Contra a Costa Rica, antes de dar a Neymar um merecido cartão amarelo por socar a bola, o juiz holandês Bjorn Kuipers não usou palavras para dizer ao craque brasileiro o que ele precisa aprender: “fala demais” (Reprodução)
Na última sexta (22), me despedi momentâneamente (aqui) dizendo que voltava hoje ao blog. Ontem, após a conquista da vaga às oitavas pela Argentina, não resisti e postei aqui sobre a épica vitória do time de Lionel Messi por 2 a 1 sobre a Nigéria. Hoje, pouco menos de cinco horas antes do Sérvia x Brasil, as estatísticas da Fifa apontam 63% chances de vitória para o time de Tite, com 23% de empate e apenas 14% para os sérvios.
Estatíticas à parte, a verdade é que ninguém esperava que a Seleção Brasileira fosse antecipar em um jogo sua fase eliminatória na Copa da Rússia. Se perder hoje, no último jogo do Grupo E, e a Suíça conseguir pelo menos um empate contra a fraca Costa Rica, o Brasil volta para casa. Desde a Copa de 1974, na Alemanha, a atuação brasileira na primeira fase de um Mundial não gerava tanta apreensão.
De volta às projeções sobre o jogo decisivo de daqui a pouco, a verdade é a seguinte: se Neymar decidir jogar futebol, no lugar (aqui) de xingar adversários e companheiros de time, reclamar da arbitragem, insistir em jogadas individuais distantes da área, valorizar faltas, simular pênaltis e chorar sem lágrimas, aumentam bastante as chances do Brasil garantir sua vaga às oitavas. Caso contrário, pode ser outro sufoco.
Abaixo as estatísticas da Fifa sobre o Sérvia x Brasil:
Nos anos 50, o telefone tilintou e Mário Manhães de Andrade, então gerente de A Notícia, atendeu. Era um comerciante sírio, contando uma “tragédia” em casa.
Sumira uma cadelinha e os filhos estavam inconsoláveis. Mário disse que não recebia anúncios pelo telefone. Mas o sujeito o venceu no cansaço. Os sinais da cadelinha foram passados e o preço, de três cruzeiros, por vez, combinado. O comerciante mandou colocar sete vezes, ao preço final de vinte cruzeiros.
O anúncio saiu um dia só e o telefone novamente tilintou. Por coincidência, o próprio Mário Manhães atendeu. O homem estava eufórico e desmanchou-se em elogios ao jornal, dizendo que logo apareceu uma pessoa com um exemplar de A Notícia e a cadelinha.
Em meio aos elogios, o sírio disse que mandaria pagar os três cruzeiros.
— Calma aí! Não são três cruzeiros. São vinte.
— Mas o anúncio só saiu uma vez!
— Mas o combinado foi para sair sete vezes!
Discute daqui, discute dali, até que Mário deu a solução:
— Se o senhor não está satisfeito, solte a cachorrinha e deixe o anúncio sair mais seis vezes.
Do outro lado do fio, o homem ficou em silêncio por uns 15 segundos. Depois explodiu uma gargalhada, vencido. E mandou pagar os 20 cruzeiros.
Rojo comemora o gol da vitória argentina com o “Pulga” agarrado em suas costas (Foto: Gabriel Bouys – AFP)
Como um tango, foi dramático. Mas a vaga argentina às oitavas de final foi conquistada no gol do zagueiro Marcos Rojo, com estilo de atacante, aos 43 do segundo tempo. O placar final repetiu o do primeiro confronto entre Argentina e Nigéria em Copas do Mundo. Em 1994, los hermanos também bateram os africanos por 2 a 1.
Antes do jogo de hoje, o camisa 10 da Nigéria, Obi Mikel, falou sobre seu oposto: “um grande jogador não joga mal três jogos seguidos. E, para mim, Messi é o maior jogador de futebol que já existiu”. Fazia referência às atuações apagadas do 10 argentino no empate de 1 a 1 com a Islândia e na derrota por 3 a 0 contra a Croácia.
Ao entrar em campo com a escalação que os jogadores impuseram ao técnico Jorge Sampaoli, a Argentina impôs seu toque de bola no primeiro tempo. Um dos principais motivos foi a boa atuação do meia Éver Banega. Foi ele que, aos 14 minutos, achou seu camisa 10 em penetração pela direita, num passe de 35 metros. Na corrida entre dois zagueiros nigerianos, Messi matou na coxa esquerda, deu mais um toque com o bico da mesma perna e bateu cruzado de direita.
Diego Maradona, que assistia ao jogo e dava seu show à parte nas tribunas, assinaria a obra. Mas só se, em seu tempo de gênio dos campos, ele tivesse uma perna direita como a do também canhoto Messi. Na dúvida, após o gol, os grandes craques argentinos do passado e do presente demonstraram certeza ao agradecer pela fonte da inspiração, levantando suas mãos e faces em direção ao céu.
Maradona agradece aos céus pelo gol de Messi (Foto: Olga Maltseva – AFP)
Como o gênio do passado, o do presente agradece à fonte de inspiração do seu gol (Foto: Olga Maltseva – AFP)
No primeiro tempo, Messi ainda colocaria Gonzalo Higuaín na cara do gol, além de bater uma falta com muita categoria. Mas Higauín perdeu a chance e a cobrança de falta, caprichosamente, bateu na trave.
Antes dos times voltarem à segunda etapa, o sempre reservado Messi surpreendeu ao assumir a condição de capitão e puxar sua equipe com palavras de incentivo. Mas logo aos seis minutos, o juiz turco Cüneyt Çakir inventou um pênalti do volante Javier Masquerano. Sem ter nada a ver com isso, o meia africano Victor Moses deslocou o goleiro Franco Armani na cobrança, para empatar.
Victor Moses fez pirueta para comemorar seu gol, em pênalti batido com categoria (Foto: Giuseppe Cacace – AFP)
Após o gol nigeriano, os argentinos sentiram o golpe e cairam muito de rendimento. Passaram a buscar a vitória menos na qualidade técnica ou organização tática, do que na raça personificada pelo rosto ensanguentado de Masquerano.
Com zagueiro virando atacante, Rojo daria à sua apaixonada torcida a vitória e a permanência na Copa da Rússia. Emblematicamente, ao comemorar seu gol, ele levou Messi, apelidado de “Pulga”, agarrado nas costas.
A Argentina agora encara a forte seleção da França nas oitavas, às 11h do próximo sábado (30). Menos pelo que apresentaram hoje, no vexatório 0 a 0 com a Dinamarca, do que pelo potencial técnico dos seus jovens jogadores, os franceses são os favoritos. Mas terão pela frente quem hoje mostrou estar disposto a provar que ainda é o melhor jogador de futebol da Terra.
Após perder o pênalti contra o Irã, colocando Portugal em rota de colisão com o contagiante Uruguai de Luisito Suárez, Cristiano Ronaldo pode colocar de molho a sua barbicha de goat (aqui e aqui) — abreviação de “greatest of all time”: melhor de todos os tempos. Se assistiu ao jogo de hoje, o atacante português pode ter sentido o “Pulga” morder atrás da sua orelha.
Engana-se quem crê que a eleição de 2018 é um fim em si mesma. Ao menos para nós, habitantes da planície goitacá, tal disputa é mais meio que fim. Postulantes de pouca ou nenhuma expressão política se lançam ao pleito a fim de conseguir algum espaço que os favoreça na disputa das eleições para vereador em 2020, ou com fins menos republicanos e mais reprováveis. Mas, em que pesem os duvidosos resultados de tal estratégia, não merecem análise mais detalhada.
Entretanto, há outros que, sendo da “base aliada”, fazem dessa disputa que se avizinha uma queda de braços com o prefeito, que a utilizam para cobrar a Rafael mais apoio e espaço no governo. Os menos habilidosos esticam tanto a corda que acabam por romper a relação com o alcaide. Outros, mais matreiros, crescem na disputa e fazem com que os membros mais íntimos do núcleo duro do governo torçam seus narizes, antevendo o crescimento não de um aliado, mas, tomando a liberdade de parafrasear Fernando Pessoa, um adversário adiado.
Há ainda os adversários históricos, uma guerra familiar que nos faz lembrar os velhos coronéis das histórias de cordel. Famílias que se revezam há décadas no poder, seja através de seus próprios membros, seja através de prepostos que variam de aliados a inimigos ao sabor dos ventos.
A próxima eleição opõe esses antagonistas históricos, de um lado os Garotinho representados por Wladimir que, confirmada a pré-candidatura, estreará nas urnas em outubro. No outro córner, Marcão, preposto da família Barbosa, herdeiros de Zezé que foi outrora alijado do poder pelo patriarca da família Garotinho.
O resultado dessa possível peleja serve de medida de força para a eleição a prefeito em 2020. Será um jogo duro, os Garotinho lutam para sobreviver após as últimas derrotas e as denúncias a que respondem na Justiça. O grupo de Rafael, herdeiro do espólio dos Barbosa, busca se consolidar e ainda há os ventos que dizem ter o vereador Marcão suas próprias aspirações quanto à Prefeitura.
Além de toda a movimentação, acima superficialmente levantada, ainda há outros pré-candidatos correndo por fora. E alguns postos fora do páreo por atitudes estúpidas. A disputa em torno da presidência da Câmara de Vereadores e o vendaval de suposições acerca das intenções de possíveis candidatos a prefeito em 2020, surgindo de vários seguimentos de nossa sociedade, são o prenúncio de fortes emoções no xadrez político campista.
O rei está em xeque. Resta saber quem anunciará: xeque mate!
A terceira onda extremista (1963-64), que levaria a esquerda e os movimentos sociais, mais uma vez — vide artigo anterior —, aos calabouços, não seria, infelizmente, a última. A culpa pelo mau cálculo e o subsequente desastre político, como de costume na esquerda brasileira — para a qual autocrítica não passa de uma modalidade laica de expiação de culpa —, não recairia sobre seus idealizadores/implementadores, mas sobre seus inimigos (o “imperialismo latifundista”) e a parcela mais experimentada da esquerda radical que, refletindo sobre a tortuosa trajetória, tateava uma alternativa, ainda que enredada em seus mitos e utopias.
Foi assim que o PCB assistiu, impotente, a debandada de sua juventude em direção à luta armada foquista, de inspiração cubana, a partir de 1967 — até ser esmagada pela repressão militar-policial em 1974. Enquanto brizolistas, castristas e maoístas buscavam o caminho das armas, supondo estar o povo à sua espera, o PCB enveredou pela resistência pacífica dando apoio à Frente Ampla que, em 1966, uniu, no exílio, João Goulart, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, e, posteriormente, animando a oposição criada pela reforma partidária de 1965 (Ato Complementar 4), que instituíra o bipartidarismo (Arena x MDB).
O caminho democrático de resistência à ditadura se mostrou estrategicamente sólido e, embora enfrentando o ceticismo inicial da juventude e dos intelectuais, acabou por nos conduzir a uma transição pactuada em 1984 (Nova República}, que uniu a oposição — excetuando o PT — e os dissidentes do regime (PFL). Apesar do sucesso da transição democrática, os louros da vitória foram colhidos pelos remanescentes do caminho revolucionário: como explicar o paradoxo?
Uma das principais causas para tal, foi a relativa paralisia que tomou conta do partido após a razzia repressiva de 1974-76, que eliminou um terço de seus dirigentes nacionais, levou o restante ao exílio, e desmantelou suas conexões internas. Como consequência, os quadros remanescentes que restaram no país fecharam-se em extremada clandestinidade, crispando ainda mais a mentalidade de gerações formadas na adversidade da ilegalidade. Mesmo tendo Prestes rompido com o PCB na volta do exílio (1979) — formalizando sua dissidência na Carta aos Comunistas (1980) —, o partido prosseguiu fiel ao sovietismo e resistente à renovação de seus quadros e métodos, colocando-se a meio caminho do necessário encontro com a nova sociedade brasileira transformada pela industrialização acelerada do período 1967-1979.
Os jovens que se aproximaram do PCB nesse período tinham uma noção de radicalidade diferenciada em relação aos dirigentes do partido — a maior parte deles formada nos embates dos anos 1930-50, quando o país ainda era predominantemente rural. Enquanto para os velhos dirigentes a radicalidade se confundia com períodos da própria trajetória onde predominaram o sectarismo e o revolucionarismo, para os jovens ela significava uma mudança drástica das instituições republicanas e dos organismos sociais-partidários, no sentido da aproximação com as bases por meio da pluralidade de ideias e dos métodos democráticos — inclusive internos às organizações.
Em termos práticos, a renovação inconclusa dos comunistas — uma tradição de longa data, como nos mostrou Raimundo Santos[1] — significou a interdição efetiva de toda uma geração de novos quadros bem preparados à posição de direção, que continuaria nas mãos dos heróis formados em condições bem mais desvantajosas e culturalmente defasados em relação ao novo país que emergira. A consequência foi o desencontro entre a nova política democrática dos comunistas e a geração radical-democrática em desacordo com seus métodos e crenças ideológicas, o que acabou por abortar as possibilidades competitivas do partido diante de um PT que nascia encetando algumas dessas expectativas.
O encontro do castro-stalinismo com o sindicalismo-pastoral, em contato estreito com a classe operária — inclusive do ponto de vista ideológico (catolicismo) e, por isso mesmo, capaz de atrair seus elementos corporativistas mais avançados, aglutinados em torno do sindicalismo diferenciado de Paulo Vidal (1969-1978), em São Bernardo do Campo —, significaria o mais sério desafio à recuperação da influência política do PCB. O encontro do pragmatismo sindical com a teologia da libertação produziria a massa crítica de lideranças e público popular que permitiu ao velho esquerdismo se reerguer após o fracasso da luta armada. Lula e seus companheiros de greve foram catapultados à condição de lideranças operárias nacionais na esteira das mobilizações operárias de 1978-80, alimentadas pela carestia e o arrocho salarial provocado pelo fim do “milagre econômico”.
Enquanto a classe operária irrompia num cenário político de agitações marcadas pelo protagonismo intelectual e estudantil das classes médias renovadas, o PCB aprofundava seu hiato social ao reagir de modo convencional aos novos desafios colocados pela agitação social. Em novembro de 1978, por meio de sua imprensa clandestina (Voz Operária)[2], os pecebistas afirmavam que “(…) o melhor canal para onde fazer confluir (…) toda a movimentação (…) em favor das soluções democráticas é o Congresso Nacional”, e que “(…) estes objetivos só podem ser realizados com a (…) unidade do MDB (…)” onde “caberá a estes parlamentares introduzir permanentemente no debate político nacional as grandes reivindicações dos movimentos populares (…)”.
Apontando a via institucional concreta para a superação do regime de exceção, os pecebistas, ao mesmo tempo, colocavam em segundo plano a pressão pela renovação política ansiada pela sociedade civil emergente, que a equação parlamentar-emedebista expressava apenas em parte, deixando de perceber que a frente democrática estava prestes a assumir novas formas diante dos desafios surgidos – inclusive a iminência da volta das velhas lideranças exiladas, entre elas Leonel Brizola, Miguel Arraes Luís Carlos Prestes.
O novo contexto abriria as portas para a ascensão das esquerdas às estruturas de poder do Estado a partir das eleições de 1982, com a participação marginal do PCB. Mas, as promessas de grandes mudanças não se realizariam, dada as pressões centrípetas do sistema de poder vigente e o despreparo das esquerdas em encarar o desafio numa perspectiva frentista; tal como apontado pelo VI Congresso do PCB em 1967. Mas, isso é assunto para o próximo artigo.
[1] Vide A Primeira Renovação Pecebista: reflexos do XX Congresso doPCUS no PCB (1956-57); ed. Oficina de Livros/BH-1988.
Fora de Campos, não poderei participar da terceira edição do 4 em Linha. Pelo YouTube, ela vai ao ar às 20h deste domingo (24), com o especialista em finanças Igor Franco, o advogado Gustavo Alejandro Oviedo e o odontólogo Alexandre Buchaul. Pelos três, quatro serão os temas abordados: polêmica na Rússia, juros no chão, Brasil na Copa e a gestão Rafael Diniz.
Quem me conhece profissionalmente sabe que Copa do Mundo é o trabalho que mais tenho prazer em fazer. Cubro-as para a Folha da Manhã, pela TV, desde a de 1990, na Itália. Nestas sete últimas, a partir de 2010, no Brasil, o trabalho tornou-se muito mais dinâmico, com a produção de fatos 24h com o advento das redes socias.
Às 15h de Brasília da próxima quarta (27), o Brasil volta a campo para o seu último e talvez decisivo jogo do Grupo E, contra a Sérvia. Até lá, por motivo de ordem pessoal, farei uma pausa na cobertura diária da Copa da Rússia. Nesse pequeno intervalo serão disputados 17 jogos, todos com potencial de encantar fãs do futebol neste planeta bola azul e girante, mesmo os que só pegam carona de quatro em quatro anos nas cores das suas nações.
Daqui a quatro dias, se Deus quiser, a gente se vê. Abraço e inté!
Autor do primeiro gol e eleito novamente pela Fifa como melhor em campo, Philippe Coutinho assume de Neymar o papel de protagonista (Foto: André Mourão – Moa Press)
Se contra a Suíça marcou pelo prominente topete louro, contra a Costa Rica Neymar apareceu pelas atitudes nervosas e pelo choro, não por seu futebol (Reprodução)
Por Aluysio Abreu Barbosa
Foi um sufoco! O placar final do Brasil 2×0 Costa Rica não pode mascarar o fato de que os dois gols foram já nos descontos, aos 46’ e 52’ do segundo tempo. E que, mesmo com a renúncia do adversário ao ataque, jogando quase sempre com os 11 jogadores em seu próprio campo, a melhor chance de gol no primeiro tempo foi costarriquenha. Aos 13’, o ala Gamboa cruzou da ponta-direita para trás. Filho de brasileiro, o meia Celso Borges entrou livre na área e chutou cruzado. Mas a chance de marcar contra a seleção do país de seu pai saiu pela linha de fundo.
Goleiro do Real Madrid e da Costa Rica, Keylor Navas só teve duas intervenções no primeiro tempo, ao cortar com os pés uma penetração de Neymar e, depois, num chute de Marcelo. Ne resto, um velho problema do time de Tite se repetiu nos 45 minutos iniciais: bom pela esquerda, com Marcelo e Neymar, o time de Tite é manco pela direita. Willian, que nada havia feito de produtivo, foi substituído no intervalo por Douglas Costa. Com ele atuando no lado direito do campo, o Brasil ganhou volume de jogo.
Logo aos 3’ da segunda etapa, a Costa Rica contou com a sorte, quando Gabriel Jesus cabeceou uma bola no travessão. No rebote, Philippe Coutinho chutou com força, mas Gamboa rebateu. Depois o Brasil pôs Navas para trabalhar em pelo menos seis bolas chutadas em direção ao gol, ainda que nenhuma de grande dificuldade. Sem conseguir furar a retranca, Tite testou na Copa do Mundo uma opção tática que nunca havia tentado. Aos 22’, ele substituiu Paulinho, que também tinha atuação apagada, pelo centroavante Firmino, passando a jogar com dois atacantes de área. Um deles, Gabriel Jesus serviu Neymar dentro da área, aos 33’.
Tocado no abdómen pelo zagueiro Gonzaléz, o camisa 10 do Brasil se jogou. O árbitro holandês Bjorn Kuipers marcou pênalti, mas após ser alertado pelos colegas do VAR, conferiu o lance no monitor à beira do campo e mudou corretamente a marcação. Neymar, que já tinha pegado a bola para cobrar, ficou visivelmente contrariado.
Juiz holandês disse sem palavras o que Neymar precisava ouvir: “fala demais, fala demais” (Reprodução)
Dois minutos depois, ao reclamar da cera de um jogador caído da Costa Rica, o craque brasileiro acintosamente socou a bola no chão, como garoto mimado, e foi advertido com o cartão amarelo. Coutinho reclamou e também levou o seu. O experiente juiz holandês já tinha resumido com a mão o gesto que parece resumir as atuações de Neymar até aqui na Copa da Rússia: “fala demais, fala demais”.
Quando tudo parecia perdido, já nos descontos, Marcelo cruzou da esquerda dentro da área. Firmino fez o pivô e passou a Gabriel de cabeça. Ao errar o domínio, ele teve seu maior feito em campo, deixando a bola sobrar para Coutinho abrir o placar. O alívio foi tanto que Tite até caiu na comemoração do gol.
Com a Costa Rica abatida e visivelmente cansada, aos 52’ Casemiro apareceu pela entrada da área e serviu a Douglas pela direita. Ele cruzou para Neymar, livre, dar números finais à partida. Encerrada, ele sentou no gramado e chorou. Refeito, poderia refletir sobre o cartão amarelo talvez até tardio que tomou, o pênalti simulado em tempos de VAR, a insistência inútil em jogadas individuais distantes da área e sobre o fato de ter sido o jogador que mais sofreu faltas e cometeu faltas em campo: quatro de cada lado.
No Grupo E, com a virada de 2 a 1 da Suíça ontem sobre a Sérvia, esta será obrigada a jogar pela vitória contra o Brasil para continuar na Copa, às 15h na próxima quarta (27). E, se perder, o Brasil pode dizer adeus à Rússia. A Sérvia é uma república nascida da antiga Iugoslávia, escola respeitada no futebol. É a mesma que também pariu a Croácia, algoz da Argentina de Lionel Messi na última quinta (21).
ALISSON – Um espectador privilegiado do jogo. Na chance de gol mais clara da Costa Rica, aos 16 do primeiro tempo, o meia Celso Borges chutou para fora. NOTA 6.
DANILO – Com a renúncia da Costa Rica ao ataque, foi impossível julgá-lo defensivamente. No apoio, sobretudo no primeiro tempo, foi mais ativo do que Danilo contra a Suíça. Mas nenhum dos dois parece ser capaz de suprir a falta de Daniel Alves. NOTA 6,5.
THIAGO SILVA – Cioso da sua braçadeira de capitão, que não mereceu usar em 2014, ao chorar e ficar de costas para a disputa de pênaltis nas oitavas de final contra o Chile, ontem foi outro espectador. NOTA 6.
MIRANDA – Mais um espectador em lugar privilegiado. NOTA 6.
MARCELO – Com o meio de campo nulo na criação, é a válvula de escape na do Brasil da defesa ao ataque. Sem trabalho atrás, ficou livre para apoiar. Aos 41 da primeira etapa, arriscou a gol, para defesa de Navas. No segundo tempo, o primeiro gol nasceu do seu cruzamento. NOTA 7,5.
CASEMIRO – Como todo o sistema defensivo, teve pouco trabalho. No segundo tempo, a necessidade o empurrou para a área da Costa Rica. Testou Navas em chute a gol aos 26’. Aos 52’, puxou a jogada que gerou segundo gol. NOTA 7,5.
PAULINHO – Sumido das ações ofensivas no primeiro tempo, Tite gritou aos 24’: “Willian pega o ala e Paulinho agride”. NOTA 5,5. No segundo, sem atender ao técnico, foi substituído aos 22’ pelo atacante FIRMINO, que fez o pivô e cabeceou a Gabriel Jesus a bola que sobrou para Coutinho marcar o primeiro gol. NOTA 7.
PHILIPPE COUTINHO – No primeiro tempo, bateu a gol duas vezes, mas para fora. Na etapa final, pôs Navas para trabalhar aos 11’. Tomou cartão amarelo desnecessário, aos 35’, após reclamar do recebido merecidamente por Neymar. Mas assumiu de novo o papel que se esperava deste, ao abrir o placar e ser eleito pela segunda vez como melhor em campo. NOTA 8.
WILLIAN – Peça nula no primeiro tempo, quando chutou para fora sua única tentativa de concluir. NOTA 5. Saiu no intervalo para a entrada de DOUGLAS COSTA, que imprimiu muito mais volume de jogo ao Brasil, dando o passe ao gol de Neymar. Não deveria sair do time. NOTA 8.
NEYMAR – Voltou a abusar da individualidade e dribles distantes da área adversária. Aos 32’ do segundo tempo, simulou o pênalti bem anulado com o recurso do VAR. Depois tomou um pito do juiz por falar demais e levou um merecido cartão ao socar a bola no chão, como garoto mimado. Sofreu quatro faltas, mesmo número das que cometeu, evidenciando o nervosismo assumido no choro ao final da partida. Antes, porém, fez o gol que selou vitória. NOTA 7.
GABRIEL JESUS – Seu maior feito em campo foi ter errado ao dominar a bola passada de cabeça por Firmino, que sobrou para Philippe Coutinho abrir o placar. NOTA 5,5. Após o primeiro gol do Brasil, foi substituído FERNANDINHO, que entrou para recompor o meio de campo. SEM NOTA.
NAVAS – No primeiro tempo, uma boa saída em bola enfiada a Neymar e a defesa no chute de Marcelo. Na segunda etapa, quando o Brasil partiu para cima, fez pelo menos sete defesas, mas nenhuma de grande dificuldade. Nos gols brasileiros, nada podia fazer. NOTA 8.
GAMBOA – Foi do ala direita o cruzamento para Celso Borges, na melhor chance de gol do primeiro tempo. Como, no segundo, foi ele quem desviou o chute de Coutinho que iria para o gol. NOTA 7,5. Foi substituído aos 29 da segunda etapa pelo zagueiro CALVO, na tentativa de fechar ainda mais o time. NOTA 6.
GONZALÉZ – Foi ele quem tocou Neymar no abdómen, no pênalti cavado pelo brasileiro e depois anulado pelo VAR. No segundo tempo, teve trabalho com a pressão brasileira. NOTA 6.
ACOSTA – Foi o líbero na linha de três zagueiros no ferrolho costarriquenho. Quando o jogo ainda estava no 0 a 0, levou cartão amarelo por atrasar cobrança de lateral. NOTA 6.
DUARTE – Com seus dois companheiros de zaga, teve mais trabalho no segundo tempo. E o desempenharam com sucesso, até levarem o primeiro gol já nos descontos. Nota 6.
OVIEDO – No primeiro tempo, o ala esquerda pouco apoiou. No segundo, com a entrada de Douglas Costa, teve motivo para ficar atrás. NOTA 6.
Guzman – Volante que atuou mais como quarto zagueiro. Nota 6. Foi substituído aos 37’ do segundo tempo pelo volante Tejada, que levou uma lambreta de Neymar. NOTA 5.
CELSO BORGES – Filho de brasileiro, o costarriquenho perdeu aos 16 minutos a melhor chance de abrir o placar contra a seleção do país do seu pai. E, em Copa, fica quem erra menos. NOTA 5.
VENEGAS – No primeiro tempo, ainda tentou adiantar a marcação na saída brasileira. No segundo, com a renúncia das ações ofensivas, pouco foi visto. NOTA 5.
UREÑA – Pesado e lento para a tarefa de puxar contra-ataques, foi outro pouco notado em campo. NOTA 5. Foi substituído aos 8’ pelo veterano meia BOLAÑOS. NOTA 5.
BRIAN RUIZ – Se as coisas não correram tão bem ao camisa 10 do Brasil, o que dizer do 10 de um time que entrou em campo para só se defender? NOTA 5.
Página 10 da edição de hoje (23) da Folha da Manhã
O juiz holandês Bjorn Kuipers não usou palavras para dizer Neymar o que ele precisa aprender: “fala demais, fala demais” (Reprodução)
Neymar é um craque. Domina três fundamentos de união rara num atacante: drible, rapidez e visão de gol. Mas a maneira como o jogador e seu séquito se comportaram hoje é reprovável e preocupante. Primeiro, ele não ouviu as determinações expressas de Tite durante o Brasil 2×0 Costa Rica (aqui), quando o jogo ainda estava 0 a 0.
Neymar ignorou seu treinador e insistiu em reclamar do árbitro, que usou corretamente o VAR para anular o pênalti cavado pelo brasileiro. Depois, como menino mimado, socou a bola no chão e levou o merecido cartão amarelo. Antes, teve sua atitude infantil bem resumida em gesto com a mão pelo bom árbitro holandês Bjorn Kuipers: “fala demais, fala demais”.
Após a partida, capitão de hoje no rodízio da braçadeira da Seleção, Thiago Silva revelou ter sido xingado por Neymar durante a partida. O motivo? Quando o jogo ainda estava empatado no placar virgem, o zagueiro brasileiro devolveu uma bola posta para fora pela Costa Rica, após um dos seus jogadores desabarem, fazendo cera. E por isso foi xingado pelo companheiro de Seleção Brasileira e Paris Saint-Germain.
— Tenho ele como irmão mais novo, e procuro cuidar dele, dando conselhos. Hoje fiquei muito triste com ele. No momento que eu devolvi a bola, me xingou muito. Mas acho que estava certo, porque acho que estavam fazendo muita cera. Devolvi a bola, porque não seria aquela bola que faria a gente ganhar. Me sinto tranquilo em relação ao meu ato e fiquei muito triste com xingamento dele — externou Thiago Silva.
Print das ofensas nas redes sociais contra Galvão Bueno e Casagrande, feitas pelos “parças” de Neymar (Reprodução)
Torre Eifel inflou o ego de Neymar acima de Paris
Enquanto isso, amigos de Neymar usaram as redes sociais para atacar o narrador Galvão Bueno e o ex-jogador e comentarista Walter Casagrande. O motivo? Os dois fizeram críticas à atitude do camisa 10 do Brasil na transmissão do jogo. Cristian Guedes, Gil Cebola, Adão Rosa e Pedro Velasco defenderam o seu “parça” usando palavrões e gestos obscenos para se referir a Galvão e Casagrande: “Sem mais, Filho da p…”, “chupa bando de anti”, “seus m…! Dupla de c… do c…”.
Às 15h da próxima quarta (27), é possível que a necessidade da Croácia em vencer, para continuar na Copa, abra espaços que o ataque brasileiro não teve contra a Suíça e, sobretudo, a Costa Rica. Mas, como se perder, o Brasil também pode voltar mais cedo da Rússia, os problemas brasileiros parecem ser mais complexos que os do campo.
Pouco importa que a Torre Eiffel tenha estampado o nome de Neymar, e seu ego acima disso, na sua contratação pelo Paris Saint-Germain. A disputa do jogador não é com Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi pelo posto de melhor jogador do mundo. Nem mesmo com Philippe Coutinho, que assumiu nos dois jogos do Brasil o papel de protagonista esperado do camisa 10.
Essa camisa que Neymar veste na Seleção já pertenceu a Pelé e a Zico, jogadores aos quais jamais se igualará — nem que vença a Copa do Mundo. Começar por aí já seria um bom caminho.
Caso contrário, melhor chorar na cama do que no gramado.
Depois de ter ignorado Tite e xingado Thiago Silva, Neymar sentou no gramado e chorou ao final da partida em que Philippe Coutinho mais uma vez brilhou (Reprodução)
No contexto dos recentes movimentos pró desenvolvimento, lideranças políticas e empresariais da região Norte Fluminense se mobilizam trazendo no contexto da discussão, elementos como união e parceria para atração de grandes empresas para a redenção econômica regional. Realmente as iniciativas são importantes, porém a formatação do problema e as expectativas consideradas precisam ser repensadas. Parece que ainda não nos descolamos da política regional dos anos 1960 e 1970, voltada para reduzir as disparidades regionais nos países em desenvolvimento, fundamentalmente, América Latina e Ásia. Nesse período, a estratégia de atração de empresas para regiões atrasadas se constituía em um dos principais objetivos da política de desenvolvimento regional. O desdobramento dessa política regional, recentemente, tem se concentrado no uso dos recursos naturais.
A crítica ao modelo de atração de grandes empresas como instrumento de desenvolvimento está assentada em experiências frustradas, tais como o Distrito Industrial de Campos e o Fundo de Desenvolvimento de Campos (Fundecam), cujas expectativas eram de que o segmento industrial seria potencializado. Com base no desdobramento através do uso de recursos naturais para o desenvolvimento, o complexo industrial Farol/Barra do Furado e o porto do Açu, depois de uma década, estão longe das expectativas criadas.
Distante dos discursos políticos e de interesse coorporativos, Campos dos Goytacazes como a maior cidade do interior, produtora de petróleo e na trajetória do porto do Açu, só consegue gerar emprego no período sazonal de operação da indústria sucroalcooleira em decadência. Apesar da forte estrutura de serviços públicos com salários importantes (justiça, universidades, bancos, etc.) apresenta uma renda média mensal do trabalho salarial em torno de 2,5 salários mínimos, acentuando uma forte concentração de renda.
Por outro lado, a expectativa de independência dos royalties de petróleo, a partir do fortalecimento da atividade agropecuária, soa como discurso vazio, já que parece existir desconhecimento sobre a real condição desse setor. Campos dos Goytacazes apresenta uma participação relativa ínfima de 4,44% da renda agrícola total do estado, enquanto a região Norte Fluminense representa 18,04% de participação. Na composição da renda pecuária leiteira, o município tem uma participação de 5,19%, enquanto a região representa 13,85% de participação.
Podemos observar claramente a fragilidade individual do principal município do interior na questão agropecuária. Um diagnóstico bem estruturado diria que essas atividades não se viabilizam competitivamente, considerando a organização atual nos moldes microeconômicos. São altos os custos de transação, a escala de produção é insuficiente, existe baixa eficiência operacional e de gestão, os recursos financeiros são escassos e, fundamentalmente, existe carência de informação. Nesse caso, afirmo que a “virada de mesa” exige repensar a organização do setor.
Parece simples, mas é algo altamente complexo. O fundamento está na construção de capital social, aspecto intrínseco a capacidade de atuar coletivamente com base na confiança e reciprocidade. Assim a base micro evolui para uma base mesoeconômica. A unidade produtiva considerada passa a ser o território que integra a produção da unidade individual. Um outro aspecto complementar é a figura da governança que norteia o processo de interação entre o conhecimento, as unidades produtivas e o governo. A combinação exitosa desse modelo tende a resolver problemas já elencados da unidade microeconômica. Esse estágio acentua uma rede de proteção capaz de inserir pequenas regiões periféricas ao sistema capitalista excludente, reduzindo as desigualdades econômicas e sociais. É preciso exercitar esse novo processo, através de projetos piloto.
Nome do jogo, o atacante Musa comemora seu primeiro gol, no qual demonstrou muita técnica ao dominar e chutar sem deixar a bola cair no chão (Foto: Lars Baron – Getty Images)
Pelo confronto entre dois times muito fortes fisicamente, um de africanos negros, outro de vikings, valeu a pena assistir ao Nigéria 2×0 Islândia. Contando com a torcida dos argentinos, pelo cruzamento de resultados no mesmo Grupo D, os nigerianos venceram com dois belos gols do habilidoso atacante Ahmed Musa, aos 4’ e 30’ do segundo tempo. Considerado o melhor em campo pela Fifa, Musa é íntimo dos gramados russos, onde atua como jogador do CSKA Moscou.
Homens negros e louros já haviam feito um jogo épico na fase de grupos da última Copa. Foi (aqui) em 21 de junho de 2014, no Brasil, no Alemanha 2×2 Gana. Quatro anos depois, o confronto entre Nigéria e Islândia teve um fiel da balança.
Iguais na generosa força física sob a pele dos seus jogadores, a diferença se deu na distinção entre duas características. Se desse aplicação tática, ganhariam os europeus. Se fosse a técnica, ganhariam os africanos. Na triunfo da segunda, venceu o futebol.
Argentinos assumiram a torcida pela Nigéria em Buenos Aires (Reprodução)
Depois de torcerem pela Nigéria, vamos ver agora como o abatido time argentino vai encarar, às 15h da próxima terça (26), a seleção da África embalada pela vitória e pelo fato dela depender apenas de si para chegar às oitavas de final.
Entre os jogadores de futebol do meu tempo de vida, Lionel Messi está entre os quatro melhores. Junto dele, coloco apenas seu compatriota Diego Maradona, o brasileiro Zico e o francês Zinédine Zidane. Cristiano Ronaldo, em meu entender, está uma oitava abaixo, ao lado de outros grandes atacantes, como os brasileiros Romário, Ronaldo Fenômeno, Reinaldo e Careca, o holandês Marco Van Basten e o alemão Jürgen Klinsmann.
Ídolo no futebol, desde que me entendo por gente, sempre tive em Zico. E a história de vida de Messi é semelhante à do eterno camisa 10 rubro-negro. Nascidos com uma habilidade genial com a bola, mas em corpos pequenos e franzinos, ambos tiveram que ter um grande clube trabalhando desde crianças em seus desenvolvimentos físicos. O Flamengo, no caso de Zico, e o Barcelona, no de Messi.
Um craque, geralmente, é aquele que domina vários fundamentos do futebol. Mas costuma ter as suas especialidades. Acompanhando futebol há 38 anos, nunca vi alguém correr em toda velocidade, com a bola grudada aos pés, amarrada por um barbante imaginário, como Messi. Sua jogada mais característica talvez seja avançar pela direita e cortar ao centro driblando sempre à esquerda, até o arremate quase sempre fatal de perna canhota.
Do ponta-direita Mané Garrincha (1933/83) era correta a afirmação de que só driblava à direita. Tanto quanto a constatação de que, mesmo sabendo disso de antemão, os defensores adversários simplesmente não conseguiam marcá-lo. Na analogia em direção oposta, mesmo sabendo antes que Messi vai driblar à esquerda, a impotência desse conhecimento é a mesma.
Fiquei ontem dividido com o Argentina 0x3 Croácia (aqui). Feliz com a vitória de uma escola de futebol que aprendi a admirar desde a antiga Iugoslávia. E tanto mais pela atuação de gala do clássico meia Luka Modric, coroada com uma pintura de gol, o segundo da Croácia. Mas fiquei muito triste com a atuação apagada de Messi, que não conseguiu ser ponto fora da curva descendente no bando que a Argentina se mostrou como time na Copa da Rússia.
Entretanto, por mais que seja fã de Messi e talvez me identifique mais com o temperamento argentino do que com o brasileiro, não nasci naquele país que aprendi a gostar, tanto pelo vistoso “toco y me voy” do seu futebol, quanto pela prosa de Jorge Luis Borges e Julio Cortázar. Não por outro motivo, pedi a um argentino e colaborador deste blog, o advogado Gustavo Alejandro Oviedo, que desse seu testemunho sobre a tragédia que embala sua seleção, como um tango de Carlos Gardel.
Confira abaixo:
Messi repetiu várias vezes contra a Croácia a expressão que mais o tem marcado na Copa da Rússia (Foto: Ivan Alvarado – Reuters)
O triunfo da ignorância
Por Gustavo Alejandro Oviedo
Não tem jeito: continuo torcendo pela seleção argentina, apesar de que ela vem me defraudando Copa após Copa, desde o ano 1993, quando venceu pela última vez um torneio internacional — a Copa América. Dizem que isso é ser um torcedor: um sujeito que apoia seu time, jogando bem ou mal, e que quer vê-lo ganhar ainda que imerecidamente. O torcedor — ou esse tipo de torcedor, ao menos — é o antifutebol.
A derrota de ontem frente a Croácia me doeu, portanto. Mas ainda mais me dói ver um time que, antes de começar o jogo, já anunciava seu fracasso, nos rostos dos jogadores na hora do hino. Parecia que estavam vindo de um velório, e indo para outro. No entanto, esse prenúncio do fracasso vinha de muito antes: da classificação lastimável; da derrota por 6 a 1 no amistoso contra Espanha; e especialmente do fato da seleção ter como técnico um sujeito como Sampaoli.
Num livro que lançou há poucos meses atrás, chamado “Mis Latidos” (Minhas Batidas, vejam a breguice) Sampaoli confessa: “Eu não planejo nada. Tudo aparece na minha cabeça quando tem que aparecer. Odeio o planejamento”. Mais adiante, ele revela que nunca gostou de estudar: “Eu não posso ler um livro; leio duas páginas e fico entediado. Escrevo três coisas numa folha e me canso”. Sampaoli faz parte daquela Argentina que o mundo odeia, e com razão. É a arrogância e a ignorância combinadas. Pior: é o orgulho de não querer melhorar, em nome de uma suposta genialidade inata e apedêutica. Basicamente, é um peronista.
Com tais antecedentes, é claro que não tinha como me surpreender com o resultado. Ao contrário: o estava prevendo. O que não faz mais do que potenciar minha indignação. A boa noticia é que a partir da eliminação da Argentina poderei voltar a curtir o Mundial. Apesar de ainda faltar um jogo, um meme que circula pela web é premonitório: ‘Nem tudo está perdido. Ainda temos que perder para Nigéria’.
De quem tenho pena mesmo é de Messi. Um jogador excepcional que se viu obrigado a cumprir a missão chauvinista de carregar nos ombros a felicidade de uma nação. Um encargo que evidentemente não tem condições de satisfazer sozinho, embora graças a ele tenham se conseguido o vice-campeonato do mundo de 2014 e os dois vice-campeonatos nas Copas América de 2015 e 2016. Mas já sabemos: o segundo é o primeiro dos derrotados.
Tenho para mim que Messi só é feliz no Barcelona, o clube que o adotou ainda muito novo, que bancou o seu tratamento de saúde, e onde provavelmente acabará se aposentando. Espero que isso demore a acontecer, e que até lá nos continue a surpreender com suas genialidades. E que renuncie de vez à seleção argentina. Não apenas pelo seu próprio bem, mas pelo de um país que tem que aprender de uma vez por todas que, como dizia Brecht, é infeliz quando precisa de um herói.