Hamilton Garcia — O Brasil que emerge das urnas

 

 

A vitória de Bolsonaro começou a se delinear em abril de 2017, quando, pela primeira vez, o candidato suplantou, por um ponto percentual apenas, seus competidores mais proeminentes na oposição ao desgastado PT, cujo candidato (LILS) ocupava a primeira colocação nas sondagens[i]. A partir daí, o candidato da direita se afirmaria, crescentemente, na primeira colocação, sem o petista preso em Curitiba ou concorrentes outsiders (J.Barbosa e L.Huck), enfrentando uma Marina Silva fragilizada por seu isolamento, um Ciro Gomes reestreante no protagonismo político e candidatos tucanos tisnados pelas escandalosas relações entre seu ex-candidato (Aécio Neves) e o megaempresário Joesley Batista — que o PSDB, apesar dos esforços de seu presidente interino (Tasso Jereissati), tratou de minimizar.

Além do isolamento da Rede, do vácuo de alternativas e da desmoralização do PSDB, Bolsonaro também se beneficiou da rigidez fisiológica do centrão-MDB e ideológica da esquerda, que manteve-se atada ao partido (PT) que capitaneou os megaesquemas de corrupção desnudados, à exaustão, no Mensalão e no Petrolão. Mas, nem a tibieza oposicionista da centro-esquerda, nem a crise da velha política associada à canonização de LILS, podem explicar o desenlace eleitoral. Concorreu de maneira decisiva para tal, mesmo que a compreensão geral não seja muito clara a respeito, o esgotamento do bloco histórico responsável pela redemocratização do país (vide “Os perigos que se avizinham e o antídoto”).

É neste contexto crítico que deve ser visto o futuro governo e sua oposição. O bloco histórico em agonia, da inclusão consumista-financista, impõe duas tarefas básicas, de dificuldade assimétrica, ao novo governo: o fim do compromisso neopatrimonial, que marca a modernização conservadora brasileira e veio a se constituir em pilar central de variados arranjos políticos ao longo do séc. XX — com importantes inflexões no Estado Novo (1937-1945) e no período militar (1964-1984), sem maiores resultados por conta do infantilismo de esquerda que os antecedeu —, e a reindustrialização do país, cujo ápice foi o “milagre brasileiro” (1967-1979) — cujo retrocesso se deveu à incapacidade do regime de superar o caráter elitista de seu bloco histórico.

A indicação do juiz Sérgio Moro para o (super)ministério da Justiça coloca o novo governo em posição privilegiada para enfrentar tal desafio histórico, na busca da racionalização da máquina de Estado — objetivo acalentado desde o DASP (1938) e levado à cabo marginalmente, ao sabor das conveniências políticas, com os resultados conhecidos, na média: Estado grande, com baixa eficiência, perdulário e refém de corporações (privadas e públicas) que atrofiam seu desempenho enquanto parasitam seus recursos em benefício próprio.

A persistência do neopatrimonialismo, uma versão avançada e urbana do velho patrimonialismo mercantil lusitano[ii], se liga a uma modernidade cujos atores foram tragados pelo Estado ao longo de sua constituição — caso dos sindicatos de trabalhadores e patrões a partir de 1930[iii] —, quer pelas assimetrias institucionais dos primeiros (déficit de representatividade), quer pela vontade ativa do Estado de manter controle sobre a sociedade esmagando os que dele tentavam escapar. As desigualdades regionais, no imenso território, e a resiliência das antigas práticas coronelísticas — urbanização adentro, mesmo sem “coronéis” —, ajudaram na sobrevivência do modelo nos interstícios da Constituição de 1988.

O desmonte desta herança maldita, que desde a Primeira República (1889-1930) conecta a base eleitoral municipal ao governo central, por meio da “política de governadores” e suas casas legislativas, terá forte impacto sobre a eficiência e universalidade das políticas públicas, mas ainda assistirá a uma árdua resistência, dada sua capilaridade federativa, que exigirá, para ser suplantada, não da mera descentralização, mas dela acompanhada da instituição de núcleos qualificados de gestão, com a obrigatoriedade de contratação de pessoal técnico especializado para as funções administrativas regionais e municipais — algo que não se ouviu falar até o momento.

Seja como for, a ruptura, evitada por todas as coalizões governistas na Nova República, se eficazmente concluída, tem potencial para alçar Jair Bolsonaro ao rol dos estadistas nacionais, forçando o centro e a esquerda a repensar suas estratégias para não serem varridos para a margem da disputa política, como foi a direita no fim melancólico do regime militar (Governo Figueiredo, 1979-1985).

Mas, mesmo que obtenha sucesso na agenda de modernização do Estado, com impacto ao nível econômico mais básico, é certo que o novo governo não poderá prescindir do suporte econômico de setores estratégicos, capazes de sustentar a renda agregada, suportar o consumo (privado e público) e os investimentos (idem). Para isso, a indústria, setor por excelência da propulsão tecnológica e da economia de escala, capaz de sustentar amplas cadeias produtivas e estabilizar a modernização no longo-prazo — problema estrutural do Brasil ao longo do séc. XX, que foi posto em segundo plano desde a redemocratização em proveito da distribuição (consumo) —, terá que reassumir a centralidade perdida, na agenda econômica e política, desde a crise do modelo militar-autoritário.

As tensões que se prenunciam no âmbito da nova coalizão dirigente (do velho bloco histórico), portanto, vai muito além daquela que desafiará Sérgio Moro, na Justiça, em relação à máquina estatal e os três poderes, avançando decisivamente na disputa entre Paulo Guedes (liberais) e Onyx Lorenzoni/militares (desenvolvimentistas), que, embora também guarde relação com a pauta racionalizaste do Estado, não se esgota nela, desafiando a mediação do presidente eleito com resultados imprevisíveis.

O certo é que a ameaça de tudo se desmanchar no ar, sob a crise do bloco histórico, poderá levar a um rearranjo de forças ainda mais forte do que o verificado nas urnas. Ao centro político, ao que tudo indica, caberá um papel de apoio crítico ao novo governo sob a égide do liberalismo (mercado e instituições), funcionando como um freio à radicalização (popular) da pauta antineopatrimonial no que ela implica em “refundação da república” — pretensão tida por alguns como “ataque dissimulado à democracia” —; o mesmo com relação à problemática do desenvolvimento retardatário, que encerraria em alguma forma de revalorização da regulação econômica — tida como antípoda ao mercado e à democracia.

Por tudo isso, o centro-democrático, que agrupa os fundadores do PSDB, o PPS e a Rede, entre outros, tende a um oposicionismo parlamentar e intelectual moderado, de escassa repercussão social, podendo oscilar, à esquerda e à direita, em pautas específicas.

Já à esquerda, a cisão representada por Ciro Gomes e sua pauta desenvolvimentista, explicitamente vocacionada para a construção de um novo bloco histórico centrado no trabalho e na indústria, necessitará, para ser bem sucedida, do esgotamento da pauta liberal-econômica do novo governo, sem alternativa consensual na agenda governativa vitoriosa. Ao mesmo tempo, precisará o pedetista suplantar o protagonismo petista, aferrado ao neocorporativismo de minorias e ao socialdesenvolvimentismo de compromisso (neopatrimonial) como estratégia de viabilização do “Estado popular”. Não será fácil, dada nossa tradição populista.

Todavia, o novo dinamismo político inaugurado pela novíssima frente radical de direita promete, além das incertezas, grandes oportunidades às forças políticas capazes de entender a natureza da crise e dispostas a interpelar, a seu modo, os desejos da maioria dos brasileiros.

 

[i] Vide Gazeta do Povo, in. <https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/pesquisas-eleitorais/datafolha/pesquisa-datafolha-abril-2017/> em 3/11/18

[ii] Vide Raimundo Faoro, Os Donos do Poder: formação do patronato político brasileiro (vol.2); ed. Publifolha/SP, 2000, cap. III.

[iii] Vide Armando Boito, O Sindicalismo de Estado no Brasil, ed. Unicamp/Campinas, 1991.

0

José Padilha — A esquerda optou por Lula, e traiu Ciro miseravelmente

 

Como escrevi aqui, em última postagem própria, me dei  uma pausa após a Copa do Mundo seguida da eleição brasileira. Mas como o Igor Franco, colaborador quinzenal do blog, me enviou o texto publicado (aqui) na postagem abaixo, aproveito o ensejo para republicar o artigo sobre as eleições publicado hoje (aqui) em O Globo, pelo cineasta José Padilha, dos filmes “Tropa de Elite” e da série “O Mecanismo”. Se ainda não leu, sugiro que o faça.

Na semana que vem, se Deus quiser, estarei de volta. Inté!

 

Carlos Drummond de Andrade

 

 

José Padiha, cineasta

E agora, José?

Por José Padilha

 

Dilma chegou em quarto para o Senado. Haddad, simulacro de Lula, perdeu para um candidato com enorme índice de rejeição. Boulos teve 0,5% dos votos. Freixo, que também colou em Lula, teve votos. Mas foi um fenômeno carioca, resultado do combate às milícias. O Psol do Rio, anticorrupção, teve sucesso. Já o Psol nacional sucumbiu. A Lava Jato devolveu, fisicamente, R$ 1,5 bilhão para a Petrobras, e a Petrobras pagou US$ 2,5 bilhões aos procuradores americanos. Se não houve o petrolão, de onde veio este dinheiro? E por que o acordo na Justiça americana?

Teremos um radical de direita na Presidência porque a esquerda, acreditando que Lula era a única possibilidade de se manter no poder, optou deliberadamente em pôr a ideologia antes da ética. Alertei meus amigos marxistas sobre o erro que cometiam. Afinal, o dinheiro que o PT roubou era do mesmo eleitor que conviveu com a segurança pública e com os sistemas educacional e de saúde que o PT não consertou em 12 anos. Em outras palavras: a esquerda chamou o eleitor de otário, e colheu o preço desta afronta nas urnas. Para deixar claro que não ia levar desaforo para casa, a maioria dos brasileiros não apenas derrotou o PT, como escolheu a extrema direita para fazê-lo. O que o eleitor disse com esta escolha? Disse que coloca a ética antes de ideologia, mesmo que isto resulte em autoritarismo. Uma mensagem indigesta, mas inegável.

Depois de sofrer esta acachapante derrota, os formadores de opinião de esquerda deveriam estar se perguntando: “E agora, José, que a festa acabou, a luz apagou e o povo sumiu?” A resposta que derem a esta pergunta vai definir, em parte, se o Brasil continuará sendo um país de ideólogos irracionais e antiéticos.

Tive conversas com Luiz Eduardo Soares e Marcelo Freixo a respeito deste tema. Ambos participaram do erro da esquerda: reconheceram a roubalheira do PT e, mesmo assim, ficaram ao lado de Lula. No caso do Luiz, por conta da tese de que Lula, apesar de ser claramente culpado de vários crimes, foi condenado por um crime que não cometeu. Segundo Luiz, a prisão de Lula seria fruto de uma armação política que articulou todas as instâncias do Judiciário. Não vejo como isto possa ser verdade. Mas, mesmo que fosse, seria irrelevante, posto que a lógica do eleitor não se submete aos formalismos judiciais.a empreiteiras pegas na Lava-Jato, mas não há uma única foto postada por alguém que tenha assistido a uma destas. Em um tribunal, isso não configura prova. Todavia, nenhum eleitor razoável pode deixar de concluir que as palestras não aconteceram e que Lula recebeu por outros serviços… No caso do Marcelo, o motivo do apoio dado a Dilma e Lula foi um veto ao PSDB, que roubou e é direita. O eleitor concordou com ele apenas em parte. Não relativizou a ética por conta da ideologia, e enterrou o PSDB junto com o PT.

Para piorar, a esquerda resolveu fingir que o apoio de Lula e do PT às ditaduras de Cuba e da Venezuela era desimportante. Eu, que filmei na Venezuela e tenho amigos por lá, sei quão cínica foi esta opção… Ao insistir numa tese facilmente refutável, a esquerda abriu mão do único discurso que poderia eliminar Bolsonaro da contenda: o fato de ele ser inaceitável por conta de suas opiniões a respeito dos direitos humanos e das liberdades civis. Ciro poderia ter feito este discurso. Lula e o PT, jamais. A esquerda optou por Lula, e traiu Ciro miseravelmente.

O que a esquerda precisa fazer para resistir a um possível autoritarismo de Bolsonaro? Primeiro, abandonar de vez o PT, irremediavelmente maculado pela corrupção e pelo PMDB. Depois, pôr a honestidade antes da ideologia, assim como fez o eleitor. E, finalmente, se opor a qualquer autoritarismo, incluindo o de países socialistas. Se isto não acontecer, mais uma vez, como disse Espinosa, a esquerda lutará pela escravidão pensando que está lutando pela liberdade.

 

0

Igor Franco — Os especialistas bolsominions

 

 

Já faz uma semana desde a eleição de Bolsonaro e ainda é possível encontrar manifestações de incredulidade quanto ao resultado das urnas em meio ao tsunami de lágrimas derramadas por aqueles que se acostumaram a estar do lado vencedor da disputa há quase duas décadas. Assim como o desfecho inevitável de uma doença terminal, a concretização do ato é sempre impactante, por mais que o roteiro do fim esteja escrito e seja sabido de antemão.

Muito se tem dito a respeito da capacidade de Bolsonaro se comunicar diretamente à população através das redes. O antipetismo teve seu peso. É impossível não mencionar, é claro, a corrupção avassaladora que tomou de assalto os cofres públicos de modo acintoso nas últimas décadas. Os detratores acusam uma onda conservadora que, subitamente, transformou em reacionários fascistas. Porém, alguns dos grandes artífices da vitória do deputado têm passado ao largo da discussão: são os especialistas bolsominions.

Eles são cabos eleitorais involuntários. Na verdade, eles adorariam ver pelas costas o capitão. Mas, assim como os entusiastas que passavam o dia encaminhando manchetes e imagens de Bolsonaro pelo WhatsApp, eles garantiam milhões de votos ao direitista a cada vez que suas ideias eram colocadas em prática ou suas palavras eram ecoadas na imprensa majoritariamente anti-Bolsonaro. Mesmo depois das eleições, esses minions reforçam a popularidade do presidente eleito e garantem uma excelente base de apoio para o início de governo.

Na última semana, por exemplo, a política bolsominion de progressão de regime de criminosos condenados está a um passo de permitir a Alexandre Nardoni sair da prisão durante o dia. Após ser condenado pelo assassinato de sua própria filha há dez anos, o homicida teve seu comportamento classificado como “ótimo”. Sua esposa à época do ocorrido já está em semi-aberto há mais de um ano. Assim como ocorreu com a também famosa Suzane von Richtofen, talvez fosse o caso de aguardar o próximo Dia dos Pais para que a soltura seja ainda mais ultrajante à sociedade brasileira.

Também nos últimos dias, tivemos a notícia de que os transexuais Thammy Miranda e Pablo Vittar concorrem, respectivamente, ao posto de homem e mulher mais sexies do ano numa eleição conduzida pela revista bolsominion IstoÉ. No país de Rodrigo Hilbert e Paolla Oliveira é realmente impressionante que alguém pense haver necessidade para que esses postos sejam preenchidos. Aliás, no país de Machado de Assis, Nelson Rodrigues, Drummond, Veríssimos, Ramos e Rosa, a banca organizadora do ENEM achou por bem apresentar aos alunos uma questão envolvendo um “dicionário travesti”.

Os especialistas bolsominions estão entocados em redações, em organizações não-governamentais que não vivem sem a simbiose com o governo, na academia e em diversos outros segmentos da sociedade. Uma característica aglutinante do grupo é que, em nome de uma pretensa superioridade ideológica ou intelectual, toda solução que atente contra o senso comum é imediatamente adotada.

Num momento de autocrítica quanto à efetividade de sua estratégia, a opção pelo enfrentamento é ainda mais latente. Forjados no enfrentamento das “superestruturas” burguesas e reacionárias que supostamente dominam o país, cada lacre importa mais que a coerência e eficácia das ações.

O capitão agradece!

 

0

Após cinco meses de Copa e eleições, segura que lá vai textão

 

 

Acabou. Primeiro foi a Copa do Mundo de junho a julho. Em sequência, na ligação direta, as eleições brasileiras. Foram cinco meses de atividade intensa. Em vinte finais de semana, foram quase todos os sábados e domingos dedicados ao trabalho.

Com a capacidade de análise condicionada em outras Copas e eleições, a despeito da torcida pessoal, os resultados confirmaram os favoritismos que apontei (aqui e aqui) antes das respectivas bolas rolarem: a França foi campeã e Jair Bolsonaro, eleito presidente.

O que não deu para (ninguém) prever, pelo menos não antes do primeiro turno, foi Wilson Witzel eleito governador do Rio.

Hitler fundou o estado fantoche da França de Vichy

Isso posto, não dá para deixar de desabafar o asco pelas manifestações do brasileiro médio nas redes sociais durante os dois eventos. Desde a Copa, como encarar alguém formado em história que declarou torcida pela França multirracial contra os “nazistas” da Croácia? Como alguém que se pretende historiador pode ignorar o que foi o colaboracionismo aberto da França de Vichy (1940/44) com a Alemanha de Adolf Hitler? E, de quebra, tratar o povo eslavo da Croácia com o mesmo preconceito que lhe dedicou o nazismo.

Da Copa às eleições, as acusações de nazismo se somaram às de fascismo, racismo, machismo, misoginia e homofobia que, independente dos motivos, serviram a um fim prático: eleger Bolsonaro. Entre seus eleitores mais entusiasmados, como encarar pessoas com as quais se convive desde a juventude, na qual cometeram todo tipo de excessos em sexo, álcool e drogas ilícitas, agora convertidos em defensores da moral, dos bons costumes e da família tradicional?

Político liberal de brilho intelectual, a despeito do apoio à ditadura militar no Brasil, Roberto Campos (1917/2001) dizia que “a burrice não tem fronteira ideológica”. O mais grave é ver isso confirmado por gente inteligente, cega pela dor de corno política desde a prisão de Lula, em 7 de abril, por corrupção e lavagem de dinheiro. Como reagir quando essa passionalidade se sobrepõe à própria família, independente das suas mazelas, e se expõe até os pais nas redes sociais, em mendicância exitosa de likes lacradores?

Nem a burrice, nem a hipocrisia. Desde a eleição presidencial de 2014, como olhar militantes de esquerda, que desde tenra idade deram contribuições generosas ao PIB da Colômbia e da Bolívia, chamando Aécio Neves de “cheirador”? E que, ao colher os resultados dos próprios erros políticos acumulados nos quatro anos seguintes, no lugar do mea culpa, respondem: “A Hitlerzinha aqui vai voltar pra Europa. Madame, né? Sabe como é”. Na dúvida da necessidade de passagem de volta, o bloqueio virtual é demanda de salubridade.

 

 

Mas o barato é vibrar com show do Roger Waters, ignorar seu antissemitismo e vê-lo promovido no Brasil a Mick Jagger. E ainda se corre o risco de ser taxado de “direita” por essa gente sorridente em suas selfies, enquanto chora na cama quente e culpa os outros pela derrota política que fabricou. Ainda que menos exitosa, é a cópia em papel carbono do que há de mais abjeto no bolsonarismo, com que se é obrigado a deparar em comentários bloqueados no blog, tipo: “Comunista!” ou “Por que não vai para Cuba ou Venezuela com seu iPhone?”.

Bolsonaro não venceu com os votos de quem é nazista, fascista, racista, machista, misógino e homofóbico, bééé, bééé, bééé. Sua vitória foi dada por uma ampla maioria que, na incerteza de todos esses balidos de ordem, optou por arriscar. E escolheu não votar na sua certeza da corrupção do PT.

 

 

Quem não enxerga isso se nivela ao jênio que disse ter previsto a vitória do capitão. Mas dois meses depois votou em Haddad no primeiro turno, tirou Ciro Gomes do segundo e com ele a única possibilidade real da esquerda em eleger o presidente. Para esse tipo de Nostradamus, não há como “prever” nada diferente do que Lula mandar. E ele mandou muito mal!

Não se pode negar a importância de Lula ou do PT, que ainda elegeram a maior bancada na Câmara Federal. Mas, como no mito grego, só quando “matar” seu “pai”, uma nova esquerda poderá reassumir qualquer protagonismo nos destinos do Brasil. Que não pode ser lançado na aventura, como pregam os Boulos da vida, de forçar Bolsonaro a ser o “MAL” que justifique o “BEM” de quem não sabe perder.

Foi a arrogância do “nunca antes na história deste país” que nos conduziu à maior e mais ampla vitória eleitoral da direita, talvez de todos os tempos. Derrotados duas vezes no primeiro turno presidencial, Lula e o PT passaram os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso taxando-o de direita. E levaram os 13 anos seguintes, mais os dois do companheiro de chapa Michel Temer, empenhados em fabricar uma direita de verdade.

Como Dr. Frankenstein, conseguiram! E o “monstro” agora está solto. Reagir contra ele repetindo tudo que deu errado até aqui, é a melhor maneira de garantir que continue no poder após os próximos quatro anos.

Por ressentimento mesquinho aos protestos que levaram ao impeachment de Dilma, que nem Haddad agora chama mais de “golpe”, a esquerda deu a quem se revelaria seu maior adversário a bandeira do Brasil. E, com ela, entregou junto o país.

Para recuperá-lo, será preciso muito mais do que repintar vermelho de verde e amarelo.

Concluídos cinco meses de muito trabalho, impotência amargada diante do resultado, agora é descansar um pouco. O jornal continua sob comando de Diva e Christiano Abreu Barbosa, com a redação capitaneada pelo Arnaldo Neto e a Joseli Matias.

O blog fará uma pausa. E, na demanda de desintoxicação, as postagens nas redes sociais se tornarão raras, pessoais e restritas. Não que espere nada muito diferente quando voltar.

 

Classe de Luka Modric, craque da Copa da Rússia e melhor jogador do mundo em 2018

 

 

Depois destes últimos cinco meses, pra não dizer que não falei das flores, confesso: deu um prazer danado ver o croata Luka Modric jogar.

Inté!

 

 

0

Esquerda brasileira reiventa o masoquismo no fetiche pelo lulopetimo

 

Kate Winslet e Geofrey Rush no filme “Contos probidos do Marquês de Sade” (2000), de Philip Kaufman

 

2013/14: “Não vai ter Copa” — Teve Copa e 7 a 1

2015/16: “Não vai ter golpe” — Dilma sofreu impeachment

2016/17: “Fora Temer” — Eleito na chapa do PT, Temer ficou

2018: “Eleição sem Lula é fraude” — Lula lança Haddad a presidente

2018: “Lula Livre” — “Lula tá preso, babaca!” (Cid Gomes)

2018: “Ele Não!” — Bolsonaro eleito presidente

A esquerda brasileira dá significados ao masoquismo ignorados pelo Marquês de Sade. Ou se liberta do seu fetiche lulopetista, ou será consumida por ele.

 

0

Artigo depois da eleição — O testemunho e seus limites

 

Mesmo antes da apuração da votação, Bolsonaro estava confiante na sua vitória

 

 

Painel do artista plástico Eduardo Kobra, baseado na estátua “O Pensador” do francês Auguste Rodin

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Em artigo jornalístico se deve evitar sempre a primeira pessoa. Por isso, leitor, peço desculpas de antemão. E que você encare este texto como testemunho. Diante do resultado das eleições de ontem, repito o filósofo francês Emmanuel Mounier (1905/50): “quando não restar possibilidade nenhuma de sucesso, resta-nos testemunhar”.

Social-democrata, meu espectro político é de centro-esquerda. Votei em Ciro Gomes (PDT) no primeiro turno presidencial, mesmo que ele trouxesse propostas contrárias aos meus interesses de classe. Mas o fiz no sentido de sobrepor os interesses do país aos particulares. E na certeza pragmática de que era a melhor opção para derrotar Jair Bolsonaro (PSL) no segundo turno.

Quem tirou Ciro do segundo turno foi o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que manobrou deslealmente da cadeia em Curitiba para isolar nacionalmente o político cearense. Quem impediu que uma alternativa viável a Bolsonaro avançasse foi o eleitor que, por ressentimento e ausência de autocrítica, preferiu votar em Fernando Haddad no primeiro turno. Foi tão legítimo quanto previsível em suas consequências.

Por isso e pelo projeto de governo do PT, que previa o controle da imprensa, do Judiciário, do Ministério Público e dos Tribunais de Conta, não votei em Haddad no segundo turno. Nele, noves fora o discurso, a máxima concessão petista à democracia foi abdicar da sua proposta de uma nova Constituinte. Tampouco seria capaz de votar em Bolsonaro, por motivos muito além dos balidos de ordem — fascista, bééé; nazista, bééé; machista, bééé; misógino, bééé; homofóbico, bééé — que o elegeram.

 

 

Desde 1989, sempre tive orgulho em votar de quatro de quatro anos em quem achava mais apto a governar o Brasil. E para aqueles que hoje balem “mito, mito, mito, bééé, bééé, bééé” no pasto oposto, relativizando a existência da ditadura militar no país, relevante lembrar: aquela foi a primeira eleição presidencial não só para mim, aos 17 anos, como para minha mãe. Com os 46 que tenho hoje, foi a primeira vez em que ela, junto do filho adolescente, pôde votar a presidente. Só meu pai, à época com 53, tivera uma única oportunidade anterior de fazê-lo, em 1960. Ganha o capim que ofereceram aos nordestinos quem ignorar o que houve no intervalo.

Entre Bolsonaro e Haddad, a opção que minha consciência reservou foi votar nulo. O mesmo fizeram 7,44% dos eleitores que, somados aos 2,15% que votaram em branco, não chegariam aos 10,58 pontos de vantagem na vitória do capitão. Que respeito, credito a uma campanha eleitoral revolucionária no uso das mídias sociais e à qual me submeto como cidadão — enquanto nenhum outro tiver seus direitos constitucionais desrespeitados.

Tenho muitos amigos que votaram em Haddad. Alguns no primeiro turno, outros no segundo. Como também os tenho entre quem deu seu voto a Bolsonaro, independente do turno. Concordância política à parte, respeitei opções diferentes da minha.

Não, sua tia do WhatsApp não é fascista. Como sua sobrinha lacradora que vive com a cara enfiada no smartphone não é corrupta. É só aquilo que uns gregos malucos inventaram há uns 2,5 mil anos e chamaram de democracia. E, desde antes de Cristo, só existe com contraditório.

Se a eleição de Bolsonaro ontem, assim como a do ex-juiz Wilson Witzel (PSC) a governador do Rio, a despeito do meu voto pessoal em Eduardo Paes (DEM), não ensinarem a lição devida à esquerda brasileira, difícil crer que outra coisa o fará. O senador eleito pelo Ceará Cid Gomes (PDT) e o rapper Mano Brown bem que chegaram a alertar, mas já era tarde demais.

 

Haddad em seu discurso após a derrota nas urnas

 

Em seu pronunciamento após a confirmação do resultado, Haddad mostrou o quanto o aprendizado é difícil a quem se nega a aprender. Ele retomou o discurso que tinha abandonado no segundo turno, ao falar “em prisão injusta do presidente Lula”. Pelo menos, o derrotado foi emblemático ao se referir ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff como “afastamento”, não golpe. Se foi assunção tardia, ou ato falho, logo saberemos.

Ciente de que a derrota de Haddad era fato consumado, Ciro voltou da Europa, onde se auto-exilou após o primeiro turno, e divulgou na véspera do segundo um vídeo. Nele, orientou os eleitores “pela necessidade de votar com a democracia, votar contra a intolerância, votar pelo pluralismo, mas também ninguém está obrigado a votar contra convicções e ideologias”.

 

Após votar no 2º turno, Ciro se disse oposição a qualquer um que fosse eleito

 

Se não deu a adesão desejada por quem o sabotou, o cearense foi ainda mais duro ao votar ontem em Fortaleza: “Eu não quero é fazer campanha com o PT, nunca mais”. Deixou claro que está aberta a disputa para liderar a oposição ao governo federal eleito. E propôs sua maneira: “O Brasil precisa desesperadamente desarmar essa bomba da confrontação miúda que vem destruindo a economia brasileira”.

A Bolsonaro cabem os parabéns que Haddad não deu, por uma vitória incontestável nas urnas, mesmo a despeito de um passado com várias declarações contra a democracia. Que, no lugar delas, o presidente faça valer as que disse ontem em seu discurso de vitória: “vou guiar um governo que defenda e proteja os direitos do cidadão que cumpre seus deveres e respeita as leis; elas são para todos. Porque assim será o nosso governo; constitucional e democrático”.

Que assim seja. Caso contrário, caberá mais do que testemunhar.

 

Publicado hoje (29) na Folha da Manhã

 

0

Artigo do domingo — Eleições são relacionamentos

 

(Charge do Vasco Gargalo)

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Quem tem alguma experiência em relações amorosas deve saber. Até acontece, mas poucas vezes saímos de um relacionamento porque nos apaixonamos por outra pessoa. O motivo geralmente é porque não aguentamos mais conviver com quem um dia amamos, sendo a recíproca quase sempre verdadeira.

Tudo indica que Jair Bolsonaro (PSL) será eleito hoje presidente da República. Para os analistas políticos, a maior dúvida é saber qual será a margem dessa vitória. Na sexta, o instituto Paraná a projetou em 60,6% dos votos válidos, contra 39,4% de Fernando Haddad (PT). Ontem CNT/MDA (56,8% a 43,2%), Datafolha (55% a 45%) e Ibope (54% a 46%) diminuíram essa vantagem.

Com a maior bancada eleita na Câmara Federal, o PT briga para perder dentro de uma margem máxima de 10 pontos de diferença. Já o ex-capitão do Exército, que elegeu a segunda maior bancada federal em 7 de outubro, sonha hoje superar o recorde dos 61,27% dos votos válidos que Luiz Inácio Lula da Silva estabeleceu ao se eleger presidente a primeira vez em 2002.

Desde o primeiro turno, a disputa foi polarizada entre Bolsonaro e Lula, que ungiu Haddad como candidato. A única alternativa que se mostrou competitiva foi Ciro Gomes (PDT). Mas foi sabotado por Lula. Mesmo preso desde 7 de abril, ele mandou às favas o legado de Miguel Arraes (1916/2005), figura tão importante quanto o ex-metalúrgico na história da esquerda brasileira.

Sem nenhum constrangimento, a cabeça de Marília Arraes, neta de Miguel, foi entregue por Lula de bandeja ao PSB de Pernambuco. Deu certo para o grupo político do falecido Eduardo Campos (1965/2014), que reelegeu Paulo Câmara (PSB) a governador no primeiro turno. Se dará certo ao PT, as urnas hoje responderão.

Nessa barganha pouco ética, Lula recebeu como paga o isolamento nacional de Ciro, seu ex-ministro, que contava com o apoio do PSB. Como Anthony Garotinho (PRP), o líder petista não gosta de aliados com luz própria. Daí a escolha de Haddad, chamado de “poste” durante a campanha. Ainda que sua luz seja muitas vezes inflamável, Ciro era o candidato com melhores chances contra Bolsonaro.

Isolado o cearense, Lula demonstrou sua impressionante capacidade de transferência de votos a Haddad. Mas ainda mais impressionante é a rejeição adquirida por quem já foi o político mais popular do Brasil, desde o também ex-presidente Getúlio Vargas (1882/1954).

Foi esse antipetismo que Bolsonaro soube surfar melhor do que qualquer outro. E o tsunami se espraiou sobre as eleições a governador, senador e deputados em quase todas as unidades da Federação.

Para não ir muito longe, o presidente da Câmara Municipal de Campos, Marcão Gomes (PR), fez quase 41 mil votos a deputado federal. Mas não se elegeu por conta força do PSL. Só no Estado do Rio, o partido de Bolsonaro elegeu uma dúzia exata à Câmara Federal. E o 12º conquistou a vaga com apenas 31.788 votos.

Além do antipetismo, Bolsonaro fincou as pernas do seu tripé no anti-establishment e na reação conservadora aos avanços das minorias. Quem respondeu a isso chamando o candidato de fascista, machista, misógino e homofóbico pode até ter suas razões. Mas, ainda assim, é o principal responsável pelo que deve definir hoje o próximo presidente do Brasil.

Em matéria de análise sobre a eleição presidencial deste ano, publicada na Folha em 22 de outubro de 2017,  se buscou alertar (aqui): “Foi tratar Bolsonaro como bufão que o promoveu, de rival do deputado federal Jean Wyllys (Psol), para surgir hoje como sério opositor do político mais popular do Brasil”. Isso foi escrito há mais de um ano. Mas a esquerda brasileira grita mais do que ouve. Estão aí Cid Gomes e Mano Brown para sanarem quaisquer dúvidas.

No processo de desgaste que começou nas “Jornadas de Junho” de 2013, o eleitor médio brasileiro parece ter simplesmente olhado para o lulopetismo e decidiu pular fora da relação. Foi mais isso do que paixão pelo capitão.

Confirmada hoje a vitória de Bolsonaro, a lua de mel com seu eleitor só durará se houver resposta à enorme expectativa gerada, sobretudo no bolso. Como ensinou o estrategista Jim Carville ao ex-presidente dos EUA Bill Clinton: “É a economia, estúpido”.

Se ela não vier, o mesmo eleitor que hoje votará no “mito” talvez olhe para ele, lá entre agosto de 2019 e janeiro de 2020, como o sujeito que encontra ao acaso, depois de anos, alguém por quem já foi apaixonado. E indaga a si mesmo: “Que diabos eu vi nessa pessoa?”.

 

Publicado hoje (28) na Folha da Manhã

 

0

Por que votar em Jair Bolsonaro e Fernando Haddad a presidente?

 

Jair Bolsonaro (PSL) ou Fernando Haddad (PT)? O primeiro é franco favorito em todas as pesquisas. Mas são as urnas de hoje que decidirão quem será o presidente do Brasil. Em meio à polarização extremada que tem marcado essa campanha presidencial, a aposta no diálogo e no contraditório se faz presente no advogado Fernando Miller e no sociólogo José Luiz Vianna da Cruz. E, com eles, os motivos para se votar em Bolsonaro e Haddad.

 

Fernando Miller e José Luis Vianna da Cruz

 

Folha da Manhã – Por que votar no seu candidato para governar o Brasil nos próximos quatro anos?

Fernando Miller – Eu escolhi Jair Bolsonaro porque ele representa a esperança de mudança. O povo brasileiro não aguenta mais ver tanta corrupção e viver permanentemente em insegurança diante de uma violência que atingiu níveis alarmantes.

José Luis Vianna da Cruz – Porque o PT continua sendo o partido com mais chances de governo, dentre os que priorizam o desenvolvimento, que é o crescimento com distribuição de renda, ampliação dos direitos, liberdades, apoio aos movimentos sociais, às periferias, aos movimentos pela terra, pela valorização das identidades.

 

Folha – Por que não votar no adversário do seu candidato?

Fernando – Fernando Haddad não tem sequer expressão política própria. Não passa mesmo de um fantoche do Lula, que está preso pela prática de crimes que afrontam o povo brasileiro.

José Luis – Ele representa o oposto do que penso. É primário, rude, tosco, patético, além de violento, autoritário. Como disse FHC, ele não tem pensamento sobre nada que um presidente precisa ter. .

 

Folha – Independente do voto, todas as pesquisas apontam a vitória de Jair Bolsonaro (PSL) com larga vantagem? Racionalmente, dá para esperar algo diferente?

Fernando – As pesquisas revelam ampla vantagem para Bolonaro e isso deve ser confirmado nas urnas porque reflete a vontade da população que não quer mais o PT no poder.

José Luis – Como os institutos de pesquisa erraram no primeiro turno, ao não captar a movimentação virtual em todas as suas consequências, tecnicamente, é possível se esperar surpresas. O que está, por exemplo, acontecendo nas redes virtuais, neste exato momento em que escrevo e no momento em que isto é lido pelas pessoas? A ver.

 

Folha – Eduardo Bolsonaro falou em fechar o STF. Petistas como Wadih Damous já tinham pregado o mesmo. O Supremo e a democracia estão sob risco?

Fernando – Penso que está sendo dada uma exagerada dimensão a esse discurso do Eduardo Bolsonaro. A frase “para fechar o STF basta um soldado é um cabo” foi interpretada de forma isolada, fora do contexto global do discurso. Na verdade, essa frase nem sequer é de autoria do filho de Bolsonaro, pois ao que parece, foi dita há anos atrás por Jânio Quadros, num momento de arroubo insano, sem maiores consequências. O Supremo, bem como as instituições de modo geral, não correm risco algum no país.

José Luis – Ambos o disseram em contextos e em concepções diferentes. O Eduardo, no contexto de sempre, no qual afirma e reafirma que vai prender, arrebentar e exilar quem discordar dele. Seu viés ditatorial orienta suas posições. Não há como questionara a natureza democrática republicana do Damous, que o mencionou em contexto de atuação supostamente inconstitucional da Corte máxima.

 

Folha – Pela radicalidade, culto ao líder e dogmatismo acrítico, o lulopetismo e o bolsonarismo são muitas vezes comparados. Até onde seriam mais seitas do que movimentos políticos?

Fernando – O PSL, sob a liderança de Bolsonaro, está em crescimento, como se viu nas eleições do primeiro turno. Já o PT, sim, pode ser definido como uma seita, pois não visa o bem do país. Basta dizer que sob o manto do PT nasceu no Brasil esse movimento criminoso chamado de MST, que não respeita a propriedade privada e que invade terras agrícolas.

José Luis – É um absurdo comparar um líder carismático radicalmente democrático, pacífico, republicano e liberal, como Lula o demonstrou, na prática, em 8 anos de governo, com um líder carismático de corte fascista, antidemocrático, violento, que ataca as leis, as instituições, a paz e os direitos humanos, sociais e civis, que ecoa o que o ser humano tem de mais bárbaro na sua alma.

 

Folha – Independente de quem vencer, como coexistir com os vencidos? Essa incapacidade de conviver com o contraditório não é incompatível com a democracia? Como restabelecer o diálogo?

Fernando – Esse  radicalismo realmente criou uma divisão no país, mas não acho que a palavra correta para resumir essa divergência seja ódio. E penso que o tempo vai se incumbir de amenizar essa situação, pois é importante existir o contraditório.

José Luis – Sinto como se estivéssemos diante de um destino que adiamos por séculos: o do encontro do brasileiro consigo mesmo, da forma e do tamanho que somos. Choca, no início, mas é o princípio de uma caminhada altamente civilizatória. Se compreendermos dessa maneira, podemos superar nossos desafios históricos como nação de vocação pacífica e generosa.

 

Primeira dobra da página 2 da edição de hoje (28) da Folha

 

Publicado hoje (28) na Folha da Manhã

 

0

Por que votar em Wilson Witzel e Eduardo Paes a governador do Rio?

 

Wilzon Witzel (PSC) ou Eduardo Paes (DEM)? O ex-juiz saiu com mais de 20 pontos percentuais de vantagem no primeiro turno, mas o ex-prefeito do Rio conseguiu se aproximar nas intenções de voto, segundo as pesquisas Datafolha e Ibope divulgadas ontem. Numa eleição bem disputada, um dos dois candidatos será eleito hoje governador do Rio. O advogado Paulo André Arêas e o sociólogo George Gomes Coutinho falaram sobre suas escolhas.

 

Paulo André Arêas e George Gomes Coutinho

 

Folha da Manhã – Por que votar no seu candidato para governar o Estado do Rio?

Paulo André Arêas – Acredito que o candidato Wilson Witzel, além de se apresentar como algo de novo na realidade política do nosso Estado, embora adote uma vertente mais conservadora, representa a esperança, em que se baseia boa parte da população, de que haja uma mudança de rumos na administração estadual.

George Gomes Coutinho – Eduardo Paes detém experiência política inegável como prefeito do Rio de Janeiro, uma capital complexa para dizer o mínimo. No legislativo ocupou duas vezes a posição de deputado federal. Se estiver disposto a gastar saliva e sola de sapato pode deixar o Estado em melhor condição do que encontrará. Será um plano de trabalho longo, talvez de todo o mandato.

 

Folha – Por que não votar no adversário do seu candidato?

Paulo – Acredito que existem razões básicas para isso. O candidato Eduardo Paes é sujeito que figura há bastante tempo no cenário político do Rio de Janeiro. A população, sobretudo a do nosso Estado, vem impulsionando-se numa atual onda de renovação, o que se justifica não somente pelos mais graves recentes escândalos da história brasileira ocorridos em todos os níveis de Poder, mas, principalmente, pela convicção de que os rumos da nossa sociedade precisam ser modificados.

George – Wilson Witzel definitivamente não demonstra em sua trajetória profissional a expertise que viabilizaria o enfrentamento dos não poucos obstáculos e desafios que neste momento o estado do Rio de Janeiro enfrenta. Para além disso, suas propostas no âmbito da segurança pública causam arrepios e franca preocupação a todo e qualquer cidadão que tenha sido minimamente versado nos princípios que devem reger o Estado Democrático de Direito.

 

Folha – Independente do voto, as pesquisas apontam a vitória de Wilson Witzel (PSC). Dá para esperar algo diferente?

Paulo – Sim, é possível que algo de diferente ocorra por diversas razões. Primeiramente, a falibilidade das pesquisas de voto é algo que tem se mostrado bastante evidente, seja pela deficiência de métodos de pesquisa adotados e de sua implementação prática, seja por eventual intuito das entidades encarregadas das pesquisas de manipular perante a própria população as suas reais intenções de votos. Exemplo disso foi o resultado do próprio primeiro turno das eleições para governador do nosso Estado, em que, embora desacreditado pelas pesquisas, o candidato Wilson Witzel foi o mais votado de todos.

George – Decerto pesquisas oferecem uma fotografia cada vez mais precisa das preferências do eleitorado em um dado momento. Contudo, as eleições de fato podem gerar surpresas que neguem as previsões das pesquisas. Jogo é jogo. Não tem sido infreqüente no segundo turno um voto mais circunstanciado por parte do eleitor derivando em reversão de preferências.

 

Folha – Após sair bem atrás no primeiro turno, segundo o Ibope Eduardo Paes (DEM) conseguiu virar o jogo na capital. Espera uma disputa mais acirrada do que parecia inicialmente?

Paulo – Espero, sim! Embora as pesquisas, conforme apontado acima, tenham se demonstrado bastante vacilantes quanto ao percentual de votos a serem dados a cada candidato, a polarização decorrente da existência de somente dois candidatos no segundo turno das eleições permite que haja migração de eleitores que, num primeiro momento, teriam outros candidatos como escolhidos.

George – Muito provavelmente sim, justamente pelas características deste segundo turno no Estado do Rio. Afinal, há um outsider que faz parte de um movimento de “mudança a todo custo”, tal como em Minas. De outro lado, enquanto adversários, tanto em Minas quanto no Rio, há políticos com experiência, currículo e “algo a mostrar” dentre suas realizações.

 

Folha – Um fator que pode determinar o pleito a governador é o voto evangélico, que já elegeu Marcelo Crivella (PRB) prefeito carioca e agora está majoritariamente com Witzel. A cidade do Rio é considerada, no Brasil e no mundo, um lugar de liberdade no pensamento e nos costumes. O avanço evangélico está mudando isso?

Paulo – Essa pergunta é contraditória! Num mundo democrático, em que a pluralidade de ideias é, por si, um dos valores de maior importância, é contraditório afirmar que o avanço evangélico possa vilipendiar a liberdade de pensamento, pois é a própria liberdade de pensamento que garante aos evangélicos o direito de manifestarem, por entre outros meios, sua vontade através do voto!

George – Precisamos ter parcimônia neste debate. O voto conservador evangélico de hoje, o voto conservador católico de outrora, o moralismo periódico ecumênico nacional, não produziu mudanças estruturais na cultura e nos costumes. Os conservadores são derrotados por sua própria natureza que nega ou tenta frear artificialmente as mudanças sociais que são francamente inevitáveis.

 

Segunda dobra da página 2 da edição de hoje (28) da Folha

 

Publicado hoje (28) na Folha da Manhã

 

0

Hamilton Garcia — Os perigos que se avizinham e o antídoto

 

 

Fala-se muito na campanha em fascismo e bolivarianismo, mas se o segundo expressa um objetivo explícito da política petista (vide “#EleNão! ou #ElesNão!”) — não obstante sua eludição tática por Haddad neste segundo turno —, o primeiro diz algo de potencial sobre o candidato mais bem cotado ou como ele pode vir a se tornar realidade a depender da marcha dos acontecimentos, se vitorioso for.

Olhando-se para a frente de direita que se formou em torno de Bolsonaro no rastro da crise do impeachment, vê-se um amálgama de convicções conservadoras cristãs e liberistas associadas ao antipetismo, ao par de um desenvolvimentismo lastreado no positivismo, ideologia basilar do Exército Brasileiro. Em condições normais de temperatura e pressão, não obstante o currículo e a vontade do Capitão, o novo governo teria, para ter sucesso, que se desenrolar dentro da normalidade democrática, e, para tal, contaria com grande respaldo social, popular e empresarial, e perspectiva de governabilidade no Congresso, não obstante a sombra neopatrimonialista da bancada do Centrão.

Ocorre, porém, que a falência do sistema político e a crise estrutural do modelo liberal-rentista de democratização, a par da elevada temperatura política bafejada pelo PT como tática de sobrevivência ao Petrolão, conspiram contra essa normalidade, junto com a falta de concatenação programática da frente bolsonarista e a perspectiva bolivariana da “resistência ao fascismo” — ambas podendo suscitar movimentos violentos na sociedade.

Para tornar mais sombrio o quadro, enquanto na fase lulopetista foi possível “distribuir” os ganhos econômicos com a exuberância comercial do protagonismo chinês e da bolha ocidental — desperdiçando as chances de um “salto à frente”, em termos produtivos, com uma inclusão social pelo trabalho/aprendizado —, na fase bolsonarista o Brasil estará obrigado a enfrentar seus velhos e novos problemas e dificuldades, o que exigirá sacrifícios até aqui não admitidos pelos grupos dominantes — inclusive os aninhados nas altas esferas do Estado e nas corporações financeiras.

É certo, por outro lado, que algo se pode fazer na frente econômica com resultados positivos no curto-prazo para o governo — dois anos talvez —, seja simplificando os procedimentos normativos arrecadatórios, abrindo novas possibilidades de comércio com os países ricos, sustentando um câmbio de maiores possibilidades comerciais para a indústria e mesmo surfar na esperada onda da retomada econômica adiada pelo naufrágio precoce do Governo Temer. Ocorre que tal agenda, sem tocar nos problemas estruturais de longo-prazo da economia, pode propiciar apenas um fôlego, um novo vôo de galinha dentre tantos já vistos desde a recessão dos anos 1980.

No médio e longo-prazos, os gargalos estruturais tenderão a amplificar as fraturas existentes no seio da coalizão de direita, que, uma vez no governo, se transformará numa coalizão mais ampla, incluindo o liberalismo pragmático e mesmo o neopatrimonialismo, derrotado em sua dúplice aliança com o PSDB e o PT. Neste caso em especial, as perdas vitais dos segmentos neopatrimoniais, impostas pelos fatos, tenderá a afastá-los do governo na perspectiva de voltarem ao poder numa aliança com o lulopetismo que, para ser viável, teria que ser precedida de uma nova maquiagem moderadora dos “companheiros”.

Bolsonaro se mantém à proa da disputa flertando com uma ruptura com o sistema — como ficou claro em seu último pronunciamento às manifestações verde-amarelo —, mas parece fadado, por suas alianças liberais e a correlação de forças no interior do aparato militar, a, por enquanto, inaugurar apenas uma ruptura com o mecanismo (neopatrimonial) — o que não é pouco, nem fácil! –, o que significaria, de fato, uma troca na direção do bloco histórico em crise, responsável pela transição democrática desde 1985, e cuja hegemonia é detida pelo capital financeiro, que conheceu, até aqui, dois formatos: o liberal-patrimonialista de Sarney&Collor e o social-patrimonialista de LILS, com um híbrido em Itamar&FHC.

A nova direção liberal-conservadora sobre o velho pacto democrático teria como objetivo pôr ordem no modelo, revertendo a bagunça deixada por Mantega&cia e, de quebra, despejando as oligarquias neopatrimoniais do poder, abrindo assim espaços para maior racionalização do Estado e ajudando a reverter as expectativas negativas sobre o país, recompondo o ambiente propício ao crescimento e à retomada do emprego.

Operar tal mudança, necessária mas não suficiente para nos recolocar na rota do desenvolvimento, além do custo político elevado, pode não surtir os efeitos esperados pela população, o que a levaria ao desencanto e consequente fortalecimento da oposição, o que poderia animar os bolsonaristas, apoiados no setor desenvolvimentista de sua coalizão, a uma tournant no sentido de um novo bloco histórico, o que exigiria um programa econômico voltado para a produção e não simplesmente para o consumo, deslocando o sistema financeiro global de seu papel atual de fiador principal de nossa estabilidade macroeconômica e política.

A hipotética viragem, a depender do contexto político em que ocorra e do álibi que o lulopetismo poderá lhe fornecer, no curto-prazo, provocaria forte inquietação nos mercados e, por consequência, abalaria a frente governativa de centro-direita, podendo levar, inclusive, à suspensão das garantias constitucionais (estado de sítio) ou até mesmo a medidas mais graves no caso da ausência de consenso no Estado de como lidar com a crise.

Paradoxalmente, a previsível resistência petista ao “fascismo” pode render bons frutos à nova política, quer em termos do isolamento das oposições na sociedade, quer do alinhamento defensivo do Estado contra a ameaça de caos que ela pode encerrar, abrindo espaços para uma uma reforma política conservadora, inclusive com mudanças constitucionais para restringir o pluralismo político e aumentar a estabilidade governamental (voto distrital puro).

No caso de não se conseguir produzir tal consenso no âmbito do Estado, o prolongamento do cenário caótico, em meio a conflitos de rua entre esquerda e direita, pode assistir ao aparecimento de milícias paramilitares em ambos os extremos, abrindo espaços para a emergência de um inédito movimento fascista no país — cujos braços armados, diga-se de passagem, já se encontram virtualmente constituídos, embora ainda não plenamente politizados.

Neste cenário sombrio (hipotético), tal como na eleição em curso, nos fará falta uma terceira via capaz de suplantar o petismo e impedir, de novo, a vitória da extrema-direita. O problema aqui é que a desorientação da centro-esquerda é ainda mais forte que as perdas parlamentares sofridas pelo PSDB, PPS e Rede, ao fim do primeiro turno das eleições, o que compromete seu protagonismo na oposição – qualquer que seja o resultado do segundo turno.

O antídoto ao perigo que se insinua está numa frente política capaz de enfrentar o virtual desafio do novo bloco histórico autoritário, de extrema-direita, colocando, à semelhança deste, o foco da inclusão na retomada da produção industrial como resposta ao esgotamento da fórmula financista, baseada em consumo e endividamento das famílias, ao mesmo tempo que procura restaurar a governabilidade e preservar a democracia por meio de uma reforma política que racionalize o sistema partidário (representação) por meio de um modelo eleitoral misto, com listas pré-ordenadas, e medidas punitivas efetivas aos partidos cujos representantes se envolvam em crimes tipificados contra o bem público.

Seja como for, é chegada a hora de se enfrentar a crise política e econômica que o oportunismo político e a incompetência intelectual,varreram, desde 1988, para debaixo do tapete.

Não está escrito nas estrelas que o bolsonarismo derivará em fascismo – isto não faz parte da nossa tradição republicana e para tal existem freios conhecidos, embora não infalíveis –, mas é certo que entre as variáveis propícias para tal está a natureza da oposição que se fará ao (provável) novo governo, e, nela, Ciro Gomes se constitui numa esperança de solução democrática. Torçamos para que ele se coloque à altura da tarefa, nesta fase delicada de nossa vida republicana.

 

0

Ao considerar Bolsonaro sinônimo de fascismo, Justiça Eleitoral o pratica

 

 

Justica Eleitoral associou Bolsonaro ao fascismo pata determinar retirada da faixa da UFF (Foto: Reprodução)

 

 

TSE mira Justiça Eleitoral

Em seu noticiário, mais que qualquer outro veículo, a Folha acompanhou de perto as operações “Chequinho” e “Caixa d’Água”. Versavam sobre ilícitos eleitorais distintos que geraram as três prisões do ex-governador Anthony Garotinho (PRP). Em seu espaço de opinião nesta coluna, o jornal apoiou essas operações. E sempre as entendeu como novidade saneadora e necessária à política regional, com inspiração na Lava Jato. Isto deve ser lembrado antes de se afirmar: a massiva ação da Justiça Eleitoral sobre as universidades públicas do país, merece ser investigada pelo TSE, como prometeu ontem sua presidente, ministra Rosa Weber.

 

Começou em Campos

Entre os dias 23 e 25 de outubro, as ações da fiscalização ocorreram sobre 13 instituições de ensino público superior nos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Na verdade, o recrudescimento da Justiça Eleitoral sobre as universidades públicas começou aqui mesmo, em Campos, na UFF do município, em 13 de setembro. Naquela oportunidade, foi realmente encontrado material de campanha vedado pela lei em espaço público, o que confirmou o objeto da operação. Mas o mesmo não se deu em ações subsequentes, duas no IFF e uma na Uenf.

 

Da UFF à UFF

O caso mais absurdo foi também na UFF, mas na sua cidade sede de Niterói. Na última quinta (25), por decisão da juíza Maria Aparecida da Costa Bastos, da 199ª Zona Eleitoral (Niterói), uma faixa onde estava escrito “Direito UFF Antifascita” foi retirada da fachada da Faculdade de Direito da universidade. O motivo? Segundo a magistrada, seria propaganda negativa contra o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL). Para fazer valer sua decisão, ela ameaçou o diretor da instituição de ensino, Wilson Madeira Filho, de responder pelo crime de desobediência.

 

Fascismo, doutores?

Como não havia menção na faixa a Bolsonaro, ao seu número ou partido, a juíza simplesmente concluiu que “fascista” é sinônimo de Bolsonaro. Difícil saber se mesmo o ex-ditador italiano Benito Mussolini teve tal pretensão. Fulanização à parte, pode se discutir o que é fascismo, não que é obrigação do estado democrático de direito se opor a ele. Obrigação reforçada para alunos de Direito — como a juíza foi e talvez devesse voltar a ser. Poderia aprender o que lecionou ontem Rosa Weber: “a vedação dirige-se à propaganda eleitoral, e não alcança, por certo, a liberdade de manifestação e de expressão, preceitos tão caros à democracia”.

 

Inspirações em Moro

Juiz icônico da Lava Jato, cujos méritos no combate à corrupção são inegáveis, Sérgio Moro tem cometido equívocos graves. E parece os estar inspirando aos seus pares. Em 1º de outubro, a seis dias do primeiro turno, Moro levantou o sigilo de uma delação do ex-ministro Antonio Palocci. Feita em abril, recusada pelo Ministério Público e desconsiderada pelo próprio magistrado no julgamento da ação penal, a delação foi divulgada com claro objetivo político de prejudicar o PT nas urnas. Independente da simpatia que se tenha (ou não) pelos líderes petistas, o que a Justiça faz com eles, pode fazer com qualquer outro cidadão.

 

Sem imunidade

Ciosa da liberdade de expressão, a Folha publicou em 27 de setembro artigo do promotor eleitoral Marcelo Lessa, sobre a primeira ação da fiscalização eleitoral na UFF-Campos. Nele, alertou: “a Constituição assegurou às universidades a autonomia (…). Porém, isto não assegura aos membros da comunidade universitária imunidade”. Ontem, após as novas ações da Justiça Eleitoral no país, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, fez outro alerta: “houve e há indícios claros de que houve ofensa à liberdade de expressão (…) no ambiente universitário”. Ninguém tem imunidade diante da lei. Nem quem abusa do poder ao aplicá-la.

 

Disputa real do PT

Enquanto é considerado sinônimo de fascismo por uma decisão judicial autoritária, Bolsonaro chega hoje, a um dia da urna, como franco favorito à corrida presidencial. Ontem, o instituto Paraná, que registrou antes de todos a disparada do capitão na reta final do primeiro turno, soltou nova pesquisa: ele tem 60,6% das intenções de votos válidos, contra 39,4% de Fernando Haddad (PT). São índices diferentes da Datafolha do dia anterior (25), que hoje divulga novas consultas a presidente e governador do Rio, assim como o Ibope. Independente dos números, tudo indica que Bolsonaro está eleito. A disputa real do PT parece ser por quanto irá perder.

 

Publicado hoje (27) na Folha da Manhã

 

0

Declaração de voto a presidente e governador

 

A dois dias da eleição, penso ser a hora de declarar meus votos neste domingo (28).

A presidente, farei opção inédita desde minha primeira eleição, em 1989: anularei o voto. Quem alegar que com isso delegarei minha decisão a outro: concordo! Mas, qualquer que seja, não será a minha decisão. Estou com o velho Otto Von Bismarck: “política é a arte do possível”. Mas não vejo possibilidade de votar em Jair Bolsonaro (PSL) ou Fernando Haddad (PT).

Não sou capaz de dar a anuência do meu voto ao defensor de um torturador condenado, capaz de negar a existência da ditadura militar, preconceituoso com as minorias, contrário à equidade salarial entre os gêneros, estatista convertido em liberal para fins eleitoreiros, que ameaça publicamente seus opositores políticos com exílio ou cadeia, pregador de “Deus acima de todos” e da resolução dos problemas laicos do país à bala.

Tampouco darei meu voto a um gestor público rejeitado no primeiro turno em sua tentativa de reeleição, que não é dono dos próprios votos e tem que buscá-los na porta da cadeia, por um partido que enfiou o Brasil na pior recessão econômica da sua história, cercado de protagonistas do maior escândalo de corrupção da Terra, que tem como projeto de governo o controle da imprensa, da Justiça, do Ministério Público e dos Tribunais de Contas.

Se o eleito me supreender e fizer um governo com respeito à Constituição e à democracia, que promova as reformas necessárias ao país, apoie o combate à corrupção e apresente alguma melhora nas situações calamitosas da economia e da segurança pública, me submeterei à realidade. Não tenho compromisso com o erro, só com minha consciência.

 

 

A governador, votarei em Eduardo Paes (DEM). Ele não foi minha opção no primeiro turno, como também não foi Wilson Witzel (PSC). Mas entre o que já sabia do ex-prefeito do Rio, fico com sua experiência como administrador. À parte qualquer crítica, quem frequenta a capital do Estado pode perceber claramente as melhorias físicas na cidade após a sua administração.

Pesa contra Paes sua ligação íntima com o ex-governador Sérgio Cabral (MDB), que agora alega ter sido meramente institucional. Além da delação do seu ex-secretário de Obras Alexandre Pinto sobre recebimento de propina. Em contrapartida, Witzel celebrou a destruição da placa da ex-vereadora assassinada Marielle Franco (Psol), ensinou como juiz aos colegas de toga a acumular gratificação e tem ligações no mínimo suspeitas com o advogado Luiz Carlos Cavalcanti Azenha, preso ao tentar dar fuga ao traficante Nem da Rocinha.

Se Paes tem (ou teve) o apoio de Cabral, Witzel tem o dos líderes evangélicos, incluindo o atual prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB). Nada contra os evangélicos, cuja leitura teológica respeito, assim como sua valorização sociológica ao êxito profissional e econômico do indivíduo. Mas considero luciferina a promiscuidade entre política e religião, que trata eleitor como gado.

Apoio por apoio, Cabral está preso. Livre, Crivella faz péssimo governo na capital. Eleger Paes, embora difícil pela grande vantagem de Witzel, seria saudável ao equilíbrio político do Estado.

 

0