Jornalista e empresário de comunicação Fabiano Venâncio
Nave-mãe
Por Fabiano Venâncio(*)
Em meados dos anos 80, cheguei ao Grupo Folha e ouvi a frase: o jornal era a ‘nave-mãe’. De ‘calças curtas’, eu pensava que em pouco tempo tudo mudaria, ou seja, a recém-adquirida TV Planície, com a força de um veículo de massa, iria ocupar o topo do Grupo. Não conseguia assimilar quando Aluysio e dona Diva faziam questão de enfatizar o papel do jornal para o grupo de comunicação. Com o tempo, já na condição de diretor da Rádio Continental e sócio da Rádio Jornal de Macaé, percebi o porquê da projeção feita pelo casal, colocando a Folha como principal pilar do grupo.
Com o tempo, percebi que eles não falavam de estrutura empresarial e, sim, de um veículo de comunicação que tinha na pluralidade um dos principais pilares editorias. Assim, se posicionou diante de temas controversos da região, noticiando — e muitas vezes protagonizando — os fatos mais importantes das últimas quatro décadas. E se tornou o que é mais importante para um veículo de comunicação: o porta voz da população.
Aprendi, aprendi muito, dia após dia, com as orientações, decisões, puxões de orelha de dona Diva— às vezes com luva de veludo e outras num tom alto — com sua garra e poder de trabalho insuperáveis. E com as ponderações de Aluysio
E mais: feliz de quem consegue fazer sucessores. Olho para trás e posso dizer o quanto vejo no trabalho diário de redação e em seus artigos, muito de Aluysio (pai) em Aluysio (filho), assim como de dona Diva em Cristiano.
(*) Jornalista e empresário de comunicação, ex-repórter da Folha da Manhã, ex-gerente da Rádio Continental e proprietário do site Campos 24 Horas
“Caminhando e cantando e seguindo a canção, aprendendo, ensinando uma nova lição…”
Por Frânio Abreu(*)
O cantor e compositor Geraldo Vandré estava certo quando em 1968 afirmou em verso e prosa: “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Foi isso que eu fiz, sem grandes pretensões, quando já funcionário da Folha da Manhã, trabalhando como revisor de textos, iniciei uma nova era na minha vida. Essa nova era se estendeu por 20 anos dentro da empresa, considerada por mim e tantos outros como uma verdadeira escola.
Como revisor de textos sofria influências jornalística de todos os lados, principalmente, pelo próprio trabalho diário de revisar, já que tinha ao meu lado, na mesma função, uma jornalista experiente, com passagem por grandes jornais da época, como “Última Hora”, “Jornal do Brasil”, entre outros diários que acompanharam o processo histórico nacional por longo tempo. Marilda Rios ou “Marildinha”, como era conhecida, falava com um entusiasmo tão grande de jornalistas como Alberto Dines, Carlos Heitor Cony, Wladimir Herzog e outros que eu sequer sabia existirem, que contagiava.
Na época, eu estudava Letras na Faculdade de Filosofia e meus amigos eram do curso de Jornalismo da mesma faculdade e, por coincidência, também da Folha. Antônio Fernando Nunes, Juscelino Rezende e outros acabaram me influenciando, assim como Marildinha. Sem contar que, por força do meu trabalho de revisão, tinha contato direto com os mais experientes jornalistas: José Cunha Filho, Orávio de Campos, Luiz Mário Concebida, Angela Bastos, Francisca de Assis, além dos mais novos da época e nem por isso menos conceituados, como Ricardo André Vasconcelos, Jane Nunes, Rosayne Macedo, Aloysio Balbi e muitos mais.
Mas o grande mestre era mesmo “seu” Aluysio Barbosa, chefe de poucas conversas, mas muito observador — característica essencial para o jornalista. E eu, influenciado por todo esse pessoal, não sei como criei coragem e fui à sala de Seu Aluysio para pedir uma oportunidade na redação.
A primeira coisa que ele perguntou foi se eu gostava de ler, independente dos textos que revisava por obrigação e, se não gostasse, não adiantava nem tentar. Conversamos não mais do que cinco minutos e, direto e objetivo, me mandou procurar no dia seguinte Orávio, responsável pela pauta, para um teste.
A vida de revisor de textos terminou três meses depois deste dia, quando então começou a do jornalista. No meu lugar na revisão ficou minha irmã, Suany Abreu, que também soube fazer sua história dentro da Folha.
Na “empresa/escola” tive a grata oportunidade de ser repórter de quase todas as editorias — Geral, Polícia, Economia, Política, Folha Dois —, além de ter sido subeditor, editor, responsável pelo antigo caderno infantil “Folhinha”, tablóides como a “ Folha Shopping”, matérias de cunho comercial, colunista social substituto em férias dos titulares — Angela Bastos, principalmente, porque fazia uma coluna mais jornalística do que social.
Minha experiência em rádio também foi dentro da empresa, cobrindo férias na Continental, pertencente ao Grupo Folha. Sem falar nos flashes passados de dentro da redação, lá pelas 22h, para diferentes rádios da região.
São muitas histórias, impossíveis de contar em 40 linhas. O que é possível afirmar é que tudo isso me deu base para continuar na luta até hoje.
Em tempos de crise, de ‘deriva’, de violência descomunal, é comum os sentimentos de indignação e de coragem, essas, dizia Santo Agostinho, ‘são filhas diletas da esperança’. Há verdade nisso. O que alimentou muitos dos movimentos que mudaram a História? Indignação e Coragem! O que estava presente nas conquistas sociais para a maioria das pessoas? Indignação e Coragem! Claro, sei, que não apenas estes sentimentos, ou só sentimentos. Mas eles são imprescindíveis…
Estudo/conhecimento, desalienação, organização, táticas, estratégias, comunicação, lideranças, etc., fazem parte do contexto de qualquer luta que preze pela seriedade nos embates que defendem a justiça, os direitos individuais e coletivos, a própria vida. De certo, todos os movimentos que ousaram mudar, e, não, perpetuar, foram movidos pela esperança, pela utopia, traduzidas muitas vezes na expressão criativa de ‘mundo novo’. Acreditavam na ideia, na probabilidade, de CRIAR algo NOVO! Muitos, conscientes, deram a própria vida, acreditavam, que, juntos, de fato, poderiam participar da CRIAÇÃO!
Seja em ‘guerra de movimento ou de posição’, no dizer gramsciano, as ações esperançosas de criação bebiam na fonte dos valores humanistas da modernidade ‘iluminista’, que em muitos casos formulavam sínteses que pareciam impossíveis, como, por exemplo, articulando-se aos valores judaico-cristãos. Na América Latina, e, em especial, no Brasil, temos vários exemplos concretos dessas ‘improváveis sínteses’.
Com certeza, como estamos falando de ações e sonhos de homens e mulheres na História, dada a nossa finitude e a nossa incompletude, as imperfeições, os erros, as incoerências e as incongruências, permearam os movimentos, seus processos e seus resultados. Mas, o ‘prosseguir’ com a esperança não era enterrado, nem contestado. Foram homens e mulheres imprescindíveis, lembrando o pensamento de Brecht sobre os lutadores. Foram eles e elas construtores da História, que ousaram CRIAR!
Ao observar e ao participar do mundo hoje, em especial, do nosso país, percebo que há algo diferente, algo que parece rompido, destroçado, fraturado. De crises, de injustiças, estamos mergulhados. A indignação aparece, mas, predominantemente em conversas que mais parecem de ‘divã’ e nas redes sociais. Mais, ela aparece junto com a apatia, com a ‘vontade fraca’ das ruas e dos movimentos sociais. Como se não tivéssemos mais ‘fôlego’ para agir em busca de um ‘novo criativo’ inspirados nos valores universais, que demandam, talvez, um tempo de ‘longa duração’, de um processo perene de avanços e de recuos, de conquistas e de reconquistas.
De acordo com Frei Betto, hoje, “a indignação se manifesta em expressões de ódio e desprezo; a apatia, na sensação de que é inútil protestar nas ruas, já que se tirou um governo ruim para dar lugar a outro pior”. E, para combater este estado de coisas, é necessário a espiritualidade de grão de mostarda: “Pequeno e insignificante, mas dele pode brotar o que, no futuro, mudará o rumo da história.[…] Não é suficiente reclamar, é preciso agir. De nada vale odiar, falar mal, criticar. Mais vale arregaçar as mangas e, como dizia João Batista, empunhar o machado e centrá-lo na raiz da árvore apodrecida”.
Ouso acrescentar: precisamos também nesses tempos, e, mais do nunca, da ‘espiritualidade’ que vem da Arte, dos artistas, em especial, dos poetas! Necessitamos da espiritualidade que nos ‘religa’ ao mistério à espiritualidade das palavras-poesias que são gritos de humanização! Que pode nos ‘religar’, uma a uma, um a um, um a uma, em unidade indignada e um ativo e vigoroso amor pela vida, ao mesmo tempo! Que pode nos fazer ousar de novo, ter a coragem que parece, perdemos! Que nos faz sair do conforto da alienação, porque a poesia desperta, cutuca, transcende, provoca o sonho!
Sei, sei, não se vai à luta somente com ‘as espiritualidades’, mas, hoje, mais do que nunca em nossa História, depois de corrompido e destroçado os ideais humanistas, necessitamos desse impulso vital ‘das espiritualidades’, que, tenho certeza, nos afastará do nefasto individualismo alimentador da indiferença e do niilismo que ‘conforma’ a apatia. Nos proporcionará a coragem de um coração solícito à vida de todos e de todas.
Uma revolução na história da imprensa em Campos. O 8 de janeiro de 1978 foi o dia mais esperado por todos nós, jornalistas, lotados em outras redações, que sonhávamos com os avanços tecnológicos da época, quando foi às bancas o primeiro jornal offset da região. Impressão e fotografias de qualidade, matérias bem elaboradas e editadas, que conquistaram a confiança da população.
A experiência profissional de Aluysio Cardoso Barbosa aliada à visão empresarial de Diva dos Santos Abreu Cardoso Barbosa não poderia ter uma receita de sucesso diferente. Empresa sólida e bem sucedida, vitoriosa em movimentos importantes que nortearam o progresso da nossa Campos dos Goitacazes e na promoção de eventos que depois se tornaram marca registrada. Nascia a Folha, a minha segunda casa entre 80/84. E, depois de passar por outros veículos de informação, retornei entre 2005/15 sob o comando de Aluysio Abreu Barbosa, que implementou o jornalismo investigativo, atendendo às exigências do mercado editorial.
O nosso admirável mundo novo seguia os passos da modernidade, com o serviço noticioso da agência Jornal do Brasil (via telex), que só era possível até então através de escuta de rádio e com dificuldades dada à distância da capital. O jornal inovava a cada ano, com lançamento de cadernos especiais voltados para os públicos infantil, estudantil, agronegócios, e diversos segmentos representativos da sociedade goitacá. O profissionalismo cresceu tanto, que a Folha reuniu durante décadas os melhores nomes da comunicação regional, uma espécie da Rede Globo impressa.
Sempre preocupada em oferecer qualidade e informação de primeira mão aos seus anunciantes e assinantes, a Folha se agigantava com projetos gráficos e investimentos profissionais. O primeiro jornal também a informatizar sua redação e criar editorias que o tornaram o maior e melhor impresso do Norte Fluminense. Perto de completar meio século de informação, a Folha marca de sucesso e qualidade vai ser mantida ainda por muitos anos. Vida longa aos seus diretores pela dedicação e a seriedade na condução da empresa, da qual me orgulho por ter passado dois longos períodos, nestes 35 anos de profissão.
Obrigado sempre, Folha!
(*) Jornalista, ex-chefe de reportagem da Folha da Manhã e assessor de comunicação da Prefeitura de Quissamã
Sete dos meus quase 30 anos de jornalismo passei dentro da redação da Folha da Manhã. A primeira passagem foi no início da década de 2000 e a segunda, por volta de 2010. Nas duas, a convite do diretor de redação, Aluysio Abreu Barbosa. Em ambas as vezes, para trabalhar na equipe da editoria de Geral, que, fora o período eleitoral, é a mais movimentada dentro de uma redação de jornal. É onde as notícias se afunilam e não têm hora para chegar, fazendo com que as equipes fiquem a maior parte do tempo com a adrenalina nas alturas.
O jornalismo é assim e deve continuar dessa forma, como única maneira de entregar, ao leitor — seja no impresso ou na edição online — a melhor informação possível, dentro do objetivo de qualquer meio de comunicação que se preze a prestar um bom serviço. E, nesse aspecto, de um modo geral, só posso dizer do orgulho de ter trabalhado com tanta gente boa durante o tempo em que permaneci na empresa.
Hoje são quatro décadas de liderança incontestável, comprovada pela estrutura adquirida pela Folha graças ao trabalho em equipe, onde direção e redação sempre caminharam juntas e cujos resultados só demonstram que, quando há vontade e objetivos comuns, o céu é o limite.
Mas não dá para falar em Folha da Manhã sem citar o saudoso Aluysio Cardoso Barbosa, Seu Aluysio, jornalista que estava à frente de seu tempo. Que transformou seu sonho em realidade. E como sabia, como poucos, que não se faz um jornal sozinho, conseguiu passar isso para as gerações que tiveram a honra de conviver com ele na redação do jornal. Uma escola para praticamente todos os estudantes de jornalismo que passaram pela Faculdade de Filosofia de Campos, atual Uniflu. E esses ensinamentos, claro, foram mais que absorvidos pelos filhos Aluysio e Christiano Abreu Barbosa, que seguem, junto à mãe, dona Diva, à frente do Grupo Folha.
Parabéns ao Grupo Folha da Manhã pelos 40 anos completados nesta segunda-feira (08/01) e também aos colegas de redação, que se esmeram pra dar o melhor de si na brava tarefa de bem informar. E encerro este artigo fazendo, minhas, as palavras do amigo Murillo Dieguez, em sua coluna na edição da última sexta-feira: “Ninguém chega à condição de liderança incontestável à toa. Certamente que é fruto de muito trabalho, compromisso, perseverança, seriedade, dinamismo e sintonia com os seus leitores e a sociedade”. Então, é desse jeito.
(*) Jornalista e ex-editor de Geral e de Política da Folha da Manhã
Ruínas de Atafona, janeiro de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
— A morte é para os velhos. Para os que são restos e rastros. Para os que só possuem o fim. Para os que deixaram início e meio para trás.
A voz nascida da angústia tomou a rua. Por breves segundos, ninguém se entreolhou. Todos estavam expostos. Nus diante de palavras certeiras.
Sobre o corpo da criança, a mulher chorava. Uma mão sobre a cabeça fria e pálida do menino. A outra estava pousada em sua barriga. Era voz comum: quando acontece algo ao filho, a mãe sente as dores em seu corpo. Elas atingem a alma e o útero, de onde havia surgido o ser sem vida que agora estava estirado diante de seus olhos desfocados e sem brilho.
Os cabelos negros uniam-se às lágrimas, suor e saliva, em um misto de dores e odores característicos da perda. Um homem alto, com olhar sombrio, observava a cena de longe. Por mais que quisesse dividir o desenlace com a esposa, sabia que aquele era o momento dela e de seu filho. Ele queria, mas não podia intervir. Os dedos tremiam. Tentando conter os movimentos involuntários, Alberto os mexia freneticamente. “Está na hora de parar com essa mania. Vai ficar com problemas, papai”, recordou-se do tom de repreensão de Luigi. Com onze anos, demonstrava mais sinais de maturidade, em determinadas situações, do que o velho pai, que o admirava em silêncio.
Alberto caminhou lentamente em direção a Jane, que continuava a chorar de maneira descontrolada. Os pés queriam seguir outros rumos, mas ele precisava estar ali. Não podia mais fugir dos acontecimentos como fazia na adolescência. Na época, refugiava-se em bebida. Com o tempo, ela se tornou insuficiente para calar seus gritos. Usou maconha. Quase sucumbira a outras drogas, mas envergonhou-se de sua covardia e aceitou o que lhe era designado. Agora, pensava sobre o que teria sido a vida se não tivesse tomado as decisões que o levaram até ali.
“A covardia do ser humano está em seus gestos, jeitos e trejeitos. Está no ar que ele expira”, pensava o pai do garoto, cujo corpo inerte conservava os piores temores de sua vida. Alegre, Luigi costumava acompanhá-lo em afazeres cotidianos. Ambos, diariamente, saíam juntos para a caminhada matinal, que, às vezes, se transformava em uma corrida. Os risos eram companheiros dos dois. Em certos momentos, optavam por nadar no clube do qual o homem era sócio. Divertiam-se entre cambalhotas e mergulhos, tanto em dias frios quanto sob o escaldante sol de fevereiro.
Os dedos continuavam a ser movimentados em ritmo descompassado. O coração se acelerava à medida que o homem se aproximava da esposa, que observava o filho em silêncio. A respiração da mulher estava mais lenta, mas os olhos permaneciam sem brilhos e vidrados diante da grotesca situação que eram obrigados a vivenciar. Pássaros sobrevoavam a criança oca e fria. Suas sombras mesclavam-se às sombras que eram, neste momento, Jane e Alberto. Dentro do casal, algo estava partido para sempre.
Quando era criança, Alberto testemunhou um caso que nunca saiu de sua cabeça. Aos 43 anos, toda a cena era nítida em suas memórias. Andava na rua, sempre alternando os pés entre as faixas pretas e brancas, em uma dança incompreensível por quem o via, no momento em que escutou um barulho abafado. Com o dedo na boca e as sobrancelhas arqueadas, buscou o local exato de onde viera o estampido. Os cabelos pretos, semelhantes aos fios negros de Luigi, estavam bagunçados pelo vento. Afastou a franja lentamente. Caio, seu amigo, estava deitado no chão, em frente ao seu portão, de onde saíram dois desconhecidos jovens correndo.
Antes de reagir, assustado, sentiu dois braços o agarrarem. Tentou desvendar o rosto de quem o carregava, mas só descobriu que era Valter, seu tio, ao chegar à casa dele. O homem estava pálido. Abria a boca, mas não conseguia emitir ruídos. O suor escorria pela face. Alberto, menino, apenas o encarava, aguardando explicações.
— O que você estava fazendo lá fora? Eu tinha mandado ficar dentro de casa. Sabe que moramos em uma área perigosa — repreendeu Valter.
— Mas o que aconteceu? Não entendi, tio — a criança olhou ao redor. Apenas os dois estavam na residência. Em resposta, Valter apenas abraçou o filho único de seu irmão, cuja mente ecoava o barulho abafado. Hoje, Alberto e Jane partilham o cenário da infância do pai do garoto morto. Ele tentava compreender o que se passava. Olhava o filho. Ora enxergava Caio, ora via Luigi. Braços, mãos, sangue.
Dois homens corriam em direção ao menino. Em disparada. Pareciam fugir de algo invisível. Do outro lado da rua, Alberto observava. Luigi, ao ouvir os desesperados passos, estagnou. Estava pronto para entrar em casa quando um dos estranhos tentou puxar a chave de sua mão. Por reflexo, a criança reteve o chaveiro. Ele, então, reagiu. A barriga do garoto ficou endurecida ao ser perfurada por uma faca enferrujada. Os olhos se cruzaram. Homem e menino. Os sonhos perdidos. Os desejos escondidos. Os brinquedos de ambos que ficariam para trás. Amor e ódio. Luz e escuridão. O objeto ficou cravado enquanto o assassino e o companheiro correram. O pai, sem ação, ouviu pessoas indo ao encontro de seu filho. O socorro não chegou a tempo.
Uma mão tocou o ombro de Alberto, que estava absorto. Seus dedos, agora doídos, ficaram travados. As pernas bambas. A respiração ofegante. O policial que o abordara precisava de detalhes sobre o menino e o crime.
— Podemos deixar isso para mais tarde? De que importa respondê-lo se tudo está acabado? — em respeito, o militar se afastou. Não queria interferir naquela dor. Sabia que, depois, teria mais tempo para compreender os detalhes da tragédia. Acendeu um cigarro. Não conhecia o pai do menino, mas sentia piedade e compaixão. Sua dor era indescritível. Ficou observando seus movimentos e passos em direção à esposa.
Alberto respirou fundo, mexeu os dedos novamente e se ajoelhou ao lado da esposa. Olhou ao redor. “De onde vieram estas pessoas? Eu não as notei. Por que estão todas concentradas em torno de uma história que não é a sua?”, questionava-se em silêncio. Todos se entreolhavam e pareciam macabramente curiosos. Ele captou sussurros, mas não conseguia traduzir em palavras.
“Soube que este foi o décimo caso do ano”, dissera uma senhora, de cabelos brancos enrolados em um coque desgrenhado. Luigi, agora, tornara-se número. Mais um para a estatística. Contagem progressiva que, dia a dia, assustava os moradores da região em que morava. Contagem regressiva para os pais da criança. De menino, ele se transformaria em capa de jornal.
Era setembro de 2002. Pela primeira vez, entrei naquele prédio preto e branco, na rua Carlos de Lacerda, número 75, de corredores extensos, que “pulsava” notícia. O meu coração batia no mesmo ritmo. Como era lá dentro? Em qual parte dele as reportagens, que eu lia diariamente em casa, ganhavam forma? A conversa com o diretor de redação, Aluysio Abreu Barbosa, durou poucos minutos. No dia seguinte, lá estava na sala da escuta, vencendo a timidez, apurando fatos que poderiam ou não estar no dia seguinte na edição da Folha da Manhã. Em uma rua cheia de história, começava ali a escrever um importante capítulo da minha história profissional.
A passagem pela escuta foi repleta de experiências e situações inusitadas! Teve o tradicional “trote”, feito pelos colegas da redação, as idas ao Mercado Municipal para verificar o preço dos produtos da cesta básica. Sem contar as notas de polícia, que virariam registros nas páginas na edição posterior. Em 15 dias, veio o convite de integrar a equipe de Política e Economia. Lembro quando o mestre seu Aluysio Cardoso Barbosa entrou na sala, me parabenizando e ressaltando o peso dessa editoria nos jornais do Brasil e do mundo. Na Folha da Manhã, é óbvio, não seria diferente. Os assuntos políticos tinham sempre destaque na primeira página. A partir daquele momento, em vez do microfone — eu sonhava em trabalhar em televisão — o gravador seria o meu principal instrumento de trabalho.
Mas a história tomou outro rumo e, em uma rua cheia de história, eu fui escrevendo a minha história profissional. No dia seguinte ao convite, um repórter da editoria de Geral se ausentou por motivo de doença. Fui convocado pela chefia de redação a fazer uma reportagem de bairro. Uma página inteira dedicada aos moradores de uma determinada região de Campos. Há 40 anos, a Folha da Manhã é a porta-voz do povo. Ali, a população tinha a chance de expor os problemas que enfrentavam no dia a dia. Com a ajuda do repórter-fotográfico, fiz a reportagem, que ganhou uma chamada de capa. Antes do lead, o meu nome: aquela era a primeira matéria assinada!
A transparência na cobertura dos fatos sempre foi um dos principais “mandamentos” da Folha da Manhã. Ouvir todos as partes envolvidas nas reportagens é a nossa obrigação e, a partir daquele dia, me tornei repórter da editoria de Geral. Como o próprio nome da editoria indica, a cada dia era uma experiência nova. Chorei com parentes de vítimas ceivadas pela violência na porta do antigo IML de Campos; fiz plantão em frente ao presídio Carlos Tinoco da Fonseca durante rebeliões; andei a cavalo para mostrar a enchente que destruiu o Noroeste do Estado; de barco no rio Paraíba do Sul, acompanhando o drama dos ribeirinhos; e a pé para conferir de perto a seca que rachava o solo nas fazendas em Morro do Coco, distrito de Campos. Lá, a nossa equipe acompanhou uma ladainha de São Pedro. Os produtores rurais pediam aos céus chuva para salvar o pasto, o gado, a própria vida. Em cada cobertura, ganhava a confiança e o respeito dos colegas. Na redação havia estudantes, como eu, jornalistas recém-formados e outros mais experientes, que eram verdadeiros professores. Em comum, o “sangue nos olhos”, característica que todo bom jornalista deve ter. Em uma rua cheia de história, eu seguia escrevendo a minha história profissional.
O ano de 2003 foi de total dedicação à faculdade. Época de conclusão de curso, a realização de um sonho. Fiquei longe da redação até 2004, quando veio o convite de retornar como repórter da Folha 2. Um novo desafio para um jovem repórter, até então acostumado a retratar o factual, o dia a dia, com pouca ou quase nenhuma emoção. Era preciso ir além: “mergulhei” no mundo das artes, dos livros. Foi ali o pontapé para a vida cultural intensa, que mantenho até hoje. Obrigado, Folha da Manhã! Em 2005, subi mais um degrau: assumi a editoria da Folha 2.
As conversas com o mestre seu Aluysio se tornaram mais frequentes, uma vez que deixei a rua e passei a ficar mais tempo na redação. Participar das reuniões de pauta diárias com os outros, o editor-chefe e o diretor de redação, Aluysio Abreu Barbosa, era sempre um aprendizado. Na sequência vinham a aprovação das pautas, a definição de qual repórter seria o responsável pelo conteúdo, a foto correta para ilustrar cada reportagem e o deadline imperdoável! No dia seguinte, estava lá, nas bancas, o resultado do trabalho em equipe. E eu, naquela rua cheia de história, eu fazia história!
Paralelamente ao trabalho na Folha da Manhã, em 2005, comecei a trabalhar em uma emissora de TV, com a aprovação do Aluysio. Ele sabia que o sonho de atuar no telejornalismo estava só adormecido. Às sextas-feiras, tinha o “pescoção”, era sempre um dos últimos a sair da redação da Folha da Manhã. Foram oito meses assim até que me dediquei exclusivamente à televisão. Naquela rua cheia de história — minha mãe e meus oitos tios nasceram e foram criados na rua Carlos de Lacerda, antiga rua do Rosário, a poucas quadras da Folha da Manhã — eu fiz a minha história no jornalismo impresso.
Levo comigo os ensinamentos da Folha da Manhã. Diariamente, ao chegar à redação da Record TV Rio de Janeiro, onde estou como editor-chefe, leio as notícias de Campos e região pelo Folha 1. Sim, essa “quarentona” não parou no tempo… se transformou, se modernizou! Mas os princípios do bom jornalismo continuam pulsantes. Obrigado, Folha da Manhã, por ter tido a chance de fazer parte desses 40 anos de história. Obrigado pelos amigos que fiz nessa empresa e que levo para a vida toda. Que seja o primeiro de muitos “entas”!
(*) Jornalista, ex-editor da Folha Dois e editor-chefe da Record TV Rio
Foi ainda no meu comecinho em jornal que acompanhei, tipo ‘expectador’, visita de contato publicitário do extinto jornal A Cidade a uma construtura local.
O assunto dizia respeito a edição especial de algum evento em que se sugeria a participação de empresas, entidades e órgãos públicos através de inserções publicitárias alusivas à ocasião.
No caso a que me refiro, da pessoa que acompanhei, não foi exatamente um contato. Mas, enfim, lá chegando, ouviu do dono da empreiteira – muito educadamente – que a construtura não tinha “maior interesse em fazer anúncio” porque não vendia nada ao público posto que só fazia obras para o governo, como pontes, estradas, pavimentação, etc. Mas que, “para colaborar”, poderia autorizar mensagem de espaço menor.
O representante do jornal, então, em breves ressalvas, observou que, ao contrário, por trás de cada pontilhão ou obra de saneamento autorizada pelo setor público, havia um veículo que lutara incansavelmente em favor desta ou daquela localidade, para que determinada benfeitoria fosse realizada. E concluiu enfatizando que empresas daquela natureza precisavam mais da Imprensa do que um anunciante varejista.
Na maior cordialidade, despediram-se, com o empreiteiro – aparentemente com outra visão – autorizando a veiculação sugerida que o jornal agradeceu, mas não publicou.
Toda essa volta foi para mostrar, num exemplo concreto, o quanto a Imprensa representa na vida de cada um e de todos – da cidade, do estado e do país –, para além do que “apenas” se mostra: notícia e opinião.
Quase não se percebe que um novo hospital ou posto policial, que uma creche ou universidade, que um conjunto habitacional ou o esgoto que chega numa comunidade, via de regra, viraram realidade graças ao empenho de órgãos de comunicação.
Isso sem prejuízo de seu ofício primário: 1) A notícia, que é comunicação do fato; 2) A interpretação, que é a qualificação da notícia através da explicação do fato; 3) A opinião, que é a orientação tendo em vista o interesse público.
As vezes, são necessárias páginas e páginas. Noutras, poucas palavras contam a história toda, como fez Elio Gaspari para ‘dizer tudo’ de Carlos Lacerda por ocasião da morte daquele que foi o mais brilhante líder da direita de sua geração, porém comunista ferrenho na juventude: “Carlos, como Marx, Frederico, como Engels, Werneck de Lacerda, Lacerda como só ele sabia ser, morreu ontem”.
Há 40 anos um jornalista diferenciado, visionário e idealista, Aluysio Barbosa, pensou em tudo isso, antecipou o futuro e criou a Folha da Manhã, que nas últimas quatro décadas representa, reivindica, cobra, informa, opina e orienta.
A TV Globo está veiculando uma chamada incentivando à população para se passar ao formato digital, tendo a cantora Anitta como protagonista, quem canta ‘prepara que agora é hora do mundo digital’. Quem parece não estar preparada é a Intertv, pois o seu sinal digital é o mais difícil de pegar dentre os canais abertos em Campos.
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Desconheço os detalhes da decisão do TCE que suspendeu a licitação da iluminação pública da prefeitura de Campos. No entanto, considerando que há vários meses uma parte considerável da cidade se encontra às escuras – e que essa parte vai aumentando a cada dia – não estaríamos numa situação típica para realizar uma contratação emergencial? Ou será que o conceito de emergência não abrange a população?
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Se bem a cidade está às escuras, tem que reconhecer que também está suja.
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Não deve existir um tipo de violência mais dissimulada do que obrigar o próximo a ouvir aquilo que não quer. Trata-se de prepotência fantasiada de falso entusiasmo musical. Com frequência situações envolvendo som alto acabam produzindo pequenas tragédias vizinhais. Nesse contexto, acho que a costume de algumas lojas de colocar uma caixa de som na porta do estabelecimento berrando suas promoções, seus jingles ou apenas o gosto musical do dono (que sempre é pobríssimo) uma atitude desprezível – e duvido de sua eficácia como instrumento de marketing. Eu, ao menos, costumo fugir de loja que tenha som na porta.
Os vereadores devem estar muito ocupados promovendo moção de aplausos, ou se preparando para a próxima eleição. Mas não há um que se disponha a propor um projeto de lei que elimine a barulheira das nossas ruas?
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O bairro do Flamboyant era o modelo urbanístico que deveria ter sido acompanhado pelo resto da cidade, se esta pretendia ser um pouco mais amável com seus habitantes. Terrenos generosos, arborização, limitação da altura das construções, vedação ao comercio e praças bonitas. Infelizmente, o que se vê nos últimos anos é uma tendência a transformar o Flamboyant num novo parque Tamandaré, com a instalação de prédios de mais de 10 andares – já tem um em cada praça, e a mesma empresa que fez ambos está começando um terceiro na rua Herculano Aquino. Tudo com a aprovação do poder público, aquele que preferiu construir um sambódromo inútil a um parque municipal.
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O cidadão latino-americano, acostumado ao paternalismo estatal, tem horror ao liberalismo e ao conceito do estado-mínimo – deve ser horror ao desconhecido, já que nunca experimentou o verdadeiro liberalismo, aquele que produz prosperidade nos países onde almeja emigrar. À guisa de exemplo, recente pesquisa revelou que 70% dos brasileiros são contra as privatizações. Preferem um estado onde são obrigados a passar a noite numa fila para conseguir fazer a matrícula do filho na escola pública, ou para marcar consulta no hospital, ou para fazer a biometria digital, ou para ser atendidos no INSS. E fazem essas longas filas pelo simples fato que o atual estado não da conta de atender a todos. Detestam o estado-mínimo, mas adoram o estado-insuficiente.
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E para não dizer que só reclamei, termino com a declaração de Catherine Deneuve e outras 99 francesas que se opõem ao que chamam de ‘novo puritanismo’ promovido por pelas estrelas de Hollywood, alegando que “A violação é um crime. Mas o flerteinsistente ou inconveniente não é um delito, nem o galanteio é uma agressão machista”. Entendem que “homens foram castigados e forçados a abandonarem os seus empregos quando tudo o que fizeram foi tocar no joelho de alguém ou tentar roubar um beijo”, e tiveram os seus nomes manchados por “falarem sobre temas íntimos durante jantares profissionais ou enviarem mensagens com conteúdos sexuais a mulheres” que não foram recíprocas nesses avanços. Para as francesas, trata-se de um movimento que alimenta um regresso à “ideia vitoriana de que mulheres eram meras crianças que tinham de ser protegidas”.
O exemplar primeiro da Folha exibe em primeira página um incidente – tempos depois as pessoas veriam – revelador de uma das manias mais deploráveis e repugnantes : o chamado, em linguagem de corredores de fóruns, “mal de juizite”. Lá, naqueles tempos, tempos difíceis, tempo de ditadura braba, de censura mais ainda, de se medir o tal “sabe com quem está falando ou mexendo?”, a planície não ostentava esse nível de intolerâncias, de ódios, do obscurantismo que afeta a cada dia mais cada qual de nós…
Por isso a importância da manchete de primeira página, que dava conta de um incidente envolvendo a OAB e um juiz que aqui aportou, trazendo em sua bagagem algumas arbitrariedades próprias de sua personalidade deformada, e que aqui teria uma barreira, o que acabou “funcionado”… Deu-se que, num processo penal, foram denunciados três cidadãos, cujas prisões preventivas o dr. Promotor pedia desde logo, e – pasmem – o advogado que vinha sendo seu procurador desde a fase de inquérito!
Note-se : o MP. não pediu a prisão do advogado. Que, no entanto, acabou sendo decretada, pelo juizeco… O fato despertou interesses gerais, foi levado à entidade da categoria que, imediatamente tomou as providências. Por acaso, este cara que agora aqui — com muita honra, escreve — era o presidente da OAB e logo nomeou dois dos melhores criminalistas locais, Yvan Senra e Jonas Lopes (falecido e, na época, meu vice presidente), para as providências cabíveis, em forma de “habeas corpus” que acabou em instância superior, concedido, tornado nulo o decreto de prisão e trancada a ação penal em relação ao profissional.
O hoje quarentão jornal, parido dos sonhos do Barbosão e cuidado com obsessiva competência por Diva, captou o quanto de insólito aquele episódio encerrava e, ao noticiar em primeira página, em destaque, acabou sendo inestimável aliado na luta que se tornou emblemática contra toda a forma de arbítrio… Quando se sabe que (alguns) magistrados não se limitam a julgar e avançam no pantanoso terreno de “combate” a essa ou aquela modalidade de delitos, é reconfortante se saber que, desde tempos passados, a prática era condenada, porque condenável, a todos os títulos e modos.
E, por aqui… Não sou chegado ao formalismo comum. Mas sinto necessidade irrefreável de dar a César o que de César é. E, assim, rememorando a luta da Ordem, a repercussão do fato e as consequências que a sociedade acompanhou passo a passo por estes espaços — elegi o relato agora feito como modo de somar meu aplauso/testemunho ao jornal. Ter sido “notícia” e — acima de tudo — ter sido “irmão”, até o final, do idealizador, amigo querido de infância e de aventuras na noite campista…
(*) Advogado, colaborador da Folha e amigo de infância de Aluysio Cardoso Barbosa (1936/2012)
O tempo passou, muitas coisas aconteceram ao longo desses 40 anos da Folha da Manhã, mas o carinho e respeito por essa escola continua. Cheguei à redação pelo mestre Orávio Soares de Campos, que era na época o chefe de redação que convidou-me para estagiar, logo no meu primeiro ano do curso de jornalismo, na Faculdade de Filosofia de Campos, em 1986. Gostava de chegar cedo e ler os jornais nacionais e locais, para quando recebesse minha pauta, tivesse noção do que estava acontecendo no mundo. É lógico, que não havia internet ou redes sociais. O mais moderno na época era fax da Agência JB que trazia as manchetes do país e internacionais.
Ali passava parte do meu dia; aprendi muito, adquiri conhecimento e responsabilidade com o que escrevíamos, pois aquelas páginas da Folha entravam diariamente em milhares de residências e estabelecimentos comerciais, levando informações com credibilidade, sob o olhar do então seu Aluysio Barbosa, “Barbosão”. Chegava por volta das 7h e não tinha vontade de voltar para casa. O trio, Jane Nunes, Edma Nogueira e Jô Siqueira, como seu Aluysio chamava, ficava parte do dia na redação. Ali, trabalhávamos, ríamos, chorávamos, conversávamos e sonhávamos. Seu Aluysio sempre gostou de conversar e dar conselhos e era atento a tudo que acontecia. Passei 10 anos da minha vida ali e tive o privilégio de trabalhar ao lado de profissionais de ponta como Aloysio Balbi, Aldefran Lacerda, José Carlos Nascimento, Luiz Mário Concebida, Angela Bastos, Marcia Angella, José Carlos Pereira, o “Caquinho”, Ricardo André Vasconcelos, Juscelino Lazaroni, Paulo Renato Porto, Antonio Leudo, Antônio Cruz, entre tantos colegas.
Tive a oportunidade de participar da festa de 15 anos da Folha da Manhã, com uma ampla programação na Igreja do Santíssimo Salvador. Ao longo desta década dedicada com muito orgulho ao jornalismo da Folha da Manhã, tive o privilégio de participar do lançamento da pedra fundamental da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), ao lado do antropólogo da educação Darcy Ribeiro e do então governador Leonel Brizola; assim, como da pedra que dava início à construção do novo Teatro Trianon. Todas essas experiências e muitas outras vividas na Folha da Manhã.
Saí oficialmente da Folha da Manhã no nascimento do meu filho Nelio Maria. Mas indiretamente, nunca deixei a Folha. De uma forma ou de outra sempre mantive a boa convivência com o Jornal que me deu base para prosseguir minha vida profissional. A Folha continua sendo uma grande escola. Depois de sete anos fora de Campos, retorno à cidade e com um contato profissional mais contínuo com os colegas e o jornalista Aluysio Abreu Barbosa, a quem respeito e agradeço pelo voto de confiança de sempre, assim como à dona Diva Abreu Barbosa e a Cristiano Abreu.
(*) Jornalista, ex-repórter da Folha e assessora de comunicação da Fundação Municipal dos Esportes de Campos
Em 15 anos de jornalismo, tem um aprendizado que me foi fácil absorver. Tem jornais pelos quais a gente passa, mas tem aquele que nos acompanha pra onde quer que a gente siga. Na minha história, a Folha da Manhã, diário onde iniciei minha carreira como jornalista, tem esse papel de destaque.
Era outubro de 2002 quando pela primeira vez pisei na redação por onde também já havia passado meu pai, Paulo Freitas, que fez parte dos primeiros times de repórteres do jornal fundado por Aluysio Cardoso Barbosa, em 1978. A porta se abriu pelas mãos do próprio Barbosa, que me apresentava para o cargo de revisor ao editor chefe, à época Antunis Clayton. Fiquei três meses.
Agosto de 2003, com meu primeiro filho recém-nascido, retornei à Folha, mas desta vez para, ousadamente, pedir a Aluysio Abreu Barbosa, diretor de redação, uma vaga de repórter no suplemento de cultura, a Folha Dois. Eu não tinha sequer o ensino médio completo e me lembro dele me perguntar: “Você sabe o que é um lead?”. Disse que sim e acertei na resposta. A convivência com meu pai tinha me ensinado alguma coisa, mas o que eu viria aprender nos anos seguintes…
A primeira lição de Aluysio foi: “Você pode escrever como Machado de Assis, mas isso não te faz um jornalista”. Deu-me como oportunidade um teste de três meses como estagiário. E, fato, vi que ele estava certo. Era preciso muito mais que escrever.
De lá pra cá, muitas histórias eu pude registrar, em tinta e suor, nas páginas não só da Folha da Manhã, mas de tantos outros veículos de comunicação pelos quais passei, entre os eles o Extra e O Globo. Contudo, não teria chegado a nenhum desses se não fosse o primeiro passo, a primeira oportunidade e aquela primeira lição.
Nesta celebração dos 40 anos da Folha, acho justo tornar público o sentimento que tenho ao ver o jornal atingir essa marca, ainda mais na atual conjuntura do mercado de comunicação do país, com redações despejando na rua funcionários por todos os cantos. O fato é que a história da Folha está de certa forma na história também de minha família, pois lá, como disse, também trabalhou meu pai, e da mesma geração dele, Ângela Bastos, que viria a ser tia do meu primo Alexandre Bastos. Anos e anos mais tarde, as portas e as páginas do jornal se abriram para mim e, posteriormente, para Alexandre.
Resumindo, a Folha da Manhã foi um sonho sonhado pelo saudoso Aluysio Barbosa, mas que se tornou, ao longo dos anos, o sonho de muitas gerações de jornalistas que ali se formaram, entre os quais tenho orgulho de estar inserido. Carrego e carregarei para sempre a gratidão pela oportunidade que me foi dada pelas mãos de ambos os Aluysios, dos quais carrego lições que me norteiam até os dias de hoje.
Não há outra forma de ser grato senão deixando registrado: parabéns, Folha, e meu muito obrigado. Vocês me permitiram ser quem sou, pois ser jornalista, para mim, mais que uma profissão é um conduta, uma missão de vida. E enquanto viver o jornalismo, que com ele viva a Folha… por muitos anos a mais.
(*) Jornalista e escritor, ex-editor de Folha Dois e Geral na Folha da Manhã, com passagens em Extra e O Globo