Atafona além do avanço do mar

 

Atafona, seus encantos e e suas ruínas, março de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Por Jéssica Felipe

 

Como falar de Atafona? Será mesmo um moinho? Quais os ventos que sopram por essas bandas? São as histórias de pescador, a memória do trem, o desastre ambiental ou a beleza do cotidiano que se esconde em meio ao caos?

Atafona, distrito de São João da Barra, fundada por um pescador em 1622, é mais conhecida pelo fenômeno natural do avanço do mar, que desde a década de 50 tem levado diversas ruas e casas na localidade. Guarda também o patrimônio ambiental de ser foz do rio Paraíba do Sul e cenário histórico da economia, com a era do trem. Já foi visitada por figuras ilustres, que sempre aparecem para pesquisar, gravar ou se tratar. Há também a areia medicinal e colônia espiritual, que marcam outros aspectos do lugar. Por Atafona, já passou até disco voador, contam os populares. Mas, o que há por de traz das ruínas? Como vivem as pessoas desse balneário?  Atafona vive, existe e resiste com seus sabores, cores e personalidades.

Um dos marcos da praia sanjoanense é o bolinho de aipim, servido no restaurante do Ricardinho, localizado ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Penha em Atafona. “Vir a Atafona e não comer bolinho de aipim do Ricardinho é como ir a Roma e não visitar o Vaticano”, expressou Carlos Augusto ao aguardar o tão famoso bolinho na mesa do restaurante.

O restaurante foi fundado em 1978 pela família de Ricardo Hissa, campista de coração atafonense, que escolheu o vilarejo para constituir sua família, seus amigos e empreendimentos. A receita veio da sogra do Ricardo, Minervina Pereira, que fazia os bolinhos em casa e passou os ensinamentos para filha Cristina, responsável até hoje pelo tempero do quitute.

Nem sempre o restaurante teve esse endereço, as primeiras versões, ficavam localizadas próximo ao Pontal e tristemente foram tomadas pelo mar. No atual endereço, o Ricardinho funciona há 20 anos.

Segundo a herdeira da receita, Camila Hissa, o bolinho não possui mistério. “É apenas a massa fresca do aipim, que não leva trigo e nenhum outro material de liga. A gente tempera e coloca o recheio, que também é fresquinho”. Camila, administra hoje o restaurante junto de seu esposo, o chef Lucas Miranda. O bolinho, antes só de camarão, carne seca e queijo, hoje sofreu algumas alterações, misturando recheios e recebendo deliciosos molhos, criações do chef Miranda.

Camila conta que o foco dos pais sempre foi trabalhar com pescados, por isso a preocupação atual do restaurante é manter a valorização dos produtos locais e serem reconhecidos pela especialidade em frutos do mar. Além de manter viva a memória do chefe da família. “Muitas pessoas vêm para Atafona para ver o que aconteceu e acabam escolhendo o lugar para gastar seu dinheiro, passar as férias. Atafona tem vida, se não tivesse, ninguém moraria aqui. O que aconteceu é triste, têm muitas histórias e lembranças envolvidas, mas trabalho segue”.

 

 

Amaury nas ruínas de Atafona (Foto: Amaury Albinante)

Ruínas servem de cenário para fotografias

A arte e poesia também podem ser respiradas no litoral sanjoanense. “Fazer as pessoas refletirem sobre si mesmas e sobre o lugar onde vivem”, essa é a tradução do artista contemporâneo Amauri Albinante, mais conhecido como Anjo Amauri, que utiliza da arte da fotografia para expressar suas emoções, crenças e ideologias. “Eu sei que para uns pode ser uma coisa triste e talvez desesperadora essa questão do avanço do mar que ocorre aqui. Mas para mim, que sou artista, desde sempre, todo esse caos me inspira. Eu consigo ver arte, beleza e poesia em meio a tudo isso que, especialmente também gosto de chamar de confusão. É uma fonte inesgotável de inspiração”, diz o fotógrafo amador.

Amauri, de 31 anos, é nascido em Nova Iguaçu, mas desde 94 tem São João da Barra como sua cidade mãe. Mesmo atualmente não morando em Atafona, é por esse local que o artista possui um apego em especial. Ele não gostava de foto, de tirá-las e nem de ser fotografado, muito pelo sentimento de preconceito que sofria, por ter uma deficiência no membro superior.

Atualmente, as ruínas de Atafona servem cenário para suas fotografias.  O artista diz que consegue ver a arte, beleza e poesia em meio a tudo que tem acontecido. “As pessoas dizem que a natureza está errada. Mas e se ela estiver certa? Não somos nós que estamos sempre querendo tomar conta e posse do que de fato, sempre foi dela?”, opinou ao acrescentar que outros locais, como o balneário de Atafona, também servem de inspiração.

Sobre Atafona, Amauri deseja que essa situação da erosão marítima desperte mais atenção para a localidade, não só no sentido do problema em si, mas também para outras questões, como assistência básica e recursos públicos.

 

 

Nico em seu bar (Foto: Jéssica Felipe)

 

Criatividade de bar atrai olhares curiosos

“É uma mistura de roça e praia”. Com sorriso largo no rosto é assim que Nico define Atafona, lugar que escolheu para viver há 4 anos. Dono do bar mais criativo do distrito, ele se tornou uma poesia viva, por valorizar coisas simples e tratar quase tudo como arte.

Nico, atualmente com 46 anos, é um cara simples, que apesar de possuir ensino técnico, escolheu viver de forma independente e criativa. Antes de se fixar em Atafona, Nico administrava um bar em Campos. “Minha irmã tinha um terreno aqui (em Atafona), que acaba sendo meu também porque sempre nos demos muito bem. Então, eu vim para cá e comecei a colocar tudo do meu jeitinho. A ideia era manter o bar com todas as coisas que eu já havia feito”, contou Nico, que mora hoje na estrada da Imbiribeira, nos fundos do Balneário. “Essa estrada é linda. Quando cheguei aqui, coloquei a placa com o nome dela e fui montando minhas coisas. As pessoas estranharam (algumas estranham até hoje), mas muitas admiram e eu recebo muitas visitas. Tenho muitos amigos, até mesmo as pessoas que me conheciam de Campos”.

Para ele, Atafona tem memórias de situações muito tristes, de perdas, que ele mesmo já viveu (como por exemplo, o Pontal). Mas o que importa para o artista é a paz que o lugar o permitiu, é assim que Nico escolheu viver e espera retribuir.

 

 

Bolinho do Ricardinho, iguaria de Atafona (Foto: Jéssica Felipe)

 

Movimentos defendem recuperação de orla

O mar de Atafona continua avançando e muitos estudos sobre o tema foram realizados. Recentemente, o ex-deputado estadual Roberto Henriques, em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias, apresentou ao governo municipal o Projeto de Recuperação da Orla da Praia de Atafona, processo que ainda está em avaliação. Em abril deste ano, a vereadora Sônia Pereira (PT) chegou a uma indicação ao poder Executivo, solicitando cópia do projeto apresentado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias (INPH) para a recuperação da orla de Atafona. O objetivo, segundo ela, é analisar o material com os demais vereadores e tentar obter recursos com o governo federal para realização.

Movimentos sociais, como o SOS Atafona, fortalecem a luta de moradores e admiradores da praia, em prol de minimizar os impactos e exigir atenção por parte dos órgão públicos, para que Atafona não perca mais do que já perdeu. O movimento SOS Atafona, de cunho voluntário e social, existe há dois anos com a participação espontânea de moradores e utilitários da praia sanjoanense, com o objetivo de resgatar as condições de vivência no local. “Atualmente a prioridade do grupo tem sido a retirada da areia, mas há outros interesses, como a valorização da pesca artesanal, que fazem parte da bandeira de luta”, disse o advogado Geraldo Machado, que faz parte do movimento.

Enquanto isso, “bolinhos” vão  consagrando a história dessa terra, que quanto mais perde, mais luta, mais cria, mais vive!

 

 

Página 6 da edição de hoje (21) da Folha

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

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Marcão: vereadores da Chequinho, CPIs da Lava Jato e das Rosas, e Previcampos

 

Por Aldir Sales, Aluysio Abreu Barbosa e Suzy Monteiro

 

Ao longo dos anos, a Câmara Municipal de Campos teve vários presidentes. Nenhum deles, no entanto, esteve à frente de uma Casa cercada de tantas incertezas quanto Marcão Gomes (Rede). Nesta entrevista feita na última quinta (18), o presidente do Legislativo goitacá anunciou que já publicaria no dia seguinte (sexta, 19), em Diário Oficial, a autorização para o retorno de quatro vereadores da Chequinho: Thiago Ferrugem (PR), Vinícius Madureira (PRP), Jorge Magal (PSD) e Roberto Pinto (PTC). Os outros seis igualmente eleitos e condenados pela troca de Cheque Cidadão por voto, terão, no entanto, que esperar que a Justiça Eleitoral esclareça qual é o capítulo da vez nessa complicada novela jurídica. Mesmo que os 10 assumam, Marcão acha que a maioria governista não só será mantida, como ampliada. Ele também não vê interferência dessas mudanças nas CPIs da Lava Jato e das Rosas, grande temor garotista, e anuncia a demanda de investigação parlamentar também sobre o quadro “escabroso” deixado no PreviCampos.

 

(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Folha da Manhã – A Câmara foi eleita em outubro. Ela não foi a mesma da diplomação em dezembro, que foi diferente da que assumiu janeiro, modificada em abril, com a entrada de Marcos Bacellar (PDT), e agora em maio parece ser outra, com uma decisão do TSE na última terça-feira e outra de extensão, na quarta, pela 100ª Zona Eleitoral de Campos. Como é que você vê, até aqui, a configuração da Câmara de Campos?

Marcão Gomes – A configuração se dá em total instabilidade política em relação a esse “escandaloso esquema”, nas palavras da Justiça. Inclusive, sendo fundamentado nas sentenças que acompanhamos do juízo até agora e que a gente já imaginava que iria acontecer desde o momento que soubemos da participação de dezenas de políticos num suposto crime praticado contra a ordem pública municipal, utilizando recursos da máquina pública municipal para poder obter vantagem nas eleições de 2016. Desde o período das eleições isso já tinha sido objeto de denúncia minha, inclusive na tribuna da Câmara, onde eu, à época vereador de oposição, cheguei a ser abordado nas ruas por pessoas me pedindo para arrumar um “chequinho”. E eu fui à tribuna e falei: “olha, gente, está acontecendo algo estranho”. Eu expliquei para as pessoas que para conseguir o Cheque Cidadão elas deveriam ter sofrido uma avaliação da situação jurídica delas, da situação de como elas compõe a renda familiar, para saber se elas podem ou não podem ter acesso a um programa social. Cheguei a relatar que estava acontecendo algo muito estranho, quando o Ministério Público, a Polícia Federal acabaram, posteriormente, desbaratando esse grande esquema de compra de votos que acabou resultando em prisões de políticos e servidores públicos e redundando em tudo isso que a gente tem acompanhado hoje. A gente já imaginava que essa legislatura já seria difícil e conturbada. Nós já nos deparamos com isso logo no primeiro dia. No dia da posse, em 1º de janeiro, quando inicia um novo mandato e na diplomação, quando seis dos vereadores não foram diplomados.

 

Folha – Quando a gente fala em vereador da Chequinho, imagina o grupo dos 11 eleitos juntos. Um deles não volta mais, que é Cecília Ribeiro Gomes (PT do B), que saiu após a validação dos votos de Bacelar. O primeiro grupo é dos não diplomados em dezembro, que são Thiago Virgílio (PTC), Ozéias (PSDB), Kellinho (PR), Jorge Rangel (PTB), Linda Mara (PTC) e Miguelito (PSL). Foram eles que receberam habeas corpus criminal do TSE na última terça-feira. E tem outro grupo, que tomou posse e depois saiu, com quatro vereadores: Vinicius Madureira, Jorge Magal, Roberto Pinto e Thiago Ferrugem. Embora acusados do mesmo crime, são dois grupos diferentes com dois trajetos jurídicos diferentes. Esse primeiro grupo de seis volta?

Marcão – Além dessa decisão cautelar do juízo da 100ª Zona Eleitoral, existe uma outra decisão da 99ª Zona Eleitoral que também impedia desde dezembro a expedição do diploma para esses seis vereadores. Primeiro em uma decisão liminar, em dezembro do ano passado, e agora em sentença em 2017 do juízo da 99ª Zona Eleitoral, que é objeto de recurso no TRE na área cível-eleitoral.

 

Folha – Então são dois impedimentos. Eles conseguiram o habeas corpus para o primeiro impedimento. No seu entendimento, o segundo impedimento permanece?

Marcão – No meu entendimento, enquanto não houver um posicionamento oficial das cortes superiores, permanece. Existe uma sentença do juízo da 99ª Zona Eleitoral impedindo a diplomação desses seis vereadores. Então, no meu entendimento jurídico, sou advogado, e no entendimento jurídico da procuradoria da Câmara, nós só nos manifestaremos em termo de posse em relação a esses seis após uma notificação oficial dos tribunais eleitorais a respeito da decisão da 99ª Zona Eleitoral. Da própria 76ª, da 99ª e do próprio TRE, já que isso está em grau de recurso. E saber do TSE se a decisão que houve do habeas corpus é extensiva. Se isso não está claro no mundo jurídico, não posso aqui na Câmara inventar. Eu tenho que ter segurança jurídica para as minhas ações como presidente. Pelo princípio da prudência e segurança jurídica, só vou me manifestar convocando esses vereadores para a posse após o tribunal sinalizar que eles também estão livres da decisão que os sentenciaram de não serem diplomados pela 99ª.

 

Folha – Quando isso será resolvido?

Marcão – Possivelmente na semana que vem (nesta que se inicia). Enquanto nós não formos oficiados, ninguém nos provocar para a questão de posse…  As partes interessadas têm que nos provocar, seja os vereadores, seja propriamente o juízo do TSE, encaminhando para o poder legislativo uma determinação, para que aí eu possa dirimir a dúvida. Se eu não for provocado, não tenho que me manifestar. Hoje temos, de forma certa, que o grupo de quatro vereadores que já foram diplomados e afastados por uma decisão no curso do mandato, pela 100ª Zona Eleitoral, vão ter a publicação no Diário Oficial de amanhã (sexta-feira, 19) para retornarem a seus mandatos. Eu não preciso dar posse a eles. Eles já prestaram seus compromissos de posse, já entregaram todos os documentos na Câmara e apenas retornam ao mandato. No dia de hoje (quinta-feira, 18), já comuniquei aos três vereadores, a Josiane Morumbi, Roberta Moura e Beto Cabeludo, da minha decisão. O quarto seria o Thiago Godoy, que preferiu não assumir, então não precisei notificá-lo.  Notifiquei os três vereadores que retornarão os titulares, por decisão da 100ª Zona Eleitoral, e que a partir de amanhã (sexta-feira, 19), eles são novamente vereadores e os suplentes voltam a ser suplentes. E eu só vou me manifestar sobre os seis quando tiver uma segurança jurídica de que a decisão da 99ª Zona Eleitoral foi alcançada pelo habeas corpus. Se eu não tiver essa certeza jurídica, não darei posse.

 

Folha – É uma novela jurídica difícil de interpretar. A expectativa é de que com a entrada de novos elementos, falando dos quatro que já estão de volta, você tem dois de oposição e dois de base: Magal e Roberto Pinto no governo, e Madureira e Thiago Ferrugem no outro lado. Você acha que esquenta o clima com esses quatro e o clima tende a esquentar ainda mais se os outros seis voltarem?

Marcão – Acho que é natural que, quando aumenta uma bancada que se dirige contra a base do governo, que o clima possa esquentar. Mas, ao mesmo tempo, como tenho dito, é preciso ver o momento de dificuldade em que o município passa. Dificuldade e crise financeira provocada, inclusive, pela gestão anterior, da qual os vereadores da oposição representaram e continuam representando dentro da Câmara quando fazem oposição, não ao governo Rafael Diniz, mas fazem oposição a Campos. Se eles forem fazer uma análise da destruição, do caos financeiro provocado pela gestão anterior, primeiramente eles teriam que analisar suas ações antes de se colocarem contra a cidade. Quando se coloca contra o governo Rafael, hoje, está se colocando contra o município. Ele herdou R$ 1,3 bilhão da dívida da “venda do futuro”, mais um passivo enorme deixado por fornecedores. Quanto à “venda do futuro”, a justificativa do prefeito anterior em exercício, que não era a prefeita, era o Anthony Garotinho, dizia que era para concluir as obras e pagar aos fornecedores. Ele não pagou aos fornecedores e não concluiu as obras. Deixou as obras paradas e os fornecedores com dívidas para serem pagas pelo próximo governo e ainda a dívida bilionária com a Caixa Econômica Federal. Primeiro tem que fazer uma análise disso. Arrombaram as contas previdenciárias. Foi uma série de atropelos e de má administração cometidos anteriormente. Eles não podem querer entrar na Câmara esquentando o debate, até por que a base do governo está preparada para esse debate. Preparada, inclusive, para discutir a forma de ingresso desses vereadores e como existe uma série de denúncias, de ações, seja na esfera eleitoral e na penal.

 

Folha – Dizer que quem está contra o governo Rafael está contra Campos não é maniqueísta demais?

Marcão – Não, não é. No momento em que nós vivemos, de um governo que trabalha de forma austera, de forma transparente, de um governo que arrecada cerca de R$ 90 milhões por mês e tem um custo fixo de R$ 140 milhões, trabalhando desde janeiro com um déficit aproximado de R$ 50 milhões, reduzindo contratos, reduzindo folha de pagamento. Quem faz oposição a esse governo… Se fosse um governo que estivesse nadando em recursos, uma cidade que estivesse faturando, como chegou a faturar no governo Rosinha cerca de R$ 2,6 bilhões de orçamento. Se nós estivéssemos nessa fase, eu poderia estar sendo maniqueísta, poderia estar polarizando.

 

Folha – Por  essa sua linha de raciocínio, qualquer um que tivesse vencido a eleição não poderia sofrer oposição.

Marcão – Não é não sofrer oposição. Mas que a oposição seja construtiva, que possa ajudar ao município.

 

Folha – Você e Rafael foram oposição construtiva?

Marcão – Nós fomos, quando apontei e falei para Rosinha Garotinho: “Olha, Rosinha, não contrate a Expoente gastando mais de R$ 40 milhões porque conseguimos livros gratuitos e de melhor qualidade ali no MEC”. Eu estava apontando um caminho e que foi adotado agora pelo atual governo. Com quase custo nenhum, conseguimos construir projetos importantes, como o Via Esporte, que foi uma ideia que tive lá atrás. Para fechar a Arthur Bernardes aos domingos para a prática de atividades esportivas para a população. E ela não ouvia as boas ideias.

 

Folha – Ela? Você não disse que o prefeito de fato era ele?

Marcão – Era ele, mas em exercício era ela. Eles, na verdade. Os Garotinho não ouviam. Quando eu apontei um caminho, criando um projeto de fundo de reserva de royalties, quando o município arrecadava mais de R$ 2,5 bilhões, eu falava: “olha, prefeita, olha, senhor Garotinho, a gente precisa guardar um pouco dos royalties nesse momento de bonança para termos aonde recorrer em um momento de dificuldade”. Se eles tivessem me ouvido, não teria pedido empréstimo à Caixa Econômica Federal e ter deixado dívidas bilionárias para a atual gestão. Então, isso é fazer oposição construtiva. É você mostrar o que está errado e apontar o caminho certo. Mas eles fazem oposição a pessoas. Única e exclusivamente a pessoas. O que a oposição discute é o motivo pelo qual Rafael Diniz escolheu, por exemplo, determinado secretário e não outro. Estão fazendo oposição às nomeações do prefeito Rafael Diniz para formar seu estafe. Qual outra oposição que eles fazem? Não enxerguei. Tem que estar de mãos dadas para ajudar a cidade superar esse momento de dificuldade. Quando nós encontramos a gestão da Rosinha, eu e Rafael Diniz fizemos oposição a um governo pré-existente de quatro anos. Nós encontramos, no início da Legislatura de 2013, um governo pré-existente de 2009 a 2012, aonde a gente tinha como mostrar oposição à Expoente, às obras da Beira Valão, que gastaram milhões de reais para um abajur de detritos. Oposição a uma obra desnecessária do Cepop, de cerca de R$ 100 milhões, oposição efetiva da contratação da Emec.

 

Folha – É óbvio que, entrando os quatro ou os 10, o objetivo deles será as CPIs da Lava Jato e das Rosas, sobre a Emec. Se entrarem os 10, muda a proporcionalidade das bancadas na constituição das CPIs. Eles podem arguir uma adequação e você, por regimento interno, é obrigado a rever. Na CPI da Lava Jato tem Genásio (PSC) na presidência e José Carlos (PSDC) como relator e na das Rosas, Fred Machado (PPS) como presidente e Cláudio Andrade (PSDC) como relator. Isso muda?

Marcão – Em minha opinião, não tem necessidade de sofrer alguma alteração. Só se houver pela vontade dos vereadores que ali estão, caso eles prefiram não participar nessas posições. Essa é uma decisão que tomamos conjuntamente. No nosso regimento interno diz que o autor do requerimento automaticamente assume a presidência. Fui o autor do requerimento da CPI da Lava Jato na legislatura anterior, que foi arquivado. Nesta legislatura, o autor foi Genásio. E enquanto presidente, não participo das CPIs. O nosso regimento também fala em proporcionalidade dos partidos, mas temos um número muito grande de partidos políticos. O PR é um partido, pode ter direito a uma vaga, mas a escolha é da presidência para a relatoria.

 

(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Folha – Quando as CPIs começam a funcionar?

Marcão – As CPIs vão ser instauradas ainda. Temos que obedecer ao passo a passo do nosso regimento interno. Primeiro, é a coleta de assinaturas para atingir um número mínimo de edis para tornar o requerimento apto. Isso já foi feito. A legislação diz que essas CPIs precisam cumprir alguns requisitos. E quem diz se cumpriu cada passo dos requisitos é a procuradoria da Casa. Agora ela está na procuradoria que vai me devolver com o parecer, provavelmente, no início da semana. A procuradoria tem trabalhado muito. Temos dezenas de processos oriundos do concurso público de 2012 que a presidência anterior resolveu arrastar por quatro anos. Isso caiu tudo no meu colo quando assumi a presidência. Estamos trabalhando em centenas de processos judiciais e todos com prazo para serem cumpridos. A procuradoria dando um parecer positivo, vamos instaurar e iniciar os trabalhos com prazo determinado, que pode ser de até 180 dias, segundo nosso regimento interno. Na semana que vem já devemos ter a instauração dessas CPIs e o começo de trabalho dessas CPIs.

 

Folha – Qual a sua opinião pessoal, já que requereu uma delas na legislatura passada, sobre o objeto de ambas?

Marcão – Primeiro, vou falar sobre a CPI das Rosas. Tomei conhecimento de indícios fortíssimos de que houve um conluio na licitação para que o objeto fosse entregue a uma determinada empresa, a Emec, no caso. Fraude em licitação é crime, previsto na Lei de Licitações. E pelas provas apresentadas até o momento dos processos que foram requeridos pela Câmara para a instauração dessa CPI, e aí a comissão vai se aprofundar mais com a orientação dos advogados. Tende a ter ocorrido, de fato, uma fraude em licitação, uma combinação de resultados para beneficiar uma certa empresa, o que me parece ter ocorrido de forma idêntica na CPI da Lava Jato, onde os fatos são muito mais graves.

 

Folha – Inclusive com a confissão dos dois executivos da Odebrecht que assinaram o contrato com Rosinha e participaram da “delação do fim do mundo”: o Benedicto Barbosa da Silva Júnior e o Leandro Andrade Azevedo.

Marcão – Exatamente. E nesses os fatos parecem ser muito mais graves. Inclusive queremos convocar, nós como Câmara de Vereadores, logicamente que isso não vai ser uma decisão minha, presidente da Câmara, mas como já conversei com Genásio, a vontade é de ouvir o Leandro e o Benedicto, porque eles mesmos confessaram que houve combinação de resultados, que a única empresa que poderia ter vencido o certame seria a Odebrecht. E isso também é crime. E eles falaram mais, que entregaram via caixa 2 de campanha milhões e milhões para as campanhas de Rosinha e Garotinho. Alguns falam, nas delações, que já superaram os R$ 20 milhões, entre caixa 2 e doações para campanhas. Precisa ser apurado também, mas o objeto da CPI vai ser única e exclusivamente as obras. Se a quantidade de casas contratadas foi entregue, se o que foi pactuado no contrato foi entregue, se os valores estavam adequados ao mercado, se houve combinação e fraude na licitação, como me parece ter havido.

 

Folha – Na última sessão (quarta-feira, 17), você falou que a auditoria da PreviCampos já estaria pronta e seria apresentada até amanhã (segunda-feira, 22) e até usou a palavra “escabroso” para comentar sobre os resultados. Você já teve acesso ao relatório? O que podemos esperar dessa auditoria?

Marcão – Na verdade, vou deixar claro que o adjetivo “escabroso” é meu. Isso foi mediante uma consulta que fiz ao secretário de Transparência e Controle, Felipe Quintanilha. Quando conheci o requerimento de informação do vereador Marcos Bacelar durante a sessão, tive a preocupação de ligar para saber como estava andando a auditoria interna promovida pelo Executivo na PreviCampos. Liguei para o Quintanilha e perguntei se já estava concluída ou em andamento. Eu provoquei, em outubro do ano passado, o ministério da Previdência e Assistência Social para que Brasília também encaminhasse auditores para poder auditar as contas do PreviCampos. Existem duas auditorias em andamento. A auditoria interna, já foi concluída, e a auditoria do ministério da Previdência e Assistência Social, que está em curso. Quando falei por telefone com o secretário ele me falou: “olha, presidente, os resultados aqui são bem complicados. E vamos ter que solicitar uma auditoria externa para confirmar esta auditoria interna, porque foi de assustar”. Como ele falou comigo que foi “complicado” e “de assustar”, fui à tribuna, onde informei ao vereador Marcos Bacelar que a auditoria interna já havia sido concluída e os resultados foram “escabrosos”. Não tive, ainda, acesso ao relatório, mas já solicitamos para que o Controle encaminhasse à Câmara e eles estão conduzindo esse relatório análise da nossa Casa. Assim que chegar, vou poder dar um parecer mais técnico a respeito da auditoria.

 

Folha – E existe uma previsão para a chegada desse relatório?

Marcão – Acredito que no início da semana (desta que começa) já tenhamos conhecimento. O vereador Marcos Bacelar, que foi autor do requerimento, me pediu para que conduzisse o relatório a seu gabinete para análise. E vamos distribuir não só para Bacelar, mas para todos os demais vereadores.

 

Folha – Tem informação sobre outras auditorias do Executivo?

Marcão – Sei que está tendo uma grande análise em várias pastas, mas a auditoria específica que tive conhecimento foi no PreviCampos. Logicamente que quando a nova gestão entra, até para poder se resguardar, precisa tomar conhecimento de todos os atos praticados pela gestão anterior. Isso indica que, além das CPIs requisitadas pelos vereadores, nós tenhamos outras, como a da PreviCampos, onde também existem indícios de irregularidades da gestão anterior.

 

Folha – Você falou em início da semana para várias coisas. Parece que vai ser tumultuado.

Marcão – Início da semana bem tumultuado. E tende a ter um segundo semestre de legislatura ainda mais forte em relação a indícios de irregularidades, de crimes cometidos. A nossa cidade deve vir à tona, acredito, através de delações que estão acontecendo no âmbito do Tribunal de Contas do Estado (TCE), onde muita coisa pode ser esclarecida, inclusive para a Câmara poder tomar conhecimento também. Alguns vereadores estão solicitando revisão de contas aprovadas da gestão da prefeita Rosinha com fortes indícios de que pode ter havido manipulação no TCE. Demanda evidências, mas elas podem surgir a partir de uma dessas CPIs.

 

Folha – Você falou anteriormente do Bacellar. Você e Rafael são de uma mesma geração, Bacellar é de outra, inclusive de uma legislatura anterior a de vocês. Ele tem um estilo bastante veemente. Como está sendo o convívio com esses estilos?

Marcão – Está sendo muito tranquilo. O vereador Marcos Bacellar sempre teve meu enorme respeito enquanto sua atuação parlamentar e depois, afastado da vida pública, resolveu não concorrer na eleição de 2012, quando eu concorri. Sempre achei o trabalho dele muito combativo, não só enquanto vereador, mas também como sindicalista. Sempre teve um jeito muito peculiar de fazer política, muito duro ao utilizar a tribuna, colocando firmemente seus posicionamentos. Eu também atuo dessa maneira, mas com um estilo diferente. Ele é mais veemente, eu sou mais irônico. Ele costuma se embasar para suas colocações, eu também. Não subo à tribuna sem ter certeza absoluta e provas cabais daquilo que estou falando. Nós temos um estilo parecido e o relacionamento tem sido muito positivo. Não só meu, mas do vereador Fred Machado (PPS), líder do governo. Ele (Bacellar) subiu à tribuna outro dia para elogiar a forma harmônica do trabalho do líder do governo, de como estamos convivendo na Casa e conduzindo os trabalhos e a relação independente dos Poderes.

 

Folha – Ainda sobre Bacellar: é melhor tê-lo a favor do que contra?

Marcão – Lógico. Bacellar é um grande vereador. É um camisa 10. Se tem um craque na política, como tem no futebol, é melhor que jogue no seu time do que no time adversário.

 

Folha – E ele, assim como o G5, originariamente não são da base governista, e, assim como Roberto Pinto e Magal, aparecem como fieis da balança. A maioria segura de qualquer parlamento são dois terços. Entrando esses 10 vereadores, o governo fica exatamente com 17. Se perder um, ficaria sem os dois terços. Pode haver a tendência em cada um achar que seu “passe” está valorizado. Em que termos vão ser feitas essas negociações?

Marcão – As negociações políticas e republicanas, que é o que o prefeito Rafael Diniz não abre mão de fazer. Eu enquanto presidente da Câmara, da mesma forma. Para mim, não existe vereador independente, de oposição ou da base. Para mim, existem vereadores. Eu trato de forma igual a todos os vereadores. O que eu ofereço de trabalho para os vereadores, seja nas comissões, no plenário, são as mesmas condições para a base, da oposição e os que se declaram independentes.

 

Folha – Mesmo que entrem os 10, você acha que a maioria continua?

Marcão – Acredito que essa maioria permaneça e aumente. Eles vão conhecer o nosso estilo de trabalho, que é diferente, não ditatorial, de diálogo. Tenho relatos de vereadores que foram da base do governo anterior que dizem que em quatro meses de mandato, conversaram mais com o prefeito do que nos oito anos anteriores. Lá, a prefeita e o prefeito de fato marcavam para receber às 8h e deixavam esperando em uma sala para, se quiserem atender, iriam atender apenas às 22h, 23h, em um total desrespeito a essa relação de diálogo entre base no Legislativo e o Executivo. O prefeito Rafael Diniz age totalmente diferente. Ele se reúne constantemente com os vereadores de sua base, ouvindo as demandas, o que eles têm a oferecer no seu bairro, no seu distrito, no seu reduto político. Quais são os problemas que eles estão sofrendo, o que eles sentem que a comunidade está ansiando para poder ser suprido. Essa relação de diálogo promove um diferencial. A relação que tínhamos era ditatorial. Cheguei a escrever um artigo na Folha da Manhã dizendo que a prefeita mais parecia uma rainha do que uma prefeita. Lá do alto de seu castelo ela mandava ordens e queria que todos os súditos, seja população ou vereadores, obedecessem a essas ordens. Nós dialogamos de forma republicana, conversamos com todos. A ocupação do espaço político é natural, mas não ocorre prostituição nessa relação, algo que a gente via que acontecia anteriormente.

 

Folha – Você e Fred Machado citam bastante a transparência e citam episódios de pedidos de informações não respondidos pela última gestão. Com a volta de quatro vereadores e, possivelmente dos outros seis depois, qual vai ser a atitude da Câmara com os pedidos de informação da oposição?

Marcão – As atitudes serão de aprovações dos pedidos de informação. Primeiro que a Lei do Acesso à Informação está completando cinco anos, e isso deixa de ser apenas um atendimento e passa ser uma obrigação à legislação, é um dever do político em fazer uma gestão transparente, de prestar contas daquilo que ele está fazendo, dos seus atos. Isso é uma exigência da população e acho muito positivo. Inclusive, há de se elogiar a atitude do TRE que vem mantendo propagandas na mídia para falar: “olha, eleitor, as eleições foram em outubro de 2016, agora cabe a você fiscalizar o trabalho do prefeito e dos vereadores que você elegeu”. Essa constante cobrança faz com que o gestor público viva um momento diferente. Um momento de procurar ser transparente em suas ações o tempo todo. Isso faz com que a população receba um serviço de melhor qualidade. É importante não só no aspecto de se obedecer a lei, mas para gestão, de informar para o contribuinte, que é o cidadão que merece todo o respeito de quem está no poder, em prestar contas sistematicamente.

 

Folha – Uma fonte muito próxima a você disse que sua candidatura a deputado estadual está definida. Está?

Marcão – Nossa candidatura, na verdade, está à disposição ao grupo político do qual pertenço para o ano que vem. Temos a liderança política do prefeito Rafael Diniz. Obviamente temos a preferência de escolher o posicionamento entre deputado estadual ou federal. Se me perguntarem: “vereador Marcão, qual é a sua preferência: candidatura a deputado estadual ou federal?”. Eu vou dizer que minha preferência é pela candidatura a deputado estadual. Pela proximidade, por ficar perto da base, questões familiares e políticas. Além de ter um filho de 10 meses, tenho uma mãe que tem uma certa idade, que depende da minha assistência. Tenho a questão eleitoral, de neste momento de dificuldade da minha cidade, estar mais próximo da minha base eleitoral, ajudar a construir soluções de forma mais rápida para o município. Então tudo isso me faz pesar e ter a preferência pela candidatura a deputado estadual. Mas quero deixar claro, e isso é importante para mim, deixar claro para a população de Campos, que eu não estou preocupado com as eleições de 2018. Estou totalmente focado em meu mandato na Câmara de Vereadores, na presidência da Câmara.

 

Folha – Estadual ou federal, você pode concorrer e ganhar. Quem é a pessoal indicada para assumir a presidência da Câmara?

Marcão – Na minha opinião, temos dentro do grupo político ao qual pertenço, vereadores que podem se candidatar, como o vereador Fred Machado, por exemplo. É um vereador que faz parte da base e pertence ao partido do prefeito. O vereador Abu (PPS), que também faz parte da base e pertence ao partido do prefeito. Tem os vereadores José Carlos e Genásio. Não sabemos a condição partidária do vereador Abdu Neme, que ainda pertence ao PR. Uma série de vereadores que têm bastante experiência. Tem o vereador Bacelar, que já foi presidente da Câmara. Mas isso vai ser debatido no momento oportuno, ao final do segundo biênio dessa nossa legislatura. A base tem que estar sólida. Se as coisas forem bem conduzidas e bem conversadas, não há motivo para racha. A ausência de diálogo é que pode causar algum tipo de racha político.

 

 

Página 2 da edição de hoje (21) da Folha

 

 

Página 3 da edição de hoje (21) da Folha

 

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

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Crítica de cinema — Rei Arthur repaginado com pedido de bênção na orelha cortada

 

 

 

 

 

 

“Rei Arthur: a lenda da espada” – Desde as histórias de cavalaria da Idade Média, o mito arturiano sempre foi muito popular, dentro e fora da Grã-Bretanha. Ele se baseia em nebulosos fatos históricos, onde teria existido a figura de um Artorius (Arthur, em latim), mais um líder bretão do que propriamente um rei, que teria resistido em batalha às invasões das tribos germânicas dos anglos e saxões. Os fatos teriam se dado deram entre os séculos V e VI, justamente na passagem da Antiguidade à Idade Média, marcada pela queda do Império Romano do Ocidente frente à invasão de inúmeras outras tribos germânicas.

Com o enfraquecimento do seu Império, os romanos foram recuando de suas porções mais distantes, como sua província da Britânia, abandonando os antigos conquistados à própria sorte, ameaçada por novos conquistadores. Nesse contexto, nem é preciso conhecer História, apenas constatar que os britânicos passariam a ser chamados de anglo-saxões, para saber que Artorius, se realmente existiu, lutou do lado perdedor. Qualquer dúvida se desvanece diante ao fato de que a antiga região da Ânglia, que deu nome à Inglaterra, assim como o estado da Saxônia, são ainda hoje partes integrantes da Alemanha.

Mesmo diante da assimilação pelos vencedores, o exemplo de resistência dos vencidos sempre tendeu a sobreviver no imaginário popular ao longo dos tempos. Quando as glórias da Antiguidade Clássica já tinham se transformado em ruínas, a figura histórica de Arthur foi resgatada e misturada à mitologia por autores medievais.

Foi o caso de clérigo gaulês Godofredo de Monmouth (1100/1155) e do escritor francês Chrétyen de Troyers (1135/1191) que não só transformaram Arthur em rei, mas construíram sua lenda em meio a elementos mitológicos como seu pai, o rei Uther Pendragon, o mago Merlin, o vilão Mordred, a távola redonda e a espada mágica Excalibur. E seria o romancista inglês Thomas Malory (1401/1475), no final da Idade Média, quem escreveria a obra responsável pela fundamentação da história como hoje a conhecemos: “Le morte d’Arthur” (“A morte de Arthur”).

“Quando a lenda se torna maior que realidade, publica-se a lenda”. É o que ensina o jornalista no clássico western “O homem que matou o facínora” (1961), do mestre John Ford (1894/1973). Esquecido com o declínio das histórias medievais de cavalaria pré-Gutenberg (1398/1468), o mito arturiano voltou com força total no romantismo do séc. XIX, onde o nacionalismo esteve em alta nas disputas entre as nações européias saídas da Revolução Industrial, achando que a partir dela poderiam dividir o mundo. E não seria diferente no século seguinte, quando essas mesmas disputas tribais redundariam na I e II Guerras Mundiais.

Nesta segunda década do séc. XXI, enquanto Europa e boa parte do mundo se voltam a mesmo tipo de nacionalismo que tanto problema gerou nos dois séculos anteriores, na última quinta (18) teve sua estreia nas telas de cinema de Campos e do Brasil o filme “Rei Arthur: a lenda da espada”. Roteiro e direção são assinados pelo inglês Guy Ritchie, que disse ter se inspirado nas suas memórias de criança do clássico “Excalibur” (1981), transcrição mais fiel ao cinema do livro medieval “Le morte d’Arthur”, pelas mãos de outro cineasta inglês: John Boorman.

Ex-marido da cantora Madonna, Guy Ricthie foi um dos tantos que teve seu início como diretor fortemente influenciado pelo impacto que Quentin Tarantino causou no cinema do mundo, logo a partir do seu revolucionário “Cães de aluguel” (1992) — talvez a maior contundente estreia de um cineasta desde Orson Welles, com “Cidadão Kane” (1941). A partir do sucesso de “Jogos, trapaças e dois canos fumegantes” (98) e “Snatch — Porcos e diamantes” (2000), escritos e dirigidos por Ricthie, ele chegaria a ser chamado de “Tarantino britânico” no começo de carreira.

Mas isso foi antes do ex-Senhor Madonna se tornar um diretor blockbuster em dois filmes sobre a criação literária de um xará e conterrâneo do rei mitológico: o escritor Arthur Conan Doyle (1859/1930). Usando a herança de Tarantino em diálogos descolados, ritmo frenético e o misto bem dosado entre violência e comédia, Guy Ritchie fez sucesso ao repaginar outro ícone britânico: “Sherlock Holmes” (2009) e “Sherlock Holmes: o jogo das sombras” (2011) foram sucessos de bilheteria, com razoável acolhida da crítica, êxito também devido aos bons desempenhos e à química do “casal” Robert Downey Jr. (Holmes) e Judie Law (Mr. Watson).

Em “Rei Arthur: a lenda da espada”, é o Uther intrepretado por Eric Bana que começa usando a coroa de rei e empunhando Excalibur. A coroa é logo usurpada por seu irmão, Vortigern, na composição sempre convincente de Judie Law, que consuma uma traição dupla e fatal para atender seu desejo desmedido de poder. Mas se consegue a coroa, Vortigern (na verdade, outro rei lendário dos primórdios da Inglaterra pós-Roma) não fica com mágica espada, deixada por Uther trespassada numa pedra até que seu filho Arthur venha reivindicar o que lhe é de direito e resgatar a Inglaterra da tirania do tio.

O roteirista e diretor introduz uma repaginada muito própria no mito: ao fugir ainda criança, Arthur vai se refugiar num prostíbulo de Londinium — nome romano que depois geraria Londres, como a latina Barcino se tornaria Barcelona, na Espanha; Conímbrigia viraria Coimbra, em Portugal; ou Massília, na França, seria Marselha. Criado na malandragem do mundo marginal, a evolução do menino até o Arthur adulto interpretado por Charlie Hunnam se dá numa rápida sequência, típica da cinematografia de Ritchie. Ele aprende a lutar na escola de Kung Fu George (Tom Wu) e se torna um cafetão e líder de gangue, indiferente ao governo tirânico de quem sequer sabia ser seu tio e assassino dos seus pais.

Tudo seguia relativamente bem na sua vida, até que Arthur é confrontado contra a vontade com seu destino, religando-se a uma origem da qual só se lembrava em pesadelos violentos. Conduzido pelos fatos ao enfretamento contra Vortigern, o jovem rei ainda sem coroa, mas já com sua poderosa espada, é guiado pelo antigo guerreiro do seu pai, Sir Beldivere (Djimon Hounson), pela maga vivida por Astrid Bergès-Frisbey e pelo habilidoso arqueiro Bill Ensebado (Aidan Gillen), mas sem abrir mão dos antigos companheiros das ruas de Londinium.

Se a Europa, geograficamente, nada mais é que um promontório da Ásia, ela sempre teve dois corredores de passagem movimentados em sua extremidade ocidental: a Península Ibérica (Espanha e Portugal) ao sul e a ilha britânica ao norte. Todos que passaram pela última estão no filme de Ritchie: os bretões (celtas, cujos sacerdotes da sua religião xamânica eram chamados de druidas, como deveria ser o caso do “Mago” Merlin), os romanos com as ruínas de seus aquedutos, pontes e arenas, e até quem só chegaria bem depois de Arthur: vikings, negros e orientais.

A obra de Ritchie é também habitada por séries televisivas de sucesso. Aidan Gillen foi o Mindinho de “Game of Thrones”, antes de viver Bill Ensebado; ao passo que Tom Wu personalizou o Cem Olhos de “Marco Polo”, antes de virar Kung Fu George. Protagonista do filme, o próprio Charlie Hunnan viveu Jax Teller, em “Sons of Anarchy”, antes de se transformar no Arthur meio monocórdio do filme.

Para quem não conhece tanto de cinema, séries ou História, o filme entretêm. Já para os cinéfilos de carteirinha, mesmo que Ritchie tenha se afastado da influência de Tarantino para repaginar ícones britânicos como Sherlock Holmes e Rei Arthur em movimentados filmes de ação, usando e abusando de efeitos especiais, seu pedido de bênção ao cineasta que revolucionou Hollywood nos anos 1990, com escassos recursos materiais, pode ser ouvido até numa orelha cortada.

 

 

 

Publicado hoje (21) na Folha da Manhã

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Neste domingo, Marcão fala dos vereadores da Chequinho, CPIs e PreviCampos

 

Marcão sendo entrevistado na última quinta (18) por Aldir Sales e Aluysio Abreu Barbosa (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Os vereadores Thiago Ferrugem (PR), Vinícius Madureira (PRP), Jorge Magal (PSD) e Roberto Pinto (PTC) já podem reasumir suas cadeiras na Câmara Municipal de Campos?

E quanto aos igualmente eleitos e condenados pela troca de Cheque Cidadão por voto, que ainda nem chegaram a tomar posse: Thiago Virgílio (PTC), Linda Mara (PTC), Kellinho (PR), Ozéias (PSDB), Jorge Rangel (PTB) e Miguelito (PSL)?

Quando as CPIs da Lava Jato, das relações entre o governo Rosinha Garotinho (PR) e a Odebrecht, e a das Rosas, sobre as relações rosáceas com a empresa Emec, começarão seus trabalhos?

E a auditoria interna que revelou resultado “escabroso” sobre a situação deixada no PreviCampos? Vai também virar uma CPI?

Confira as respostas a todas essas perguntas numa entrevista com o presidente do Legislativo goitacá, vereador Marcão Gomes (Rede), feita na quinta-feira (18) e que será publicada neste domingo (21) na Folha da Manhã.

 

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Fabio Bottrel — A chuva que transforma as palavras em poesia

 

Sugestão para escutar: Vinicius de Moraes – Samba da Bênção

 

 

 

 

“A noite estrelada” (1889), óleo sobre tela, de Vincent Van Gogh

 

 

Sexta-feira, 19 de maio, a torrente chuva na planície goitacá transforma sua imensidão tão finita quanto a parede cinza de um quarto. Fez-se do dia a noite, do calor o frio, o clamor se fez ausente de amor. Lá fora chovem parágrafos, eu aqui com as minhas palavras tentando acertar a coesão entre um e outro, tão certo que a história vai muito além de letras encaixadas em sequência exata. Diluindo as consequências de ter amadurecido tal qual o pensamento de Vinicius: um samba sem tristeza é como amar uma mulher só pela beleza, imaginando como a vida seria fácil se todo o sentido estivesse apenas nos belos lábios, semântica da existência abreviada em um parágrafo.

Talvez chovesse em 1969, quando a sombra desceu e Carlos Drummond de Andrade escreveu:

 

“É noite. Sinto que é noite

não porque a sombra descesse

(bem me importa a face negra)

mas porque dentro de mim,

no fundo de mim, o grito

se calou, fez-se desânimo.

Sinto que nós somos noite,

que palpitamos no escuro

e em noite nos dissolvemos.

Sinto que é noite no vento,

noite nas águas, na pedra.

E que adianta uma lâmpada?

E que adianta uma voz?

É noite no meu amigo.

É noite no submarino.

É noite na roça grande.

É noite, não é morte, é noite

de sono espesso e sem praia.

Não é dor, nem paz, é noite,

é perfeitamente a noite.

 

Mas salve, olhar de alegria!

E salve, dia que surge!

Os corpos saltam do sono,

o mundo se recompõe.

Que gozo na bicicleta!

Existir: seja como for.

A fraterna entrega do pão.

Amar: mesmo nas canções.

De novo andar: as distâncias,

as cores, posse das ruas.

Tudo que à noite perdemos

se nos confia outra vez.

Obrigado, coisas fiéis!

Saber que ainda há florestas,

sinos, palavras; que a terra

prossegue seu giro, e o tempo

não murchou; não nos diluímos.

Chupar o gosto do dia!

Clara manhã, obrigado,

o essencial é viver!”

 

Sábado, 20 de maio, o dia amanheceu e trouxe o gosto do sol a se tornar o tempero mais bonito d’alma outrora posta. É dia na planície, na brisa que traz o tempo, é dia de deixar a razão e pensar, coração.

 

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Luciane Silva — Justiça e ironia: “Morar Feliz”, um guetto dentro da cidade*

 

 

 

 

Na primeira vez em que avistei aquela série de casas coloridas, enfileiradas, com áreas pequenas e sem caixas de correio,  me perguntei que tipo de conjunto habitacional seria aquele? Estávamos entre pesquisadores da PUC, UFF, Uenf, alunos, advogados, arquitetos. Formávamos um grupo heterogêneo que naquele dia, rodava a cidade de Campos, suas igrejas, conventos, pontes, bairros, escolas antigas. Em meio a tanta vida, mesmo nos espaços “do outro lado da margem” chegamos ao último ponto daquela jornada quando voltávamos pela BR 101: O Morar Feliz de Ururaí.

Em minha quarta contribuição para o Opiniões proponho uma reflexão sobre o direito a moradia, estabelecido na Declaração dos Direitos Humanos como um direito fundamental e garantido em nossa Constituição Federal de 1988, artigo 6º.

A gestão de Rosinha Garotinho anunciava no site da prefeitura a entrega de mais de 6 mil casas que abrigariam 32 mil pessoas. O Programa “Morar Feliz” foi à época apresentado como o “maior programa habitacional municipal do Brasil”. Se considerarmos que em 2012, Campos recebeu R$ 1,3 bilhão de royalties (mais participações especiais), imagino que o leitor se pergunte como estes valores foram investidos. Segundo documento do Senado Federal, em 2011 Campos foi classificado no relatório Multi Cidades como o 14º município brasileiro com maior receita total. Resumindo: Campos foi classificada como uma cidade com recursos suficientes para mitigar os efeitos da desigualdade estrutural, reflexo da matriz econômica baseada nas usinas.

Espalhado por vários bairros como Eldorado, Novo Jóquei e Santa Clara, as casas entregues não podem ser vendidas e seus moradores recebem um documento para “permissão de uso”. Entre as principais virtudes anunciadas pelo governo, está a estrutura (fornecimento de água, esgoto tratado, energia elétrica, calçamento de qualidade, piso e laje nas casas). Para justificar a ação, o argumento adotado é a necessária retirada de famílias em situação de risco. Ou seja, a remoção/deslocamento destas populações  estaria justificada pelo risco que sofriam (alagamentos frequentes por chuva e proximidade à rios e lagoas). Visto por este ângulo o programa Morar Feliz realmente parece cumprir o que está assegurado constitucionalmente.

A questão toda inicia quando chegamos ao local. Uma região extensa cujas fronteiras naturais são constituídas por mato baixo e algumas valas secas. Paramos em frente ao bar que, naquele momento, parecia ser um dos únicos naquele espaço. Seu Carlinhos, dono de um Fusca e de uma pequena birosca, ocupa dois terrenos de esquina. Além de algumas bebidas, é um dos fornecedores de tijolo para os demais moradores. Um ex-pescador bem disposto. De seu bar avistamos os espigões da Pelinca que na fala dos moradores “ficam na cidade”. Eles apontam com o dedo que a cidade está lá, no horizonte que avistamos, quilômetros de distância das casas em que residem.

Na segunda visita, um ano depois, realizamos um campo no mesmo local. Chama atenção desta vez, algumas casas sem portas, janelas quebradas e a parte interna danificada. Um casal de idosos nos relata que esta parte do conjunto foi ocupada por famílias, posteriormente tiradas à força do local. Andamos pelas ruas que têm nomes de artistas. Paramos na rua Elis Regina com Adoniram Barbosa, passamos pela Raul Seixas, depois pela Luiz Gonzaga e finalmente encontramos seu Carlinhos perto do cruzamento entre a Renato Russo e a Cazuza. Nesta segunda visita os bares se multiplicaram e já há uma mercearia além de um pequeno mercado mais equipado. Mas não existem farmácias, ônibus passam a cada 3 horas, as casas não contam com árvores para as crianças, que sem uma praça, brincam de Três Marias sentadas no chão da calçada. Grupos de crianças arrumam formas de brincar sem praça, escorregador ou balanço. Tenho certeza de que estas são lembranças cujo gosto ainda deve produzir afago na alma de quem lê este texto. A pracinha do bairro…

Há uma semana atrás voltamos e encontramos casas sem pintura com janelas lacradas e nomes como “Julia”, “Maria”, “Osvaldo” escritos de forma rústica na parede. Cerca de 20 famílias haviam ocupado as casas próximas a entrada do conjunto e formavam um grupo bastante crítico ao Estado. Que em sua má-fé criara insegurança na administração da entrega destes lotes. Andamos e as biroscas se multiplicaram e diversificaram. Os muros foram pintados e decorados, produzindo a singularidade que todos valorizamos nos espaços que classificamos como “lar”. Mas não há farmácia ainda, loja de material escolar ou mesmo material de construção, eletrônica… Cada um que se vire diante de um infarto ou de um acidente doméstico. A escola fica fora do conjunto. Não há sociabilidade ou associação de moradores. Temos algumas centenas de pessoas (muitos idosos com dificuldades de locomoção) buscando soluções para as quais recebem a letra fria da lei.

Ao analisar todos estes aspectos, após pesquisar favelas, periferias, moradias em Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo … concluo que o Morar Feliz de Ururaí é um guetto que segrega, confina, condena e realiza todas estas operações sob o silêncio da cidade.

Todos os moradores que residem neste conjunto são negros, demonstram uma enorme dificuldade de acessar a lei para buscar aposentadoria ou um benefício para um parente que utiliza cadeira de rodas. A lei, em suas palavras, é a punição. Através de prisões injustificáveis e mortes não comentadas.

A Prefeitura de Rosinha, em sua descrição sobre a “estrutura” destas casas, esquece que morar não é apenas residir, dormir, comer. Que um lar é um direito básico e essencial para construção de identidade, de relações sociais, de ludicidade e refúgio. A prefeitura ao usar os bilhões dos royalties para seu irônico projeto de moradia, esquece de uma observação presente na Declaração Universal do Direitos Humanos: a moradia precisa ser digna. Ao retirar destas famílias a possibilidade de acesso aos bens produzidos na cidade, o poder público segrega a população e ao fazê-lo, restringe sua dignidade. Dignidade esta que deveria ser assegurada por direito e não por dádiva.

 

*Agradeço a pesquisadora Raquel Chaffim pelas trocas sobre o tema da moradia e também aos pesquisadores com os quais visitei o conjunto nestes últimos 3 anos, especialmente aos alunos da disciplina Cidade, territórios periféricos e modernidade. Sugiro ainda a leitura do artigo de Loïc Wacquant “Que é guetto: construindo um conceito sociológico”.

 

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Chequinho: quatro condenados assumem na Câmara, seis esperam

 

Presidente da Câmara, Marcão vai dar posse a quatro condenados na Chequinho, mas vai esperar que Justiça Eleitoral esclareça situação de outros seis

 

 

Segundo o presidente da Câmara Municipal de Campos, Marcão Gomes (Rede), os vereadores Thiago Ferrugem (PR), Roberto Pinto (PTC), Vinícius Madureira (PRP) e Jorge Magal (PSD) podem ser rempossados amanhã, quando sai a publicação dos seus retornos em Diário Oficial (DO). Para Marcão, no entanto, Thiago Virgílio (PTC), Linda Mara (PTC), Kellinho (PR), Jorge Rangel (PTB), Ozéias (PSDB) e Miguelito (PSL) terão que esperar um pouco mais. A demora também pode se dar com Magal, que já esgotou seus recursos no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), onde tece confirmado sua condenação em primeira instância pela 99ª Zona Eleitoral (ZE) de Campos.

Todos os 10 vereadores são acusados da troca de Cheque Cidadão por voto, nas eleições municipais de 2016. As consequêncis se deram em duas esferas: a cível-eleitoral, julgada na 99ª ZE; e a criminal, sob juízo da 100ª ZE. Na primeira, todos já foram condenados em Ações de Investigação Judicial Eleitoral (Aijes). Os recursos dessas condenações ao TRE têm efeito suspensivo, mas Magal pode ser afetado por ter sido o primeiro condendo em também segunda instância — Madureira também, mas ele ainda espera o julgamento dos seus embargos declaratórios.

Já nas ações penais (criminais), nenhum dos 10 vereadores foi ainda julgado em primeira instância. No entanto, foram os habeas corpus criminais de Thiago Virgílio, Linda Mara, Kellinho, Jorge Rangel, Ozéias e Miguelito, que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) julgou, por unanimidade, favorável aos condenados na noite da última terça (16). A dúvida que o presidente da Câmara de Campos alega para não dar posse aos seis é: a decisão do TSE na esfera criminal é extensiva também ao impedimento da diplomação dos seis na esfera cível-eleitoral, determinada numa decisão liminar da 99ª ZE, em dezembro de 2016, confirmada em 2017 numa sentença do mesmo juízo?

Foi na extensão da decisão do TSE, que a 100ª ZE liberou na quarta (17) os retornos de Ferrugem, Roberto Pinto, Madureira e Magal. Até que a 76ª ZE de Campos, o TRE e o TSE esclareçam a situação dos outros seis, Marcão esclareceu que Thiago Virgílio, Linda Mara, Kellinho, Jorge Rangel, Ozéias e Miguelito terão que aguardar. Até lá, em seus lugares, permanecem vereadores Neném (PTB), Álvaro Oliveira (SD), Joilza Rangel (PSD), Cabo Alonsimar (PTC), Carlinhos Canaã (PTC), e Geraldinho Santa Cruz (PSDB).

 

Confira a cobertura completa na edição desta sexta (19) da Folha

 

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Guilherme Carvalhal — O Juiz

 

 

 

Foi com ar misturando espanto e indiferença que receberam a notícia da criação da comarca. Espantaram-se com a novidade de um juiz na cidade sem saberem exatamente qual sua função, então logo deixaram de lado.

Apenas quando os pedreiros ergueram aquele palácio chamado fórum entenderam que algo de inovador se estabeleceria. A boataria se espalhou e  se apaziguou somente com a chegada do juiz em meio a pompas. Vestia sua toga e carregava na mão o martelo, querendo demonstrar a força de sua autoridade. Acompanhava-o um séquito de burocratas; oficial de justiça, meirinho e policiais.

O povo não entendeu de imediato para que serviria aquilo tudo. Um dia, todos bebiam e dançavam em volta do coreto segundo suas tradições quando os guardas cercaram e mandaram parar. “A lei proíbe esses furdúncio”, anunciou o policial apresentando um papel assinado pelo juiz. Foi quando captaram o significado daquelas palavras.

Aos poucos a presença do juiz fazendo valer as leis se tornou significativa. No mercado, negociavam seus produtos no atacado colocando os bens pessoais, como casas e máquinas, de garantia de pagamento. Então o oficial de justiça informou que as leis do país proibiam qualquer caução que não seja feita em dinheiro. Os vendedores então começaram a ver suas mercadorias encalhadas, pois ninguém possua montantes tão grandes para assegurar as compras. Quando Rosângela e Matias decidiram enviar os convites de casamento, receberam um ofício em suas casas. Disseram que precisariam reconhecer o enlace formalmente perante a lei, com duas testemunhas avalizando. Não perceberam ao certo como isso funcionava, já que a união religiosa sempre sustentou perfeitamente os casais. “Estamos mudando esses costumes bárbaros impondo as luzes da lei”, justificava o juiz quando ousavam questionar seus porquês.

Nesse ritmo a soberania judicial foi rompendo esses pequenos hábitos construídos ao longo dos séculos de convivência daquele povoado. Os corpos dos mortos precisavam de homologação do legista para serem sepultados, a venda de propriedades precisava de uma série de documentos ao invés de simplesmente vendedor e comprador empenharem sua honra, o uso de espingardas para caçar dependeria de uma permissão prévia, junto com o registro e a pesagem de todos os animais abatidos.

Algo de diferente ocorria entre eles. A cordialidade tão corriqueira ganhou contornos mais frios. Aquele bom dia caloroso ressoava tolhido pelo receio de infringir alguma lei. A combinação espontânea para tudo que faziam se acabou, aguardando o aval do juiz, ou que ele tomasse a decisão do que seria feito. De uma sociedade alegre converteram-se em criaturas mecânicas com o juiz funcionando como cérebro.

O ápice dessa nova situação ocorreu quando roubaram um cavalo de um sítio. Os moradores capturaram o bandido e conforme sempre fizeram, o enforcariam em praça pública. Quando envolviam a corda em seus pescoço, aproximou-se o juiz com os guardas e seus burocratas impedindo que prosseguissem. Afirmou que todos tinham direito a um julgamento justo com defesa, e que a pena de morte não era permitida nesse país. Ou seja, se enforcassem aquele homem, teria de prender todos por homicídio.

Uma multidão se formou em torno do juiz e os guardas com seus cassetetes tentavam manter a turba afastada. Alguém lançou uma pedra e acertou da testa do magistrado; esse foi o sinal verde para o ataque. As pessoas avançaram agredindo os guardas. Diante da defesa, o grau de violência aumentou. Surgiram facas e foices e quando o primeiro caiu morto, iniciou a carnificina. Cuspiram todo esse período de opressão da lei engasgado na forma de dor, e deixaram uma pilha de cadáveres no meio da vila.

Em cima dessa amontoado expuseram a cabeça do juiz, em um coroamento de sua vitória. Todos pararam ao seu redor, admirando um grande feito que os uniria. Deram as mãos e se satisfizeram novamente, retornando àquela antiga pasmaceira que resgataram através da morte.

 

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Com governo Temer ferido de morte, a coincidência de raciocíno em aguda ironia

 

Viver no Brasil e em Campos, tendo por ofício o jornalismo político, não é para amadores. Entre a tarde e noite de ontem, enquanto tomava ciência das novas delações com gravações do presidente Michel Temer (PMDB) dando sua anuência à compra do silêncio de Eduardo Cunha (PMDB), ex-presidente da Câmara Federal preso na Lava Jato. E, que espanto! Como o resto do país e do mundo sabia da notícia através da coluna do Lauro Jardim pela versão oline do jornal O Globo, símbolo maior da “mídia goslpista”.

Ao mesmo tempo, tinha que me aprofundar na novela jurídica aberta com a decisão na terça do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que permitia a entrada na Câmara Municipal de Campos de seis vereadores condenados pela troca Cheque Cidadão por voto, na eleição de 2016. E da extensão do benefício, ontem, pelo juízo da 100ª Zona Eleitoral de Campos, a outras quatro eleitos no “escandaloso esquema” investigado na Chequinho. Por ser a Folha um jornal regional, com prioridade quase sempre aos assunto locais, tive que me embrenhar na compreensão dessa complicada novela jurídica, ainda longe do fim, para tentar explicá-la (aqui) ao leitor, na edição de hoje da coluna “Ponto Final”.

Chegado à casa só no início da madrugada, pude ler com mais cuidado as notícias e opiniões (relevantes) que pipocavam sobre a situação delicada de Temer, com seu governo ferido de morte, tanto quanto agonizou o da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) no período que antecedeu seu impeachment. Entre as análises séries do quadro de incerteza do Brasil, impossível também não atentar à iorinia mais criativa em cima dos fatos.

E, do que vi, me espantei com a concidência de raciocínio entre duas postagens gaiatas sobre o assunto feitas pelo meu irmão, o empresário e blogueiro Christiano Abreu Barbosa, com duas outras no mesmo tom, mas feitas um pouco depois pelo Ricardo Rangel, diretor de produção da Conspiração Filmes e articulista do mesmo O Globo de Lauro Jardim. Pela agudez da ironia, as quatro rapidamente viralizaram na democracia irrefreável das redes sociais.

Não sem orgulho fraterno, vamos a elas:

 

 

 

 

 

 

 

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Mudanças na Câmara de Campos não mudam CPIs da Lava Jato e das Rosas

 

Charge do José Renato publicada hoje (18) na Folha

 

 

 

 

Chequinho: seis vereadores que chegam

Primeiro foi a decisão da última terça (16) do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que concedeu habeas corpus criminal, nas ações penais da Chequinho, a Thiago Virgílio (PTC), Linda Mara (PTC), Kellinho (PR), Jorge Rangel (PTB), Ozéias (PSDB) e Miguelito (PSL). Barrados pela Justiça Eleitoral de Campos no dia da diplomação dos vereadores eleitos, em 19 de dezembro de 2016, eles nem chegaram a tomar posse. Mas, a partir da decisão unânime do TSE, mesmo condenados como beneficiados diretos da troca de Cheque Cidadão por voto, os seis poderão assumir suas cadeiras na Câmara. E não vão sozinhos.

 

Chequinho: quatro vereadores que voltam

A partir do princípio de isonomia, o juiz da Ralph Manhães, da 100ª Zona Eleitoral de Campos, decidiu ontem (17) que também poderão reassumir cadeiras na Câmara Municipal outros quatro condenados na Chequinho: Thiago Ferrugem (PR), Vinícius Madureira (PRP), Jorge Magal (PSD) e Roberto Pinto (PTC). Eles chegaram a ser diplomados, tomar posse dos mandatos e exercê-los, mas foram afastados em 17 de abril, em decisão do mesmo magistrado que agora permitiu que voltassem, no vácuo jurídico da decisão do TSE.

 

Situação jurídica dos 10

Todos os 10 vereadores foram condenados em primeira instância em suas Ações de Investigação Judicial Eleitoral (Aijes) da Chequinho. Esperam agora o julgamento dos seus recursos no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), que têm efeito suspensivo. Nenhum dos edis, no entanto, foi ainda julgado nas ações penais oriundas da Chequinho, cujo juízo em primeira instância de Ralph foi mantido também na terça pelo TSE.

 

Oito garotistas, dois governistas

Enquanto se espera o próximo capítulo dessa complicada novela jurídica, o que parece certo é que, dos 10 vereadores beneficiados pelas decisões, oito são garotistas: Thiago Virgílio, Linda Mara, Kellinho, Rangel, Ozéias e Miguelito do primeiro grupo; mais Ferrugem e Madureira, do segundo. Deste, dois voltarão governistas como saíram: Magal e Roberto Pinto. Veiculada por um site sujo, a possibilidade de deserção de quatro dos seis vereadores do primeiro grupo, como a coluna chegou a ironizar (aqui) no último dia 10, é só mais uma de tantas “barrigadas” — notícia inverídica no jargão jornalístico e, no caso, plantada a soldo para intimidar os próprios aliados.

 

Ponto da fervura

A expectativa da administração Rafael Diniz (PPS) é que o clima esquente com as mudanças na Câmara, sobretudo por parte de Thiago Virgílio, Linda Mara e Ferrugem. Mas o governo está tranquilo, na medida que mantém sua maioria de dois terços: 17 das 25 cadeiras. Já dentro do Legislativo goitacá, as expectativas nem são de aumento na fervura no debate: “Se entrarem batendo, sabem que vão apanhar. E que já sairão para qualquer disputa na tribuna taxados pela população como compradores de voto”, garantiu um fonte governista de alta patente.

 

CPIs (I)

O certo é que, com a nova composição, os oito garotistas devem ter como principal objetivo as CPIs da Lava Jato e das Rosas. Ambas já aprovadas, a primeira vai investigar a licitação de quase R$ 1 bilhão do governo Rosinha Garotinho (PR) com a empreiteira Odebrecht, denunciado na “delação do fim do mundo” pelos próprios executivos da empreiteira que assinaram o contrato com a então prefeita. Já a segunda CPI tem como objeto de investigação outro contrato milionário da gestão rosácea: com a Emec Obras e Serviços Ltda., para manutenção de parques e jardins, no valor de mais de R$ 76 milhões.

 

CPIs (II)

Os vereadores garotistas podem tentar questionar a aprovação das CPIs da Lava Jato e das Rosas. Mas como suas aprovações foram estritamente legais, a oposição nada deve conseguir além dos discursos. De concreto, o que poderá ser feito, com base no regimento interno da Casa, é tentar mudar a composição das duas CPIs. O que o presidente Marcão Gomes (Rede) terá que fazer, em nome do princípio da proporcionalidade.

 

CPIs (III)

No entanto, quem conhece o processo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, sabe que quem determina seu andamento são o relator e o presidente. A da Lava Jato tem Genásio (PSC) como presidente e Zé Carlos (PSDC) como relator, cargos ocupados na CPI das Rosas, respectivamente, por Fred Machado (PPS) e Cláudio Andrade (PSDC). Nenhuma manobra da oposição parece ser capaz de alterar isso. E os quatro vereadores são governistas.

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

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Apesar da crise, Uenf leva pela terceira vez o Prêmio Nacional de Iniciação Científica

 

Crise da Uenf, sem repasses do governo estadual, não impede a manutenção sua excelência científia (Foto: Elis de Miranda/Concepção: Priscila Castro)

 

 

A Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Darcy Ribeiro ganhou pela terceira vez o Prêmio Nacional de Iniciação Científica, conferido pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). Válido pelo ano letivo de 2016, a premiação é distibuída entre as melhores universidades brasileiras, visando o desenvolvimento de Programas de Iniciação Científica. A Uenf já havia vencido antes, em 2003 e 2009.

Maior evento de iniciação científica do Estado do Rio de Janeiro, o Confict é promovido pela Uenf há 22 anos e representa uma das maiores mostras de trabalhos de iniciação cientifica no Brasil. O novo prêmio do CNPQ foi bastante comemorado por alunos, professores e demais servidores da mais importante universidade de Camos e reião, que estão com salários salários e bolsas atrasados. Vivendo sua maior crise, desde sua fundação, em 1993, a Uenf trabalha sem verba de manutenção, estimada em R$ 2 milhões/mês, desde outubro de 2015.

 

Com infomações da assessoria da Uenf

 

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O que Anthony Garotinho e Caio Vianna têm conversado tanto?

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Divulgado aqui, na coluna “Ponto Final” de ontem (16) o hábito do ex-candidato a prefeito de Campos Caio Vianna (PDT) de visistar semanalmente o prédio da empresa “Palavra de Paz”, no Rio de Janeiro, de propriedade do ex-governador Anthony Garotinho (PR), foi confirmado por quem atua a soldo, desde a eleição de 2016, para fazer a ponte entre os dois políticos. Num site que tem nessa aliança sua função e fonte de renda, embora a informação tenha sido negada, acabou confirmada numa tentativa de defesa pouco inteligente: “há uma tentativa de criminalizar qualquer pessoa que tenha contato com o ex-governador ou pessoas próximas”.

Por certo não há crime no simples fato de Caio se encontrar com Garotinho. Até porque a aliança entre os dois, desde o pleito do ano passado, não é nenhum segredo. Todos os integrantes do grupo garotista, não é de hoje, falam abertamente que, no caso de uma improvável nova eleição a prefeito de Campos, o candidato de Garotinho será Caio.

Mas, se a dúvida houvesse das reuniões semanais no “Palavra de Paz”, talvez fosse o caso de se requisitar as imagens do sistema de câmeras no prédio onde funciona a empresa de Garotinho. Recentemente, isso foi feito pelo Grupo de Apoio à Promotoria (GAP), no pedido do Ministério Público Eleitoral (MPE) deferido pela Jutiça. Em 17 de março, o GAP esteve em dois endereços do “Palavra de Paz” e no próprio efidício no Rio onde reside Garotinho, para apreensão das imagens das câmeras.

O objetivo era saber se Garotinho havia se reunido com o ex-deputado estadual e ex-chefe de Polícia Civil Álvaro Lins. Velhos conhecidos, os  dois foram condenados pela Justiça Federal do Rio por formação de quadrilha armada, durante o governo estadual Rosinha Garotinho (2003/07). Como o “Ponto Final” revelou aqui, em 12 de março deste ano, cinco dias antes da operação do GAP, Lins teria sido contratado por Garotinho para levantar informações sobre o delegado federal Paulo Cassiano, o promotor estadual de Justiça Leandro Manhães e o juiz Ralph Manhães, que estão à frente da operação Chequinho.

A informação da fonte da coluna de opinião da Folha foi confirmada depois pelo reportagem de O Globo. Ao cobrir a operação do GAP em 17 de março, o jornal carioca escreveu aqui: “A contratação de Lins foi veiculada pelo jornal ‘Folha da Manhã’ e, segundo O Globo apurou, foi confirmada a investigadores por duas fontes diferentes”.

Confirmadas e citadas por O Globo, as fontes da Folha que antes sinalizaram a nova parceria entre Garotinho e Lins são tão fidedignas quanto as que mais recentemente informaram das reuniões semanais entre Garotinho e Caio. A nervosa negação pública desses encontros, mesmo quando convertida em admissão numa tentativa tosca de defesa, é que deixa uma pulga atrás da orelha: por que tanto medo da revelação desses encontros? E, afinal, o que Garotinho e Caio têm conversado tanto?

Na dúvida, para quem ainda não leu, ou precisa ser relembrado, fica a advertência feita pelo ex-prefeito Arnaldo Vianna (PMDB), pai de Caio e aliado convertido em desafeto por Garotinho. Em entrevista à Folha publicada em 16 de abril, Domingo de Páscoa, Arnaldo falou aqui sobre a aliança entre seu único filho e seu maior inimigo político:

— Eu prefiro acreditar que isso não vai prosperar. É o coração do pai falando. Mas se prosperar, eu vou lamentar muito. Torcer e rezar para o futuro do meu filho. Porque ele será massacrado pelo Garotinho. Garotinho tem essa prática.

 

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