Ciência denuncia aposta de Bolsonaro em mortes sem vacina e médicos anticiência

 

Biólogo Renato DaMatta, cientista e professor da Uenf (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

“O governo Bolsonaro (sem partido) apostou na imunização de rebanho sem vacina. Primeiro foram contra a vacina, porque ela vinha da China. E apostar na imunização de rebanho, sem vacinação, é condenar as pessoas à morte; é achar que isso não é importante. Se você tem a vacina, você evita as mortes. Se você não tem, um percentual das pessoas vai morrer, que pode representar até 10% da população (no Brasil, que até ontem contabilizava mais de 318 mil mortos pela Covid, 10% significaria mais de 20 milhões). Apostaram muito alto numa coisa que é um absurdo. E parece agora que o presidente está dizendo que pode vacinar. Ele chegou até a declarar que se você tomasse uma determinada vacina, iria virar jacaré. Um líder não pode falar isso, porque influencia as pessoas, principalmente as que votaram nele”. Foi o que advertiu na manhã de hoje, no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, o biólogo Renato DaMatta, professor da Uenf.

O biólogo explicou como a lentidão da vacinação no Brasil tem servido ao surgimento de novas variantes do vírus, como a P-1, que apareceu em Manaus e tem conferido características epidemiológicas e clínicas diferentes do que a pandemia apresentou em 2020. A maior carga viral causada pela infecção da nova variante é considerada uma das causas do colapso das redes de saúde do país, considerado hoje o principal epicentro mundial da pandemia. Quanto mais lenta for a vacinação e circulação do vírus, maiores são as possibilidades de novas mutações, que podem resultar numa variante, até agora não registrada, que não seja imunizada pelas vacinas existentes:

— As variantes são extremamente preocupantes e a vacinação lenta atrapalha o processo. Por isso o Brasil é hoje o epicentro da doença no mundo. Porque aqui é onde tem mais gente morrendo e mais gente com o vírus. Quando você tem muito vírus em muita gente, a probabilidade de novas variantes aumenta. Quem faz a replicação do vírus são as nossas células. Ele infecta as nossas células, que duplicam aquele vírus várias vezes e o seu material genético. Vão saindo vírus das nossas células que têm pequenas alterações. Elas vão se refletir em proteínas, em moléculas na superfície do vírus, que o tornam diferente. Foi justamente isso que aconteceu com o P-1, por exemplo. Ela apareceu em Manaus e tem uma grande capacidade de infecção. Se você infecta mais, o problema aumenta. Quanto mais rápido você vacina, menos variantes você vai ter. Se você demora, nós voltamos à hipótese do governo Bolsonaro, que era a imunização de rebanho com mortes, o vírus vai infectar as pessoas durante um longo período. A chance de surgirem novas variantes é enorme. Inclusive, a variante pode ficar tão diferente que você tem que fazer uma nova vacina. A notícia boa é que, até agora, as vacinas estão funcionando contra as novas variantes.

Cientista da mais importante universidade de Campos e região, Renato também questionou a capacidade científica dos médicos, geralmente simpatizantes do presidente Bolsonaro, que continuam receitando medicamentos como cloroquina e ivermectina, que a ciência já comprovou serem completamente ineficazes contra a Covid. Não só aos infectados pela doença, mas como em suposto tratamento preventivo a ela. Apesar de ressalvar seu respeito à categoria médica, sua condenação àqueles que agem contra a ciência não teve meias palavras:

— Todo médico é cientista? Deveria ser! Mas, infelizmente, essa não é a realidade. Com todo o respeito à classe, que é extremamente importante na sociedade, mas tem muito médico que não tem o que chamamos de letramento científico. Se os médicos realmente fossem cientistas, eles não iriam usar esses medicamentos como a cloroquina e a ivermectina. Como é que foi isso? No primeiro momento, você pegou no sistema in vitro (ensaio realizado fora de um organismo vivo), onde você tem células em um meio de cultura, infectou elas com o vírus, tratou elas diretamente com esses componentes (cloroquina e ivermectina) e viram que o vírus morria. Eles funcionaram num sistema in vitro. Só que quando você vai para um organismo, e o primeiro passo é usar animal de laboratório, tipo um rato, não funcionou. E aí ficou essa coisa: se funciona no sistema in vitro, então funciona no sistema in vivo. Apesar de não funcionar em animais de laboratório, como não existia mais nada, as pessoas começaram a usar esses medicamentos sem comprovação. Depois de um ano usando, hoje nós temos a comprovação de que não funcionam. E se ainda tem médico receitando, vai me desculpar, mas não são cientistas. A Associação Médica Brasileira (AMB) já disse que não funcionam. Não se deve usar, muito menos de forma preventiva. Mas as farmácias, lógico, querem vender.

 

Confira abaixo, em três blocos, os vídeos da entrevista do biólogo Renato DaMatta, professor da Uenf, ao Folha no Ar na manhã de hoje:

 

 

 

 

Ex-chefe do combate à Covid em Campos analisa pandemia no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta, a convidada do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, será a médica infectologista Andreya Moreira. Chefe de Vigilância em Saúde no governo Rafael Diniz (Cidadania), cargo em que foi substituída no governo Wladimir Garotinho (PSD) por seu colega infectologista Charbell Kury, Andreya falará sobre a pandemia da Covid-19 em Campos e seu combate entre as duas administrações municipais.

A infectologista analisará também a condição, apontada por todos os especialistas, do Brasil como novo epicentro mundial da doença, que tem propiciado o aparecimento de novas variantes do vírus, como o P-1 de Manaus, o P-2 do Rio de Janeiro e o N-9, do Nordeste. Por fim, Andreya analisará o ritmo lento da vacinação em Campos e no país, da sua consequente necessidade de manutenção de restrições para não piorar ainda mais a situação da rede de saúde já colapsada, além dos remédios sem comprovação científica que continuam sendo receitados aos doentes.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

CCC faz 1 ano com superlotação de maioria jovem na pior fase da pandemia

 

Patrícia Meireles, Vigor Carneiro e o CCC, que hoje comemora um ano de atividade na pior fase da pandemia desde que ela começou em Campos (Montagem: Aluysio Abreu Barbosa)

“A gente pede consciência à população. A gente poderia estar completando o ano no CCC em comemoração, mas infelizmente, neste dia, a gente abre o nosso serviço em superlotação. Pela primeira vez, a gente está além dos 100% da ocupação, temos pacientes em todos os lugares possíveis em pode acomodar, à espera de uma vaga regular. Este é o nosso cenário atual”. Foi a alerta ecoado hoje pela médica pneumologista Patrícia Meireles, do Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC) em Campos, instalado há um ano, em 30 de março de 2020 (relembre aqui), na Beneficência Portuguesa.

Patrícia foi entrevistada no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, junto ao médico intensivista Vitor Carneiro, seu colega no CCC. Ele cobrou o Hospital de Campanha do governo estadual, que chegou a começar a ser instalado às margens da av. 28 de Março em 2020. Mas nunca foi concluído, em meio ao escândalo de corrupção que levou ao afastamento do governador Wilson Witzel (PSC). Eleito no fenômeno eleitoral de Jair Bolsonaro (hoje, sem partido) em 2018, Witzel passaria de aliado a adversário político do presidente.

— O CCC foi aberto contando que o Hospital de Campanha fosse aberto também aqui em Campos; aquela tenda montada em frente ao Shopping 28, que começou, mas nunca funcionou. O colapso (da rede de saúde pública, conveniada e privada de Campos, com a Covid) acontece hoje porque a previsão feita na época é de que haveria o Hospital de Campanha. A gente chegou próximo disso na primeira onda, lá para maio, junho (de 2020). E agora estamos com essa situação complicadíssima que estamos vivendo neste momento — alertou também Vitor.

Linha de frente de Campos e região no enfrentamento à pandemia, o CCC revela a situação desesperadora de quem precisar hoje de leito, de UTI e até clínicos:

— A gente tem gente na enfermaria à espera de leito de UTI, mais de seis ou sete doentes, dentro da instituição, esperando regulação externa e interna. Hoje, infelizmente, a gente trabalha com altas e óbitos. E também à espera de um leito clínico. A gente conseguiu acomodar ontem, dentro da nossa unidade, cinco pacientes na emergência, à espera de um leito clínico e de UTI. Por exemplo, no dia de ontem, conseguimos acomodar, até quase às 22h de ontem, gente em cadeiras. Porque a gente não tinha onde colocá-los. O CCC não é um centro hospitalar, é um centro de triagem, com uma estrutura hospitalar acima. Quando ela sobrecarrega, eu não tenho mais como acomodar esses pacientes. A não ser em cadeiras, em camas e macas improvisadas ali embaixo. Ontem, a gente conseguiu retirar os pacientes que estavam em cadeiras, o período inteiro, com oxigênio — contou Patrícia.

Dada a explosão da doença no município, como em todo o Brasil, o improviso também tem sido a única saída para sanar a falta de medicamentos que compõem o kit-intubação, necessário à sobrevivência dos doentes graves de Covid:

— Está difícil, a gente tem que usar várias alternativas às medicações usuais, não só para entubar o paciente, mas para manter ele entubado, manter ele sedado no respirador. Isso dificulta o manejo do paciente, prejudica o tratamento. Mas isso é uma falta nacional, não só no CCC; os hospitais particulares também estão sofrendo isso. A gente está sempre usando alternativas para manter esse paciente sedado, em ventilação mecânica. É uma situação dificílima para a gente. A gente pede cotação dessas medicações e não tem nem retorno, as empresas não têm como fornecer. A gente vai usando outras drogas, associando e tentando suprir essa necessidade — testemunhou Vitor como intensivista.

Os médicos do CCC também constataram que, ao contrário do que aconteceu em 2020, a maioria da ocupação dos leitos clínicos e de UTI se dá com pacientes mais jovens. O que parece ser reflexo da vacinação ainda lenta no Brasil estar se dando primeiro na população mais idosa. Que também estaria respeitando mais as medidas de restrição social:

— Hoje a gente tem uma média de idade dos pacientes internados muito baixa, muito menor do que antes. A gente teve uma fase no ano passado em que na UTI só tinha paciente idoso e muito idoso, acima de 75 e 80 anos. E hoje é o contrário, a gente não vê o muito idoso. Alguém de 80 e poucos anos, na UTI, hoje é muito raro de ver um paciente dessa idade. Está povoado de pacientes realmente bem mais jovens, a partir dos 25, 30 anos — constatou Vitor.

— Eu acho que é uma combinação de fatores: o início da vacinação e o fato de essa ser uma população que realmente respeita o isolamento. Então essas são provas da eficiência da vacinação, do distanciamento. E isso trouxe essa faixa etária para baixo — completou Patrícia.

Os dois médicos também pleitearam ao governo munipal o revezamento dos 45 médicos que trabalham no CCC há um ano. E fizeram hoje protesto neste sentido (confira aqui), na comemoração de um ano de atividade do Centro, essencial ao combate à pandemia em Campos e região.

 

Confira abaixo, em três blocos, os vídeos da entrevista dos médicos do CCC Patrícia Meireles e Vitor Carneiro ao Folha no Ar na manhã de hoje:

 

 

 

 

Acuado, Bolsonaro apela às Forças Armadas e ao Centrão: “Não me deixem só!”

 

(Foto: Sérgio Lima – Poder 360)

 

Na maior crise militar desde que esta categoria largou o osso do poder no Brasil, em 1985, Bolsonaro hoje perdeu os comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Para não ser abandonado pelos três, simulou que os exonerou. O encarregado da missão foi o general Braga Netto, ex-interventor militar do Estado do Rio, que deixou o ministério da Casa Civil para assumir o da Defesa. Cujo ex-ocupante, general Fernando Azevedo e Silva, saiu ontem mandado um recado, preto no branco, ao presidente e à sociedade brasileira: “Preservei as Forças Armadas como instituições de Estado”.

Em apoio a Azevedo e Silva, os três comandantes das Forças Armadas Brasileiras foram à reunião de hoje para dizer a Braga Netto: “Não daremos um passo que possa contrariar a Constituição ou caracterizar ingerência nos outros Poderes, o Judiciário e o Legislativo”. O general e lugar-tenente de Bolsonaro foi dizer o que quis, mas ouviu o que não quis. Agora ex-comandante da Marinha, o almirante Ilques Barbosa reagiu com bastante força. Inclusive “beirando à insubordinação”, segundo fontes que participaram da reunião.

Na reforma ministerial anunciada ontem, o presidente também fez de Flávia Arruda (PL/DF) ministra da secretaria de Governo. Deputada federal de primeiro mandato, só foi eleita por ser esposa do ex-governador de Brasília, José Roberto Arruda (PL), preso e alvo de impeachment por corrupção em 2010. Sem nenhuma relevância no Congresso, Flávia cumprirá o papel de secretária do Centrão do governo federal. Para tentar acalmar os ânimos do presidente da Câmara, deputado Arthur Lira (PP/AL), após este acender publicamente o “sinal amarelo” a Bolsonaro pela conduta genocida deste na pandemia da Covid. Que, até ontem, tinha matado mais de 314 mil brasileiros.

No período da redemocratização do Brasil, Fernando Henrique Cardoso criou o “presidencialismo de coalisão”, transformado por Lula e o PT, até darem com os burros n’água, em “presidencialismo de cooptação”. Obrigado a aceitar a demissão de Ernesto Araújo, pior chanceler da História do Brasil, e com o limite constitucional imposto nas Forças Armadas pelo seu agora ex-ministro da Defesa, Bolsonaro reagiu com a irracionalidade de qualquer animal acuado: avançou. Nesta investida desesperada, pretende segurar os militares e o Centrão como aliados. Na verdade, o atual inquilino do Palácio do Planalto lembrou outro ex-presidente da Nova República, Fernando Collor de Mello, em seu discurso fatídico: “Não me deixem só!”. Em 1992, deu no que deu…

Na questão militar, Bolsonaro tentará jogar com a simpatia que julga gozar no baixo oficialato do Exército, para tentar instalar a anarquia nos quartéis. Mais ou menos como faz com as milícias instaladas nas PMs estaduais, ou como o ex-coronel Hugo Chávez fez com os militares da Venezuela. E, tudo indica, enfrentará a resistência tenaz do comando das Forças Armadas Brasileiras, já cientes da canoa furada em que entraram e independente dos nomes escolhidos para chefiá-las. A exemplo do seu “mito” Donald Trump, defenestrado pelo voto popular e do colégio eleitoral dos EUA, Bolsonaro tenta implantar no Brasil, desde que chegou ao poder em 2019, o “presidencialismo de colisão”.  Em 2022, ou antes, pode ser com a cara no muro.

 

Ciência e negacionismo na Covid com biólogo da Uenf no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir da 7h da manhã desta quarta (21), o entrevistado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, será o biólogo Renato da Matta, professor da Uenf. Ele responderá se o negacionismo da ciência, propagado pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seus seguidores, foi responsável pelo fato do Brasil ser hoje apontado pelos especialistas como principal epicentro mundial da pandemia da Covid-19.

Renato também falará do surgimento das novas variantes brasileiras do vírus, como a P-1 de Manaus, a P-2 do Rio e a N-9 do Nordeste, sobre o ritmo lento da vacinação no país e da sua correlação com a necessidade de restrições de circulação social. Por fim, o biólogo dará a visão da ciência sobre o fato de remédios sem nenhuma comprovação científica continuarem sendo receitados no Brasil contra a Covid.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Aniversário de 1 ano do CCC com protesto pelo revezamento dos médicos

 

Faixa de protesto pelo revezamento dos médicos do CCC, que não ocorre desde que ele foi aberto, há um ano

 

Hoje faz um ano que o Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC) entrou em atividade em Campos (relembre aqui), no Hospital da Beneficência Portuguesa. E, desde então, exatos 365 depois, as equipes de triagem da principal linha de frente do enfrentamento à Covid-19 no município não têm revezamento de médicos.

Diferente dos intensivistas, que atendem aos pacientes graves na UTI lotada do CCC, os médicos da triagem podem ser de qualquer especialidade. Ainda assim os pedidos de revezamento dos seus 45 profissionais não foram atendidos nem no governo passado, do ex-prefeito Rafael Diniz (Cidadania), nem no atual, do prefeito Wladimir Garotinho (PSD). Enviado a este, um ofício datado do último dia 17 permanece sem resposta efetiva.

 

Ofício enviado ao governo Wladimir em 17 de março, pedindo o revezamento dos médicos na triagem do CCC, que até agora não teve resposta efetiva

 

Por isso, às 17h de hoje, não só um bolo marcará o aniversário de um ano do CCC, como uma faixa de protesto será estendida, no pior momento desde que a pandemia começou em Campos: “Nós, médicos do CCC, precisamos de revezamento com outros médicos, urgente! Estamos exaustos, trabalhando há 1 ano sem parar!”.

 

“Nos Tempos do Trianon” — Homem, teatro e cidade na história goitacá

 

Historiadores Juliana Carneiro e Victor Andrade de Souza, professores, respectivamente, da UFF e UFRJ, e autores do livro “Nos Tempos do Trianon” (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr,)

 

Capa do livro lançado virtualmente no último dia 18 e com previsão de lançamento impresso no segundo semestre do ano

“Em 2001, 2002, eu estava começando o doutorado na UFF, sobre o Trianon. Antes, durante o mestrado, naquela época não tinha biblioteca digital, e eu ficava no Palácio da Cultura pesquisando jornais antigos de Campos. E o tempo inteiro me deparava com anúncios e matérias que falavam da importância do Trianon na cena cultural de Campos. Nessas coisas da vida, numa visita à cada do meu avô, achei um material inédito, que estava lá como acervo de família, que era toda a folheteria do Trianon do período em que o teatro foi propriedade do meu bisavô (o Capitão Carneirinho, como era conhecido Francisco de Paula Carneiro, que batiza o Boulevard de Campos), de 1921 a 1931. E pensei que era um material familiar que precisava se tornar público. Acabei não dando seguimento a essa pesquisa e agora, no final de 2020, com o centenário no Trianon, chamei o Victor (Andrade de Melo, historiador e professor da UFRJ), meu ex-orientador, para essa parceria”. Segundo a historiadora campista Juliana Carneiro, professora da UFF, contou no início da manhã de hoje ao Folha no Ar, na Folha FM 98,3, essa foi a gênese do livro “Nos Tempos do Trianon — Campos se diverte!” (confira aqui). Cuja autoria ela divide com Victor, que também participou do programa. Lançado virtualmente no último dia 18, pela Numa Editora, a versão impressa deve sair no segundo semestre do ano.

— Inicialmente o livro era para ser sobre o teatro, sobre as 209 programações do Trianon nesses 10 anos (1921/1931), que estavam na folheteria. E, no processo de pesquisa, esses outros personagens começaram a ganhar protagonismo, seja pela riqueza da biografia do Carneirinho, seja porque a gente foi entendendo que o Trianon só era possível na década de 1920 porque Campos era uma cidade que construía sua modernidade nesse binômio rural e urbano. E só foi possível porque tinha uma figura como o Carneirinho, que foi capaz de apostar no ramo do entretenimento. Porque ele já tinha um teatro, o Orion, e construiu o novo teatro, o Trianon, arrendou o Coliseu, numa aposta de que isso colocaria Campos nesse cenário da modernidade — contou Juliana sobre a grande obra do bisavô. Construído por ele a partir de 1919, inaugurado em 1921 e vendido em 1931, fruto da grande crise econômica internacional de 1929, o antigo cine teatro Trianon passaria por outros donos até ser demolido em 1975, para dar lugar a uma agência bancária. O novo Trianon, com o mesmo nome e ainda hoje o maior teatro de Campos, seria construído em outro local e inaugurado em 1998.

— Eu estudo a cidade, o que me interessa é a cidade. Eu acho que a diversão é uma das maneiras mais usuais para a gente usar a cidade. Cidade sem cidadão não é cidade. E o cidadão usa a cidade no entretenimento.  Meu trabalho é sempre tentar ver como a gente lança um olhar para as cidades, a partir desses momentos de diversão. Então, quando a Juliana me chamou para o projeto, eu fiquei bastante empolgado com a possibilidade de tentar entender mais uma cidade. É lógico que o Trianon merece um, dois, três livros só sobre o Trianon. Mas era importante entender a rede de relações na qual o Trianon pode se realizar. Porque, em certa medida, é inusitado, um teatro do porte do Trianon em uma cidade do interior. Eu trabalho muito atento às questões econômicas. Eu até brinco: “follow the money” (“siga o dinheiro”, frase que ficou famosa no filme “Todos os Homens do Presidente”, de 1976, dirigido por Alan J. Pakulla, que narra os fatos reais que levaram à renúncia de Richard Nixon da presidência dos EUA, em 1974). Porque a gente às vezes investe muito só na questão da aspiração cultural, mas se você não tem uma economia, se você não tem mercado consumidor, as intenções culturais não se manifestam — ressalvou Victor de Melo.

— O livro começou para ser só a história do Trianon. Mas acho que esse tripé (o homem, a cidade e o teatro como os três protagonistas do livro) era necessário. Nenhum existiria sem o outro. Eles só se justificam nesse processo — explicou Juliana.

— A gente começou a pensar também na formação do Capitão Carneirinho. Que personagem é esse que surge? Como é que ele pode fazer um teatro com recursos próprios? Não houve recursos públicos nessa jogada. Então, foi daí que a gente montou esse tripé, entendendo que há uma relação inextricável entre os três. O Trianon só é possível porque a gente tem um personagem como Carneirinho e porque tem um personagem como Campos. Acho que isso é uma coisa que a gente procurou enfatizar no livro: Campos não é uma ambiência. A cidade é, em si, um personagem que condiciona as nossas possibilidades — elencou Victor.

 

Confira abaixo, em três blocos, os vídeos da entrevista dos historiadores Juliana Carneiro e Victor Andrade de Melo, autores do livro “Nos Tempos do Trianon — Campos se diverte”, ao Folha no Ar na manhã de hoje:

 

 

 

 

Um ano do CCC com seus médicos Patrícia e Vitor no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (30), os convidados do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, são os médicos Patrícia Meirelles e Vitor Carneiro, do Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCC) de Campos. Na data em que este completará exato um ano de atividade (relembre aqui), na linha de frente do enfrentamento à pandemia da Covid-19 em Campos e na região.

Patrícia e Vitor falarão sobre esse difícil período de um ano de CCC, entre passado, presente e projeção do futuro. Eles também avaliarão a situação atual da pandemia em Campos, no Norte e Noroeste Fluminense, no Estado do Rio e no Brasil. E analisarão os reflexos que sentem no front das novas variantes do vírus e do início da vacinação contra a doença.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Trianon em livro e nos ciclos econômicos de Campos no Folha no Ar desta 2ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta segunda (29), quem abre a semana do Folha no Ar são os historiadores Juliana Carneiro e Victor Andrade de Melo. Ela, campista e professora da UFF; ele, carioca e professor da UFRJ; são ambos autores do livro “Nos Tempos do Trianon — Campos de diverte!” (confira aqui). Os dois começarão tentando projetar pela História o Brasil de Bolsonaro.

Juliana e Victor falarão tambpem sobre o centenário do Trianon resumidos no homem, na cidade e no cine teatro que escolheram como personagens do livro lançado virtualmente no último dia 18. Por fim, dentro dos ciclos exonômicos de Campos, os dois analisarão do antigo Trianon, erguido em 1921, com o dinheiro da cana de açúcar — e demolido em 1975 —, até o Novo Trianon ser aberto em 1998, com o dinheiro do petróleo.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta segunda pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

Ricardo André Vasconcelos — Bolsonaro é o nome da tragédia

 

(Foto: Mauro Pimentel – AFP)

 

 

Ricardo André Vasconcelos, jornalista, servidor federal e bacharel em Direito

Bolsonaro é o nome da tragédia

Por Ricardo André Vasconcelos

 

A tragédia que se abateu sobre o Planeta encontrou aqui, neste que já foi considerado o “país do futuro”, aliados do inimigo que, por ignorância ou esperteza, abriram as portas dos lares brasileiros para a maior carnificina humana desde a Gripe Espanhola de um século atrás. De repente, foi como se o relógio tivesse andado para trás e as vacinas inventadas nas primeiras décadas do século XX voltaram a ser rejeitadas por parte da população que julgávamos minimamente civilizada.

Oswaldo Cruz, Carlos Chagas, Vital Brazil, Noel Nutels, o que fizeram com o legado de vocês?

E descobriu-se algo ainda mais assustador. Já se falava à boca miúda, mas agora, como muitos com Q.I. semelhante tinham assento em palácios, assumiram sem vergonha: a terra não é redonda e gira em torno do Sol como nos ensinaram Galileu Galilei e Nicolau Copérnico às portas do Renascimento, por volta de 1.500 d.C., e sim “plana”!

Essa gente vivia entre nós e não sabíamos. Tomávamos cafezinho juntos no Ceceu, quando ainda existia a “rua dos homens em pé”. Almoçávamos juntos no Palace Hotel em dias de bonança, ou prato feito nos pés-sujos da cidade, sem saber que na própria mesa ou ao lado, poderia estar esse tipo raro de fascista, que fica décadas dentro do armário sem saber o que é. Um dia, um ex-capitão saído do Exército pela porta dos fundos, e 28 anos habitando o andar de baixo da política, encaixando os três filhos no mesmo esquema, é guindado à chefia da nação por 57,7 milhões de eleitores. Aí todos os fascistas enrustidos e negacionistas envergonhados encontraram um líder para seguir cegamente, esfregando na nossa cara sua ignorância, crueldade e incivilidade. Muitos, acredito, por absoluta indigência de senso crítico, mas não se pode deixar de admitir o conúbio macabro de oportunistas, sejam eles financistas da Faria Lima, mercadores da fé — estes os mais repugnantes — ou os velhacos políticos cujas velas inflam sempre para vento dominante.

Bolsonaro é, antes de uma reação antilulista e ao desencanto com a política, o encontro do Brasil consigo mesmo, ou melhor, com o lado mais cruel e abjeto do país.  Sim, a pátria mãe gentil é só uma bela frase poética de Osório Duque-Estrada para a música composta um século antes por Francisco Manuel da Silva. Talvez esta seja a constatação mais assustadora na semana em que ultrapassamos a marca das 300 mil mortes pela Covid-19. O país caminha para um colapso em sua estrutura de saúde — pública e privada — porque não há leitos, equipamentos, oxigênio, profissionais e talvez nem caixões em número suficiente para enfrentar a incúria dolosa do Governo Federal. E tem gente com insensibilidade suficiente para vestir-se de amarelo e sair às ruas para gritar “ivermectina sim, vacina, não!”.

Desde os primeiros dias da pandemia, coube ao presidente da República o papel de garoto-propaganda do Sars-CoV-2, o coronavírus, ora subestimando o vírus (pode causar no máximo uma “gripezinha”), ora exercendo ilegalmente a medicina ao prescrever medicamentos incapazes de combater a doença. Fez mais: criou todas as dificuldades para o país ter acesso às vacinas, inclusive ofensas ao povo do país produtor de vacinas, feitas pelo filho 02, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que é, pasmem, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara Federal. Além disso, Bolsonaro pai sabotou de todas as formas às medidas elementares para evitar a propagação do vírus: andava sem máscara (“coisa de maricas”); provocava aglomerações diárias e mantém uma relação de perseguição aos governadores que combatem a tragédia em trincheira oposta. Fez pouco caso quando o número de vítimas chegou a 5 mil (“e daí?”) e (“sou Messias, mas não faço milagres”)… “É infâmia demais”, diria Castro Alves.

A conclusão desta breve reflexão passa justamente por essa relação de líder e liderados. Dono de cerca de 30 % do eleitorado, Bolsonaro fala diretamente com essa massa, ativando o mecanismo conhecido como “apito do cachorro”, cuja freqüência sonora retroalimenta o bolsonarismo num círculo vicioso do qual o presidente acabará refém. O fascista Bolsonaro conta com essa gente para permanecer no poder. Pelo voto ou pela força. Mas, como monstro devora monstro, poderá ser devorado pelo monstro que ajudou a criar.

A tragédia deve chegar a 500 mil mortes, que podem ser nossos pais, irmãos, filhos, amigos, mas a dor alheia parece ser apenas um detalhe nesse projeto de poder. Enquanto isso, a pandemia vai sendo debelada praticamente por gravidade. Vacinação lenta, a conta-gotas, dedicação dos profissionais de saúde e atuação firme de alguns governadores e prefeitos que têm a coragem de enfrentar a ganância de empresários que forçam para manter seus estabelecimentos abertos a qualquer custo. Além dos achacadores do dízimo, que lotam templos. É claro que as pessoas precisam trabalhar, produzir para comer.  Mas é falso o dilema de vida x economia. É preciso garantir incentivo às empresas para que mantenham seus funcionários em casa e dinheiro direto para os desempregados e autônomos. O auxílio emergencial de R$ 600,00 foi pago até dezembro do ano passado e agora querem pagar só R$ 150,00, e mesmo sendo “emergencial”, ainda não liberaram dinheiro.

Ah, vai gerar recessão, inflação? Que venham. A prioridade hoje é salvar vidas, o resto se resolve depois.

A gente se pergunta: chegamos ao século XXI, à era de Aquário, temos a Internet que globalizou a informação e não era para estarmos mais solidários, mais bem informados, mais felizes, enfim? A internet, com suas redes-tentáculos e seus diabólicos algoritmos, deu voz aos idiotas, como previu Umberto Eco. Espalham notícias falsas com cândida inocência ou simplesmente para reforçar argumentos às ideias que acreditam, por mais toscas que sejam. Mas não há de se perder a esperança de que, mesmo aos trancos e barrancos, a humanidade vai sair de mais essa enrascada e prosseguir em sua lenta evolução. Apesar dos Bolsonaros e seguidores que tantas e tantas vezes surgiram no curso da humanidade e acabaram no lixo da história.

 

Publicado hoje (27) na Folha da Manhã

 

Tragédia da Covid na política, economia, religião e educação do Brasil a Campos

 

Ilustração de Vitor Flynn na capa do jornal francês Le Monde, na paródia gráfica do Brasil de Bolsonaro na pandemia Covid com uma icônica cena do filme “Dr. Fantástico” (1964), única comédia do mestre do cinema Stanley Kubrick

 

Do Planalto Central à planície goitacá, qual o impacto da Covid-19? Qual o peso dos mais de 303 mil mortos pela doença no Brasil, 815 deles só em Campos, também na política, na economia, na religião e na educação do país e da cidade? Quais as principais causas e consequências em todas essas áreas? Como chegamos até aqui, onde estamos, como e até quando iremos nessa tragédia já sem precedentes? Para tentar responder estas perguntas, dentro da multidisciplinaridade necessária às respostas, a Folha ouviu em ordem alfabética o especialista em finanças Igor Franco, professor da Estácio; o biólogo Leandro Monteiro, professor da Uenf; o médico infectologista Nélio Artiles, professor da FMC; o bispo diocesano de Campos, Dom Roberto Ferrería Paz, professor do Instituto Sedes Sapientiae e da Escola Mater Ecclesiae; a advogada e socióloga Sana Gimenes, professora da Uniflu e da Candido Mendes; e o cientista político Vitor Peixoto, outro professor da Uenf. Em todas as áreas, a unanimidade da culpa maior ao negacionismo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se espraia até Campos, que o elegeu com 64,87% dos seus votos válidos no segundo turno de 2018 e ontem entrou em Fase Vermelha, a mais grave desde o início da pandemia na cidade, com 14 doentes à espera de UTI, comércio não essencial fechado e templos religiosos abertos.

 

Igor Franco, Leandro Monteiro, Nélio Artiles, Dom Roberto Ferrería Paz, Sana Gimenes e Vitor Peixoto (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Folha da Manhã – Até o início da semana, mais de 12,2 milhões de brasileiros tinham recebido a primeira dose da vacina, entre os quais 4,2 milhões tinham tomado a segunda. Para chegar à imunidade de rebanho no país, seria necessário vacinar o mínimo de 70% da população, ou 146,6 milhões dos 209,5 milhões de brasileiros. No atual ritmo, quando chegaremos lá? O quanto dessa lentidão se deve à postura negacionista do governo Jair Bolsonaro (sem partido)?

Igor Franco – A inércia do Governo Federal na aquisição das vacinas quando da primeira oferta das farmacêuticas cobra seu preço em vidas numa velocidade assustadora. Países da Europa ainda não conseguiram acelerar seus programas de vacinação de forma satisfatória, o que me leva a ser cético sobre a nossa capacidade de administrar número suficiente de vacinas até o fim do primeiro semestre. Para a segunda metade de 2020, porém, conforme os programas internacionais avancem, devem sobrar doses em número mais elevado.

Leandro Monteiro – No atual ritmo, aproximadamente um ano e meio. Mas este ritmo deve ser modificado ao longo do próximo semestre. Quando comparamos o ritmo de vacinação do Brasil com outros países, é possível perceber que poderíamos estar bem mais adiantados, caso o governo federal tivesse se empenhado em assegurar contratos para a compra de vacinas. Em vez disso, houve um investimento em tratamentos sem comprovação científica e a antagonização de governos estrangeiros dos quais dependemos para a aquisição dos insumos.

Nélio Artiles – Assim como este vírus compromete o olfato e do sabor, também vem mexendo na atitude e comportamento das pessoas, principalmente políticos que têm uma imensa dificuldade de enxergar o futuro. Estamos hoje no final de uma fila, ajoelhados suplicando vacinas, pois elas não foram devidamente valorizadas e suas aquisições não foram planejadas no tempo adequado. Neste ritmo atual teremos sérios problemas durante todo este ano de 2021, com colapso crônico de nosso sistema de saúde e muitas perdas de brasileiros.

Dom Roberto Ferrería Paz – É difícil uma estimativa realista de quando chegaremos a completar a vacinação do 70% da população. A responsabilidade do atraso é sem dúvida imputável a falta de planejamento, negacionismo da gravidade da pandemia, divergências e bloqueios a medidas e estratégias sanitárias por parte do comando maior do país, como afirmou o general Santos Cruz. Há certamente fatores colaterais e incidentais como o sucateamento do SUS e a novela dos hospitais de campanha que envolve corrupção e desvios.

Sana Gimenes – Caso todas as vacinas previstas em contrato sejam, de fato, distribuídas à população, a previsão é de que teríamos a imunidade de rebanho no final do ano. Mas é bom que se diga que qualquer avanço ocorre a despeito do governo Bolsonaro, sendo fruto dos esforços de outros agentes políticos e do engajamento dos cientistas. A postura negacionista do presidente contribuiu não apenas para a disseminação do vírus, e para as consequentes mortes, tendo em vista sua relutância em adquirir os imunizantes por razões ideológicas.

Vitor Peixoto – Se dependesse exclusivamente do governo federal, certamente, levaríamos muitos anos para atingir 70% da população, talvez nem alcançaríamos antes de novas mutações tornarem as vacinas obsoletas. O Brasil se tornou uma vergonha para o mundo no que tange à administração da pandemia dada a atuação negacionista e obscurantista do presidente da República, que somente não produziu efeitos ainda mais nefastos pelos freios impostos pelas instituições de controle judicial e de saúde pública, como STF e SUS.

 

Folha – As pesquisas mostram o desgaste na popularidade de Bolsonaro, que, no entanto, mantém base expressiva. Segundo a Datafolha, apesar de 54% dos brasileiros condenarem o presidente na condução da pandemia, os 22% que aprovam sobem a 30% que acham seu governo ótimo ou bom. Como isso bastaria, em tese, para levá-lo ao 2º turno em 2022, tem esperança de que algo mude na realidade que transformou o Brasil no principal epicentro mundial da doença?

Igor – Após o avassalador aumento das mortes, espero números mais deteriorados de popularidade do presidente na próxima pesquisa. A piora na percepção da população quanto à condução na pandemia parece ter alertado o Planalto. Diversas notícias de bastidores dão conta da pressão de assessores pela mudança da postura do presidente. Mesmo que por instinto de sobrevivência política, parece que o Bolsonaro adaptará seu discurso, mas não espero uma mudança completa com falas apoiando as medidas de distanciamento, por exemplo.

Leandro – Tendo em vista o histórico de atitudes do Poder Executivo na pandemia, acho difícil que haja uma mudança radical de direção. Houve momentos em que parecia haver uma sensibilização ou aumento de pressão externa, dos outros Poderes e da sociedade. Mas logo em seguida duplicava a aposta em medidas e propagandas que maximizavam a contaminação, buscando uma elusiva “imunidade de rebanho” que acabou custando caro em vidas. Mudar de atitude poderia comprometer a aprovação do presidente junto ao seu eleitorado mais fiel.

Nélio – O Brasil tem sido destaque no cenário internacional, infelizmente de forma negativa. Como um país que não teve a competência para se preparar adequadamente e muito menos na ação de enfrentamento da pandemia. A verdade e as evidências sempre aparecem, mesmo que tardem, lamentavelmente às custas obviamente de um número maior de vítimas. Independente do gestor no comando da nação, deverá ser pressionado a seguir as evidências científicas, ou sofrerá consequências, tanto em nível nacional quanto internacional.

Dom Roberto – Sim, o próprio cenário da tragédia gritará por si, que para reconstruir o país em ruínas precisaremos de uma liderança democrática com um programa de salvação nacional capaz de agregar a todos os segmentos sociais em um grande pacto pelo desenvolvimento integral solidário, inclusivo e sustentável, tarefa impossível para o atual presidente e a falta de apoio internacional. A esperança será sim que a população faça desta feita uma escolha consciente e lúcida pensando não só no presente imediato, mas nas próximas gerações.

Sana – Há vezes em que o presidente até parece acenar à racionalidade, mas ato contínuo apresenta algum comportamento reprovável que continua produzindo desinformação e caos. Esses breves lampejos de civilidade não parecem ser genuínos, mas consequência do desgaste que poderia ameaçar sua permanência no poder. Sua mudança mentirosa de narrativa sobre as ações do Governo Federal frente à pandemia, por exemplo, é uma reação clara ao crescimento vertiginoso da culpabilização da gestão Bolsonaro pelo descontrole da crise sanitária.

Vitor – No Brasil é difícil fazer previsões políticas com horas de antecedência, imagina sobre uma eleição que ocorrerá daqui a 20 meses! Mas o governo Bolsonaro terá dias muito difíceis pela frente com as expectativas muito negativas sobre o crescimento econômico, altos índices de desemprego, inflação e crise fiscal conjugada a um contingente de milhares de vidas dilaceradas pela dor da perda de um familiar que poderia ter sido evitada com a vacinação.

 

Folha – Na quarta (24), o presidente da Câmara Federal, eleito com apoio do Palácio do Planalto, Arthur Lira (PP/AL) evitou usar a palavra impeachment, mas claramente advertiu: “Tudo tem limite, tudo. E o limite do parlamento brasileiro, a Casa do Povo, é quando o mínimo de sensatez em relação ao povo não está sendo obedecido”. A condução de Bolsonaro do enfrentamento à pandemia finalmente chegou ao limite dos demais Poderes da República?

Igor – Os recentes acontecimentos, o discurso de Arthur Lira, a reunião entre os Poderes, o pronunciamento recente do presidente, parecem indicar um esgarçamento da relação entre a alta cúpula do Congresso e do Judiciário com o Executivo. Seja por cálculo político, seja pelo temor gerado após a morte do senador Major Olímpio (PSL/SP), Brasília parece ter despertado para a necessidade de uma coordenação nacional para o enfrentamento à Covid. Os 300 mil mortos e um ano de via-crúcis trilhada pelos brasileiros nos dão a dimensão da qualidade das figuras públicas que temos atualmente na cúpula dos Poderes.

Leandro – Impressiona é o quanto foi permitido o alargamento desse limite ao longo da pandemia. No cálculo do epidemiologista Pedro Hallal, se o Brasil tivesse um número de mortos proporcional à sua população em relação ao mundo, de 2,7%, ainda não teríamos 80 mil mortos. O “excesso” de 220 mil decorre da negligência dos governantes. Infelizmente a vida vale pouco aqui, principalmente nas classes menos favorecidas. Mas espero que esse discurso represente um posicionamento mais sólido da Câmara daqui em diante.

Nélio – Bolsonaro vem mudando o tom, visando melhorar sua imagem para 2022. Porém, a imprensa tão atacada, que tem importância fundamental em dar voz à ciência, registra os fatos. A falta de habilidade na condução da pandemia se traduz em consequências graves. São mais de 300 mil mortes com promoção de aglomerações e desdém à ciência, principalmente na recomendação do distanciamento e do uso de máscaras, acrescidas do investimento em tratamentos precoces descartados por todas as autoridades científicas mundiais.

Dom Roberto – A frase do deputado Artur Lira pode ter impacto quanto a um maior controle e participação do Congresso na condução do combate à Covid, e na superação da crise sanitária e seus efeitos socioeconômicos. Porém, é prematuro pensar que seja um indício para uma solução política com alternância do chefe do Executivo. Trata-se de uma fala significativa que expressa exaustão, necessidade de limites, alteração da rota de condução, se é que existe. Em todo caso mostra o que todos sentimos: é necessário dar um basta!

Sana – Acho que o Centrão ainda está longe de pular do barco do governo Bolsonaro, mas a advertência de Lira indicou que não é mais possível o presidente insistir em determinadas condutas. Mostrou que até o fisiologismo tem limites. A carta assinada por mais de 1.500 economistas e banqueiros, apontando os erros de Bolsonaro, é um indicativo de que ele deverá se ajustar. Talvez faça mudanças pontuais, como exonerar o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. Mas, se a escalada de mortes continuar, sua situação fica insustentável.

Vitor – Sempre existiu a ilusão de que o Bolsonaro seria moderado pelas instituições. Houve alguns freios impostos pelo STF, pelos governadores e, agora, pelo Centrão, mas todos isolados e descoordenados. O presidente tem uma caraterística destrutiva e desestabilizadora. Neste sentido, ele encontrou no vírus um aliado. Os atores políticos começam a perceber que a manutenção do governo é uma ameaça real à vida. Bolsonaro é um presidente que declarou guerra ao seu próprio povo. O impeachment é uma questão de sobrevivência, literalmente.

 

Folha – Devido ao desrespeito das regras de restrição e à vacinação lenta, especialistas consideram o Brasil um celeiro da Covid. Tanto no país, onde já matou mais de 300 mil, quanto na criação de novas cepas do vírus, por mutações, como a P1 de Manaus, a P2 do Rio e a N9 do Nordeste. O que dizer dessas variantes? Qual pode ser a consequência no mundo ao país que lhes serve de incubadora? Embargos comerciais e a Corte Penal Internacional de Haia aos responsáveis?

Igor – Acredito que novas variantes continuarão a surgir no Brasil e no mundo enquanto o surto de Covid não for contido. Temos boas notícias quanto à eficácia das vacinas atuais contra tais mutações, mas não podemos descartar que determinada alteração no vírus consiga escapar do mecanismo de prevenção atual. Só a aceleração da vacinação diminuirá essa possibilidade. Embora possíveis, imagino que punições internacionais não seriam as primeiras alternativas contra o país, mas sim algum tipo de oferta solidária de vacinas e medicamentos.

Leandro – Estamos pagando o preço pelo governo brasileiro ter buscado a imunidade de rebanho. A contaminação descontrolada aumentou as oportunidades ao aparecimento de mutações, com maiores taxas de transmissão. A vacinação lenta e as altas taxas de contaminação podem também criar variantes resistentes às vacinas, comprometendo o esforço global. O efeito disso pode ser um cerco sanitário ao Brasil, que já começa a se impor. A punição dos responsáveis na Corte de Haia seria desejável, mas não acho que vá acontecer.

Nélio – As mutações vão se multiplicando à proporção que a doença se espalha no país, nos transformando em uma fonte de vírus modificados para o mundo. A maioria das mutações até o momento se relaciona a uma maior atração das proteínas de superfície com as células, provocando maior penetração, levando a uma viremia mais expressiva e ao adoecimento mais severo. Somos prisioneiros do resultado de nossas atitudes e comportamentos e certamente haverá um julgamento futuro de todos os responsáveis pelo colapso que estamos passando.

Dom Roberto – O povo brasileiro não pode pagar a conta, pois é vítima da insanidade de políticas necrófilas. A ONU e demais entidades, especialmente a OMS, devem ajudar a desconstruir o celeiro, facilitando a chegada de vacinas e insumos. Os boicotes comerciais são eficazes, mas têm efeitos danosos para economia. As cortes penais internacionais têm efeito contra autoridades responsáveis por crimes contra a humanidade. A pressão deve ser dupla: interna através das instituições democráticas; e externa, nos cenários de decisão internacional.

Sana – Não acredito que Bolsonaro possa ser responsabilizado pessoalmente pelo Tribunal Penal Internacional que, historicamente, julga crimes de guerra e contra humanidade que ocorrem de maneira sistematizada. A Corte Interamericana de Direito Humanos, por outro lado, poderia responsabilizar o Estado brasileiro até mesmo pela negligência no combate ao vírus. Já as sanções econômicas, embora possam ser aplicadas, também causam sérios impactos humanitários o que, em um contexto de pandemia, seria negativo à comunidade internacional.

Vitor – Não sou habilitado para conjecturar sobre as características biológicas das variantes. O que posso afirmar é que teremos impactos sérios na política internacional. As retaliações virão e o comércio internacional, muito provavelmente, será o primeiro a sentir, porque tudo que os competidores do Brasil precisam é de motivos para justificarem embargos aos nossos produtos e subsídios aos produtores deles. E o governo Bolsonaro é uma fonte inesgotável de motivos, seja na questão ambiental, seja na administração da pandemia.

 

Folha – Em todo mundo, a crise sanitária vem acompanhada de crise econômica. Muito embora, todos os estudos mostrem que, tanto agora quanto na pandemia anterior da Gripe Espanhola (1918/1920), os países mais rígidos no enfrentamento à doença têm recuperação econômica mais rápida. Com a volta da inflação no Brasil, queda do PIB, alta do dólar e da taxa de juros, o que esperar pela frente? Como isso pode influenciar o combate à Covid e as eleições de 2022?

Igor – A aceleração da pandemia agravou o quadro fiscal, continua a desorganizar os setores produtivos e aumenta o risco político. O resultado é um cenário em que o câmbio se deprecia de forma acelerada, a inflação dispara e somos obrigados a subir juros enquanto outros países mantêm políticas monetárias relaxadas para estimular a economia. Não haverá solução fácil para esses problemas e a má condução política e econômica pode gerar um cenário de pressão social semelhante a 2015. O risco de uma evolução extremamente negativa aumentou.

Leandro – Quem se recusa a aprender com a História está fadado a repetir os mesmos erros. Não faltaram análises, no início da pandemia, mostrando a necessidade de reduzir o contágio e prover alternativa econômica à população, na forma do auxílio emergencial. O Brasil foi vagaroso nessas medidas. E criou um círculo vicioso onde as pessoas não se protegeram por não terem condições financeiras, prolongando a crise sanitária e piorando a economia, o que faz as pessoas continuarem se arriscando. Espero que a memória não nos falte em 2022.

Nélio – A falta de estrutura e de políticas de saúde adequadas foram expostas de uma forma mais aguda e contundente. O baixo investimento em saúde e educação, assim como a má distribuição dos recursos, foram sem dúvida fatores que contribuíram para estarmos na atual situação da pandemia. Precisamos rever nossos conceitos e buscar uma mudança de rumos para a retomada do crescimento do país, que passa pela moralização da política nacional e sem dúvida passa pelo processo eleitoral de 2022.

Dom Roberto – Pode tornar-se um ciclo vicioso: a pandemia leva a fragilização da economia, e a fragilização da economia leva a prolongar a pandemia. O planejamento e as políticas públicas poderiam afinar uma sinergia positiva, uma economia adaptada a realidade da pandemia. As crises são também momentos de inovação da economia, tornando-a mais voltada ao empreendorismo social, desenvolvendo as cadeias produtivas locais. A economia de Francisco proporciona uma verdadeira usina de experiências surgidas da conjuntura da pandemia.

Sana – O governo Bolsonaro defendeu desde o começo da pandemia o discurso de que a economia não poderia parar, porém, esse mesmo governo não ofereceu as condições necessárias e eficazes para tanto. Nos últimos dias, temos visto uma leve sinalização de que, finalmente, medidas mais técnicas serão adotadas pela União no combate à Covid. Ainda assim, não sei se serão suficientes para sustentar uma reeleição, já que, além do empobrecimento, a população está pagando com a própria vida pela ideologia e pelos erros do presidente.

Vitor – As expectativas econômicas são muito ruins, especialmente no Brasil dadas as péssimas escolhas feitas. Será um teste de fogo para o governo Bolsonaro, que muitos analistas já especulam que nem no segundo turno poderá chegar. Eu arriscaria dizer que, em situação normal, com todos estes erros que produzem consequências catastróficas para o país, esse governo não chegaria nem mesmo em 2022. Mas não estamos em uma situação normal.

 

Folha – Desde a recessão de 2015, fruto do governo Dilma Rousseff (PT), além da queda nas receitas do petróleo a partir do final de 2014, a decadência do outrora pujante comércio de Campos se reflete nas suas muitas portas fechadas, do Centro à periferia. A coisa piorou após o primeiro lockdown pelo ex-prefeito Rafael Diniz (Cidadania), entre maio e junho de 2020. E agora, com o novo lockdown do prefeito Wladimir Garotinho (PSD). Há alternativa? Qual?

Igor – Dois anos de abalo no fluxo de caixa é um golpe fatal em uma série de empresas anteriormente saudáveis. Porém, quanto mais postergarmos medidas eficazes contra a disseminação do vírus, mais longo será o sofrimento dos negócios. Executamos muito mal medidas que permitiram outros países reduzir a contaminação a níveis suportáveis até que as vacinas chegassem. Nesse momento, estamos colhendo o pior dos dois mundos: desolação econômica e pandemia fora de controle.

Leandro – Sem a perspectiva de vacinação ampla, não há alternativa às medidas de restrição para reduzir a contaminação. O que precisa ser feito é prover os meios para que a população possa se manter de maneira digna, sem a necessidade de se expor à contaminação. Deveria haver menos reclamação contra prefeitos e governadores pelas restrições, e mais reclamação contra a demora ou falta de vontade do Governo Federal, ao Executivo e ao Legislativo, em aprovar medidas de auxílio.

Nélio – A crise que se instala no atual cenário de Campos não é de agora, apenas se agravou profundamente. A única forma concreta de conter a pandemia no momento é através das restrições de circulação das pessoas. Não há lockdown em Campos, apenas algumas restrições e orientação de condutas, com fiscalização bem discreta. A gravidade da situação nos coloca opções dolorosas. Morrer de Covid em uma UTI pela agressividade do processo inflamatório, que é horrível, ou morrer com Covid pela falta de vaga nestas unidades, o que é bem pior.

Dom Roberto – O setor comercial não é um setor estanque, mas profundamente influenciado pelo crescimento da renda e distribuição da mesma. No entanto, podem se fortalecer experiências de consumo responsável e popular alinhadas com uma economia de colaboração que articule mais as trocas e compras ou negociações intersetoriais, gerando uma demanda planejada e integrada. A crise exige repensar criativamente o setor com as novas tecnologias online, de uma maior aproximação e diferenciação com os nichos de clientes.

Sana – Não sou contrária ao lockdown se ele for implementado de maneira justificada e coerente. Abrir os templos, muitos deles gigantescos, e fechar os restaurantes, que já são constantemente fiscalizados pela vigilância sanitária, por exemplo, não me parece razoável. Além disso, paralelamente ao lockdown, são necessárias medidas compensatórias, principalmente para os setores mais afetados, como concessão de benefícios tributários, disponibilização de linhas de crédito e criação de programas sociais.

Vitor – Sem vacinação em massa eu não vejo alternativa. A catástrofe já está ocorrendo. Perdeu-se muito tempo discutindo cloroquina, ivermectina, “ozônio retal” e outras simpatias, enquanto deveríamos ter adotado uma política de Estado na viabilização de inversão do parque industrial para a produção de vacinas, oxigênio, ventiladores e medicamentos.

 

Folha – Desde que o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido) virou evangélico, este tem sido uma das bases do seu grupo político. Que foi também namorado pelo lulopetismo, quando Dilma fez de Marcelo Crivella (Republicanos) ministro, e hoje é alicerce de Bolsonaro. Wladimir tem sido muito criticado por permitir culto nos templos, enquanto fecha o comércio não essencial. Além de quem vive do dízimo dos fiéis, em que a atividade é essencial?

Igor – Em tempos turbulentos como o atual, a necessidade de encontrar amparo numa força maior aumenta. Logo, a fé é, hoje, mais essencial que em outros momentos. Porém, locais de culto são favoráveis à disseminação do vírus, fato desencadeador do surto de Covid na Coreia do Sul, por exemplo. Isso enfraquece as políticas de distanciamento. Há possibilidade plena de transmissão online das cerimônias, não havendo necessidade premente de presença física nas igrejas. Não se justifica a realização presencial de missas e cultos no rol de atividades essenciais.

Leandro – Acho que a questão prática é determinar se a atividade presencial dentro dos templos e igrejas é essencial. Devemos considerar que na fase atual da pandemia, há necessidade de maior distanciamento social e cuidados com ventilação de ambientes, pois as linhagens de vírus aumentaram consideravelmente sua transmissibilidade. Como para muitas outras atividades humanas, existem alternativas de atendimento remoto que poderiam compensar a falta de contato presencial neste período.

Nélio – Serviços essenciais são aqueles que não podem ser suspensos por necessários à sobrevivência. Neste momento, em que tem alguém com falta de ar na fila de internação, há que se restringir ao máximo as possibilidades de aglomerações. A religião traz na sua essência a união pessoal e coletiva com o sagrado. Mas, neste momento abrir templos traz um risco considerável. Lembro de um versículo da bíblia em Efésios 5:15: “Tenham cuidado com a maneira como vocês vivem; que não seja como insensatos, mas como sábios”.

Dom Roberto – Que a religião é essencial e sentido último da cultura, já que proporciona valores, contribuindo com a solidariedade, é consensual. Confundir a religião com templos abertos é um reducionismo. A religião é essencial na expressão cultual, é importante, mas não abrange a religião como um todo, nem sua parte mais profunda. A lei que protege a liberdade de culto e as liturgias é válida e constitucional. Porém a vida está em primeiro lugar e deve ser defendida como questão de ordem pública pela sua relevância.

Sana – As religiões levam conforto às pessoas neste momento de crise. Mas isso deve ser feito por meio de uma assistência presencial individualizada nos templos, ou através de cultos online para um número ilimitado de fiéis. Ainda que igrejas e afins só possam funcionar com 30% de sua capacidade, segundo o decreto atual, os eventos presenciais são, por si só, um convite à aglomeração de pessoas. Isso não é condizente com a necessidade de isolamento social e não pode ser considerado adequado quando já não existem leitos de UTI disponíveis no município.

Vitor – As religiões, e não somente as evangélicas, constituem grupos políticos importantes na sociedade brasileira e agem na defesa de seus interesses. Nem sempre estes interesses coadunam com o interesse coletivo. Esse é o caso em tela: evangélicos e católicos se uniram politicamente na luta para manter os templos abertos, a despeito das orientações científicas em prejuízo para toda a população. Se existir juízo final, o encontro estará marcado.

 

Folha – Garotinho e Dilma eram ateus. Bolsonaro era católico. Atrás de votos, se aproximaram dos evangélicos, que se aproximam deles atrás de isenção fiscal e outras benesses do estado laico. O lema do governo federal, que nega a ciência, é “Deus acima de todos”. Além dos “falsos profetas” que Jesus alertou, não falta ao Brasil e a Campos um dos maiores teólogos do cristianismo, Agostinho: “É preciso compreender para crer e crer para compreender”?

Igor – Historicamente, a Igreja sempre “abençoou” os grandes movimentos nacionais que mudaram o curso do país. Desconsiderar ou minimizar a importância desses grupos não é legítimo em termos democráticos, nem inteligente em termos maquiavélicos. O excesso de influência de qualquer grupo de pressão deve ser contido pelas instituições. Infelizmente, o Brasil não é bem-sucedido nessa tarefa e tradicionalmente conferimos fatias do Orçamento e atendemos a esses grupos, que muitas vezes se confrontam com o interesse público.

Leandro – O atual governo federal é um exemplo claro dessa relação entre políticos oportunistas e alguns líderes religiosos levada ao extremo, com a tentativa de impor uma visão de mundo particular a toda a uma nação. O que falta ao Brasil é um respeito maior pela diversidade de pensamentos e culturas, assim como medidas para sua preservação. Em qualquer contexto, seja social, econômico ou biológico, a diversidade sempre acompanha o sucesso de longo prazo de uma sociedade, população, espécie ou comunidade.

Nélio – Agostinho também deixou escrito: “Ter fé é acreditar naquilo que você não vê; a recompensa por essa fé é ver aquilo em que você acredita’. O termo fé pode ser visto ou explicado de formas diferentes. Pode ser pernicioso quando envolve a busca por votos ou benefícios políticos, utilizando a fé coletiva como mote para interesses outros. Mas a verdade sempre vem à tona. Ser um cristão na essência não é estar em templos religiosos assiduamente, mas sim dar o exemplo de compaixão, empatia e altruísmo.

Dom Roberto – Sim, o diálogo fé e razão supera fideísmos fanáticos. Por outro lado, é importante lembrar Karl Rahner: o cristão do século XX será místico ou não será nada. Devemos nos inspirar em Gabriel Marcel, que resgatava aquilo que Pascal chamava de inteligência cordial, ou fineza de coração. O desafio é unir os dois hemisférios cerebrais, capazes de encontrar a Deus em todas as coisas, como o Pe. Teilhard de Chardin. É crucial respeitar os caminhos da fé e da ciência em sua complementariedade e autonomia. Uma fé fechada para a ciência vira superstição, uma ciência fechada à religião se torna dogmática.

Sana – É certo que existe uma relação histórica entre política e religião. Mas a maneira como essa vinculação tem se dado no Brasil é extremamente danosa à democracia. A partidarização da religião produz intolerância, já que são impostos valores morais de grupos específicos, e faz com que os interesses desses grupos se sobreponham à coletividade. O Estado precisa garantir a autonomia privada de crença, mas também assegurar que questões coletivas como a educação, por exemplo, não sejam enviesadas por exigências religiosas.

Vitor – A relação entre religião e política é comum e legítima nas democracias ocidentais. A secularização da sociedade pós-industrial promoveu a autonomia do indivíduo, que passou a exigir menos intervenção do Estado e da religião no seu comportamento. O Brasil avançava nesse caminho, até ter a trajetória interrompida pela revolução conservadora que culminou na eleição do Bolsonaro. EUA e GBR já estão se recuperando desse soluço autoritário, que tiveram com Trump e o Brexit. Espero que possamos corrigir nossos rumos em 2022.

 

Folha – Outra consequência da Covid é na educação. Em Campos, as atividades do ensino híbrido chegaram a ser autorizadas para 8 de março. Mas foram suspensas antes de começarem, com as novas restrições. Quando acredita que as aulas voltem a ser normalizadas na cidade e no país? Como educador(a), que consequência projeta dessa paralisação de mais de um ano, sem prazo para terminar, na formação das crianças, adolescentes e jovens de hoje?

Igor – Acredito que sé em 2022 retomaremos o calendário normal, com aulas presenciais nas redes pública e privada. Quanto aos efeitos, mais uma vez veremos um impacto social muito desigual: alunos da rede privada logo adaptaram seu calendário e retomaram as aulas de forma digital. Na rede pública, a ausência de coordenação nacional impediu a resposta adequada. A realidade de muitas crianças carentes é a interrupção total do estudo desde março de 2020. Os efeitos serão sentidos ao longo de anos, tem termos sociais, psicológicos e econômicos.

Leandro – Não há dúvida de que a paralisação terá um efeito nefasto na formação de crianças e adolescentes, em particular as de classe menos favorecida, o que tende a ampliar a desigualdade social a longo prazo. A ONU fala em uma década perdida no mundo, mas em países como o Brasil pode ser até pior. O agravamento da pandemia dificultou ainda mais o retorno às aulas presenciais, e dificilmente poderemos falar em “normalização” antes de uma vacinação mais ampla. Terá que haver um grande esforço para reduzir o abandono escolar.

Nélio – O ensino híbrido pode ser bem executado por escolas privadas, mitigando de certa forma os prejuízos na transmissão de conteúdos. Mas é um desafio em escolas públicas, sucateadas em suas estruturas há tempos. O ensino à distância deixa uma enorme lacuna na atenção pessoal do aluno, onde a falta do olhar, do contato presencial dificulta em muito o desenvolvimento na esfera neuropsicológica e humana. Acredito que só após a vacinação mais efetiva em funcionários da educação, poderemos retornar as atividades plenas em escolas.

Dom Roberto – Possivelmente as aulas com ensino híbrido recomecem ainda este semestre. Agora a previsão de uma “normalização” é mais difícil de prognosticar. Vê-se no ensino público o fato de ter aumentado a desigualdade social. Programas como o Ceibal no Uruguai e no Peru, que garantem a cidadania digital com um laptop por aluno, não foram alcançados aqui.  A pandemia pode trazer também experiências inovadoras: envolvimento maior dos pais com a escola, interação maior com a cultura digital e pensar mais no que Paulo Freire pregava na Cidade Educadora e o Papa Francisco levanta, como o Pacto Global pela Educação.

Sana – É ainda mais grave quando pensamos nos alunos da rede pública, sem acesso a muitos recursos. Ocorre que, pior do que esse déficit educacional, é produzir contaminação em larga escala com consequências letais. Acredito que a normalização total do ensino só ocorrerá no ano que vem, quando de toda a população já estiver vacinada. Mas a partir do segundo semestre, com o avanço da vacinação e com a devida imunização de todos os profissionais de educação, penso que pelo menos o modelo híbrido já possa ser implementado.

Vitor – Essa será uma sequela da pandemia que a nova geração levará por muito anos. Não sabemos ainda como iremos recuperar, se é que haverá recuperação, dado os traumas psicológicos nos estudantes e professores, desestruturação dos sistemas de ensino e destruição do financiamento público. A certeza é que continuaremos caminhando, mesmo que com pés descalços e as pernas quebradas. A reconstrução será dura, levará muito tempo e exigirá compromisso de todos. E só será possível com lideranças políticas responsáveis.

 

Página 2 da edição de hoje (27) da Folha da Manhã

 

 

Página 3 da edição de hoje (27) da Folha da Manhã

 

Erros econômicos da Campos de Arnaldo, Mocaiber, Rosinha, Rafael a Wladimir

 

Campos teve análise econômica crítica do professor Alcimar Chagas, de Arnaldo, a Mocaiber, a Rosinha e Garotinho, a Rafael e Wladimir (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

“Infelizmente, nós temos uma prática de mudar as pessoas, mas as ações de governar são as mesmas. Na época (participou do segundo dos 11 painéis promovidos pela Folha, entre julho a setembro de 2020, sobre a crise financeira do município) nós já indicávamos que Campos tinha uma estrutura de gastos muito elevada de custeio, fruto da falta de planejamento relacionada aos royalties, que chegaram a 70% do orçamento e depois vieram caindo gradativamente; hoje é muito menos, 20% ou 30%. Os gestores não observaram isso e mantiveram os gastos de custeio. E o resultado foi que o município perdeu sua capacidade de investimento. Faltou gerenciamento, faltou gestão realmente. Nós pregávamos uma reengenharia e hoje o prefeito (Wladimir Garotinho, PSD) parece que não entendeu isso e continua desenvolvendo a sua gestão sem grandes mudanças”. No programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, foi o diagnóstico financeiro de Campos feito no início da manhã de hoje pelo economista Alcimar Chagas, professor da Uenf. E é quase tão ruim quanto o que seria revelado no final da manhã, com 100% de ocupação dos leitos de UTI para Covid no município.

Entretanto, a cobrança e avaliação negativa de Alcimar sobre a gestão da crise financeira de Campos não foi restrita ao atual prefeito de Campos, cujo governo tem só pouco mais de dois meses e meio:

— Eu diria que no início dos anos 2000, de 2004 a 2009 (do governo Arnaldo Vianna ao início do governo Rosinha, passando por Carlos Alberto Campista e Alexandre Mocaiber), nós tivemos uma avalanche de receita de royalties, que é quando a produção de petróleo alcança o seu máximo na Bacia de Campos, com 87% da produção nacional, e isso vem diminuindo gradativamente, sem quem ninguém observe isso. E o choque maior (com a queda brusca do preço internacional do barril de petróleo) foi em 2014. Sem dúvida, foram governos (municipais) perdulários. O governo de Arnaldo, está na memória de muita gente, até a estrutura contábil da Prefeitura se desidratou. E os gastos, sem critério. O Mocaiber também foi um desastre. Por incrível que pareça, mas o governo da Rosinha e do Garotinho, parece que eles foram mais organizados. Eles tiveram mais responsabilidade com investimento. Eu não estou falando a qualidade do investimento, mas do percentual do orçamento. O que a gente pode analisar é o número.

Embora tivesse contado com bem menos recursos do petróleo que os prefeitos anteriores, o governo Rafael Diniz (Cidadania) também não escapou da análise crítica do economista. E, ao contrário do mote da campanha fracassada do ex-prefeito na sua tentativa de reeleição em 2020, quando terminou o 1º turno em 4º lugar, Alcimar acha que o que faltou à gestão municipal passada foi justamente coragem:

— O governo Rafael também não soube aproveitar as oportunidades. Apesar do período complicado, acho que se ele agisse de maneira diferente, se ele tivesse mais coragem, acho que poderia ter feito um governo melhor. Mas, como eu falei anteriormente, a forma de governar parece que é a mesma. E como já estava em um período complicado, com a própria recessão do país, do choque do petróleo, com uma participação muito menor da receita de royalties no orçamento, e a falta de coragem dele de fazer uma reengenharia na estrutura de custeio da Prefeitura, na forma de usar melhor, otimizar os recursos, ele teria feito um governo melhor. Mas ele não fez dessa maneira. A estrutura de custeio continuou a aumentar, mesmo em um ambiente de declínio da receita. E o resultado foi o que nós vimos. O cara senta naquela cadeira e a coragem desaparece. Ninguém quer assumir riscos. Quando eu falo coragem, é assumir risco. Se eu tenho que reduzir a minha estrutura de despesa, eu vou reduzir. Vai ferir muita gente, naturalmente.

Do final do governo Rafael, Alcimar também cobrou a contabilidade do último bimestre de 2020, que denunciou até agora não existir ou ter sido divulgada. Mas, além de não enxergar a mudança estrutural que julga necessária nas despesas do município, ele também questionou no início do governo Wladimir o que se tornou um mantra deste, desde a campanha eleitoral do ano passado, o “dinheiro novo”:

— Como não tem dinheiro? Se até outubro, com 10 meses de contabilidade do ano 2020, o município tinha uma receita média mensal de R$ 132 milhões? Naturalmente essa média deveria ocorrer também em novembro e dezembro. E teria o dinheiro para pagar o salário (do servidor). Se não pagou, se deixou déficit, essa coisa tinha que ser mais transparente. E não é porque a contabilidade está parada no 5ª bimestre de 2020; a gente não sabe o valor total da receita do ano ainda. Realmente, passamos o ano de 2020 com pandemia e entramos em 2021 com ela mais aprofundada. Entretanto, a receita mensal do município, de alguma maneira, vem se mantendo. Mas eu não vi nenhum programa, nenhum projeto (do governo Wladimir) para potencializar essa receita ou reduzir custeio. Parece que o custeio continua aumentando com nomeações. Aí tem o discurso do “dinheiro novo”, das emendas. Mas, de repente, a emenda passou a ser a salvação da pátria. Eu considero “dinheiro novo” como fruto da dinâmica econômica. Você começa a melhorar a economia, você começa a gerar possibilidade de “dinheiro novo”, como as transferências de ICMS, transferências federais, impostos locais. Enfim, isso é “dinheiro novo” para mim. As emendas, eu não sei se elas terão papel fundamental.

 

Confira abaixo, em três blocos, os vídeos da entrevista do economista Alcimar Chagas, professor da Uenf, ao Folha no Ar na manhã de hoje: