Poema do domingo — Pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!


Quando no aniversário de uma pessoa amiga e dotada de sensibilidade, tenho costume de saudar a data com o poema “Aniversário”, de Álvaro de Campos, heterônimo mais modernista do poeta Fernando Pessoa (1888/1935), por sua vez o maior nome do Modernismo de Portugal. Mas eis que, na última sexta-feira, 11 de dezembro, quando completou 43 anos, o aniversariante inventou de inverter a ordem natural das coisas para ofertar ele o presente. Além de ter compilado a obra de Pessoa (do próprio, além de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, demais heterônimos poetas), para dirigir e produzir o espetáculo “Pessoas”, o professor, escritor e dramaturgo Adriano Moura também atuou nele como ator, ao lado de Tim Carvalho, Renato Arpoador e Matheus Nicolau. E, no dia do seu aniversário, o ponto alto da interpretação de Adriano, “com uma nitidez que cega”, foi justamente o poema “Aniversário”.
Abaixo, seguem o poema e sua declamação referencial por Paulo Autran (1922/2007). E se não é mentira que Adriano nunca foi, como ator, o mesmo que é enquanto autor, a partir desse seu aniversário literário e literal, essa é uma verdade que deve começar a ser revista. A conferida, assim que o espetáculo retornar a cartaz em 2016, é um presente que cada um pode dar a si e depois levar pela vida como “passado roubado na algibeira”.

Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…
Lisboa, 15/10/1929


















