Estátua de Tom Jobim, em 03/12/14, quando era instalada à beira mar entre Ipanema e Arpoador (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Ontem (08) completaram-se 22 anos da morte de Tom Jobim (1927/94). Lembro que, após receber a notícia, na redação da Folha, acelerei o dia de trabalho e, depois, o carro até o Pontal de Atafona. Ao chegar, bati no balcão do botequim para pedir de cara uma cachaça. E tomei, na sua sequência parideira, um porre homérico.
Na exata metade da minha vida, a saudade do garoto de 22 anos e gestos dramáticos, só não é maior do que a sentida por quem considero, ao lado de Cartola (1908/80) e Chico Buarque, o maior compositor da Música Popular Brasileira (MPB).
Como músico popular, certamente foi o maior entre os brasileiros. Já enquanto letrista, função que exercia menos, também pelo prazer generoso de compor em parceria, foi quem na MPB mais se aproximou da poesia literária de João Cabral de Melo Neto (1920/99). Quem nunca notou, que ouça novamente “Águas de Março”.
Maestro de formação erudita, discípulo dos mestres Heitor Villa-Lobos (1887/1959) e Radamés Gnattali (1906/88), conferiu a sofisticação harmônica do jazz à riqueza melódica e rítmica do samba. Nesta mistura, fundou a Bossa Nova, no final dos anos 1950. E soube aproveitar o sucesso internacional do novo estilo para pavimentar nos EUA uma carreira de igual sucesso.
Nos States, gravaria com Frank Sinatra (1915/98), em 1967, um disco de grande sucesso — também pela insistência de Jobim em ter na percussão um brasileiro, Dom Um Romão (1925/2005). Apesar da competência da orquestra de Sinatra, comandada por Claus Orgeman (1930/2016), Tom sabia que os gringos tinham “cintura dura” no batuque do samba.
O convite de Sinatra já faz parte da mitologia, como tantas outras histórias protagonizadas pelos dois mais conhecidos parceiros da MPB. Feito numa ligação telefônica ao antigo Bar Veloso, hoje “Garota de Ipanema”, onde os compositores da música Tom e Vinicius de Moraes (1913/80) bebiam e acharam inicialmente se tratar de um trote.
Enquanto pianista, Tom teve grande influência do toque dissonante do gênio do jazz Thelonius Monk (1917/82). Já na condição de compositor, foi considerado pela exigente crítica especializada dos EUA como um dos grandes do séc. 20, ao lado de monstros como George Guershwin (1898/1937), Cole Porter (1891/1964) e Irving Berlin (1888/1989).
O prestígio de Tom serviu para consolidar a carreira de outros mitos. Foi o caso de Elis Regina (1945/82), que a partir do disco “Elis & Tom”, de 1974, buscou e alcançou um novo status enquanto intérprete, a partir do sucesso de público e crítica, no Brasil e no mundo. Com ambos, a cabralina “Águas de Março” nunca foi tão derramada.
Seu disco que mais me marcou, talvez pela contemporaneidade do prazer de comprá-lo ainda inédito na saudosa Caiana do tio Dionísio Barbosa (1934/1994), foi “Passarim”. Nele, Jobim revelava duas letras para melodias que haviam feito grande sucesso em duas minisséries da Globo naqueles anos 1980.
Faixa título do disco, “Passarim” tivera sua versão instrumental, ainda sem a letra do próprio Tom, como tema da minissérie “O Tempo e o Vento” (1985). Era baseada na obra de Érico Veríssimo (1905/75). Já a música “Anos Dourados” (1986), que batizou a homônima série de TV, apresentaria só no disco a atrasada letra de Chico Buarque.
Em 1992, o maestro que se chateava quando não reconhecido como compositor de samba, ganhou sua maior homenagem: foi enredo e destaque do desfile da Mangueira. Um ano antes, gravara o disco “No Tom da Mangueira”, com músicas de bambas como Cartola, Noel Rosa (1910/37), Nelson Cavaquinho (1911/86), Carlos Cachaça (1902/99) e Jamelão (1913/2008).
Além dos mestres cuja música revolucionara, Tom convidou outro para traduzir seu sentimento, em palavras, sobre a sua música. Na última parceria com Chico, “Mandei subir o piano pra Mangueira” abre o disco e o coração de um sambista tão assumido, quanto acanhado:
“Mangueira/ Estou aqui na plataforma/ Da Estação Primeira/ O Morro veio me chamar/ De terno branco e chapéu de palha/ Vou me apresentar à minha nova parceira/ Já mandei subir o piano pra Mangueira// A minha música não é de levantar/ Poeira/ Mas pode entrar no barracão/ Onde a cabrocha pendura a saia/ No amanhecer da quarta-feira/ Mangueira/ Estação Primeira de Mangueira”.
Na faixa título de “Paratodos”, de 1993, na qual Chico reverencia a lembrança dos maiores cânones da MPB, ele canta ao fechamento da estrofe primeira e final: “Meu maestro soberano/ Foi Antonio Brasileiro”. Se, na última parceria de ambos, ele falou por Tom, falando deste ecoava uma nação.
No que há de particular, minha música preferida do maestro soberano sempre foi “Luiza”, composta para a novela “Brilhante”, exibida pela Globo em 1982. Mais que a personagem interpretada por Vera Fischer, no auge da beleza, Jobim depois revelaria sua verdadeira musa:
“Ana Luíza foi uma moça bonita que apareceu no Antonio’s, num dia que estava chovendo. Ela correu para aquela varandinha do Antonio’s. Era uma moça alta, grande, uma grande moça e uma moça grande. Estavam lá Chico Buarque, Carlinhos de Oliveira, uma quadrilha imensa. Chico começou a falar com aquele riso dele, aquelas palavras incríveis e depois a chuva passou e ela foi embora. E ficou o nome”.
Revelados como um brilhante que partiu a luz e a explodiu em sete cores, bem aventurados os que guardaram sete mil amores para dar somente a alguém.
Abriu os olhos. Os primeiros e incômodos raios de sol invadiam as frestas da janela, incidindo sobre ela. Tentou retornar ao sonho. Era encantada por eles. No último desta manhã, andava por um campo florido. Na parte final, uma figura desconhecida a esperava. Não identificou quem era. Um homem. Sem nome e sem rosto. Apenas sentia uma paz vinda daquela imagem. Correu. Quanto mais acelerava, mais o outro se afastava. Acordou cansada, mas queria voltar a dormir para poder alcançar a aparição.
Uma mão tocou seus cabelos. Respirou fundo antes de reabrir os olhos para encarar a realidade. Um sorriso. Um homem. Gestos e atenções direcionados a Clara. Retribuiu os carinhos. Eram vazios. Sem vida. Frios. Mas ele não percebia que o corpo ao seu lado permanecia sem alma. Fazia festas, trazia flores, preparava jantares. Arrumava os cantos da casa. Organizava os papéis. Acumulava tarefas para não precisar fazer o exercício de pensar sobre sua vida.
— Bom dia, meu amor.
— Bom dia, Augusto.
Ele manteve o sorriso. Ficava feliz quando acreditava receber o carinho de Clara. Concentrava parte de seus dias em atos e fatos que pudessem ganhar a aprovação da mulher.
Ela, por outro lado, percebia os esforços. Quanto mais difícil para Augusto, maior o desprezo de Clara. Sentia pena por ver um homem, tão bonito, fracassar em inúmeras tentativas de reverter um processo tragicamente concluído.
O marido se levantou. Caminhou até a porta. Saiu. Enquanto ouvia seus passos, Clara assistia a um filme. Aos 15 anos, os dois se conheceram. A garota vinha de outra escola e entrara na turma dele. O rapaz, o mais atraente da turma, fazia parte de um grupo de meninos bagunceiros, mas tinha algo que o diferenciava. Era educado. Gentil. Conseguia, ao mesmo tempo, irritar e encantar os professores.
Depois de atritos, os dois se tornaram amigos. Preenchiam o dia inteiro juntos, tanto dentro quanto fora da escola. Assim foi durante todo o ensino médio. Quando foram cursar diferentes faculdades, passaram anos sem se encontrar. Com meses de formado, Augusto recebeu a oportunidade de trabalhar na cidade em que Clara morava. Sem analisar efetivamente a proposta, se arriscou.
O reencontro foi bonito. Eram sentimentos sinceros que ambos compartilhavam. Passaram pelos rituais: namoraram, noivaram e casaram. Sete anos. Os passos aumentaram à medida que Clara recobrava a consciência. Todas as cenas foram transmitidas em um segundo, tempo que, para ela, era suficiente para dedicar às lembranças do casal.
— Trouxe um suco para você. Sei que não gosta de comer pela manhã, mas não gosto que saia de casa sem se alimentar de alguma forma. O que fará hoje? — perguntou enquanto entregava o copo à esposa, que agradeceu com um aceno de cabeça.
— Tenho uma consulta com Eduardo. Preciso tomar banho para não me atrasar.
— Não sabia que tinha voltado à análise.
— Ainda não, mas vou voltar hoje. Acho que preciso organizar as coisas dentro e fora de mim — e, agradecendo novamente, após beber o suco, entregou o copo ao marido. Preocupou-o. Temia, sem expor sua opinião, para que caminho o tratamento poderia levá-los.
Clara escolheu um vestido azul e uma sapatilha. Pegou as roupas e as bijuterias. Andou vagarosamente em direção ao banheiro. Ainda se sentia cansada. Trancou a porta. Ligou o chuveiro. Encarou sua imagem no espelho. Estava envelhecida. A pele ressecada, assim como os cabelos. Os olhos inexpressivos. As sobrancelhas bagunçadas. Era uma mulher cuja aparência mostrava uma idade além da real.
Ouviu o carro sair. Era Augusto. Não costumava sair sem se despedir, mas sabia que ele ficara incomodado ao ouvir o nome “Eduardo”. O psicanalista, muitas vezes, parecia querer que os dois se separassem. Era assim que o cansaço de Clara, entediada do marido, poderia ser compreendido pelo homem. A responsabilidade jamais seria dela, a menina romântica com quem escolhera construir uma vida. Não admitiria que o outro não era capaz de influenciar as decisões da mulher.
A partida do veículo foi recebida com leveza por Clara. Fechou o chuveiro. Deixou o vestido em cima do cesto de roupas. As sapatilhas foram lançadas a um canto. Foi, novamente, para o quarto e se deitou. Não existia mais Eduardo. Há meses, havia abandonado o tratamento. Mas continuava a ser a sua desculpa para afastar Augusto. Tentou, desde o término forçado das consultas, não mentir sobre sua vida. No entanto, ela não sabia mais distinguir mentiras e verdades; sua personalidade e a que foi criada para manter o casamento; suas vontades e a vontade da esposa de Augusto; os seus e os outros sonhos.
A palavra lhe trouxe à mente a figura do homem desconhecido. O rosto não visto. Corria. Corria cada vez mais na tentativa de se aproximar daquela imagem. Perturbação e paz. Serenidade e violência. Calmaria e agitação. Mesmo com os olhos abertos, continuava em disparada atrás do estranho a quem procurava, dias e noites, para suprir suas necessidades e desejos.
Voltou para a cama. Antes de se entregar ao sono, uma mão tocou seus cabelos. Respirou fundo. Um sorriso. Um homem. Gestos e atenções direcionados a Clara. Não abriu os olhos. Não queria perdê-lo. Afastou o frio e se sentiu guiada para sua realidade.
Depois do Supremo Tribunal Federal (STF) decidir (aqui) agora há pouco, por 6 votos a 3, que Renan Calheiros (PMDB/AL) pode permanecer na presidência do Senado, alguém ainda duvida da sabedoria das ruas?
Manifestante em São Paulo, nos protestos do último domingo (04) deu a sentença das ruas ao Supremo Tribunal Federal (Foto: Redes Sociais)
E, com o Brasil a reboque, segue a saga entoada no refrão do cantor e compositor Sérgio Ricardo, para o clássico “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), do visionário Glauber Rocha (1939/81):
Rosinha exibindo seu dotes artísticos em cima do trio eletétrico (Foto: Divulgação)
Por Aluysio Abreu Barbosa
Num governo que chegou a ter a luz recentemente cortada na sede da Prefeitura por falta de pagamento e que promove desligamentos em massa dos servidores por Recibo de Pagamento Autônomo (RPA), enquanto convoca concursados ignorados por oito anos para tentar inviabilizar os próximos Executivo e Legislativo da cidade, não é de se espantar que a Cultura também seja alvo desse caldo cultural administrativo já no fundo do tacho. Artistas de Campos que realizaram e foram premiados em vários eventos, criados a partir de editais do Fundo Municipal de Cultura (FMC), usaram a democracia irrefreável das redes sociais para denunciar que até hoje não foram pagos. A 24 dias do fim da atual gestão municipal, todos confessam ter medo do calote rosáceo.
Atual presidente do FMC e do Conselho Municipal de Cultura, o professor e diretor teatral Orávio de Campos Soares se mostrou preocupado e até constrangido com a situação:
— O Fundo Municipal de Cultura foi criado na minha gestão. Quem possibilitou aos artistas terem uma forma de ganho com o exercício das suas atividades, fui eu. Todos os processos foram enviados à (secretaria de) Fazenda. Já foram nove: Arte de Grafite, Street Dance, Produção Videográfica, Contação de Histórias, Prêmio Literário (Crônicas), Festival Curta de Teatro, Samba de Terreiro, Folias de Reis e Poesia Rap. Estou profundamente chateado com isso tudo. Quem assinou os editais fui eu. A cara na reta é a minha. Para se aborrecer dessa maneira, seria melhor não ter feito nada.
Também ouvido pela reportagem, o secretário de Fazenda Roberto Landes recebeu da Folha Dois a lista dos processos assumida por Orávio. Após checar nos dados da sua secretaria, Landes retornou e esclareceu:
— No sistema da Fazenda, constam seis pagamentos relativos ao Fundo Municipal de Cultura, que já foram autorizados: dois no valor de R$ 2.904,80, cada. Um deles, datado de 03/11, é relativo à Poesia Rap, enquanto o outro, de 23/11, para Street Dance. Os outros quatro também são de 03/11, todos destinados à Premiação de Jovens Talentos. Destes, dois são de R$ 3.736,13 e outros dois, de R$ 5.219,36, cada um. E não consta que nenhum deles tenha sido estornado. Quanto a outros pagamentos em aberto, os processos podem ainda estar cumprindo os trâmites burocráticos antes de chegarem à Fazenda do município.
Segundo Orávio, todos os curadores dos eventos já foram pagos e o que estaria faltando seriam as premiações. Para a produtora cultural Anna Franthesca, curadora do Festival Arte de Rua, promovido em 10 de novembro, uma coisa não basta sem a outra. Foi ela quem fez a denúncia inicial em sua linha do tempo no Facebook, gerando intenso debate entre os vários artistas que exigem o que lhes é devido pelo governo Rosinha Garotinho (PR).
Cobrada pessoalmente pelos participantes e vencedores do evento que promoveu, Franthesca revelou seu drama:
— Então, o esclarecimento é que o dinheiro existe, porém o trâmite administrativo é lento e demorado. Parece que o dinheiro está empenhado e já foi pra Fazenda. Agora cabe a eles liberarem nas nossas contas. Isso é tudo o que eu sei e repito já há dois meses para os artistas. Só que está ficando feio pra mim, que não sou responsável pelo pagamento. Isso está me deixando bastante estressada .
As consequências do não pagamento do governo rosáceo aos artistas de praticamente todos os segmentos da cidade, apesar da publicação integral dos editais em Diário Oficial (DO), são sofridas também por servidores municipais. Instrutor de arte do Departamento de Literatura da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Edeilson Fernandes desabafou:
— Estamos enfrentando o mesmo problema. Ficamos responsáveis pelos concurso de crônicas e contação de histórias. Os vencedores do concurso de crônicas cobram o que lhes é de direito, mas os pais das crianças que venceram o concurso de contação de histórias são da comunidade Portelinha e estão nos ameaçando quase diariamente, exigindo um pagamento que não nos cabe. É preciso que o Sr. Suledil Bernardino (secretário municipal de Controle) libere os pagamentos, pois a verba do Fundo já estava reservada para essas finalidades. Os concursos tiveram suas culminâncias no dia 1º de outubro e até hoje ninguém recebeu nada.
Há dois dias Ferreira Gullar está morto. Porém, não tanto. Soube no domingo pela televisão de sua partida. Lamentei. Tive vontade de ir velá-lo, mas não tanto. Sei lá. Quis me despedir. Quis até falar-lhe, mas perdi a chance. Aliás, perdi três exatas chances de poder dirigir-me a ele. Trago nitidamente em minha memória estas tais três ocasiões. Lamentei também por isto. Perdemos o poeta e eu perdi a oportunidade de poder trocar algumas palavras. Mas o que poderia eu falar a ele?
Era sábado, no Rio de Janeiro, em plena Avenida Rio Branco, na calçada em frente aos prédios da Biblioteca Nacional e o Museu de Belas Artes, na semana em que se encerrara o carnaval, mas naquele dia haveria o desfile das escolas de samba campeãs, na Marquês de Sapucaí. Eu estava acompanhado de um amor que muito amei e ainda amo, mas que se foi. O sol da tarde era forte sobre nossas cabeças e o centro da cidade estava bem esvaziado de gente. De repente, a uns cinquenta metros, surge Ferreira Gullar caminhando em nossa direção. Não demorou reconhecê-lo assim que o avistei. Magro, muito elegante, cabelos alvíssimos e lisos caindo sobre os olhos. Fiquei nervoso. Ensaiei um cumprimento, um aceno assim que nos cruzássemos. Emudeci. Ele passou e eu fiquei parado olhando-o seguir pela avenida semi-deserta. Silêncio.
Dois anos depois, Ferreira Gullar participa da Bienal do Livro de Campos, minha cidade natal. Ele divide o palco com Analice Martins, doutora em literatura, amiga amada, mestra e musa de muitos de nós. A bela e a fera em cena, alguém poderia provocar. O auditório lotado ouviu suas opiniões acerca de muitos temas literários, sobretudo a poesia. Fiz várias fotos da apresentação, uma delas ilustra esta crônica. O homem espantoso do poema sujo e de ideias neoconcretistas entrou e saiu do local sem chance de falar-lhe. Era tanto assédio em cima daquele ilustre convidado com mais de oitenta anos de idade que ele sumiu rapidamente no meio da multidão que abarrotava os corredores do evento.
Não demorou muito, alguns meses, creio, voltei ao Rio de Janeiro para assistir ao espetáculo teatral À beira do abismo me cresceram asas, de Maitê Proença, outra musa. Era fim de novembro, lembro bem. Enquanto aguardava a peça começar, fui circular pelo antigo shopping em Copacabana que abriga o Teatro Tereza Raquel (atual Net Rio) e tantas galerias de arte. Em uma delas acontecia um coquetel durante exposição de esculturas e livros de arte caríssimos. Entrei sem convite, já que a porta estava aberta. Logo descobri que a mostra era de peças produzidas por Ferreira Gullar, e em seguida, soube que ele estava atrás de mim, bem presente, a uns dois metros de distância, Cercado de gente, animado, ele sorria e conversava com seus convidados. Na festa, encontrei a cantora Silvia Machete, musa e amiga de redes sociais digitais. Ela estava linda com um decote inacreditável. Nos cumprimentamos eu e ela e, quando dei por mim, estava em cima da hora para a peça com Maitê Proença começar. Me despedi e sai correndo. Ferreira Gullar ficou para trás. Não consegui outra vez lhe cumprimentar, pelo menos.
Não sei exatamente quando ouvi falar de Ferreira Gullar pela primeira vez. Por falta de dinheiro, não comprei a reunião de seus livros em uma publicação comemorativa no início deste ano. Mas levei Drummond para casa, pois o dinheiro deu. Gullar era um homem soturno, apesar de ter nascido na ensolarada e linda São Luis do Maranhão. Demorei saber que ele era maranhense, Quando estive lá, só me lembrava dos Sarney, do Josué Montello e da cantora Alcione. Entretanto, Gullar foi, talvez, o mais nobre dos maranhenses (sem querer desmerecer os outros). Não era bonito. Também não era feio. Era o que minha mãe costumava chamar alguns seres especiais: um feio-bonito, assim como Maria Bethânia (que eu acho belíssima) é.
Seu poema que mais gosto? Nunca poderia responder, pois minha memória não acolhe tantos gênios. Todavia, passei a prestar mais atenção em Ferreira Gullar justamente em um show de Maria Bethânia chamado Brasileirinho (2003), dirigido por Bia Lessa. Na abertura do espetáculo registrado em dvd, uma imagem enorme de Ferreira Gullar é projetada em tela líquida, onde ele aparece recitando os seguintes versos do poema Descobrimento, de Mario de Andrade:
Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei lá do Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelos escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu.
Eu poderia jurar que o poema fora escrito por Ferreira Gullar, mas cabe a Mario de Andrade a autoria. De algum modo, o Descobrimento também é de Gullar, é meu, é de todos nós. Há pouco, antes de escrever esta crônica, troquei mensagens de texto com Analice Martins, e comentei com ela as muitas fotos que tenho dela com o poeta que veio do Maranhão e que se portou valentemente diante da vida até o fim. Ela fez uma referência a ele como um homem de espantos com a frase “a poesia é fruto do espranto”, mas depois corrigiu a grafia e escreveu “espanto”. Eu a respondi afirmando que a poesia é para mim um “espranto” mesmo, misto de espanto e pranto. Ainda não chorei a morte de Ferreira Gullar, mas assim que conseguir, não perderei a chance.
O governador Luiz Fernando Pezão sancionou a lei que suspende a concessão de novos incentivos fiscais pelos próximos dois anos para empresas sediadas ou que venham a se instalar em território fluminense. O projeto, de autoria do deputado Bruno Dauaire (PR), em coautoria com Luiz Paulo (PSDB), foi aprovado por unanimidade na Assembleia Legislativa (Alerj) no início de novembro. A lei foi publicada nesta terça-feira (6) no Diário Oficial do Estado do Rio.
As exceções, segundo o texto, são taxistas, portadores de deficiência na aquisição de veículos e projetos culturais, esportivos, gastronômicos, de ciência e tecnologia e doação ao Fundo Estadual de Cultura. De acordo com a lei, a secretaria estadual de Fazenda vai definir um órgão para, semestralmente, verificar os requisitos e condicionantes dos benefícios já concedidos, com encaminhamento à Alerj e ao Tribunal de Contas do Estado (TCE/RJ).
– É uma vitória importante neste momento grave pelo qual passa o Estado do Rio de Janeiro. É preciso evitar perda de receita e buscar, ao mesmo tempo, mais controle e fiscalização na concessão de isenções. A situação requer cautela e definição de prioridades, porque é inadmissível que servidores não recebam seus salários em dia, que serviços essenciais não funcionem, enquanto isenções fiscais são distribuídas por decreto – disse Bruno Dauaire.
A falta de pagamento parece se alastrar nos últimos dias do governo Rosinha Garotinho (PR). E a vítima agora é a já combalida cultura goitacá, em editais do Fundo Municipal de Cultura (FMC) publicados em Diário Oficial (DO). Na democracia irrefreável das redes socias, quem faz a denúncia aqui foi a produtora cultural Anna Franthesca, com a respectiva publicação dos editais por serviços que teriam sido prestados, sem ser pagos pela atual administração municipal.
Confira abaixo:
NOTA FESTIVAL ARTE URBANA: Vamos esclarecer uma coisa aqui eu Anna Franthesca não sou responsável por pagar ninguém, tive essa conversa quando fui convidada a fazer a curadoria do edital , fizemos o regulamento , executamos o evento, mais cabe ao FUNDO MUNICIPAL DE CULTURA liberar as premiações, sei que todos executaram os projetos com EXCELÊNCIA e que todos precisam receber, A PREMIAÇÃO CONSTA NO DIÁRIO OFICIAL está devidamente registrada assinado por Orávio de Campos Soares que até o final desse mandato é o representante da gestão municipal como Presidente do Conselho Municipal de Cultura, assim como todas as documentações foram entregues no prazo em mãos, agora não cabe a mim pagar ninguém e sim a secretaria responsável pela liberação dessa verba, de forma alguma estou tirando o corpo fora pois assim como todos os artistas o meu esposo Andinho Ide precisa também receber, até o presente momento a informação que temos é de que toda documentação foi encaminhada para secretária de Fazenda, somos favoráveis a decisão que tomarem e a cobrar o que é direito dos artistas mas não somos os responsáveis, executamos o projeto assim como todos vocês, já pedimos esclarecimento do pagamento assim como vocês, e estamos exaustos de sermos cobrados, por isso estou fazendo esta postagem, e marcando as pessoas, afim de ter o mesmo esclarecimento, a partir de agora vamos a redes sociais, jornal, TV, o que for necessário, pois é notória a preocupação da mudança de governo e o prazo de final de ano. Enfim, sinto muito que isso esteja acontecendo e espero que seja resolvido o mais rápido possível.
Atualização às 17h34: O blog fez contato com o presidente do Fundo Municipal de Cultura (FMC), o professor e diretor tetral Orávio de Campos Soares. Mostrando-se bastante preocupado com as denúncias dos eventos abertos a partir do FMC, cujos editais assinou, ele disse que são nove os processos já realizados, mas ainda em aberto: 1) Arte e Grafite, 2) Street Dance, 3) Produção Videográfica, 4) Contação de Histórias, 5) Prêmio de Literatura (Crônicas), 6) Festival Curta de Teatro, 7) Samba de Terreiro, 8) Folia de Reis e 9) Poesia Rap.
Orávio garantiu que os processos foram todos encaminhados à secretaria municipal de Fazenda. E admitiu que nem ele sabe o motivo pelo qual os pagamentos ainda não teriam sido honrados pelo governo Rosinha.
Em sequência, o blog procurou o secretário de Fazenda Roberto Landes, que se mostrou bastante solícito. Ele anotou os nove processos mencionados por Orávio e, após uma consulta interna, deu retorno. Segundo ele, seis pagamentos relativos ao FMC já foram autorizados: dois no valor de R$ 2.904,80, cada; um datado de 03/11, para Poesia Rap, e outro, de 23/11, para Street Dance. Além de outros quatro também de 03/11, todos destinados à Premiação de Jovens Talentos, sendo dois de R$ 3.736,13 e outros dois, de R$ 5.219,36.
Quanto a outros pagamentos ainda em aberto, Landes disse que eles podem ainda estar cumprindo os trâmites burocráticos antes de chegarem à Fazenda do município.
Leia a matéria completa amanhã (07) na capa da Folha Dois, na Folha da Manhã
“A esquerda se distanciou ainda mais do sentimento geral da população, entrando numa hipertrofia discursiva isolacionista e vitimista, na qual fala de maneira compulsiva e desesperada para cada vez menos pessoas, atribuindo seu fracasso apenas à ação de agentes externos”.
(Pablo Ortellado, professor da USP)
Protestos de ontem (04) em todo o Brasil
Do Planalto Central à Planície Goitacá, impressiona como pessoas inteligentes — e, noves fora os boçais de plantão, elas existem — ainda insistem em negar o caos econômico e social no qual os 13 anos de lulopetismo no poder afundaram o Brasil. De fato, fazem lembrar os alemães de boa formação intelectual que, mesmo após o suicídio de Hitler (1889/1945), seguiam voluntariamente seu líder ao túmulo, quando nada mais restava no mundo real para sua ideologia se apegar — como retrata em detalhes o necessário filme “A queda” (2005), de Oliver Hirschbiegel.
Diante da fartura de evidências evisceradas pela operação Lava Jato, mesmo antes de se conhecer o teor da temida delação coletiva da Odebrecht, não só a imcompetência administrativa do lulopetismo, como sua institucionalização da velha corrupção tupiniquim numa escala inédita, não parecem ter defesa sustentável à luz da razão. A não ser, logicamente, por sua interpetração psiquiátrica através da teoria da negação de Freud (1856/1939), como tão bem externou aqui, em artigo, o cineasta José Padilha, que prepara uma série sobre a Lava Jato para a Netflix.
Nas palavras do pai da psicanálise: “Se um paciente inteligente rejeita uma sugestão de forma irracional, então a sua lógica imperfeita é evidência da existência de um forte motivo para a sua rejeição”.
Antes mesmo das manifestações de ontem, que levaram (aqui) milhares de pessoas em 82 cidades do país em defesa da Lava Jato e contra o que tem sido interpretado como retaliação parlamentar ao Judiciário e Ministério Público do país, tinha lido um texto que julgo importante para se entender como boa parte da esquerda brasileira tem sido arrastada ao fundo do brejo — onde jaz a vaca — pela corda atada entre seu próprio tornozelo e a âncora do lulopetismo. E posto que o autor do referido texto é um respeitado catedrático da Universidade de São Paulo (USP), berço intelectual do PT, talvez seja constrangedor se prestar a menosprezá-lo para tentar negar freudianamente sua dialética.
Ademais, como nem Henrique Meirelles (PSB), atual ministro da Fazenda e exitoso ex-presidente do Banco Central dos dois governos Lula (PT), está conseguindo resgatar a vaca do fundo do brejo em que todos nos encontramos, num governo Michel Temer (PMDB) que começa a fazer água pela tibieza e comprometimento político do presidente, a leitura do texto parece fundamental para quem ainda não percebeu a diferença entre esquerda e “exquerda” — oportuna definição do Ricardo Rangel, diretor de produção da Conspiração Filmes e um dos tantos que “trabalham de maneira hábil e inovadora nas redes sociais”.
Confira abaixo para tentar responder a pergunta do título:
Pablo Ortellado, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da EACH-USP
É possível falar de corrupção a partir da esquerda?
Por Pablo Ortellado
Não foi exatamente surpresa quando duas pesquisas de opinião, uma do Datafolha e outra da Confederação Nacional das Indústrias, mostraram, no final de 2015 e início de 2016, que a corrupção tinha se tornado a principal preocupação dos brasileiros, a frente dos problemas na saúde e na segurança.1 As pesquisas mostravam que se consolidava uma tendência que vinha se desenvolvendo desde 2013 quando a agenda anticorrupção explodiu nas ruas e foi depois alavancada pelas ações espetaculares da operação Lava Jato.
Desde o começo deste processo, o alvo da indignação com a corrupção foi o PT que ocupou por todos esses anos a administração federal. Por isso, novos grupos da sociedade civil, de orientação liberal e conservadora, perceberam a extraordinária janela de oportunidade que se abria para explorar a insatisfação popular e dar-lhe direcionamento político, conseguindo em muito pouco tempo construir uma máquina de mobilização e propaganda que tem consolidado uma nova direita no país.
Desde o final de 2014, o resultado de uma eleição muito polarizada, casado com a indignação com os desdobramentos da operação Lava Jato, permitiu a esses novos grupos convocar e construir um tipo de mobilização a que o Brasil não estava acostumado, das classes médias lideradas por grupos de direita — coisa que só conhecíamos do noticiário sobre a Venezuela ou a Argentina.
A esquerda que orbita em volta do PT — inclusive aquela que orbita contra a própria vontade — reagiu a essa mobilização com um pouco de assentimento formal, um tanto de desdém por essas questões “menores” e “não estruturais” e um bocado de desqualificação.
Um pouco por que convinha a propaganda, um pouco por confusão conceitual, ela tomou a posição política dos convocantes dos protestos pela posição das pessoas mobilizadas e desprezou o elo de opinião que ligava as pessoas nas ruas com o resto da população brasileira. Com base nisso, difundiu o discurso desqualificador e essencialmente falso de que a indignação com a corrupção estava limitada a uma elite descontente com os avanços sociais dos governos petistas que travestia de combate a corrupção seu esforço por manter seus antigos privilégios de classe.
No entanto, como as pesquisas de opinião mostraram, havia muito desacordo entre a orientação política dos convocantes dos protestos e a opinião política das pessoas mobilizadas. Enquanto a posição das organizações convocantes era ultraliberal na economia e uma parte delas era muito conservadora nos costumes, as pessoas mobilizadas nas ruas defendiam fortemente o caráter público, gratuito e universal dos serviços públicos e eram razoavelmente tolerantes com os direitos dos homossexuais e das mulheres.2
Além disso, embora o processo de mobilização fosse praticamente circunscrito a classe média, pesquisas mostravam que havia um sentimento difuso de insatisfação com o governo Dilma e com a corrupção, que atravessava todas as classes. É muito difícil, numa sociedade socialmente cindida como a nossa, construir mobilizações transversais, porque as barreiras de classe bloqueiam os laços de sociabilidade necessários a convocação e a mobilização. O fato de apenas uma classe estar mobilizada não significava que ela não estava expressando um sentimento mais difuso e profundo, compartilhado pelos outros segmentos sociais.
Se essas circunstâncias permitiam que a esquerda desqualificasse as mobilizações anticorrupção para fins de propaganda, ela não devia ter se autoenganado para fins de estratégia.
As mobilizações anticorrupção eram a expressão de um mal-estar profundo da sociedade brasileira que assistia perplexa às crescentes cifras de bilhões de reais desviados de sua principal empresa pública. Enquanto a esquerda respondia com desqualificação dos adversários e um infantil discurso de “a corrupção é estrutural ao sistema e os outros partidos que estiveram no poder também se envolveram com ela”, os novos grupos de direita canalizavam sozinhos a indignação popular, convertendo o sentimento anticorrupção em antipetismo e o antipetismo em antiesquerdismo até transformar em corrupto qualquer um que se dissesse de esquerda.
Por dois anos, o sentimento que mais crescia na sociedade brasileira só encontrou respaldo nos grupos de direita. Ao contrário da esquerda, eles entenderam que era preciso respeitar o sentimento das pessoas e transformar essa indignação bruta e selvagem, dando-lhe direção política. Foram assim, aos poucos, consolidando um populismo de direita, moralista e antipetista que acredita que os governos progressistas multiplicaram as falcatruas por todo o Estado brasileiro, travestindo de direito social a corrupção e o privilégio dos grupos apadrinhados. Afinal, essa foi a explicação política que foi oferecida pelos únicos grupos que realmente tentaram organizar a insatisfação da população. E embora essa tarefa tenha recebido o valioso apoio de alguns meios de comunicação, o mérito desta conquista se deve mais a ação militante das novas organizações da sociedade civil que trabalharam de maneira hábil e inovadora nas redes sociais.
Essa situação, no entanto, não era inevitável. O discurso anticorrupção nunca foi privilégio da direita, como lembra a memória recente da agenda petista dos anos 1990 (a “bancada ética”) ou como mostra o exemplo internacional do Podemos, na Espanha. A prisão de grandes empresários era uma oportunidade para ligar a corrupção do Estado com a corrupção das empresas, chamando a atenção para o papel dos corruptores. Os esquemas de financiamento de campanha desmascarados poderiam ser utilizados para promover a reforma do sistema de financiamento eleitoral que amarram os candidatos aos interesses das empresas. E a divulgação espetacular de documentos e provas pelos promotores da Lava Jato poderia impulsionar e radicalizar as políticas de transparência e controle social que tinham sido recentemente inauguradas.
Mas tudo isso só seria eficaz para a opinião pública se o emissor do discurso se descolasse dos alvos das investigações. Era preciso que o PT cortasse na carne, se separando e condenando com firmeza os antigos companheiros que tivessem fortes evidências contra si. Ou ainda, era preciso que setores da sociedade se descolassem do partido para fazer as denúncias com distanciamento crítico, mostrando que a sociedade civil de esquerda não era condescendente e apadrinhada pelos esquemas de corrupção, como fazia crer o discurso que se convertia em senso comum. Sem essa separação crítica, qualquer tentativa de discurso sobre reforma política, transparência, independência dos órgãos de investigação e controle social parecia para a opinião pública apenas cinismo dos investigados e dos seus protegidos.
A situação se tornou ainda mais grave com a polarização política em torno do golpe/impeachment. Com o antagonismo que esvaziou o campo político de posições independentes, era impossível que grupos de esquerda promovessem um discurso anticorrupção sem serem imediatamente acusados de passar para o outro lado e fazer o jogo do inimigo. Com isso, a esquerda se distanciou ainda mais do sentimento geral da população, entrando numa hipertrofia discursiva isolacionista e vitimista, na qual fala de maneira compulsiva e desesperada para cada vez menos pessoas, atribuindo seu fracasso apenas à ação de agentes externos.
Mas ainda há saída. A oposição às manobras dos congressistas para se salvarem da Lava Jato está sendo conduzida por parlamentares da esquerda não petista e por dissidentes do PT, o que fornece um oportuno ponto de partida para uma esquerda corajosa que queira se desvencilhar do abraço do afogado. Para isso, ela precisa, por um lado, se separar e se distanciar criticamente do PT e, por outro, respeitar e acolher o sentimento de indignação da população com a corrupção, dando a ele respostas políticas consistentes com os valores de justiça social e defesa do patrimônio público.
E como é sempre melhor rir do que chorar, fique neste domingo de céu nublado com a mais recente criação do grupo humorístico “Porta dos Fundos”, no clima de amigo oculto de final de ano, como se todo campista não fosse capaz de adivinhar, por conta própria, quem é capaz de rimar habeas corpus com cirurgia.
Aconselha-se a não deixar de conferir até a cena final da maca. Qualquer concidência com a realidade, lógico, é(?) mera semelhança:
Pela postagem (aqui) de outro poeta, o campista Artur Gomes, na democracia irrefreável das redes sociais, soube que morreu o maranhense Ferreira Gullar. Tinha 86 anos e estava internado, desde sábado, no hospital Copa D’Or, em Copacabana, no Rio. Desde a morte de Manoel de Barros (1916/2014), era tido como maior poeta brasileiro vivo.
Considerado brilhante na teoria literária, como era na produção de Literatura, é autor de necessário ensaio sobre o poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884/1914), a quem apontou como precursor do Modernismo na poesia brasileira. Comunista de formação, chegou a ser preso e exilado na Ditadura Militar no Brasil (1964/85). Tornou-se nos últimos anos crítico do lulopetismo, posição assumida com contundência em seus artigos semanais na Folha de São Paulo.
Depois de iniciar sua produção literária, ainda no Maranhão natal, como poeta parnasiano, aderiu de cabeça ao Modernismo, que demorou a chegar nas fronteiras entre o Nordente e o Norte do país. Um dos fundadores do Neoconcretismo, depois o abandonaria, dando como explicação a ressalva que fez a João Cabral de Melo Neto(1920/99), inspirador involuntário do movimento: “Cabral, concreto é você!”
Logo assim que soube da morte de Gullar, fui às minhas prateleiras desarrumadas de livros, em encontro marcado com seu “Toda Poesia”, da editora José Olympio. É que, nessas coincidências que não há, ontem à noite, sem motivo aparente, tinha detido os olhos justamente sobre a lombada do seu livro, enquanto passava pelo corredor.
Após abrir e folhear um pouco a obra, me deparei com um poema do livro “Barulhos”, reunindo a produção poética de Ferreira entre 1980 e 87, que reproduzo abaixo, no eco dessa “dissipação às gargalhadas” de “uma fogueira de um metro e setenta de altura”:
O que Garotinho fez e disse entre o Hospital Souza Aguiar e o Complexo Penitenciário de Bangu? (Foto de Alexandre Cassiano – Agência O Globo)
“Como se nada tivesse acontecido”
Por Aluysio Abreu Barbosa
Como penso ter sido com a maioria, não me fez bem assistir às cenas (aqui e aqui) de transferência de Anthony Garotinho (PR), do Hospital Souza Aguiar, no Rio de Janeiro à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Complexo Penitenciário de Bangu, na noite do último dia 17. Vendo e revendo as cenas da sua condução coercitiva, primeira da cama do hospital, depois na saída deste, de maca, até a ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), fiquei dividido entre duas das muitas interpretações do fato, que pipocaram da democracia irrefreável das redes sociais.
A primeira (aqui), à qual me inclinei pelo emocional, foi da Vanessa Henriques, estudante de Ciências Sociais da Uenf:
— Não tenho nenhum apreço pela figura de Garotinho, muito pelo contrário. Mas não consigo me regozijar nem um pouco diante dos vídeos e imagens de sua transferência para Bangu. Só consigo sentir tristeza. Só consigo lamentar por tudo isso que estamos vivendo. Só.
A segunda (aqui), na desconfiança da razão, foi do advogado e publicitário Gustavo Alejandro Oviedo:
— (Garotinho) Estava tranquilo na maca, com as mãos detrás da cabeça. Mas tinha de aparecer alguém com um telefone filmando. Pronto: começou a novela.
Confesso que, de lá para cá, como jornalista e blogueiro, busquei me afastar individualmente da cobertura do caso. Mesmo porque, após divulgar (aqui) no blog “Opiniões” o laudo médico da UPA de Bangu, dando conta que os exames de controle de glicemia capilar e eletrocardiograma de Garotinho “não apresentaram nenhuma anormalidade” — ignorado pela ministra Luciana Lóssio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que naquele mesmo dia 18 permitiria a transferência do preso para um hospital particular da sua escolha —, me espantaram as mais de 30 mil curtidas recebidas pela postagem nas redes sociais.
Se volto hoje ao assunto, é porque ontem tive acesso à boa parte do relatório da Polícia Federal (PF), feito por um dos agentes que participaram da transferência, detalhando todos os seus bastidores, certamente mais reveladores do que a acuada entrevista que Garotinho depois concederia ao jornalista Roberto Cabrini, transmitida pelo SBT no último domingo.
Depois que as portas da ambulância se fecharam aos vídeos tão vistos e comentados, impressiona (ou não?) o fato de que Garotinho “relaxou e conversou como se nada tivesse acontecido”. Conheça abaixo alguns trechos esclarecedores:
“Houve várias tentativas, por parte de todos os interessados na permanência do preso no Hospital Souza Aguiar, de frustrar o serviço de escolta policial e remoção do preso, até que após muito conversar com os médicos, explicar sobre a gravidade que seria descumprir uma ordem judicial, eles se reuniram, fizeram mais alguns exames, mediram a pressão do preso novamente e confirmaram que estava tudo bem, além de terem recebido a confirmação de que para onde o preso estaria indo, seria local adequado para acabar o tratamento dele, acabaram por assinar a alta médica”
“Garotinho agrediu física e verbalmente os policiais, que tentaram removê-lo da cama do hospital para a maca e assim para a ambulância que o transferiria, com chutes e socos (…) em uma tentativa desesperada de evitar sua transferência (…) Em um determinado momento, Garotinho disse: ‘Vocês são uns merdas! É por isso que vocês são todos pobres!’”
“A senhora Rosinha e a filha Clarissa, por várias vezes falaram em voz alta para todos ouvirem que não colocariam a roupa no Anthony Garotinho, chegando a dizer para todos ouvirem: ‘NÃO VAMOS VESTI-LO! SE QUISER LEVAR, TEM QUE LEVAR SEM ROUPA’. Ao final, Rosinha entregou apenas uma cueca para que o preso vestisse, sendo a peça de roupa íntima colocada por sua filha Clarissa (…) Foi dada a oportunidade à esposa Rosinha Garotinho de dar o último abraço em seu marido a pedido dela, fato que demorou até demais, entre uma hora e uma hora e meia, foi dada a oportunidade para o médico, a seu pedido, de fazer um exame de última hora para ver pressão e ritmo cardíaco, fato que foi constatado que estava tudo ok”.
“A falta de respeito por parte de Garotinho e seus familiares fez com que uma simples condução de preso se tornasse um verdadeiro teatro para que ao final o Garotinho se tornasse vítima de tudo que acontecesse”.
“Logo no início do deslocamento, o preso, por conta própria, arrancou com violência o acesso venoso que estava em seu braço e houve um esguicho de sangue”
“(…) o preso Garotinho se acalmou e logo assim que as portas (da ambulância) se fecharam, ele relaxou e conversou como se nada tivesse acontecido”.
“(…) denegriu a imagem da Polícia Federal, chamando a todos de pobres e mortos de fome e que era por essas atitudes que nós estávamos na merda. Por várias vezes ofendeu a pessoa do delegado (Paulo) Cassiano e do juiz Glaucenir (Oliveira), falando sobre a falta de caráter e perseguição pessoal contra sua pessoa”.
“Por várias vezes me pediu para atirar em seu peito, já que se eu não o matasse ele iria se suicidar dentro da prisão”.
“(…) já que mesmo que ele assumisse que cometeu crime eleitoral, o qual estava sendo imputado a sua pessoa, ele seria julgado, condenado e nem prisão sofreria”.
“Falou que se encontrasse Sérgio Cabral dentro da Penitenciária iria quebrar sua cara”.
Ainda que num artigo como este se pretende, a opinião seja o fim, ela aqui se torna desnecessária. Por motivos tão óbvios quanto a conhecida coragem física de Garotinho.
Publicado hoje (04) na Folha da Manhã
Abaixo o relatório da PF, com os destaques do blog:
Atualização às 17h08:Aqui, em seu blog, aparentemente ignorando a diferença entre artigo (opinião sobre um fato) e e reportagem (narração impessoal do fato), Garotinho respondeu com perguntas à narração detalhada da sua transferência do Souza Aguiar a Bangu, feita pela PF, não pelo blog, a Folha ou o articulista.
Sugestão para escutar após a leitura: Motivo – Fagner
Na estante meu instante estava guardado, apoiado em um lado pela sina outro lado pelo lápis em meio ao conglomerado de livros que preenchiam todo o espaço. Na lombada desse instante estava meu nome distante e os títulos das obras compostas pelo corpo tremulante desde o dia que tal como uma planta começara a crescer nessa terra e vir a florescer na planície goitacá.
Naquele armário chamado vida, os instantes se enfileiravam um após o outro em estantes infinitas, menor unidade narrativa que nem mesmo essas palavras conseguem segurar, a cada piscar de olhos, um instante se enfileirava na estante. Assim a vida se compõe ou passa vazia como um livro em branco ou uma narrativa sem tesão, talvez pela capa bem trabalhada tende a enganar o leitor, que decepcionado largará antes da introdução. No limiar do silêncio das letras, grita perene e sereno o instante unindo palavras eternas a abrir sorrisos ou derramar lágrimas solstícias, nenhuma folha em branco valeria ser preenchida sem amor. A cada olhar para as estantes percebo que os instantes passam, impossíveis de voltar, atrás, nem mesmo o pensar, o tempo é passagem, somos passageiros enquanto não chega o ponto de saltar, a vida cobra o ticket do quanto valeu a viagem.
Pensei certa vez, se pudesse congelar o momento, mas entre o instante e a eternidade talvez o que valha seja a fluidez, tão ditas entre poesias e prosas, seriam perdidas se inertes. Como a desvanecer o timbre do canto num momento de existência como no poema Motivo de Cecília Meireles:
“Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.”
Como o rio de Heráclito onde não se pode banhar duas vezes, viver é um mar momentâneo no olhar a silenciar quando o sol se pôr sob as águas, vive bem quem observa o instante eterno preso na estante da vida livre do medo ou concordância de La Rochefoucauld“Não se pode olhar de frente nem o sol nem a morte” dito ainda no século XVII, com receios de um ofuscar a vista e o outro a vida.