Se gritar pega ladrão, o governo Bolsonaro fica?

 

Presidente Jair Bolsonaro e seu líder na Câmara Federal, o deputado do Centrão Ricardo Barros

 

“Se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”. Era a convenção nacional do PSL, em 22 de julho de 2018, quando o general da reserva do Exército Augusto Heleno cantou sua paródia da música “Se gritar pega ladrão”, do sambista Bezerra da Silva. Em 2018, o bloco fisiológico de partidos de centro-direita e direita, ao qual Jair Bolsonaro (hoje, sem partido) sempre pertenceu em seus 30 anos de vida parlamentar, apoiava o presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB). Mas o Centrão pulou para Bolsonaro antes mesmo do primeiro turno, quando as pesquisas deixaram claro que o candidato tucano não iria ao segundo. Como já tinha pulado antes dos governos Fernando Collor de Mello (hoje, Pros) e Dilma Rousseff (PT), que igualmente apoiaram, quando o impeachment de ambos se mostrou inevitável.

 

 

Em dois anos e meio de governo, Jair Bolsonaro (sem partido) vive sua pior fase. Que é atestada em todas as pesquisas. A mais recente, do Ipec, montado pela equipe do antigo Ibope, divulgou na madrugada de ontem que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem hoje 49% de intenções de voto, contra 23% do capitão. Como nenhum outro presidenciável chegou a dois dígitos e com 10% de brancos e nulos, mais 3% que não souberam ou quiseram responder, a consulta indica que Lula não é apenas o favorito ao pleito presidencial de 2022. Se fosse hoje, ele o venceria no primeiro turno.

 

(Infográfico: Poder 360)

 

Não cabe reproduzir o negacionismo bolsonarista das pesquisas. Até porque, quando elas favorecem o seu “mito”, como foi a pesquisa Datafolha de agosto de 2020, que registrou o aumento da aprovação popular do governo Bolsonaro, então de 37%, o pastor neopentecostal Silas Malafaia comemorou em postagem do Twitter: “A imprensa e os esquerdopatas piram com Bolsonaro! Como pode isso acontecer? Cinco meses de massacre na mídia e Bolsonaro consegue sua maior aprovação, segundo o Datafolha, desde sua eleição”. Depois, em linguagem imprópria a quem se diz “homem de Deus”, mas é reproduzida diariamente na Geena das redes sociais por ditos “cristãos”, arrematou: “Chupa essa manga cambada!”

 

 

O primeiro turno de 2022 tem data prevista para 2 de outubro. Está pouco mais de 15 meses distante da última pesquisa Ipec, com espaço para muita água passar por baixo da ponte, sob os céus do ex-governador mineiro Magalhães Pinto, famoso pela definição: “Política é como nuvem. Você olha e está de uma maneira. Olha de novo e ela já mudou”. E, para projetar o futuro, é recomendável olhar antes o passado. Desde que a instituição do segundo turno passou a existir nas eleições ao Executivo no Brasil, a partir da Constituição de 1988, apenas um presidente foi eleito em turno único: Fernando Henrique Cardoso (PSDB), em 1994 e 1998, batendo duas vezes Lula. Este, mesmo no auge da sua popularidade, em 2006, só conseguiu se reeleger presidente no segundo turno. Como havia sido eleito em 2002.

Assim como é relevante lembrar que, no encontro entre Fernando Henrique e Lula, promovido no dia 12 de maio por Nelson Jobim (MDB), ex-ministro dos dois ex-presidentes, o tucano disse que votaria no petista em um eventual segundo turno contra Bolsonaro. No que, se ocorrer, poderá ser seguido por aqueles que não acreditam na inocência de Lula. Mas, ainda assim, creem que o Supremo Tribunal Federal (STF) agiu correto ao definir na quarta (23) a parcialidade do ex-juiz federal Sergio Moro no julgamento e condenação do ex-presidente.

 

Ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, em enconntro promovido por Nelson Jobim, ex-ministro de ambos, em 12 de maio

 

São os 8,6 milhões de brasileiros que votaram nulo no segundo turno de 2018, entre Bolsonaro e o poste petista Fernando Haddad. Somados aos outros 31,3 milhões de eleitores que sequer apareceram para escolher entre as duas opções. Mas não estão mais dispostos a fazê-lo em 2022, pelo caos em que o eleito transformou o Brasil. Com volta da inflação e queda vertiginosa do poder de compra, desemprego galopante, ministro das Relações Exteriores demitido após se orgulhar por transformar o país em “pária mundial”, ministro do Meio Ambiente demitido por crimes ambientais e, sobretudo, os 509 mil mortos pela condução desastrosa da pandemia da Covid-19. Entre eles, 403.700 vidas perdidas de maneira absolutamente desnecessária, se fôssemos capazes de manter a média de óbitos pela doença no resto do mundo.

 

Covas abertas em Manaus para enterrar os mortos pela Covid (Foto: AFP)

 

A quem não é cúmplice do maior assassínio de brasileiros em meio milênio de História do Brasil, a CPI da Covid, longe de ser composta de santos, revelou as causas do inferno: busca dolosa de uma imunidade de rebanho por Bolsonaro, que se consiste em matar os fracos para que fortes sobrevivam assassinando sua humanidade; sua atuação como garoto propaganda de medicamentos comprovadamente ineficazes como a cloroquina, seu combate às medidas de restrição social adotadas por governadores e prefeitos, seu incentivo pessoal à aglomeração, ao não uso de máscara e ao questionamento das vacinas. E, quando finalmente foi obrigado a adotá-las, o fez rendido à corrupção do Centrão, que segura seus 130 pedidos de impeachment na Câmara Federal.

 

 

Na sessão tumultuada da CPI que se arrastou pela noite de ontem, só às 22h o deputado federal e bolsonarista raiz Luis Miranda (DEM/DF) revelou o nome por trás do escândalo de corrupção para comprar a vacina indiana Covaxin, não aprovada pela Anvisa: o deputado Ricardo Barros (PP/PR), do Centrão e líder do governo Bolsonaro na Câmara Federal. Velho conhecido do Ministério da Saúde, Barros ocupou a pasta no governo Michel Temer (MDB), quando foi investigado pelo Ministério Público Federal (MPF). Servidores de carreira denunciaram pressão para antecipar o pagamento de R$ 19,9 milhões à empresa Global, por medicamentos que nunca foram entregues.

 

Ministro da Secretaria Geral Onyx Lorenzoni e o coronel da reserva do Exército Elcio Franco, ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde, em coletiva na quarta (23), ameaçaram uma investigação da Polícia Federal sobre os irmãos Miranda, que denunciaram claros indícios de corrupção na compra da Covaxin. Onyx e Elcio, que pressionava pela compra, foram advertidos por membros da CPI da Covid que tentativa de coação de testemunha é crime passível de prisão

 

Agora, após o governo Bolsonaro ignorar mais de 100 tentativas da Pfizer para ofertar vacinas mais baratas e eficazes que a Covaxin, o coronel da reserva do Exército Elcio Franco, um dos militares colocados no Ministério da Saúde sob o “mito” da honestidade, pressionava o servidor de carreira Luis Ricardo Miranda para o pagamento antecipado de US$ 45 milhões pela Covaxin. Com sobrepreço de 1000%, em contrato total no valor de R$ 1,6 bilhão. Não direto da fábrica, como ocorrem com todas as demais vacinas no país, mas à atravessadora Madison Biontech, empresa com endereço fictício no paraíso fiscal de Singapura. Em contato intermediado no Brasil pela Precisa Medicamentos, empresa de Francisco Maximiano, sócio da Global investigado com Ricardo Barros no governo Temer. Líder de Bolsonaro na Câmara, Barros foi autor da emenda para a importação da Covaxin sem o aval da Anvisa.

 

Após receber ameaças de morte de bolsonaristas, o deputado federal bolsonarista Luis Miranda (DEM/DF) chegou ao Congresso para depor na CPI da Covid usando um colete à prova de balas

 

O servidor Luis Ricardo Miranda, que foi depor ontem na CPI após voltar dos EUA no avião que trouxe as vacinas Jansen ao Brasil, é irmão do deputado Luiz Miranda, que chegou ontem ao Congresso usando colete à prova de balas. Ele tinha proximidade pessoal com Bolsonaro suficiente para ser recebido, junto do irmão servidor, em um sábado, 20 de março, no Palácio Alvorada. Ao ouvir a denúncia, segundo os irmãos Miranda, o presidente informou: “Isso é coisa de Ricardo Barros”. Talvez por saber que não sobrevive politicamente sem o Centrão e que perdeu sua bandeira eleitoral contra a corrupção desde as “rachadinhas” do filho Flávio Bolsonaro (Republicanos), o chefe da nação nada fez. O que configura crime de prevaricação.

 

Levado pelo irmão deputado para apresentar suas denúncias, o servidor de carreira do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda postou foto com Bolsonaro nas redes sociais

 

Aos que creem que todo o eleitorado conservador e antipetista ainda é capaz de negar o inegável, como os lulopetistas no Mensalão e Petrolão, interessante observar as divisões dentro do próprio meio militar. Ao usar o Twitter como o “homem de Deus” Malafaia, o general da reserva do Exército Paulo Chagas lembrou do colega de farda Augusto Heleno. E postou em 16 de junho, antes de explodir o escândalo da Covaxin: “‘Se gritar pega Centrão, não fica um’! Independente de qualquer outra opinião, eu continuo acreditando nesta afirmação. O Centrão, hoje no controle geral da gestão pública, está a aprovar o salvo conduto para roubar. Parabéns! Nem no governo de Lula, o Ali Babá, eles foram tão longe!”

 

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Metade dos brasileiros acha o governo Bolsonaro ruim ou péssimo

 

(Foto: Evaristo Sá/AFP)

 

Metade do povo brasileiro, exatos 50%, considera o governo Jair Bolsonaro (sem partido) ruim ou péssimo. A avaliação negativa chega a 66% sobre o jeito do presidente governar. E sobe ainda para os 68% da população que declararam não confiar em Bolsonaro. Os dados são da pesquisa do instituto Ipec, divulgados hoje em toda a mídia nacional. A consulta foi feita de 17 a 21 de junho, ouvindo 2.002 pessoas em 141 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Bolsonaro ainda mantém 23% de brasileiros que consideram seu governo bom ou ótimo, enquanto 26% acham regular. Já os que aprovam o jeito do capitão de governar são 30%, com 4% que não souberam ou quiseram responder. Os que confiam no presidente são 30%, com 2% que não sabem ou quiseram opinar.

Em todos as avaliações, Bolsonaro apareceu com queda acentuada de popularidade. Na pesquisa anterior do Ipec, feita e divulgada em fevereiro, o presidente tinha 39% de ruim ou péssimo — índice negativo que cresceu significativos 11 pontos nos últimos quatros meses. Os que desaprovavam sua maneira de governar eram 58% em fevereiro, registrando agora o crescimento de oito pontos. Já os que confiavam no capitão eram 61%, subindo 7 pontos até este mês de junho.

Nos pouco mais de 15 meses que separam o eleitor das urnas presidenciais de outubro de 2022, muita coisa pode mudar. E, apesar do sangramento da sua popularidade, apontado em todas as pesquisas, Bolsonaro mantém uma base cristalizada que hoje o levaria ao segundo turno. Provavelmente com o ex-presidente Lula (PT), diante dos índices de intenção de voto abaixo dos dois dígitos dos demais presidenciáveis. Mas, com seu atual nível elevado de desaprovação, o presidente teria dificuldades para se manter pelo voto no Palácio do Planalto.

 

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Antecipado em novembro — Após Araújo, Bolsonaro perde Salles

 

Ex-ministros bolsonaristas Ernesto Araújo e Ricardo Salles (Foto: Arthur Max/AIG/MRE)

 

Cada vez mais acuado pela realidade, o bolsonarismo é obrigado mais uma vez a se curvar a ela. A nova vítima, agora à tarde, foi Ricardo Salles. Pelos crimes ambientais dos quais é investigado pela Polícia Federal, com inquérito pedido até pela Procuradoria Geral da República (PGR) de Augusto Aras e autorizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Salles foi obrigado a se demitir do cargo de ministério do Meio Ambiente do governo Jair Bolsonaro (sem partido). Desde que a pasta federal foi criada em 19 de novembro de 1992, nunca um ministro do Meio Ambiente no Brasil foi acusado por crimes na área que deveria defender.

Em 6 de novembro de 2020, este blog antecipou em um dia a vitória eleitoral de Joe Biden na eleição presidencial dos EUA, antecipando também o resultado final de 306 delegados contra os 232 do ex-presidente Donald Trump. Na postagem intitulada “Biden é o novo presidente dos EUA, Trump esperneia e Bolsonaro fica mais só”, as consequências foram projetadas abaixo do Equador: “Ao Brasil, cujo presidente Jair Bolsonaro se prestou a ecoar publicamente as denúncias de ‘fraude’ do seu ‘mito’, restam duas alternativas. Ou acerta o passo em sua política externa e na proteção ao meio ambiente, demitindo os ministros olavistas Ernesto Araújo e Ricardo Salles, ou o país se tornará um pária mundial”.

O alerta seria reforçado em outro texto de análise do blog, intitulado “EUA de Joe Biden e o Brasil de Jair Bolsonaro sem Donald Trump”, publicado em 30 de dezembro: “Enquanto comete sucessivos erros que atrasam também a vacinação da população brasileira contra a Covid, que até Trump tentou abreviar nos EUA, Bolsonaro pode ser obrigado a repensar a presença em seu governo de ministros negacionistas como Ernesto Araújo, nas Relações Exteriores, e Ricardo Salles, no Meio Ambiente”.

Pouco mais de quatro meses depois do primeiro aviso, Ernesto Araújo foi obrigado a se demitir do ministério das Relações Exteriores em 29 de março. E hoje, o que foi projetado inicialmente há sete meses, ao antecipar a vitória de Biden nos EUA, se confirma novamente com a demissão de Salles. Desde o último dia 18, Araújo passou à condição de investigado pela CPI da Covid, por sua atuação desastrosa na compra de vacinas contra a Covid-19 para o Brasil. O que, segundo infectologistas e epidemiologistas, pode ter custado a vida de centenas de milhares de brasileiros mortos desnecessariamente pela doença.

Por sua vez, como nem o ministério serviu para lhe dar proteção contra a investigação por ter atuado para facilitar os crimes de madeireiros ilegais no Pará, Ricardo Salles agora poderá ser julgado como cidadão comum. Além da sua atuação no ministério do Meio Ambiente ser considerada pelos ambientalistas tão desastrosa quanto a de Araújo nas Relações Exteriores, Salles se tornou mais conhecido quando foi exposto em vídeo de uma reunião ministerial de 22 de abril de 2020. Que foi denunciada pelo ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Na reunião, Salles sugeriu a Bolsonaro que o governo federal aproveitasse a atenção da imprensa à pandemia da Covid para “ir passando a boiada”, alterando regras de proteção ambiental.

 

 

Após receber um alerta de “bomba” do STF (confira aqui) do que está para vir contra seu agora ex-ministro, que poderia deixar ainda mais delicada a posição do governo, Bolsonaro foi obrigado a entregar sua cabeça. Foi um dia após o presidente ter elogiado publicamente o demitido de hoje (confira aqui), no lançamento ontem do Plano Safra, no Palácio do Planalto: “O casamento da Agricultura com o Meio Ambiente foi quase perfeito. Parabéns, Ricardo Salles!”

 

Tentando se segurar no cargo, Ricardo Salles acompanhou Bolsonaro e  Michelle em manifestação de 15 de março, em Brasília, mas acabou caindo do cavalo (Foto: Evaristo Sá/AFP)

 

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Eleição de 2022 e governo Wladimir no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Joseli Mathias)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta, o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o cientista político Vitor Peixoto, professor da Uenf. Ele falará sobre o retorno híbrido às salas de aula e o impacto da pandemia da Covid-19 na educação. Também analisará o quadro político nacional, tentando projetar as eleições de 2022. E, por fim, fará sua avaliação sobre os seis primeiros meses do governo Wladimir Garotinho (PSD) em Campos.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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De Garotinho prefeito em 1988 ao Código Tributário de Wladimir

 

 

Anthony Garotinho, Arnaldo Vianna, Rosinha Garotinho, Marcos Bacellar, Rafael Diniz, Wladimir Garotinho, Rodrigo Bacellar e Caio Vianna em 33 anos da história de Campos (Montagem: Joseli Mathias)

 

De 1988 ao Código (I)

Quem tem mais de 45 anos e se lembra da primeira eleição de Anthony Garotinho (hoje, sem partido) a prefeito de Campos, em 1988, recorda do sopro de renovação que ela trouxe a uma cidade conservadora. Encheu as velas de um governo criativo, composto em sua maioria de jovens com menos de 30 anos, no clima de esperança na redemocratização de um país saído de uma ditadura militar (1964/1985) e com uma nova Constituição. Bafejado pela sorte do começo da entrada dos recursos dos royalties no orçamento da cidade. Que sedimentaria a transição política na troca do eixo econômico da cidade, da cana para o petróleo.

 

De 1988 ao Código (II)

Os royalties a Campos cresceram gradativamente na década de 1990, em exata proporção às ambições do novo grupo político, cada vez mais individuais e menos de grupo. Após a tentativa frustrada de chegar a governador do Estado do Rio em 1994, Garotinho se elegeu prefeito de Campos novamente em 1996. E deixou seu vice, Arnaldo Vianna (PDT), governando a cidade, para se eleger ao Palácio Guanabara em 1998. Já o médico conceituado se manteve no Cesec no pleito de 2000. Em 16 de fevereiro daquele ano, seria o primeiro a receber, além dos royalties, as ainda mais polpudas Participações Especiais (PEs) da produção de petróleo.

 

De 1988 ao Código (III)

Após quase chegar ao segundo turno presidencial de 2002, quando errou ao queimar suas pontes políticas com o vencedor Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Garotinho conseguiu eleger sua esposa, Rosinha Garotinho (hoje, Pros), governadora no primeiro turno. Ao final da gestão estadual dela, já rachado com Arnaldo em Campos, brigaria também com os aliados estaduais Sérgio Cabral (MDB), Eduardo Cunha (MDB) e o hoje falecido Jorge Picciani (MDB), que dominaram a política fluminense até a Lava Jato. E, sem outra saída, trouxe a mulher para se assenhorar novamente da planície goitacá, em 2008, quando bateu Arnaldo.

 

De 1988 ao Código (IV)

Entre Arnaldo e Rosinha, no auge dos recursos do petróleo, a cidade foi governada por outro médico, Alexandre Mocaiber (hoje, fora da política). Era presidente da Câmara Municipal, quando o prefeito Carlos Alberto Campista (outro, hoje, fora da política) foi cassado pela Justiça. Eleito no pleito suplementar de 2006, Mocaiber foi um prefeito fraco, com pouco controle sobre o próprio secretariado e emparedado por um presidente da Câmara Municipal forte, o ex-vereador Marcos Bacellar (hoje, SD). Força que opôs com coragem aos Garotinho, mas foi insuficiente para impedir a volta destes ao poder, onde ficaram de 2009 a 2016.

 

De 1988 ao Código (V)

Com a queda vertiginosa do preço do barril de petróleo, no final de 2014, no segundo governo Rosinha, veio a época das vacas magras. Refletida na política daquele mesmo ano, quando Garotinho começou a campanha a governador favorito nas pesquisas, mas não conseguiu nem chegar ao segundo turno. Jovem vereador de oposição de brilho, Rafael Diniz (Cidadania) trazia a mística de ser neto do ex-prefeito Zezé Barbosa, liderança de Campos superada pelo Garotinho de 1988. Seria eleito no primeiro turno em 2016, com uma votação consagradora. Mas, sem recursos, seu governo naufragou também pelos próprios erros.

 

De 1988 ao Código (VI)

Além de neto de Zezé, Rafael trazia uma novidade. Foi o primeiro expoente promissor de uma geração de políticos que não foi sufocada, como as anteriores, pela gravidade política de Garotinho, pesada nas arrobas das vacas gordas do petróleo. Foram recursos que Campos nunca teve, desde a fundação da Capitania de São Thomé, em 1536. E dificilmente voltará a ter nos próximos 485 anos. Como Rafael, Wladimir Garotinho (PSD) teve um elogiável desempenho legislativo, como deputado federal. Que deixou para se eleger prefeito em 2020 com o objetivo político e pessoal de exceder a condição de filho de Garotinho.

 

De 1988 ao Código (VII)

Wladimir venceu o pleito de novembro ao bater, além do Rafael desidratado pelo insucesso administrativo, dois outros expoentes da mesma geração de políticos promissores: Rodrigo Bacellar (SD) — que teve o médico Bruno Calil (SD) de preposto — e Caio Vianna (PDT). Não por coincidência, dois herdeiros de adversários políticos de Garotinho: Marcos Bacellar e Arnaldo Vianna. Após conquistar a secretaria estadual de Governo, que a imprensa carioca deu como perdida, Rodrigo definiu a dúvida do vereador Maicon Cruz (PSC) aos 46 do segundo tempo. E, por um voto, colocou na gaveta da Câmara o Código Tributário de Wladimir.

 

De 1988 ao Código (VIII)

Além de Rodrigo, quem provou força na derrota parcial do Código foi o comércio. É o maior empregador do município, junto da Prefeitura. Político promissor ainda mais jovem que Wladimir, Rafael, Rodrigo e Caio, o vereador Bruno Vianna (PSL) votou com o governo em 12 dos seus 13 projetos. Mas, como os edis Raphael Thuin (PTB) e Fred Machado (Cidadania), ficou com o comércio contra o Código. Em 15 de maio, Garotinho disse à base do filho: “O governo tem dentes. E pode morder”. Ontem, na Folha FM, o filho do falecido deputado Gil Vianna completou: “O governo tem dente, o Legislativo e a população também têm”.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã

 

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Descontrolado, Bolsonaro agride repórter e ABI pede sua renúncia

 

 

 

NOTA OFICIAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE IMPRENSA (ABI) — RENUNCIE, PRESIDENTE!

Descontrolado, perturbado, louco, exaltado, irritadiço, irascível, amalucado, alucinado, desvairado, enlouquecido, tresloucado. Qualquer uma destas expressões poderia ser usada para classificar o comportamento do presidente Jair Bolsonaro nesta segunda-feira (ontem, 21/06), insultando jornalistas da TV Globo e da CNN.

Com seu destempero, Bolsonaro mostrou ter sentido profundamente o golpe representado pelas manifestações do último sábado. Elas desnudaram o crescente isolamento de seu governo.

Que o presidente nunca apreciou uma imprensa livre e crítica, é mais do que sabido. Mas, a cada dia, ele vai subindo o tom perigosamente. Pouco falta para que agrida fisicamente algum jornalista.

Seu comportamento chega a enfraquecer o movimento antimanicomial – movimento progressista e com conteúdo profundamente humanitário. Já há quem se pergunte como um cidadão com tamanho desequilíbrio pode andar por aí pelas ruas.

Mas a situação é ainda mais grave: esse cidadão é presidente de um país com a importância do Brasil.

Diante da rejeição crescente a seu governo, Bolsonaro prepara uma saída autoritária e, mesmo a um ano e meio da eleição, tenta desacreditar o sistema eleitoral. Seu objetivo é acumular forças para a não aceitação de um revés em outubro de 2022.

É preciso que os democratas estejam alertas e mobilizados.

Diante desse quadro, com a autoridade de seus 113 anos de luta pela democracia, a ABI reitera sua posição a favor do impeachment do presidente. E reafirma que, decididamente, ele não tem condições de governar o Brasil.

Outra solução – até melhor, porque mais rápida – seria que ele se retirasse voluntariamente.

Então, renuncie, presidente!

 

Paulo Jeronimo

Presidente da ABI

 

Publicado aqui no site da ABI

 

 

Confira no vídeo abaixo, do site Poder360, ligado ao mercado financeiro, como o presidente Jair Bolsonaro foi recebido ontem por populares nas ruas de Guaratinguetá (SP), antes de mandar “calar a boca” a jornalista mulher que lhe perguntou sobre o uso da máscara e o fato de não ter se solidarizado com mais de 500 mil mortos pela Covid-19 no Brasil:

 

 

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Presidente da maior ONG da Amazônia no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Joseli Mathias)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (23), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Benjamin Sicsú, ex-ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do governo Fernando Henrique Cardoso e presidente do conselho administrativo da Fundação Amazônia Sustentável, maior ONG a atuar na Floresta Amazônica.

Sicsú falará sobre Amazônia, seu desmatamento no governo Jair Bolsonaro (sem partido) e o prejuízo que isso tem causado ao Brasil no mundo. Com vasta experiência no setor público e privado, ele analisará também as atuais políticas nacionais de industrialização e de geração de energia, com risco de novo apagão no país. Por fim, ele projetará as eleições de 2022 a presidente e governador do Estado do Rio.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Anderson, Álvaro, Código Tributário, Psol e luta de classes em Campos

 

Anderson de Matos, Álvaro Oliveira e Psol (Montagem: Joseli Mathias)

 

Continua a disputa política por conta da proposta do novo Código Tributário pelo governo Wladimir Garotinho (PSD), engavetado sem data para votação (confira aqui) na sessão do dia 16. Hoje, quem divulgou um vídeo crítico ao Código foi o edil Anderson de Matos (Republicanos). E foi respondido pelo líder governista, vereador Álvaro Oliveira (PSD).

— Eu quero falar sobre a construção civil, caso seja aprovada pela Câmara de Vereadores a alteração do Código Tributário, proposta pelo gabinete do prefeito. Eu destaquei 13 dos 30 itens que sofrem reajuste de até 500% (…) Desmembramento e remembramento de imóvel por metro quadrado, era 1% de uma Ufica (Unidade Fiscal do Município, hoje R$ 134,03) e passa a ser 6% de uma Ufica, 500% de reajuste. Nós, repito, estamos falando da taxa de licença para execução de obras particulares, estamos falando da construção civil — destacou Anderson de Matos.

— Não quero personalizar discussões. Mas é bom que se diga que há, sim, preferência de pessoas ou grupos por outros grupos. Que, direta ou indiretamente, foram secretários, vereadores, deram sustentação ao governo passado, que destruiu a nossa cidade. Essas pessoas estão defendendo os grupos que os apoiaram, os grupos que querem manter a cidade só para ricos, esquecendo que temos pessoas passando fome. Nossa luta é para sanar as contas e trazer o mais humilde para dentro do orçamento do município — defendeu Álvaro Oliveira.

Ontem (confira aqui), o vereador Raphael Thuin (PTB) já havia postado outro vídeo nas redes sociais, para protestar contra a exoneração de pessoas ligadas a ele na Fundação Municipal dos Esportes (FME), após sua posição contrária ao Código. E foi respondido pelo prefeito próprio prefeito Wladimir, que ressaltou sua necessidade de aumentar arrecadação própria para firmar um Termo de Ajustamento de Gestão (TAG) com o Tribunal de Contas do Estado (TCE).

Hoje, além dos questionamentos ao Código Tributário, o vereador Anderson de Matos, que também é pastor da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd), se envolveu em outra polêmica. No dia 4 de maio, ele subiu na tribuna da Câmara Municipal para atacar militantes do Psol que atuam na luta das 700 famílias de baixa renda que ocuparam o conjunto habitacional Novo Horizonte, no Pq. Aeroporto. Hoje, como o Blog do Edmundo Siqueira registrou (confira aqui), o Psol de Campos emitiu nota repudiando as declarações do edil.

 

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Servidor, Código Tributário, represália e 2022 no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Joseli Mathias)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (22), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o vereador Bruno Vianna (PSL). Ele falará do seu voto favorável a 12 projetos do pacote de austeridade (confira aqui) do prefeito Wladimir Garotinho (PSD), três deles com cortes ao servidor, e sua posição contrária (confira aqui) ao novo Código Tributário de Campos. Como consequência, falará também sobre a exoneração dos seus indicados (confira aqui) em represália do governo municipal.

Por fim, Bruno projetará o pleito de 2022, não só a presidente e governador, mas também ao Legislativo, onde ele mesmo é pré-candidato a deputado estadual. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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“Dor e Glória” na Amazon — Autoficção no último filme de Almodóvar

O termo autoficção foi criado em 1977 pelo falecido escritor e teórico da literatura francês Serge Doubrovsky. Apesar de não ser novo, está na crista da onda dos modernosos das letras, para designar a mistura de ficção com autobiografia. Da literatura ao cinema, um bom exemplo de autoficção está no último filme escrito e dirigido pelo espanhol Pedro Almodóvar. Em tempos de pandemia, seu “Dor e Glória” (2019) está disponível por streaming, no Prime Video, da Amazon.

Estrelado pelo casal espanhol considerado mais belo, apesar de Antonio Banderas já ser um sessentão e de Penélope Cruz já estar perto dos 50, eles interpretram, respectivamente, filho e mãe. Escritor e diretor de cinema em crise por conta de doenças e da chegada à terceira idade, o filho é a autoficção do próprio Almodóvar. O clima romântico, portanto, quando pinta, é homossexual. E traz o beijo tão cobrado pelos militantes da causa LGBT em “Filadélfia” (1993), do falecido diretor Jonathan Demme, em que Banderas fez par romântico com Tom Hanks.

Independente da orientação sexual de cada um, o filme cala fundo a quem achou que seria jovem para sempre nos anos 1980 — década perdida para quem, cara pálida? — e não envelheceu o suficiente, mais de três décadas depois, para se tornar um morto-vivo defensor de Bolsonaro. Ou, no caso espanhol, do generalíssimo Francisco Franco — que Lúcifer o tenha! — e seu herdeiro político de extrema-direita, Santiago Abascal.

Em sua carreira de altos e médios, mas sempre original, “Dor e Glória” é um ponto elevado de Almodóvar. No qual o caminho percorrido conta mais que atingir o cume. Mesmo já na descida, dá para olhar, não sem saudade, de onde viemos, o que fomos e fizemos. E, com a ajuda da ciência dos homens e do Deus católico das nossas mães, projetar o que ainda temos pela frente. Em passos mais lentos, por certo, mas ainda de esperança.

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Thuin reage a demissões na FME e Wladimir responde

 

Vereador Raphael Thuin e prefeito Wladimir Garotinho (Montagem: Mario Sergio Junior)

 

O vereador Raphael Thuin (PTB) postou hoje vídeo nas redes sociais, em reação à demissão de nomes ligados a ele, assim como ao edil Bruno Vianna (PSL), da Fundação Municipal dos Esportes (FME) de Campos (confira aqui). A decisão do governo Wladimir Garotinho (PSD) foi uma represália à posição contrária de Thuin e Bruno à proposta de novo Código Tributário de Campos, que na sessão da última quarta (16) foi engavetado por conta de apenas um voto para sua aprovação. O prefeito também reagiu à posição do vereador.

Em seu vídeo, Thuin elencou as realizações dos servidores demitidos, ligados a ele desde que era presidente da FME no governo Rafael Diniz (Cidadania). Mas reafirmou sua posição contra o novo Código e denunciou “compra de voto” do governo municipal:

— Aumentar importo, eu sou contra, totalmente contra. Os empresários estão sofrendo, a gente está vivendo uma pandemia. Ninguém aguenta mais pagar, que seja ITBI (Imposto de Transmissão de Bens Imóveis), que seja taxa de lixo, que seja um centavo a mais de aumento de imposto. Infelizmente, por eu ser contra, funcionários excelentes, pessoas maravilhosas, infelizmente estão desempregadas. A gente fica muito triste de ver a política ainda andando de marcha à ré, não tem seis meses de governo (Wladimir). E fica nesse troca-troca de presidente (da FME) em cima de compra de votos (de vereadores).

Ouvido pelo blog, o prefeito Wladimir Garotinho também se posicionou sobre o vídeo do vereador:

— Respeito a posição dele (Thuin), apesar de achar equivocada. A celebração do Termo de Ajuste de Gestão (TAG) perante o Tribunal de Contas e necessária para a cidade fazer a virada de chave da admistração pública, o que eles pediram foram gestos e o executivo encaminhou à Câmara algumas possibilidades. Lamentavelmente politizaram o assunto ao ponto de não querer diálogo e para imputar derrota ao governo. Foi oportunizado a todos a liberdade de flexibilização de algumas das medidas apresentadas. Mas se preferiu caminhar para um discurso político cheio de inverdades sobre o tema. Não quero esticar a corda com Câmara e as entidades. Na minha opinião deveria ter sido votado, independente do resultado, pois precisamos virar a página e seguir em frente. O TAG já foi protocolado e vamos trabalhar para aprová-lo.

Confira abaixo o vídeo com a íntegra do posicionamento do vereador Raphael Thuin sobre as demissões do governo Wladimir na FME:

 

 

Atualização às 8h49 de 21/06: Nesta manhã, em comentário ao link da postagem no Facebook, o vereador fez sua tréplica ao prefeito:

— Com todo respeito ao prefeito, mas o que que o TAG tem a ver com a demissão dos funcionários da FME? Funcionários que estão lá há mais de quatro anos, fazendo um excelente trabalho. Se por acaso eu votasse a favor do aumento de tributos, eles seriam demitidos? Lógico que não, né?! — questionou Raphael Thuin.

 

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Meio milhão de brasileiros mortos pela Covid — O que você fez? E por quê?

 

 

Diante de meio milhão de brasileiros mortos pela Covid-19, com cerca de 375 mil vidas perdidas desnecessariamente, este país de pouco mais de 500 anos marcou seu nome para sempre na História. E, por esta tragédia humana sem precedentes, certamente será falado e estudado para além dos 500 anos seguintes.

E toda a sua vida talvez seja lembrada apenas pelas respostas a duas perguntas: O que você fez diante dessas 501 mil mortes? E por quê?

Quem dúvida tiver, assista ao vídeo abaixo:

 

 

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