Desespero de Trump confirma: Joe Biden é o novo presidente dos EUA

 

Joe Biden teve sua vitória nas urnas confirmadas hoje à noite pelo desespero de Donald Trump (Montagem: The Wall Street Journal)

 

Joe Biden foi eleito presidente dos EUA. Mais que a apuração em que o candidato só precisa de mais seis delegados estaduais para chegar ao mínimo de 270, e está perto de virar nos estados da Pensilvânia (20 delegados) e Geórgia (16 delegados), sem contar Nevada (6 delegados), em que já lidera, a certeza da vitória de Biden foi dada agora à noite pelo seu concorrente: o ainda presidente Donald Trump. Ele mentiu tão descaradamente ao denunciar “fraude” nas eleições, em pronunciamento na Casa Branca, sem apresentar uma única prova, que as redes de TV do seu país interromperam a transmissão. Como O Twitter já havia bloqueado oito postagens suas pelo mesmo motivo.

Agora resta à apuração oficializar por quanto foi a derrota de Trump. E à Justiça do seu país, a quem prometeu recorrer por ter perdido no voto popular e do colégio eleitoral, responsabilizá-lo criminalmente pelo inédito ataque de um presidente dos EUA à democracia dos EUA. Ex-procuradores de governos republicanos repudiaram as falsas acusações do mandatário republicano, também criticadas publicamente por deputados e senadores republicanos. Os votos pelos correios, denunciados como “fraude”, são praticados nos EUA desde a Guerra de Secessão (1861/1865). Quando o país passou pela mesma divisão violenta que seu ainda presidente busca claramente estimular.

Assim que a vitória de Biden for oficializada e até a sua posse como 46º presidente dos EUA em 20 de janeiro de 2021, com as apostas encerradas sobre o novo ocupante da Casa Branca, outras serão abertas do lado de cá do Equador. Quais serão os reflexos da derrota eleitoral do trumpismo ao Brasil de Jair Messias Bolsonaro? E quanto tempo mais durarão nos cargos seus ministros olavistas Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, e Ricardo Salles, do Meio Ambiente?

 

Apuração deixa Biden mais perto de vencer a eleição a presidente dos EUA

 

 

 

Joe Biden confirmou sua vitória nos estados de Winsconsin e Michigan, somou mais 26 delegados no colégio eleitoral e agora tem 264. Se vencer também no estado de Nevada (6 delegados), onde lidera, chega ao total de 270, mínimo necessário para se determinar o próximo presidente dos EUA.

Se isso acontecer, como tudo até agora indica, Biden não precisaria nem vencer em no seu estado natal da Pensilvânia (20 delegados). Embora a diferença que ainda o separa de Trump lá, venha caindo com a apuração dos votos antecipados e pelos correios.

 

Apuração nos EUA que indicava vitória de Trump acende esperança para Biden

 

 

Dormi após às 3h da manhã com a eleição presidencial dos EUA aparentando estar definida para Donald Trump. Acordei agora há pouco e o mapa da apuração, com a virada de Joe Biden no estado do Michigan e sua vitória parcial nos estados de Wisconsin e Nevada, acendem as esperanças por um triunfo final muito apertado do democrata. Tendência endossada pelas denúncias de “fraude” do atual presidente republicano.

Só para lembrar: quem fizer o mínimo de 270 delegados no complexo sistema do colégio eleitoral, leva a Casa Branca. Certeza, além desta, só duas. A primeira? A mais importante e longeva democracia representativa do mundo sai das urnas absolutamente dividida. A segunda é que a definição da eleição vai parar na Suprema Corte dos EUA.

Se vai dar Trump ou Biden, o seu papel na eleição a presidente dos EUA

 

 

São 2h30 da manhã de Brasília. E para quem, nesta Terra de Vera Cruz, acha que sua torcida contra ou a favor de Donald Trump importa a quem pode ontem tê-lo reelegido presidente dos EUA, a verdade é dura: sua vontade sempre contou tanto quanto o voto de quem recentemente reconduziu a esquerda ao poder na Bolívia. E isso só pode ser encarado como elogio pelo tupiniquim com menos hemácias no cérebro que nunca pisou na orgulhosa República Andina dos Aimaras.

Escrevo sem saber o resultado final da eleição presidencial dos EUA. A bem da verdade, ninguém sabe. Mas, a não ser que o voto pelos correios mude o resultado do swing state (estado pendular e decisivo) da Pensilvânia, onde nasceu Joe Biden, é bem possível que Trump ganhe mais quatro anos de mandato. Caso contrário, a questão deve parar na Suprema Corte, transformada em bastião conservador pelo sucessor de um republicano diferente, Abraham Lincoln.

Confirmada a derrota de Biden, ela não se dará pela derrota em seu estado natal. Mas pela que Trump impôs aos democratas na Flórida, com os votos latinos de cubanos refugiados de Fidel e até de brasileiros entusiastas de Bolsonaro. No complexo sistema do colégio eleitoral dos EUA, o estado tem 29 votos. Mesmo se o candidato democrata vencer na Pensilvânia (20 votos), mais Winsconsin (10 votos) e Maine (4 votos, um dos dois únicos estados com divisão proporcional), ele ficaria 5 votos aquém dos 270 delegados necessários para vencer o pleito. Outro estado com divisão proporcional de delegados (5 votos), Nebraska seria a única alternativa de alternância no poder.

Em um país como o Brasil, onde todos se ungem espessialistas em futebol e política em tempo de Copa do Mundo e eleição, é pedir demais que se entenda um sistema criado pelos Pais Fundadores dos EUA, no séc. 18, para evitar que um populista chegasse ao poder. E que, mais de 230 anos depois, serve para que um populista como Trump possa se perpetuar no poder. Mas, diante de uma mesma Constituição desde aquela época, não tem moral para criticar quem está na sua sétima. E só consegue mantê-la a despeito dos boçais que saem às ruas para pedir a volta do AI-5.

São os mesmos que, da sua irrelevância subequatoriana, comemorarão mais quatro anos para Trump. “Patriotas” que, como seu “mito”, baterão continência à bandeira estrangeira. Enquanto Benjamin Franklin, Thomas Jefferson e John Adams — que nunca viram mais gordos — se reviram nos seus túmulos.

 

Disputa entre adesivos de Wladimir e Bruno no Pq. Guarus viraliza nas redes sociais

 

Se todas as pesquisas pesquisas registradas confirmam a liderança (confira aqui) do deputado federal Wladimir Garotinho (PSD) na corrida à Prefeitura de Campos, a campanha nas ruas segue disputada — literalmente casa à casa. Nas redes sociais locais, um vídeo viralizou no último final de semana mostrando um militante da campanha a prefeito do Dr. Bruno Calil arrancando na porta de uma casa o adesivo do 55, número de Wladimir, para colocar o 77 do seu candidato.

O militante é Rodrigo Barreto da Silva, também conhecido como “Marreta”. Egresso do grupo político do ex-vereador Magal, ele foi nomeado assesssor parlamentar do deputado Rodrigo Bacellar (SD), que apoia e coordena a campanha de Bruno. O fato gravado em vídeo aconteceu no Parque Guarus, no último domingo (01). Nos grupos garotistas, o vídeo foi divulgado com os dizeres: “Para que esse desespero da turma do Doutor Bruno Calil do deputado Rodrigo Bacellar (SD)????”

 

Nomeação de Rodrigo Barreto da Silva como assessor parlamentar do deputado Rodrigo Bacellar na Alerj (Reprodução)

 

Sem os dizeres, confira abaixo o vídeo de Rodrigo Barreto, vestido com a camisa da Seleção Brasileira:

 

 

Segundo Rodrigo Barreto, o adesivamento de casas com o número 55, no bairro onde ele reside, teria sido feito no sábado, durante carreata de Wladimir no Parque Guarus, sem a autorização dos moradores, aos quais ele já teria pedido para adesivar o 77. Os adesivos com este número teriam sido arrancados, gerando a reação do militante de Bruno Calil. Em outro vídeo, ele revela seu rosto e aparece literalmente comendo o adesivo do 55, antes de o cuspir. Confira abaixo:

 

 

Após o contato do blog para apurar a história, Rodrigo Barreto enviou mais dois vídeos de vizinhos seus no Parque Guarus, que confirmaram sua história. São Antunis da Silva de Souza e Elizabeth Maria da Silva. Confira-os abaixo:

 

 

 

Dia dos mortos em versos de carne viva

 

Pensei inicialmente em publicar o poema de 17 anos apenas nas redes sociais. Mas devido ao bom envolvimento lá gerado (confira aqui) e por ser uma maneira diferente de lembrar o feriado de hoje, seguem também abaixo. O dia dos mortos em versos de carne viva:

 

 

finados

 

se a chuva que cai sobre mim

cair também sobre ela

que minha lembrança a aqueça

a conta-gotas

dos pingos às folhas

das folhas à terra

 

que minha lembrança se enrosque

à raiz de uma erva daninha

daquelas que brotam de novo

depois da erva arrancada

 

se a chuva que cai sobre mim

cair também sobre ela

que minha lembrança adormeça

em sonhos de carnes fartas

revista de língua na alma

deitado no colo dela

 

atafona, 02/11/03

 

O que esperar da vitória de Biden ou Trump na eleição presidencial dos EUA?

 

Joe Biden e Donald Trump (The Wall Street Journal)

 

A frase já virou lugar comum. Após atravessar o rio Rubicão com suas legiões, para pôr fim à República de Roma, Júlio César vaticinou: “A sorte está lançada”. Com o mundo observando, como talvez nunca tenha feito e dificilmente voltará a fazer, os dados param de girar nesta terça (03) nas urnas dos EUA. E determinarão seu próximo presidente e os rumos da humanidade. Para entender o que está em jogo e o que mudará, a depender da escolha do complexo colégio eleitoral estadunidense entre o presidente republicano Donald Trump e o candidato democrata Joe Biden, tão favorito nas pesquisas como foi a derrotada Hillary Clinton em 2016, o blog ouviu o historiador Arthur Soffiati, o cientista político e sociólogo George Gomes Coutinho e o sociólogo Roberto Dutra. Os dois primeiros, professores da UFF-Campos, o terceiro da Uenf. Eles analisaram o que pode acontecer, caso Trump ou Biden ganhem a eleição. E como isso deve afetar, além do mundo em que a China também acena como superpotência, o Brasil de Jair Messias Bolsonaro.

 

Historiador Arthur Soffiati, cientista político George Gomes Coutinho e sociólogo Roberto Dutra (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Blog Opiniões – Analistas políticos do mundo têm apontado a eleição presidencial dos EUA como a mais importante em algumas décadas para determinar os destinos do mundo. O que você espera se o democrata Joe Biden se eleger, como apontam as pesquisas? E se, contrariando-as, como em 2016, Donald Trump conquistar a reeleição?

Arthur Soffiati – A eleição é importante porque o mundo se polariza mais entre um progressismo moderado e um retrocesso reacionário, obscurantista, negacionista, anticientífico e propagador de mentiras. Biden não é um candidato carismático como Obama. Sua vitória, contudo, representa a reconquista de uma posição perdida. Não espero que ele faça milagres num contexto tão dividido. Com a reeleição de Trump, antevejo um futuro tenebroso, pois os Estados Unidos, queiramos ou não, é o coração do mundo democrático. A recondução de Trump representará o triunfo do atraso e a sua consolidação.

George Gomes Coutinho – Sem dúvida neste momento se considera que Trump tem um desafio e tanto para ser reeleito. Envolveria simplesmente repetir a “tempestade perfeita” que o elegeu e ainda reafirmar sua identidade de outsider, algo pouco convincente após quatro anos na Casa Branca e um rosário de promessas não cumpridas. O que eu espero, caso ele seja reeleito, é o recrudescimento de sua agenda conservadora nas instituições norte-americanas, o que inclui a Suprema Corte. Também não duvido do aumento do tensionamento dos embates raciais nos EUA e a estigmatização institucional da população latina. Para fora do espaço doméstico, Trump dá fôlego para governos e movimentos de extrema-direita persistirem em suas agendas e discursos. No caso de Biden ser eleito, o que não será surpresa, caso todos os indícios e pesquisas se confirmem e na hipótese de não termos uma bala de prata até lá, o governo norte-americano retoma uma agenda centrista e mais próxima daquilo que achávamos que era, até 2016, um consenso mais ou menos compartilhado em termos civilizatórios por parte importante tanto da direita quanto da esquerda democrática. Consenso este que envolve ao menos a consciência das mudanças climáticas, o discurso pró-ciência e pautado em evidências, políticas de reparação histórica, etc. No âmbito doméstico, Biden promete retomar políticas sociais que nos remetem ao que Obama tentou implementar. A conferir. O status quo norte-americano tem alergia a medidas que enfrentem suas gritantes desigualdades internas.

Roberto Dutra – Pode ser a eleição presidencial norte-americana mais importante em décadas em relação a várias dimensões da política global, como a política de combate ao aquecimento global e as relações com a China e a Rússia. Mas não tenho muitas esperanças de que um governo democrata seja menos agressivo à soberania de outros países que Trump. Um aspecto muito lembrado é o efeito negativo que uma vitória de Biden teria sobre governos de extrema-direita como o de Bolsonaro. Mas a grande contribuição que um novo governo democrata poderia trazer para os destinos globais seria romper com o neoliberalismo humanizado de Clinton e Obama e construir um projeto nacional capaz de atender as demandas e frustrações sociais que alimentam o trumpismo. Uma eventual reeleição de Trump poderia ser uma chance de fortalecer a extrema-direita global, mas as condições nacionais de cada país são sempre mais importantes.

 

Caixa de correio do Serviço Postal dos Estados Unidos em Washington (Foto: Leah Millis – Reuters)

 

Opiniões – Por conta da Covid, cerca de 1/4 do eleitorado dos EUA já votou pelos correios. Trump tem denunciado “fraude” por isso. Como o voto pelos correios deve ser computado depois do presencial, opção preferencial dos eleitores do presidente, há o receio que se este sair na frente nos swing states (estados decisivos), a apuração seja interrompida sob alegação de irregularidade. O que poderia levar a questão à Suprema Corte, de maioria conservadora. O que esperar? E por quê?

Arthur – Em certa medida, isso já aconteceu em 2000, com a vitória controversa de George W. Bush sobre Al Gore. A decisão final coube à Suprema Corte. O caso de Trump parece mais premeditado. Ele não admite perder em nada, muito menos a votação para a reeleição. Nesse sentido, ele chama de fraude a eleição pelos correios, quando, nos Estados Unidos, o voto pelos correios é perfeitamente legal e seguro. O diretor dos correios é amigo de Trump. Pode haver atraso na entrega dos votos. Ela já aparelhou a Suprema Corte, indicando uma ministra conservadora da mesma linha dele. Enfim, tudo indica que Trump está com muito medo de perder e está fazendo de tudo para que isto não aconteça. Se acontecer, ele não deve reconhecer a derrota, nem cumprimentar o vencedor.

George – O insuspeito senador republicano Ted Cruz já falou até mesmo em um “banho de sangue” nas eleições em novembro (confira aqui) ao comparar a conjuntura com os perturbadores e disruptivos momentos da época de Watergate. Exagerado ou não, o senador Cruz nos transmite um pouco da temperatura do processo de sucessão eleitoral nos EUA. A grande questão é que processos lentos de apuração podem jogar querosene na fogueira da opinião pública nativa, esta última já devidamente intoxicada por fake news, paranoias, teorias da conspiração e afins há anos. É este repertório que ajudou a eleger Trump. Há alguns analistas que falam em “bananização” das eleições norte-americanas, ou seja, o questionamento invariavelmente fraudulento por parte dos perdedores não só do resultado. O que se questiona na “bananização” é a legitimidade, a solidez do processo em si. Este conjunto de elementos pode trazer tumulto até termos o resultado final e seguro de apuração e uma parte do eleitorado simplesmente adotar uma atitude “insurgente” digamos assim, um eleitorado arredio a aceitar o resultado final. De forma ou de outra será mais um dos muitos testes de estresse para as instituições dos EUA desses nossos últimos tempos. Penso que uma onda conservadora na Suprema Corte tenha uma tendência mais a desestimular pautas progressistas comportamentais. Mas, não apostaria que a Suprema Corte vá aderir a algum tipo de delírio político nesta altura do campeonato. A Corte, em minha perspectiva, tende mais ao papel de bombeiro do que de Nero. Há um capital institucional gigantesco a ser resguardado e, neste momento, uma aventura não me parece que será referendada por esta instituição específica. O que não quer dizer que será a mesma postura a ser exercida pelos eleitores de Trump.

Roberto – Espero a irresponsabilidade conhecida do presidente. Toda sua prática e discurso apontam nesta direção. E não me parece que seu partido consiga demovê-lo dessa investida contra o procedimento eleitoral. Torço para que não haja nenhuma ruptura institucional, mas, ao contrário do que muitos acham, a democracia americana é precária. Por isso não descarto que um ataque do trumpismo ao processo eleitoral, já cheio de problemas oriundos de suas regras, possa acelerar a crise da democracia no EUA. A democracia não é propriedade intrínseca de nenhum país. Quando suas condições sociais e políticas são diluídas, ela pode se apequenar ou se desconstituir em qualquer lugar. Entre as condições sociais, se destaca a crise das formas de inclusão social, como vemos resultar do colapso do fordismo, que sustentaram a democracia ocidental nas décadas finais do século XX. Entre as condições políticas o fator mais importante é a própria falta de adesão aos procedimentos eleitorais e comunicativos da democracia. A possível judicialização da apuração enfraquece a adesão ao procedimento democrático.

 

Suprema Corte dos EUA

 

Opiniões – Nos EUA, o voto é facultativo. Em 2016, 90 milhões de eleitores não votaram, o que pode ter gerado o resultado oposto às pesquisas que apontavam a vitória de Hillary Clinton. Ela teve quase 3 milhões de votos a mais que Trump, mas perdeu no sistema do colégio eleitoral. Além dos institutos de pesquisa terem aprimorado suas metodologias, os votos pelos correios e antecipados indicam presença maciça do eleitor em 2020. Isso pode ajudar Biden? Por quê? 

Arthur – Caso Trump espere a contagem final dos votos sem alarde, creio que essa votação maciça ajude Biden. Em 2016, quase cem milhões não votaram, na minha leitura, por não simpatizarem com Trump, nem com Hilary. Não importa se esta foi injustiçada, mesmo tendo 3 milhões a mais de votos que Trump. O que conta é o colégio eleitoral. Mas agora acredito que a mobilização está sendo maior porque a população enfrentou quatro anos de um presidente errático. O Trump de hoje não é o Trump de ontem. Agora, ele foi testado no governo. Isso conta e muito. Daí acredito que essa mobilização representa a rejeição de Trump mais que um apoio a Biden.

George – Em minha ótica o que pode atrapalhar Biden é uma bala de prata. É importante olharmos pelo retrovisor e revisitarmos o embate Hillary Clinton versus Donald Trump. Poucas semanas antes das eleições, para além de uma propaganda negativa, misógina e agressiva contra Hillary, houve a alta exploração do mau uso por Clinton de seu servidor de e-mail. Ao utilizar um servidor privado para enviar comunicações de interesse de Estado, Hillary Clinton foi pega por parte da opinião pública como Judas. Em uma nação com interesses declaradamente imperiais e absolutamente neurótica com os riscos de informações sigilosas “caírem em mãos erradas”, Hillary se tornou o alvo, a inimiga preferencial na imaginação da opinião pública. Hillary, como sabemos, contava com uma vantagem até mais expressiva do que a de Biden neste ano de 2020. O que virá? Não sabemos. Mas, por enquanto somente um escândalo de última hora aparentemente pode permitir uma virada importante de Trump em estados importantes na disputa.

Roberto – A abstenção eleitoral em 2016 foi maior entre os eleitores democratas. Se isso se reverter este ano as chances de vitória de Biden aumentam consideravelmente. Mas o eleitorado democrata parece estar mais mobilizado contra Trump do que propriamente a favor de Biden.

 

Último debate presidencial dos EUA, na noite de 22 de outubro (Foto: Morry Glass- AP Photo)

 

Opiniões – No final do último debate presidencial, em 22 de outubro, Biden disse (confira aqui) que queria marcar seu governo pela transição dos EUA da matriz energética do petróleo para alternativas limpas, como a eólica e a solar. Como ninguém imagina que um ambientalista vá votar em Trump, mas moderados podem temer as consequências econômicas da mudança da matriz energética, não era uma promessa a ser evitada pelo favorito nas pesquisas, a 10 dias da urna?

Arthur – Claro. Biden podia muito bem que dizer que vai continuar com a matriz energética e desenvolver fontes alternativas de geração de energia. Isto não seria mentira. Seria apenas não fazer uma declaração bombástica que lhe pode ser prejudicial. Sabemos muito bem que a consciência ambiental aumentou nos países em que o capitalismo está mais avançado, mas ela ainda não tem força para eleger um presidente. Seria bem melhor para ele não ter feito esta declaração, que permitiu a Trump aproveitá-la em seu favor. Bastava dizer que voltaria ao Acordo de Paris e a declaração desastrada já estaria implícita.

George – Biden falava para seu eleitorado. É muito importante que tenhamos clareza do seguinte: o discurso dos candidatos nos EUA é um diálogo bastante direto com seus apoiadores e financiadores. É uma forma de “fidelizar” este eleitor e financiador privado oferecendo uma agenda e dizendo o que ele gostaria de ouvir. Os eleitores pragmáticos farão seus cálculos de escolha eleitoral pesando prós e contras entre ambos os candidatos. Contudo, como venho frisando, caso surja um eventual escândalo envolvendo Biden a ser repisado diariamente na mídia norte-americana é algo dotado de potencial mais destrutivo do que a promessa envolvendo as alternativas de energia limpa que precisarão de uma enorme complexidade de negociação para decantarem na realidade.

Roberto – O establishment democrata, do qual Biden é parte visceral, parece ter muitas dificuldades de oferecer um discurso e um programa para a demanda popular de oportunidades e prosperidade econômica que constitui o sonho americano. As políticas sobre a mudança climática são fundamentais, mas elas só terão viabilidade política se vierem sustentadas na recuperação do dinamismo econômico dos EUA, único caminho capaz de arrefecer sustentadamente o sentimento de frustração de amplas camadas médias e populares com os destinos do país. Propor mudar a matriz energética, quando não se tem um caminho crível de reconstrução econômica, pode realmente ser uma decisão muito arriscada.

 

Presidente dos EUA de 1933 até morrer em 1945, Franklin Delano Roosevelt

 

Opiniões – Trump já disse que, se reeleito, irá mudar o comando do FBI, da CIA e do Pentágono. Após Franklin Delano Roosevelt, presidente de 1933 até morrer em 1945, os EUA passaram a permitir apenas uma reeleição presidencial. E aqueles que a conquistaram tiveram o segundo mandato mais “ideológico”, sem precisar mais se preocupar com as urnas, como foi com Barack Obama. Quais seriam os limites de Trump em um eventual segundo mandato?

Arthur – Sempre existem instituições que podem estabelecer limites, mas, sem dúvida, Trump estaria mais confortável sabendo que não poderá mais ser eleito. Isso confere a ele mais liberdade. Os eleitores de Biden que se danem. Ele nunca foi o presidente de todos, como costumam proclamar os presidentes eleitos. Trump nunca desejou paz para unir o país. Com a reeleição de Trump, só se pode esperar a radicalização da sua linha ideológica caótica, mas, ao mesmo tempo, reacionária. E não apenas para os Estados Unidos. Sua possível reeleição teria repercussão internacional.

George – Eis uma questão sem dúvida que causa arrepios a analistas políticos comprometidos com a democracia lá ou em qualquer outro ponto do globo. Governos que ganham uma nova chance devidamente referendados por seus eleitores tendem a arriscar mais, serem mais ousados após reeleição. Isto vale para direita ou esquerda. Portanto, teremos menos limites. No caso de um governo de extrema-direita, pois assim situo a gestão Trump, a agenda é regressiva em conquistas sociais que gradativamente lutam para se implementar naquele país desde os movimentos pelos direitos civis que datam da década de 1960 para cá. Nunca é insuficiente lembrarmos que os EUA mantiveram práticas institucionais formais segregacionistas e racistas até ontem em termos históricos… E assim prosseguem de maneira não declarada na contemporaneidade, vide a reação coletiva que é o movimento Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”). Também podemos esperar a agressiva normalização da precarização das relações de trabalho. Altos índices de emprego, mas, majoritariamente McJobs, sem proteção social, garantias, baixo prestígio, etc, etc, etc.Todavia, ao seu eleitorado, há a promessa  da manutenção de valores tradicionais, a reação às políticas de ação afirmativa, a redução dos impostos que agradam parte importante de Wall Street… Eis o outro ponto que sem dúvida em nada enfrenta os problemas do mais desigual dos países ricos.

Roberto – Não me parece que Obama tenha feito um segundo mandato mais ideológico. Pelo menos não o foi na dimensão da política econômica. No caso de Trump, os limites podem ser estabelecidos pelo Congresso. Acredito que o maior risco que ele representa à democracia é sua possível recusa em reconhecer uma eventual derrota. Em termos de agenda, Trump não tem programa para tornar a “América grande novamente”. Ele não entende que é impossível reconstruir a economia dos EUA refundando o modelo fordista que garantiu bem estar social e inclusão econômica no passado. Por isso, o ganho de liberdade de um segundo mandato pode não ser um recurso tão interessante assim pra ele. Ele sobrevive de identificar inimigos. Na falta de alternativas do que fazer, de como governar e entregar resultados econômicos e sociais, talvez aprofunde a guerra cultural contra o China.

 

Incêndio de Washington em 1814 pelos britânicos (Reprodução de óleo sobre tela de Paul de Thoyras)

 

Opiniões – Os EUA são o único país do mundo que elege seus governos de quatro em quatro anos, desde 1789. Tradição que mantiveram mesmo quando Washington foi incendiada pelos britânicos na Guerra de 1812, na divisão fraticida do país na Guerra de Secessão (1861/1865), nas I e II Guerras Mundiais (1914/1918 e 1939/1945), Guerra da Coréia (1950/1953), do Vietnã (1955/1975), nas duas Guerras do Golfo (1990/1991 e 2003/2011) e na do Afeganistão (2001 até hoje). Não são provas de fogo demais para uma democracia temer por Trump? Por quê?

Arthur – Por esse aspecto, a República dos Estados Unidos é notável: teve apenas uma Constituição com emendas, enquanto o Brasil teve sete, também com emendas e nem sempre resultantes de assembleias constituintes livres e populares. Idem para o Chile, que acaba de dar um bom exemplo. Os Estados Unidos também repeliram historicamente golpes de Estado. Mas a democracia dos Estados Unidos não é plena por conta da eleição indireta. Nem sempre que ganha nas urnas se elege. O colégio eleitoral foi criado para evitar o governo de aventureiros e acabou elegendo um. Confesso que vejo em Trump uma ameaça muito grande à democracia dos Estados Unidos. Ele já vem manchando a Constituição sem precisar rasgá-la. Vejamos o caso da indicação de uma juíza conservadora já empossada como mais um trunfo para sua reeleição. E o tempo todo ele põe à prova a Constituição do país. Estaríamos, então, vivendo uma distopia.

George – O ponto fora da curva na história norte-americana na conjuntura Trump é justamente o questionamento da legitimidade tanto do rito periódico eleitoral de sucessão de governantes quanto das instituições em si. Parte do eleitorado mais radical de Trump o projetou justamente por seu discurso de quebra do establishment. E por establishment me refiro a tudo o que eu comentei anteriormente. Establishment pode ser substituído por Estado de Direito. A democracia representativa é um regime fascinante justamente por promover periodicamente a possibilidade de circulação de elites políticas no poder sem que a violência seja ingrediente desejável a participar do jogo. Para tanto, aceitar resultados, seja você o ganhador ou perdedor, é componente fundamental para manter o jogo sucessório. Por tudo isso ironicamente ter um homem que é também establishment, branco, rico, empresário, que se apresenta como a “negação de tudo que está aí”, o que deve ser traduzido como um agente pouco afeito às regras do jogo, é preocupante. Trump tem um potencial incendiário importante e conta com uma base social mobilizada, radical, fiel e violenta.

Roberto – Não acho que Trump seja a principal ameaça a democracia dos EUA. Ele é muito mais o resultado da principal ameaça: a crise programática decorrente da adesão dos progressistas ao programa econômico das elites financeiras e rentistas. No período entre o começo da II Guerra Mundial e meados de década de 1970, os americanos vivenciaram, apesar de todos os problemas e conflitos externos e internos, processo de ampliação e melhoria das oportunidades de inclusão social e econômica. Isso criou, para as pessoas comuns, um horizonte dominante de esperança na melhoria de vida e garantiu as condições sociais da democracia, que hoje estão se diluindo. Trump é uma ameaça adicional, mas que se alimenta de uma ameaça perene e mais forte, indicada especialmente pelo colapso do horizonte de mobilidade social para a maioria dos americanos.

 

Socialista Bernie Sanders foi derrotado por Biden nas primárias democratas (Foto: Mike Blake – Reuters)

 

Opiniões – Acusado por Trump de “socialista”, Biden sempre foi um moderado em seus 47 anos de vida política. A despeito de ter feito promessas bem progressistas nesta campanha presidencial, como taxar as grandes fortunas para custear a assistência social aos mais pobres e impor um salário mínimo de US$ 15/hora nos EUA. Como entender os liberais como a esquerda dos EUA, quando a ótica latino-americana sempre coloca os liberais à direita?

Arthur – Nos Estados Unidos, o ponto de referência para as tendências políticas é muito particular. O que lá se entende por esquerda, na França, por exemplo, não passa de liberalismo. Existe um partido comunista nos Estados Unidos, mas ele não tem o mínimo peso político-eleitoral. Acusar Biden de comunista é uma arma de retórica que pode causar algum estrago. O próprio Biden se saiu bem no debate ao dizer que ele derrotou as tendências mais progressistas e que a sua posição é centrista. Talvez até demais e já comprovada ao longo da sua vida política. Quanto a taxar fortunas, é um desafio para Biden, muito embora já exista um movimento de milionários mal vistos pela sua ambição pedindo taxação sobre suas fortunas.

George – A história das ideias políticas é caprichosa. O repertório político ocidental, seja este liberal, socialista, social-democrata, conservador, etc, não se move no vácuo. Estas tradições do pensamento político são recepcionadas e aclimatadas em estados nacionais concretos, dotados de uma cultura política concreta, tendo efeitos e interpretações para além dos seus locais de nascimento e de suas expressões “puras”. Desta maneira faz sentido dizermos que há um “liberalismo norte-americano” ou uma recepção particular do ideário liberal. No campo da história política dos EUA a atual configuração nos remete aos anos 1960 onde os democratas vestiram a camisa da luta pelos direitos civis. Isto faz com que os membros deste partido, na média, tenham uma faceta social acrescida da mescla com princípios de liberalismo político, onde há a forte defesa dos direitos civis, com liberalismo econômico, a firme defesa da economia de mercado. O que os coloca na esquerda da política por lá é o sentido relacional da classificação esquerda/direita: os republicanos são muito mais resistentes a mudarem os fundamentos da cultura política e jurídica dos EUA. Os republicanos, em termos relativos, estão mais do lado direito do espectro político. O debate sobre armas, por exemplo, conta com um consenso mais ou menos compartilhado entre os democratas sobre a necessidade de maior regulação. Os republicanos são infinitamente mais conservadores neste tema e em outros tantos… E sobre isso falamos “na média”. Dado o bipartidarismo, onde há dois únicos partidos competitivos nacionalmente, estes, até por falta de outras opções, acabam agregando uma diversidade política concreta. Pode ocorrer agentes como Sanders, muito próximo de uma socialdemocracia clássica, ou até mesmo republicanos que flertam perigosamente com a KKK, supremacismo branco, etc. De maneira ou de outra definitivamente “esquerda” e “direita” têm significações no contexto norte-americano que não cabem necessariamente para o resto do mundo.

Roberto – Nos EUA ser liberal é sinônimo de ser progressista. Em termos de conteúdo, as políticas keynesianas e social-democratas do século XX foram sempre identificadas como liberais, o que indica que lá o liberalismo era mais político que econômico. Outro fator importante é que o termo socialista sempre foi impopular nos EUA, embora hoje menos. Na América Latina, o liberalismo foi predominantemente econômico, se aliando a tendências e regimes autoritários com muita facilidade.

 

Ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama

 

Opiniões – Os governos do PT no Brasil foram considerados progressistas, assim como o governo Obama nos EUA. E, a despeito da grande popularidade que chegaram a alcançar, eles foram sucedidos no voto por governos de espectro político no extremo oposto. Considerada a diferença do impeachment aqui, como o PT de Lula e Dilma e os Democratas de Obama contribuíram nas ascensões respectivas de Trump e Jair Bolsonaro (sem partido)? 

Arthur – Não tenho dúvidas de que o PT contribuiu para colocar Bolsonaro no governo, mesmo que de forma indireta e sem intenção. O PT não conseguiu sequer unir os progressistas. Pelo contrário, as vaidades partidárias e pessoais levaram o PT a acreditar que tinha o monopólio das esquerdas e a liderança delas. Quanto aos Estados Unidos, entendo que Obama fez um bom governo em termos de política interna e externa, com os excessos típicos do país. Teve boa atuação na questão ambiental. Revelou-se um grande estadista. Mas Trump acordou forças sombrias que sempre existiram no país. Elas engoliram Hilary e o elegeram. Creio que o globalismo de Obama contribuiu para os discursos de Trump em favor do América first.

George – Se podemos falar em colaboração devemos falar de colaboração indireta ou involuntária. Digo isso pelo seguinte: os eleitores decidem em democracias representativas. Eles têm uma média de preferências que variam nas conjunturas daquilo que consideram mais adequado para aquele momento. A questão é que todo e qualquer grupo político no poder pode sofrer de “fadiga de material” com o passar do tempo, o que pode ter sido o caso dos democratas e dos petistas, além de erros cometidos pelas gestões. Erros estes cometidos por governos passados e pelos que virão. Também a percepção do eleitor comum de deterioração das condições de bem-estar naquela sociedade indica o rechaço ao que podemos chamar de situação e a aposta em grupos que estejam na oposição. Em momentos mais radicais a aposta em grupos opositores pode redundar até mesmo nos outsiders. Note que na minha resposta falo propositalmente em “percepção”, algo não infrequentemente equivocado, distorcido, etc. Portanto, pasmem, o eleitorado tanto pode acertar quando errar em suas decisões. E não raro pode ser induzido ao erro.

Roberto – O PT e os Democratas têm em comum a rendição ao programa econômico de seus adversários. Trata-se de uma crise programática que afeta partidos e organizações de esquerda em vários países, inclusive na Europa. A esquerda promoveu o apagamento e moderação das principais diferenças na esfera da política econômica. Ao se render ao neoliberalismo, a esquerda abdicou das condições para juntar politicamente as classes médias e as classes populares. Na prática, o PT e os Democratas desconectaram as agendas da inclusão social e da redistribuição de renda da agenda da mudança da política econômica, combinando política identitária para minorias, política compensatória de transferência monetária para os pobres e política regulatória de serviços privados de educação e saúde para a classe média, ao preço de executar e ampliar a política rentista das oligarquias financeiras. Este caminho destruiu os horizontes de oportunidades econômicas e mobilidade social ascendente para as maiorias e contribuiu para a ascensão da extrema-direita que soube instrumentalizar politicamente a frustração social.

 

Obscurantismo que ganhou força no mundo com as eleições de Trump e Bolsonaro tem seu ápice na afirmação de que a Terra é plana

 

Opiniões – Negacionismo científico, flerte com o racismo, a misoginia e a homofobia, aliança com os neopentecostais no limite do estado laico, armamentismo entre civis, anticomunismo generalizado a qualquer adversário ou crítico, guerra contra a imprensa, a intelectualidade e classe artística, governar em eterno modo campanha, com disseminação de fake news nas redes sociais para insuflar suas bases mais radicais. A caixa de Pandora aberta por Trump em 2016, clonada no Brasil em 2018, ficará mais próxima do fim se ele não se reeleger?

Arthur – Do fim, não creio. Nos Estados Unidos, a caixa de Pandora parece aberta desde a independência. Embora todos os males tenham saído dela, eles não conseguem sempre se concentrar para se tornar uma ameaça à democracia. Mas quando os guetos fundamentalistas encontram um gênio do mal, eles mostram sua garra. Nenhum presidente, por mais progressista que tenha sido, conseguiu controlar a indústria das armas. Elas representam uma faceta forte da cultura do país. Essas forças macabras continuarão existindo, mas não vão se expressar com a mesma liberdade no desejado governo Biden, pois não serão estimuladas. Espero que essas forças sombrias sejam contidas, pois um país não pode viver em clima de ódio constante.

George – Sendo bastante sincero eu antevejo algum tipo de retraimento desta lata de lixo semiótica que você narra em sua pergunta. Mas, retraimento não significa o fim. O que precisamos com urgência em nossas sociedades, tanto lá quanto cá, é algum tipo de reorientação da opinião pública e o firme compromisso com o enfrentamento sem tréguas de todo tipo de obscurantismo que rebaixa o nível das narrativas em disputa. Isto a despeito de esquerda ou direita. É preciso uma frente ampla que recoloque o debate público na direção do avanço civilizatório e em prol da democracia. Estamos retrocedendo com a pelada de várzea que se tornou a nossa discussão pública onde as grandes questões, as decisivas, estão soterradas pelo que há de mais abjeto aqui ou nos EUA. E por abjeto incluo o comportamento público de muitas das autoridades na ativa.

Roberto – A derrota de Trump pode tornar mais próximo o fim dessa caixa de Pandora no mundo todo, mas as frustrações sociais que alimentam a política e a guerra cultural de extrema-direita continuam determinantes, em cada país que vivenciou ou é ameaçado pela ascensão da extrema-direita, mesmo com eventual derrota do bufão norte-americano. O efeito de uma possível derrota de Trump vai depender da situação social e política de cada país. No Brasil, por exemplo, vai depender da capacidade governativa de Bolsonaro em promover a recuperação da economia, o que parece cada vez mais improvável.

 

Incêndio na Amazônia em 2020 (Foto: Mario Tama – Getty Images)

 

Opiniões – Com uma Europa e seus Partidos Verdes cada vez mais fortes, a “boiada” do ministro brasileiro Ricardo Salles “passando” nas queimadas na Amazônia e no Pantanal parece não ter mais vez. Com a China, após as restrições até à vacina contra a Covid em parceria com o Butantan, para salvar vidas de brasileiros, as coisas também não andam bem. Se Biden se eleger nos EUA, o Brasil de Bolsonaro se torna de vez um pária mundial? Por outro lado, e se Trump vencer, o presidente brasileiro ganha força na sua reeleição em 2022?

Arthur – Parece que o Brasil de Bolsonaro deseja ser pária. Jornalistas disseram que a vitória de Biden representará a queda de Ernesto Araújo e de Ricardo Salles. Eles fazem parte do núcleo ideológico, agora mais enfraquecido. Tem havido muita pressão interna e externa para enquadrar o governo de Bolsonaro, mas ele tem se mostrado recalcitrante. É de pasmar um governo tão retrógrado como o dele. Não houve um regresso de duzentos anos. Afinal, D. Pedro II tinhas ideias progressistas e gostava da ciência, embora vivendo um contexto escravagista. Bolsonaro vive num lugar que não existe fora dos seus fãs. Foram poucos os presidentes progressistas no Brasil, mas Bolsonaro vive num casulo fora do mundo. Tem e não tem vida própria. Fala para seus eleitores e sobrevive com apoio de Trump. Se este perder, Bolsonaro deve perder também em 2022. Não se pode esperar nada digno de um estadista da parte dele. Apenas que não se reeleja.

George – A tradição da política externa brasileira era de relativa independência aos movimentos do sistema internacional, algo absolutamente funcional para as ambições de um país na periferia do capitalismo que precisa de uma balança comercial favorável tanto quanto o ser humano precisa de oxigênio. Ernesto Araújo em seu famoso artigo “Trump e o Ocidente”, texto que mescla devoção quase religiosa e delírio geopolítico, já prenunciava um encaminhamento absolutamente acrítico do Itamaraty chefiado pelo atual chanceler. Saímos do pragmatismo independente para um alinhamento automático com os EUA que atinge os píncaros do constrangimento. Sendo Biden qualquer coisa menos um “Novo Templário” capaz de salvar o Ocidente, imagem que talvez passe na inventiva mente de Araújo, com certeza teremos uma política externa que precisará se reinventar. Confio na capacidade dos quadros altamente qualificados do Itamaraty nessa missão. Não será fácil reestabelecer diretrizes e até mesmo dignidade para nossa política externa. Mas, não é tarefa impossível. Sobre Bolsonaro, na hipótese Biden, a mudança de tom “para fora” será automática. Transitará entre o cômico e o ridículo. Com Trump sendo reeleito a sabujice seguirá a despeito dos interesses brasileiros.

Roberto – Como Bolsonaro vinculou seu governo muito fortemente ao de Trump, inclusive na insana briga com China, uma derrota do presidente dos EUA é um baque muito forte para o brasileiro. Pode ter impactos negativos concretos sobre o Brasil e com isso fragilizar ainda mais Bolsonaro, inclusive porque Biden parece não eleger a China como principal inimiga. Uma vitória de Trump, ao contrário, provavelmente teria impactos positivos de pouca concretude. Seria apenas um problema a menos para sua reeleição em 2022. Mas não resolve os principais impasses de seu governo que comprometem suas perspectivas de reeleição.

 

 

Opiniões – Ninguém mais parece duvidar que a China tende a se tornar a principal potência econômica do mundo. Mas pelo poder bélico e cultural, além do econômico, os EUA ainda são e serão por algum tempo o mais próximo ao Ocidente do Império Romano na Antiguidade. Em que esta condição pode ser reforçada ou abreviada pela vitória de Biden ou Trump? Como analisa o fato de nenhum dos dois prometer armistício na guerra comercial com Pequim?

Arthur – Em termos de equilíbrio bipolar, a China substituiu a URSS com uma diferença: trata-se de uma potência capitalista com uma ditadura de partido único que se intitula comunista. Mas os marxistas não entendem esse governo como marxista. A China se tornou uma potência econômica e política sem caráter proselitista. Não há mais como ignorá-la. Não cabe mais colocá-la como bode expiatório. Não é mais possível excluir a China. Trump a colocou como inimigo número 1 dos Estados Unidos. Não convém a Biden, nesse momento, declarar que vai manter boas relações com a China, mas, se eleito, creio que relaxará as tensões entre os dois países, ao mesmo tempo restabelecendo a Parceria Transpacífica. Se Trump fosse verdadeiramente anti-chinês, não teria desfeito este acordo nem mantido uma conta em banco da China.

George – Eis uma questão curiosa. Muito curiosa. Enfrentar a influência crescente da China é o ponto de consenso entre republicanos e democratas. A despeito das ambiguidades concretas da relação China e EUA, a potência no Oriente coloca em risco as ambições imperiais dos norte-americanos. Mesmo que seja algo indisfarçável o quantitativo de empresas e capital norte-americanos atuando na China neste momento, o que gera uma simbiose entre as duas potências muito mais profunda do que qualquer retórica eleitoral poderia ser capaz de admitir. Ao mesmo tempo, tal como você coloca, há o “problema geopolítico”. A influência chinesa, a despeito da simbiose que citei, já é algo incontrolável há bastante tempo, justamente fazendo com que o grande dragão do Oriente perigosamente continue se movimentando e fazendo um tipo de movimento que os EUA não fazem: disposição e dinheiro para investir em infraestrutura nos países em desenvolvimento. Penso que poderemos ver a continuidade da disputa entre as duas potências. Mas, ao menos há a possibilidade da redução do barulho, do ruído discursivo se Biden for o vencedor da disputa pela Casa Branca. No caso de Trump reeleito, a gritaria enquanto performance se mantém, ignorando as ambiguidades concretas que indiquei há pouco nas relações econômicas entre os dois países.

Roberto – Gostando ou não, a China promove um projeto de desenvolvimento nacional que difunde ganhos de produtividade por quase os setores da economia. A superioridade bélica e a hegemonia cultural dos EUA não parecem ser suficientes para superar um concorrente que é superior em economia política. Apenas uma reorientação radical da economia americana, que rompa com o rentismo e democratize os ganhos de produtividade restritos à vanguarda da economia do conhecimento, seria capaz de mudar a tendência de a China se tornar e permanecer a maior potência econômica mundial. A vitória de Biden ou Trump fará alguma diferença se um ou outro for capaz de promover esta reorientação. O fato de nenhum dos dois sinalizar o fim da guerra comercial indica que ambos não possuem uma estratégia econômica para os EUA, o que os leva a atribuir as dificuldades da economia norte-americana apenas ao comércio injusto com a China.

 

Ícone do cinema muito além de 007, Sean Connery morre aos 90, dormindo

 

Sean Connery (Foto: Matthew Mendelsohn – Getty Images)

 

 

Em tempos pré-anabolizantes, o jovem Sean Connery como fisiculturista

Morreu na madrugada de hoje, aos 90 anos, em sua casa nas Bahamas, o ator escocês Sean Connery. Desde que o fato foi anunciado no mundo, a mídia superficial do tempo das redes sociais se prestou a ecoar o óbvio: foi o maior James Bond do cinema de todos os tempos. Sim, foi. Mas também foi muito mais que isso. Dono de físico privilegiado, que quando jovem o fez concorrer e chegar em terceiro lugar em concurso de fisiculturismo como Mister Universo, tinha um timbre de voz rouco e igualmente viril, sempre pontuado de ironia. Com presença carismática diante das câmeras e fora delas, soube exceder o estrelato dos filmes de ação para, sem abandoná-los, se tornar também um ator de grande intensidade dramática. Gigante da arte cênica, esteve entre os maiores do seu tempo.

Filho da classe proletária de Edimburgo, bela capital da Escócia, dividia quando garoto o mesmo banheiro coletivo com sua família e outras do quarteirão de classe baixa. Largou a escola aos 13, tentou a vida como leiteiro, salva-vidas e serviu na Marinha Real Britânica, da qual levaria tatuagens nos braços por vezes camufladas em seus filmes. De volta à vida civil, foi modelo vivo na Escola de Artes de Edimburgo, até fazer um teste ao teatro, que abriria suas portas à televisão e ao cinema. Seu primeiro grande filme seria a superprodução de guerra “O mais longo dos dias” (1962), de Ken Annakin, Andrew Marton, Bernhard Wicki e Darryl F. Zanuck. No mesmo ano, estrelaria o papel que o tornaria conhecido no mundo: Bond, James Bond, em “007 contra o satânico Dr. Noo”, de Terence Young.

 

Sean Connery no seu primeiro filme como James Bond, em “007 contra o satânico Dr. Noo”

 

O sucesso da franquia de 007, como do seu carismático protagonista, geraria mais seis filmes do personagem de Yan Fleming, ex-agente de inteligência britânica e escritor de populares livros de espionagem. Connery ainda estrelaria “Moscou contra 007” (1963), do mesmo Terence Young; “007 contra Goldfinger” (1964), de Guy Hamilton; “007 contra a chantagem atômica” (1965), de volta com Terence Young; “Com 007 só se vive duas vezes” (1967), de Lewis Gilbert; e “007 — Os diamantes são eternos” (1971), de volta com Guy Hamilton. Após 12 anos de separação, com James Bond encarnado por outros atores, o escocês voltaria para se despedir definitivamente do papel em “007 — Nunca Mais Outra Vez” (1983), de Irving Kershner.

 

Sean Connery e Richard Harris em “Ver-te-ei no Inferno”

 

A abertura de Connery a outras possibilidades começaria no auge do sucesso de 007, com o mestre do cinema Alfred Hitchcock. Sob sua batuta, o ator escocês estrelou o suspense psicológico “Marnie: confissões de uma ladra” (1964). Daria passos decisivos nessa transição ao estrelar “Ver-te-ei no Inferno” (1970), de Martin Ritt, ao lado de Richard Harris, outro ator que unia presença física imponente com grande capacidade dramática. No filme, o capitalismo selvagem é combatido com atos de terrorismo e a força dos punhos, numa dura comunidade mineira de imigrantes irlandeses nos EUA do século 19.

 

Sean Connery e Michael Caine em “O homem que queria ser rei”

 

Mas o filme com que Connery se libertaria de vez de James Bond seria “O homem que queria ser rei” (1975), baseado em conto de Rudyard Kipling, vivido por Christopher Plummer. Dirigido por outro mestre, John Huston, o escocês o estrelaria ao lado do craque inglês Michael Caine. Difícil dizer se é o maior filme de Huston, diretor também do clássico “Relíquia Macabra” (1941), que fundamentou o estilo conhecido como cinema noir. Mas a atuação de Connery, encarando a morte de frente, enquanto canta altivo até despencar no precipício da própria vaidade, no meio do Himalaia, é a síntese definitiva de qualquer “homem que queria ser rei”.

 

 

No ano seguinte, Connery atuaria numa daquelas pérolas do cinema muito menos conhecida do que deveria. “Robin e Marian” (1976), de Richard Lester, é o menos pretensioso e talvez o melhor filme sobre o mito de Robin Hood. Não mais o jovem vigoroso e revolucionário que “roubava dos ricos para dar aos pobres”. Mas o homem desiludido de meia idade que, na busca do seu passado de glória contra o xerife de Nottinghan vivido pelo grande Robert Shaw, reencontra a verdade derradeira entre os braços do velho amor, encarnado pela freira retirada do hábito pela paixão, a eterna “bonequinha de luxo” Audrey Hepburn.

 

Audrey Hepburn e Sean Connery em “Robin e Marian”

 

Os anos 1980 encontrariam Connery ainda vigoroso para protagonizar filmes de ação. Dois anos antes de se despedir de vez de James Bond, estrelaria “Outland: comando titânico” (1981), de Peter Hyams, na pele do xerife de uma lua de Júpiter, mais uma vez disposto a fazer valer a lei contra o sistema capitalista das grandes corporações. Mas o final daquela década reservaria ao ator escocês algumas obras primas da sua carreira. E da história do cinema. Nelas, seria o coadjuvante que rouba o estrelato dos jovens protagonistas.

 

Sean Connery e Christopher Lambert em “Highlander”

 

Em “Highlander — O guerreiro imortal” (1986), de Russel Mulcahy, Connery enseja Christopher Lambert na arte da espada e na imortalidade, que só finda para determinados escolhidos quando têm sua cabeça cortada pelo vencedor em um duelo entre iguais. A franquia depois se perdeu em filmes de qualidade inferior, mas o primeiro, com a música do Queen, é um clássico daquela “década perdida”. No mesmo ano de 1986, Connery seria o mestre também do jovem Christian Slater, dois sacerdotes jesuítas em “O nome da rosa”, de Jean-Jaques Annaud. Não mais na espada, mas no caminho à imortalidade pela fé aliada ao conhecimento, entre os Evangelhos e a obra filosófica do pagão Aristóteles. Passado na Idade Média, o filme é homônimo da obra do romancista, filósofo e semiólogo italiano Umberto Eco.

 

Sean Connery e Christian Slater em “O nome da rosa”

 

No ano seguinte, em “Os Intocáveis” (1987), de Brian De Palma, a atuação de Connery renderia a ele seu único Oscar, como coadjuvante. Um capaz de superar Robert De Niro no auge, em soberba atuação como o famoso gângster Al Capone. Na pele de Malone, velho policial de rua, Connery é recrutado pelo agente federal Eliot Ness, vivido pelo então jovem Kevin Costner, para ser o mestre de quem se insurge contra o crime tão disseminado na Chicago dos anos 1920 quanto no Rio de Janeiro das milícias de um século depois. Ao aceitar o convite, em uma das tantas cenas antológicas do filme, ele diz dentro de uma igreja: “Deus não gosta de covardes!” O poder da sua atuação foi tamanho, que o Oscar pouco se importou se interpretou um irlandês com seu inconfundível sotaque escocês.

 

Andy Garcia, Sean Connery, Kevin Costner e Charles Martin Smith em “Os intocáveis”

 

Assisti a “Os Intocáveis” pela primeira vez no antigo “Cine Veneza”, há muito inexistente, no Campos Shopping. E lembro de ter saído meio embasbacado, certo de que acabara de testemunhar um espetáculo superlativo de cinema.

 

 

Dois anos depois, Connery roubaria de novo a cena como pai de um dos personagens mais icônicos do cinema daquela década: Indiana Jones. Foi a escolha pessoal de Steven Spielberg, diretor do blockbuster “Indiana Jones e a última Cruzada” (1989). Intérprete de Jones, misto de arqueólogo e aventureiro, o ator Harrisson Ford diria que Connery passaria a cumprir para ele, a partir dali, uma referência paterna também fora das telas. Naquele mesmo ano de 1989, o escocês faria outro filme, que é muito menos lembrado do que merece: “Negócios de família”, de Sidney Lumet, outro mestre. Connery é um ladrão escocês, pai de Dustin Hoffman com uma mãe italiana, e avô do filho único destes, muito inteligente, mas que largou a universidade, vivido por Matthew Broderick.

 

Sean Connery e Harrison Ford em “Indiana Jones e a última Cruzada”

 

Com sua influência sobre o neto, o personagem de Connery consegue convencer também o filho, que largara o crime para se estabelecer como respeitável negociante de carne, para um roubo que dá errado. A cena em que o escocês vence a resistência inicial de Hoffman para participar do assalto, cantando e envolvendo-o com o seu charme, puxando-o paternalmente pela lapela do casaco, no meio de um bar de Nova York, é inesquecível. Cinema, como tudo na vida, é questão de gosto. No meu, quem disser que “Negócios de família” é candidato para estar entre melhores filmes já feitos, não mente. Talvez seja o grande papel dramático do escocês, no diálogo com Hoffman e Broderick também em grandes interpretações.

 

Sean Connery, Mathew Broderick e Dustin Hoffman em “Negócios de família”

 

Após estrelar com Connery outro filme de ação e sucesso de bilheteria, “Caçada ao Outubro Vermelho” (1990), de John McThiernan, um galã daquele tempo e ainda na ativa, Alec Baldwin diria do seu encontro com o escocês: “Quando me falaram que eu iria filmar com ele, confesso que não gostei. Não o conhecia pessoalmente, mas sabia de vários outros ex-galãs ressentidos com a perda da beleza física e da popularidade. Aí, ele entrou na sala, para uma reunião. E fiquei muito impactado. Era aquele tipo de sujeito que, mesmo se você não tivesse nenhuma atração física por outros homens, seria magnetizado por sua presença. O carisma dele concentrava todas as atenções, onde quer que estivesse, mesmo se ninguém o conhecesse”.

 

Sean Connery e Alec Baldwin em “Caçada ao Outubro Vermelho”

 

Os anos 1990 ainda trariam sucessos a Connery. A despeito da idade, brilharia em filmes de ação como “Sol Nascente” (1993), de Phillip Kaufman, ao lado de Wesley Snipes; “Lancelot — O primeiro cavaleiro” (1995), de Jerry Zucker, ao lado de Richard Gere; o blockbuster “A Rocha” (1996), de Michael Bay, ao lado de Nicholas Cage e Ed Harris; e o fracasso “Os Vingadores” (1998) — não os da Marvel —, de Jeremiah S. Chechik, ao lado de Ralph Fiennes e Uma Thurman. Nesta mesma década, fez também “O curandeiro da selva” (1992), novamente com John McThiernen, ao lado de Lorraine Bracco e do falecido ator brasileiro José Wilker.

 

Sean Connery e Nicholas Cage em “A Rocha”

 

Da experiência das filmagens na selva amazônica, em um tempo anterior às queimadas criminosas do Brasil de Jair Bolsonaro, Wilker deu seu testemunho sobre o trabalho com Connery: “Entrei atrasado na produção e comecei a ficar constrangido, ao perceber que estava atrasando o ritmo das gravações. Sean me chamou reservadamente e começou a repassar pessoalmente comigo todas as falas. Mesmo sendo um grande astro internacional, era humilde e solidário com os colegas. Ele sabia, como diz um ditado árabe, que ‘a velocidade da caravana é a do camelo mais lento’”.

 

Sean Connery e Rod Brown em “Encontrando Forrester”

 

O último papel dramático de Connery foi em “Encontrando Forrester” (2000), de Gus Van Sant. Em personagem inspirado em J. D. Salinger, autor do clássico romance “O apanhador no campo de centeio”, interpreta um escritor recluso, que é reintroduzido ao mundo por um jovem negro, vivido por Rod Brown. Seu último filme de fato, como não poderia deixar de ser, foi de ação. Em “A Liga Extraordinária” (2003), de Stephen Norrington, empresta sua pele a outro personagem literário: o caçador Allan Quartemain.

 

Sean Connery em seu último filme, “A Liga Extraordinária”

 

Em sua vida longa e plena, apesar de ordenado pela rainha Elizabeth como cavaleiro britânico, Connery foi um militante entusiasmado da independência da Escócia do Reino Unido. Perguntado algumas vezes sobre como se pronunciava corretamente seu nome de batismo, Connery esclarecia com seu sotaque escocês nasalado: “Chôun”. Além de James Bond, emprestou espírito e pele à encarnação de muitos nomes. E morreu dormindo, onde todos somos nós e tantos.

 

Sean Connery exibe seu Oscar em 1988, pela grande interpretação em “Os Intocáveis”

 

Liderança isolada de Wladimir e Caio entre pesquisas, Justiça e debates

 

Wlaidmir Garotinho e Caio Vianna com os percentuais de intenções de voto, segundo a pesquisa Paraná, da cidade que querem governar (Montagem: Elaibe de Souza, o Cássio Jr.)

A exatos 15 dias das urnas de 15 de novembro, Wladimir Garotinho (PSD) e Caio Vianna (PDT) polarizam a eleição a prefeito de Campos. Havendo segundo turno, tudo até aqui parece indicar que, salvo algo fora da curva, os herdeiros dos clãs Garotinho e Vianna o disputarão em 29 de novembro. A liderança de Wladimir e Caio não era novidade a quem conhece os bastidores da política goitacá e os analisa sem paixão. Assim como a terceira posição de Dr. Bruno Calil (SD), tudo isso foi adiantado nos dois últimos sábados (confira aqui e aqui), neste mesmo espaço de análise da semana eleitoral. E foi confirmado pela divulgação na última quinta (29) de duas pesquisas registradas: a do instituto de âmbito nacional Paraná (confira aqui) e outra, do menos conhecido Virtu.

No final da tarde de ontem, algo fora da curva aconteceu. E absolutamente inesperado, dado o deferimento em primeira instância (confira aqui) e, depois, do paracer favorável da Procuradoria Regional Eleitoral (confira aqui). Em ação da coligação de Bruno, por desincompatibilização da função de diretor do Hospital Plantadores de Cana (HPC) fora do prazo, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) indeferiu (confira aqui) por 5 votos a 1 a candidatura de Frederico Paes (MDB) a vice na chapa de Wladimir. Sem opção de troca, o único recurso agora é o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Seu ex-ministro, o advogado Henrique Neves defende Frederico, considerado o vice mais forte entre as 11 candidaturas.

 

Vice de Wladimir, o empresário Frederico Paes

 

Noves fora os próximos capítulos na novela jurídica em que se converteu há anos a política de Campos, só havia duas dúvidas reais antes das duas pesquisas reveladas na quinta. A primeira: qual é a diferença de Wladimir para Caio e deste, para Bruno? A segunda: qual é o percentual de intenções dos demais candidatos? Afinal não é preciso conhecer muito de eleição para saber que, com sua pulverização em 11 candidatos a prefeito, o segundo turno será determinado não só pela diferença entre os dois líderes, como pela votação dos outros nove. Nisto, à parte a concordância sobre a liderança de Wladimir e Caio, as diferenças nos números das duas pesquisas ao primeiro turno, e em suas simulações de segundo turno, levantaram dúvidas. Que foram reforçadas pelo fato de a Paraná ter como contratante o próprio instituto, o que levanta suspeitas. E a Virtu ter como contratante o jornalista Sérgio Cunha, ex-secretário municipal do Comunicação do governo Rosinha Garotinho (hoje, Pros).

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Registrada no TSE sob o nº 01718-2020, a Paraná ouviu 800 pessoas entre 26 a 28 de outubro. A 15 dias do pleito, a consulta estimulada é a que conta. Nela, com margem de erro de 3,5 pontos percentuais para mais ou menos, a pesquisa revelou Wladimir com 28,1% das intenções de voto; Caio, com 23,5%; Bruno, com 7,2%; Rafael Diniz (Cidadania), com 6,6%; Professora Natália (Psol), com 3,4%; Odisséia (PT), com 3,0%, Tadeu Tô Contigo (Republicanos), com 2,9%; Roberto Henriques (PCdoB), com 1,1%; Cláudio Rangel da Boa Viagem (PMN), com 0,8%; Beethoven (PSDB, que foi substituído pela candidatura da Dra. Carla Waleska), com 0,4%; e Jonathan Paes (PMB), com 0,1%. Registrada no TSE sob nº RJ-09073/2020, a Virtu ouviu 600 pessoas entre 24 a 26 de outubro. E, com margem de erro de 4 pontos para mais ou menos, sua estimulada deu Wladimir com 34%; Caio, com 24%; Bruno, com 6%; Rafael, com 2%; Natália, Odisséia e Tadeu com 1% cada; com os demais abaixo disso.

Nas simulações de segundo turno, a Paraná indicou a vitória final de Caio, com 37,6% a 32,9% sobre Wladimir. Que, por sua vez, apareceu batendo o pedetista na Virtu, por 42% a 32% em 29 de novembro. Mais que as intenções de voto, a rejeição é considerada o melhor índice para determinar as chances de crescimento de quem for ao segundo turno. Mais transparente, a Paraná disponibilizou em seu site a íntegra da pesquisa, na qual Wladimir tem 29,3% de rejeição, abaixo apenas dos 59,5% de Rafael no índice negativo, no qual Caio teve 12,9%. Já o portal da Fatore, empresa do contratante da Virtu, não fez o mesmo. Entre os vários dados sonegados da pesquisa, não divulgou nenhum número de rejeição de nenhum candidato. E se limitou a dizer (confira aqui): “O prefeito Rafael Diniz confirma viés de rejeição e má avaliação de sua gestão”.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Considerado certo pela Paraná, o segundo turno foi posto em questão pela Virtu. E nisto contribuiu outra distinção fundamental entre as duas pesquisas. Além da diferença entre Wladimir de Caio — 4,6 pontos na Paraná, que cresceram a 10 pontos na Virtu —, todos os outros candidatos caíram nas intenções de votos da segunda pesquisa: Bruno, de 7,2% a 6%; Rafael, de 6,6% a 2%; Natália, de 3,4% a 1%; Odisséia, de 3,0% a 1%; Tadeu, de 2,9% a 1%; Henriques de 1,1% a menos de 1%.

 

Na comparação da Paraná a Virtu, só Wladimir cresceu nas intenções de voto. Caio empacou, enquanto Bruno, Rafael, Natália, Odisséia, Tadeu e Henriques caíram (Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

O aparente pior desempenho de Bruno, Natália, Odisséia e Tadeu talvez tenha explicação: eles não foram identificados com seus nomes oficiais de campanha, na consulta induzida da Virtu. Nela, Dr. Bruno Calil foi apresentado como Bruno Calil; Professora Natália, como Natália Soares; Odisséia, como Odisséia Carvalho; e Tadeu Tô Contigo, como Alexandre Tadeu. Já Beethoven, que desistiria da sua candidatura no dia 26, cedendo lugar a Waleska, sequer entrou na consulta concluída naquele mesmo dia, com apenas 10 prefeitáveis. Qualquer um pode conferir (faça-o aqui) na apresentação dos questionários da pesquisa no site do TSE. O contratante da Virtu foi contactado para esclarecer dúvidas sobre a metodologia, mas preferiu não falar.

 

No questionário da consulta induzida da Virtu, disponível no site do TSE, Tadeu Tõ Contigo foi apresentado como Alexandre Tadeu; Dr. Bruno Calil, como Bruno Calil; Cláudio Rangel da Boa Morte como Cláudio Rangel; Professora Natália como Natália Soares; e Odisséia como Odisséia Carvalho. Bethoven, nem qualquer nome do PSDB, foi apresentado como opção ao eleitor (Reprodução do TSE)

 

Além de mais correta na apresentação dos candidatos e seus nomes, mais transparente na apresentação integral dos seus números, ser um instituto bem mais conhecido no Brasil, ter ouvido mais pessoas em Campos, com margem de erro menor, em período mais recente no tempo, a Paraná teve outra clara vantagem sobre a “concorrente”. Sua pesquisa foi divulgada no dia 29, assim que podia ser pela legislação. Mesmo podendo ser divulgada desde o dia 27, a pesquisa Virtu só se deu a conhecer horas depois da do outro instituto, revelando intenção de “resposta”. Os questionamentos feitos pelo TSE à Paraná, sobre apresentação por bairros dos dados da corrida eleitoral a prefeito, foram respondidos ontem a contento. No estilo agressivo do clã Bacellar que o apoia, Bruno fez outro questionamento (confira aqui): “a pesquisa (Paraná) é divulgada por um site que possui publicidade da Prefeitura de Niterói, onde o prefeito já declarou apoio a um candidato a prefeito de Campos”. No caso, Caio.

 

Bruno e Natália, revelações até aqui da eleição (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

É o mesmo estilo agressivo que levou ao questionamento na Justiça Eleitoral, em ação coordenada pelo deputado estadual Rodrigo Bacellar (SD), que conseguiu ontem uma vitória parcial no TRE, por 5 a 1, no indeferimento da candidatura de Frederico, vice de Wladimir, na tentativa de comprometer toda a chapa. Como há consistente jurisprudência em contrário (confira aqui) firmada no TSE, caberá a este a decisão final. No voto, se as pesquisas estiverem corretas, a não ser que exista uma campanha capaz de conquistar mais de 3 mil eleitores por dia em Campos, nestas duas últimas semanas que ainda nos separam das urnas, a liderança de Wladimir e Caio parece matematicamente segura. Consigam ou não vencer essa considerável desvantagem, candidatos pela primeira vez, Bruno e Natália já surgem como as revelações da disputa.

 

Debate do Fidesc, com transmissão ao vivo da Folha FM 98,3 e PlenaTV, neste dia 5 (Arte: IFF e Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Enquanto isso, nesta penúltima semana antes do pleito goitacá, na terça (03) a eleição a presidente dos EUA prenderá a atenção do mundo, que terá seus rumos (confira aqui) definidos por ela, em apuração que pode se prolongar. Na quinta (05), a partir das 20h, será a vez do debate (confira aqui) do Fórum Institucional de Dirigentes do Ensino Superior de Campos (Fidesc). Terá transmissão ao vivo pela Folha FM 98,3, em rádio e streaming no Facebook, e pela PlenaTV nos canais 181 e 406 (em HD) na NET, canal 3 na VerTV, canal 24 na Blue e canal 24 na SFnet. Dessa vez, diferente do que aconteceu no confuso debate da Carjopa, no último dia 26, espera-se que todos os 11 candidatos a governar Campos estejam presentes. Sobretudo os três que lideram a corrida.

 

Publicado hoje (31) na Folha da Manhã

 

Morre aos 47, na Bahia, o campista Bernardo Lusitano Esteves

 

Bernado Lusitano Esteves

Morreu ontem na Bahia, de infarto, o campista Bernardo Lusitano Esteves. Tinha 47 anos. Faria 48, como os meus, no próximo dia 9. Deixa o filho Lucas, os irmãos Nicholas e Matheus. Mas quem era ele? “Um ponto de referência de quem sou”.

Conheci Bernardo na Escola Santo Antônio. Estudamos juntos todo o primário. Que hoje abriga o Hortifruti da Formosa. Em seus bancos, batemos bafo das figurinhas do Brasil na Copa de 1982. Lusitano, como Bernardo de nome e origem, Fernando Pessoa completaria por seu heterônimo Álvaro de Campos: “Eu passava ali de noite e de dia./ Desde ontem a cidade mudou”.

Adolescentes, reencontraria Bernardo no Auxiliadora em 1987. Foi um ano bom. Tom Jobim lançaria “Passarim”; Legião Urbana, “Que país é este”; Bernardo Bertolucci, “O último imperador”; Cacá Dieguez, “Um trem para as estrelas”. Pessoa, por Campos, bisaria o refrão: “Desde ontem a cidade mudou”.

Adultos, nos estranharíamos três vezes. Sem nenhuma pretensão de Cristo ou Pedro, Simão ou Sarmet, nosso amigo de infância e toda a vida. As três, ébrios, foram nas saídas de festas. Lusitano como Bernardo, Pessoa advertiria: “Meu coração tem pouca alegria,/ E isto diz que é morte aquilo onde estou”.

Bernardo ganhou o mundo. Morou anos nos EUA, em Tampa Beach, na Flórida. Recuou ao Equador e, sem o descer, habitou também Rio Branco do Acre. Se não morresse, voltaria lá para estar com Pedro nestes finados. Antes, em vida, lecionou Pessoa a quem fica: “Mas ao menos a ele alguém o via,/ Ele era fixo, eu, o que vou”.

A última vez que encontrei Bernardo, há cinco anos, malhávamos numa academia. Ficava na mesma Formosa da nossa infância. Vendo o passado comum umedecer os olhos, Pessoa verteu ao ouvido em sussurro: “Se morrer, não falto, e ninguém diria/ Desde ontem a cidade mudou”.

Além dos versos que rabisquei na mesa de alvenaria da casa do seu avô, acho que Bernardo nunca leu Pessoa. Esteves, era também Lusitano. E, como Campos, se despede em outro poema: “o Esteves voltou-se e viu-me./ Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo/ Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança”.

Vá em paz, meu irmão!