Ex-cabo eleitoral de Dilma indicado por ela ao Supremo paralisa processo de impeachment
No final da noite de ontem (08/12), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a instalação da comissão especial formada na Câmara dos deputados que analisará o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Os deputados já elegeram 39 integrantes da comissão oriundos de chapa formada por oposicionistas e dissidentes da base aliada do governo, após tumulto durante votação secreta. Com a eleição, o grupo já daria início aos trabalhos com maioria a favor do impeachment.
Com a decisão e o impedimento dos trabalhos da comissão, o ministro do STF suspendeu todo o andamento do impeachment, incluindo prazos que estiverem correndo, como o da defesa da presidente. A suspensão é mantida até análise do plenário do Supremo Tribunal Federal sobre o caso, que está marcada para ocorrer na próxima quarta-feira, dia 16. Na ocasião, caberá à Corte analisar se os atos que já foram praticados, como a votação da chapa, são ou não válidos. Até então, o que já foi feito continua preservado.
De acordo com o ministro, o objetivo da decisão é evitar que sejam praticados atos sobre impeachment da presidente que posteriormente venham a ser anulados pelo STF:
— Com o objetivo de evitar a prática de atos que eventualmente poderão ser invalidados pelo Supremo Tribunal Federal, obstar aumento de instabilidade jurídica com profusão de medidas judiciais posteriores e pontuais, e apresentar respostas céleres aos questionamentos suscitados, impede promover, de imediato, debate e deliberação pelo Tribunal Pleno, determinando, nesse curto interregno, a suspensão da formação e a não instalação da Comissão Especial, bem como dos eventuais prazos, inclusive aqueles, em tese, em curso, preservando-se, ao menos até a decisão do Supremo Tribunal Federal prevista para 16/12/2015, todos os atos até este momento praticados.
Fachin solicitou ainda que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preste informações no prazo de 24 horas sobre a eleição da comissão especial.
A decisão foi tomada em análise de recurso proposto pelo PCdoB, que foi ao Supremo para tentar barrar a apresentação de chapa avulsa oposicionista na eleição e ainda garantir que a votação fosse aberta. A Câmara, no entanto, realizou a eleição antes de Fachin, relator do caso, decidir a questão.
Na decisão liminar de ontem, o ministro ressaltou ainda que a votação secreta não tem previsão na Constituição e nem no regimento interno da Câmara, portanto, o pedido do PCdoB seria plausível. Fachin tentou se justificar pela importância do caso:
— Diante da magnitude do procedimento em curso, da plausibilidade para o fim de reclamar legítima atuação da Corte Constitucional e da difícil restituição ao estado anterior do caso, prossigam afazeres que, arrostados pelos questionamentos, venham a ser adequados constitucionalmente em moldes diversos.
No Supremo, ministros dizem que pode haver uma discussão sobre o rito do processo de impeachment já que há brecha sobre a Lei 1.079, de 1950, que define os crimes de responsabilidade do presidente da República e sua forma de julgamento.
Ministros do STF ouvidos sob a condição de anonimato avaliaram que, em tese, não há problemas de Cunha acolher o pedido de impeachment, uma vez que esta é uma atribuição do cargo. Os ministros ressaltam, no entanto, que o processo de afastamento tem que preencher os requisitos legais.
De acordo com os integrantes do Supremo, o clima no tribunal é de garantir a “regra do jogo”, ou seja, sem interferência direta, mas agindo para evitar abusos ou que a lei seja desrespeitada. Nesse momento inicial, dizem os ministros, o Supremo não deveria travar o debate no Congresso.

Com informações do Estadão e Folha de São Paulo
Paul Newman jovem em clássico do Cineclube Goitacá nessa quarta
Para um astista, o mais importante é viver para sua arte ou como ele pode viver dela? Em meio à fumaça dos cigarros e à média luz dos salões de bilhar, é este o dilema que vive “Fast” Eddie Felson, jogador de sinuca e trapaceiro interpretado por um jovem Paul Newman (1925/2008), no filme “Desafio à corrupção” (“The Hustler”, 1961), com direção, roteiro e produção de Robert Rossen (1908/66). O clássico do cinema será exibido amanhã, quarta-feira, 9 de dezembro, a partir das 19h, no Cineclube Goitacá, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento da rua Conselheiro Otaviano com avenida 13 de Maio. A apresentação e a mediação do debate após a sessão ficarão por minha conta. A entrada e a participação, como sempre, são gratuitas e bem vindas.
Dentro da tela, o objetivo de Eddie Felson é derrotar Fats Minessota, consagrado como maior jogador de sinuca do seu tempo e lendário personagem da vida real, interpretado no filme por Jackie Gleason (1916/87). Sem o talento do corpulento campeão ou seu jovem desafiante, mas controlando a ambos através do dinheiro, quem também tem papel fundamental na trama é o apostador profissional Bert Gordon, numa composição mefistotélica de George C. Scott (1927/99). Na pele da problemática, mas sensível Sara Packard, namorada de Felson, completa o elenco a atriz Piper Laurie, única atualmente viva, veteraníssima com mais de 100 atuações em cinema e TV.
Inegável (e inevitável) a influência do expressionismo alemão na fotografia em preto do alemão Eugen Schüfftan, vencedora do Oscar na categoria. Curiosamente, o filme geraria uma continuação 25 anos depois, com “A cor do dinheiro” (“The color of money”, 1986), dirigido por ninguém menos que Martin Scorsese. Nele, é um envelhecido Eddie Felson que banca o jogo, ao ser capturado pela arte de um jovem talentoso, muito parecido com aquele que ele fora no passado: Vicent Lauria, interpretado por outro astro então em ascensão, um tal de Tom Cruise.
Após concorrer e perder a estatueta de ator principal, como o jovem Eddie Felson de “Desafio à corrupção”, foi com a continuação “A cor do dinheiro” que Paul Newman finalmente ganhou seu primeiro (e único) Oscar de melhor ator. Como ele diz na fala derradeira do segundo filme, ao recuperar sua arte um quarto de século depois: “I’m back!” (“Eu estou de volta!”).
Enquanto a sessão não começa, confira o trailler desse clássico da sétima arte:
A carta de Temer a Dilma: “As palavras voam, os escritos permanecem”
Em seu blog, ainda na noite de ontem, o jornalista Ricardo André Vasconcelos chegou a citar (aqui), mas não publicar a carta enviada também ontem pelo vice-presidente Michel Temer (PMDB) à presidente Dilma Rousseff (PT). Em esfera nacional, o primeiro a fazê-lo (aqui) foi o jornalista Jorge Bastos Moreno, alvo de inúmeros processos judiciais do presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha (PMDB), que aceitou o pedido de impeachment de Dilma e a quem Moreno, não sem motivo, já apelidou no passado de “Coisa Ruim”.
Aberto com o emblemático provérbio latino “Verba volant, scripta manent” (“As palavras voam, os escritores permanecem”), leia abaixo aquilo que, com toda a volatilidade da política, promete ser permanente entre os dois maiores cargos e partidos da República:
São Paulo, 07 de Dezembro de 2.015.
Senhora Presidente,
“Verba volant, scripta manent”.
Por isso lhe escrevo. Muito a propósito do intenso noticiário destes últimos dias e de tudo que me chega aos ouvidos das conversas no Palácio. Esta é uma carta pessoal. É um desabafo que já deveria ter feito há muito tempo.
Desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade. Tenho-a revelado ao longo destes cinco anos. Lealdade institucional pautada pelo art. 79 da Constituição Federal. Sei quais são as funções do Vice. À minha natural discrição conectei aquela derivada daquele dispositivo constitucional.
Entretanto, sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB. Desconfiança incompatível com o que fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo. Basta ressaltar que na última convenção apenas 59,9% votaram pela aliança. E só o fizeram, ouso registrar, por que era eu o candidato à reeleição à Vice.
Tenho mantido a unidade do PMDB apoiando seu governo usando o prestígio político que tenho advindo da credibilidade e do respeito que granjeei no partido.
Isso tudo não gerou confiança em mim, Gera desconfiança e menosprezo do governo. Vamos aos fatos. Exemplifico alguns deles.
- Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. A Senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas.
- Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios,
secundários, subsidiários. - A senhora, no segundo mandato, à última hora, não renovou o Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez belíssimo trabalho elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele era uma indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a
registrar este fato no dia seguinte, ao telefone. - No episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o Ministério em razão de muitas “desfeitas”, culminando com o que o
governo fez a ele, Ministro, retirando sem nenhum aviso prévio, nome com perfil técnico que ele, Ministro da área, indicara para a ANAC. Alardeou-se a) que fora retaliação a mim; b) que ele saiu porque faz parte de uma suposta “conspiração”. - Quando a senhora fez um apelo para que eu assumisse a coordenação política, no momento em que o governo estava muito
desprestigiado, atendi e fizemos, eu e o Padilha, aprovar o ajuste fiscal. Tema difícil porque dizia respeito aos trabalhadores e aos empresários. Não titubeamos. Estava em jogo o país. Quando se aprovou o ajuste, nada mais do que fazíamos tinha sequencia no governo. Os acordos assumidos no Parlamento não foram cumpridos. Realizamos mais de 60 reuniões de lideres e bancadas ao longo do tempo solicitando apoio com a nossa credibilidade. Fomos obrigados a deixar aquela coordenação. - De qualquer forma, sou Presidente do PMDB e a senhora resolveu ignorar-me chamando o líder Picciani e seu pai para fazer um acordo sem nenhuma comunicação ao seu Vice e Presidente do Partido. Os dois ministros, sabe a senhora, foram nomeados por ele. E a senhora não teve a menor preocupação em eliminar do governo o Deputado Edinho Araújo, deputado de São Paulo e a mim ligado.
- Democrata que sou, converso, sim, senhora Presidente, com a oposição. Sempre o fiz, pelos 24 anos que passei no Parlamento.
Aliás, a primeira medida provisória do ajuste foi aprovada graças aos 8 (oito) votos do DEM, 6 (seis) do PSB e 3 do PV, recordando que foi aprovado por apenas 22 votos. Sou criticado por isso, numa visão equivocada do nosso sistema. E não foi sem razão que em duas oportunidades ressaltei que deveríamos reunificar o país. O Palácio resolveu difundir e criticar. - Recordo, ainda, que a senhora, na posse, manteve reunião de duas horas com o Vice Presidente Joe Biden – com quem construí
boa amizade — sem convidar-me o que gerou em seus assessores a pergunta: o que é que houve que numa reunião com o Vice Presidente dos Estados Unidos, o do Brasil não se faz presente? Antes, no episódio da “espionagem” americana, quando as conversar começaram a ser retomadas, a senhora mandava o Ministro da Justiça, para conversar com o Vice Presidente dos Estados Unidos. Tudo isso tem significado absoluta falta de confiança; - Mais recentemente, conversa nossa (das duas maiores autoridades do país) foi divulgada e de maneira inverídica sem nenhuma
conexão com o teor da conversa. - Até o programa “Uma Ponte para o Futuro”, aplaudido pela sociedade, cujas propostas poderiam ser utilizadas para
recuperar a economia e resgatar a confiança foi tido como manobra desleal. - PMDB tem ciência de que o governo busca promover a sua divisão, o que já tentou no passado, sem sucesso. A senhora sabe que, como Presidente do PMDB, devo manter cauteloso silencio com o objetivo de procurar o que sempre fiz: a unidade partidária.
Passados estes momentos críticos, tenho certeza de que o País terá tranquilidade para crescer e consolidar as conquistas sociais. Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã.
Lamento, mas esta é a minha convicção.
Respeitosamente, \ L TEMER
A Sua Excelência a Senhora
Doutora DILMA ROUSSEFF
DO. Presidente da República do Brasil
Palácio do Planalto
Brasília, D.F.
Atualização às 12h57: Com o oportuno título “Até tu, Temer?”, o sempre atento jornalista e poeta Fernando Leite foi o primeiro a publicar aqui, na blogosfera local, a carta do vice-presidente Michel Temer à presidente Dilma Rousseff.
Intolerância política: “O PT é vítima do seu próprio ódio”
Ainda este ano, uma amiga muito querida me apresentou ao Leandro Karnal, a partir de um vídeo no qual o historiador e professor da Unicamp fala sobre “Hamlet”. De fato, com a morte recente da crítica teatral Barbara Heliodora (1923/2015), espantei-me com a profundidade dos conhecimentos de outro brasileiro sobre a vida e a obra do inglês William Shakespeare (1564/1616), particularmente sua maior tragédia, a partir da qual o atormentado príncipe da Dinamarca emergiu como grande personagem da dramaturgia ocidental, no diálogo franco e na superação dos mestres gregos da Antiguidade Ésquilo (525 a.C./456 a.C.), Sófocles (497 a.C./406 a.C.) e Eurípedes (480 a.C/406 a.C.).
Não por outros motivos, o psicanalista e ator Luiz Fernando Sardinha exibiria depois, também neste ano, o mesmo vídeo de Karnal e sua brilhante palestra “Hamlet de Shakespeare e o mundo como palco”, numa dessas prazenteiras quartas-feiras de Cineclube Goitacá. Em longa, mas oportuna sessão dupla, foi na sequência à exibição de “Hamlet” (1990), com o ator estadunidense de ação Mel Gibson impressionantemente bem no papel título, dirigido no cinema pelo italiano Franco Zeffirelli.
Bem, quem quiser conferir a dimensão devida de Shakespeare, assim como a de Karnal, como seu privilegiado intérprete, aconselha-se a investir um hora e 52 minutos da sua vida no vídeo abaixo:
Já quem quiser saber o que um dos maiores intelectuais brasileiros da atualidade tem a dizer sobre intolerância política, religiosa, de gênero e racial, em entrevista dada neste início de dezembro à jornalista Paula Rocha, da revista “Isto É”, num texto que merece ser conferido na íntegra aqui, este “Opiniões” toma a liberdade de destacar abaixo uma elucidativa resposta de Karnal:
— Houve três momentos de forte polarização política na história do Brasil. Entre 1935, com a Intentona Comunista, e 1938, com a Intentona Integralista; em 1964 com o Golpe Militar e agora. A diferença é que, se antes a política era restrita a partidos ou a alguns movimentos, hoje ela está democratizada no sentido numérico. A polarização política está na internet. E isso possibilita que esse ódio transborde do debate político para o ataque a pessoas identificadas como inimigos políticos. Não há ninguém inocente. No passado, o PT polarizou o ódio, ora contra Sarney, ora contra o PSDB. E, assim como o Dr. Frankenstein sofre o ataque de sua criatura, agora esse sentimento se volta contra o PT. O PT é vítima do seu próprio ódio. Além disso, a política brasileira hoje vive de agendas dependentes. O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) depende do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), e vice-versa, porque o discurso de um é determinado pelo discurso do outro. E personalidades que pregam o ódio se destacam mais.
Contra o governo Dilma e seu impeachment — Culpa dividida com seus eleitores
Como ser frontalmente contrário ao lulopetismo representado pelo governo Dilma Rousseff e não ser favorável ao impeachment da presidente, sobretudo pela maneira como seu pedido foi aprovado na Câmara Federal presidida por uma figura como Eduardo Cunha, representante em nível patológico do velho fisiologismo do PMDB, arrebanhado desde o primeiro governo Lula como principal parceiro do PT no comando do país? Buscava a maneira de dizer isso, até que li apenas hoje o texto da jornalista Cora Ronai, publicado aqui, dois dias atrás, na democracia irrefreável das redes sociais.
Bem, antes tarde do que nunca, confira porque não preciso procurar mais:

Por Cora Ronai
Num outro post alguém me perguntou se sou contra ou a favor do impeachment.
Sou contra.
Sou contra porque acho que, tendo sido o pedido encaminhado como foi, em ato de represália a uma chantagem que não deu certo, o todo fica comprometido. Eu sei que o pedido não foi feito pelo Cunha, mas foi ele quem deu início ao processo, e nada que ele faça hoje tem mais qualquer legitimidade. Esse homem devia estar na cadeia há tempos. Ou num manicômio.
Sou contra também porque acho que este processo de impeachment foi um presente dado de bandeja ao PT para justificar a sua falência administrativa. Se o impeachment acontecer, o que acho improvável, o governo terá sido a calamidade que está sendo porque a Dilma terá sido cassada; se não acontecer, teremos ido para o fundo do poço por causa da turbulência política provocada pela elite branca de olhos azuis que não se conforma em ver um operário no poder os porteiros viajando de avião os pobres na universidade blá blá blá.
Em suma, o idiota do Cunha deu munição e sobrevida ao PT, que vai chegar revitalizado a 2018: parabéns.
Sou contra, ainda, porque a Dilma foi eleita num processo supostamente democrático, e há dúvidas entre os juristas se as razões expostas no pedido são procedentes. Um pedido de impeachment deveria estar baseado em provas inequívocas.
Digo “supostamente democrático” porque, a meu ver, o uso despudorado da máquina governamental favoreceu enormemente a sua reeleição. Das verbas dobradas das empreiteiras aos deputados comprados nas coligações canalhas, tudo contribuiu para que ela voltasse ao poder. Mas este é o sistema que temos, e ele é a primeira coisa que precisamos corrigir para moralizar a política.
Por outro lado, sou totalmente contra a Dilma.
Não só pela sua óbvia incompetência, mas porque, a essa altura, ela não tem mais condições de ocupar o cargo. Tudo ao seu redor é caos. Nada funciona. Enquanto isso, o seu partido é protagonista do maior escândalo de corrupção jamais descoberto no país. Se os demais partidos também roubavam (e continuam roubando) são outros quinhentos; quem está no poder agora, neste momento, é o PT, que daqui a pouco vai ter mais representantes nas penitenciárias do que no Congresso. Dilma pode não ter participado diretamente da bandalheira, mas foi criminosamente omissa, o que compromete a sua imagem e a legitimidade do seu governo.
Então, #comofaz?
Não sei. Se soubesse eu estava em Brasília, tentando fazer.
Mas o Brasil — que elegeu a Dilma, contra todas as evidências e mentiras da campanha eleitoral — merece a Dilma. A culpa da miséria que estamos vivendo, e que ainda vamos amargar por muito tempo, ela divide com cada um dos seus eleitores.
Após Argentina, democracia derrota populismo na Venezuela — Lembra alguém?
Minutos após a derrota do kirchnerismo na eleição do opositor Mauricio Macri como presidente da Argentina, em 22 de novembro, o advogado, publicitário e crítico de cinema Gustavo Alejandro Oviedo, nascido e criado naquele país, mas naturalizado brasileiro e radicado em Campos, utilizou a democracia irrefreável das redes sociais para fazer aqui uma previsão: “A democracia republicana começa a avançar na América Latina. Próxima parada: Venezuela”.
Pois nesta madrugada, a apuração das eleições legislativas da Venezuela confirmaram a previsão feita há duas semanas pelo observador atento dos regimes populistas na América do Sul, de discurso de esquerda e índole autoritária, naufragando em meio ao caos econômico que produziram em seus países. Para conhecer mais a derrota fragorosa imposta à “revolução bolivariana” pelo povo venezuelano nas urnas, bem como para saber quem lembram seus patéticos personagens, confira o texto do jornalista Ricardo Noblat, publicado aqui, em seu blog, e reproduzido abaixo:


Vento da mudança varre forte a Venezuela
Por Ricardo Noblat
Que presentão para o governo da Venezuela, que ontem celebrou os 17 anos da primeira vitória de Hugo Chávez, o pai da chamada “revolução bolivariana”.
A oposição, que pela primeira vez se apresentou unida, deu uma surra de votos no governo do presidente Nicolas Maduro e passou a controlar a Assembleia Nacional, o Congresso de lá.
Quando ainda faltava apurar votos para preencher 22 vagas, o Movimento da Unidade Democrática (MUD) havia elegido 99 deputados contra 46 do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV).
Maduro reconheceu a derrota. Em seu discurso na televisão, primeiro saudou o “trunfo da Constituição e da Democracia”. Para em seguida atribuir a derrota ao “boicote econômico” ao seu governo.
A Venezuela está quebrada. O país, um dos maiores produtores de petróleo do mundo, faliu devido à queda do preço do barril e às administrações desastrosas de Chávez e de Maduro.
Chávez seduziu os venezuelanos com seu populismo, sua oratória, e seus sonhos de grandeza. (Lembra alguém?). Aproveitou-se para isso do período em que o preço do petróleo estava nas alturas. (Lembra algo?)
Coube a Maduro, sem carisma, sem experiência como governante, turrão, tocar a “revolução” em um período de dificuldades acentuadas. (Lembra alguém?).
Foi uma Caracas deserta que recebeu de madrugada o dos resultados da eleição. Os moradores da cidade recolheram-se cedo. Postaram-se diante de televisores. E produziram pequenos ensaios de panelaços.
O vento da mudança, que na Argentina derrotou (aqui) a presidente Cristina Kirchner, agora soprou forte na Venezuela.
Poema do domingo — Para parir mel do sêmem das flores
Eram meados dos anos 1990. Tinha pouco mais de 20 anos, quando vivia em Atafona a fase mais bicho grilo da sua vida. Um amigo biólogo, igualmente jovem e refugiado junto à foz do Paraíba do Sul, o ensinava sobre a mata de restinga que ainda cobria parte da região.
O aprendizado se dera em meio à realidade desse ecossistema no entorno da Lagoa de Iquipari, muito antes do porto do Açu, que o geólogo campista Alberto Lamego (1896/1985) perenizara em abstração, no seu necessário “O homem e a restinga”, publicado em 1946. Meio século depois, era a mesma restinga que os dois jovens homens percorriam a pé, sob o sol, quando o biólogo observou ao amigo:
— Sabe por que o cactos tem espinhos? Porque ele é a planta mais suculenta do deserto, a que mais armazena água. Sem a defesa dos espinhos, ele seria simplesmente devorado pela fauna.
Com todas suas metáforas possíveis, esse dedo de prosa cutucaria a lembrança nas duas décadas seguintes, no apontamento dos caminhos. Quando estes se cruzaram sem dolo com os de “vegetação” semelhante, no entrelaçamento espontâneo das raízes, brotaram versos:

os cactos
(p/ paulinha)
deu-se que um cactos enamorou-se
da polpa tenra sob os espinhos tesos
do semelhante seu que reconheceu
ao tato das raízes no escuro da terra
o cactos se deixou espetar pelo outro
a quem deu de beber em água e verde
quando o tempo estiou ao abraço
com a força do azul no céu do sertão
testemunhou a abelha suja de pólen
para parir mel do sêmen das flores
de dois cactos cujas seivas trocadas
agora afluíam uma ao curso da outra
campos, 22/09/15
Artigo do domingo — Ou fica Dilma ou saem todos

Por Ricardo André Vasconcelos
O país viu suas entranhas expostas nos últimos anos, como nunca antes vira, apesar de imaginar como seriam. Depois dos “mensalões” (do PT e do PSDB), que revelaram ao país os porões das campanhas eleitorais, o sucedâneo “petrolão”, com o fio puxado a partir da delação premiada do ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa , não para de revelar ao país as sórdidas e milionárias transações com o dinheiro público. Pelo menos um ex-presidente da República já sendo investigado (Collor) e outro (Lula), vai pelo mesmo caminho; as contas da campanha da reeleição da presidente podem ter sido irrigadas com verbas desviadas das licitações fraudulentas da Petrobras e os presidentes da Câmara e do Senado estão envolvidos até os últimos fios de seus cabelos artificiais. E, no meio da trama, os donos das maiores empreiteiras do país estão presos, incluindo o presidente da mais poderosa de todas, a Odebrecht, que só em 2014, faturou R$ 107 bilhões, e o banqueiro André Esteves, o 13º homem mais rico do país, acusado de tentar interferir na delação premiada de um ex-diretor da Petrobras.
Se isso não bastasse, o presidente do Tribunal de Contas da União também é suspeito de se beneficiar das maracutaias na Petrobras, através de um filho, advogado e que venderia informações sobre os julgamentos da Corte. As suspeitas recaem sobre todos os poderes e, antes da última quinta-feira, a partir da decisão do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), aceitar um dos 34 pedidos de impeachment da presidente Dilma, seria possível um grande “acerto” para salvar a todos, algo do tipo imortalizado pelo jornalista Sérgio Porto, encarnado no pseudônimo Stanislaw Ponte Preta: “Ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos!”
Talvez seja simplismo, mas cabe lembrar que os petistas que, há década e meia, se apoderaram da máquina pública como instrumento partidário, fazem o que seus opositores não fizerem e nem fariam diferente. Basta ler “A Privataria Tucana”, de Amaury Ribeiro Júnior e “O Príncipe da Privataria”, do jornalista Palmério Dória; ou “Assassinato de Reputações”, de Romeu Tuma Júnior e “Mensalão”, de Marco Antônio Vila, para concluir que PT e PSDB são xifópagos separados na maternidade.
Depois da vendeta de Cunha, ao perder os três votos que do PT que garantiriam uma pena mais branda ou até absolvição no processo movido contra ele no Conselho de Ética, não dá mais para recuar. Mesmo que, ao contrário de Cunha, pilhado mentido na CPI da Petrobras sobre suas contas no exterior, não pese sobre a presidente da República nenhum crime de responsabilidade expresso no artigo 85 da Constituição Federal. Impeachment é um processo de julgamento político, mas que é deflagrado a partir de um fato jurídico, o que não parece ser o caso das “pedaladas fiscais”. À Cunha isso pouco importa. Depois de se garantir no cargo e mandato negociando com a oposição apoio em troca de uma promessa de iniciar o impeachment e prometer o oposto aos aliados do governo pelo mesmo apoio, caiu-lhe sua máscara. Falta perder o cargo, o mandato e a liberdade.
Iniciado o processo de impeachment há dois caminhos: ou a comissão especial que se instala nesta segunda-feira arquiva a representação dos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale e Janaína Paschoal ou aprovaria o prosseguimento do processo, que passaria para o Senado e presidido pelo ministro Ricardo Lewandowski, do STF. O governo prefere suspender o recesso parlamentar e matar a questão o mais rápido possível, enquanto a oposição quer adiar para março de 2016, quando a classe média poderia ser convocada para ir às ruas e influenciar o Congresso. Sem manifestação de rua não há impeachment. Na verdade, a crise política é menor que a crise econômica, sendo esta decorrente daquela e com consequências dramáticas no horizonte: recessão pré-depressão, desemprego perto dos 10% da população economicamente ativa e descontrole fiscal. E tudo numa roda viva, num círculo vicioso de desconfiança que não se sabe onde vai parar ou se vai parar.
Dependendo do desenrolar das investigações da Lava Jato — meia centena de deputados e senadores já é investigada — resta ver o que vai sobrar das lideranças políticas para construir algo mais ou menos novo. Minha aposta é que a saída da crise virá do Poder Judiciário, precisamente no TSE, onde tramitam alguns processos que poderiam redundar na cassação do diploma da presidente e do vice, Michel Temer (PMDB). Aprovado o impeachment, Temer assumiria, enquanto a cassação do TSE é da chapa, ou seja, são afastados presidente e vice. Nesse caso, assumiria o presidente da Câmara, Senado e do STF (nesta ordem), com convocação de eleições em 90 dias (artigos 80 e 81 da CF). Óbvio que não seria nem Eduardo Cunha nem Renan Calheiros e, portanto, o poder cairia no colo do ministro Ricardo Lewandowski, o presidente do STF, até a posse do(a) novo(a) eleito(a).
Essa tese, ainda não assumida por ninguém, interessa à aliança DEM-PSDB tanto quanto ao ex-presidente Lula, que disputaria a eleição dois anos mais moço que em 2018. De fato, Dilma não assumiu o segundo mandato, mas isso não é motivo para impedimento, porque foi eleita democraticamente, mas se tiver que ser sacrificada em nome da estabilidade política e econômica, que seja pelo TSE e com novas eleições em 90 dias.
Ou fica Dilma, ou saem todos.
Publicado hoje na Folha da Manhã
Para começar a semana rindo (da cara dos canalhas e boçais)
Apesar dos canalhas que tomaram o país de assalto, bem como dos boçais que ainda se prestam a tentar defendê-los, para rir bastante da cara de todos eles e começar bem esta semana de ingresso ao mês do Natal, o blog pede licença para reproduzir abaixo a arte impagável do Antonio Lucena. Em diálogo franco com o filme “E.T. — o Extraterrestre” (1982), clássico de Steven Spielberg, a criativa montagem confere o alívio da constatação: essa gente tem a cara daquilo que é!
Poemas do domingo — O coração de Augusto dos Anjos e Álvaro de Campos

Foi no Egito Antigo (3.150 a.C./ 31 a.C.) que atribuíram o centro das emoções humanas ao coração. Hoje sabemos que essa função pertence ao cérebro, mais precisamente à região central do tálamo. Famosos por sua medicina avançada na Antiguidade, os egípcios notaram que nosso pulso acelerava quando sentimos paixão, raiva, medo, angústia, ou qualquer outro tipo de emoção mais forte. E eles já sabiam que a pulsação era ditada pelas batidas do coração. Assim, a conclusão equivocada, apesar de lógica.
O fato é que, mesmo vivendo sob a luz das ciências modernas e a difusão dos seus conceitos, pelo menos desde o final do séc. 19, o músculo cardíaco manteve intocada no imaginário popular sua condição de centro emocional do homem. E essa condição de ideograma, na qual o simples desenho do coração é imediatamente associado às emoções, sobretudo ao amor, permaneceu também nos versos de dois poetas cujas vidas e obras foram profundamente marcadas pelo avanço científico da modernidade, ambos nascidos e criados na fantástica ebulição da virada do séc. 19 ao 20: o brasileiro Augusto dos Anjos (1884/1914) e o português Fernando Pessoa (1888/1935).
Seja para um pré-modernista como Augusto, ou mesmo o mais modernista dos heterônimos de Pessoa, como foi o caso de Álvaro de Campos, o coração que “tem catedrais imensas”, revelado pelo brasileiro logo na abertura do seu soneto, é o mesmo que rouba a luz entre os vitrais dessas “catedrais” para se refazer, em vidro e cores, no verso que fecha ruidosamente o poema do lusitano. “Esta velha angústia,/ Esta angústia que trago há séculos em mim” pode, sim, transbordar a vasilha e até quebrar “a imagem dos meus próprios sonhos”, enquanto estala ao verso final do outro, nas batidas uníssonas dentro do peito de dois grandes poetas, ecoadas nas vozes não menores dos atores Othon Bastos e Paulo Autran (1922/2007):

Vandalismo
Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.
Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.
Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos …
E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Esta velha angústia
Esta velha angústia,
Esta angústia que trago há séculos em mim,
Transbordou da vasilha,
Em lágrimas, em grandes imaginações,
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror,
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum.
Transbordou.
Mal sei como conduzir-me na vida
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!
Se ao menos endoidecesse deveras!
Mas não: é este estar entre,
Este quase,
Este poder ser que…,
Isto.
Um internado num manicômio é, ao menos, alguém,
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio.
Estou doido a frio,
Estou lúcido e louco,
Estou alheio a tudo e igual a todos:
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura
Porque não são sonhos.
Estou assim…
Pobre velha casa da minha infância perdida!
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto!
Que é do teu menino? Está maluco.
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano?
Está maluco.
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou.
Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer!
Por exemplo, por aquele manipanso
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África.
Era feiíssimo, era grotesco,
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê.
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer —
Júpiter, Jeová, a Humanidade —
Qualquer serviria,
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo?
Estala, coração de vidro pintado!









