Cinema na capital do carnaval — Direita e esquerda ruins da cabeça e doentes do pé
“Deixe tudo acontecer com você
Beleza e terror
Apenas continue
Nenhum sentimento é final”
(Rainer Maria Rilke, poeta alemão de mãe judia)

Cinema e vida real na capital do carnaval
Vinha pelo metrô de Botafogo. Era o domingo antes do carnaval no Rio, cidade que só perde para Salvador na extensão prévia da regência de Momo. Como foram as duas capitais do Brasil antes de Juscelino abrir a farra das empreiteiras nacionais na construção de Brasília, que financiariam a operação Bandeirante na ditadura militar e teriam seu “Baile da Ilha Fiscal” no período lulopetista, explica muita coisa.
Como cantou na música “Americanos”, sobre nós, o baiano carioca Caetano: “Enquanto aqui embaixo/ A indefinição é o regime/ E dançamos com uma graça/ Cujo segredo nem eu mesmo sei/ Entre a mesmice e a desgraça/ Entre o monstruoso e o sublime”.

Saíra de Botafogo, bairro charmoso do Rio, com o qual fixara relação de intimidade há três décadas. No velho Estação, outra amizade antiga, assistira ao último filme que ainda não vira entre os principais concorrentes do Oscar de 2020: “Jojo Rabbit”. Escrito e dirigido pelo neozelandês Taika Waititi, levou a estatueta dourada por melhor roteiro adaptado.
Waititi é filho de um maori — índios nadadores que a seleção natural tornou grandes, fortes e principal causa do sucesso da Nova Zelândia no rugby — e uma judia russa. A ascendência, no entanto, não o livrou das críticas do politicamente correto, por também interpretar Hitler como amigo imaginário de Jojo, na pele do menino franco-inglês Roman Griffin Davis. É o personagem central do filme, que tem como mãe a musa estadunidense Scarlett Johansson.
Nazista fanático como são hoje os bolsonaristas, e permanecem os lulopetistas, Jojo vai sendo humanizado pela queda violenta do Reich de mil anos — que durou apenas uma dúzia no mundo apartado à bala do fanatismo. Abandonado por Jojo, sobretudo, pelo contato inesperado com uma jovem judia, interpretada pela neozelandesa Thomasin Mckenzie.

Outro personagem importante é vivido pelo bom ator estadunidense Sam Rockwell. Como oficial alemão que perde um olho na guerra, ele tem uma relação homoafetiva com seu assistente, enquanto treina Jojo e outras crianças recrutadas obrigatoriamente pela Juventude Hitlerista. Para bater ponto com o politicamente correto, Rockwell é um nazista que, no final da Guerra, se assume homossexual e salva judeus e alemães amigos de judeus.

No vagão de metrô no domingo antes do carnaval, pensava nos vagões de trem com passageiros de menos sorte rumo aos campos de extermínio de Hitler. E em como “Jojo Rabbit” parecia uma versão alemã, mas falada em inglês, do lacrimogêneo “A Vida é Bela”, do italiano Roberto Benigni. Que, a exemplo de Waititi, também roteirizou, dirigiu e atuou na sua visão cinematográfica da II Guerra e do Holocausto pelos olhos de um menino judeu.

Ao idiota que cobrou para o documentário “Democracia em Vertigem” (leia aqui sua resenha de 1º de julho de 2019), de Petra Costa, a mesma atenção dada pela mídia em 1999 à ficção “Central do Brasil”, de Walter Salles, a lembrança de “A Vida É Bela” é pertinente. Foi ele que derrotou o candidato brasileiro de maior mérito na disputa do Oscar de filme estrangeiro. Vinte e um anos depois, como defender Fernanda Montenegro dos ataques do nazibolsonarista Roberto Alvim, para depois cobrar paridade do trabalho antológico da diva em “Central” com o documento da parcialidade de Petra?

No Oscar de 2020, o lulopetismo lutou por migalhas e foi derrotado pelo documentário “Indústria Americana”, de Steven Bognar e Julia Reichert. No eco ao delírio de que a Lava Jato teria sido urdida pela CIA por conta do Pré-Sal, “Democracia em Vertigem” foi preterido pelo filme produzido pelo casal Obama. Ao denunciar o imperialismo yankee, a filha branca de uma família de grandes empreiteiros brasileiros ficou a ver navios diante de um ex-presidente dos EUA, filho de africano e falando de operários chineses na indústria de Ohio. Justiça poética?

Na estação da Cardeal Arcoverde, já em Copacabana, o solilóquio entre cinema, Brasil, Alemanha, Nova Zelândia, EUA, África, China e mundo é interrompido pelo espalhafato do trio ébrio que entra no vagão. São duas mulheres e um homem. Todos jovens e fantasiados de índio, no eco do surdo ao pentecostalismo psolista do Leblon. Que esqueceu de fantasiar seu ridículo ao tentar catequizar até o tradicional carnaval da periferia do Cacique de Ramos.

Os três sentam nos bancos vazios do metrô do início da noite de domingo. Entre elas, ele é mordido por ambas. E grita com o agudo estridente que o cinema creditou às mulheres no medo. E aos índios, na guerra. Descem cambaleantes duas estações depois, no Cantagalo, corte nos morros cariocas para ligar a Lagoa Rodrigo de Freitas à Copacabana.
A esquerda identitária do “lugar de fala” e da “apropriação cultural” não aprovaria as fantasias do trio. A direita obscurantista do “menino veste azul, menina veste rosa” não aprovaria sua atitude. Em um extremo e no outro também, ruins da cabeça e doentes do pé.

Já em seus créditos iniciais, o carnaval de rua carioca prometia outro didático documentário a olhos vistos. Mais para o “It’s All True” (“É Tudo Verdade”, relembre aqui) do revolucionário Orson Welles, no Rio real de 1942, quando a Alemanha ainda ganhava a II Guerra, do que para as ruas brasileiras na mão única de Petra Costa, burguesinha de longo vermelho, cor do tapete de Hollywood.

Como em “Jojo Rabbit”, na queda da suástica entre estrelas, listras, foice e martelo, tudo que talvez importe seja ter seu par — ou ímpar — para dançar ao final.
Publicado hoje (23) na Folha da Manhã


Na estrada, serpenteando entre a Serra do Mar e o Atlântico para longe da planície goitacá, ouvi no rádio do carro a transmissão do Flamengo 3 a 0 Atlético Paranaense. O jogo foi no criminoso calor da hora do almoço, no verão seco de Brasília.








