Clarissa, Mérida, Bruno, Fábio e Juninho (Montagem: Joseli Mathias)
As eleições de 2022 já movimentam os bastidores da política goitacá. O grupo dos Garotinho, que retomou o poder em Campos com a eleição de Wladimir (PSD) a prefeito em 2020, discute pré-candidaturas e partidos. A deputado federal, se não há muita dúvida da pré-candidatura à reeleição de Clarissa Garotinho (atual Pros), o empresário e secretário municipal de Desenvolvimento Econômico Marcelo Mérida (PSC) também deve tentar novamente uma cadeira em Brasília, à qual se candidatou e perdeu em 2018.
A disputa mais acirrada, como costuma ser, é entre as pré-candidaturas do grupo à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Entre os garotistas, também é considerada certa a tentativa de reeleição de Bruno Dauaire (PSC), atual secretário estadual de Desenvolvimento Humano. Além dele, dois vereadores saem na frente: respectivamente o presidente e o primeiro vice-presidente da Câmara Municipal, Fábio Ribeiro (PSD) e Juninho Virgílio (atual Pros).
Outra novidade é que o Pros deve mudar de mãos, ainda que continuar na base de apoio dos Garotinho. Além da saída de Clarissa, que se cogita há algum tempo, o partido também perderia a ex-governadora Rosinha e o vereador Juninho. Também podem sair o edil Thiago Rangel, assim como o primeiro e a segunda suplentes do Pros no Legislativo goitacá: respectivamente os ex-vereadores Edson Batista, ex-presidente da Câmara; e Josiane Morumbi, atual presidente municipal da legenda e subsecretária de Direitos da Mulher no governo Wladimir.
O perigo das constantes ameaças à democracia brasileira pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), bem como sua condução desastrosa da pandemia da Covid no país, que ameaça os esforços do mundo contra a doença, parecem ser um consenso na opinião pública internacional. No último sábado (02), como registrado aqui, o tradicional jornal The Washington Post ecoou a advertência dos EUA a Bolsonaro: “O presidente brasileiro já contribuiu muito para o agravamento da pandemia Covid-19 em seu próprio país e, por meio da disseminação da variante brasileira, pelo mundo. Ele não deve ter permissão para destruir uma das maiores democracias do mundo também”. Hoje (06), em outro editorial, também tratando das ameaças à democracia brasileira e ao caos da Covid no país, foi a vez do grande jornal britânico The Guardian expressar a visão global sobre Bolsonaro: “um perigo para o Brasil e para o mundo”.
Confira a íntegra do editorial aqui, em sua publicação original em inglês, e na sua tradução em português abaixo:
Ilustração de Vitor Flynn na capa do jornal francês Le Monde, na paródia gráfica do Brasil de Bolsonaro na Covid com uma icônica cena do filme “Dr. Fantásticio” (1964), única comédia do mestre do cinema Stanley Kubrick
A visão do The Guardian sobre Jair Bolsonaro: um perigo para o Brasil e para o mundo
A perspectiva do extremista de direita Jair Bolsonaro se tornar presidente do Brasil sempre foi assustadora. Era um homem com histórico de denegrir mulheres, gays e minorias, que elogiava o autoritarismo e a tortura. O pesadelo se revelou ainda pior na realidade. Ele não apenas usou uma lei de segurança nacional da época da ditadura para perseguir os críticos e supervisionou o aumento do desmatamento na Amazônia em 12 anos, mas também permitiu que o coronavírus se alastrasse sem controle, atacando as restrições de movimento, máscaras e vacinas. Mais de 60.000 brasileiros morreram apenas em março. “Bolsonaro conseguiu transformar o Brasil em um gigantesco buraco do inferno”, tuitou recentemente o ex-presidente da Colômbia, Ernesto Samper. A disseminação da variante P1 mais contagiosa está colocando em perigo outros países.
Com uma pesquisa na semana passada mostrando 59% dos eleitores o rejeitando, Bolsonaro parece estar se preparando para um resultado desfavorável nas eleições do próximo ano. Na semana passada, ele demitiu o ministro da Defesa, um general aposentado e amigo de longa data que, no entanto, parece ter feito objeções às tentativas de Bolsonaro de usar as forças armadas como ferramenta política pessoal. Os comandantes do Exército, da Marinha e da Força Aérea também foram demitidos (relembre aqui) — supostamente quando estavam prestes a renunciar.
O gatilho imediato para as demissões foi a bomba no mês passado o retorno do ex-presidente de esquerda Luiz Inácio Lula da Silva depois que um juiz anulou suas condenações criminais — abrindo a porta para ele concorrer novamente no ano que vem. Os ataques injuriosos de Lula ao presidente são amplamente vistos como o prenúncio de uma nova candidatura ao poder de um político carismático que continua muito popular em alguns setores.
É possível que, inspirado por Donald Trump, o Sr. Bolsonaro pense em se agarrar ao poder pelo uso da força? Não. É provável. As Forças Armadas superaram a vontade do povo antes: o Brasil foi uma ditadura militar de 1964 a 1985. Quando a multidão invadiu o Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro, seu filho se opôs não ao ataque, mas à ineficiência: “Foi um movimento desorganizado . É uma pena ”, disse Eduardo Bolsonaro. “Se eles tivessem sido organizados, os invasores teriam se apoderado do Capitólio e feito demandas pré-estabelecidas. Eles teriam poder de fogo suficiente para garantir que nenhum deles morresse e para serem capazes de matar todos os policiais ou os congressistas que eles tanto desprezam ”.
Embora a saída dos chefes das forças armadas possa sugerir resistência a um plano de golpe, também permite ao presidente instalar aqueles que ele julga mais obedientes; os oficiais mais jovens sempre foram mais entusiasmados com Bolsonaro. Os políticos da oposição pressionam pelo impeachment, com um aviso: “Há uma tentativa aqui do presidente de arranjar um golpe — já está em andamento”.
Existe algum motivo para esperança. Ataques violentos do presidente e seus comparsas não conseguiram conter um ambiente vibrante de mídia, intimidar os tribunais ou silenciar os críticos da sociedade civil. Seu tratamento desastroso com a Covid-19 parece estar causando dúvidas entre a elite econômica que anteriormente o abraçava. Algumas partes dos militares aparentemente compartilham desse mal-estar. A possibilidade do retorno de Lula é suficiente para concentrar mentes da direita em encontrar um candidato alternativo, menos extremista do que Bolsonaro. Pode ser irritante ver aqueles que ajudaram sua ascensão se posicionarem como os guardiões da democracia, ao invés de seus próprios interesses. Mas sua partida seria bem-vinda, pelo bem do Brasil e do resto do planeta.
(Arte: Marcos Galinã – Coletivo Todos os Crimes do Presidente)
Às 19h desta terça (06), fui convidado e aceitei participar de uma live (confira aqui e aqui) do coletivo nacional “Todos os Crimes do Presidente”, que será exibida simultaneamente nas páginas do Facebook 100 Mil Lives, Ocupa Minc RJ e Ato Mundial STOP Bolsonaro. O tema do debate será o negaciosnismo da ciência em Campos de Goytacazes, encampado por bolsonaristas e que contribui ao colapso da rede de saúde pública, contratualizada e privada do município pela pandemia da Covid-19. Que até ontem havia tirado a vida de 869 campistas, segundo (confira aqui) as estatísticas do poder público municipal. Mas que, na verdade, chegam a 1.057 mortos pelo coronavírus em Campos, segundo o levantamento feito pela Folha da Manhã (confira aqui) nos cartórios.
A morte foi personificada em deuses e deusas nas religiões politeístas de várias civilizações. Era Anúbis para os egípcios, Tânatos para os gregos, Plutão para os romanos, Doon para os celtas, Kali para os hindus, Meng Po para os chineses, Shinigami para os japoneses, Hela para os nórdicos, Mictecacihuatl para os astecas, Supay para os incas, Anhangá para os tupis, Iku para os iorubás.
No Brasil, desde a campanha presidencial de 2018, a morte foi personificada no “deus acima de todos”. Que, do Deus do amor pregado por Jesus, não tem nem o branco dos olhos. É o mesmo deus dos templos que preferem contaminar seus fiéis em cultos presenciais, no auge da pandemia da Covid no país, a deixar de engordar os bolsos dos seus pregadores com o dinheiro do dízimo — moedas de prata de Judas, sem arrependimento pela traição.
Na negação de toda a vida e pregação do Cristo, cuja ressurreição hoje se celebra, esse novo deus da morte brasileiro encontra altar no Estado laico. E condena seus próprios crentes à morte pelo sufocamento lento, como era na crucificação, mas sem direito à família ao pé do calvário. Dita mandamentos do Palácio do Planalto e tem como apóstolo no Supremo Tribunal Federal (STF) o ministro Nunes Marques, aonde foi indicado por seu Messias.
Professor de direito constitucional da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e do Centro Universitário Autônomo do Brasil (UniBrasil), frisou o respeitado jurista Clèmerson Merlin Clève: “sua caneta não escreve com tinta, mas com sangue”.
Decisão errada do começo ao fim. Nunes Marques tem se mostrado um ministro fraquíssimo e suscetível aos apelos do patrão alucinado. Aqui, a sua caneta não escreveu com tinta, mas com sangue.
Em 14 de maio de 2019, em Dallas, no Texas, o presidente brasileiro Jair Bolsonaro bate continência à bandeira dos EUA (Foto: Reporudução de vídeo)
“As democracias dos Estados Unidos e da América Latina devem prestar atenção à medida que as eleições do próximo ano se aproximam — e deixar claro para Bolsonaro que uma interrupção da democracia seria intolerável. O presidente brasileiro já contribuiu muito para o agravamento da pandemia covid-19 em seu próprio país e, por meio da disseminação da variante brasileira, pelo mundo. Ele não deve ter permissão para destruir uma das maiores democracias do mundo também”. Foi a advertência feita ontem (02) ao presidente brasileiro no editorial de um dos principais jornais dos EUA, o Washington Post.
O “sinal amarelo” a Bolsonaro, que já havia sido acendido internamente no último dia 24, em pronunciamento do presidente da Câmara Federal, deputado Arthur Lira (PP/AL), é agora ecoado pelo mundo. O texto é intitulado “Brasil de Bolsonaro falhou em parar a Covid-19. Agora ele pode estar mirando a democracia”. Logo ao primeiro parágrafo do editorial, o jornal que já foi responsável pela queda de Richard Nixon da presidência dos EUA, em 1974, constatou sobre o Brasil de 47 anos depois:
— Graças à espantosa incompetência do presidente Jair Bolsonaro e de seu governo, apenas 2% dos brasileiros foram totalmente vacinados, e as medidas de bloqueio necessárias para retardar novas infecções, inclusive de uma variante virulenta que surgiu no Brasil, são virtualmente inexistentes.
Como o blog advertiu (relembre aqui) em 30 de março, a demissão do ministro da defesa, general Fernando de Azevedo e Silva, seguida da exoneração dos comandantes do Exército, general Edson Pujol; da Marinha, almirante Ilques Barbosa; e da Aeronáutica, brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez; provocou uma cisão entre a alta cúpula das Forças Armadas Brasileiras e Bolsonaro. E criou a maior crise militar da República desde a redemocratização do Brasil em 1985, ironicamente provocada agora por um militar da reserva no Palácio do Planalto. O editorial do Washington Post faz menção ao mesmo fato:
— Não foram dadas explicações, mas o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, era conhecido por tratar um presidente que se referiu às Forças Armadas no mês passado como “meus militares”. O Sr. Bolsonaro escolheu seu ex-chefe de gabinete (o general da reserva Walter Braga Netto) para substituir o Sr. Azevedo e Silva (…) “O claro plano de apoio do Bolsonaro”, escreveu o editor-chefe Brian Winter no Americas Quarterly, “é ter tantos homens armados do seu lado quanto possível no caso de um impeachment ou um resultado adverso na eleição de 2022”.
Em 10 de novembro, com a eleição de Joe Biden a presidente dos EUA confirmada oficialmente três dias antes, mas ainda não admitida por Bolsonaro, este disse sobre as ameaças do democrata de sanções comerciais ao Brasil por conta das queimadas criminosas da Amazônia: “Quando acabar a saliva, tem que ter pólvora”. E fez a bravata se dirigindo nominalmente ao seu então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Que, como Bolsonaro, tinha como “mito” Donald Trump, presidente dos EUA derrotado por Biden no colégio eleitoral e no voto popular do pleito de 3 de novembro.
Abandonado pela alta cúpula das Forças Armadas Brasileiras, com o “sinal amarelo” aceso pelos próprios aliados no Congresso, que pediram e tiveram a cabeça bitolada de Araújo, e com Trump defenestrado pelas urnas da Casa Branca, Bolsonaro deveria mesmo começar a estocar pólvora. E rezar para que ela surta mais efeito do que a sua cloroquina contra a Covid, caso se meta à besta de tentar levar suas bravatas golpistas à ação.
Aqui, na publicação original em inglês, e na sua tradução abaixo em português, confira o “sinal amarelo” aceso pelos EUA contra as ameaças de Bolsonaro à democracia do Brasil, no editorial do Washington Post:
Brasil de Bolsonaro falhou em parar a Covid-19. Agora ele pode estar mirando a democracia
O Brasil está vivendo um dos piores picos de infecções por Covid-19 que o mundo já viu. Na quarta-feira, ele registrou 3.869 mortes, um recorde que representou quase um terço de todas as mortes por coronavírus no mundo naquele dia. Não há fim para a onda à vista: graças à impressionante incompetência do presidente Jair Bolsonaro e seu governo, apenas 2% dos brasileiros foram totalmente vacinados e as medidas de bloqueio necessárias para retardar novas infecções, incluindo de uma variante virulenta que surgiu no Brasil, são praticamente inexistentes.
Em vez de lutar contra o coronavírus, Bolsonaro parece estar preparando as bases para outro desastre: um golpe político contra os legisladores e eleitores que poderiam removê-lo do cargo. Com alguns no Congresso ameaçando impeachment, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva emergindo como um potente adversário nas eleições do ano que vem, Bolsonaro despediu o ministro da Defesa nesta semana e os principais comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica saíram juntos das suas posições.
Não foram dadas explicações, mas o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, era conhecido por seu tratamento à distância de um presidente que se referiu às Forças Armadas no mês passado como “meus militares”. O Sr. Bolsonaro escolheu seu ex-chefe de gabinete para substituir o Sr. Azevedo e Silva e nomeou um policial próximo à sua família como o novo ministro da Justiça. As medidas foram suficientes para levar seis prováveis candidatos à presidência a emitir uma declaração conjunta alertando que “a democracia do Brasil está ameaçada”. “O claro plano de apoio do Bolsonaro”, escreveu o editor-chefe Brian Winter no Americas Quarterly, “é ter tantos homens armados do seu lado quanto possível no caso de um impeachment ou um resultado adverso na eleição de 2022”.
Embora as instituições democráticas do Brasil sejam relativamente fortes após mais de três décadas de consolidação, há motivos para preocupação. Bolsonaro expressou abertamente sua admiração pela ditadura militar que governou o país nas décadas de 1960 e 1970. Admirador de Donald Trump, ele adotou a tática do ex-presidente dos EUA de alertar sobre fraude nas próximas eleições e exigir que os sistemas de votação eletrônica sejam substituídos por cédulas de papel. Ele apoiou as alegações de Trump sobre fraude eleitoral, e seu filho, um legislador que visitou Washington na véspera de 6 de janeiro, expressou consternação porque o ataque ao Capitólio não teve sucesso.
O Congresso no Brasil pode propor o impeachment de Bolsonaro por sua péssima gestão da pandemia, incluindo minimizar sua gravidade, resistir às medidas de saúde pública e promover curas charlatanescas. Mas as democracias dos Estados Unidos e da América Latina devem prestar atenção à medida que as eleições do próximo ano se aproximam — e deixar claro para Bolsonaro que uma interrupção da democracia seria intolerável. O presidente brasileiro já contribuiu muito para o agravamento da pandemia covid-19 em seu próprio país e, por meio da disseminação da variante brasileira, pelo mundo. Ele não deve ter permissão para destruir uma das maiores democracias do mundo também.
“Cristo de São João da Cruz” (1951), óleo sobre tela de Salvador Dalí, Museu e Galeria de Arte de Kelvingrove, em Glasgow, Escócia (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Como Cristo na cruz, mas sem domingo de ressurreição
Ontem foi a sexta-feira santa. Dia em que a cristandade lembrou da crucificação de Cristo em Jerusalém. Lá, os judeus como ele comemoravam o Pessach (a Páscoa, ou “Passagem” em hebraico), quando quase 1.500 anos antes seu povo saíra do cativeiro no Egito para a Terra Prometida. Ao contrário do que talvez pense a maioria, a morte por crucificação não se dava por hemorragia nos pulsos e pés com que a vítima da pena capital romana era pregada. Todos os crucificados morriam de maneira muito mais sôfrega. Eram lentamente sufocados pelo peso do próprio corpo, que empurrava o diafragma contra os pulmões. É a mesma sensação que tiveram até morrer os mais de 325 mil dizimados pela Covid-19 no Brasil, entre eles 863 campistas, que segundo levantamento em cartório (confira aqui) chegam a 1.057.
Enquanto 49 outros campistas, doentes e lutando pelas próprias vidas, aguardam sem sequer terem direito a um leito de hospital, todos superlotados por pacientes da pandemia, há quem defenda o fim total ou parcial das restrições ao comércio não essencial, assim como à circulação de pessoas. Com as quais circulam o vírus, tornando-o ainda mais mortífero em variantes como o P-1 de Manaus e o P-2 do Rio, já presentes em todas as regiões do Brasil transformado em principal epicentro mundial da doença. Alguns buscam ignorar os fatos pela sobrevivência dos seus negócios e empregos, o que seria legítimo na velha luta de classes, se não fosse contra a preservação da vida humana. Na paródia a quem morreu mergulhado na mesma agonia: quem não tiver perdido um parente, amigo ou conhecido para a Covid, que bata o martelo nos pregos aos pés e pulsos dos que estarão crucificando.
O assunto é sério demais para ser tratado por leigos. Com a mesma pretensão dos 212 milhões de brasileiros que se tornam “especialistas” em futebol de quatro em quatro anos, durante Copas do Mundo. Tampouco pode ser vulgarizado em mais um Fla-Flu apaixonado e acéfalo das redes sociais. Quem deve falar são os especialistas, mulheres e homens da ciência, ao qual o momento de fé deve ser dirigido. Tanto pela razão quanto pela compaixão ao semelhante, que um rabi da Galileia ensinou a amar como a nós mesmos, maior virtude do cristianismo. Foi àqueles que afunilaram anos de estudo e prática no combate à maior pandemia que a humanidade enfrenta nos últimos 100 anos, que a Folha recorreu para tentar alcançar a real dimensão daquilo que todos enfrentamos.
O programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, ouviu na terça, dia 30 (confira aqui), os médicos Patrícia Meirelles e Vitor Carneiro, ela pneumologista e ele intensivista, no mesmo dia em que ambos completavam um ano de dedicação para salvar vidas no Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC) de Campos. Na quarta, dia 31 (confira aqui), o convidado foi o biólogo Renato DaMatta, cientista e professor da Uenf, mais importante universidade do município e da região. Já na quinta, dia 1º (confira aqui), foi a vez da médica infectologista Andreya Moreira, que comandou o combate à pandemia em Campos em 2020, como chefe da Vigilância em Saúde do governo Rafael Diniz (Cidadania). E quem ainda alguma dúvida tiver sobre com o que todos estamos lidando, que se vacine em seus testemunhos:
Patrícia Meireles, médica pneumologista
— A gente pede consciência à população. A gente poderia estar completando o ano no CCC em comemoração, mas infelizmente, neste dia, a gente abre o nosso serviço em superlotação. Pela primeira vez, a gente está além dos 100% da ocupação, temos pacientes em todos os lugares possíveis, à espera de uma vaga regular. Este é o nosso cenário atual. O início da vacinação e o fato de essa ser uma população que realmente respeita o isolamento, fez com que os idosos tenham hoje se tornado a exceção entre os internados em leitos clínicos e de UTI do CCC. Então essas são provas da eficiência da vacinação, do distanciamento. E isso trouxe essa faixa etária para baixo — alertou a pneumologista Patrícia.
Vitor Carneiro, médico intensivista
— Está difícil, a gente tem que usar várias alternativas às medicações usuais, não só para entubar o paciente, mas para manter ele entubado, manter ele sedado no respirador. Isso dificulta o manejo do paciente, prejudica o tratamento. Mas isso é uma falta nacional, não só no CCC; os hospitais particulares também estão sofrendo isso. A gente está sempre usando alternativas para manter esse paciente sedado, em ventilação mecânica. É uma situação dificílima para a gente. A gente pede cotação dessas medicações e não tem nem retorno, as empresas não têm como fornecer. A gente vai usando outras drogas, associando e tentando suprir essa necessidade — desabafou o intensivista Vitor.
Renato DaMatta, biólogo da Uenf
— As variantes são extremamente preocupantes e a vacinação lenta atrapalha o processo. Por isso o Brasil é hoje o epicentro da doença no mundo. Porque aqui é onde tem mais gente morrendo e mais gente com o vírus. Quando você tem muito vírus em muita gente, a probabilidade de novas variantes aumenta. Foi isso que aconteceu com o P-1, por exemplo. Ele apareceu em Manaus e tem uma grande capacidade de infecção. Quanto mais rápido você vacina, menos variantes você vai ter. Se você demora, o vírus vai infectar as pessoas durante um longo período. A chance de surgirem novas variantes é enorme. Inclusive, a variante pode ficar tão diferente que você tem que fazer uma nova vacina. A notícia boa é que, até agora, as vacinas estão funcionando contra as novas variantes — explicou o cientista Renato.
Andreya Moreira, médica infectologista
— Com muita tristeza, a gente está vendo esse momento. Colapsou não foi só em Campos, estamos vendo isso no Brasil inteiro. Já era previsto. Lá em dezembro, a gente sabia que as festas de fim de ano iriam ser bastante importantes no número de pacientes que seriam infectados, entre os que precisariam de tratamento intensivo (UTI) e clínico. Mas as pessoas ignoraram isso literalmente. E estamos pagando o preço; um preço alto nas vidas ceifadas. E, apesar disso, as pessoas mantêm a não restrição. Isso é um assassinato! O que vai ser mais preciso para essas pessoas usarem a máscara, fazerem o distanciamento social e evitarem aglomeração? Quantas vidas a mais? — indagou a infectologista Andreya.
Com base em estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Andreya também lembrou que a projeção, mesmo com a rede de saúde pública, contratualizada e privada de Campos já colapsadas, é de que os casos continuem aumentando no país e na cidade até a primeira quinzena de abril. Nesta segunda (05) o gabinete de crise do governo Wladimir Garotinho (PSD), que tem tido a coragem de se pautar pela ciência para salvar a vida dos seus governados, decide se mantém o município na Fase Vermelha.
Com a lentidão das vacinas no Brasil do Messias, se o isolamento não for mantido e respeitado, como o uso correto das máscaras e higienização das mãos, tudo indica que o próximo sistema de Campos a colapsar será o funerário. Certamente alguém que você e eu conhecemos, talvez bem próximo, talvez nós mesmos, estejamos em uma das duas filas por vaga. Ou de leito em hospital, ou de caixão e jazigo. Nestes, após sofrer como Cristo na cruz. Mas sem a chance de despedir da família ao pé do calvário. Nem domingo de ressurreição.
Na bipolaridade política em que o Brasil se divide desde 2014, com acirramento em 2018, é possível o diálogo civilizado entre direita e esquerda? Após 21 anos de ditadura militar (1964/1985), para que a nossa democracia jovem de 36 anos sobreviva, é necessário que sim. Ainda mais jovens, os universitários Eraldo Duarte, que cursa Ciências Sociais na UFF-Campos, e Gilberto Gomes, estudante de Administração Pública na Uenf e secretário de Comunicação do PT de Campos, provaram que é possível. Se, ao criarem a democracia cinco séculos antes de Cristo, os gregos antigos expunham suas posições e mediavam suas diferenças na ágora, esta teve como palco na manhã de ontem o Folha no Ar, da Folha FM 98,3. No programa da rádio mais ouvida da região, o socialista Gilberto e o conservador Eraldo falaram de Lula e Bolsonaro, de Forças Armadas e perigo de golpe, de pandemia da Covid-19 e sua politização ao custo da vida de centenas de milhares de brasileiros. Em nome da democracia, o bolsonarista e o lulopetista falaram até da possibilidade de convergência. Como grande poeta da música, a despeito das suas posições políticas, Chico Buarque saudaria: “Evoé, jovens à vista”!
Socialista Gilberto Gomes e conservador Eraldo Duarte (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Entrevista de Lula a Reinaldo Azevedo
Eraldo Duarte – Vou ter que confessar que não assisti à entrevista, só fiquei sabendo ontem à noite. O Lula é um (pré-)candidato, já foi presidente, é um presidenciável de peso. O encontro dele com um jornalista que já foi muito crítico ao PT, escreveu livros, cunhou o termo “petralha”, como o Reinaldo Azevedo, que até pouco tempo se colocava no espectro político conservador brasileiro, tem a capacidade de gerar interesse, justamente por concentrar indivíduos tão antagônicos; apesar de um ser político e outro, jornalista. Claro que eu quero assistir. De fato, Lula é muito carismático, consegue ter essa comunicação até muito melhor que o Bolsonaro, no sentido de trazer simpatia.
Gilberto Gomes – Eu pude acompanhar quase toda a entrevista. Ela mostrou a disposição de Lula de dialogar de maneira muito franca e honesta com as pretensões do PT nestas eleições. Como o Eraldo destacou, o fato de ser uma entrevista que reúne duas figuras antagônicas tende a chamar a atenção. E o Reinaldo Azevedo tem tido um papel muito importante nos últimos anos em relação à Lava Jato. Ele foi um dos primeiros jornalistas a questionar os métodos da operação, antes mesmo de a gente ter acesso às mensagens que foram reveladas o hacker de Araraquara (Walter Delgatti) e pelo The Intercept, com (o jornalista) Glenn Greenwald. Destacou o fato do Reinaldo Azevedo de fato ter se demonstrado um jornalista ético e conseguiu conduzir uma entrevista em que Lula mandou vários recados: para os empresários, para o centro, rebateu o argumento da polarização, em que tentam colocar em um extremo que ele nunca ocupou.
Bolsonaro e as Forças Armadas
Gilberto – É sem dúvida uma das maiores crises militares dos últimos tempos. Ela destaca que Bolsonaro está disposto, sim, a tensionar a atuação das Forças Armadas nos mais diversos contextos. A gente não tem muita clareza, mas diversos analistas políticos indicam que pode ser mais uma movimentação que ameace a democracia, pode ser uma tomada de posição de Bolsonaro que ameace o lockdown nos estados que estão adotando medidas de restrição. A figura de Bolsonaro não é nem quista por diversos setores das Forças Armadas, pelo alto generalato, que são figuras muito mais intelectuais, que têm alta formação e não estão dispostos a tensionar a democracia, a adotar a posição de golpe neste momento. Eu acredito que eles têm muita confiança na posição do Mourão (PRTB, general da reserva) como vice. Sem poder sobre as Forças Armadas, eu creio, a gente teve agora o caso da Bahia (o PM Wesley Góes teve um aparente surto em Salvador, foi baleado e morreu no último domingo, após atirar contra colegas), as forças das Polícias Militares tendem a ser usadas como massa de manobra em uma eventual crise mais intensa do governo Bolsonaro, inclusive até numa derrota em 2022.
Eraldo – Os militares têm uma centralidade no Brasil que vem desde o fim da Monarquia, que se deu por um golpe do Exército, que logo instalou a República da Espada (1889/1894), com os marechais Deodoro (da Fonseca) e Floriano Peixoto. De lá para cá, os militares sempre foram o fiel da balança na República, como já estavam no final do Império. A História do Brasil é uma história de golpes militares, ou de golpes apoiados pelos militares. Acho isso muito ruim, porque os militares são uma corporação que tem os seus interesses também. Eles exercem pressão sindical e, como não podem fazer greve, eles de algum modo vão entrar na política. O presidente Bolsonaro fez esses acenos aos militares, que o aceitaram e embarcaram com uma série de generais no governo. A saída dos comandantes (das Forças Armadas) é algo ruim de fato, porque passa que houve um desgaste entre o presidente e, em especial, o general (Edson) Pujol (comandante do Exército exonerado junto aos da Marinha, almirante Ilques Barbosa; e da Aeronáutica, brigadeiro Antonio Carlos Moretti Bermudez). É um movimento que acontece no Banco do Brasil também (o presidente do seu Conselho, Hélio Magalhães, apresentou sua carta de demissão na última quinta, por não concordar com as ingerências de Governo Federal na instituição). O presidente Bolsonaro tem essa característica de ficar gerenciando as instituições, tanto o Exército, quanto as empresas de capital misto, Banco do Brasil, Petrobras, que causam um desconforto em suas cúpulas. Eu vejo isso mais como um problema da pessoa do presidente, de querer gerenciar as pautas, e se o indivíduo não o agrada muito, ele tira; do que como um risco à democracia. Bolsonaro não tem consenso para um golpe entre as várias camadas das Forças Armadas.
Politização da pandemia no Brasil
Eraldo – De fato, a pandemia foi completamente politizada. E aí, tanto por fatores que independem da ação do presidente da República, quanto pelas ações dele. Bolsonaro chamou muito para si a responsabilidade em algumas falas sobre a questão da vacina, ao chamar de “gripezinha”, na questão da aglomeração, ao falar do uso de máscaras. E como ele é o chefe da União, ele acaba politizando, porque ele é um agente político. E essa politização excessiva acaba escondendo a letalidade do vírus, vidas humanas estão sendo perdidas. E acaba colocando o presidente como principal responsável pela questão, pelas falhas, pelas mortes. Enquanto a gente sabe que há uma pactuação entre os entes federativos, governos estaduais e municipais. As medidas de contenção e relaxamento foram feitas na cidade, tanto pelo (ex-)prefeito Rafael Diniz (Cidadania), quanto pelo atual prefeito Wladimir Garotinho (PSD). Houve em Campos a tentativa de se fazer um Hospital de Campanha (pelo governador Wilson Witzel, PSC, que nunca foi concluído ou entregue, em meio a denúncias de corrupção que levaram ao seu afastamento), que o Tribunal de Contas da União (TCU) vai investigar. Isso aí é um ônus que os outros governantes também têm. Mas pelo presidente Bolsonaro, de maneira desastrada, ficar dando declarações todo o dia, só sai a cara do bendito como o principal responsável. Eu acho que o presidente deveria deixar o ministro da Saúde (o médico cardiologista Marcelo Queiroga, quarto a ocupar o cargo durante a pandemia) falar mais e aparecer mais.
Gilberto – Bolsonaro não somente politizou por acaso, ele politizou de maneira consciente no início da pandemia, vendo ali uma possibilidade clara de afastar diversas crises do governo. Agora, isso tem um custo para a sociedade gigantesco. Quando ele relativiza o uso da máscara, quando ele vai nadar na praia em plena pandemia, aglomerando centenas de pessoas, ele está legitimando as pessoas que querem fazer o mesmo. Quando o Eraldo fala que ele (Bolsonaro) traz para si, não é por acaso. E aí a gente vai pegar desde o começo, quando ele falou que era uma “gripezinha”. E se não fosse o campo progressista, da esquerda, atuando principalmente no Congresso, a situação da pandemia estaria muito pior. A gente não teria um auxílio emergencial no valor de R$ 600 (na verdade, o Governo Federal propôs incialmente em R$ 200, o Congresso aumentou para R$ 500 e Bolsonaro subiu para R$ 600), que atenuou em muito a pandemia e conseguiu deixar algumas pessoas em casa. A gente não teria vacinas se não fosse a pressão do Congresso e das forças de oposição; a gente não teria tido o lockdown, muito provavelmente, porque ele era rechaçado desde o início. Tem a politização do discurso de medicamentos sem comprovação científica, que não só eram, como ainda são estimulados por forças políticas ligadas ao Bolsonaro. O fato do Bolsonaro ser colocado como figura central de todo esse caos que a gente está vivendo, não é só pelo que ele fala, mas é porque o bolsonarismo representa isso. E é representado por diversas outras figuras políticas, ligadas ao Bolsonaro e legitimadas pelo Bolsonaro. A gente tem que observar como essas forças políticas estão politizando desde o início o lockdown, estão politizando os hospitais de campanha que o Eraldo citou. Antes mesmo dos escândalos de corrupção aparecerem sobre os hospitais de campanha, já havia manifestações aqui em Campos pedindo o fechamento do Hospital de Campanha, dizendo que aquilo ali era desperdício de dinheiro. E o Hospital de Campanha estaria hoje ajudando muito a nossa cidade. A própria politização do lockdown é feita por grupos bolsonaristas, dizendo que ele prejudica o trabalhador, que ele vai passar fome, vinda de um grupo que jamais se preocupou com nenhuma política social.
Convergência possível entre direita e esquerda
Gilberto – A direita democrática existe no país; eu não tenho dúvida disso. Que pode, sim, convergir com a defesa da democracia. Agora, essa direita precisa estar disposta a romper com o que nós temos aí hoje. Precisa romper com o negacionismo, precisa romper com o bolsonarismo que ameaça muitas vezes a democracia. Pode não fazer isso de maneira objetiva, mas faz em várias falas que colocam a democracia em xeque. A própria família do presidente, ameaçando dissolução do STF, ameaçando fechar Congresso, AI-5. Como eu disse, não é só Bolsonaro, mas é o bolsonarismo com um todo. Essa direita precisa estar disposta a romper com isso, para que possa haver um consenso na defesa da democracia. Nós temos um inimigo em comum, que não é só a figura do Bolsonaro, mas é um projeto político que a gente se opõe dentro da democracia. E a gente tenta utilizar todas as ferramentas possíveis para isso. Eu acho que sim: é possível a direita e a esquerda convergirem na defesa de interesses democráticos para preservar o país, que tem enfrentado tantas crises, como jamais o Brasil viveu desde a redemocratização (em 1985, após 21 anos de ditadura militar).
Eraldo – Sempre que eu vejo para essa questão de direita e esquerda, eu procuro olhar com aquela perspectiva que o Karl Popper (filósofo austro-britânico) coloca no livro “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”: que há dois projetos, tanto de uma sociedade aberta, quanto de uma sociedade fechada. E há franjas na esquerda e há franjas na direita que vão defender um modelo de sociedade fechada, totalitária, autoritária. Como vai ter também uma esquerda e uma direita que vão apoiar a liberdade, a pluralidade. Quando elas apoiam a sociedade aberta, que culmina com a própria questão da democracia, eu imagino que possam, sim, convergir para um projeto mais transparente, no sentido de aparar as arestas do governo Bolsonaro. Isso surge muito, por exemplo, no Centrão, que vem tentando domar essas atitudes que eu acho prejudicais em um certo sentido retórico à democracia. Até pela maneira como ele se estrutura, o Centrão é um defensor da democracia. Não há como ter um Centrão antidemocrático, porque em um regime autoritário não haveria Centrão. Grupos que tem compromisso com uma sociedade aberta, eles devem se unir quando há uma ameaça ao regime democrático. Alguns indivíduos podem defender um misto entre uma sociedade aberta e uma sociedade fechada. Bolsonaro, eu acho que de certa maneira ela pode ter uma perspectiva um pouco mais autoritária. Não acho que ele seja um antidemocrata, mas acho que ele tem uma perspectiva que causa um pouco de estranhamento nos principais players da democracia. Eu às vezes faço críticas, mas espero o Bolsonaro melhore, afinal eu votei nele e provavelmente votarei na próxima eleição. São críticas de alguém que deseja que o presidente se enquadre melhor nas regras do jogo e continue no projeto que é uma cabeça de ponte para uma perspectiva mais tradicional e conservadora do Brasil.
Confira abaixo, em três blocos, os vídeos do debate sobre direita e esquerda realizado no Folha no Ar, da Folha FM 98,3, entre os universitários Eraldo Duarte e Gilberto Gomes, no início da manhã de sexta (02):
Médica infectologista Andreya Moreira e o Boulevard de Campos ontem ainda com aglomeração (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
“Com muita tristeza, a gente está vendo esse momento. Colapsou não foi só em Campos, estamos vendo isso no Brasil inteiro. Já era previsto. Lá em dezembro, a gente sabia que as festas de fim de ano iriam ser bastante importantes no número de pacientes que seriam infectados, entre os que precisariam de tratamento intensivo (UTI) de clínico. Mas as pessoas ignoraram isso literalmente. E estamos pagando o preço; um preço alto nas vidas ceifadas. E, apesar disso, as pessoas mantêm a não restrição. Isso é um assassinato!”. Sem meias palavras, a despeito do tom sempre polido, foi assim que a médica infectologista Andreya Moreira classificou na manhã de hoje o desdém da população às medidas de isolamento social. Que até ontem tinha tirado 843 vidas humanas por Covid só em Campos, entre os mais de 322 mil óbitos da pandemia no país, com o recorde assustador de 66.868 brasileiros mortos no mês de março. Chefe da Vigilância em Saúde no governo Rafael Diniz (Cidadania), quando o Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC) de Campos hoje colapsado (confira aqui) foi aberto em 30 de março de 2020, a médica foi a entrevistada do Folha no Ar, na Folha FM 98,3.
— Aqui em Campos, especificamente, não tem o uso de máscara de modo 100%. As pessoas acham que as restrições não são necessárias. Até a doença chegar a um ente querido, a uma pessoa próxima, que se torna acometida, que precisa ficar internada e precisa de uma vaga na UTI. O resultado é este momento de caos, de colapso, em que as pessoas precisam entender o processo. A gente está falando nisso de entendimento há um ano. O que vai ser mais preciso para essas pessoas usarem a máscara, fazerem o distanciamento social e evitarem aglomeração? Quantas vidas a mais? — indagou Andreya à população campista, na rádio mais ouvida da cidade.
A infectologista, com base em estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), projetou pelo menos mais duas semanas muito difíceis da pandemia em Campos e no Brasil, antes do número de infecções e mortes parar de subir para alcançar o chamado platô e depois começar a decair, provavelmente só na segunda quinzena de abril. E, para tentar acelerar esse processo de contenção e queda, fez duas advertências. A primeira, que o lockdown apenas por uma semana não adianta. A segundo é que não faria sentido se fazerem exceções, abrindo só um ou outro setor, como reivindicam músicos (confira aqui), negacionistas bolsonaristas (confira aqui), professores de educação física (confira aqui) e o comércio (confira aqui) da cidade:
— Segundo uma análise da Fiocruz, da semana passada, eles falaram que as próximas três semanas iriam ser extremamente difíceis. E nós estamos na primeira dessas três semanas muito difíceis. Depois delas, provavelmente alcançaríamos o platô, para daí começar a cair. Até abril, a gente vai sofrer bastante, com certeza. Os primeiros 15 dias de abril serão de extremo sofrimento, de pessoas na fila por leito, de pessoas morrendo. E depois isso vai cair. As pessoas precisam entender que lockdown de cinco dias não adianta nada. Você precisa manter pelo menos 10 a 14 dias para ter uma resposta. E não é uma resposta imediata, é um pouco mais para frente. É extremamente necessário entender que as pessoas precisam se isolar, não podem se aglomerar. E não tem como fazer um lockdown restrito: “Ah, eu vou abrir tal setor, eu vou deixar o outro fechado”. A gente tem que fazer o completo.
Andreya citou como exemplo a experiência do primeiro lockdown em Campos por conta da Covid, entre 18 de maio (confira aqui) e 1º de junho (confira aqui), decretado quando comandava o enfrentamento à pandemia no município, no governo Rafael. E o fez eximindo o governo Wladimir Garotinho (PSD) de qualquer culpa pelo agravamento ainda maior, agora, da crise sanitária. A grande culpada, para a infectologista, é a própria população:
— No outro governo, a gente chegou a fazer um lockdown. E a gente chegou a alcançar no início 70% de adesão, com pessoas dentro de casa, com o trânsito diminuído. Mas em alguns dias isso já caiu para 50%, depois para 40%. Então você vê que a população não cooperou. O pouco que eles cooperaram, já teve uma sinalização muito positiva nos leitos. E a situação é ainda mais extrema agora. Há a necessidade de as pessoas ficarem em casa, não se aglomerarem. Abril vai ser muito difícil. A gente já vinha conversando sobre uma piora desde as eleições (de novembro). Daí tiveram as festas de final de ano de dezembro e depois, mesmo sem festa, o carnaval. Não culpo o governo (Wladimir), não tem culpa a Prefeitura, mas a população.
Mas se, mesmo pertencendo a um governo municipal de oposição, Andreya isentou a atual gestão municipal de Campos pelo quadro que classificou como “caos”, ela não fez o mesmo com o governo federal. Para ela, o maior culpado da situação calamitosa do Brasil na pandemia, do qual é hoje o principal epicentro mundial, é a desorganização da administração Jair Bolsonaro (sem partido). Tanto no desmonte de uma tradição de imunização que sempre foi referência para o mundo, como pelo nosso vergonhoso lugar na fila de trás da vacinação em relação a vários outros países, inclusive vizinhos da América do Sul:
— O governo (Bolsonaro) errou muito no programa de vacinação. A gente já era para estar, há mais de três meses, desde o início do ano, vacinando. Isso foi um erro, um erro grave. E por conta disso nós estamos pagando a consequência. O ministério da Saúde sempre foi uma bagunça em relação às estratégias de vacinação. E a gente sempre teve (antes do governo Bolsonaro) um programa de imunização entre os melhores do mundo. E isso foi atrapalhado por jogo de interesses políticos; atrapalhou muito! Porque as vacinas não chegavam e não chegam ainda. A cada momento era uma “aflição da Anvisa para liberar imunizante, que já estavam liberados anteriormente, e se sabia disso, nos Estados Unidos e na Europa. Até ontem, na percentagem imunização total das populações dos países, no 1º lugar está Israel, no 2º lugar o Chile (vizinho sul-americano do Brasil, que comprou boa parte das 70 milhões de doses de vacinas da Pfizer recusadas por Bolsonaro em agosto de 2020) e, no 3º lugar, os Estados Unidos. O Brasil está no 16º lugar, com apenas 2% da população totalmente imunizada. Isso não existe! A gente está em um país que não deu bola para a vacina.
Confira abaixo, em três blocos, os vídeos da entrevista da médica infectologista Andreya Moreira ao Folha no Ar na manhã de hoje:
A partir das 7h da manhã desta sexta (02), quem fechará a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, são dois jovens universitários da cidade, que habitam em campos políticos em extremos opostos: o socialista Gilberto Gomes, estudante de Administração Pública na Uenf e secretário de Comunicação do PT de Campos; e o conservador e liberal Eraldo Duarte, estudante de Ciências Sociais na UFF.
Eraldo e Gilberto analisarão a politização da pandemia da Covid-19 no Brasil e a necessidade de diálogo na bipolaridade que cindiu a política nacional desde 2014, com acirramento a partir de 2018. Eles também darão seus testemunhos críticos do que leva um jovem a apoiar ou criticar o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que lideram as pesquisas presidenciais a 18 meses das urnas de 2022. E falarão da direita e da esquerda dentro do meio universitário de Campos, quem ambos integram.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.