Ibope e Datafolha: se Lula puder ser candidato e se não puder

Lula e Bolsonaro
Analisada por lideranças locais de cada partido dos principais nomes à corrida presidencial de 2018, a pesquisa Ibope (aqui), feita entre 18 e 22 de outubro, mostrou resultados parecidos com a consulta nacional anterior, realizada pelo Datafolha (aqui) entre 27 e 28 de setembro. Em ambas, se a eleição fosse hoje, iriam ao segundo turno os pré-candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC, de mudança ao PEN, que vai mudar o nome para Patriota). Entre as pesquisas, a vantagem de Lula sobre Bolsonaro, que já era grande no Datafolha (36% a 16%, 20 pontos percentuais), aumentou no Ibope (35% a 13%, 22 pontos).
Jovens à direita
A ascensão de Bolsonaro nas redes sociais (aqui) impressiona qualquer observador. Mas ela é fruto também da pouca idade da base do seu eleitorado. Se o Datafolha a tinha revelado (aqui) na faixa entre 16 a 33 anos, o Ibope mostrou lâmina mais afiada no corte dessa fatia: a maioria dos eleitores do ex-capitão do Exército tem (aqui) entre 16 e 24 anos. A guinada à direita é um fenômeno mundial. Foi registrado em países referência ao Ocidente, como os EUA de Donald Trump e mesmo a Alemanha, cujo parlamento voltou (aqui) a ecoar o discurso de xenofobia nacionalista pela primeira vez em 72 anos, desde o final da II Guerra Mundial (1939/45).
A assertiva
Um dos entrevistados pela Folha, o experiente vereador Marcos Bacellar (PDT) lamentou o perfil dessa nova direita: “Bolsonaro, infelizmente, está bem na juventude”. Mas isto se deve também a razões pragmáticas, como a desidratação da pré-candidatura de João Doria (PSDB). Depois que o prefeito paulistano cometeu a estupidez de associar (aqui) sua imagem à de Michel Temer (PMDB), presidente com apenas 3% de aprovação popular, seus eleitores e grupos de apoio, como o Movimento Brasil Livre (MBL), migraram ainda mais à direita. Esses jovens, que só viveram sob governos lulopetistas, parecem firmes na sua assertiva: “nunca mais!”.
Pragmatismo
Lula, por sua vez, demosntra ter considerável parte do eleitorado (cerca de 35%) imune a qualquer denúncia ou condenação da Lava Jato. Em sua maioria, são pessoas de meia idade, de menor renda e educação escolar (aqui), que relativizam a corrupção. Mas se mostram mais pragmáticos, do que ideológicos, na opção de tentar retomar os tempos de prosperidade econômica dos dois governos do líder petista. Antes de eleger Dilma Rousseff sua sucessora, o ex-presidente entregou o Brasil em 2010 com uma taxa de crescimento (aqui) do Produto Interno Bruto (PIB) de 7,5%, maior em 24 anos. Para se ter uma ideia, em 2016, o PIB da China cresceu 6,9%.
Nó górdio
Pragmaticamente, ninguém parece discutir a pergunta e a resposta de outro vereador de Campos, o presidente da Câmara e ex-petista Marcão Gomes (Rede): “Lula será ou não candidato? Isso muda totalmente o tabuleiro do jogo”. Condenado (aqui) pelo juiz federal Sérgio Moro, em julho, a nove anos e meio de prisão pelos crimes corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o ex-presidente espera o julgamento do seu recurso no Tribunal Federal Regional da 4ª Região (TRF-4), que deu previsão de fazê-lo (aqui) até agosto. Presidente do TRF-4, o desembargador Carlos Eduardo Thompson já declarou (aqui), no entanto, que a sentença de Moro “é tecnicamente irrepreensível”.
Desafio (I)
Se puder ser candidato, Lula terá outro desafio: mais conhecido do que qualquer outro pré-candidato é ou será, será capaz ir além dos 35% de intenções de voto, na margem de erro das pesquisas? Para isso, sobretudo na migração ao segundo turno, é considerada fundamental a análise da rejeição. O quesito não foi divulgado na consulta Ibope. Mas na Datafolha, um percentual salta aos olhos (aqui): 54% dos brasileiros acham que o ex-presidente merece ser preso. Como lembrou o secretário de Agricultura Nildo Cardoso (DEM): “é rejeição semelhante à que fez Garotinho perder a governador, em 2014, e depois a Prefeitura de Campos, em 2016”.
Desafio (II)
Se Lula não puder ser candidato, numa decisão colegiada do TRF-4 que impeça sua candidatura pela Lei do Ficha Limpa, o desafio pode ser ainda mais difícil: cumprida a previsão da decisão em agosto, uma alternativa petista se tornará conhecida nacionalmente em pouco mais de um mês de campanha, até as urnas de 7 de outubro? Como lembrou o presidente do PT em Campos, Rafael Crespo, mesmo se seu líder puder concorrer, o partido pretende se desdobrar também na eleição ao Congresso Nacional. Se Lula saísse do páreo presidencial a um mês do pleito legislativo, a catástrofe para a legenda seria muito maior.
Publicado hoje (31) na Folha da Manhã



















Primeiro caso: Pietro Aretino. Ele viveu na primeira metade do século XVI, quando o renascimento já havia mudado a concepção de arte. Aretino era escritor libertino. Entre outros escritos, compôs “Sonetos luxuriosos” (São Paulo: Companhia das Letras, 2011). Dele, transcrevo apenas um soneto, o de número 13, escolhido a esmo: “Chega de briga, sus, tudo se ajeita./Reparti a iguaria saborosa:/Um põe no cu, na cona o outro se entrosa,/Dando princípio à amorosa empreita.//Atenda cada qual ao que deleita,/Foder bem, usar coisa tão gostosa,/Porque no fim em cona ou cu se goza/Pela mesma dulcíssima receita.//Nisto fazei do modo como alego;/Em rixas nem questões vos retardeis,/Cada qual no buraco meta o prego.//Se na culatra os dois vos comprazeis,/Por foder-se ali sério (não o nego),/Noutra foda o buraco trocareis.//Mas o bom Irmão, eis/Que deixa o oval e no redondo a fundo/Entra só para dominar o mundo.”
Segundo caso: Marquês de Sade. Imaginemos que quatro homens ricos e libertinos promovam uma orgia trancados num castelo por quatro meses com quarenta jovens de ambos os sexos forçados à prisão. Quatro cafetinas são recrutadas para narrar suas aventuras sexuais e para inspirar constrangimentos, estupros, abusos e assassinatos. Em síntese, foi o que escreveu o Marquês de Sade em “120 dias de Sodoma”, quando estava preso na Bastilha em 1785. Sade é um teste para os progressistas, pois que eles condenam a censura, por um lado, o estupro e violência, por outro. Pasolini levou para o cinema, o polêmico livro de Sade, mas dando-lhe uma conotação fascista. Seriam fascistas os quatro homens que promovem a orgia. Assim, Pasolini estaria adotando uma postura crítica. De qualquer modo, a polêmica causada pelo livro e pelo filme não foi digerida.
Sexto caso: Semana de Arte Moderna. Em 1922, jovens artistas resolveram se manifestar publicamente em São Paulo, por três dias de uma semana de fevereiro. Eles queriam mostrar ao público sua produção artística na literatura, música e artes plásticas. A ruptura proposta na Semana de Arte Moderna gerou vaias. Durante um pronunciamento, Mário de Andrade, um dos artistas, voltou-se para o público dizendo que queria vaias e batatas. Alguns nomes da Semana se tornaram consagrados artistas e intelectuais. Outros não tiveram o mesmo futuro.




