Macunaíma: herói sem nenhum caráter ou herói de um país sem caráter algum?

Macunaíma

 

 

Jornalista Dora Kramer
Jornalista Dora Kramer

O herói sem caráter

Por Dora Kramer

 

Remexendo na gaveta de recortes de jornais — valorosos e não raro mais úteis que o Google — encontro um texto escrito em 7 de setembro de 2010. Apenas coincidência a data da Independência. O título, Macunaíma. O herói sem nenhum caráter de Mário de Andrade.

Faltava pouco menos de um mês para o primeiro turno da eleição em que o então presidente Luiz Inácio da Silva fazia o “diabo” e conseguiria na etapa final realizada em 31 de outubro eleger uma incógnita como sua sucessora.

Deu todas as garantias de que a chefe de sua Casa Civil, Dilma Rousseff, seria uma administradora de escol para o Brasil. Não foi, conforme comprovam os indicadores de um governo que se sustenta no índice positivo do emprego formal, cuja durabilidade depende do rumo da economia.

Como ex-presidente, Lula agora pede que se renove a aposta. Sem uma justa causa, apenas baseado na ficção por ele criada de que a alternância de poder faz mal à democracia brasileira. A propósito de reflexão a respeito da nossa história recente, convido a prezada leitora e o caro leitor ao reexame daquele texto.

“Só porque é popular uma pessoa pode escarnecer de todos, ignorar a lei, zombar da Justiça, enaltecer notórios ditadores, tomar para si a realização alheia, mentir e nunca dar um passo que não seja em proveito próprio?

Um artista não poderia fazer, nem sequer ousaria fazer isso, pois a condenação da sociedade seria o começo do seu fim. Um político tampouco ousaria abrir tanto a guarda. A menos que tivesse respaldo, que só revelasse sua verdadeira face lentamente e ao mesmo tempo cooptasse os que poderiam repreendê-lo tornando-os dependentes de seus projetos dos quais aos poucos se alijariam os críticos por intimidação ou cansaço.

A base de tudo seria a condescendência dos setores pensantes e falantes; oponentes tíbios, erráticos, excessivamente confiantes diante do adversário atrevido, eivado por ambições pessoais e sem direito a contar com aquele consenso benevolente que é de uso exclusivo dos representantes dos fracos, oprimidos e assim nominados ignorantes.

O ambiente em que o presidente Luiz Inácio da Silva criou o personagem sem freios que faz o que bem entende e a quem tudo é permitido — abusar do poder, usar indevidamente a máquina pública, insultar, desmoralizar — sem que ninguém consiga lhe impor paradeiro, não foi criado da noite para o dia. Não é fruto de ato discricionário, não nasceu por geração espontânea nem se desenvolveu por obra da fragilidade da oposição.

Esse ambiente é fruto de uma criação coletiva. Produto da tolerância dos informados que puseram seus atributos e respectivos instrumentos à disposição do deslumbramento, da bajulação e da opção pela indulgência. Gente que tem vergonha de tudo, até de exigir que o presidente da República fale direito o idioma do país, mas não parece se importar de lidar com quem não tem pudor algum.

Da esperteza dos arautos do atraso e dos trapaceiros da política que viram nessa aliança uma janela de oportunidade. A salvação que os tiraria do aperto em que estavam já caminhando para o ostracismo. Foram ressuscitados e por isso estão gratos.

Da ambição dos que vendem suas convicções (quando as têm) em troca de verbas do Estado.

Da covardia dos que se calam com medo das patrulhas.

Do despeito dos ressentidos.

Do complexo de culpa dos mal resolvidos.

Da torpeza dos oportunistas.

Da superioridade dos cínicos.

Da falsa isenção dos preguiçosos.

Da preguiça dos irresponsáveis.

Lula não teria ido tão longe com a construção desse personagem que hoje assombra e indigna muitos dos que lhe faziam a corte não fosse a permissividade geral. Se não conseguir eleger a sucessora não deixará o próximo governo governar. Importante pontuar que só fará isso se o país deixar que faça; assim como deixou que se tornasse esse ser que extrapola.”

 

Publicado aqui, no Estadão

 

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Eleição presidencial na margem de erro e à beira do fascismo contra a imprensa

fascismo

 

 

 

Jornalista Merval Pereira
Jornalista Merval Pereira

Margem de erro

Por Merval Pereira

 

Tudo indica que a margem de erro das pesquisas vai perseguir os cidadãos até o dia da eleição, domingo que vem. Nada está definido, a tendência de alta de Dilma ainda tem de ser confirmada por novas pesquisas que serão feitas diariamente até sábado, o último dia possível de publicá-las (hoje, aliás, deve estar saindo uma nova do Datafolha), e os candidatos estão lutando por territórios, especialmente Rio e MG.

A Região Sudeste, a de maior eleitorado, é onde Dilma cresce, mesmo que Aécio continue na frente. Mas os 5 pontos que a candidata do PT cresceu foram suficientes para fazê-la ultrapassar seu concorrente no cômputo geral, na explicação do diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino.

Aécio já superou Dilma em MG, mas não conseguiu ainda abrir frente suficientemente ampla para compensar perdas em outros locais. A previsão é que tire cerca de 1,8 milhão de votos de dianteira, bem menos que os 3 milhões a 4 milhões previstos inicialmente.

No Rio, Aécio andou empatado tecnicamente com Dilma, mas agora já foi superado por boa margem (48% a 37%). Aqui no Rio, vigora situação exemplar de como a base aliada do governo é tão ampla e heterogênea: ela apoia os dois candidatos que se digladiam pelo governo do estado, um atacando o outro impiedosamente. E os outros dois derrotados também a apoiam.

São máquinas poderosas trabalhando a favor da reeleição, e a dissidência do PMDB – o Aezão, mistura de Aécio com Pezão – não parece ser forte o suficiente para manter votação capaz de competir com a da presidente, embora desta vez a diferença a favor de Dilma seja bem menor do que da vez anterior, em que ela abriu mais de 1,5 milhão de votos de frente no estado.

Além do mais, há uma máquina oficial em favor de Pezão, que trabalha também a favor de Dilma — a quem o governador que tenta a reeleição se refere sempre como “presidenta”, o que demonstra uma proximidade que se choca com o movimento dissidente que ele também alimenta. Coisas do modelo de coalizão presidencial mais apropriadamente chamado de “modelo de cooptação”.

Vamos ver esta disputa voto a voto provavelmente até o final desta semana, com Aécio tentando ampliar sua votação em Minas, o que seria mais natural se não tivesse cometido um dos poucos erros de sua campanha ao abandonar seu estado no 1º turno, como se os votos a seu favor caíssem por gravidade no seu colo.

Quando se deu conta do prejuízo, Aécio dedicou-se a Minas como deveria ter feito desde o início e conseguiu reverter a situação no 2º turno, depois de o PSDB ter perdido a eleição para o governo do estado.

Outra preocupação, esta nova, é não perder votos em SP, onde a situação de crise do abastecimento de água pode estar afetando a imagem dos tucanos, a grande máquina do PSDB que reelegeu Alckmin no 1º turno e deu a Aécio cerca de 45% dos votos.

Neste 2º turno, o candidato do PSDB à Presidência já estava chegando a uma votação correspondente a 60% dos votos, mesma margem por que foi eleito José Serra senador. A piora da situação hídrica do estado, no entanto, pode estar afetando a votação de Aécio, assim como afetaria a de Alckmin caso tivesse havido 2º turno em SP.

A recente pesquisa do Datafolha mostra que hoje haveria segundo turno para governador, reflexo da piora da situação de escassez de água que está sendo muito explorada pela campanha de Dilma Rousseff.

Nesta reta final, as campanhas deverão ser mais propositivas, ficando, de parte do PT, o papel sujo a cargo do ex-presidente Lula, que está se excedendo no cumprimento da função. O debate da TV Globo sexta-feira ganhou relevo especial com a disputa apertada, e os indecisos, que participarão com perguntas aos candidatos, podem ser decisivos na definição do vencedor.

Irresponsável

“Daqui para frente, é a Míriam Leitão falando mal da Dilma na televisão, e a gente falando bem dela (Dilma) na periferia. É o (William) Bonner falando mal dela no ‘Jornal Nacional’, e a gente falando bem dela em casa. Agora somos nós contra eles […]”.

Essa fala irresponsável é do ex-presidente Lula no seu papel de língua de trapo da campanha petista. O PT deu agora para nomear seus “inimigos”, incentivando assim ações radicais contra jornalistas que consideram adversários do “projeto popular”.

Recentemente, um dirigente do partido havia nomeado sete jornalistas numa espécie de “lista negra”. É uma típica ação fascista, que está sendo usada já há algum tempo na Argentina de Cristina Kirchner. É neste caminho que vamos, caso Dilma se reeleja.

 

Publicado aqui, no Blog do Merval

 

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Você vota em Dilma ou Aécio? Por quê?

Gustavo MatheusQuase iniciei este texto dizendo o porquê de não votar em Aécio e, apesar de ser bem mais fácil, como todo lugar comum, não seria uma premissa democrática e propositiva. Portanto, tratarei de defender o meu voto sem diminuir o de terceiros. Antes de qualquer coisa, deixo claro que não sou eleitor de Dilma Rousseff, apenas a escolhi para este segundo turno. Por isso, o meu relato deve ter alguma imparcialidade, se é que isso existe. Bem, pelo menos gosto de pensar que não contará com “destreza cega e absoluta” de quem fala pela paixão ao invés da razão. O meu voto é racional. Tratam-se de duas diferentes formas de gestão, e escolhi a que mais se aproxima de minhas convicções no momento.

Para não haver engano e nem licença poética, me dispus de números e dados para explicitar esta minha escolha pelo atual governo. Aliás, governo este que enumera bem suas prioridades, reconhecendo que Educação de qualidade não é gasto, mas investimento com retorno social, cultural e econômico garantido. Com 18 universidades federais, mais de 400 escolas técnicas, Prouni disponibilizando mais de um milhão de bolsas e Ciências Sem Fronteiras com 100 mil disponibilizadas. A atual gestão também não perde tempo ao olhar para os mais necessitados, os números são impressionantes. A redução da desigualdade, que no governo anterior estava em 2,2%, já alcançou 11,4%. E o desemprego, que saiu de 12,2% para 5,4%? Também muito significativo. Mas, na minha opinião, um dado que realmente impressiona é de brasileiros que deixaram a “extrema pobreza”, até agora são mais de 22 milhões de pessoas. E muitos outros números que mostram que o Brasil só cresceu. Os líderes mundiais respeitam o nosso país como potência. Sobrevivemos quase que intactos a essa crise mundial que afetou todas as grandes economias de todo o mundo. Fazemos parte do Brics. São muitos pontos positivos a serem considerados.

Enfim, penso que votar na Dilma, hoje, mesmo com todos os problemas, sem me achar dono da verdade ou senhor da razão, trata-se de um ato de altruísmo. É se colocar no lugar de milhões de pessoas que deixaram as mazelas da ditadura militar e governos reacionários que antecederam o modelo de gestão atual, alcançando um mínimo de dignidade e qualidade de vida.

(Gustavo Matheus, jornalista, blogueiro e presidente municipal do PV)

 

Joca MuylaertNo primeiro turno das eleições presidenciais, defendemos a candidatura e caminhamos com o Eduardo Jorge. Certos estávamos antecipadamente de que ele desenvolveria a importante tarefa de representar e apresentar — principalmente aos jovens — os principais pontos programáticos do Partido Verde. Temas jamais levados aos debates entre candidatos à presidência da República foram abordados e debatidos democraticamente, desnudando uma realidade de hipocrisia e resistência às minorias que ainda assola este país.

Para o segundo turno, a executiva nacional Verde se reúne e opta por Aécio — amparada nas congruências entre os programas de governo apresentados pelo PV e pelo candidato oposicionista do segundo turno, com grande destaque para a reforma política, exterminando o financiamento privado de campanhas, a redução da jornada de trabalho e, principalmente, as questões ligadas à sustentabilidade e ao meio ambiente.

Mas o clamor das massas não pode ser esquecido. O Brasil foi às ruas e clamou por mais transparência, educação, saúde, transporte, segurança… Disseram um não contra aquilo representado pelo governo atual, envolvido em embaraçosos problemas de ordem ética e moral. Ouvindo as ruas e em função da minha responsabilidade com um amanhã mais verde e amarelo, de verdade, votarei no candidato da oposição neste segundo turno.

(Joca Muylaert, jornalista, blogueiro e coordenador regional do PV)

 

 

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Datafolha mantém Dilma à frente em empate técnico com Aécio: 52% a 48%

Datafolha4 2º turno (1)

 

Pesquisa Datafolha divulgada nesta quarta-feira (22) aponta os seguintes percentuais de votos válidos no segundo turno da corrida para a Presidência da República:

– Dilma Rousseff (PT): 52%
– Aécio Neves (PSDB): 48%

Para calcular esses votos, são excluídos da amostra os votos brancos, os nulos e os eleitores que se declaram indecisos. O procedimento é o mesmo utilizado pela Justiça Eleitoral para divulgar o resultado oficial da eleição.

A pesquisa foi encomendada pelo jornal “Folha de S.Paulo”.

De acordo com o Datafolha, na reta final da eleição, os candidatos continuam empatados, no limite da margem de erro, de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

No levantamento anterior do instituto, divulgado no dia 20, o resultado foi o mesmo: Dilma tinha 52%, e Aécio, 48% dos votos válidos.

 

Votos totais

Se forem incluídos os votos brancos e nulos e dos eleitores que se declaram indecisos, os votos totais da pesquisa estimulada são:

– Dilma Rousseff (PT): 47%
– Aécio Neves (PSDB): 43%
– Em branco/nulo/nenhum: 6%
– Não sabe: 4%

Segundo o Datafolha, 82% dos eleitores de Dilma acham que a presidente será reeleita. Entre os eleitores de Aécio, 78% acham que o tucano será o vencedor neste segundo turno.

 

Segmentos sociais

Nos segmentos sociais, a pesquisa confirma avanços da petista entre as mulheres, que tem a preferência de 47%; e no grupo das pessoas que recebem entre dois e cinco salários mínimos, com 45% de preferência.

No Sudeste, Dilma tem a preferência de 40% dos eleitores entrevistados.

O instituto ainda perguntou se o eleitor tem grande interesse pela eleição e 50% responderam sim, contra 39% do registrado no fim de agosto.

 

Economia

O Datafolha detectou que os eleitores não estão mais tão pessimistas com a economia do país e que esse sentimento ajuda a explicar a reação de Dilma na corrida presidencial neste segundo turno.

De acordo com a pesquisa, 31% acham que a inflação vai aumentar –  esse índice é inferior aos registrados em setembro, de 50%, e em abril, de 64% -; 35% disseram que a inflação ficará como está; e para 21% dos entrevistados, a inflação vai diminuir.

Com relação ao desemprego, 33% acham que vai ficar estável; 31%, reduzir; e 26%, aumentar. E ainda: 44% responderam que a economia do país vai melhorar; 33%, que vai ficar como está; e 15%, piorar.

 

Agressividade

O Datafolha também perguntou ao eleitor sobre a agressividade na campanha eleitoral: 71% criticaram a agressidade. Para 36% dos eleitores, Aécio é o mais agressivo neste segundo turno. 24% acham que Dilma é a mais agressiva.

O Datafolha ouviu 4.355 eleitores no dia 21 de outubro em 256 municípios. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O nível de confiança é de 95%. Isso significa que, se forem realizados 100 levantamentos, em 95 deles os resultados estariam dentro da margem de erro de dois pontos prevista. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-01160/2014.

 

 

Publicado aqui, no G1

 

Atualização às 11h20: Aqui e aqui, os jornalistas Sérgio Mendes e Cilênio Tavares, respectivamente, já tinham publicado a nova pesquisa Datafolha

 

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Ponto final — Na incerteza entre Dilma ou Aécio à frente, para governador, só milagre

Ponto final

 

 

Dilma ou Aécio na frente?

Depois que o Datafolha divulgou sua última pesquisa na segunda-feira, primeira no segundo turno a registrar a presidente Dilma Rousseff (PT) na frente, com 52% dos votos válidos, contra 48% de Aécio Neves (PSDB), ontem foi a vez do desconhecido instituto Veritá dizer que é o tucano quem lidera a corrida presidencial, com 53,2% dos votos válidos, contra 46,8% da petista. O Datafolha ouviu 4.389 pessoas no mesmo dia 20 em que foi divulgada, enquanto o Veritá ouviu 7.700 eleitores entre os dias 17 e 20.

 

Pró-Dilma

Na comparação das últimas duas pesquisas presidenciais do Datafolha, respectivamente nos dias 15 e 20 deste mês, o quadro estaria se alterando favoravelmente a Dilma não só nas intenções dos votos válidos (de 49% a 52%), como na aprovação de seu governo: de 40% que consideravam sua gestão ótima ou boa, o índice aumentou para 42%. Ademais, enquanto a presidente abaixou sua rejeição de 42% para 39%, Aécio aumentou a sua de 38% para 40%, ultrapassando Dilma no quesito negativo, também pela primeira vez, incluídas as pesquisas do primeiro turno.

 

Pró-Aécio

Embora apontem claramente uma tendência de queda de Aécio e crescimento de Dilma, todos os índices favoráveis à presidente não ultrapassaram o empate técnico com seu adversário, na margem de erro do Datafolha de dois pontos percentuais para mais ou menos. Porém, a vantagem de Aécio no Veritá é superior à margem de erro do instituto, de 1,4 ponto, não só na liderança oposicionista de 6,4 pontos nos votos válidos, como também na rejeição, na qual o tucano teria apenas 39,1%, contra 46,1% da presidente.

 

Dúvidas

Quando, no entanto, são comparadas o conhecimento e credibilidade do Datafolha, diante do obscuro Veritá, a vantagem ultrapassa qualquer margem de erro a favor da pesquisa liderada por Dilma. Todavia, na comparação da última consulta Datafolha no primeiro turno com o resultado das urnas de 5 de outubro, a credibilidade do instituto paulista já conheceu melhores dias.

 

Certezas

Enquanto a pesquisa Datafolha divulgada em 3 de outubro deu 44% dos votos válidos a Dilma, ela só levou 41,59% nas urnas de dois dias depois. Ou seja, embora o instituto tenha projetado à presidente uma votação 2,4 pontos superior à que ela de fato teve, ficou dentro da margem de erro, que aceita diferença de até 4 pontos. Mas não foi de maneira nenhuma o caso de Aécio, para quem o Datafolha projetou 26% dos votos válidos, 7,5 pontos percentuais abaixo dos 33,55% do eleitorado que escolheram o candidato tucano no primeiro turno.

 

Novidades

Nestes quatro dias que nos separam das urnas do próximo domingo, o Datafolha programou divulgar novas pesquisas a governador do Rio e presidente, hoje e no sábado. Por sua vez, o Ibope, outro que andou errando muito no primeiro turno, projetou divulgar as suas novas amostragens, também a governador e presidente, na quinta e no sábado.

 

Debates e milagre

Nas dúvidas que sobreviverão mesmo após essas quatro novas pesquisas, a única certeza é que os debates da Globo, a governador na quinta e a presidente, na sexta, podem ser decisórios, sobretudo entre Dilma e Aécio, onde tudo indica que a disputa será mais apertada do que a de Luiz Fernando Pezão (PMDB) e Marcelo Crivella (PRB). Com os 12 pontos de vantagem do governador, nos mesmos 56% contra 44%  repetidos na últimas consultas Datafolha e Ibope, o sobrinho de Edir Macedo e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus parece cada vez mais precisar de um milagre.

 

 

Publicado hoje na Folha

 

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Luta progressista se divide entre uma esquerda socialdemocrata e outra pré-64

Onça bebe água

 

 

Cineasta e jornalista Arnaldo Jabor
Cineasta e jornalista Arnaldo Jabor

A hora da onça beber água

Por Arnaldo Jabor

 

Dilma Rousseff: seu duro passado de militância e luta lhe deixou um viés de rancor e vingança, justificáveis. Ela foi uma típica “tarefeira” da VAR-Palmares e hoje, como tarefeira do PT, ela quer realizar o sonho de sua juventude. Por isso, quer estatizar o que puder na economia, restos de sua formação… (eu ia dizer “leninista”, mas é “brizolista”).

Seus olhos fuzilam certezas sobre como converter (ou subverter) a pátria amada. Petistas e brizolistas acham que democracia é “papo para enrolar as massas”, como já declarou um professor emérito da USP; ela idealiza o antigo “proletariado” e despreza a classe média “fascista”, como acha outra emérita professora.

Ela desconfia dos capitalistas e empresários, ela quer se manter no poder e virar o PT num PRI mexicano; ela finge ignorar a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria, ela ama o Lula, seu operário mágico que encarnou o populismo “revolucionário”.

Conheci muitas “dilmas” na minha juventude. As “dilmas” eram voluntariosas, com uma coragem irresponsável diante da muralha da ditadura. Professavam uma liberdade mais grave do que os hippies da época; era uma liberdade dolorosa, perigosa, sacrificial, suicida, sem prazer, liberdade e luta. Até respeitável.

Mas, para as “dilmas” e “dirceus” do passado, a democracia era uma instituição “burguesa”. Ela se considerava e se acha ainda “membro” (ou “membra”?) de uma minoria que está “por dentro” da verdade, da chamada “linha justa” que planejava um outro tipo de “liberdade” (Lenin: “É verdade que a liberdade é preciosa; tão preciosa que precisa ser racionada cuidadosamente”).

Ela se julgava e se julga superior — como outros e outras que conheci (inclusive eu mesmo — oh, delícia de ser melhor que todos; oh, que dor eu senti ao perder essa certeza…). Nós éramos os fiéis de uma “fé cientifica”, uma espécie de religião da razão que salvaria o mundo pelo puro desejo político — éramos o “sal da terra”, os “sujeitos da história”. Toda a luta progressista de hoje se trava entre a esquerda que amadureceu e ficou socialdemocrata e a esquerda que continua na ilusão de 63. A velha esquerda brasileira existe como nostalgia de uma esquerda que desapareceu.

Dilma foi executiva da comissão de frente que organizou a aliança de Lula com a liderança sindicalista pelega e com a direita mais vergonhosa do País, liderada por Sarney et caterva. Como era “trabalhadeira”, Lula se impressionava com ela (ele que odeia o batente) e transformou-a em um “poste” que se revelou persistente no erro, com a típica burrice dos teimosos.

E aí ela começou a governar com um medidas e táticas pretensamente “socialistas” em um país capitalista. Dá em bolivarianismo, esse terror contra o povo da Venezuela.

A “claque” sindicalista que subiu ao poder nunca desistiu de seus planos; suas mentes são programadas para repetir as mesmas táticas. A esquerda velha continua fixada na ideia de “unidade”, de “centro”, de Estado-pai, ignorando a intrincada sociedade com bilhões de desejos e contradições.

Muitos riquinhos e mauricinhos hoje dizem que votam na Dilma porque ela seria “contra a pobreza”. Não sabem de nada, tinham 10 anos quando FHC fez o Plano Real contra a vontade do PT e seus aliados. Hoje, esses mauricinhos se dão ao luxo de se sentirem de “esquerda”, antes de irem para a balada.

São absolutamente ignorantes sobre política e acham o PT um partido de “esquerda”, quando é claramente de “direita” (“É a economia, estúpidos!” — James Carville, assessor do Clinton contra Bush).

O povão do Bolsa Família não pode entender isso, mas esses babacas que estudaram deviam ser menos primitivos. Os petistas dão graças a Deus que muitos de seus eleitores não sabem ler. Por exemplo, eles não têm ideia do que seja o escândalo da Petrobrás e do aparelhamento do Estado cleptomaníaco que foi montado. Não entenderam nem o mensalão, pois, como disse o Lula, “povo pensa que dossiê é doce de batata”. Votarão no escuro de suas vidas. Como se explica isso?

Resposta: o País tem um movimento “regressista” vocacional. O verdadeiro Brasil é boçal, salvacionista, para gáudio dos seus exploradores. E o PT aproveita.

A crescente complexidade da situação mundial na economia e na política os faz desejar um simplismo voluntarista que rima bem com o fundamentalismo islâmico ou com a boçalidade totalitária dos fascistas: “complexidade é frescura, o negócio é radicalizar e unificar, controlar, furar a barreira do complexo com o milagre simplista” (Lenin: “Qualquer cozinheiro devia ser capaz de governar um país”).

O Plano Real e uma série de medidas de modernização que abriram caminho para a economia mundial favorecer-nos são tratados como se fossem uma política do governo atual, que só fez aumentar despesas públicas e inventar delírios desenvolvimentistas virtuais. Não houve um lampejo de reconhecimento pelo país que FHC deixou pronto para decolar e que foi desfeito (Stalin: “A gratidão é um sentimento de cachorros…”).

Nesta eleição, não se trata apenas de substituir um nome por outro. Não. O grave é que tramam uma mudança radical na estrutura do governo, uma mutação dentro do Estado democrático. Querem fazer um capitalismo de Estado, melhor dizendo, um “patrimonialismo de Estado”. Para isso, topam tudo: calúnias, números mentirosos, alianças com a direita mais maléfica.

Não esqueçamos que o PT não assinou a Constituição de 88, combateu a Lei de Responsabilidade Fiscal, foi contra o Plano Real para depois roubá-lo como se fosse obra do Lula. Alardeiam coisas novas que “vão fazer”, se eleitos de novo mas, pergunta-se: por que não fizeram nada durante doze anos?

É isso aí, bichos… Se Dilma for eleita, teremos o início de um bolivarianismo “cordial”.

 

Publicado aqui, no Estadão

 

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Marcelo Freixo declarou voto a Dilma. O recado das ruas de 2013: deixa pra lá

recado das ruas

 

 

Jornalista e escritor Guilherme Fiuza
Jornalista e escritor Guilherme Fiuza

Heróis do mensalão tentam sobreviver ao petrolão

Por Guilherme Fiuza

 

Luiz Inácio da Silva está de saco cheio — nas palavras dele, naturalmente. Caprichando no timbre pré-histórico que o Brasil consagrou, Lula atacou mais uma vez o denuncismo da imprensa burguesa, que fica publicando coisas desagradáveis sobre a Petrobras. O ex-presidente em exercício disse que não aguenta mais a mesma coisa em toda eleição. De fato, se não fosse essa mídia golpista a serviço da elite branca, os companheiros poderiam continuar a roubar a maior empresa brasileira de forma silenciosa e discreta, sem esse falatório todo que só atrapalha os bons negócios privados feitos dentro da estatal (abaixo da camada pré-sal).

O mais estranho de tudo é que, pelo cenário da corrida presidencial, parece que o eleitorado começou a acreditar nas manchetes da imprensa golpista — um absurdo, pois Lula já cansou de avisar aos brasileiros para não acreditar no que sai na mídia.

Eles nunca acreditaram, como se viu na reeleição dele em pleno mensalão e na eleição da sucessora, em pleno escândalo Erenice Guerra. Para corrigir essa perigosa distorção, segue um retrato do segundo turno da eleição mais surpreendente da história em manchetes elaboradas especialmente para não transbordar o saco de Luiz Inácio:

O presidente dos Correios que distribui panfletos de Dilma é ligado ao tesoureiro do PT que está no petrolão. Vote 13 pela coerência.

Dilma calou os críticos. Mesmo com os preços de energia amordaçados, ela acaba de estourar o teto da meta de inflação. Pensam que é fácil?

O despachante de José Dirceu na Papuda, e governador do DF nas horas vagas, não foi nem ao segundo turno. Infelizmente, há unhas que nem Delúbio desencrava.

Fantasmas do passado assombram a elite vermelha (aterrorizada com a ideia de ter de trabalhar a partir de 2015).

A Bolsa subiu, o dólar caiu, as ações da Petrobras dispararam. Volta, Dilma!

Com a boa votação de Luciana Genro, o Brasil enfim discutirá a sério a reforma agrária, o imperialismo ianque e, quem sabe, até as Diretas Já.

Marcelo Freixo, o revolucionário do bem, já declarou seu voto para Dilma. O recado das ruas em junho de 2013, portanto, foi o seguinte: deixa pra lá.

Lá vem a direita gritar que mais um petista (ligado ao governador eleito de MG, Fernando Pimentel) foi pego com uma montanha de dinheiro. Pura inveja da elite vermelha. Eduardo Jorge apoia Aécio e pira o GPS dos bonzinhos. Fica a dica: a esquerda éado relógio, e a direita a da caneta.

Falando em pureza, Luciana Genro liberou seus fiéis para votar em Dilma. Pela margem de erro, os puros poderão escolher de Collor a Sarney.

Mantega diz que Armínio cortará programas sociais. É verdade. O Bolsa Ministro Ocioso, por exemplo, desaparecerá.

Delatores revelam: Vaccari, tesoureiro do PT, regia o petrolão. Delúbio está morrendo de ciúmes.

Armínio ao PT: “Comparações com FH precisam ser mais honestas”. Pedir honestidade ao PT? É um fanfarrão, esse Armínio.

O Brasil aguarda ansiosamente o manifesto dos intelectuais de esquerda em defesa da Petrobras e dos heróis que fizeram dela um anexo do PT.

Dilma diz que o petrolão só apareceu porque ela investigou. As cabeças cortadas também só apareceram porque o Estado Islâmico filmou.

Dilma disse que acha “muito estranha” a história contada pelos delatores da Petrobras. Bota estranha nisso, presidenta.

Dilma denuncia: divulgação dos podres da Petrobras é golpe. Cadê o manifesto dos intelectuais petroprogressistas contra o novo golpe da elite branca?

E os sonháticos… Cada vez mais erráticos. Nenhuma surpresa. A coletiva de Marina pós-eleição parecia um almoço de domingo. Haja poesia.

Um lembrete: nenhum jornalista, cientista político ou tucano genérico apostou em Aécio. Diziam que ele não batia no PT e estava no tom errado.

Aécio esterilizará as nordestinas (essa manchete é para poupar trabalho à central de inteligência dos companheiros).

Dilma reclamou das delações na Petrobras em época de eleição. É mesmo um absurdo. Mas roubar a empresa está liberado em qualquer época.

Se você também não suporta mais ver o filho do Brasil de saco cheio em véspera de eleição, siga @GFiu-za_Oficial: a política brasileira em manchetes que não ardem nos olhos e não irritam a alma sensível dos companheiros (só um pouco).

 

Publicado aqui, no Blog do Murilo

 

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Você vota em Aécio ou Dilma? Por quê?

José PaesNão desconheço, nem desmereço os avanços sociais do governo do PT nos últimos 12 anos, muitos deles possibilitados, aliás, pelas tortuosas, porém necessárias reformar levadas a cabo pelo governo FHC. Mas isso não me impede de enxergar que a presidente Dilma e o PT não dispõem, no atual momento vivido pelo país, de atributos técnicos e morais para realizar as reformar necessárias para que o Brasil, além de continuar avançando, não jogue fora as conquistas duramente obtidas desde a redemocratização.

É preciso estimular a economia, principalmente a indústria. Também é necessário tratar com mais transparência e responsabilidade do orçamento público, para que o país retome a confiança dos mercados. É preciso construir um Estado mais enxuto e eficiente, reduzindo número de ministérios e cargos comissionados.

Pelo histórico do candidato tucano a frente do governo de Minas, onde terminou o mandato com 92% de aprovação, pela sua equipe de governo, em especial na economia, já anunciada e pela minha afinidade com os conteúdos programáticos do PSDB, talvez eu tenha em Aécio um dos meus votos mais convictos nessa eleição.

(José Paes, advogado e presidente do Observatório Social de Campos)

 

Adriano Moura2Durante a administração do PT, o ensino público federal obteve muito mais investimento do que em qualquer outro. Foram criadas milhares de vagas nas escolas técnicas e nas universidades públicas, e educação para mim sempre foi prioridade. No governo Lula/Dilma presenciei uma série de escândalos de corrupção, mas os presenciei também durante a gestão do FHC. A diferença é que na do PT, grandes lideranças do partido foram julgadas, condenadas e presas segundo legislação vigente. Voto em Dilma Rousseff porque continuo acreditando mais em sua política do que na outra, e não se pode acusá-la de crimes. Infelizmente ela não foi onisciente o suficiente para impedir que seus subordinados os praticassem. Programas como Bolsa Família, Pró-Uni, Ciências sem fronteiras, as cotas raciais, “Minha Casa Minha Vida”, não são programas de acomodação, mas de inclusão comuns em qualquer país onde ainda imperam desigualdades. Inclusão daqueles que, mesmo trabalhando, não conseguiriam comprar uma casa própria ou cursar uma universidade particular, quando não conseguisse vaga numa pública. Essas “ações afirmativas” devem ser temporárias, mas só o serão quando entendermos que enquanto houver gente do lado de fora da vitrine, haverá miséria e violência. Penso que como estão sendo feitas ainda não é o ideal, mas o PT até agora foi o único partido a priorizar essas ações.

 (Adriano Moura, professor, escritor e dramaturgo)

 

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Bispos de Campos advertem sobre “agrupação religiosa que visa um projeto de poder”

Os dois bispos da Igreja Católica Romana em Campos, Dom Roberto Francisco Ferreria Paz e Dom Fernando Arêas Rifan, emitiram um comunicado orientando seus fieis a refletirem sobre seus votos na próximo domingo, no segundo turno das eleições a presidente da República e a governador do Rio. Em relação à esta última, tudo indica que os católicos assumiram seu posicionamento contrário à candidatura do senador Marcello Crivella (PRB), sobrinho do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) e proprietário da TV Record:

— Um dos candidatos que concorre ao governo do Estado, pela sua vinculação a uma agrupação religiosa que visa um projeto de poder, que se comporta de forma intolerante com as religiões e aparelha as Instituições Públicas, constitui um sério risco.

Confira abaixo a nota em sua íntegra:

 

Bispos advertem

 

 

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Você vota em Dilma ou Aécio? Por quê?

Gustavo SoffiatiEleitor de candidatos do Psol em todas as esferas do Legislativo e do Executivo no primeiro turno, por coerência, para presidência, voto agora no PT. Falando especificamente como professor do ensino público, o que o PSDB fez em Minas ocorre em nosso Estado: orientados basicamente pela aprovação dos estudantes, lá e aqui, os tais planos de metas para gratificar ou não escolas e servidores, não garantem o aprendizado, mostrando uma qualidade que só existe nas estatísticas. Nos últimos 12 anos, quem vivenciou a evolução da rede federal de ensino ou chegou a ela, saindo das estaduais fluminense ou mineira, embora longe do melhor dos mundos, aterrissou noutro planeta, em termos de investimentos em estrutura física, carreira dos servidores e formação de alunos. Falando de forma geral, num período de crescimento do reacionarismo, entendo que a manutenção e a ampliação de importantes programas sociais e políticas de valorização do serviço público e de expansão de direitos humanos, que contemplam todos os segmentos da sociedade, só podem ser garantidas por Dilma Rousseff. Mesmo sabendo que por meio de incansáveis reivindicações conduzidas por setores progressistas, que, com a presidenta reeleita, negociariam com maior êxito.

(Gustavo Landim Soffiati, professor de História e Ciências Sociais)

 

Gustavo Oviedo1O Brasil vive um ciclo virtuoso em termos institucionais, econômicos e políticos. E, para mim, esse ciclo teve inicio em 1994. Portanto, vejo que a polarização entre o PSDB e o PT significa uma escolha entre o que há de melhor na política nacional. Escândalos de corrupção não são determinantes como critérios de indignação — nenhum partido é virgem nesse sentido. Assim, fico fora da demonização de uns e a santificação dos outros. Por sua vez,  no que diz respeito às propostas, ambos grupos dizem que irão melhorar o que já está. Não há posicionamentos diferenciados, praticamente, sobre nenhum assunto (para bem e para mal). Em definitiva, trata-se de eleger entre duas opções cuja oscilação desde o centro é mínima — apenas os militantes acreditam que o PSDB é a direita e o PT, o socialismo. Entretanto, a tentação autoritária se acrescenta na medida em que se permanece no poder, e o PT já está dando mostra disso, através de bolivarianismos como o controle social da mídia, intervenção de movimentos sociais na gestão de governo, e um crescente desprezo pela classe média. Tudo isto permanecia latente em certos setores radicais do PT, mas, depois de 12 anos, começa a permear nos moderados.  Por isso vou de Aécio. Nada como a alternância para manter a sensatez na política.

(Gustavo Alejandro Oviedo, advogado e publicitário)

 

 

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Gesticulou em direção ao horizonte, tombando parte da sua cerveja

Leito do Paraíba do Sul no domingo de sol de ontem (foto de Valmir Oliveira - Folha da Manhã)
Leito do Paraíba do Sul no domingo de sol de ontem (foto de Valmir Oliveira – Folha da Manhã)

 

 

Jornalista e escritora Paula Vigneron
Jornalista e escritora Paula Vigneron

Um cândido Severino

Por Paula Vigneron

 

“E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina.” Severino Cândido. Quarenta e nove anos de idade. No próximo ano, o pernambucano completará 50. Com olhos verdes e emoção à flor da pele, ele saiu de Ribeirão, cidade de Pernambuco, em um caminhão. Não sabia para onde estava indo. Não sabia se conseguiria chegar. Apenas embarcou na carroceria do veículo para seguir viagem e buscar uma nova realidade. Em 1994, chegou a Campos dos Goytacazes, o maior município do interior do estado do Rio de Janeiro. Parou em um posto, na rodovia BR-101, em frente ao Hospital Ferreira Machado.

“Para onde tu vai?”, perguntou o caminhoneiro, que oferecera carona a Severino sem sequer conhecer o homem, na chegada a Campos.

Ao olhar ao seu redor e se deparar com uma cidade desconhecida, apesar de encorajado pela busca da promessa de uma nova vida, sentiu-se perdido. Não tinha casa, comida e família. Deixara os seus no distante Ribeirão para realizar os sonhos da juventude. Mas, ao pousar em solo campista, não sabia responder ao questionamento de seu companheiro. Olhou para o céu e viu a lua de São Jorge, que iluminava a planície goitacá.

“Eu vou para onde o dono daquela lua quiser”, afirmou, apontando para o céu.

“Então você vai para a minha casa”, convidou o caminhoneiro, levando consigo o novo colega e suas marcas de 29 anos de vida.

Com os olhos marejados, sobre um banco de areia à margem do rio Paraíba do Sul, Severino relembra a chegada a um local estranho, em um estado novo. “Conheço esse Brasil. Já passei por 16 estados. Aprendi a cultura e a culinária de cada lugar. Não sei ler. Se você me perguntar o que é um ‘o’, vou te responder que é a boca do copo”, e sorriu, apontando para a cerveja em sua mão. “O que você sabe por leitura, eu sei por ter vivido.”

Cercado por amigos campistas e pelo filho Gabriel, de 10 anos, que brincava no rio, Severino sorria ao reviver detalhes de sua história. Quando chegou a Campos, recebeu uma enxada e a possibilidade de trabalhar com corte de cana de açúcar. “Não aceitei. Fazia isso em Pernambuco e queria algo diferente. Aí virei metalúrgico. Trabalho com isso há 15 anos. Não tenho estudo, mas muita gente aprendeu comigo. Eles estão por aí, em empresas, e aprenderam tudo comigo”, conta, enquanto as lágrimas insistem em rolar pelo rosto cansado e sorridente.

O nordestino não se arrependeu de sua mudança para outra realidade. Os sonhos não se realizaram como era seu desejo, mas diz-se feliz e agradecido por tudo o que construiu nos últimos anos. “Já tive muito dinheiro. Cem reais, para mim, eram troco. O que você considera dinheiro, para mim, era somente troco. Perdi tudo. Sei que, um dia, Deus vai me restituir.”

Severino construiu família em Campos. Divorciado, o pernambucano tem seis filhos. “E eu tenho uma filha doutora”, grita para os amigos, com expressão de orgulho no olhar ao se lembrar da formação de uma de suas meninas. “Eu não estudei, mas ela é formada em Química. Nem mora aqui. Vive em Pernambuco e trabalha no Suape”, gesticulou em direção ao horizonte, tombando parte de sua cerveja.

Pouco antes, Gabriel, o filho caçula, de 10 anos, se aproximou e pediu ao pai para ir embora. Estava cansado por ter brincado durante tanto tempo nas águas do Paraíba. “Aqui, filho, pegue o seu chinelo e pode ir.” Severino, então, recomendou a um amigo que o entregasse com cuidado à ex-mulher, mãe da criança. “Ele e outros três nasceram aqui. Os outros, mais velhos, não”, revelou.

Ao observar para o Rio Paraíba do Sul, que enfrenta a pior seca dos últimos 90 anos, Severino se lembrou do seu Nordeste. Nada se assemelha ao que passou no estado. “Isso aqui é felicidade. Olho para o rio e fico alegre. Já passei fome, já passei sede. Você não sabe o que é ter que andar por mais de seis horas para conseguir um balde d’água. Sabe o que é ficar seis horas sem beber nada? Agora imagine o que é isso debaixo do sol”, recordou, limpando os olhos com as mãos calejadas. “Agora, é diferente. Se eu quero água, ando cinquenta metros e volto com ela para casa.”

“Sabe, menina, não tem gente com fome que não tenha alimentação na minha casa. Conheço vida, fome e sede. Você não sabe como é ver um pão e não poder comprar. Você não sabe como é a fome quando vê alguém comendo e não pode comer também. Ela aumenta. É muito triste.” Emocionado, o nordestino tenta, em vão, segurar as lágrimas. Olha para os lados ao respirar fundo em uma tentativa de conter a emoção.

Severino vive no terreno da Usina São João, em frente ao Paraíba. À noite, o metalúrgico vai ao rio para pescar e se distrair. Com a seca, transforma a areia, por onde corriam as águas do rio há pouco tempo, em um ponto de diversão. “É um lazer muito gostoso. Pode colocar no jornal que essa é a ‘área da Cabeça da Coroa’. Vamos oficializar como área de lazer aos domingos”, brincou, no momento da chegada da equipe ao local.

Em um gesto cordial, ao final da entrevista, o homem chamou-me para perto e sussurrou. “Quando você quiser alguma coisa, qualquer coisa, peça a Deus. É assim que tem que ser. E sempre em pensamento para ninguém ouvir”, ensinou-me. “Isso aqui, tudo isso aqui, é passageiro. Nada disso faz diferença na minha vida mais”, afirmou, ao esticar a mão para me cumprimentar, com o largo sorriso característico de um brasileiro que, apesar das dores, agradece sempre por mais um dia de vida.

 

Publicado aqui, no Recanto das Letras

 

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