A partir das 7h da manhã desta quinta (14), a convidada do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Cristina Lima. Citada e instada a falar no Folha no Ar de segunda (11), quando o entrevistado foi o historiador Arthur Soffiati, Cristina respondeu no mesmo dia (confira aqui) às cobranças pela suspensão dos RPAs e das atividades do Museu Histórico e do Arquivo Público de Campos, que garantiu ser temporária. E poderá se aprofundar na questão, além de responder à pergunta: a cultura é sempre a primeira vítima da crise? Ela analisará também o que julga serem os pontos positivos e negativos do governo Rafael Diniz (Cidadania).
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Nélio Artiles, médico infectologista (Foto: Folha da Manhã)
“O lockdown também vai acontecer em Campos. Eu acho que é inevitável. E qual é o critério? É estatístico, você observar a questão da internação, dos leitos que estão sendo utilizados. Isso são decisões que você tem que tomar. No Rio de Janeiro, quando você tem filas para internação, filas esperando a UTI, eu penso sinceramente que a atitude de demorar um pouco, a cada dia que demora, eu penso que serão mais mortes que acontecerão. O lockdown tem que ser imediato na cidade do Rio de Janeiro. E aí você deve avaliar de acordo com o local, você deve ter a autonomia de cada gestor, a responsabilidade. O problema é que muitos gestores não têm essa responsabilidade, não têm bom senso. E aí a gente fica naquela: quem é que vai tomar a atitude pelo outro?” Foram o alerta e a indagação que o médico infectologista Nélio Artiles lançou no início da manhã de hoje, no Folha no Ar, na Folha FM 98,3, sobre a pandemia da Covid-19.
A indagação de Nélio, um dos mais conceituados infectologistas da cidade, seria respondida logo depois. Na ausência de responsabilidade do prefeito de São Fidélis, Amarildo Henrique Alcântara, que insistia em manter aberto o comércio do município da região mais afetado pela pandemia do novo coronavírus. Com maior responsabilidade com a vida humana, o desembargador José Carlos Paes, da 14ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), determinou o fechamento do comércio fidelense, à exceção dos serviços essenciais, até 31 de maio. Tomada desde segunda (10) a decisão judicial, no entanto, só se tornou conhecida na tarde de hoje (confira aqui), após o Folha no Ar com Nélio Artiles.
Ainda sem saber da decisão do TJ-RJ, Nélio Artiles foi indagado na Folha FM se adiantava Campos fechar seu comércio até 31 de maio, enquanto o município vizinho de São Fidélis, com quatro mortes oficiais por Covid-19, cinco outros óbitos sob investigação, 108 casos confirmados e 13 suspeitos, mantinha seu comércio aberto. O infectologista respondeu:
— O pior é que casos graves que acontecem em nosso entorno, acabam sobrando para Campos. Não adianta. O lockdown da gente vai ficar quebrado pelos municípios vizinhos. Infelizmente, nem todos têm o bom senso se tomar a atitude. O ministério da Saúde vinha com o (Luiz Henrique) Mandetta numa linha. E por incompatibilidade política e de entendimento racional, se muda o ministro e entra o (Nelson) Teich. Que mantém a mesma linha, porque cientificamente ele tem que manter, não pode mudar. Mas aí o exemplo do gestor maior, que é o presidente (Jair Bolsonaro) acaba atrapalhando muito essa questão dos outros gestores — observou Nélio.
O infectologista seguiu falando da questão da subnotificação dos casos no país. Segundo estudo recente do Imperial College de Londres (confira aqui), apenas 10,4% dos brasileiros contaminados seriam de fato notificados. No fim de abril, o levantamento acertou a previsão de que o Brasil chegaria aos 10 mil mortos no início de maio. Oficialmente, o número foi ultrapassado no dia 9 do mês:
— É provável que esse estudo inglês mostre que a população quase toda brasileira vai acabar pegando esse vírus, se a gente considerar que é só 10% (dos casos reais que são oficialmente notificados). Será que a população toda da Itália pegou, da Espanha? Toda que eu falo, assim, grande parte, pelo menos os tais 40%, 50% da população. É provável. Porém, o problema é todo mundo pegar de uma vez só. Se trocar de novo de ministro e entrar o Osmar Terra, que preconiza a liberação a abertura total, dizendo que confinado transmite mais, isso vai totalmente contra a ciência. E pode trazer um problema muito sério, que é o adoecimento rápido de muitas pessoas ao mesmo tempo. E você sobrecarrega os leitos todos (hospitalares). Então acho que o lockdown é inevitável. Ele vai acontecer, sim. Porém, não acho que vai ser na mesma linha, ao mesmo tempo. Cada gestor público tem que ter, sim, a sua autonomia e o bom senso. Infelizmente, isso não acontece.
Confira nos vídeos abaixo os três blocos da entrevista com o médico infectologista Nélio Artiles, um dos mais conceituados da cidade. Os trechos destacados na matéria estão no segundo. No terceiro e último há importantes informações de utilidade pública sobre a ação de medicamentos para tentar combater a Covid-19:
Didi, Péris Ribeiro, Chico de Aguiar e Carlos Heitor Cony
O campista Didi foi eleito pela crônica esportiva internacional reunida em 1958 na Suécia, por conta da Copa do Mundo daquele ano, naquele país, como maior jogador da competição. O que significa dizer: do mundo. Desde garoto, ouvia sobre aquele meia direita clássico de passes longos e precisos, por meio de um grande fã e conterrâneo seu: meu pai. Que o vira jogar ainda em Campos, antes de explodir e chegar à Seleção Brasileira na Copa de 1954, na Suíça, quando atuava no Fluminense, clube do coração tricolor do velho Aluysio.
Mesmo após o craque deixar as Laranjeiras, por não aceitar mais ter que entrar pela porta de empregados do clube, meu pai continuaria torcendo por Didi. Que se imortalizaria no maior Botafogo de todos os tempos, ao lado do ponta direita Mané Garrincha, o “Anjo das Pernas Tortas”, e do lateral esquerdo Nilton Santos, a “Enciclopédia do Futebol”. Com os dois, mais um tal de Pelé, Didi comandaria a conquista da nossa primeira Copa do Mundo.
Em verso, o botafoguense Vinicius de Moraes escreveu no Bi do Brasil em 1962: “A um passe de Didi, Garrincha avança”
Na final, o placar seria aberto logo aos 4 minutos de jogo pela Suécia, dona da casa. E o Brasil sentiu bastante. Mais pelo fantasma da derrota por 2 a 1 para o Uruguai, em pleno Maracanã, apenas oito anos antes, na final da Copa de 1950, do que pelo belo gol do meia esquerda sueco Liedholm, que marcou após driblar os zagueiros brasileiros Bellini e Orlando.
Coube a Didi pegar a bola no fundo das redes, ir caminhando com ela lentamente ao meio de campo. Enquanto acalmava seus companheiros, dizendo: “Acabou a palhaçada! Agora vamos meter bola nos ouvidos desses gringos!”. Já escrevi que foi ali, naquela caminhada elegante e determinada, que o futebol brasileiro ganhou sua maioridade. A final acabaria vencida por 5 a 2 pelo Brasil, com dois gols do menino Pelé. O primeiro teve direito a chapéu sobre o zagueiro dentro da área, arrematado antes da bola tocar o chão, para colocar o gol de Liedholm no chinelo.
Di Stéfano, Didi e Puskás com a camisa merengue do Real Madrid
Apelidado naquela Copa do Mundo, pela imprensa estrangeira, de “Mr. Football”, Didi ficaria mais conhecido pelo epiteto “Príncipe Etíope de Rancho”, dado por Nelson Rodrigues. E seria Bicampeão pela Seleção Brasileira em 1962, quando jogava de novo pelo Botafogo, após passagem frustrada no Real Madrid do húngaro Ferenk Puskás e do argentino Alfredo Di Stéfano, com quem o maior jogador de futebol da história de Campos teria se desentendido.
Em 2000, no show de final de ano promovido pela Folha da Manhã, um prêmio também passou a ser entregue a um campista que tivesse elevado o nome da cidade no Brasil e no mundo. E o primeiro agraciado foi talvez o maior deles: Didi. O duplo do nome do jornal com a jogada mais famosa do craque, um chute que a bola tomava efeito, descaindo súbita ao gol, para enganar o goleiro, batiza até hoje o prêmio: Folha Seca. Não por acaso, coube à cantora Elza Soares, viúva de Garrincha, não só o show da noite, como entregar aquele primeiro Folha Seca ao seu criador.
O cronista esportivo Armando Nogueira foi quem melhor resumiu a “folha seca” de Didi. Para tanto, teve que tabelar com o maior romance de Machado de Assis: “chute oblíquo e dissimulado, como os olhos de Capitu”.
Didi herdou de Zizinho a camisa 8 e a condição de cérebro da Seleção Brasileira
Havia conhecido Didi pessoalmente em 1993, sete anos antes da sua homenagem pela Folha, no Teatro Trianon. Foi numa noite chuvosa do Rio de Janeiro, onde o jornalista campista e amigo Péris Ribeiro lançava seu “Didi — O Gênio da Folha Seca”, na livraria Argumento, no Leblon. A obra continua sendo a melhor referência literária para se conhecer a vida e a obra do gênio do futebol.
Foi naquele evento do livro em que, além de Didi, conheci tambem a sua maior referência nos campos. De quem o campista herdaria a titularidade como meia direita e cérebro da Seleção Brasileira: Zizinho, o Mestre Ziza. Grande craque da Seleção Brasileira vice-campeã de 1950, foi o único meia da história do Flamengo que geraria dúvida na comparação direta com Zico. Maior ídolo também de Pelé, quando Zizinho morreu, em fevereiro de 2002, escrevi uma crônica sobre aquele encontro, depois republicada aqui.
Guiomar e Didi
Em 2000, em contato com Didi antes da noite de homenagem, ele havia me pedido para lhe arrumar um litro de cachaça da terra. Mas, antes de entregá-la, me deu as coordenadas: “Só não pode ser quando Guiomar estiver por perto”. Nos anos 1950, Guiomar era uma vedete e cantora de rádio, que se apresentava vestida de odalisca em programa do compositor rubro-negro Ary Barroso. Depois que ela se se casou com Didi, em escândalo da época, pois o jogador já era casado e tinha filhos, reza a lenda que Ary, despeitado, compôs o samba “Risque”.
Obediente às instruções que eram seguidas em campo por Pelé e Garrincha, esperei um momento em que Guiomar afrouxasse na “marcação”. E entreguei a garrafa de cachaça embalada, dentro de uma bolsa, a Didi. Que recebeu o passe dissimulado comos os olhos de Capitu, com uma alegria nos seus tão grande quanto demonstrou ao receber o prêmio, batizado com a sua jogada, dado pelo maior jornal da sua cidade. Impecavelmente vestido de terno e gravata, emanava em cada mínimo gesto e expressão a elegância principesca que Nelson Rodrigues lhe atribuiu nos campos.
Didi morreria menos de um ano depois, em 12 de maio de 2001, aos 72 anos. Hoje completam-se 19 anos da sua perda. Que o blog homenageia publicando abaixo textos de três outros jornalistas sobre o “Príncipe Etíope”. Dois são campistas: Péris Ribeiro, biógrafo do craque, e Chico de Aguiar. O terceiro, o carioca Carlos Heitor Cony, morto em 2018, publicou o seu na Folha de São Paulo em 2001.
Confira-os abaixo:
Didi com a camisa do Fluminense, que vestiu de 1949 a 1956
Péris Ribeiro, jornalista e flamenguista
Didi, o gênio iluminado
Por Péris Ribeiro
Ganhou ares de pesadelo — e pesadelo com a força do mais arrebatador tango portenho —, certa desdita vivida por Messi. O ano? 2016, em uma Copa América perdida para o Chile, nos pênaltis, em decisão ocorrida nos Estados Unidos. É incrível, mas ainda me lembro bem do seu choro, de sua imensa frustração. E da dura e sofrida realidade, da impossibilidade ante o impossível.
Porém, há de ter doído bem mais, a constatação real de que ainda não seria daquela vez. Nem a jogada genial, nem o gol decisivo. Muito menos, o sorriso refletido na taça. Na subida ao pódio, o sufoco de novo contido.
Quando, em que dia, afinal, ele poderá rasgar o peito e gritar: “Argentina! Argentina campeã!”?
Livro “Didi — O Gênio da Folha Seca”, de Péris Ribeiro, lançado a primeira vez em 1993
Como os deuses da bola sabem ser matreiros, e são tantas e tantas vezescruéis, há muita gente por aí ostentando façanhas de dar inveja. Uma gente, frise-se, capaz de exibir bem pouco mais que um mínimo que seja de talento.
Em compensação, existem certos gênios predestinados. Iluminados.Aqueles para quem a sorte nunca deixou de sorrir. Como Didi, o Príncipe Etíope. Alguém com um dom mágico, capaz de obter o que poucos, bem poucos, puderam na vida. Ainda mais, no sinuoso universo do futebol.
Basta dizer que, festejado em 1962, em Santiago do Chile, como bicampeão mundial, Didi já havia conseguido uma glória particular, toda sua, alguns anos atrás. É que, lá na Suécia, fora consagrado o MaiorJogador da Copa de 1958 – justamente a primeira de todas, na qual o Brasil saiu com as honras de grande campeão.
Aliás, refletindo com serenidade e rigor sobre o tema, não é pouca coisa ser considerado o Maior Jogador de uma Copa do Mundo. Em absoluto! Muito menos, em uma Copa que tem Pelé e Garrincha em campo. E ainda convém lembrar que também havia, nos gramados escandinavos, talentos luminares como os franceses Kopa e Fontaine, o tcheco Masopoust, o húngaro Bozsic e os alemães Rahn e Fritz Walter. Ou o sueco Skoglund, o argentino Labruna, o galês John Charles e o goleiro russo Lev Yashin, já celebrado como o “Aranha Negra”.
Pois ainda assim, e mesmo com todo o tipo de honraria por aí já recebida, nem no ato da heroica conquista em estádios do Chile, Mestre Didi faria por menos. É que, nos atapetados gramados andinos, o elegante e cerebral inventor da “Folha Seca” iria imprimir, pela última vez, a sua marca genial. Particularmente, porque só a ele, e a mais dez ilustres jogadores, seria concedida a honra de um Bi em Campeonatos Mundiais. No caso, oito brasileiros com ele, Didi, nove — e dois italianos.
— Tenho consciência, que fiz por onde chegar a algum lugar. Sei bem disso. Mas sei também que Deus foi bom demais, dando-me além. Quantos fazem por merecer, e nada conseguem? — disse-me Didi certa vez, em um ameno final de tarde. O sol morno e agradável — era início de primavera — como testemunha privilegiada.
Será Messi, um desses definitivos — e imerecidos — desafortunados da bola?
Após a conquista da Copa do Mundo de 1958, o menino Pelé chora no ombro de Didi, consolado também pelo goleiro Gilmar
Chico de Aguiar, jornalista e vascaíno
Didi, o meu rei do futebol
Por Chico de Aguiar
Sem essa de Pelé, Garrincha, Maradona ou Messi. Muito se discute sobre qual é o maior jogador de todos os tempos. Mas não são só esses os grandes nomes do futebol. Tem também o Didi, por exemplo, que foi eleito o craque da primeira grande conquista do Brasil na Copa do Mundo de 1958, na Suécia. E bicampeão em 1962, no Chile. Quem o viu jogar pode confirmar que digo uma verdade irrefutável.
É indiscutível que Pelé merece a coroa. Foi três vezes campeão do mundo com a Seleção Brasileira — único jogador a conseguir essa conquista — e tem vários outros títulos internacionais, tanto com a nossa Seleção quanto com o seu clube, o Santos. Nenhum outro jogador de futebol foi tantas vezes campeão. Além de ter sido o maior artilheiro dentre todos.
Garrincha é outro craque que tem lá sua claque, sua torcida apaixonada. Tem dois títulos mundiais com a Seleção Canarinho e, jogando ao lado de Pelé, conseguiu a proeza de nunca ter saído derrotado de campo. Exibia um futebol moleque, de dribles e de encanto, que o levou a ficar conhecido como Alegria do Povo, título inclusive do filme de sua vida.
Para os argentinos, por exemplo, a preferência é pelos filhos da pátria, Diego Armando Maradona e Leonel Messi. O primeiro brilhou, o outro ainda brilha nos campos do mundo. Maradona, realmente, exibiu um futebol exuberante de dribles e jogadas mirabolantes. Foi estrela de primeira grandeza na Seleção Argentina e em todos os clubes pelos quais atuou. Mas, uma única vez foi campeão mundial com a Seleção do seu país.
Messi, por sua vez, nunca foi unanimidade com a camisa azul da Seleção Argentina. Embora seja o seu maior artilheiro, várias vezes fracassou, talvez por não ter tido ao seu lado companheiros do mesmo nível técnico do seu futebol. Ao contrário, no Barcelona, o seu clube, Messi sempre esteve muito à vontade, sendo o atleta mais valorizado. No clube catalão, Messi foi várias vezes campeão, espanhol ou em outras taças europeias.
Quanto ao Didi, foi craque do mesmo nível desses que já foram citados aí em cima. A diferença era a função que desempenhava em campo, na armação das jogadas para os atacantes. Porém não se eximia da função de executar o último arremate, com a famosa folha-seca, o chute mais perigoso e temido por todos os goleiros do mundo. Didi não se destacou como artilheiro, mas foi o cérebro da Seleção Brasileira e de todos os times dos quais vestiu a camisa.
Exaltado pelos grandes cronistas de esporte que viveram sua época, Didi foi particularmente homenageado por Nelson Rodrigues — o maior dramaturgo brasileiro —, que lhe deu o título de Príncipe Etíope de Rancho, por seu toque na bola sempre bonito e elegante, pelos dribles desmoralizantes e pelos passes preciosos, curtos ou de 40 metros.
Mesmo após deixar os campos, Didi e sua maior paixão
Carlos Heitor Cony, jornalista e tricolor
Didi
Por Carlos Heytor Cony
Que Pelé, Garrincha, Jair da Rosa Pinto, Nilton Santos, Zico, Rivelino, Gérson, Zizinho e Romário me perdoem. Mas o maior jogador que vi jogar foi Waldir Pereira, o Didi, que conheci com a camisa tricolor do Madureira e, mais tarde, com a camisa tricolor do meu time, o Fluminense.
Vestiu outras camisas, inclusive aquela desbotada da antiga seleção nacional, quando foi bicampeão mundial. Em 1958, na Suécia, Pelé foi o herói. Em 1962, no Chile, foi Garrincha. Mas nas duas ocasiões, o maestro, o eixo sobre o qual o time girava, era Didi.
Nunca houve jogador elegante como ele. A imagem que Nelson Rodrigues criou é definitiva: o príncipe de rancho, o príncipe etíope que desfilava arrastando um manto de arminho e púrpura.
Devo a Didi o meu afastamento da torcida em campo. Quando o Fluminense vendeu seu passe para o Botafogo, jurei nunca mais assistir a jogo do meu time. Com raríssimas exceções, cumpri o juramento.
A história oficial garante que ele inventou a folha-seca num jogo da seleção contra o Peru, em busca da classificação para a Copa do Mundo. Não foi bem assim. Foi numa partida do Fluminense contra um time suíço, cujo nome, traduzido, era “gafanhoto”. A camisa dos caras era verde, daí o nome.
Foi no Maracanã, nas balizas que foram dedicadas a Ghiggia, quando deviam ser dedicadas a Didi. Ali ele marcara o primeiro gol no estádio, num amistoso Rio e São Paulo. Ali ele fizera a primeira folha-seca, o chute que fazia da bola uma pluma ao vento, tal como a mulher, segundo o Duque de Mântua no “Rigoletto”: mudava de inflexão e de pensamento.
Entrevistei-o uma vez, em sua casa na Ilha do Governador. Ele não era elegante apenas em campo. Nunca entrevistei o Aleijadinho nem o Machado de Assis. Mas acho que já entrevistei um artista genial.
A partir das 7h desta quarta (13), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Leandro Rabello Monteiro, professor de Biologia Evolutiva da Uenf, após lecionar Ciências Biológicas na Universidade de Hull, na Grã-Bretanha. Ele falará das interrelações entre o homem e os vírus através da evolução, sobre a pandemia da Covid-19 pela perspectiva da ciência, além da origem e do futuro do novo coronavírus.
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A partir das 7h da manhã desta terça (12), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o médico infectologista Nélio Artiles. Ele falará da necessidade de lockdown no estado do Rio para conter a pandemia da Covid-19, alertada desde em estudo da Fiocruz (relembre aqui) desde quarta (06). Também analisará a ampliação do fechamento do comércio de Campos e impôs restrição à prática de exercícios físicos ao ar livre, estabelecida (confira aqui) no novo decreto de hoje, até 24 de maio. E falará sobre a taxa de ocupação dos leitos de UTI da rede pública, contratualizada e privada do município.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Questões levantadas hoje pelo historiador Aristides Soffiati no Folha no Ar, sobre o Museu Histórico e o Arquivo Público de Campos, foram respondidas depois do programa pelo prefeito Rafael Diniz e a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Cristina Lima (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
“Nós passamos quatro anos sem Biblioteca Municipal. E agora estamos sem Museu e sem Arquivo. Eu não sei se isso é de fato um fechamento definitivo disfarçado de algo relativo à crise econômica e crise causada pelo vírus, que eu acho perfeitamente justificável, ou se é uma coisa que vai passar e essas pessoas vão voltar a trabalhar. Agora pergunto: vai voltar? Acho que caberia não só à gestora de cultura do município se pronunciar publicamente, mas ao prefeito dar uma garantia para nós de que Arquivo e Museu são instituições muito importantes à cultura de um município da estatura de Campos. Como é que fica isso?” Foi o que indagou no início da manhã de hoje historiador Arthur Soffiati, no programa Folha no Ar, na Folha FM 98,3. Que dedicou seu último bloco à questão do Museu Histórico e do Arquivo Público Municipal. com a suspensão dos RPAs que trabalhavam nas duas instituições. Após o programa, o blog ouviu o prefeito: “Por óbvio é temporário”, garantiu Rafael Diniz. E foi reforçado pela presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima: “Nunca houve a possibilidade de não voltar”, confirmou Cristina Lima.
— No caso de Rafael, que é (pré-)candidato também, o que ele teria que dizer em um momento como esse. (Acha que seria:) “Olha, eu fechei temporariamente o Arquivo, porque faltam recursos, a gente está vivendo um momento difícil, mas eu vou voltar e vou chamar esse pessoal todo”. O pessoal que trabalha nas instituições (Museu e Arquivo) não pode ser qualquer um, é um pessoal treinado, tem que ter experiência. E não pode ser mandado embora, nem trocado por outro assim, da noite para o dia. Eu vi ontem a manifestação de Dom Roberto (Ferrería Paz), o bispo de Campos, a favor do Arquivo e a favor do Museu. Eu também estou a favor do Arquivo e a favor do Museu — frisou Soffiati. E foi respondido pelo prefeito:
— A gente está devendo a esses RPAs. Essa reivindicação deles é justa. Só que, como as atividades do Museu e do Arquivo foram suspensas, por conta da pandemia da Covid-19, e esses RPAs não estão trabalhando, não tenho como pagar a eles durante o período de paralisação. Por óbvio é temporário. Assim que a pandemia passar e a vida voltar ao normal, no que será considerado normal após a Covid, as atividades voltarão. Não tem como a gente fechar definitivamente o Arquivo e o Museu. Prova da importância que damos a essas instituições está na dedetização promovida recentemente no Arquivo, assim como o sistema contra incêndio que estamos instalando no prédio (Solar do Colégio, erguido pelos padres jesuítas em meados do séc. XVII) — lembrou Rafael Diniz, em resposta às questões levantadas no Folha no Ar.
— Em 18 de março, as atividades do Museu e do Arquivo foram suspensas por conta da pandemia. Os RPAs recebem por serviços prestados. Se os serviços deixaram de ser prestados, pela necessidade de isolamento social, continuar pagando poderia até configurar improbidade. Por conta da crise econômica, os RPAs já estavam estão com quatro meses de salários atrasados. Como os DAS, estão com dois meses e meio de atraso. Eles estão certos em reivindicar o recebimento. Assim como é legítima a preocupação dos historiadores e pesquisadores com a a retomada dos trabalhos dessas duas instituições. Mas nunca houve a possibilidade de não voltar. A manutenção, que já não vinha sendo feita por conta do atraso nos salários, é que vai permanecer temporariamente suspensa. Mas não é nada que vá comprometer a estrutura e o acervo. E é bom lembrar que, além da dedetização feita no Arquivo ano passado, estamos instalando nele um sistema contra incêndio. No governo Rosinha, sem nenhuma pandemia, o Arquivo passou alguns anos fechado e foi reaberto — comparou Cristina Lima.
Durante o Folha no Ar da manhã de hoje, o presidente do Conselho Municipal de Cultura, Marcelo Sampaio, também professor de História, enviou uma nota de repúdio. Que foi aprovada no sábado (09), em teleconferência, por todos os 13 integrantes do Conselho. E foi lida na abertura do último bloco da entrevista com Soffiati:
— O Conselho Municipal de Cultura de Campos dos Goytacazes em sua última reunião ordinária, realizada no dia 9 de maio através de uma webconferência, decidiu por 13 votos a zero publicar esta nota de repúdio ao desligamento de RPAs e estagiários remunerados lotados no Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho, Museu Histórico de Campos, Teatro de Bolso Procópio Ferreira e Teatro Municipal Trianon assim como ao corte dos contratos dos professores substitutos. Apesar de terem conhecimento da difícil situação financeira vivida atualmente pela Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes, os conselheiros decidiram por unanimidade tornar pública a não aceitação destas decisões governamentais, por entenderem que nestes tempos de crise na saúde, economia e política estas medidas só pioram ainda mais o quadro em nosso município. Com o objetivo de tentar minimizar as danosas consequências das referidas decisões, o Conselho Municipal de Cultura de Campos dos Goytacazes também decidiu convidar para prestarem maiores esclarecimentos sobre os respectivos assuntos as gestoras responsáveis pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima e secretaria Municipal de Educação, Cultura e Esporte.
Hoje, depois da entrevista com Soffiati no Folha no Ar, A Associação Nacional de História, Anpuh Brasil, também se manifestou sobre o que classificou como “desmonte do Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho e do Museus Histórico de Campos dos Goytacazes”. Confira abaixo:
ANPUH-BRASIL CONTRA O DESMONTE DO ARQUIVO PÚBLICO MUNICIPAL WALDIR PINTO DE CARVALHO E DO MUSEU HISTÓRICO DE CAMPOS DO GOYTACAZES
A Associação Nacional de História, ANPUH-Brasil, se une às demais instituições de Campos de Goytacazes e Rio de Janeiro na denúncia e no protesto contra o desmonte do Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho e do Museu Histórico de Campos do Goytacazes. Ambas as instituições sofreram recentemente um corte de pessoal em suas equipes, prejudicando enormemente a rotina de trabalho do Arquivo e do Museu da Cidade.
Criado há 18 anos, o Arquivo Púbico Municipal foi eleito no ano passado como um dos cinco melhores do país, pela Câmara Setorial de Paleografia e Diplomática, órgão atrelado ao Conselho Nacional de Arquivos (Conarq), após reunião dos Arquivos Públicos do Brasil. Em 2017, o Arquivo já havia colhido os frutos do trabalho de sua equipe, ao vencerem na categoria de Preservação de Bens Móveis e Imóveis; premiação chancelada pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
O Museu Histórico de Campos de Goytacazes, por sua vez, tem sido marcado por vários desafios, desde a sua territorialização até a conquista da visibilidade que lhe é devida. Nos últimos anos, se firmou como um notável espaço de memória da cidade, com exposições que despojam algumas das questões centrais do passado da cidade, como a recente exposição sobre o Dia da Consciência Negra.
O desmonte perpetrado naquelas instituições inviabiliza a continuidade dos importantes serviços prestados à sociedade de Campos de Goytacazes. Apesar da indispensável quarentena recomendada pelas autoridades sanitárias, os trabalhadores das referidas instituições estavam ativos em espaços online, mantendo contato com a comunidade, na certeza da relevância de suas atividades a nível regional e nacional. Além disso, a desarticulação das atividades realizadas implica também a preocupação com a manutenção e preservação dos acervos ali acolhidos; patrimônios públicos da cidade e do país.
Pelas razões aqui expostas, solicitamos que sejam tomadas providências para a manutenção do funcionamento destas instituições. Estamos solidários e compromissados com toda a equipe de trabalhadores instalados no Arquivo e no Museu de Campos de Goytacazes; exemplos de funcionários, compromissados com a organização, preservação e divulgação de bens históricos, pertencentes – portanto – a todos nós.
Para saber mais da polêmica sobre o Museu Histórico e o Arquivo Publico de Campos, bem como as reações à suspensão das suas atividades e dos RPAs que lá trabalhavam, que o prefeito e a presidente da Fundação Cultural garantiram ser temporária, confira aqui e aqui as postagens do Blog do Edmundo Siqueira, hospedado no Folha1. Para conferir os três blocos do Folha no Ar de hoje com o historiador Arthur Soffiati, que tratou do assunto no último, confira os vídeos abaixo:
A partir das 7h desta segunda (11), quem abre a semana do Folha no Ar é um velho conhecido do ouvinte e telespectador, pelo streaming, do programa da Folha FM98,3: o eco historiador Aristides Soffiati. Ele analisará a pandemia da Covid-19, assim como as interações entre homem e vírus, pelos olhos da História. Também tentará colocar em perspectiva histórica o Brasil do presidente Jair Bolsonaro. E, na conjuntura local, falará da suspensão das atividades do Museu Histórico e do Arquivo Público de Campos, gerando fortes reações na comunidade, abordadas aqui e aqui pelo Blog do Edmundo Siqueira no Folha1.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda, pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Há cerca de duas semanas, os tomógrafos dos dois hospitais municipais de Campos, o Ferreira Machado (HFM) e Geral de Guarus (HGG), pararam de funcionar. Desde então, os pacientes da rede pública que precisam do exame são encaminhados ao hospital da Sociedade Portuguesa de Beneficência de Campos (SPBC). Como lá está instalado o Centro de Combate e Controle ao Coronavírus (CCC) de Campos, isso tem gerado preocupação com a possibilidade de contaminação de pacientes sem a Covid-19, dada a alta transmissibilidade da doença. A Prefeitura negou qualquer risco e garantiu que os tomógrafos do HFM e HGG voltam a funcionar ainda esta semana.
Através da superintendência de Comunicação (Supcom), o poder público municipal informou que a equipe da General Eletric (GE), responsável pela manutenção dos tomógrafos, “esteve na cidade no último dia 30 e identificou o defeito. A Fundação Municipal de Saúde (FMS) aguarda a chegada das peças para as trocas. Esta semana, os tomógrafos voltam a funcionar. Nenhum munícipe está ficando sem realizar o exame. Por enquanto, os exames estão sendo realizados no Hospital da Beneficência Portuguesa em uma ala à parte, sem nenhum contato com o Centro de Controle e Combate ao Coronavirus”.
Secretária de Saúde de Campos, Cintia Ferrini também se posicionou sobre a temor de contaminação, que tem acometido pacientes da rede pública municipal sem a Covid, mas com necessidade de tomografia. Ela negou qualquer possibilidade:
— Em relação à Beneficência Portuguesa, posso dizer que (o exame de tomografia dos pacientes da rede pública municipal) é feito em um fluxo externo. Não passa por dentro do CCC, que é o local onde se dá o atendimento ao paciente com Covid. E existe todo um processo de desinfecção, que é feito a cada paciente atendido. Então, não é o tomógrafo que pode ocasionar o risco de contaminação. Com certeza, não.
Morreu na manhã de hoje, no Hospital Dr. Beda, o advogado Fábio Lontra Costa, de 73 anos. Até o início da noite de ontem (08), Campos tinha 6 mortes sob investigação e 8 confirmadas por Covid-19. Fabinho, como era conhecido pelos muitos amigos, foi a 9ª. Sem velório, por conta da pandemia, seu corpo será sepultado às 16h15 no Cemitério do Caju. Foi a primeira morte por Covid registrada no Beda. Ele deixa os filhos Arthur, Fernanda, Mariana e Laura. E os netos Maria Eduarda, Arthur, Augusto e Pedro Otávio.
Fabinho foi internado no Beda inicialmente por conta de uma infecção bacteriana renal. Chegou a regressar à casa, mas constatada a infecção pelo novo coronavírus, teve que voltar a se internar no hospital, até falecer na manhã de hoje. Advogado conceituado, era também respeitado e gostado fora do meio jurídico. Foi um dos tantos frequentadores tradicionais do bar e restaurante Toca dos Amigos, na rua Pero de Góis, instituição da noite campista, que encerrou as atividades em abril de 2018, com a morte de seu proprietário (relembre aqui), Roberto Alves da Costa, grande amigo de Fabinho.
Já conhecia Fabinho pela proximidade com Mariana, sua filha, também advogada, e com seu genro, o médico Luiz Otávio Enes Barreto. Mas foi na Toca dos Amigos, parando para pensar só agora na ironia da coisa, que me tornei seu amigo. Sujeito extremamente carinhoso, sempre que nos víamos, Fabinho levantava da sua mesa e me cumprimentava com um abraço e um beijo paternal no rosto, retribuídos com reverência.
São esses hábitos de afeto que a pandemia da Covid-19 levou a óbito, antes de matar um sujeito extremamente boa praça. Que dá cara à frieza dos números. E do qual, “do coração do meu coração”, guardarei grande saudade. Maior na que tomo por empréstimo do seu neto mais novo, Pedro Otávio Enes Barreto Neto, de 6 anos. Que em matéria publicada hoje na Folha, entre 18 crianças do ensino fundamental de Campos, disse (confira aqui, no antepenúltimo depoimento) sobre o que mais sentia falta durante o isolamento social da pandemia:
— Dos meus avós, tenho mais saudade ainda. Queria que o mundo não tivesse mais a Covid-19 e nem pessoas morando na rua.
Desenho de Glenda Calmon Souto de Alencar, 11 anos, do 6º ano do Colégio pH
Crianças dos EUA indo à escola em 1918, durante a gripe espanhola, que nasceu no estado americano do Kansas
“Coronavírus: uma palavra que eu nem sabia pronunciar. Veio de uma maneira inexplicável e mudou o mundo e meu dia a dia”. Aos 7 anos, Davi Dias Monteiro Biéle cursa o 2º ano do ensino fundamental da Escola Municipal Sebastiana Machado, onde começa a se tornar íntimo da palavra escrita. E precisou de poucas para resumir como todos se sentem sobre a pandemia da Covid-19. Que a sua geração carregará como experiência diferente de todas as demais. As crianças de hoje não descobrirão só adultos ou idosos como a realidade da humanidade pode desmoronar da noite para o dia. Ganharam a consciência disso enquanto ainda formam a sua sobre si mesmos e o mundo. Como talvez antes só tenha acontecido com as crianças da II Guerra Mundial (1939/1945), que se calcula ter matado até 85 milhões de pessoas, incluindo brasileiros e campistas. Ou as crianças da última pandemia comparável à do novo coronavírus: a gripe espanhola, Influenza H1N1 e hoje imunizada por vacina, que se estima ter matado até 100 milhões de pessoas entre 1918 e 1920, inclusive no Brasil e em Campos.
As crianças que sobreviveram à gripe espanhola são hoje centenárias. As que sobreviveram à II Guerra, são no mínimo octogenárias. Diferente das que nasceram e cresceram depois, se julgando inatingíveis por tragédia em escala semelhante, o tempo deixou poucas memórias vivas das duas últimas grandes crises globais. Mas, por mais traumáticas que tenham sido suas experiências, nenhuma delas foi reforçada com tanta informação quanto as crianças de hoje. Antes mesmo da Covid-19, muitas aprenderam a mexer em iPhones e computadores, com acesso à internet, enquanto ainda aprendiam a andar e falar. O universo virtual que usam durante a pandemia, para continuar estudando, se divertindo, contatando amigos e familiares distantes pelo isolamento, é o mesmo pelo qual recebem informações sobre a doença. E elas têm medo da realidade que já infectou milhões e matou centenas de milhares no mundo. “Tenho medo de morrer ou que algum dos meus familiares ou amigos morra”, sintetizou Paula de Magalhães Pacheco, 8 anos, do 3º ano da Escola Riachuelo.
Crianças órfãs da II Guerra, em campo de concentração da Rússia (Foto: Getty Images)
Desenho de Paula de Magalhães Pacheco, 8 anos, do 3º ano da Escola Riachuelo
Se nenhum especialista é capaz de dizer quando essa crise vai passar, mais que qualquer um deles, são as crianças de hoje que poderão responder: como será o mundo depois que isso tudo acabar? Será aquele que suas vidas construírem, a partir das que foram e serão destruídas pela Covid-19. Como foi o mundo que as crianças sobreviventes da gripe espanhola e da II Guerra cresceram para erguer. E o fizeram com a segurança que pôde ser medida por quase um século, antes da humanidade enfrentar outro desafio capital. Depois dele? “Sinceramente, quando essa pandemia acabar, o mundo continuará do mesmo jeito, pois nós, seres humanos, desprezamos a capacidade de um vírus e somos egoístas”, advertiu Bernardo Soares Tuche, 9 anos, do 5º ano do Colégio pH. “Acredito que todos terão mais cuidado com o corpo, a natureza e com o próximo” projetou Kaio Riscado Costa, 7 anos, do 2º ano do Alpha. “Essa é a resposta que todos nós estamos procurando, nem tudo tem que ser tão triste assim”, mediou Lívia de Oliveira Corrêa, 11 anos, do 6º ano do Auxiliadora.
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. A sentença é do clássico infantil “O Pequeno Príncipe”, livro do aviador francês Antoine de Saint-Exupéry, publicado a primeira vez em 1943, no auge da II Guerra. E se tornou lugar comum, atravessando gerações com a narração do encontro entre um homem e uma criança no isolamento do deserto, onde se conhecem entre palavras e desenhos. Além de ouvir 18 crianças da rede pública e privada do ensino fundamental de Campos, sobre suas vidas e suas visões do mundo com a pandemia da Covid-19, a Folha pediu que elas as retratassem também em desenhos, alguns publicados nesta edição. Vendo através dos seus olhos, entre o medo e a esperança, impossível não se cativar. E não assumir a responsabilidade de quem veio antes pelo mundo que lhes será entregue.
Davi Biéle
— Coronavírus: uma palavra que eu nem sabia pronunciar. Veio de uma maneira inexplicável e mudou o mundo e meu dia a dia. Espero que tudo isso passe logo. Sinto muita falta dos meus amigos e de estar na escola. Mas faço muita coisa com minha família para passar o tempo, como brincar de adedonha, ver filmes, ler livros. Em breve, tudo voltará ao normal. Ficarei mais feliz ainda em estar perto das pessoas que eu amo. O mundo está mudando e vai mudar mais ainda. E pra melhor — apostou Davi Biéle, 7 anos, do 2º ano da Escola Municipal Sebastiana Machado.
Mariana Cavalcante Feitoza Freitas
— Sim, tenho muito medo de pegar o coronavírus. Para mim o pior é não poder ir para à escola. Ficar o dia todo em casa é desconfortável. Eu tenho uma rotina. Tenho aula online de canto, violão, inglês, faço todos os dias as minhas atividades escolares e vejo vários filmes. Em ligações com as minhas amigas, nós falamos como está a nossa quarentena. Em relação aos meus pais, fazemos atividades físicas de manhã, conversamos mais ainda agora. Tenho sentido muita falta dos meus amigos na escola. Também estou com muitas saudades dos meus avós, pois eu ia para a casa deles toda a semana. Eu também me pergunto por que em pleno 2020 acontece isso? Mas você já parou para pensar que com essa pandemia o céu ficou mais puro, as águas mais claras e as pessoas mais unidas? Então! A união foi necessária, pessoas no mundo inteiro começaram a orar pelo fim da pandemia, as pessoas deram mais valor às coisas mais simples. O ser humano não será o mesmo depois que isso tudo acabar. Todos nós seremos mais gratos pelo que temos, com mais amor ao próximo e a Deus. Eu também! — comprometeu-se Mariana Cavalcante Feitoza Freitas, de 10 anos, do 5º ano do Auxiliadora.
Paula de Magalhães Pacheco
— É uma doença nova, que está deixando as pessoas doentes. Tenho medo de morrer ou que algum dos meus familiares ou amigos morra. É pior ter que estudar em casa, porque é uma confusão danada de folha pra cá e imprimir folha pra lá. Não conseguimos adiantar e fica um desespero pra fazer as atividades. Brinco com a minha irmãzinha, comecei a estudar lettering e falo no WhatsApp com meus amigos. Pergunto aos meus colegas como eles estão, se sentem saudades da escola e dos amigos, do que estão brincando. Sinto falta deles, mesmo aqueles que me enjoam, de brincar junto, de viajar e abraçar meus avós. A última vez que os vi foi no carnaval. As pessoas precisam se respeitar mais, os mais velhos, pensar no próximo — disse Paula de Magalhães Pacheco, 8 anos, do 3º ano da Escola Riachuelo.
Aquiles Paes Pasco Peixoto Neves
— É uma pandemia que põe muito medo em todo mundo. Eu tenho muito medo de ficar doente e ficar sozinho no hospital sem minha família e triste. Tenho medo de ficar sem meus familiares. Acho que estudo mais agora, em casa. Como não tem os professores perto para ensinar, eu tenho que fazer tudo praticamente sozinho e com minha mãe. Tenho brincado no celular, no videogame, visto muitos filmes. Agora, com a minha mãe trabalhando em casa, a gente tem muito mais tempo pra ficar juntos. Na minha casa eu converso sobre o coronavírus com minha mãe, meu irmão e agora com meus avós, que vieram ficar aqui em casa. É mais seguro para eles aqui e fico preocupado para não fazer nada que possa deixar eles doentes. Sinto muita falta dos meus amigos, da liberdade de ir ao shopping, tomar café na padaria. Estou há mais de um mês sem sair de casa. Acho que as pessoas e o mundo vão estar diferentes depois disso tudo, só não sei como. Quando você não vê uma pessoa há muito tempo, também acaba vendo muita diferença — observou Aquiles Paes Pasco Peixoto Neves, 11 anos, do 6º ano do Colégio Bittencourt.
Kaio Riscado Costa
— Coronavírus é uma gripe muito perigosa causada por um novo vírus e que tem matado muitas pessoas. Sim, tenho medo da minha família e amigos não conseguirem se proteger e acabarem pegando essa doença. Não poder ir para à escola é ruim, porque, além de estudar, posso brincar e conversar com os meus amigos. Tenho brincado com os meus brinquedos, assistido a vídeos, desenhos e filmes, na televisão e pela internet. Tenho saudades dos meus amigos, professores, de ir para a escola, de ir ao shopping com minha mãe e da escolinha de futsal. Acredito que quando isso tudo acabar, todos terão mais cuidado com o corpo, a natureza e ao próximo — enumerou Kaio Riscado Costa, de 7 anos, do 2º ano do Alpha.
Bernardo Soares Tuche
— Não é uma gripezinha nem aqui, nem na China. No ano de 2019, na China, uma gripe com febre alta, falta de ar, tosse, se espalhou pelo mundo, atacando os mais idosos, crianças e adultos com problemas de saúde. É um vírus que é chamado de coronavírus. No Brasil, surgiu no ano de 2020. Me deu muito medo de perder minha família, meus amigos. E por isso estamos em quarentena em casa. Desde que chegou ao Brasil, estão fechadas as escolas. Estudamos em casa, não encontramos os amigos, os professores, é muito ruim. E por isso tenho estudado menos que o normal. Nestes dias de quarentena, jogo videogame online com meus amigos, leio livros e, se teve coisa boa, foi que ganhei dois gatos: Mia e Oreo. Sinceramente, quando essa pandemia acabar, o mundo continuará do mesmo jeito, pois nós, seres humanos, desprezamos a capacidade de um vírus e somos egoístas — sentenciou Bernardo Soares Tuche, 9 anos, do 5º ano do Colégio pH.
Desenho de Aquiles Paes Pasco Peixoto Neves, 11 anos, do 6º ano do Colégio Bittencourt
Página 6 da edição de hoje (09) da Folha
Desenho de Daniel Landes Gouvêa Primo, 9 anos, do 4º ano da Escola Riachuelo
Lívia deOliveira Corrêa
— É um vírus que está atacando o mundo todo. Tenho medo, sim, pois é realmente perigoso. Por isso estamos cada um na sua casa. Se não nos protegermos, podemos pegar o vírus. O problema não é ficar em casa, mas eu queria poder ir à escola e abraçar a todos. Quando íamos à escola, as professoras cobravam mais da gente. Em casa precisamos ser mais independentes e responsáveis para fazer nossas atividades. Além de estudar, eu brinco, toco ukulele, canto, leio livros e assisto a séries e filmes na Netflix com a família. Converso com meus amigos pelo telefone, mesmo sem nos ver matamos um pouquinho da saudade. Nesses dias comecei a olhar o mundo com outra cor, comecei a ver coisas majestosas em coisas tão simples. Nem tudo precisa mudar, precisamos tirar lições importantes deste momento. Por que o bonito deveria mudar? Essa é a resposta que todos nós estamos procurando, nem tudo tem que ser tão triste assim — ressaltou Lívia de Oliveira Corrêa, 11 anos, do 6º ano do Auxiliadora.
Anna Luiza Alves Pontes
— A gente pouco sabe. Então, esse é o motivo da quarentena. A gente tem que se prevenir para não pegar o vírus. Temos que passar álcool em gel, evitar beijar, abraçar. Quando for na rua, tem que usar a máscara ou luva. Eu passo meu dia a dia vendo televisão, estudando ou brincando. Sinto muita falta dos meus amiguinhos, de estudar e brincar juntos, essas coisas de criança. Lá na frente, a gente vai ficar mais prevenido. Então, a vida vai ser melhor — projetou Anna Luiza Alves Pontes, 8 anos, do 3º ano da Escola Municipal Sebastiana Machado.
Mariana Salles Aguiar Barros
— Tenho medo de pegar o vírus. Não poder ir à escola é ruim, porque lá estudo, brinco, converso. Nossas mães marcam uma live para a gente matar um pouco a saudade. Aí a gente conversa sobre o que vai fazer depois que acabar esse coronavírus. A gente brinca de adedonha, de boneca, pintar, desenhar. Eu vou fazer uma festa, para comemorar meu aniversário que está chegando, dia 26 de maio. Mas vou compartilhar com toda a família. Uma avó minha, mãe do meu pai, mora do meu lado, e a minha outra avó, mãe da minha mãe, está ficando aqui na minha casa, porque ela mora sozinha. Então a gente resolveu que ela vai ficar aqui em casa. Ajuda a matar a saudade, mas eu sinto falta de abraçar e beijar elas. A minha avó que está ficando aqui na minha casa, fica de máscara o tempo todo e lava bem as mãos. Tenho saudades de ir à rua. E o mundo? A gente vai saindo de casa aos pouquinhos, porque se a gente sair de casa e voltar a se aglomerar, o vírus vai voltar para outra visitinha. E isso é o que ninguém quer — ressalvou Mariana Salles Aguiar Barros, 7 anos, do 2º ano do Auxiliadora.
Raj Araújo Freitas
— O coronavírus chegou aqui no Brasil e assustou muita gente. Pelo que estou vendo, é uma doença muito perigosa. Aqui na minha casa, passo o meu tempo mexendo no tablet e estudando inglês pelo YouTube. Eu sinto muita falta da minha escola, dos meus amigos, mas a gente sempre se fala pela rede social. Eu acho que, quando tudo isso acabar, nós devemos continuar com os mesmos hábitos de sempre lavar as mãos, porque isso é importante — lembrou Raj Araújo Freitas, 10 anos, do 5º ano da Escola Municipal Sebastiana Machado
Ravi Araújo Freitas
— O coronavírus está assustando o mundo inteiro. Muitas pessoas estão ficando doentes. Na minha casa, eu passo o meu tempo escutando músicas, vendo filmes e brincando com o meu irmão. Eu sinto muita falta dos meus amigos, da escola. Quero voltar a estudar logo. Quando tudo isso acabar, eu acho que as pessoas vão ficar muito felizes. E nós devemos agradecer a Deus por tudo isso ter voltado ao normal — disse Ravi Araújo Freitas, irmão gêmeo de Raj, também do 5º ano da Escola Municipal Sebastiana Machado.
Gabriela Arantes Machado
— Tenho medo, porque esse vírus está causando a morte de muitas pessoas e não quero perder ninguém da minha família. Não poder ir à escola é ruim. Lá é muito melhor para estudar. Também sinto falta de brincar com os amigos no pátio, no intervalo, estar com as pessoas. A ajuda das professoras, as atividades com meus colegas, aulas em ambientes diferentes, faziam as tardes mais alegres. Agora eu jogo no celular, brinco com minha cachorrinha, vejo filmes com meus pais, desenho, brinco de bola e durmo até mais tarde (risos). Tenho falado muito com meus amigos sobre jogos do celular, como está sendo a quarentena, sobre o que estão fazendo em casa. Uma das coisas que mais sinto falta são os meus avós. Eu sempre visitava eles, almoçávamos juntos. Apesar de eu falar com eles todos os dias pelo celular, eles se sentem muito sozinhos. Nós nunca mais seremos os mesmos. As pessoas deveriam ter mais amor no coração, respeitar o próximo, ser menos egoístas e ter gratidão a Deus — testemunhou Gabriela Arantes Machado, 9 anos, do 4º ano do Auxiliadora.
Daniel Landes Gouvêa Primo
— É um vírus que causa doença nas pessoas. Sim, tenho medo de ficar sem ar. Não poder ir à escola é ruim, porque além de estudar, eu ia para me divertir. Agora, além de estudar em casa, brinco de bola, jogo no tablet e no videogame. Tenho conversado mais com meus pais, mas não tenho falado com meus amigos pela internet. Sinto, muita (muuuuita) saudade de estar com meus avós. Sinto muita saudade de andar de bicicleta e poder sair de casa. Quando a pandemia acabar, todo mundo vai poder se divertir de novo. Todos teriam que brincar mais nos parques — pregou Daniel Landes Gouvêa Primo, 9 anos, do 4º ano da Escola Riachuelo.
Lara Sales Severino Peçanha das Dores
— Coronavírus é uma gripe muito evoluída causada pelo vírus chamado Covid-19. Tenho medo da minha família não conseguir se proteger e acabar pegando essa doença. Principalmente meu avô, que precisa embarcar, e meu pai, que sai para trabalhar todo dia. Sinto falta de ir à escola, porque podia ver meus amigos, ter contato com eles e com os meus professores. Em casa, mesmo por vídeo conferência, não é a mesma coisa. É muito triste. Estudar em casa é mais difícil, porque na escola a gente aprende a nem perceber, é mais natural. Tenho lido livros, brincado mais com meu irmão, visto filmes com minha família e conversado com minhas amigas pela internet. Sinto muita saudade de poder passear e de abraçar as pessoas. Já estamos mudando. Precisamos aprender a aproveitar mais os momentos com nossa família e nossos amigos. A nossa higiene também precisa mudar para continuarmos a nos proteger, não só do coronavírus, mas de outras doenças — lembrou Lara Sales Severino Peçanha das Dores, 10 anos, do 6º ano do Alpha.
Júlia Ladeira Vilela
— Para mim coranavírus e Covid-19 são a mesma coisa, é um vírus que causa uma gripe muito forte. Eu tenho medo das consequências da doença no corpo das pessoas. Sinto falta de poder ir à escola, pois é bom ter a presença dos professores. O que eu mais tenho feito é assistir a séries e usar o celular. Eu sempre conversei muito com os meus pais, então isso não mudou. Fico triste de não poder encontrar meus amigos e avós. E minha saudade aumenta mais quando conversamos contamos um ao outro como está a nossa quarentena. Sinto falta também de poder passear, ir ao cinema, sair com amigos e familiares, de viajar. Se pudesse agora, eu iria parar de reclamar da rotina, que muitas vezes é cansativa. E daria mais valor a coisas pequenas como ir à praça, tomar um banho de piscina, sair para tomar sorvete. Eu acho que as pessoas têm que ajudar ao próximo, como estão ajudando nessa quarentena — disse Júlia Ladeira Vilela, 11 anos, do 6º ano do Auxiliadora.
Pedro Otávio Enes Barreto Neto
— O coronavírus e a Covid-19 são a mesma coisa. Um bichinho perigoso que está pegando todo mundo. É ruim não poder ir à escola. Porque fico sem ver os meus amigos. Vejo filmes, TV, vou na piscina, jogo um pouco de futebol, brinco. Converso muito com meus pais. Todo tempo! Também converso com meus amigos. Tem que falar o nome do amigo? É Pedro Barreto, a gente conversa sobre jogos. Sinto muita saudade de todos, do meu futsal e da pelada que ia com meu pai. Dos meus avós, tenho mais saudade ainda. Queria que o mundo não tivesse mais a Covid-19 e nem pessoas morando na rua — desejou Pedro Otávio Enes Barreto Neto, 6 anos, do 2º Ano do Centro Educacional Vivendo e Aprendendo.
Davi Barcelos Ribeiro
— É uma doença perigosa que está deixando pessoas do mundo doente e longe uns dos outros. Eu tenho medo dela, porque não quero ficar doente e nem que minha família e meus amigos também fiquem. É pior não ir à escola e melhor ficar junto dos amigos. Brincar no recreio juntos e estudar com a professora que é muito legal. Agora em casa eu estudo mais, porque tem muito mais tarefas que eu fazia na aula. Quando não estudo, fico jogando minecraft no videogame, vejo YouTube, brinco de jogo com meus pais, vejo tv, ajudo a arrumar meu quarto e às vezes falo com alguém no celular. Tenho saudade de brincar com meus amigos, de ir ao shopping, de lutar kickboxing, abraçar e beijar as pessoas. Quando isso acabar, acho que Deus vai fazer todas as pessoas se amarem mais, serem amigos e unidos. Eu vou ser mais feliz — resumiu Davi Barcelos Ribeiro, 8 anos, do 3º ano do Auxiliadora.
Glenda Calmon Souto de Alencar
— O coronavírus é um vírus perigoso. Tenho medo pelas pessoas que conheço, dentre elas amigos, família e até eu mesma de pegarmos o vírus e morrermos. Já o Covid-19 é o nome da doença que esse vírus causa. Não ir à escola é ruim. Precisamos de socialização, amizades. Sem a escola, isso fica muito difícil. Claro que temos a internet e nossos familiares, mas nada disso é tão bom quanto ver todos os amigos e professores pessoalmente. Sem falar da quebra da rotina, que mudou completamente. Estou conversando bastante com meus pais, com amigos e brincando mais com meu irmão mais novo. Para passar o tempo, estou ajudando bastante meus pais e fazendo ballet, que com certeza me ajuda a esquecer as coisas ruins que estão acontecendo em todo o mundo. Pela internet não é a mesma coisa que pessoalmente. Tenho mais saudade de sair, ver como o mundo está. Acho que ele vai ficar diferente. Ou, pelo menos, deveria ficar! As pessoas estão aprendendo com essa quarentena a dar valor ao que tem. Muitas estão reclamando de não poder sair, mas quando tudo isso acabar, elas agradecerão por todo o aprendizado que estamos tendo com essa situação — finalizou Glenda Calmon Souto de Alencar, 11 anos, do 6º ano do Colégio pH.
️️️Desenho de Júlia Ladeira Vilela, 11 anos, do 6º ano do Auxiliadora
“Com o objetivo de salvar vidas e com base em análises técnico-científicas, a Fiocruz considera urgente a adoção de medidas rígidas de distanciamento social e de ações de lockdown no estado do Rio de Janeiro (…) Frente ao agravamento do cenário da pandemia, com o gradativo aumento de circulação de pessoas, a não adoção de medidas imediatas de lockdown pode levar a um período prolongado de escassez de leitos e insumos, com sofrimento e morte para milhares de cidadãos e famílias do estado do Rio de Janeiro”. O alerta foi soado na quarta (06) pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), sediada no Rio e considerada uma das principais instituições do mundo em pesquisa de saúde pública. Lockdown é uma expressão inglesa que significa “fechamento total”. E foi adotado em vários países para conter as mortes pela pandemia da Covid-19. Temeroso pelo desgaste político da medida, na queda de braço com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o governador Wilson Witzel (PSC) descartou inicialmente o lockdown. E nas 24 horas seguintes, de quinta (07) para sexta (08), o estado do Rio passou pela primeira vez São Paulo no número de mortes oficiais pela Covid-19: 189 contra 161. Resultado? Witzel enviou ainda na sexta (confira aqui) um ofício ao Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), com sua proposta de lockdown para todo o estado. Também na tarde de sexta, a UFRJ enviou ao MPRJ a mesma recomendação: lockdown no estado do Rio.
Promotora de Justiça Maristela Naurath e defensor público Tiago Abud (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Enquanto isso, nos primeiros dias de maio no Norte e Noroeste Fluminense, a Defensoria Pública teve que recorrer (confira aqui) a ações coletivas na Justiça para tentar obrigar os governos de Itaperuna, São Fidélis, Italva, Cardoso Moreira, Itaocara, Porciúncula, Cardoso Moreira e Varre-Sai a fechar seus comércios, no lugar de abrirem covas. Considerando o estudo da Fiocruz, na madrugada de sexta a promotora de Justiça Maristela Naurath, do MPRJ, recomendou aos prefeitos de Campos, São João da Barra, São Fidélis e São Francisco de Itabapoana “que elaborem estudo técnico devidamente embasado em evidências científicas e em análises sobre as informações estratégicas em saúde, vigilância sanitária, mobilidade urbana, segurança pública e assistência social a justificar a tomada de decisão sobre a adoção ou não do lockdown, como medida extrema do distanciamento social (…) contra a disseminação do novo coronavírus, com a suspensão expressa de todas as atividades não essenciais à manutenção da vida e da saúde”.
(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Com sete mortes confirmadas pelo novo coronavírus, outras seis investigadas, 152 casos confirmados e 451 suspeitos, Campos tinha até a manhã de sexta a ocupação de 68% dos seus leitos da rede pública e contratualizada, sendo 82% de ocupação em UTIs e 63% de leitos clínicos. Já na rede particular, a ocupação dos hospitais Dr. Beda, Unimed e Pronto Cardio, segundo estes informaram à secretaria municipal de Saúde, a ocupação seria de 76% dos leitos, entre UTI e Clínica Médica. Sobre a necessidade da adoção de lockdown alertada pela Fiocruz, o gabinete de crise do município respondeu que vai esperar decisão do governo estadual. A quem também cobrou a instalação do Hospital de Campanha, na área da antiga Vasa, investigado em denúncia de superfaturamento (confira aqui) e com prazo de entrega adiado (confira aqui) para a 2ª quinzena deste mês:
Gabinete de crise de Campos (Foto: Folha da Manhã)
— O estudo evidencia o que já vínhamos detectando em virtude de tudo que temos acompanhado em relação à evolução da pandemia da Covid-19. De fato, infelizmente, os números vêm aumentando nas últimas duas semanas, com diminuição do isolamento social. Isso exige reavaliação constante das medidas adotadas. Em Campos, há mais de um mês tomamos medidas para garantir o isolamento social e fomos pioneiros, implantando, em tempo recorde, o Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC), o que garantiu que nosso sistema de saúde não entrasse em colapso. Hoje, estamos com alta ocupação de nossos leitos de UTI, o que é bastante preocupante, e a rede privada apresenta índices de ocupação ainda maiores, o que assevera nossa preocupação. Conforme nossa Vigilância em Saúde alerta, estamos a uma semana da cidade do Rio em termos de ápice da pandemia, o que nos permite planejar de maneira mais eficaz nossas ações e projetos. Por esta razão, neste momento, iremos manter as medidas que já tomamos e que aguardaremos as determinações do Governo do Estado, até porque é o Estado que regula os leitos de UTI, uma vez que somos município polo em saúde e, mais ainda, pelo fato de que ainda não podemos contar com o Hospital de Campanha, que é essencial para o combate a pandemia, especialmente na questão de absorção da demanda de outros municípios da região e que são atendidos em Campos.
Carla Machado
Por sua vez, São João da Barra tinha, até o início de tarde de sexta, 1 óbito confirmado por Covid-19, 24 casos confirmados e 12 suspeitos. Sobre o estudo da Fiocruz, a prefeita Carla Machado (PP) respondeu, por sua assessoria, que também espera a posição oficial de Witzel sobre a decisão do lockdown:
— Toda forma de evitar o aumento do contágio é válida. Em relação ao lockdown, conforme apontado no relatório da Fiocruz, se o número de casos em São João da Barra chegar ao patamar que seja necessário implantá-lo, o que ainda não acontece, estaremos prontos a aderir às orientações do Estado.
Prefeitos de São Fidélis, Amarildo Henrique Alcântara, e de São Francisco, Francimara Barbosa Lemos, mantêm o comércio dos seus municípios abertos, a despeito das mortes pela Covid-19 (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Campos e São João da Barra fecharam em decretos municipais os seus comércios. São Fidélis, com 4 óbitos por Covid-19, 89 casos confirmados e 11 suspeitos; e São Francisco, com 1 óbito pela doença, 15 casos confirmados e 13 suspeitos; nem isso fizeram. Se a dúvida existe entre os poderes públicos estadual e municipais fluminenses, entre os especialistas, a necessidade de lockdown apontada pela Fiocruz é uma certeza:
Nélio Artiles
— Essa demora trará consequências severas nas próximas semanas. Vivemos em um país com algumas peculiaridades e que a implantação de lockdown deverá ser acompanhada de um suporte social e econômico aos mais carentes. Não é fácil. Um grande desafio. Concordo que a subnotificação é muito grande. Considerando que o R0 (taxa básica de reprodução do vírus) é de 1 a 4, talvez mais, e que 80% não apresenta manifestação típica ou formas leves, a diferença entre notificados e pessoas infectadas é bem grande. Acredito que essa desproporção é enorme — ressaltou o médico infectologista Nélio Artiles.
Rodrigo Carneiro
— O lockdown é a única solução para evitar uma Manaus no Rio de Janeiro. Falhamos até agora em “achatar a curva”. Tenho bons amigos em Manaus e eles não aguentam mais fazer declaração de óbito em domicílio. O que vemos pela imprensa de lá é só a ponta do iceberg. A aceleração da curva de casos, mesmo com a brutal subnotificação, leva a condutas mais bruscas. O grande problema é a falta de assistência para casos moderados e graves. O aumento de óbitos quando comparado com o mesmo período dos últimos anos está relacionado à Sars-Cov2 — explicou o médico infectologista Rodrigo Carneiro.
Ônibus com cortadores de cana de Minas Gerais para lavouras da usina Canabrava foram impedidos de prosseguir viagem na barreira sanitária entre Campos e SFI (Foto: Divulgação)
Na barreira sanitária entre os municípios de Campos e São Francisco de Itabapoana, na BR 356, dois ônibus com trabalhadores rurais vindos de Minas Gerais, com destino às lavouras de cana da usina Canabrava, foram interceptados por volta das 9h da manhã de hoje. E impedidos de prosseguir viagem, como parte do combate à disseminação da pandemia da Covid-19.
A ação foi iniciativa do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) e do Ministério Público do Trabalho (MPT), cujas recomendações foram acolhidas pelos municípios de Campos e SFI. Segundo informou o MPRJ, o transporte dos cortadores de cana, que iriam ficar hospedados em São Francisco, era feito sem nenhum plano de contingência ou quarentena, expondo a risco o sistema de saúde da região.
Atualização às 18h01. Com pedido de posição feito à assessoria jurídica da usina Canabrava desde o início tarde, a resposta veio às 17h45. E segue publicada abaixo:
“A Canabrava Agrícola, por meio de seu departamento jurídico, vem a público esclarecer o seu comprometimento com as boas práticas jurídicas, em especial às normas que regem a vigilância sanitária e as relativas a segurança do trabalho, preocupados não apenas em evitar a disseminação do Covid-19, mas também em manter incólumes os postos de trabalho e a renda gerada com a atividade econômica, tem envidado todos os esforços e recursos necessários para assegurar que os trabalhadores que laborarão na safra deste ano possuam todos os equipamentos de proteção necessários, bem como tenham transporte e alojamento que respeitem as normas estabelecidas pelo poder público, em especial aquelas editadas neste período de pandemia.
Neste contexto, mesmo tendo acertado com o secretário de Saúde de São Francisco de Itabapoana a forma como se daria o transporte dos trabalhadores que laborarão na safra, bem como onde ficariam hospedados, além dos cuidados que seriam adotados para garantir que não houvesse qualquer risco de contágio, o transporte que seria realizado na data de hoje foi interrompido, por determinação do MPE, MPT e Prefeituras de Campos dos Goytacazes e São Francisco de Itabapoana, acertada após reunião realizada na noite de ontem, sem qualquer prévio aviso.
Como não havia sido publicada qualquer decisão, ato, nota, decreto ou recomendação, da referida reunião, foi determinado, por iniciativa da Canabrava, que os profissionais retornassem às suas cidades de origem e lá permanecessem para a realização da rescisão do contrato de trabalho, diante da total inviabilidade da continuidade da prestação do serviço desses colaboradores, que se deu por conta dos atos praticados, em conjunto, pelos órgãos citados acima”.