Juristas debatem redução no remanejamento do Orçamento, que já foi defendida por Rafael

 

Campos sem Orçamento para 2020 sob a ótica de Robson Maciel Júnior, José Paes Neto, Cléber Tinoco, Jorginho Virgílio e, no passado, Rafael Diniz (Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Como revelado aqui, a Câmara Municipal de Campos termina o ano de 2019 sem entrar em recesso. Tudo por conta do impasse na votação da proposta orçamentária do governo Rafael Diniz (Cidadania) para 2020, no dia 18, que os vereadores do G-8 se aliaram à oposição para recusar (relembre aqui). Foi uma reação ao parecer da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara, que barrou da votação a emenda que quer limitar o remanejamento do Executivo em 10% do valor total do Orçamento.

Mas, afinal, o que o governo Rafael entende como tentativa de engessamento por parte do G-8, e é chamado no grupo do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD) de “uma extorsão da Câmara”, é legal ou não?

Para o advogado Robson Maciel Júnior, ex-procurador da Câmara e ex-assessor parlamentar do deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD), os vereadores que não aceitaram o parecer da CCJ estão certos:

— A emenda apresentada com o intuito de reduzir o limite autorizativo na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) não possui nenhum óbice à tramitação, visto que se trata de uma prerrogativa do Parlamento. Tecnicamente não há impedimento capaz de impedir os parlamentares de deliberarem sobre a redução pretendida.

Já para o procurador-geral do município, José Paes Neto, a redução do percentual de 30% fere a LDO aprovada pela própria Câmara Municipal. Por isso, em seu entender, seria inconstitucional:

— O Poder Executivo fez o papel dele, que foi encaminhar o projeto da lei orçamentária, seguindo o que está previsto na LDO. A questão do cabimento ou não da emenda é uma questão interna da Câmara. Mas me parece que, da forma como foi apresentada, ele viola o que está previsto na LDO e, consequentemente viola o que está previsto na Constituição Federal.

Também consultado pelo blog, o advogado Cléber Tinoco entende como legal a diminuição pelo Legislativo do percentual de remanejamento do Orçamento pelo Executivo. Mas acredita que a reprovação do projeto de lei pelos vereadores complicou as coisas:

— A rejeição integral do projeto de lei orçamentária anual prejudica a discussão a respeito da possibilidade de uma emenda legislativa reduzir o percentual de créditos adicionais suplementares. Não fosse isso, a Câmara, através de emenda ao projeto de lei orçamentária anual, poderia reduzir o limite fixado na LDO para os créditos suplementares sem ofendê-la. O limite de 30% definido pelo art. 24 da Lei Municipal nº 8.912/19 (LDO 2020) é o máximo a ser observado pela Lei Orçamentária Anual (LOA), não o mínimo.

Nos três anos do governo Rafael, o limite de remanejamento do Orçamento foi de 30%. E nos oito anos do governo municipal Rosinha Garotinho (hoje, Patri), era de 50%. Vereador do G-8, Jorginho Virgílio (Patri) lembrou que, nos anos de governo rosáceo, o então vereador de oposição Rafael Diniz também defendia a imposição do limite de 10% ao governo de Campos:

— No passado, os 10% já foram defendidos pelos vereadores de oposição a Rosinha, incluindo Rafael. É o mesmo que o G-8 defende hoje. Mas nós (do G-8) queremos entrar em entendimento. Se os 10% são inviáveis, que sentemos e conversemos, para chegarmos a 15%, 20%. Conversei com Rafael na quarta (25). E a conversa foi boa. Espero que cheguemos a uma solução o mais rápido possível. Ou nas sessões ordinárias de 7 e 8 de janeiro, ou antes, numa sessão extraordinária. Os vereadores não querem algum serviço público não seja executado pela não aprovação do Orçamento.

Em 7 de dezembro de 2013, em matéria do então jornalista da Folha Alexandre Bastos, o vereador Rafael Diniz realmente defendeu (aqui) o limite do remanejamento do Orçamento em 10%, contra os 50% que seriam aprovados pelo “rolo compressor” de Rosinha:

— Não é de hoje que existe essa espécie de cheque em branco. O governo nos apresenta um Orçamento com os valores para cada pasta. Porém, o mesmo governo ganha da Câmara o direito de remanejar até 50%. Ou seja, o que aprovamos pode ser alterado de uma hora para a outra. Por isso, a bancada de oposição vai propor uma diminuição deste remanejamento para 10% — defendia o atual prefeito.

Seis anos depois, após analisar o parecer do CCJ, Robson Maciel Júnior disse que a solução do impasse deve ser política:

— O resultado na votação da lei orçamentária reflete o descontentamento dos vereadores quanto a (im)possibilidade, imposta pelo argumento técnico, de deliberarem acerca do limite de abertura dos créditos suplementares. Necessário será articular politicamente junto aos vereadores para votarem o melhor conteúdo para a população de Campos — aconselhou o ex-procurador da Câmara.

 

0

Líder do G-8 mira presidência da Câmara e Alerj, enquanto articula com Wladimir, Rodrigo e Caio

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Líder do grupo de vereadores do G-8, que foram governistas até a sexta-feira 13 de dezembro (aqui), o vereador Igor Pereira (PSB) conseguiu emparedar a administração Rafael Diniz (Cidadania) na Câmara Municipal. E agora trabalha em dois outros objetivos. Pleito do G-8, o primeiro é conseguir com que o limite do remanejamento do Executivo, de 30% para apenas 10% do valor total do Orçamento, seja aceito por outros três pré-candidatos a prefeito: o deputado federal Wladimir Garotinho (PSD), o estadual Rodrigo Bacellar (SD) e Caio Vianna (PDT). O segundo seria um projeto de poder pessoal. Se reeleito vereador com boa votação, Igor mira na presidência da Câmara Municipal na próxima Legislatura. De onde se lançaria em 2022 para deputado estadual, em dobradinha com o federal Hugo Leal (PSB), seu aliado. É um futuro distante para um 2019 que não terminou e (confira aqui) deve entrar em 2020.

Igor articulou e liderou o rompimento do G-8 com o prefeito. Que, nas sessões das últimas terça (17) e quarta (18) resultou na derrota (relembre aqui e aqui) de todos os oito projetos de contingenciamento do governo Rafael. Além da sua proposta orçamentária para o próximo ano, depois que a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara barrou da votação a emenda do G-8 para limitar o remanejamento do Executivo em 10% — foi de 30% nos três primeiros anos de Rafael, e 50% nos oito anos de Rosinha Garotinho (hoje, Patri). Por conta disso, mesmo que o ano de 2019 acabe antes do impasse, segundo a Lei Orgânica do Município, o Legislativo goitacá pode ter que avançar os primeiros dias de 2020 para resolver a questão.

Conforme prometido, o governo municipal reagiu e publicou no Diário Oficial de 24 de dezembro, véspera de Natal, a exoneração de 28 cargos comissionados. Além de Igor, que teve mais de 10 indicações na guilhotina política, também perderam cargos no Executivo os edis Marcelo Perfil (PHS), Ivan Machado (PTB) e Paulo Arantes (PSDB). Outros quatro nomes do G-8, os vereadores Jorginho Virgílio (Patri), Luiz Alberto Neném (PTB), Joilza Rangel (PSD) e Enock Amaral (PHS) tiveram suas indicações no governo por enquanto preservadas. O que deixa as portas abertas para as negociações com o grupo do prefeito. O presidente da Câmara, Fred Machado (Cidadania), o ex-presidente e deputado federal Marcão Gomes (PL), o líder governista Genásio (PSC) e o secetário de Governo Alexandre Bastos trabalham na articulação. Além do próprio Rafael.

Após queimar seus navios com o prefeito, e vice-versa, Igor busca a guarida com os pré-candidatos a prefeito Wladimir, Rodrigo e Caio. Antes, durante e depois do rompimento com Rafael, o líder do G-8 foi convidado diversas vezes pela Folha para dar sua versão sobre o caso. Mas se esquivou em todas as oportunidades. Na última vez que falou com o jornal, como publicado (aqui) no Ponto Final do último dia 14, o vereador disse:

— Chance zero de eu ser vice de qualquer candidato a prefeito. Sou candidato à reeleição de vereador. E não vou votar contra o servidor. Falo por mim e pelos vereadores Neném, Joilza, Paulo Arantes, Silvinho (Patri), Ivan Machado, Enock e Perfil. Quanto a limitar o remanejamento do Orçamento em 10%, isso não é engessar o governo. Se precisar de 30%, que passe pela Câmara e a gente discute junto. Não importa se Rosinha tinha 50%. Isso já passou. Rafael tem que entender que estamos do mesmo lado. A vida é feita de escolhas. Se entender que não estamos do mesmo lado, a escolha é dele.

Jorginho Virgílio

Sem retorno às tentativas de contato com Igor feitas durante toda a semana, na noite do dia 25 se buscou uma entrevista com o vereador Jorginho Virgílio, para ter a versão do G-8. Seria para o programa Folha no Ar na manhã desta sexta (27), na Folha FM 98,3. Após aceitar verbalmente, Virgílio disse que tentaria também convidar Igor. Mas depois retornou dizendo que este dera ordem para não conceder nenhuma entrevista.

Segundo Jorginho, Igor teria dito que “toda essa confusão começou com a entrevista (reveja aqui) do José Paes (procurador-geral do município) ao Folha no Ar de segunda (16)”. Na verdade, um trecho da entrevista do procurador, onde ele disse que quem votasse contra o governo, não teria mais espaço no governo, foi viralizado em grupos de WhatsApp locais de oposição. E foi usado por Igor como para reforçar sua liderança sobre o G-8 nas votações de terça e quarta daquela semana.

Na verdade, apesar de não retornar às tentativas de contato, não foi difícil saber dos passos políticos do líder do G-8 em seu processo de ruptura com o governo. Confira abaixo o que foi apurado a partir de fontes que preferiram manter o anonimato:

Wladimir GarotinhoCom Wladimir — O deputado federal, que também conversou os vereadores Silvinho e Enock, acha inviável os 10% de remanejamento no Orçamento. E disse a Igor, que o ligou duas vezes, que seria impossível a qualquer prefeito de Campos governar assim. No seu grupo, há quem classifique a tentativa de impor o limite dos 10% de “uma extorsão da Câmara”. Após o acirramento da crise com as exonerações de Rafael, a opinião do seu principal opositor é de que a polarização só seria boa para o líder do G-8.

Com Rodrigo — Conversou com Joilza na segunda(23), com Igor ontem (25) e hoje (26), com Perfil. Ligou para Rafael na sexta (20) e se ofereceu como ponte no diálogo com o G-8, mas entendeu que a tarefa se tornou difícil após as exonerações de terça (24). O deputado foi o único que falou diretamente: “Acho que todos devem esfriar a cabeça e a maturidade prevalecer. A cidade não pode padecer por conta dessa briga, que só interessa a um lado: Wladimir Garotinho”.

Com Caio — Almoçou com Igor na véspera de Natal, em um tradicional restaurante da cidade. Como Rodrigo é deputado estadual e, caso abra mão da própria pré-candidatura a prefeito de Campos, um dos principais apoiadores do pedetista em 2020, um obstáculo é a pretensão do líder do G-8 em também se candidatar à Asssembleia Legislativa. Rodrigo, que tem boa relação com Igor, só não tentaria a reeleição como deputado se, até lá, fosse nomeado para conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE).

 

 

0

Câmara de Campos não está em recesso — Impasse do Orçamento empurra 2019 para 2020

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A seis dias do fim do ano, o Poder Legislativo de Campos não está em recesso. Na sexta-feira 13 de dezembro, o blog anunciou aqui que o grupo de vereadores governistas conhecido como G-8 romperia com o prefeito Rafael Diniz (Cidadania), na antecipação do ano eleitoral de 2020 neste final de 2019. Só que o resultado foi um tiro pela culatra do tempo: empurrou 2019 para dentro de 2020. Como a proposta orçamentária de Campos para o próximo ano foi recusada (aqui) na sessão legislativa de quarta (18), determina a Lei Orgânica do Município, no parágrafo 2º do Artigo 25:

 

Lei Orgânica do Município

 

— A sessão legislativa ordinária não será interrompida ou encerrada sem que seja concluída a votação do projeto de lei de diretrizes orçamentárias e de projeto de lei do orçamento.

Assim, as sessões da Câmara da terça (24) e quarta (25) desta semana só não aconteceram porque foram véspera e dia de Natal. Assim como as da terça (31) e quarta (01) da próxima, só não ocorrerão por conta do Réveillon. Mas, a não ser que uma sessão extraordinária seja marcada antes, a próxima sessão ordinária da terça, dia 7 de janeiro, a questão do Orçamento voltará obrigatoriamente à pauta.

Até lá, as negociações de bastidores têm estado e prometem continuar intensas. Entre interesses particulares e de grupos políticos, visam às eleições a vereador e prefeito de Campos em 2020. E envolvem tanto os ex-vereadores governistas do G-8, quanto o governo Rafael. Assim como três pré-candidatos a disputar o cargo com o prefeito nas urnas de outubro: o deputado federal Wladimir Garotinho (PSD), o estadual Rodrigo Bacellar (SD) e Caio Vianna (PDT).

Enquanto isso, com suas receitas do petróleo (relembre aqui) em queda vertigionosa, o Orçamento que Campos terá no ano eleitoral e o meio milhão de campistas que dele dependem são transformados em mero pano de fundo.

 

0

Bruno e Mérida articulam R$ 10 milhões do RJ para Saúde de Campos ainda em 2019

 

Bruno Dauaire, Marcelo Mérida, Edmar Santos e Wilson Witzel (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Faltando uma semana para o fim de 2019, o ano ainda guarda a confirmação de uma boa notícia para Campos. O município vai receber R$ 10 milhões em verbas de custeio para a Saúde Pública do município — R$ 5 milhões deles especificamente para o Hospital Geral de Guarus (HGG), como prometeu o governador Wilson Witzel (PSC) como prometeu aqui, em visita à cidade, em 21 de novembro.

O cumprimento da promessa e sua ampliação foram articulados hoje pelo presidente deputado estadual Bruno Dauaire, do PSC, e o presidente do partido em Campos, Marcelo Mérida. Líder do partido do governador na Assembleia Legislativa, o parlamentar ligou para o secretário estadual de Saúde Emar Santos, que confirmou os R$ 10 milhões ainda para este ano. Aliado de Bruno no pleito, Mérida é pré-candidato a prefeito de Campos.

 

0

Flamengo joga de igual para igual, mas Liverpool leva o Mundial na prorrogação

 

Capa da Folha da Manhã de hoje (22)

 

O sonho acabou. Foi como Paul McCartney anunciou o fim dos Beatles, referência maior da cidade de Liverpool. Desde o fim de agosto, quando o Flamengo embalou de vez no Brasileirão e na Libertadores da América, um sonho era cantado por 42 milhões de almas: “E agora o seu povo/ Pede o mundo de novo”. Mas da maneira como se deu ontem (21) a decisão do Mundial de Clubes, quem sonhou pode se orgulhar da realidade. Desde 2005, quando passou a ser disputado pelos campeões de todos os continentes, o time carioca foi o primeiro a jogar de igual para igual a final contra o campeão da Europa. O título foi vencido com justiça pelo Liverpool, que criou mais chances de gol, mas teve menos posse de bola. O placar final de 1 a 0 foi alcançado no único recurso que os sul-americanos passaram a adotar para tentar vencer os europeus: o contra-ataque. E só na prorrogação, com domínio de lado a lado no movimentado empate sem gols dos 90 minutos regulamentares.

A realidade do jogo se imporia antes do seu início, no Estádio Internacional Khalifa, em Doha, no Qatar. Depois de especular que poderia poupar titulares para o Campeonato Inglês pelo qual volta a campo nesta quinta (26), o treinador alemão Jürgen Klopp desfez o mistério. Contra o Flamengo, o campeão da Europa não ousou entrar em campo sem sua força máxima. Como havia feito contra o mexicano Monterrey, na semifinal de quarta (18), quando escalou só quatro titulares e quase se complicou. Venceu por 2 a 1 com o gol de Firmino, literalmente aos 45 do segundo tempo. Ontem, o atacante brasileiro seria novamente o herói do time inglês.

Logo no início da partida, a aposta de Klopp contra o Flamengo pareceu que conduziria a um massacre. Semelhante aos 4 a 0 que o Barcelona de Messi impôs ao Santos de Neymar em 2011. Até a final de ontem, tinha sido o último campeão sul-americano a tentar jogar de igual para igual a final de um Mundial contra o campeão europeu. Oito anos depois, o começo do Liverpool foi arrasador. Nos primeiros cinco minutos da partida, criou três chances de gol em conclusões de Firmino, do meia guienense Keita e do lateral-direito Alexander-Arnold.

Foi só a primeira impressão. E não ficou. Com o mesmo autocontrole que teve para superar todos os obstáculos na conquista da Libertadores e do Brasileiro, o Flamengo encaixou a marcação para impor seu jogo ao Liverpool na maior parte do primeiro tempo. Sobretudo na velocidade de Bruno Henrique, penetrou com perigo pelo menos oito vezes na área do time inglês. Mas não colocou o goleiro brasileiro Alisson para trabalhar. Como não trabalhou Diego Alves.

A segunda etapa começou como a inicial. Logo no primeiro minuto Firmino voltou a receber um lançamento longo e quase abriu o placar. Dentro da área, ele deu um chapéu no zagueiro Rodrigo Caio com a direita e bateu de canhota. A bola explodiu na trave e cruzou a linha do gol. Aos 7, Alisson faria sua primeira grande defesa, em chute rasteiro de Gabigol dentro da área, após passe de Éverton Ribeiro. Aos 23, o centroavante flamenguista colocou o goleiro do Liverpool para trabalhar de novo, ao bater de puxeta um cruzamento de Bruno Henrique. Mas a defesa mais difícil no segundo tempo foi de Diego Alves. Aos 40, ele voou para trocar de mão e espalmar por cima do travessão o chute venenoso do meia Henderson, de fora da área.

 

Lance de Rafinha sobre Mané, que o juiz marcou pênalti depois anulado com o auxílio do VAR (Foto: Kai Pfaffenbach – Reuters)

 

Aos 45 da etapa final, o árbitro catariano Al Jassim Abdulrahman chegou a marcar um pênalti de Rafinha sobre o incansável atacante senegalês Mané, quase na linha da área. Orientado pela cabine do VAR, ele reviu o lance. Não marcou nem falta, considerando que o lateral-direito do Flamengo tocou primeiro na bola, anulando o cartão amarelo que havia lhe dado.

Veio a prorrogação. Que definiria o jogo aos 8 minutos. Após Filipe Luís tentar uma rara subida pela esquerda, o contra-ataque foi iniciado por Henderson. Ele acertou lançamento a Mané, que serviu à penetração de Firmino pela área. O brasileiro deslocou Rodrigo Caio e Diego Alves, no mesmo corte para dentro, e bateu para abrir o placar. Que quase foi ampliado dois minutos depois, em chute de fora da área do craque egípcio Salah, obrigando Diego a outra defesa difícil.

A melhor chance de empatar e levar à decisão dos pênaltis veio a menos de dois minutos do fim, quando Vitinho cruzou da direita para o jovem Lincoln, que entrara depois do gol  no lugar de Gérson. Com apenas 19 anos, coube a ele a melhor chance do Flamengo na final do Mundial. Mas, sem marcação, chutou dentro da área por cima do gol de Alisson.

Muitos lembraram que o Liverpool só dominou o jogo no segundo tempo depois que o treinador português Jorge Jesus substituiu Arrascaeta por Vitinho, e Éverton Ribeiro por Diego Ribas. Não foram substituições felizes, como haviam sido em outras oportunidades. Na coletiva, tentou justificar: “Fomos mexendo porque havia alguns jogadores com fadiga de jogo”. Sobre o saldo do time que assumiu em junho, o técnico disse: “Não foi uma temporada inesquecível, mas foi uma temporada brilhante”. Desde o Santos de Pelé, em 1963, o time de Jesus foi o primeiro a vencer a Libertadores e o Brasileiro no mesmo ano.

Em dezembro de 2019, o Liverpool conquistou seu primeiro Mundial. E se igualou ao Flamengo. Foi só 38 anos depois de tentar fazê-lo pela primeira vez. Quando levou uma goleada de 3 a 0 do mítico time de Zico. Que permanece como a temporada mais brilhante dos 124 anos da história rubro-negra.

 

(Foto: Marcelo Cortes – Flamengo)

 

Capaz de fazer com que o zagueiro Van Dijk, estrela holandesa do clube inglês, custe mais do que todo o time sul-americano batido na final do Mundial por 1 a 0, o futebol de hoje pode ser determinado pelo poder econômico. Mas parece ainda incapaz de cobrar juros àquele “dezembro de 81”.

No que merecerá lembrança de 2019, aos torcedores contra e a favor, é calcular o que ficou para além do sonho do Flamengo.

 

 

Página 12 da edição de hoje (22) da Folha

 

Publicado hoje (22) na Folha da Manhã

 

0

É hoje! — Futebol do mundo entre o Rubro-Negro e os Reds

 

Capa da Folha da Manhã de hoje (21)

 

“Espero que meus sonhos se tornem realidade” (“Hope that my dreams will come true”). É o verso da música “All My Loving” (“Todo o Meu Amor”), dos Beatles, referência maior da cidade de Liverpool. É com todo o seu amor que 42 milhões de almas, um entre cada cinco brasileiros viventes, assistirão ao confronto real com que tanto sonharam. Trinta e oito anos depois do mítico time de Zico, o Flamengo decidirá outro Mundial contra o Liverpool. A bola rola a partir das 14h30 de hoje, no Estádio Internacional Khalifa, em Doha, capital do Qatar. Campeão da América do Sul, o time carioca é apontado por seus torcedores e adversários como uma seleção brasileira. Campeão da Europa, o clube inglês exibe craques do seu continente, da África e do Brasil. É, sem favor, uma seleção mundial. Mas, quando o apito final do árbitro catariano Abdulrahman Al-Jassim ecoar na Península Arábica, o mundo do futebol conhecerá só um novo senhor. Que a História conhecerá de cor: Rubro-Negro ou Reds.

 

 

É também de cor, e salteado, que brasileiros e sul-americanos aprenderam a conhecer o time com que o treinador português Jorge Jesus iniciará o jogo. Os 11 só jogaram juntos sete vezes. E nunca perderam. Ao todo foram seis vitórias e um empate com Diego Alves, Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí e Filipe Luís; Willian Arão, Gérson e Éverton Ribeiro; Arrascaeta, Gabigol e Bruno Henrique. A dúvida é como o técnico alemão Jürgen Klopp escalará o time inglês. Se puser a força máxima entre os 20 jogadores que levou ao Qatar, entrará em campo com Alisson, Alexander-Arnold, Joe Gomez, Van Dijk e Robertson; Milner, Henderson e Keita; Salah, Firmino e Mané. O meia holandês Wijnaldum, que seria titular, vem de lesão muscular na coxa esquerda e não participou do último treino de ontem.

 

Flamengo Bicampeão da Libertadores em 2019: Diego Alves, Pablo Marí, Filipe Luís, Wiliian Arão e Rodrigo Caio (de pé); Gabigol, Rafinha, Éverton Ribeiro, Arrascaeta, Gérson e Brino Henrique (agachados)

 

Não está descartado que o Liverpool possa poupar mais titulares para o seu compromisso da próxima quinta (26), quando enfrentará o vice-líder Leicester City pelo Campeonato Inglês. Em sua fase como Premier League, criada em 1992, os Reds nunca ganharam o mais qualificado campeonato nacional do mundo. Que atualmente lideram com 10 pontos de vantagem e é o principal objetivo assumido por sua torcida, técnico e jogadores. Na coletiva de ontem, Klopp tentou explicar a diferença na maneira como o Mundial é encarado por seus dois finalistas:

 

Técnico alemão do Liverpool, Klopp na coletiva de ontem

 

— O Flamengo foi enviado para cá do seu continente com uma ordem clara de vencer e voltar como heróis. Nossos torcedores disseram: “Fique em casa e jogue a Taça Carabao (da Liga Inglesa, da qual foi eliminado na terça com seu time sub-23, goleado de 5 a 0 pela equipe principal do Aston Villa)”. Essa é uma diferença enorme. Nós não podemos mudar isso. Mas estamos aqui e queremos vencer a competição, mesmo quando sabemos que é muito difícil porque o outro time é muito, muito bom. Mas é assim nas grandes competições.

Se o germânico é hoje considerado o melhor treinador do mundo, pelo trabalho consistente de quatro anos que desenvolve no Liverpool, seu colega lusitano precisou de apenas seis meses para eclodir uma revolução no futebol brasileiro. Desde o Santos de Pelé, em 1963, o Flamengo de Jesus se tornou o primeiro time a ganhar o Brasileiro e a Libertadores no mesmo ano. Antes de fechá-lo com a final do Mundial, o técnico rubro-negro disse na sua coletiva:

 

Treinador português do Flamengo, Jesus na coletiva de ontem

 

— A comparação que podemos ter (do Liverpool) com o Flamengo é que o Flamengo vem de uma temporada de títulos. Como o Bruno Henrique diz, são duas equipes que estão em outro patamar. O Flamengo consegue contratações de um bom nível no Brasil, mas não há comparação. Vamos enfrentar um campeão da Champions. São os melhores do mundo. O Flamengo entrou em uma órbita onde podemos fazer equilíbrio com diferença tática. A diferença é que os europeus têm os melhores jogadores do mundo.

 

Vanguarda do Flamengo em campo: Arrascaeta, Gabigol e Bruno Henrique

 

Apesar das diferenças, Flamengo e Liverpool têm também muitas semelhanças. Taticamente, atuam compactados entre seus três setores, com a linha alta de marcação que buscam impor no campo oposto. Ambos têm um trio de ataque capaz de tirar o sono de qualquer defesa do planeta. Somados os 18 gols do uruguaio Arrascaeta, aos 43 de Gabigol, mais os 35 de Bruno Henrique, foram 96 bolas no fundo das redes adversárias em 2019, média de 1,57 gol por jogo. No time inglês, apesar da fama maior contra oponentes mais qualificados, os números da sua trinca ofensiva são inferiores. Neste ano, anotaram 66 gols, média de 1,34 gol por partida, com 30 do senegalês Mané, 24 do egípcio Salah e 12 do brasileiro Firmino.

 

Trio de ataque do Liverpool em campo: Firmino, Mané e Salah

 

Melhor zagueiro do mundo, Virgil Van Dijk, holandês do Liverpool

Temidos pela qualidade dos seus homens de frente, Liverpool e Flamengo também podem dar medo aos seus torcedores por problemas na defesa. Relacionado por Klopp para a semifinal de quarta (18), contra o mexicano Monterrey, o holandês Van Dijk passou mal e nem chegou a sair do hotel. Mesmo sendo zagueiro, foi eleito pela Fifa como segundo melhor jogador do mundo em 2019, atrás apenas de Lionel Messi. Sua ausência foi nítida na facilidade que o adversário da quarta teve para armar jogadas de contra-ataque. Assim como na falha da linha de impedimento que permitiu ao time do México empatar o jogo — cujo placar de 2 a 1 só seria definido a favor dos Reds aos 45 do segundo tempo.

Sem o zagueiro holandês, considerado o melhor do mundo na posição, o Monterrey dos atacantes colombiano Pabón e argentino Funes Mori deu muito trabalho ao goleiro brasileiro Alisson na semifinal. E levantou a curiosidade: o que poderiam fazer na final do Mundial atacantes superiores, como os flamenguistas Bruno Henrique e Gabigol, sem a vigilância de Van Dijk? Ausente do treino de quinta (19), ele apareceu no de ontem. Se não puder jogar, será mais uma vez substituído na zaga do Liverpool pelo volante Henderson, posição em que atuou visivelmente desconfortável na quarta. O outro zagueiro do time inglês, Joe Gomez, jovem de 22 anos, é reserva do croata Lovren, que não viajou ao Qatar por contusão.

No Flamengo, os problemas na defesa também ficaram nítidos no gol que o time tomou do árabe Al-Hilal, para abrir o placar da outra semifinal do Mundial, na terça (17). A jogada construída no setor esquerdo da defesa rubro-negra, até a conclusão dentro da área, foi muito semelhante à do primeiro gol do River Plate, pela final da Libertadores. Como foram daquele lado que saíram dois dos quatro gols que Vasco e Santos fizeram, cada um, em seus últimos confrontos com o time de Jesus no Brasileirão.

Lateral-esquerdo do Flamengo, Filipe Luís vem jogando no sacrifício

A falha no sistema defensivo do Fla se deve à condição do experiente lateral-esquerdo Filipe Luís. Ele sente o ligamento lateral do joelho esquerdo desde o primeiro jogo contra o Grêmio, pela semifinal da Libertadores. E o problema físico é agravado taticamente pela limitação na cobertura do zagueiro espanhol Pablo Marí, alto e técnico, mas lento. Jesus está ciente da necessidade de solução. Que é dificultada tanto pela queda de rendimento dos volantes Arão e Gérson nos últimos jogos, quanto pelo fato de que o maior craque entre os 22 que entrarão hoje em campo atua no ataque do Liverpool naquele setor: Mohamad Salah.

Do outro lado, Mané também deve dar trabalho ao lateral-direito Rafinha. Que, como Filipe Luís, pode apoiar menos do que de hábito, para não expor a defesa. Pelo Liverpool, os laterais também são destaque, considerados os melhores do mundo: Alexander-Arnold na direita, líder de assistências na Premier League, como demonstrou no gol de Firmino que deu a vaga à final de hoje, e Robertson na esquerda. Vindo do meio, quem costuma aparecer como homem-surpresa na área adversária é o guineense Keita. No lado oposto, quem faz esse papel é o meia-atacante Éverton Ribeiro, motor do Flamengo e municiador do seu ataque.

 

 

Pelo Rubro-Negro, quem tem saído do banco para fazer a diferença na criação de jogadas e ajudar a virar placares adversos é o meia Diego Ribas, típico camisa 10 que Jesus reinventou como segundo volante. O problema, como advertiu Zico, é que se hoje fizer um primeiro tempo ruim, como contra o River e o Al-Hilal, o time da Gávea pode ser punido por um adversário com grande poder ofensivo. E intensidade de jogo muito semelhante à sua, que não costuma diminuir após marcar o primeiro gol. Quem impuser suas características comuns de marcação alta, posse de bola e intensidade sobre o outro, terá vantagem no duelo de hoje.

 

 

Desde 2005, quando o Mundial de Clubes passou a ser disputado entre os campeões de todos os continentes, não só entre os da América do Sul e da Europa, esta nunca deixou de ter um representante na final. Que nenhum time sul-americano conseguiu mais vencer propondo o jogo. Só na base de esquemas defensivos em busca de uma bola de contra-ataque. O Santos de Neymar tentou atuar de igual para igual em 2011, mas pegou o Barcelona de Messi no auge e levou um passeio de 4 a 0. Parecido com os 3 a 0 que o Flamengo impôs ao Liverpool “em dezembro de 81”, como canta a plenos pulmões a maior torcida da Terra.

 

 

É pela glória de Zico que o Flamengo joga hoje. Diante do mesmo grande time da terra dos Beatles, o placar final será incapaz de alterar os versos do rubro-negro Ary Barroso para o samba “Não Posso Acreditar”. Que também é conhecido nas rodas de bamba cariocas como “Sonhei”: “Dizem que o sonho é mentira/ É por isso que eu te digo/ Que não fiquei cismado/ Quando sonhei contigo”.

 

 

Pàgina 8 da edição de hoje (21) da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

0

Com gol aos 45 do 2º tempo, Liverpool fará a final com o Flamengo

 

Ao lado de Salah, o brasileiro Firmino agradece aos céus seu gol, aos 45 do segundo tempo, que garantiu o Liverpool na final do Mundial com o Flamengo ( Foto: Ibraheem Al Omari – Reuters)

 

O destino cumpriu sua parte. O inglês Liverpool fará mais uma final do Mundial de Clubes com o Flamengo, 38 anos depois de 1981, quando foi goleado por 3 a 0 pelo mítico time de Zico e companhia. Em atuação bem abaixo da expectativa, o campeão da Europa só conseguiu garantir sua vaga graças a um brasileiro: o atacante Roberto Firmino fez o gol da vitória de 2 a 1, literalmente aos 45 minutos do segundo tempo. Com uma atuação aguerrida, em que colocou o goleiro brasileiro Alysson para trabalhar várias vezes, o Monterrey cumpriu a sina do futebol do México: jogou como nunca e perdeu como sempre.

Mesmo que Jürgen Klopp, técnico alemão do time inglês, tenha entrado em campo com apenas quatro dos seus 11 titulares, o Monterrey assumiu a condição de inferioridade na postura tática. Optou pela marcação em linha baixa, oposta à do Flamengo e do Liverpool, a quem cedeu campo e posse de bola. Ainda assim, explorando os contra-ataques, com o veloz colombiano Pabón caindo pela direita e o centroavante argentino Funes Mori, ameaçou várias vezes ao gol adversário.

Astro maior do Liverpool e único do seu temível trio de ataque que hoje começou jogando, o egípcio Salah criou a jogada que abriu o placar aos 11 minutos. Em lindo passe de canhota, ele achou o volante guineense Keita em penetração pela direita da área, que estufou as redes mexicanas do goleiro argentino Barovero. O que não estava no script veio apenas dois minutos depois. Em rebote de Alysson, Funes Mori foi deixado sozinho dentro da pequena área inglesa para empatar o jogo. E revelar o quanto a linha de impedimento dos Reds é o ponto a ser explorado no sábado pelo Rubro-Negro.

Os dois times ainda colocariam os goleiros adversários para trabalhar de maneira igual na primeira etapa. Aos 22, Salah serviu de calcanhar à infiltração do lateral Milner na área, que bateu para Barovero defender em três tempos. Aos 26, Pabón obrigou Alysson a grande defesa, em chute forte no canto oposto, diante da quina direita da área. Aos 36, novamente Pabón entrou pela direita e cruzou para Funes More, que entrava no segundo pau. A bola foi desviada no meio do caminho por Alysson, em outra defesa difícil. Aos 41, em outra penetração perigosa na área mexicana, Keita perdeu a bola no abafa de Barovero.

No segundo tempo, foi o Monterrey quem criou a primeira chance de gol. Aos 49, Pabón cobrou uma falta no canto direito, obrigando Alysson novamente a trabalhar. Aos 57, Keita driblou dois adversários em mais uma penetração como homem-surpresa na área mexicana, mas bateu em cima de Barovero. Aos 67, Funes More achou espaço entre dois marcadores dos Reds para bater de fora da área. A bola quicou, dificultando a defesa de Alysson em seu canto esquerdo. Foi a senha para Klopp substituir o atacante suíço Shaqiri, com atuação apagada, pelo senegalês Mané. Entrava em campo a segunda estrela do decantado trio ofensivo do Liverpool.

Na sua primeira oportunidade, Mané não teria sorte. Aos 73, ele desviou com o peito, pela linha de fundo, a bola chutada pelo atacante belga Origi dentro da área mexicana. Aos 80, o atacante senegalês testou Barovero, que encaixou seu chute forte da entrada da grande área. Quatro minutos depois, a seis do fim do tempo regulamentar, Klopp substituiu Origi por Firmino, finalmente completando seu trio de ataque titular no campo.

Aos 90, quando tudo indicava a prorrogação, o lateral Alexander-Arnold aproveitou a sobra de uma jogada individual de Salah pela direita. E cruzou a Firmino, que se antecipou no primeiro pau para dar números finais à partida. Na comemoração efusiva dos jogadores do Liverpool, bem como na reação do seu técnico alemão, batendo com os punhos cerrados no peito, o que também teve fim foi a empáfia do time inglês, ao garantir a chance de disputar mais uma vez o título do Mundial de Clubes. Que, diferente do Flamengo, nunca ganhou.

No sábado, contra o Rubro-Negro, os Reds entrarão em campo como favoritos. Mas, depois do susto contra o Monterrey, certamente o farão com mais titulares. E com os pés devidamente no chão.

 

 

0

Bruno Henrique leva o Flamengo à final do Mundial, 38 anos depois

 

Bruno Henrique acerta o cabeceio, após belo cruzamento de Rafinha pela direita, para virar o jogo em 2 a 1 sobre o Al-Hilal (Foto: Kai Pfaffenbach – Reuters)

 

Não é mais um sonho. Trinta e oito anos depois daquele inesquecível 13 de dezembro de 1981, quando o mitológico Flamengo de Zico conquistou o mundo, ao amassar o Liverpool por 3 a 0 em Tóquio, o Flamengo de Bruno Henrique fez hoje a sua parte no Qatar. Agora só falta o time inglês também fazer a dele.

Jogador que sempre brilha nos momentos decisivos, Bruno Henrique foi protagonista de todos os gols rubro-negros na virada de 3 a 1 sobre o bom time do Al-Hilal, na semifinal desta tarde em Doha. Agora o clube carioca espera para fazer outra final de Mundial, no sábado (21), contra o mesmo Liverpool. Que terá passar pelo mexicano Monterrey na semifinal desta quarta (18).

Como ocorreu na final da Libertadores, contra o River Plate, o time da Arábia Saudita dominou o primeiro tempo. Seguindo a lição aplicada pelo time argentino, o Al-Hilal também deu ao Flamengo uma dose do seu próprio veneno: marcou sob pressão no campo de ataque, dificultando a saída de bola do adversário.

Aos 15 minutos, o goleiro Diego Alves fez uma defesa salvadora, cujo rebote ainda seria desperdiçado pelo centroavante francês Gomis, livre de marcação. Dois minutos depois, o meia-atacante Salem Al-Dawsari abriu o placar de uma maneira muito semelhante ao River: um chute dentro da área nascido de bola cruzada da direita. A área defensiva do experiente lateral-esquerdo Filipe Luís é o problema a ser resolvido pelo treinador português Jorge Jesus.

Se há muitas coisas a consertar caso o Flamengo pegue mesmo o Liverpool no sábado, Jesus começous os reparos ainda no intervalo do jogo de hoje. Foi o suficiente para dominar o Al-Hilal desde o início segundo tempo. Missão facilitada pelo fato de, também como ocorreu com o River, o time árabe ter cansado nos 45 minutos finais, incapaz de manter o ritmo na marcação.

Com mais espaços, começou a brilhar a estrela de Bruno Henrique. Aos 48 minutos, três da etapa final, ele foi lançado no setor direito da área e cruzou para o uruguaio Arrasceta, sem marcação, empatar o jogo quase da marca do pênalti. Aos 77, a jogada do segundo gol nasceu dos pés do meia Diego Ribas, que mais uma vez entrou muito bem vindo do banco. Ele abriu a bola na quina direita da área para Rafinha. Que fez ótimo cruzamento no primeiro pau para a cabeçada certeira de Bruno Henrique. Foi o gol da virada.

A tampa do caixão do Al-Hilal ainda seria fechada de vez por Bruno Henrique. Novamente Diego enfiou o atacante, dessa vez na esquerda da área. O nome do jogo cruzou na intenção de servir a Gabibol, entrando pelo meio. Mas a bola foi antes desviada pelo zagueiro saudita Ali Hadi Albulayhi, que marcou contra.

Quem acreditou que o Flamengo estava destinado a ganhar a Libertadores, por tê-la disputado quando tinha exatos 81 pontos no Brasileirão, hoje teve mais um sinal. O último gol do Rubro-Negro contra o Al-Hilal, para reeditar a final do Mundial de 1981 diante do mesmo Liverpool de 38 anos atrás, foi marcado aos 81 minutos de jogo.

Desde o final de agosto, quando embalou de vez na construção de uma jornada histórica, cada jogo do Flamengo foi ecoado por 42 milhões de almas — um entre cada cinco brasileiros — cantando a plenos pulmões: “E agora o seu povo/ Pede o mundo de novo”. Bruno Henrique não se limitou a ouvir. Eleito craque do Brasileiro, da Libertadores e do jogo de hoje, ele atendeu.

 

 

0

Câmara vai votar hoje projetos do governo e deixa servidores para 4ª

 

(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã/ Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A Câmara Municipal vai votar hoje seis projetos enviados pelo governo Rafael Diniz (Cidadania). Mas deixará as pautas mais complicadas, que mexem com o servidor municipal para esta quarta (18). Com tendência de aprovação, hoje serão votados os seguintes projetos: 1) de transparência dos hospitais contratualizados, 2) o das mudanças no Conselho Municipal de Saúde, 3) o da criação de três Zonas Especiais de Negócio, 4) o da autorização para transação judicial com os cartórios da cidade, 5) o que cria regras no Código Tributário para os bancos e 6) o da reestruturação da secretaria municipal de Controle.

 

0

É hoje! — Flamengo pega ex-time de Jesus na semifinal do Mundial no Qatar

 

Gabigol e Gomis, artilheiros do Flamengo e do Al-Hilal (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 14h30 de hoje (horário de Brasília), no Estádio Internacional Khalifa, em Doha, capital do Qatar, o Flamengo tentará dar o penúltimo passo dos dois que o separam da maior glória dos seus 124 anos de história. Seu único Mundial foi conquistado há 38 anos, pelo time mítico de Zico e companhia, com um passeio de 3 a 0 sobre o inglês Liverpool em Tóquio. Para reeditar no sábado (21) a sonhada final contra o mesmo Liverpool, o Rubro-Negro terá que superar antes o Al-Hilal, da Arábia Saudita. Pouco conhecido dos brasileiros, é o campeão da Ásia e tem no elenco bons jogadores europeus e sul-americanos. E foi o último time do treinador português Jorge Jesus, antes de assumir em junho o Fla. Para os 42 milhões — um entre cada cinco brasileiros — da torcida reconhecida pela Fifa como a maior do mundo, o Mundial começa nesta terça. Se você é flamenguista e tiver trabalho, doe seu sangue rubro e pegue o comprovante com tinta negra para ter a falta abonada (inciso IV do artigo 473 da CLT) por dois motivos nobres: ajudar o próximo e torcer por sua Nação.

O time que Jesus levará a campo já tem a escalação na ponta da língua dos flamenguistas e não-flamenguistas, inclusive aqueles que torcerão hoje por um tropeço do campeão do Brasileiro e da Libertadores da América: Diego Alves, Rafinha, Rodrigo Caio, Pablo Marí e Filipe Luís; Willian Arão, Gérson, Éverton Ribeiro e Arrascaeta; Gabigol e Bruno Henrique. As dúvidas ficam por conta do time árabe do técnico romeno Ravzan Lucescu, filho do lendário treinador Mircea Lucescu. A escalação mais provável, mas que só será confirmada antes da partida, é Al-Maiouf; Al-Berik, Jang, Al Bulaihi e Al-Shahrani; Cuéllar, Otayf, Carlos Eduardo, Al-Dawsari (Giovinco); André Carillo e Gomis. O último, com passagem pela seleção da França, saiu do banco nas quartas de final do último sábado (14) para marcar o gol de placa que deu a vitória do Al-Hilal, pelo placar mínimo, sobre o tunisiano Espérance, campeão da África.

 

 

Os pontos fortes do Flamengo são conhecidos do Brasil e da América do Sul que conquistou: posse de bola, marcação sob pressão, compactação entre os três setores, mobilidade, velocidade e, sobretudo, intensidade. Na dupla de ataque, Gabigol e Bruno Henrique marcaram juntos 60 gols no Brasileiro e na Libertadores. Menos constante, o uruguaio Arrascaeta é o jogador de frente mais refinado tecnicamente, enquanto Éverton Ribeiro é o motor da equipe, armando jogadas e cumprindo importante função tática. Cria das divisões de base do Fluminense, mas reinventado como meia no tempo em que jogou na Itália, Gérson é o cérebro do time. Comanda a saída de bola, assim como os dois experientes laterais, Rafinha e Filipe Luís, sob cobertura de Arão. Firmes na dupla de zaga, Rodrigo Caio e o espanhol Pablo Marí se tornam opções ofensivas no cabeceio das bolas paradas. No caso de o empate persistir em tempo normal e prorrogação, os pênaltis são considerados especialidade de Diego Alves.

Talvez não haja exagero em considerar o Al-Hilal o Flamengo da Arábia Saudita. Tanto por sua condição financeira privilegiada, quanto pela popularidade. Também gosta de ter a posse de bola e agredir o adversário, estilo que pode ser alterado no jogo de hoje, dada a vocação ofensiva do time carioca. Além de Gomis, centroavante de difícil marcação pelo porte físico e técnica, um dos destaques ofensivos é o peruano Carrillo. Rápido e habilidoso, cai pela direita, onde deve dar trabalho a Filipe Luís. Também veloz, mas sem a mesma qualidade, Al-Dawsari gosta de atuar pela esquerda, no setor defensivo de Rafinha. Meia com visão de jogo, o brasileiro Carlos Eduardo é o municiador do ataque, onde aparece vindo de trás. A proteção da defesa árabe e sua saída de bola ficarão por conta do volante colombiano Cuéllar, ex-titular do Rubro-Negro. Não confirmado, o meia-atacante italiano Giovinco, com passagem na Juventus e na Azurra, pode ser uma surpresa. Pelo que mostrou no jogo contra o Espérance, a insegurança do goleiro Al-Maiouf é um ponto a ser explorado.

O Flamengo é considerado o favorito para chegar à final do sábado (21). Cujo adversário sairá da outra semifinal, nesta quarta (18), entre o time inglês do Liverpool, campeão da Europa, e o mexicano Monterrey, campeão da América do Norte. Os europeus sempre chegaram à final do Mundial de Clubes. Atual campeão da América do Sul, o time de Jesus deve lembrar que antes dele outros quatro grandes clubes, igualmente considerados favoritos, caíram na semifinal: os brasileiros Internacional (2010) e Atlético Mineiro (2013), o colombiano Atlético Nacional (2016) e, no ano passado, o argentino River Plate. Que o Rubro-Negro bateu a duras penas por 2 a 1, em virada histórica já nos descontos, na final da Libertadores da América deste ano.

Pelo menos desde o final de agosto, quando o time de Bruno Henrique, Gabigol, Arrascaeta, Éverton Ribeiro, Gérson e Jesus embalou de vez na construção de uma jornada histórica, cada jogo da conquista da Libertadores e do Brasileirão foi empurrado a plenos pulmões pelo hit rubro-negro: “Em dezembro de 1981/ Botou os ingleses na roda/ Três a zero no Liverpool/ Ficou marcado na história/ E no Rio não tem outro igual/ Só o Flamengo é campeão mundial/ E por isso o seu povo/ Pede o mundo de novo”. A música “Primeiros Erros”, do compositor santista Kiko Zambianchi, teve sua letra reescrita para lembrar o maior feito da história do clube da Gávea, em um memorável 13 de dezembro de 1981. Que alguns ex-jogadores daquele grande time inglês recentemente quiseram desmerecer, em jus esperneandi (“direito de espernear”) causado por trauma duradouro, 38 anos depois.

 

Camisas 10 do Brasil: Pelé. Zico e Rivelino

 

Entre o passado e o presente, sempre há curiosidades. E o fato de Jorge Jesus ter treinado o adversário árabe do Rubro-Negro na semifinal de hoje não é a única. Entre o final dos anos 1970 e início dos 1980, enquanto aquele Flamengo mitológico era formado, o Al-Hilal seria também o último time profissional de um dos maiores camisas 10 da história do futebol: Roberto Rivelino. Ele a vestiu também na Seleção Brasileira, quando a passou entre uns tais de Pelé e Zico.

 

Página 10 da edição de hoje (17) da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (17) na Folha da Manhã

0

Projetos de contingenciamento serão votados em 2019, enquanto GIF viraliza

 

(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã/ Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O vereador Igor Pereira (PSB) parecia falar sério quando pagou pra ver na noite da sexta-feira 13, e a coluna Ponto Final publicou (aqui) no dia seguinte:

— Chance zero de eu ser vice de qualquer candidato a prefeito. Sou candidato à reeleição de vereador. E não vou votar contra o servidor. Falo por mim e pelos vereadores Neném (PTB), Joilza (PSD), Paulo Arantes (PSDB), Silvinho (Patri), Ivan Machado (PTB), Enock (PHS) e Perfil (PHS). Quanto a limitar o remanejamento do Orçamento em 10%, isso não é engessar o governo. Se precisar de 30%, que passe pela Câmara e a gente discute junto. Não importa se Rosinha tinha 50%. Isso já passou. Rafael tem que entender que estamos do mesmo lado. A vida é feita de escolhas. Se entender que não estamos do mesmo lado, a escolha é dele.

Como o governo Rafael Diniz (Cidadania) também falou sério na reunião desse sábado (14), com o presidente da Câmara Municipal, vereador Fred Machado (Cidadania), que não abre mão de votar ainda este ano os sete projetos (conheça-os aqui) do pacote de contingenciamento. Mesmo os mais polêmicos, como as mudanças no auxílio-alimentação, insalubridade e gratificação dos servidores.

Com explicações do procurador-geral do município, José Paes Neto, além dos questionamentos do Sindicato dos Médicos de Campos (Simec) e dos hospitais contratualizados, a Folha publicou aqui extensa matéria detalhando os projetos na sexta. Depois que, na noite daquele mesmo dia, o próprio Rafael gravou aqui vídeo na sua página no Facebook, também explicando cada um dos projetos, ele não teria como voltar atrás.

Como presidente da Câmara, Fred controla a pauta. Na reunião que ele teve ontem com a cúpula do Executivo, ficou acertado que os projetos serão mesmo votados este ano. O que não se definiu ainda é se será nas sessões de terça (17) e quarta (18), que seria a última de 2019 antes do recesso, ou numa sessão extraordinária.

Líder do grupo dos oito vereadores (ex?) governistas, depois do que disse ao Ponto Final, Igor também não terá como votar atrás na votação dos projetos do governo. Resta saber se terá como bancar os outros sete. Sobre como ficaria a situação de Neném, Joilza, Paulo Arantes, Silvinho, Ivan Machado, Enock e Perfil sem as tetas magras de royalties, mas ainda existentes da máquina municipal, durante todo o ano de 2020, viralizou desde ontem um GIF nas redes sociais da planície. Que o blog publica abaixo:

 

 

0

Reitores da Uenf e IFF analisam governo Rafael, crise financeira de Campos e 2020

 

Um foi eleito reitor em setembro da maior universidade de Campos e região. O outro foi reeleito reitor em dezembro da maior instituição de ensino de Campos e região. Os dois são professores que tentam aprender e lecionar exemplos da democracia dentro e fora da escola. Cubano naturalizado brasileiro, Raúl Palacio assume este mês o comando da Uenf. O campista Jefferson Manhães de Azevedo assumirá seu segundo mandato no IFF em 2020. Eles não se furtaram em também analisar os desafios da ciência, da escola pública, ou o governo Rafael Diniz em Campos, no qual enxergam virtudes e falhas, sobretudo na comunicação com a sociedade do grave quadro encontrado em Campos. Cuja aguda crise financeira preocupa. Cientes dela e saídos dos seus próprios processos eleitorais, Jefferson e Raúl alertam que não há “soluções fáceis e fantasiosas” ou “alternativas milagrosas” para o pleito municipal de 2020.

 

Raúl Palácio, reitor eleito da Uenf, e Jefferson Manhães de Azevedo, reitor reeleito do IFF (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha da Manhã – A eleição de Raúl na Uenf, candidato apoiado pelo atual reitor Luís Passoni, e a reeleição de Jefferson no IFF foram apostas na continuidade. Isso não vai contra o “novo” que varreu as urnas do Brasil em 2018? Por quê?

Raúl Palacio – Não acredito na teoria do novo. Na verdade, como em qualquer eleição, as pessoas escolhem entre a manutenção dialética do trabalho realizado ou pela descontinuidade do mesmo. Evidentemente a continuidade do professor Jefferson e a minha eleição significam que o trabalho que está sendo realizado está na direção correta. Indica que as comunidades universitárias concordam com a defesa da universidade pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada que ambos defendemos. As comunidades também entendem que ambos estamos preparados para fazer as mudanças necessárias em prol do melhoramento do serviço prestado àqueles que com seus impostos sustentam as universidades publicas: a população do Estado do Rio de Janeiro.

Jefferson Manhães de Azevedo – Acredito que cada processo eleitoral tem suas particularidades e mensagens. É importante destacar que a busca do “novo” não significa necessariamente uma “ruptura”, mas pode ser “renovação”, “revigoramento” ou “aprimoramento”. No IFF, acredito que nossas comunidades acadêmicas optaram por esse último: “aprimoramento”. Sempre é possível fazer mais e melhor. Os desafios presentes e futuros são muitos. Precisamos nos reinventar a cada dia e buscar respostas novas. Entretanto, a coerência, a integridade e o acúmulo de experiências nos permitem trajetos novos, porém com mais consistência e segurança.

 

Folha – Qual serão seus principais objetivos e desafios na reitoria? Qual, em seu entender, deveriam ser os principais objetivos e desafios do outro entrevistado?

Jefferson – Colocamos como maior desafio a constituição de uma nova ecologia institucional. Precisamos mobilizar mais nossos educadores, estudantes e potências educativas criando novos ecossistemas de saberes e fazeres que ultrapassem seus limites organizacionais, geográficos e semânticos. Quanto mais compartilharmos generosamente nossas capacidades educativas, mais nos fortaleceremos como coletivo. A comunidade acadêmica da Uenf passou por um dos seus piores períodos nestes últimos anos, especialmente com relação ao seu financiamento. Um momento muito doloroso e com dramas pessoais sem precedentes. Não tenho dúvida de que isso afetou profundamente as relações internas e a trajetória educativa e de produção cultural e científica coletiva. Acredito que uma das maiores missões da próxima gestão liderada pelo Raúl será reconstituir e fortalecer o tecido de relações de sua comunidade acadêmica.

Raúl – Acredito que um dos principais objetivos será o aprofundamento da democratização da universidade e trabalhar o sentimento de pertencimento da comunidade universitária pela universidade. Nesse sentido, a descentralização orçamentária, o desenvolvimento de um programa amplo de cultura, o debate da graduação através do Fórum permanente  e a consolidação de parceiras, além de aumentar  o nível de responsabilidade de cada membro da comunidade, permitem um maior engajamento dos estudantes, técnicos e professores nos assuntos universitários. Outro aspecto a ser destacado é que pela primeira vez a Uenf vai trabalhar com uma real autonomia financeira. A execução dos recursos com responsabilidade, transparência e eficiência será um tremendo desafio. O desenvolvimento contínuo dos programas de pós-graduação, principalmente, no tocante a auto avaliação e financiamento das pesquisas realizadas é outro dos desafios a serem vencidos. Entendo que as universidades públicas têm a capacidade e a responsabilidade de apresentar um projeto concreto e alternativo ao neoliberalismo  de desenvolvimento do Brasil, como nação realmente independente. Teremos que trabalhar na preparação e consolidação desse projeto em que o ser humano e suas necessidades  são prioridades. Penso que todos esses desafios, com diferentes graus de complexidade, serão também os desafios do reitor Jefferson.

 

Folha – Em que a Uenf pode ajudar o IFF? Em que o IFF pode ajudar a Uenf?

Raúl – Em quase tudo. Imagina que na minha sala de aula, na disciplina físico-química, eu tenha 20 alunos e poderia ter 30, por que não disponibilizar essas vagas para os estudantes do IFF ou da UFF? O IFF tem uma política cultural definida e vamos utilizar essa experiência para fazer a nossa política cultural e oferecê-la com qualidade à sociedade campista. Temos excelentes instalações, como o Centro de Convenções e a Villa Maria, onde poderíamos fazer apresentações conjuntas para a população. Há alguns dias conversava com Jefferson em relação a interesses comuns  sobre agricultura familiar e agroecologia. A pedido da Uenf está sendo modificado o estatuto da Fundação do IFF, para aumentar a nossa parceria. Penso que as duas instituições se complementam. É importante destacar que buscaremos ampliar parceria com a UFF. Na semana passada conversamos com o vice-reitor da UFF e entregamos uma minuta do convênio de colaboração a ser assinada pelas duas universidades, a UFF também nos complementa.

Jefferson – A Uenf e o IFF vêm construindo relações cada vez mais consistentes e ampliando o número de ações conjuntas. Cada vez mais as parcerias vão se tornando estratégicas para a superação dos desafios coletivos que vão se tornando cada vez mais complexos. Fiquei muito feliz quando o Rául, no dia seguinte de sua eleição, me ligou propondo um conjunto novo de possibilidades para atuarmos ainda mais integrados. Junto com o Passoni, atual reitor e grande parceiro, já realizamos uma reunião conjunta e elencamos novas possibilidades de parcerias. Não tenho dúvida de que estaremos nos próximos anos desenvolvendo novas ações para o bem dos nossos estudantes, educadores e, principalmente, de nossa sociedade.

 

Folha – Qual o papel o Fórum Institucional de Dirigentes do Ensino Superior de Campos (Fidesc), ora presidido por Jefferson, desempenha no IFF, na Uenf e nas demais instituições de ensino superior do município?

Jefferson – Como destaquei anteriormente, a atuação conjunta e as parcerias estão se tornando cada vez mais estratégicas para o enfrentamento dos problemas comuns e coletivos. O Fidesc vem aproximando cada vez mais as instituições de educação superior de nossa cidade e, preservando nossas particularidades, vem possibilitando a formulação de ações conjuntas que estão nos fortalecendo mutuamente e possibilitando novos diálogos com muitos outros atores sociais. A última ação conjunta foi a Feira de Oportunidades, um evento organizado pelas nossas instituições constituindo um diálogo muito promissor entre nossas instituições e o setor produtivo. Acredito que no próximo ano conseguiremos realizar uma Conferência de Direitos Humanos e, muito em breve, fortaleceremos ainda mais a relação entre nossas comunidades com a realização dos Jogos Universitários e eventos científicos e culturais conjuntos.

Raúl – Acredito que temos que trabalhar no fortalecimento do Fidesc. Tenho que reconhecer que quase não tenho participado do fórum, mas, entendo que temos pontos em comuns a serem resolvidos. Certamente juntos somos mais fortes.

 

Folha – Campos vive uma crise financeira sem precedentes, com a queda acentuada nas receitas do petróleo. Matéria da Folha publicada (aqui) em 17 de agosto, mostrou que em valor nominal, sem correção pelo IPCA, Rosinha teve nos seus oito anos de governo a média de R$ 120 milhões na Participação Especial (PE) trimestral, valor que caiu para R$ 40 milhões na média dos dois anos e meio do governo Rafael. E que recebeu na última PE apenas R$ 16,9 milhões. Há solução? Qual? Em que Uenf e IFF poderiam ajudar o município?

Raúl – Acredito que a única possibilidade para o futuro de Campos está na participação ativa da população. A população precisa entender o tamanho do problema financeiro da Prefeitura e estabelecer um debate cívico sobre alternativas futuras ao desenvolvimento de Campos. Ao mesmo tempo a comunidade campista, com conhecimento da situação, apoiaria, de forma efetiva, a iniciativa para a taxação do combustível na origem e a necessidade de rever o pacto federativo de distribuição de impostos. As universidades podem ajudar de muitas formas. A principal está relacionada com a formação de cidadãos mais conscientes  com o seu papel social, bem como profissionais de altíssimo gabarito. As universidades podem apontar a saída para a crise trazendo novos modelos de negócio e novas tecnologias para diferentes áreas. Já existem políticas públicas, dentro das universidades, que poderiam ser adotadas pelos gestores públicos com apoio da iniciativa privada e da população. A realização de parceria pública-pública entre a Uenf e a Prefeitura de Campos tem permitido o desenvolvimento de projetos sociais que atendem à população residente nas proximidades da Uenf. Para os próximos anos teremos o credenciamento da extensão nos programas de graduação. Em termos de formação de recursos humanos temos estagiários em várias secretarias do município. Paralelamente  temos aplicação dos resultados das pesquisas nas diferentes áreas do conhecimento.

Jefferson – Não tenho dúvida alguma de que a crise que estamos atravessando nos últimos anos está sendo ainda mais aguda no estado do Rio de Janeiro, em especial em nossa cidade, visto nossa grande dependência histórica do arranjo produtivo do petróleo e gás. Algo muito complexo que exige decisões difíceis e com resultados que muitas vezes só serão percebidos a médio e longo prazo. Infelizmente, o debate público polarizado constrói algumas narrativas que talvez minimizam a gravidade do problema, sua historicidade e, muitas vezes, simplificam sobremaneira as possíveis soluções e repercussões das mesmas. Aliado à urgência de demandas sociais que se acumulam e se agravam, exigindo respostas cada vez mais imediatas, o cenário de gestão vai tornando-se cada vez mais difícil. Nossas instituições estão sempre buscando o diálogo com as diversas secretarias e órgãos da administração pública a fim de desenvolvermos ações conjuntas, o que vem ocorrendo com sucesso. Vamos continuar intensificando essas ações e buscando envolver um maior número de instituições. Vejo o papel estratégico do Fidesc como facilitador desse diálogo.

 

Folha – Como professor, que nota daria ao governo Rafael Diniz (Cidadania)? Em seu entender, quais seus principais erros e acertos? Saído de uma eleição na sua instituição de ensino em 2019, como projeta a eleição municipal de Campos em 2020?

Jefferson – A percepção por parte das pessoas dos resultados da atual administração municipal no cotidiano da cidade não é nada animador. Como dito anteriormente, a crise vem se mostrando mais aguda em nosso estado e em nossa cidade. O cenário financeiro das contas públicas municipais são graves. E já eram há alguns anos, inclusive anterior ao início da atual administração. Talvez um dos possíveis erros tenha sido minimizar a gravidade deste cenário e de suas soluções no próprio debate eleitoral passado. Em uma eleição e em um debate público muito polarizados, as simplificações das análises e das proposições estão muito mais presas às ênfases dos discursos do que aos seus conteúdos. Também julgo que a atual administração possa não ter tido o êxito de comunicar adequadamente a gravidade da situação com que se deparou. Alguns apontam que parte da equipe que assumiu a gestão carecia de uma maior experiência na gestão pública. Nos poucos momentos que tive a oportunidade de estar com o prefeito, sempre percebi um gestor com muita vontade de querer acertar e diante de grandes dificuldades. Como gestor de uma instituição pública, sempre busquei, como dever com minha cidade e região, disponibilizar nossa instituição para desenvolver parcerias em prol de nossa população e da diminuição dos seus grandes contrastes sociais. Fico feliz em ver uma diversidade de nomes se colocando para o próximo pleito municipal. Torço para que seja um debate maduro e que as soluções fáceis e fantasiosas não tenham espaço.

Raúl – A situação é complexa, sem dinheiro não dá para fazer milagres. Entretanto, sem apoio popular, nenhum politico sobrevive.  Poderia apontar como pontos não resolvidos  a falta de interação com a população de maneira geral , o isolamento do prefeito no seu gabinete,  a pouca interação com o funcionalismo municipal, falta de explicação da situação financeira do município e o fato de não ter aproveitado corretamente o apoio que teve quando foi eleito. Como aspectos positivos poderíamos apontar o trabalho na área de esporte e educação, a preocupação e seriedade com que Rafael trata o cargo em que está empossado, a coragem que teve para fazer algumas mudanças no transporte e na saúde e ter avançado apesar dos problemas. Penso que ele fez uma administração responsável e séria, mas que não soube aproveitar corretamente o apoio com que foi eleito.  Em relação à eleição, acho que vai ser muito acirrada. Não existem alternativas milagrosas, precisamos redimensionar a cidade e esse processo só poderá ser efetivamente realizado em conjunto com a população.

 

Página 4 da Folha da Manhã de hoje (15)

 

 

Folha – A crise financeira de Campos, que não parece ter solução boa ou fácil, pode afetar a condição de polo universitário que a cidade alcançou no tempo das vacas gordas dos royalties do petróleo?

Raúl – Não acredito, acho que o polo universitário de Campos tem contribuído e muito para o desenvolvimento da cidade, principalmente do ponto de vista intelectual. A consolidação do polo universitário tem mudado a forma de pensar dos campistas. Penso que ninguém tem dúvidas que o setor terciário da economia campista tem sobrevivido principalmente pelo fortalecimento do seu polo universitário.

Jefferson – Se houver mudanças na partilha dos royalties, é unânime de que as administrações do estado do Rio de Janeiro e de boa parte de seus municípios se inviabilizam. Não vejo alternativa se não houver uma ampla e profunda reforma tributária nacional, incluindo a partilha dos royalties. Repensar a partilha dos royalties de maneira isolada é decretar a falência do nosso estado e de nossa cidade. Todos serão afetados.

 

Folha – A eleição a reitor da Uenf foi a mais polarizada dos seus 26 anos de vida. O vencedor e seus apoiadores, inclusive líderes estudantis, sofreram tentativas públicas de desqualificação, com uso de fake news (aqui) por parte de veículo digital de pouca credibilidade. Se não foi tão polarizada, a eleição no IFF teve seu vencedor também alvo de ataques da direita bolsonarista nas redes sociais, onde foi “acusado” de petista. De fora das escolas para dentro, essa será a tônica dos processos eleitorais daqui em diante, no Brasil e no mundo? Como elevar o nível?

Jefferson – Ainda não estamos preparados para a vida virtual e todas suas possibilidades e consequências. Nossos hábitos ainda estão em profundo tensionamento com as novas potencialidades que estão sendo criadas pelas facilidades das “conexões” virtuais. Ainda não desenvolvemos a criticidade necessária aos tempos cada vez mais tecnológicos. Ainda estamos muito reféns dos novos tempos. Como destacado pelo escritor e filólogo italiano Umberto Eco, as redes sociais dão o direito à palavra a uma “legião de imbecis” que antes falavam apenas “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade…agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel”.

Raúl – A utilização da tecnologia e da comunicação de forma inescrupulosa me preocupa. Não existem mecanismos de controles eficientes neste sentido. Toda e qualquer pessoa se acha no direito de publicar qualquer impropério escondendo-se atrás do suposto direito de imprensa. Não incentivar isso já seria o inicio da solução do problema, mas hoje,  quando um ministro faz uso desses mecanismos para agredir as universidades, ao invés de punir, o governo incentiva esse comportamento. O problema, como qualquer processo entrópico é de difícil controle. Na pratica só piora a qualidade do debate, que só interessa a quem não tem argumento.

 

Folha – Embora os três candidatos a reitor da Uenf fossem alinhados ao campo político da esquerda, o derrotado no segundo turno tinha maior proximidade ao Psol. Já no IFF, pela primeira vez desde a redemocratização do país em 1985, um candidato a reitor era de direita, declaradamente alinhado ao bolsonarismo. É uma mudança de paradigma? A esquerda brasileira começa a ser ameaçada nas instituições públicas de ensino, seu tradicional bastião? A alternância, inclusive ideológica, não deveria ser uma marca da democracia?

Raúl – Nas universidades temos todas a correntes ideológicas e todas convivem ou coexistem no mesmo ambiente. A mesma coisa com as religiões. O problema está no fato em que o projeto de convivência da sociedade é diferente ao projeto de convivência nas universidades. Talvez devêssemos  replicar o nosso projeto para a sociedade. A própria palavra universidade faz referencia à universalidade dentro da instituição. Na sua concepção a universidade é progressista, pois só dessa forma consegue subsistir à presença de tantos universos diferentes. Em relação a eleição do reitor, mais que o partido político a que a pessoa física possa pertencer, o debate das ideias é o que define a eleição dentro de uma universidade.

Jefferson – Se analisarmos os processos eleitorais dos últimos 20 anos em nossa instituição, vamos perceber que nossa comunidade acadêmica se posiciona no campo progressista da educação. Não vejo ela flertar com os extremos. Os candidatos que se colocaram nessa posição, não foram bem sucedidos.

 

Folha – Na Uenf, a eleição pode ter dois turnos, e no seu colégio eleitoral o voto dos professores tem peso de 50%, com 25% aos demais servidores e 25% aos alunos. O pleito do IFF é em turno único, mas as três categorias têm o mesmo peso. Em seu entender, qual é o processo mais democrático? E por quê?

Jefferson – Eu acredito que a ponderação das eleições de nossa instituição sugere uma maior representatividade dos diversos atores que são responsáveis pelo processo educativo. Inclusive, havia um movimento crescente de adoção desse modelo nas universidades federais.

Raúl – Certamente o processo do IFF é mais democrático. Entendo que todas as categorias são importantes para o desenvolvimento da universidade. Sem a presença dos alunos não poderíamos ser chamados de universidade. E sem a participação do corpo técnico não teríamos o correto desenvolvimento do tripé universitário. Se entendemos a importância de cada uma das categorias,  porque dar pesos diferenciados a elas? Ao desequilibrar as forças alguém poderia pensar que só o voto de uma categoria é importante, quando de fato a nossa eleição demostrou a importância de todos os setores.

 

Folha – Facção mais radical do bolsonarismo, o olavismo domina as pastas da Educação e da Cultura no governo federal. Por parte dessa “direita incultural”, como a batizou o conservador Delfim Netto, é inegável o ressentimento vingativo contra a intelectualidade do país nas artes, na cultura e nas universidades públicas. No última quarta (11), diante da Comissão da Educação da Câmara Federal, o ministro Abraham Weintraub reafirmou a existência de plantações de maconha e laboratórios de produção de drogas nas universidades federais. Como reagir a esse tipo de ataque?

Raúl – De forma simples, firme e serena. A associação de Reitores das Universidades Federais acionou a pessoa física do ministro na Justiça. Esta é uma solução. Desmentir ele na Câmara Federal e colocar bem claro a importância das universidades para o Brasil é outra forma. Trabalhar na criação de um Plano Universitário para o Desenvolvimento Humano e Sustentável do Brasil é outra. Criticando a sua postura e pedindo para sair é mais uma. Poderíamos citar muitas, mas não vale a pena. Acho que esse já vai, o problema agora é quem virá?

Jefferson – A Educação é muito lucrativa em todo o mundo. Há no Brasil um movimento cada vez mais intenso de enfraquecimento da educação pública brasileira. Falas como essas contribuem para isso e deturpam a realidade. Vou falar em alto e bom som: a educação superior pública neste país é de altíssima qualidade e muito superior à oferta privada, o que não significa que não haja universidades privadas de alta qualidade no país. Todos os números dos indicadores de qualidade estabelecidos pelo ministério da Educação confirmam o que digo. O que também não significa dizer que não há problemas nas instituições de educação superior públicas. Estamos, infelizmente, na sociedade do espetáculo. As exceções são apresentadas tão intensamente, que parecem ser a regra. Sugiro que possamos “invadir” a internet postando nosso cotidiano educativo: o que ocorre em nossas salas de aula, em nossos laboratórios, em nossos eventos, em nossas pesquisas e desenvolvimento tecnológicos, em nossas aulas de campo, em nossas ações culturais e esportivas. Não tenho nenhuma dúvida de que a sociedade ficará encantada com o que verá.

 

Folha – Qual é o papel das universidades e escolas públicas em um mundo onde cada vez mais pessoas questionam abertamente fatos científicos como a esfericidade da Terra, o heliocentrismo, a ida do homem à Lua, o nazismo ser de direita e até a validade das vacinas?

Raúl – Temos duas coisas diferentes dentro do mesmo grupo, pois entendo que a validade das vacinas estão num grupo a parte. Das outras entendo como uma forma de se contrapor tudo o que conhecemos como fato. Dessa forma atacam as nossas bases de sustentação do pensamento lógico, pode parecer idiota, mas não é. Seria como uma forma de resetar a mente humana e deixar o cidadão vulnerável a aceitar conceitos errados sobre sociedade e comunidade. Se conseguem fazer com que questionemos a forma da Terra, poderemos questionar qualquer conhecimento, assim, temos que lutar com conhecimento. A Terra é redonda e ponto, isso é um fato. Em relação às vacinas a questão é mais perigosa, envolve vidas, muitas vezes de pouca idade. Nesse caso entendo que temos que atuar de forma mais rápida, inclusive judicialmente, se for o caso.

Jefferson – Este cenário é muito preocupante, mas é resultado direto da baixa escolaridade de nossa população. Infelizmente, o direito a uma educação de qualidade para todas as pessoas ainda está muito distante em grande parte dos países do mundo, inclusive o Brasil.

 

Folha – Nas eleições de 2018, entre 23 e 25 de outubro, até que o Supremo Tribunal Federal (STF) desse um basta (aqui), a Justiça Eleitoral fez ações de fiscalização em 13 instituições de ensino público superior nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Mas tudo começou em Campos, onde em 13 de setembro a fiscalização do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) foi à UFF da cidade. E depois também teria IFF e Uenf como alvos. Houve exagero? Por quê?

Jefferson – Acredito que devemos analisar cada caso em suas peculiaridades. O que posso dizer, de maneira geral, é que cresce a concepção de que as nossas instituições de educação pública são repartições públicas. Os ambientes educacionais precisam tematizar debates sobre a vida em toda a sua amplitude e aspectos. A formação cidadã, como preconiza o Art. 205 da Constituição Federal, exige abordar os temas a que estamos expostos em nosso cotidiano. Para exercitarmos a plena cidadania, o tema política é importante. O que não se pode confundir é que ao discutir política estou defendendo ou promovendo um partido político. É bom ressaltar que existe uma área do conhecimento chamado Ciência Política, com suas tradições e linhas filosóficas. Portanto, isto também é fazer ciência. Além do mais, democracia não é apenas um tema a ser estudado na escola. A democracia precisa ser vivenciada. Portanto, o processo de escolha dos nossos dirigentes faz parte da prática educacional de formação de cidadania.

Raúl – Entendo que o voto e a manifestação democrática são sagrados dentro da democracia. Tentar cercear a manifestações  democráticas é no mínimo um absurdo, todos têm direito a se manifestar. Qualquer coisa diferente a isso é censura, simples assim. Ao iniciar o processo eleitoral nos reunimos com o juiz eleitoral de Campos e conversamos sobre  o direito dos estudantes se manifestarem. Especificamente na Uenf, não tivemos problemas com manifestação estudantil. Também combinamos que perante qualquer denúncia, contra algum funcionário público, seríamos os primeiros a ser avisados e acompanharíamos o fiscal até o local da denúncia. Só tivemos um caso que foi prontamente desmentido. O único problema complexo que tivemos não veio da fiscalização eleitoral.

 

Folha – Divulgado no início de dezembro, o Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (Pisa) revelou o abismo que há entre as escolas particulares de elite brasileiras, que ficaram em 5º lugar, e as escolas públicas do país, na 65º posição entre 79 países. Como professor e dirigente de escola pública no Brasil, o que fazer? E como?

Raúl – Acredito que temos dois grupos diferentes de escolas públicas. Se utilizarmos o resultados dos estudantes dos IFFs, do Pedro II e dos Colégios de Aplicação, a posição das escolas públicas seria melhor que o 5° lugar. A resposta é simples, repetir a mesma estrutura, financiamento, projeto pedagógico nas outras escolas publicas.

Jefferson – Mais do que ficarmos espantados com os resultados obtidos por nossas escolas com relação ao mundo, deveríamos ficar abismados e exigir providências devido a essa tendência que vai se consolidando de distanciamento do resultado das escolas particulares das públicas. Se não enfrentarmos esse problema, de frente, com base na realidade e não em discussões ideológicas de efeitos midiáticos, nosso sistema público de ensino será cada vez mais um consolidador das injustiças e distanciamentos sociais históricos. Vamos estar iludindo as famílias mais empobrecidas de que seus filhos estão indo para uma escola que mudará o seu destino. Eu acredito em uma educação transformadora e promotora de vida.

 

Folha – Para Campos e região, há erro em afirmar que a Uenf é a maior universidade e o IFF é a maior instituição de ensino? Quem papel ambas têm nas comunidades em que estão inseridas? Como ampliá-lo?

Jefferson – São duas grandes instituições que precisam ser fortalecidas e cada vez mais devem atuar de maneira integrada para o bem de nossa região. Nosso município e nossa região são “privilegiados” em ter instituições desse quilate. Patrimônio pública que deve estar a serviço do desenvolvimento de nossa região. Para todos!

Raúl – Como falamos anteriormente ambas instituições se complementam, não existe competição entre as instituições, só colaboração. A Uenf direciona seus esforços na formação de licenciados e bacharéis. No IFF o ensino superior é tecnológico. A excelente formação dos alunos oriundos do ensino médio do IFF permite que os mesmos ao ingressarem na Uenf apresentem uma inserção mais rápida na pesquisa e na extensão. A Uenf apresenta uma infraestrutura de pesquisa muito forte, onde muitos  professores do IFF realizaram e realizam seus  cursos de pós graduação. Ambas aportamos muito ao desenvolvimento da cidade. Um número elevado de professores das outras instituições formaram parte das nossas comunidades acadêmicas. Temos um forte engajamento político. No caso da Uenf, estadual e municipal. No do IFF, federal e municipal.

 

Folha – Acredita que o cidadão médio de Campos e região tenham a devida noção de pertencimento quanto à Uenf e ao IFF? Como ampliar a consciência que essas duas instituições são também dele, financiada por seus impostos, mesmo que nunca tenham estudado nelas? 

Raúl – Acredito esse sentimento tenha melhorado muito, mas temos que continuar trabalhando. Na Uenf temos o programa “Uenf Portas Abertas” que interage com a comunidade jovem. Dentro do programa temos o projeto “Conhecendo a Uenf”, que no ano passado trouxe para visitação da universidade mais de 4 mil estudantes de Campos. Temos o Vestibular social, o Teorema, as feiras itinerantes. Para o próximo ano vamos aumentar a interação com a sociedade através de projetos de cultura. Todo o trabalho desenvolvido nos últimos quatro anos na Villa Maria será estendido aos campis Leonel Brizola e Macaé.

Jefferson – Não tenho dúvidas de que hoje, tanto a Uenf quanto o IFF já estão inseridas no cotidiano da vida de nossa cidade. Não é possível imaginar Campos dos Goytacazes sem essas duas potências educativas. Mas sempre podemos nos integrar mais e fazer melhor. Tenho absoluta certeza de que esta disposição é similar em nossas duas instituições.

 

Página 5 da Folha da Manhã de hoje (15)

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

 

0