Entre todas, a música do meu pai…

De um novaiorquino filho de judeus russos, Guershwin, na execução ao piano e regida por um filho de judeus ucranianos, Bernstein, o que mais de mais significante ouviu na vida um campista neto de português, fruto de celtas e judeus cristianizados, meu pai. Naquilo que é humano sobre quaisquer raízes, na tentativa de se unir o formalismo da erudição europeia com o improviso do lamento negro do blues e do jazz, a música preferida de Aluysio…

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Do que meu pai me ensinou a amar

“a ave do tempo
pouco espaço tem para voar
e a ave está a voar”

(bird)

asas

(p/ meu pai)

amarelo de van gogh
blues me impele a pintar
chuva estala dedos na batida
e água escorre na telha
entre as teclas do sax

solo sonhado
nos sonos do samurai
como o bardo
como édipo rei
pra quem matar é traição

torrente verte mais forte
sobre idolatria de papel
que molha, seca
mas se escreve todo dia
até o sol nascer

campos, 13/10/98

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Aluysio Barbosa — Missa de 1 ano na quinta

reencontro em kioni

(p/ aluysio e ernest)

no porto, da linha em riste
às mãos gretadas do grego
emergiu do azul o dourado
à beira do píer de pedra
na baía nordeste de ítaca

fisgado das entranhas o outubro
outono, pelo anzol do verão
morte na vida do pescador
e mais quem um pai me contou
— cavalo de tróia das iscas

olhos traduzidos a surdo
testemunharam a luta do peixe
mudo, com sangue nas guelras
carnações da ilha de odisseu
da última respiração de laerte

campos, 12/11/12

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Para a Alemanha ditar os rumos da Europa, sem guerras, bastaria o euro

Paulo Guedes, economista

Tempos difíceis

Por Paulo Guedes

Sob a pressão de uma carnificina sem fim, dois impérios — o austro-húngaro e o otomano — se dissolvem completamente, o kaiser alemão perde seu trono e o czar da Rússia e sua família inteira são executados. Mesmo os vitoriosos se tornam perdedores: a Inglaterra e a França contam mais de dois milhões de homens mortos e terminam a guerra com enormes dívidas. A magnitude da tragédia foi muito além do imaginável, em dimensões jamais experimentadas pelos europeus: mais de 35% dos alemães entre 19 e 22 anos e metade de todos os franceses entre 20 e 32 anos foram mortos na I Guerra Mundial , o grande choque que deveria trazer O fim de todas as guerras (2011), como relata Adam Hochschild.

A grande guerra foi uma monstruosa aberração cultural, o resultado de um incontrolável e imprudente impulso dos europeus de se tornarem uma sociedade guerreira. Podemos ver Clausewitz como o ideólogo desse cataclísmico episódio , diagnostica John Keegan, em Uma história da guerra (1994). Dois milhões de alemães não podem ter caído em vão. Nós não perdoaremos, nós exigimos vingança , fulminava Adolf Hitler menos de quatro anos após o fim da guerra. A derrota deflagrou uma sequência de eventos desastrosos sobre a Alemanha. As reparações de guerra e perdas territoriais pelo Tratado de Versalhes, uma hiperinflação, a violência política, os impactos da Grande Depressão e a ascensão dos nazistas.

O III Reich chegou ao poder em 1933 sobre as ruínas da República de Weimar, primeira e malsucedida tentativa de regime democrático na Alemanha. A guerra radicalizou a política, com revolucionários comunistas à esquerda e bandos armados como Os Capacetes de Aço e As Brigadas Livres à direita. A democracia alemã, improvisada na esteira da derrota militar, jamais teve a chance de se estabelecer sobre fundamentos estáveis , registra Richard Evans, em O III Reich no poder (2005), segunda obra de sua monumental trilogia.

Com o espírito de Bismarck, com Parsifal e Sigfried de Wagner, com a guerra total de Clausewitz, com o ressentimento por Versalhes, com o homem superior de Nietzsche e sob o comando do Führer, a Alemanha dominaria a Europa. Aqueles foram tempos terríveis. Com a morte das ideologias, para a supremacia econômica dos alemães teria bastado criar o euro.

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Importa o lado de uma ditadura?

Denis Lerrer Rosenfield, professor de filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Denis Lerrer Rosenfield, professor de filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Eles gostam mesmo é de uma ‘boa’ ditadura

Por Denis Lerrer Rosenfield

O uso equivocado ou dúbio de palavras não apenas dificulta a compreensão como é potente fator de desorientação da ação humana. Quando mal conceitualizamos um evento, tanto menos somos capazes de entender o que está acontecendo. Os juízos moral e político ficam sem parâmetros, ziguezagueando ao sabor das conveniências ideológicas.

Um caso particularmente relevante concerne ao modo mediante o qual o dito “golpe” egípcio é avaliado e, para além dele, a como a diplomacia brasileira “compreende” o que vêm a ser os “progressos” da América Latina em sua vertente socialista, bolivariana. Ainda recentemente, o Brasil sediou o Foro de São Paulo, entidade esquerdista latino-americana, que se caracteriza pelo seu apreço a toda política liberticida, em nome, pasmem, de uma nova “democracia”. Gostam mesmo é de uma “boa” ditadura. Os representantes ideológicos do passado procuram se travestir de um manto politicamente aceitável, ferramenta para enganar os incautos.

A propósito do juízo político sobre os eventos do Egito, alguns analistas fizeram um uso muito curioso dos conceitos de “democracia” e “liberalismo”, como se lá tivesse ocorrido uma colisão entre ambos. Mais comezinhamente, deveríamos dizer que lá ocorreu um divórcio entre um resultado eleitoral e os que defendem direitos e liberdades, que vinham sendo usurpados por um governo islamista. Este, progressivamente, sufocava as liberdades, implantando sua particular interpretação dos valores islâmicos, os defendidos pela Irmandade Muçulmana.

Não convém esquecer que essa mesma organização religiosa foi a responsável pelo assassinato do presidente egípcio Anuar El Sadat, participou da fundação da al-Qaeda e apoia o terrorismo do Hamas na Faixa de Gaza. Aliás, o atual líder da al-Qaeda é também ele egresso da mesma Irmandade Muçulmana. As credenciais “democratas” deste “partido” são de difícil aceitação!

Há um problema conceitual de monta aqui envolvido. A democracia, assim entendida, viria a significar exclusivamente a realização de eleições e a adesão incondicional aos eleitos, como se, doravante, tivessem eles o “direito” de tudo fazer, estando a sociedade submetida ao seu arbítrio. A democracia seria um mero instrumento de conquista do Poder que, uma vez garantido, asseguraria aos seus detentores a prerrogativa de tudo decidir, sendo soberanos no sentido ilimitado do termo. Nenhuma lei os limitaria, salvo aquela de fachada que eles mesmos se outorgam. O próprio Poder Judiciário torna-se um mero joguete em suas mãos, nada decidindo verdadeiramente, devendo se subordinar aos ditames do Executivo.

Logo, os direitos individuais são abolidos, valores burgueses nos dizeres bolivarianos, valores ocidentais nos dizeres islamistas. As liberdades são progressivamente sufocadas, em nome desses “outros” valores socialistas/islamistas segundo os casos, com o Estado aspirando por todos os poros mediante os quais uma sociedade respira. Normalmente, os seus alvos mais diretos são os grupos de mídia e imprensa, pois quem procura impor os seus valores e ideias tem como objetivo eliminar toda liberdade de expressão. Não espanta, pois, que advoguem por uma “democratização dos meios de comunicação”, que é uma forma velada de controlar as cabeças das pessoas e, por meio delas, a sociedade em geral. Ainda no Foro de São Paulo, o presidente Evo Morales julgou — na ausência de juízo que o caracteriza — que “sobra” liberdade de imprensa na América Latina. Ou seja, o que “sobra” é o que ainda não conseguiram eliminar. Teve a adesão dos “companheiros”.

Se a democracia é definida apenas em termos eleitorais, ela é reduzida a uma de suas condições, eliminando todas as outras. A própria alternância de Poder termina por não ocorrer, pois os que detêm as rédeas de comando da máquina do Estado eliminam tal possibilidade. Medidas arbitrárias são tomadas contra os opositores, tratados como se criminosos fossem. São comuns os processos contra os que se rebelam contra tal situação, uma vez que são tidos por inimigos a serem aniquilados.

A liberdade de imprensa, condição fundamental de toda sociedade livre, vê-se confrontada a restrições crescentes, como vemos na Venezuela, com empresas sendo fechadas ou vendidas a “empresários” amigos. Observe-se, neste sentido, a nova lei de controle da imprensa e dos meios de comunicação que acaba de ser aprovada no Equador, doravante submetidos ao governo, que passará a agir por intermédio de “censores legais”.

Nos países bolivarianos, a “democracia” está sendo instrumentalizada para a implementação de seu projeto socialista, destroçando as liberdades, destruindo as instituições, inviabilizando as oposições, calando os meios de comunicação e implantando a dominação do “Líder máximo” e de seu partido. Embora ditos não religiosos, sua ideologia se caracteriza por concepções teológico-políticas. No caso do presidente Maduro, da Venezuela, não lhe falta nem sua comunicação espiritual como ex-protoditador Chávez, que “fala” com ele através de uma “pomba”. É um homem abençoado, particularmente bem aventurado!

Acrescentem-se as restrições impostas pelos que procuram impor normas religiosas ao conjunto da população, mediante o controle absoluto dos costumes, atingindo mulheres e homossexuais, para que se tenha uma melhor visão de como a democracia é, assim, pervertida. Ou seja, os que dissociam democracia de liberalismo, dizendo defender a primeira, possuem um forte pendor liberticida. Mascaram-no, porém, ao atribuírem ao liberalismo uma característica não democrática.

Eis o contexto ideológico no qual se move a diplomacia brasileira, acatando todas as medidas liberticidas dos países bolivarianos e islâmicos, conivente com os desmandos que lá ocorrem de subversão da democracia por meios democráticos. O país termina se alinhando à escória mundial em nome da democracia e, os mais afoitos, em nome da luta contra o neoliberalismo. O Foro de São Paulo é a sua celebração!

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Gigante Brasil dormiu cedo demais


O gigante dormiu. De novo. Chamem Francisco!

Previdente, esse rapaz. Sabe onde pisa. Como relator do novo Regimento Interno do Senado, Edison Lobão Filho (PMDB-MA), no exercício do cargo que seu pai, ministro das Minas e Energia, deixou vago, decidiu sumir com a palavra ética. Está no  Houaiss: “Ética é o conjunto de preceitos sobre o que é moralmente certo ou errado”. Moral “é o conjunto de regras de condutas desejáveis num grupo social”.

Há dentro do regimento um código de ética. É sobre ele que juram os parlamentares na hora em que tomam posse dos seus cargos. Se depender de Lobão Filho, a palavra desaparecerá do código. Afinal, o que é ética para você poderá não ser para ele, argumenta o senador. “A ética é uma coisa muito subjetiva, muito abstrata”. Daí… Daí que Lobão está sendo apenas realista. E menos hipócrita do que seus colegas.

Fraudar notas fiscais para justificar gastos com verba de gabinete é faltar com a ética ou não? E omitir da Justiça dinheiro recebido para pagar gastos de campanha? E embolsar grana por fora para votar como manda quem pode? E retardar a instalação de uma CPI à espera de que seus apoiadores desistam dela em troca de vantagens? É espantosa a quantidade de políticos que procedem assim impunemente. Quase todos.

Tem uma CPI prontinha no Senado destinada a se lambuzar com o mar de lama que escorre das obras da Copa do Mundo. Poderia estar funcionando. Mas Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, deu um tempo para que seus pares pensem melhor a respeito. Um pensou e tirou a assinatura: Zezé Perrela (PDT-MG). Outro, João Alberto de Souza (PMDB-MA), topa tirar desde que empregue um dos seus filhos no governo.

Cadê o gigante? Ele não havia acordado? Foi em junho último que manifestações diárias sacudiram o país. Num único dia, mais de três milhões de pessoas gritaram slogans, enfrentaram a polícia e algumas botaram para quebrar. Nunca os políticos temeram tanto o povo. A presidente da República falou à Nação. O Congresso prometeu aprovar em regime de urgência um lote de benfeitorias sob o título de Agenda Positiva.

Para aumentar o sufoco dos alvos preferenciais do gigante, o Papa Francisco passou uma semana entre nós dando lições de humildade. E antes de ir embora, aconselhou os jovens a irem para as ruas. O gigante ganhou na internet até a companhia de um canal exclusivo de televisão só para amplificar seus maus modos. No ar, a Rede Ninja! Pois cansado — quem sabe? — resolveu dormir outra vez. Para quê? Quanta preguiça!

O que a presidente propôs para amansar o gigante fracassou — reforma política, constituinte exclusiva, plebiscito ou mesmo referendo, dois anos a serviço dos mais pobres para quem desejasse se graduar em medicina. O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) qualificou de engodo o pacote de promessas do Congresso concebido sob medida para entorpecer o gigante. Desde então ministros e políticos voaram nas asas da FAB e ofereceram caronas a amigos e parentes. Amarildo desapareceu.

A cara de bom moço do PSDB foi seriamente desfigurada pelo escândalo das licitações de trens dirigidas. O lobista do PMDB na Petrobras chocou o distinto público com suas histórias medonhas. Uma delas sobre dinheiro para a campanha de Dilma. Outras, que aguardam publicação, sobre gente só um tico menos graúda do que Dilma. Os Ninjas estão na berlinda de castigo tamanha é a série de depoimentos que abalou sua reputação.

Gigante esquisito, esse. Faz o maior auê, sai de cena de mãos vazias e se recolhe para pegar no sono. Não, meu caro, não é hora de deitar em berço esplêndido.

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