dia, Campos vive uma epidemia de dengue anunciada e não evitada, e teve o atendimento psiquiátrico do Caps denunciado em pleno Jornal Nacional, chega a ser difícil de imaginar o quão pior poderia ficar a Saúde Pública do município, se cumprida a ameaça de se suspender o serviço de ambulâncias, a marcação de consultas e exames nos hospitais conveniados, a ampliação do Hospital Ferreira Machado (HFM), ou a construção do novo Hospital São José, promessa adiada do primeiro mandato Rosinha, assim como tantas outras.
De qualquer maneira, como médico ou administrador hospitalar com larga experiência, Makhoul deve saber do que está falando. Por isso mesmo, ele questionou como uma redução de 16,6%, ou de R$ 400 milhões num orçamento previsto em 2,41 bilhões para 2013, segundo estimativa feita à Folha pelo próprio Centro de Informações e Dados de Campos (Cidac), poderia levar a consequências tão drásticas, caso realmente se confirme a perda nos royalties.
O fato é que, como Zé Geraldo e Erik Schunk ressaltaram, ninguém poderá ajudar muito nessa conta, que permanecerá misteriosa enquanto o governo municipal não revelar quanto de fato gasta em cada um dos programas que agora ameaça cortar. Ressalve-se que esse direito é assegurado a qualquer cidadão brasileiro pela lei federal 12.527, de acesso à informação (conheça-a aqui), mesmo que em Campos continue sendo deliberadamente sonegado até aos vereadores de oposição, no já famoso “rolo compressor” governista.
Mesmo que não se possa afirmar que alguém gastou no ano eleitoral de 2012, para descontar na conta pública de 2013, ninguém minimamente informado pode negar que a ameaça sobre os royalties existia desde 2009. E, de lá para cá, nada indicava que na disputa do Congresso, entre representantes de 27 unidades da Federação, os senadores e deputados do Rio e Espírito Santo pudessem ter sorte melhor do que a reservada aos vereadores de oposição em Campos, diante da força esmagadora da maioria.
Como nos dois casos a conta é fácil e o resultado previsível, talvez fosse o caso de se ter reavaliada a necessidade de uma obra faraônica, e de pouca utilidade prática, como o Centro de Eventos Populares Osório Peixoto (Cepop), inaugurado em 2012 ao custo de quase R$ 100 milhões. Afinal, sem carnaval no Cepop dá até para ficar. Já sem Saúde Pública ou coleta de lixo, nem rebolando ao som do tamborim.
Uma vez que claramente nada foi planejado antes, bom que se começasse a fazê-lo agora. Afinal, como reza o dito: antes tarde do que nunca. Seria o caso, por exemplo, de se pensar em cortar alguns dos 44 cargos de primeiro escalão do governo Rosinha, enquanto todo o governo do estado tem apenas 25 secretarias, antes de se ameaçar toda a população de Campos em seus serviços públicos essenciais.
Publicado hoje, na coluna Ponto Final, na Folha da Manhã.