“A Prefeitura de Campos deve hoje mais de R$ 1 bilhão”

“O candidato a prefeito de oposição que conseguir 50 mil votos, está no segundo turno”. A previsão é de um desses pré-candidatos, vereador Nildo Cardoso (PSD), líder da oposição na Câmara Municipal. Ele acredita que a decadência eleitoral do grupo governista começou com a derrota de Anthony Garotinho (PR) ainda no primeiro turno da eleição a governador em 2014. E se ele perdeu lá com um orçamento “ainda gordo de royalties”, agora teria mais dificuldades, com uma dívida, segundo Nildo, de mais de R$ 1 bilhão nos cofres da Prefeitura.

 

Nildo Cardoso (foto de Rodrigo Silveira - Folha da Manhã)
Nildo Cardoso (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Henriques com Garotinho (aqui) Se for verdade, é o caminho que ele escolheu depois de não ter sido reeleito (deputado estadual, em 2014). Ele já foi e voltou tantas vezes, que acho que nem sabe mais direito. Mas é direito dele escolher o caminho que achar melhor.  A decisão é dele. A certeza é que se Roberto Henriques voltar mais uma vez ao grupo de Garotinho, está fora do PSD. Ou por iniciativa dele, ou do partido. Falo como presidente do PSD em Campos.

Governo Rosinha – O pior que vi em Campos em toda a minha vida. Falta transparência, priorizar recursos públicos. Quer exemplo? Em 2006, seu governo previu R$ 14 milhões à Agricultura. Agora, em 2016, uma década depois, apenas R$ 3,8 milhões. Agora, com a crise dos royalties, seria a hora de investir no campo. E na indústria? Nem se fala mais do Fundecam. A facilidade com que esse casal rompeu com os governos estaduais e federal, por só pensarem a cidade como degrau de um projeto político pessoal. Quem perde é sempre Campos. O “Morar Feliz”, se fosse feito desde o início em parceria com o “Minha Casa, Minha Vida”, do governo federal, não só na parte final, na entrega de 1,5 mil, das 6,5 mil unidade, deixaria dinheiro para a Prefeitura investir em agricultura, nas obras paradas das UBS, das Vilas Olímpicas, do Hospital São José, da RJ 216, do anexo do HGG, do Palácio da Cultura, do Camelódromo. O valão, com leito seco de tanta sujeira, que dá para botar até cadeira para sentar, consumiu R$ 20 milhões para quê? E a Cidade da Criança, de R$ 17 milhões? E o Cepop, de mais de R$ 100 milhões?

Oposição – Sou líder da bancada composta inicialmente dos vereadores Rafael Diniz (PPS, também pré-candidato a prefeito), Marcão (PT) e Fred Machado (PPS). Zé Carlos (PSDC) veio no início de 2015, e Dayvison (PSDC), no começo de 2016. Independente da posição que cada um vai adotar em outubro, nós estamos cumprindo nosso papel satisfatoriamente. Hoje, a oposição que não fazia cosquinha, consegue adesão de novos membros e até de um bloco “independente”, insatisfeitos com a gestão do casal.  Quem manda na Prefeitura não é a prefeita eleita e sim o marido dela. Quem despacha com vereador é ele, quem nomeia é ele, quem exonera é ele, quem não paga convênio com hospital é ele, quem veta repasse às empresas de ônibus é ele, quem vai à Câmara prestar esclarecimentos é ele. Resumo: é ele!

Vir de vice – Não. Porque a experiência que adquiri em minha vida empresarial e política,os 6.338 votos que tive na última eleição (a vereador), a orientação que recebi do diretório regional, colocam nosso nome como pré-candidato a prefeito do PSD em Campos. E vou levar essa candidatura, se Deus quiser, até o fim.

Fogueira das vaidades – Cada partido em Campos, referência no Norte Fluminense, gostaria de fazer o próximo prefeito. A decisão final não é do diretório municipal, mas no regional. Acho que vai reduzir o número de candidaturas à medida que forem chegando as convenções. Acho que nós deveríamos ter quatro candidatos de oposição, incluindo “independentes”. Na minha opinião, o candidato da oposição que conseguir bater 50 mil votos, está no segundo turno.

Contabilidade – Na última eleição, mesmo com o orçamento ainda gordo de royalties, de R$ 2,5 bilhões, mais R$ 250 milhões de empréstimo (primeira “venda do futuro”), o marido da prefeita fez mais pouco mais de 96 mil votos no primeiro turno a governador. No segundo turno, apoiando (Marcelo) Crivella (PRB), ele conseguiu perder em cinco das sete zonas eleitorais do município. Começou ali a decadência. Agora, como eles vão fazer? Mesmo que o barril de petróleo volte a subir, o caixa da Prefeitura não fecha. A Prefeitura de Campos deve hoje mais de R$ 1 bilhão em obras prontas e inacabadas, em convênios, principalmente na Saúde, e empréstimos (a segunda “venda do futuro” foi de R$ 308 milhões).

 

 

Página 2 da edição de hoje (10/03) da Folha
Página 2 da edição de hoje (10/03) da Folha

 

 

Publicado hoje (10/03) na Folha da Manhã

 

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Nildo Cardoso: “A Prefeitura de Campos deve hoje mais de R$ 1 bilhão”

Nildo Cardoso (foto de Rodrigo Silveira - Folha da Manhã)
Nildo Cardoso (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

“Se Roberto Henriques voltar mais uma vez ao grupo de Garotinho, está fora do PSD”

“Quem manda na Prefeitura não é a prefeita eleita e sim o marido dela”

“A Prefeitura de Campos deve hoje mais de R$ 1 bilhão em obras prontas e inacabadas, em convênios e empréstimos”

 

Estas foram algumas das declarações dadas hoje em entrevista pelo vereador Nildo Cardoso (PSD), presidente da bancada de oposição na Câmara Municipal e pré-candidato a prefeito de Campos. Após se mudar ao PSD, com a entrada de deputado estadual Geraldo Pudim (ex-PR) no PMDB para ser o pré-candidato do partido à sucessão de Rosinha Garotinho (PR), Nildo agora se vê (aqui) às voltas com outro integrante do novo partido, o ex-deputado Roberto Henriques, em reaproximação com o secretário municipal de Governo, Anthony Garotinho (PR). O líder da oposição assume a versão corrente de que, no lugar da espoa eleita, Garotinho é quem manda de fato na Prefeitura de Campos, cujo rombo no caixa afirma ultrapassar a casa de R$ 1 bilhão.

Leia amanhã a íntegra da entrevista na Folha da Manhã.

 

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Madrugada de terça para quarta: Pelinca ocupada por mesas de bar e carro na contramão

“Se eles não dormem, não deixam ninguém dormir: quarta-feira 01:36 da manhã. Mesa no meio da Pelinca, bêbados fazendo escândalos. Aonde vamos parar???? Restaurante Mexicano na Pelinca: péssimo exemplo de cidadania!!!!! Não frequento e não frequentarei nunca. Já se tornou hábito!!!! As autoridades, nada. A população?..nem se fala…os sóbrios não tomam conhecimento e os ébrios, acham graça (…) Não posso pensar diferente de pessoas embriagadas, em plena madrugada de terça para quarta, tumultuando a vizinhança. Aff…”

 

Na democracia irrefreável das redes sociais, o desabafo acima foi feito aqui, na madrugada de hoje pela odontóloga, empresária e professora Flávia Amoy, vizinha do bar e restaurante El Mexicano, na av. Pelinca, cuja própria pista de rolamento foi ocupada por mesas, cadeiras e ruidosos clientes do bar. Para não deixar dúvidas sobre o abuso, sem qualquer tipo de fiscalização por parte do poder público, a postagem no Facebook foi ilustrada com imagens do flagrante. Confira abaixo:

 

Mexicano 1
(Reprodução do Facebook)

 

Cerca de uma hora e meia após a primeira postagem, um pouco depois de 3h da manhã desta madrugada, Flávia fez aqui outra postagem, com um vídeo. Nele, além de comprovar a violação da lei do silêncio praticada no estabelecimento, registrou as mesmas mesas e cadeiras ocupada pelos clientes do El Mexicano, fazendo a pista de uma das principais avenidas da cidade como extensão do bar, protegidas por um carro estacionado na contramão em plena Pelinca.

Confira:

 

(Reprodução de vídeo do Facebook)
(Reprodução de vídeo do Facebook)

 

Com a palavra a Postura e Guarda Civil Municipais, além do 8º Batalhão de Polícia Militar (BPM) de Campos. Agora, se a negligência destas três instituições permite que isso ocorra livremente numa madrugada de terça para quarta, onde se pressupõe dormir mais cedo quem trabalha no dia seguinte, o que deve acontecer numa balada de sexta ou sábado?

 

Atualização às 19h43: Para saber atestar a generalização da bandalha nas baladas campistas, sem nenhum fiscalização do poder público, relembre aqui os flagrantes anteriores na rua Pero de Góis.

 

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“Não vejo nenhum segmento em Campos satisfeito com o governo Rosinha”

Vereador da bancada “independente”, Alexandre Tadeu, o “Tô Contigo”, já era popular pelo bordão que criou como apresentador da TV Record, antes mesmo de ser político. Endossada em pesquisas, é por essa popularidade que ele pretende ser candidato à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR), cuja bancada já integrou, para hoje constatar: “Eu olho e não vejo nenhum segmento em Campos satisfeito com o governo”.

 

 

(foto de Hellen Souza - Folha da Manhã)
(foto de Hellen Souza – Folha da Manhã)

 

 

Independente de quê? – Ser independente é você avaliar o projeto. Se for do interesse da população, você vota a favor, se não for, vota contra. O foco é o interesse da população. Trabalhar com a verdade e a independência é o caminho mais tranqüilo a se seguir.

Oposição – Acho que a oposição de Campos opta sempre em partir para o conflito. É uma maneira dela fazer política. Eu prefiro me preparar para o diálogo. Se ele não surtir efeito, a gente parte para o voto. Ser independente é isso.

Governo Rosinha – Já está ultrapassado, o modelo está ultrapassado. Se refletirmos sobre os serviços prestados à população, a insatisfação é geral. Nem quem trabalha com o governo está satisfeito. Pergunte aos empresários. Eu olho e não vejo nenhum segmento em Campos satisfeito com o governo Rosinha. O servidor não está, o trabalhador não está, a classe média não está, o empresariado não está. Isso é a maior prova de que o modelo está ultrapassado. O governo precisa se abrir, estar mais junto da população, ouvi-la antes de tomar suas decisões. Hoje as decisões são tomadas e aplicadas. Você só vê o reflexo. E ele não é nada bom.

Dois candidatos governistas – Mauro (Silva, PSDB, vereador) e Chicão (Oliveira, PR, vice-prefeito) serão os candidatos. Mais do que dois, para eles, na minha avaliação, seria prejuízo. Mauro é amigo da família e a acompanha há muitos anos. Chicão tem entrada na área médica e junto à classe média, média alta, o que é importante. Mauro, embora não seja tão popular, vai ter o carinho da família (risos). Mas essas duas candidaturas, com vices populares, seriam fortíssimas.

Pulverização da oposição – Acho favorável. Se a oposição se resumir em duas candidaturas, por exemplo, o governo só terá esses dois para se preocupar. Com seis candidatos de oposição, o trabalho seria muito maior.

Fogueira das vaidades – A oposição e os “independentes” têm que ter muito cuidado para isso não atrapalhar a eleição. Até porque dificilmente teremos outro momento tão favorável para trocar o governo. Não podemos cair nesse erro.

Vir de vice – Nenhuma possibilidade! Há 14 meses, desde que começaram as pesquisas, eu apareço em primeiro lugar sem Arnaldo. É sinal que uma parcela considerável da população acredita no trabalho que eu faria como prefeito. Não é questão de vaidade, mas merecimento. Se eu tivesse em terceiro nas pesquisas, aceitaria ser vice de quem está em segundo. Mas não posso estar em primeiro e ser vice de quem está em terceiro. Acho que seria incoerente diante da população. Muito se fala em mudança, mas a verdadeira mudança está na minha candidatura.

Bancada de Rosinha – Enquanto pude trabalhar, permaneci nela. Mas a partir do momento em que aquilo que eu pedia para a população já não era aceito, que tinha que ser como o governo queria e ponto, não tive mais como permanecer. Fui eleito para trabalhar pela população, não para um governo. A gota d’água foi a votação da “venda do futuro”. Apesar de ser um projeto do senador (Marcelo) Crivella (PRB), votei contra por saber que a realidade da cidade era outra.

Igreja Universal – Tenho muito respeito pela Igreja Universal, seu trabalho social e religioso. Mas não sou evangélico, sou católico.

Retorno ao garotismo – Não tem como. O trabalho que eu desenvolvo como vereador e apresentador de TV é contrário aos interesses do governo. Em minhas duas funções, eu aponto as deficiências e reivindico as soluções, muitas vezes do poder público. Voltar a me aliar a eles seria uma incoerência muito grande. Se político é isso, eu não sou político. Estou a serviço do povo, até quando ele quiser.

 

 

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Publicado hoje (08/03) na Folha da Manhã

 

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Campos só tem um político profissional de verdade, e ele não está na oposição

Advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos
Advogado Carlos Alexandre de Azevedo Campos

Em artigo publicado (aqui) na Folha no último domingo, escrevi sobre como o debate político pode ser retroalimentado também no diálogo entre mídias, na qual estas se complementam, no lugar de concorrerem. E foi neste sentido que o advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ex-assessor do Supremo Tribunal Federal (STF), usou a democracia irrefreável das redes sociais, para aqui fazer algumas ponderações que a oposição, se dotada de alguma humildade e muita sabedoria, deveria recortar e pendurar sobre o espelho no qual se mira todos os dias, daqui até outubro:

 

“Uma fragmentação muito acentuada da oposição ainda pode passar uma mensagem muito ruim aos eleitores: o oportunismo. Em vez de pensarem no município, todos querem, por ambições pessoais, aproveitar a ‘melhor oportunidade’ de assumir o poder, daí ninguém querer abir mão do ‘momento’. Agindo assim, mais do que se equipararem ao líder da situação, vão sucumbir a ele. Nesse jogo todo, só há um político profissional de verdade, e ele não está na oposição”.

 

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Alexandre Tadeu: Não vejo nenhum segmento satisfeito com o governo Rosinha

(Foto de Helen Souza)
(Foto de Helen Souza – Folha da Manhã)

 

“Eu não vejo nenhum segmento do município satisfeito com o governo Rosinha Garotinho”.

“Não há possibilidade de eu vir como vice. Há 14 meses, desde que começaram as pesquisas, eu lidero depois de Arnaldo”.

“Tenho muito respeito pela Universal, seu trabalho social e religioso, mas não sou evangélico; sou católico”.

 

Sem contornar assuntos polêmicos, estas foram alguma das declarações dadas hoje pelo vereador “independente” e apresentador de TV Alexandre Tadeu, o “Tô Contigo”, pré-candidato do PRB à Prefeitura de Campos. Para ter acesso à íntegra da entrevista, confira amanhã na Folha da Manhã.

 

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Se a alma não é pequena

Mar Português

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

 

(Fernando Pessoa)

 

 

 

Jornalista português Carlos Fino
Jornalista português Carlos Fino

República de juízes ou democracia plena? 

Por Carlos Fino

A detenção, o ano passado, durante nove meses, do ex-primeiro ministro de Portugal, José Sócrates, alvo de diversos processos ainda em andamento, e agora a “condução coercitiva” de que foi objeto o ex-presidente do Brasil, Lula da Silva, suscitaram  críticas nos meios jurídicos, políticos e mediáticos de um e outro país, questionando a legitimidade dos métodos utilizados pelo poder judiciário.

No caso de Sócrates, e sem querer obviamente entrar no mérito das causas, é difícil entender que o Estado, ao cabo de um ano de investigações e longos meses de detenção, não tenha ainda conseguido formalizar as acusações, ao mesmo tempo que uma série de “revelações” aparentemente dirigidas foram apresentando suspeitas como factos confirmados, numa condenação prévia sem julgamento no tribunal da opinião pública.

O próprio acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa que permitiu aos advogados de Sócrates acederem, por fim, a todo o processo em que o ex-primeiro ministro é arguido continha duras críticas não apenas aos investigadores liderados pelo procurador, mas também ao juiz de instrução criminal, que viabilizou por demasiado tempo os pedidos do Ministério Público destinados a manter o caso em segredo de justiça, prejudicando assim as garantias de defesa do arguido.

Quanto a Lula, é manifesto que a “condução coercitiva” a que foi submetido pecou por não ter tido a precedê-la qualquer intimação prévia, cujo eventual não cumprimento a justificaria. O juiz do Supremo Tribunal Federal, Marco Aurélio Mello, que está longe de ser um simpatizante do PT, foi contundente:

“Condução coercitiva? O que é isso? Eu não compreendi. Só se conduz coercitivamente, ou, como se dizia antigamente, debaixo de vara, o cidadão que resiste e não comparece para depor. E o Lula não foi intimado… Nós, magistrados – acentuou –  não somos legisladores, não somos justiceiros… Não se avança atropelando regras básicas.”

Acresce, num e noutro caso, a par da espectacularização das acções de busca e detenção empreendidas, uma aparente colaboração das autoridades judiciárias e/ou policiais com parte dos media, a que são facultados dados escolhidos considerados oportunos, por forma a criar um clima público favorável às investigações e contribuindo dessa forma para desmoralizar os investigados.

Hoje, como nos anos 90 em Itália, durante a Operação Mãos Limpas, é uma geração de magistrados mais jovens, sem particular deferência para com os políticos, bem pelo contrário, que avança no desmantelar dos esquemas de ligações espúrias entre os poderes do Estado e o mundo empresarial.

Para isso, recorrendo aos media, usam como arma a deslegitimização dos líderes comprometidos por forma a estimular as investigações.

Como reconhecia, já em 2004, numa lúcida análise sobre a experiência italiana, o juiz brasileiro Sérgio Moro, hoje responsável pela Lava Jato, “as prisões, confissões e publicidade (sublinhado meu) conferida às informações obtidas geraram um círculo virtuoso, consistindo na única explicação possível para a magnitude dos resultados obtidos pela operação mani pulite.”

Há quem levante, como vimos, sérias objecções a estes métodos, que correm o risco de ferir direitos essenciais. Na realidade, em cada um desses processos, um grupo restrito de magistrados tem em cada momento nas mãos a possibilidade de destruir antecipadamente reputações, por vezes de forma irreversível.

O que se pode contrapor a isso é que os interesses visados são tão fortes – envolvendo crime organizado e titulares do poder político com amplos poderes – que sem envolver a opinião pública se torna difícil, se não impossível, combatê-los.

Mas ao proceder assim, o judiciário, que tem de permanecer rigorosamente acima das facções, corre o risco de se deixar envolver e instrumentalizar na luta política, como se fora um mero agente de um grupo contra outro.

Daí a absoluta necessidade das autoridades judiciais se distanciarem dos partidos e manterem completa isenção na escolha e tratamento dos poderosos investigados, sejam de que partido forem. Até para retirarem legitimidade às previsíveis tentativas de transferir para o campo da política aquilo que pertence à área da justiça.

Mais do que uma república dos juízes, precisamos, portanto, de um democracia plena, em que sejam plenamente respeitados os direitos de todos.

Lula e José Sócrates (divulgação)
Lula e José Sócrates (divulgação)

 

 

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Artigo do domingo — Advogado do Diabo

Divisão 1

 

 

Há quem diga que o advento das redes sociais acabou com os blogs. Via de regra, é o mesmo estrabismo de quem, a partir da popularização anterior da blogosfera, tropeçou sob a sombra do próprio ego ao pregar a “visão” da morte da mídia tradicional. Na verdade, os blogs acabaram se revelando complementares às mídias existentes, tanto quanto os blogueiros, pelo menos aqueles que souberam se atualizar, passaram a usar as redes sociais para ampliar o alcance das suas postagens. Estas, muitas vezes geradas da própria democracia irrefreável dessa nova e revolucionária mídia, numa autofagia que é início, meio e fim da sociedade de informação na qual hoje vivemos.

Da teoria à prática, foi o que aconteceu, por exemplo, com uma postagem feita (aqui) em seu mural do Facebook, na noite do último dia 27, pelo advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ex-assessor do ministro Marco Aurélio de Mello, no Supremo Tribunal Federal (STF). Embora não tenha mostrado papas na língua ao afirmar que a prefeita Rosinha Garotinho (PR) oferta ao município “o pior governo dos últimos 100 anos”, o advogado campista advertiu que a desunião da oposição, “por vaidade, ou cegueira política ou mesmo incapacidade para se articular”, caminha para dar mais uma vitória ao garotismo nas eleições municipais de outubro próximo.

Após ler a postagem, na manhã de domingo, considerando relevantes o argumento e o argumentador, fiz o print para aproveitá-la como postagem (aqui) também no blog “Opiniões”, hospedado na Folha Online. E o link do blog foi devolvido (aqui) ao Facebook, onde gerou um debate tão ou mais interessante que a postagem inicial, nessa retroalimentação fantástica, na qual ao final ninguém sabe, ou parece se importar, sobre as diferenças de cronologia entre o ovo e a galinha.

Hoje, não por coincidência, a página 2 desta edição impressa de jornal traz (aqui) uma reportagem com a análise política sempre arguta do também advogado e ex-vereador Nelson Nahim (DEM), cuja pauta foi parida naquele debate gerado sobre a postagem de Carlos Alexandre. Íntimo conhecedor do modus operandi do secretário de Governo de Rosinha e prefeito de fato, Anthony Garotinho (PR), Nahim revela que o irmão aposta na divisão das próprias forças em movimento coordenado com a esperada divisão nas forças dos adversários, para que seu grupo continue até 2020 no comando de Campos, onde está encastelado desde 1989.

Com o desgaste do governo Rosinha, que fez uma primeira administração razoável, mas tem a segunda entre as piores dos 180 anos de história do município, não é preciso ser grande analista para perceber que as maiores chances de um candidato da oposição estão na disputa do segundo turno. E não há ser pensante com dúvida de que será uma disputa em dois turnos. No primeiro, fica todo o favoritismo do governo, que a exemplo das eleições municipais de 2004 e 2006, se inverte no segundo, puxada pela tendência de união dos votos da oposição, numa escolha meramente plebiscitária.

No debate no Facebook, gente como o argentino Gustavo Alejandro Oviedo, outro advogado, além de publicitário, chargista e crítico de cinema,viu (aqui) vantagens na fragmentação: “Penso que um candidato como João Peixoto, por exemplo, pode conseguir votos em lugares onde Rafael Diniz não poderia obter, e vice-versa”. Outro advogado, além de blogueiro da Folha Online, José Paes Neto tentou explicar (aqui) a pulverização da oposição: “Num cenário em que a oposição ainda não tem uma liderança natural, me parece normal que vários nomes tentem se colocar. A migração de políticos da situação para a oposição também ajuda a aumentar o número de pré-candidatos”.

Em contrapartida, no mesmo debate virtual entre argumentos reais, o estudante de psicologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Johnatan França de Assis tomou partido para advertir (aqui): “Se não vencermos essa eleição será em virtude da desarticulação da oposição”. Por sua vez, o professor e designer Sérgio Provisano questionou (aqui): “Ele (o eleitor) será cooptado por discursos populistas ou ouvirá a voz da razão? Estariam as oposições com ações que despertem a cidadania, ou se debatendo em uma fogueira de vaidades?”.

Os números usados por Nahim, duas páginas atrás, para explicar a estratégia de Garotinho, são claros e inequívocos. Mesmo desgastado, o governo tem entre 90 a 100 mil votos. Na intenção de dividir este total com algum equilíbrio, o garotismo deve lançar dois candidatos e tentar levar ambos ao segundo turno, onde a oposição seria mais forte, mas onde pode nem chegar, se permanecer tão dividida quanto hoje se mostra.

Como Lúcifer, encarnado brilhantemente por Al Pacino, diz na última fala do filme “Advogado do Diabo” (1997, de Taylor Hackford): “De todos os pecados que eu inventei, a vaidade sempre foi meu favorito”.

 

 

 

 

 

Publicado hoje (06/03) na Folha da Manhã

 

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Com dois candidatos, Garotinho aposta na divisão da oposição para tirá-la do 2º turno

Oposição reunida em 23 de dezembro de 2015 (foto: divulgação)
Oposição reunida para a câmera em 23 de dezembro de 2015 (foto: divulgação)

 

 

Seis pré-candidatos de Garotinho no último dia 1º de março (foto: divulgação)
Seis pré-candidatos de Garotinho em pose de amigos no último dia 1º de março (foto: divulgação)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Garotinho sabe que a melhor chance do seu grupo é lançar duas candidaturas a prefeito. No segundo turno, com o desgaste muito grande do governo, qualquer candidato de oposição leva vantagem no enfrentamento contra qualquer rosáceo. Baseado em números, a ideia é levar dois governistas ao segundo turno, liquidando a fatura desde o primeiro. Se a oposição se fragmentar nesse bando de candidaturas anunciadas, estará fazendo o jogo de Garotinho”. O raciocínio é de alguém que conhece como poucos, pessoal e politicamente, o modus operandi do ex-governador, ex-prefeito, ex-deputado e atual secretário de Governo de Campos: seu irmão, o ex-vereador Nelson Nahim (DEM).

Publicamente, nenhum dos seis pré-candidatos governistas já definidos à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR) admite. Informalmente, todos dentro e fora do grupo já sabem: serão duas candidaturas rosáceas à Prefeitura de Campos. A primeira já estaria definida com a filiação (aqui) do vereador Mauro Silva ao PSDB pelas mãos do próprio senador Aécio Neves (PSDB-MG), em Brasília, no último dia 25. A outra cabeça de chapa rosácea será disputada entre o vice-prefeito Chicão Oliveira (PR), os vereadores Edson Batista (PTB) e Auxiliadora (PHS), e os secretários municipais Fábio Ribeiro (PR) e Thiago Ferrugem (PR).

Foi Ferrugem quem, em entrevista à Folha (aqui), bateu pé pela necessidade do PR em também apresentar candidatura própria a prefeito. Assim, como Mauro foi o primeiro a viabilizar seu caminho fora do grupo e com um apoio nacional de peso, diminuem as chances de Edson e Auxiliadora na disputa pela outra vaga, que seria preenchida por um dos três pré-candidatos abrigados no partido dos Garotinho: Chicão, Fábio ou Ferrugem.

Enquanto isso, na oposição, já são seis as pré-candidaturas à sucessão de Rosinha: dos deputados estaduais João Peixoto (PSDC) e Geraldo Pudim (PMDB), dos vereadores Rafael Diniz (PPS) e Nildo Cardoso (PSD), do ex Rogério Matoso (PMB) e de Caio Vianna (PTB), filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PTB), que continua com muito voto, mas inelegível. Da bancada dita “independente”, que não estão no governo, nem na oposição, há mais duas pré-candidaturas a prefeito: dos vereadores Alexandre Tadeu, o “Tô Contigo” (PRB), e Gil Vianna (PSB). Também o Psol estaria pensando em lançar nome próprio à sucessão de Rosinha, segundo já informou Leo Zanzi, dirigente municipal do partido.

— Se todas essas candidaturas se consumarem na eleição, estarão entregando esta nas mãos de Garotinho. O DEM está fazendo seu papel. Conversamos nesta semana com Caio e Arnaldo, e com Pudim. Na segunda (amanhã), estaremos com Rafael. Enquanto partido, ainda não definimos nosso apoio, apenas que ele será dado a um candidato da oposição. Mas, na minha visão, de alguém que conhece a maneira de pensar de Garotinho, a oposição não pode ter mais de três pré-candidaturas. Venho falando isso desde lá detrás, há seis meses, muito antes de Mauro ir para o PSDB — alerta Nahim.

O ex-presidente da Câmara usa de números para tentar explicar a estratégia eleitoral do irmão para perder a Prefeitura de Campos:

— Campos teve quase 280 mil votos válidos na última eleição. Todas as pesquisas eleitorais feitas de lá para cá, de institutos daqui e de fora, mostram que de cada 10 pessoas, três ainda votam no governo. Trinta por cento de 280 mil vai dar quase 100 mil votos, mesmo com o governo desgastado. Se Garotinho conseguir dividir isso com algum equilíbrio entre seus dois candidatos, um com uns 50 mil votos, outro com uns 40 mil, seria muito difícil para um candidato oposicionista conseguir superar o segundo colocado governista, com a votação da oposição pulverizada com seis, oito candidaturas.

 

Página 2 da edição de hoje (03/03) da Folha
Página 2 da edição de hoje (06/03) da Folha

 

Publicado hoje (06/03) na Folha da Manhã

 

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Sabedoria simples oxigena imbecilidade das redes sociais

Quando a paixão emburrece os extremos, dando azo a toda tipo de imbecilidade dos dois lados, a democracia irrefreável das redes sociais é bafejada por um sopro de leveza com a sabedoria simples do amigo, jornalista, poeta e pintor Martinho Santafé:

 

Martinho

 

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