Ponto final — Pedofilia, quem pagará o preço pelo resto da sua vida?
“Meninas de Guarus”
Como escreve o jornalista Esdras Pereira em sua coluna na página 7, no caso conhecido como “Meninas de Guarus”, tão graves quanto as suspeitas de prostituição de menores, comercialização e consumo de drogas e até homicídio, são as denúncias de manipulação dos depoimentos e do inquérito para tentativa e prática de extorsão. Afinal, não custa lembrar que policiais civis que participaram da investigação depois acabariam presos por crime de extorsão, em outro caso, no município vizinho de Italva.
Nelson Nahim
Sem sombra de dúvida, além da gravidade das denúncias, o que mais chamou a atenção da grande mídia ao caso foi a suspeita de envolvimento do ex-vereador Nelson Nahim (PSD), irmão e opositor do deputado federal Anthony Garotinho (PR), ainda referência da política estadual e nacional. E não deixa de ser irônico constatar que quem mais se ufanou pela ação de ontem, ecoado por seu assessor parlamentar Cláudio Andrade, foi o deputado estadual não reeleito Roberto Henriques, também do PSD e cuja eleição em 2010 só aconteceu a partir do apoio de Nahim, à época prefeito interino.
“Repórteres” da internet
Como Esdras também frisou, as denúncias de extorsão sequer foram citadas ontem pelos “afobados ‘repórteres’ artesanais da internet”, que não sabem distinguir opinião de fato, nem fato de fofoca. Como uma suposta verdade não pode ser utilizada na tentativa de se endossar 10 mentiras reunidas no mesmo bolo, sobretudo se for para atender a interesses tão criminosos quanto a causa da investigação, é preciso também ter cautela na hora de separar os suspeitos por seus supostos crimes.
Presos por quê?
No mandado de prisão preventiva, que não equivale a condenação, o juiz Leonardo Cajueiro distinguiu: “há reiteradas notícias do emprego de violência por parte dos denunciados Leilson (Rocha da Silva), Thiago (Machado Calil), Fabrício (Trindade Calil) e Ronaldo (de Souza Santos) sobre as adolescentes submetidas à exploração sexual”. Para o magistrado, os quatro são os “supostos líderes do grupo”. “Quanto aos réus Nelson (Nahim) e Sérgio (Crespo Gimenes Júnior), há notícias (…) de que ambos estariam constrangendo as vítimas e testemunhas”, explicou o juiz da 3ª Vara Criminal.
Morte em vida
Dos seis mandados de prisão, só não se cumpriu o de Thiago Calil, que estaria foragido. Há ainda 14 outras pessoas suspeitas. Segundo o próprio Ministério Público e a Polícia Civil, todos os nomes deveriam ter sido mantidos em sigilo. Mas foi intenção muito mal conduzida, permitindo todo tipo de especulação até o vazamento das prisões. Sejam estas mantidas ou não, independente de qualquer julgamento num tribunal, a palavra “pedofilia” é capaz de condenar à morte em vida, perante à sociedade, qualquer um que for a ela associado, a partir de supostas evidências ou pura leviandade.
Jurisprudência paulista
Foi o caso da Escola Base de São Paulo, em 1994, fechada depois que seus dois diretores, mais uma professora e um motorista foram acusados de molestar sexualmente crianças de 4 anos. Quatro foram também os absolvidos pela lei, mas que nunca se livraram da suspeita. Ou você, caro leitor, se pai ou mãe, teria a coragem de colocar seu filho para estudar na escola em que qualquer um deles trabalhasse? Por este dano moral irreversível, só a Rede Globo foi obrigada a pagar R$ 1,35 milhão aos inocentes que colocou como suspeitos de pedofilia, com base na Polícia Civil e Ministério Público paulistas.
Quem pagará?
Assim que o caso “Meninas de Guarus” estourou, a Folha da Manhã foi o primeiro e até então único a noticiá-lo, em sua capa de 7 de junho de 2009. Jamais faremos questão de dar sobre ele nenhuma palavra final, que só caberá à Justiça em caso de condenação. Porque se algum suposto envolvido for inocentado no fim, só resta saber quem pagará o preço pelo resto da sua vida.
Publicado hoje na Folha
Atualização às 13h20 para introduzir correção feita aqui pelo leitor Rodolfo















