Carol Poesia – Inquérito Poético (parte 2)

Suspeito – Eu?
Inspetora – Por acaso o senhor reconhece isso, seu Adalbeto?
Inspetora – Foi achado no local do crime e tem a sua assinatura.
Suspeito – Como isso foi parar lá?
Inspetora – É o que eu gostaria de saber!
Suspeito – Escrevi esse poema quando eu era criança, muito novo.
Inspetora – Então o senhor confessa que conhecia e mantinha relações com a poesia desde criança?
Suspeito – Eu escrevia às vezes alguns pensamentos rimados…
Inspetora – Me diz uma coisa seu Adalberto, qual foi a última vez que o senhor escreveu um poema?
Suspeito – Eu? Tem muito tempo… Eu não escrevo faz muito tempo… Mas eu não estou entendendo, isso é bom ou ruim?
Inspetora – Eu não sei. O senhor que tem que me dizer! É bom ou é ruim ficar sem escrever? Sabe seu Adalberto, Beto, posso te chamar assim? Eu olho pra você e não vejo a inocência de um auxiliar de escritório que trabalha oito horas por dia pra pagar as contas. Não sei, não sei… Tem algo diferente no seu olhar, na sua respiração… Beto, quando eu falo em poesia, qual é o primeiro verso que vem à sua cabeça?
Suspeito – Quê?
Inspetora – Um único verso é suficiente!
Suspeito – Você só pode estar brincando… O que que eu fiz pra merecer isso, posso saber?
Inspetora – Não precisa ser seu. Qualquer verso. Eu tenho todo o tempo do mundo…
Suspeito – “Que não seja eterno/ posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure”.
Inspetora – Vinicius de Moraes. Outro!
Suspeito – “Oh! que saudades que tenho/ Da aurora da minha vida,/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!”.
Inspetora – Casimiro de Abreu. Está indo bem.
Suspeito – “O poeta é um fingidor/ finge tão perfeitamente/ que finge sentir a dor/ a dor que deveras sente”.
Inspetora – Fernando Pessoa! Lindo!
Suspeito – “Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./ Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta./ Irmão das coisas fugidias,/ não sinto gozo nem tormento./ Atravesso noites e dias/ no vento./ Se desmorono ou se edifico,/ se permaneço ou me desfaço,/ – não sei, não sei. Não sei se fico/ ou passo./ Sei que canto. E a canção é tudo./ Tem sangue eterno a asa ritmada./ E um dia sei que estarei mudo:/ – mais nada.”
Inspetora – Cecília Meireles!
Suspeito – CHEGA! Eu confesso: sou poeta, a cada instante que passa me nasce uma rosa na testa!
Inspetora – Grande Paulo Leminski!
Suspeito – Chega! Eu estou falando de mim! O verso é dele mas eu estou falando de mim! A verdade é que eu conheço a poesia sim, a minha relação com ela é íntima e antiga! Desde pequeno eu não vejo sentido nenhum no que é útil, no que é prático, no que é comprovado cientificamente. Eu não tenho o sonho de ser rico, nem de descobrir alguma coisa muito importante, pouco me importa a bolsa de valores, eu estou me lixando pra alta do dóllar. Eu trabalho porque preciso comer, eu ainda como porque preciso estar vivo, eu quero estar vivo só pra acompanhar essa poesia toda que acontece independente de mim a cada dia. Ela não precisa de mim, mas eu preciso dela! Eu preciso realizar a inutilidade de imaginar a história de vida de cada desconhecido no ônibus. Eu preciso ver a multidão no metrô, coreografada, em alto relevo e 3D, cantando “Aba Pai”. Eu preciso ouvir a conversa da vizinha e adivinhar o que veio antes ou dar um outro final. Eu preciso do silêncio, da falta de ação, dos momentos de vácuo e de inércia em que a morte parece estar rondando e eu pareço estar querendo morrer, mas o que eu desejo mesmo é esse entre-vida-e-morte, esse estado sublime de experimentação do nada. A quase morte é um tesão! E eu sou viciado! Eu quero estar vivo pra quase morrer todos os dias! O entre-sono também me fascina, aquele estágio em que você não está dormindo, nem acordado, a realidade se mistura com o pensamento imaginário e surge tanta coisa brilhantemente desvairada! Eu adoro dormir… pena que eu tenho insônia! O sono é uma prévia da morte, sabe?! Um gostinho, uma pitada antecipada e vivenciada por todo mundo a cada noite. É uma experiência solitária, quase um poema, de repente você fecha os olhos e pluft! Está completamente sozinho em você mesmo! É o que existe de mais estranho e contraditoriamente de mais natural na vida. E o que seria da vida sem esse morrer diário pra recuperar as forças, hein?! O que seria da realidade sem esse profundo mergulho cotidiano dentro si mesmo fora da realidade? Poesia e morte andam assim oh! (faz sinal com os dedos) Você deveria saber! (leve pausa) A poesia está morta mas eu fiz o que pude! E fiz por mim! Porque a poesia é a humanidade que me salva e que falta na humanidade. É o oposto da engrenagem. É o andar na contramão e por isso mesmo faz todo o sentido. Ela não é cadeira não… Quem diz que fazer poesia é igual fazer cadeira pode até ser poeta, mas nunca foi marceneiro. Poesia é um estado de alma, e se ela morreu pouco me importa o que vai acontecer agora.
(pausa prolongada)
Inspetora – Meus pêsames.
Inspetora – O senhor está dispensado, seu Adalberto.
Suspeito – Estou?
Inspetora – Está. Se eu precisar eu chamo o senhor de novo.
Suspeito – Se eu tiver que voltar prefiro que seja a noite, pra eu não ter que faltar o serviço.
Inspetora – Qualquer novidade sobre o caso eu te aviso. Passar bem.
Suspeito – Obrigado e desculpe qualquer coisa.
Inspetora – Próximo!
(fim)
Confira aqui a primeira parte do “Inquérito Poético”

Salvar

Salvar

0

Feijó tabela com Rafael e Bruno toca CPI das Desapropriações no Açu

Feijó tabela com Rafael
Praticante assíduo de futevôlei, o deputado federal Paulo Feijó (PR) bateu uma tabela inesperada na manhã do último sábado (04), no Farol de São Thomé. Num verão com menos trios elétricos e mais paz entre os veranistas, enquanto Feijó descansava de uma partida, quem chegou e se sentou ao seu lado, para uma conversa política, após cumprimentar aos demais, foi o prefeito Rafael Diniz (PPS).
Hospital do Hemocentro
O único deputado federal da região se colocou à disposição do prefeito para ajudar Campos em Brasília. Embora tenha destacado que a conversa foi informal, demandando ser aprofundada, Feijó citou um exemplo onde poderia ajudar diretamente: a conclusão projeto do hospital do Hemocentro, no Hospital Ferreira Machado (HFM). Iniciado a partir de uma emenda do parlamentar, ele destacou que verbas federais podem ser também alocadas para equipar a nova unidade, depois que a obra civil for concluída.
Diálogo x distanciamento
Através da sua assessoria, Rafael repetiu ontem seu discurso de campanha, quando prometeu governar aberto ao diálogo não só com quem o apoiou. Eleito deputado no grupo do ex-governador Anthony Garotinho (PR), Feijó apoiou Dr. Chicão (PR) na sucessão de Rosinha Garotinho (PR), vencida ainda no primeiro turno pelo atual prefeito. Mas desde abril de 2016, na aprovação do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) pela Câmara Federal, com o voto de Feijó e contra a vontade de Garotinho, os dois políticos se distanciaram.
CPI das Desapropriações
Outro político do grupo de Garotinho, o deputado estadual Bruno Dauaire (PR), vem sendo bastante procurado pela imprensa carioca e nacional. Menos pela votação do polêmico pacote do governo Luiz Fernando Pezão (PMDB), a partir de amanhã, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que pela CPI das Desapropriações do Porto do Açu. Proposta pelo jovem parlamentar, tudo indica que será aprovada na Alerj e presidida por ele.
InterTV, SBT e Record
Enquanto políticos e empresários, do Rio de Janeiro e São João da Barra, receiam o que Eike Batista possa revelar à Justiça, caso faça delação premiada, Bruno tem falado bastante sobre o objetivo da CPI: violação dos direitos humanos e do valor pago pelas desapropriações. Esclarecendo que sua iniciativa não é contrária ao empreendimento, fundamental para a economia da região, mas à maneira como ele foi imposto aos produtores rurais do Açu, o deputado já foi procurado pela InterTV RJ, SBT e Record para falar sobre o assunto.
Gabeira em SJB
Além das principais emissoras de TV aberta, quem esteve no último final de semana em São João da Barra, para investigar o objeto da CPI proposta por Bruno na Alerj, foi o conhecido jornalista e ex-deputado federal Fernando Gabeira. Em seu programa na Globo News, ele se prepara para trazer, também na TV por assinatura, uma ampla reportagem sobre o caso. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos…
Caos no ES
O Espírito Santo, estado vizinho ao do Rio e bem perto de Campos, por diversas vezes já foi destaque pelos seus altos índices de violência, mas nada que se compara ao que está acontecendo com a ausência de grande parte da polícia militar nas ruas. A onda de homicídios e saques está se espalhando por todo território capixaba e se aproxima cada vez mais de cidades perto de Campos. Em Guarapari, praia bastante frequentada por campistas, o medo tomou conta das ruas e tem muito turista colocando as coisas na mala e voltando para casa.
Medo por aqui
Em Campos, a situação da violência também é bastante preocupante. Em seis dias de fevereiro, sete pessoas já foram executadas a tiros, aumentando para 27 o número de assassinatos só em 2017. Um ano que começou seguindo os altos índices de 2016, que superou em quase 62% os homicídios em 2015. A situação se torna mais preocupante quando já começam a circular pelas redes sociais supostos informativos que no próximo dia 10 haverá um movimento dos PMs do Rio semelhante ao que acontece no ES.
Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves

Salvar

0

Fernando Leite – Linda Mara e a saga de “Augusto Matraga”

Vivíamos os primeiros anos da década de 1980, do último século do milênio passado, embora o calendário se despedisse, cercado de superstições e medos, o Brasil experimentava o”melhor dos tempos”. A abertura política retirava, gradualmente, uma tampa de chumbo sobre nossos sonhos e a arte florescia, vigorosa, irrequieta, ansiosa por espaços. Aqui, na vila formosa de São Salvador dos Campos, um longo domínio político conservador vazava e o que era preciso acontecer, começava a tomar forma e rosto e corpo.
A Faculdade de Filosofia, era, então, palco de todas as liberdades, fórum político, por onde passaram todos os candidatos a governadores do Estado, na campanha de 1982, vencida por Leonel Brizola e onde, ainda experimentamos o luxo de receber e conversar, visivelmente, emocionados, com o velho “Cavaleiro da Esperança”, Luís Carlos Prestes, recém-chegado ao Brasil, depois de longo exílio. Era a lenda, “a tempestade de homem”, como diria Oswald de Andrade, bem diante de nós e impressionava por sua fragilidade física. Sem contar luminares da cultura nacional.
Éramos um grupo grande e todos muito jovens. Vencemos as eleições para o Diretório acadêmico e instituímos uma “dinastia”, nos revezando nos 4 anos do curso de Jornalismo, no comando do centro dos estudantes. Foi nesse período que eu conheci essa moça. Uma paranaense, filha de dona Maria e seu Malaco, voluntariosa e, como todos nós, cheia de sonhos. Linda Mara é o nome dela. Da amiga que julguei ter feito lá no alvorecer dos anos 80. Abríamos a alameda do futuro com o desassombro da juventude.
Sei que, a exemplo do que dizia o poeta Torquato Neto, “vou desafinar o coro dos contentes”, mas também citando o designer gráfico, Sérgio Provisano, sou “um cavaleiro das causas perdidas” e, como tal, devo abrir mão do conforto de gritar o que significativa parcela da sociedade quer ouvir e falar, mansamente, o que penso.
A vida e seus desígnios e a política nos levaram por caminhos diversos. Mais apropriado: antagônicos.
A jornalista Linda Mara encarnou a carranca do longevo governo passado, gestão do casal Garotinho, de quem é fiel escudeira e sua melhor tradução. Contra ela migraram todos os ódios e ela os replicava de volta com igual intensidade. Exercia seu poder de mando, subalterno ao casal, com visível gosto e dessa forma, amealhou inimigos aos cachos dentro e fora da administração. Sua prisão, por razões de cunho eleitoral, foi catártica. Guardando as proporções e os motivos teve o mesmo efeito espetaculoso, estético, das cabeças raspadas do Sérgio Cabral e do Eike Batista e de outros presos pela Operação Lava Jato, menos notáveis. Não era nem a prisão em si que era comemorada, mas sua execração pública.
E é nesse patamar da prosa que me detenho. A sociedade brasileira, ao que parece, não tem se conformado com os remédios institucionais para combater os males que a afligem, secularmente. Quer mais. O que quer mais? No caso, aqui, na nossa paróquia, a personagem em questão foi indiciada pelo Ministério Público e Polícia Federal, teve o diploma e o mandato de vereadora eleita cassados, responde a um caudaloso processo judicial e recorre a instâncias superiores da Justiça, conforme reza o famoso “estado democrático de direito”. Aguarda, cumprido o rito processual, a sentença definitiva. Tem mais? Quem sabe um carimbo na testa, uma marca que a diferencie dos demais. Tenho medo desta sanha “justiceira”.
Mais do que isso não é Justiça, é vingança.
Não sou seu advogado de defesa. Estamos em espaços políticos, diametralmente, opostos. Sequer, temos convivência pessoal. Acho que ela e todos os outros denunciados, devem responder pelo que fizeram, mas também recuso o papel de bedel das causas alheias. Não sou julgador. Essa vaga está completa e cabe a um poder instituído para tal. Defendo a civilidade, ao contrário do rancor, do ódio visceral. Anseio por uma sociedade capaz de entender que os erros são, quando percebidos, o combustível da mudança.
Como devoto de são Guimarães Rosa, recorro a um conto de seu evangelho Sagarana: “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”. Rosa conta a história de Augusto Esteves que, depois de aprontar todas, resolveu se redimir de suas culpas, carpir seus pecados e se sacrificar pelo justo, em duelo com “Joãozinho Bem-Bem”, famoso bandoleiro dos sertões mineiros, que impunha à força suas vontades. Redimido, queria “ir para o céu, nem que fosse a porrete”. Assim como ele, todos têm a sua hora e sua vez. Além do que ninguém deve ter compromisso com erros pretéritos, JK já disse isso.
As pessoas são o que são e o que foram. E, sobretudo, o que serão. Vivemos, graças a Deus, numa sociedade regrada, cujos limites são a ordem e a lei. Fazer “justiça” que atenda aos desejos dos que se consideram ofendidos e exigem castigo além da letra da lei é retroagir, no tempo e no sentimento, na evolução civilizatória.
Vamos adiante!
0

Vanessa Henriques – “Dentro da cadeia, o PCC era como um pai pra mim”

 

Assim afirmou Felipe, 33 anos, enquanto relatava a experiência vivida em um presídio da capital paulista. Sentado defronte a mim, sem, no entanto, me encarar, Felipe me contou a história de sua vida, durante mais de duas horas ininterruptas. Logo no início do contato, foi possível notar que já devia fazer algum tempo que ele não falava tanto sobre si mesmo para alguém. Pudera, suspeito que Felipe mal se lembrava da última vez em que fora escutado com tamanho interesse. Estimulado pelos meus olhos e ouvidos atentos, as palavras de Felipe jorravam com facilidade. Ele falava em um fluxo quase contínuo, silenciando apenas algumas vezes, quando se detinha um pouco mais em uma ou outra lembrança particularmente incômoda. Diante dele, eu sorvia e aprendia, com o punho cerrado em torno do gravador; era meu trabalho fazer com que aquele relato não se perdesse.
Num primeiro momento, foi estranho ouvir alguém comparar o Primeiro Comando da Capital, “uma das maiores facções criminosas do Brasil”, a um pai. Felipe explicou que, para ter acesso a itens básicos de higiene dentro da cadeia, como sabonetes e pastas de dente, o preso novato que não pudesse receber tais “artigos de luxo” de parentes ou amigos, teria de se “filiar” ao PCC para conseguir obtê-los. Quando chegou à prisão, condenado por ter sido pego em flagrante roubando um supermercado, Felipe se viu sem pertences dentro de uma cela de proporções modestas, junto de mais 60 homens. Dada a precariedade das condições que encontrou no cárcere, somada à ausência de apoio familiar, foram os “manos” do PCC que lhe ofereceram amparo. Por isso, para Felipe, a relação com a facção lhe remete a um vínculo paternal. O sentimento de insegurança, companheiro constante desde que se entende por gente, atenuou-se um bocado quando ganhou a proteção do PCC. Mas é claro que esta proteção não seria gratuita. Em troca, Felipe deveria tornar-se um funcionário do tráfico de drogas existente dentro da cadeia e participar de rebeliões eventualmente programadas pelos “cabeças” da facção. O envolvimento em uma dessas rebeliões custou a Felipe mais dois anos passados no cárcere.
A trajetória de Felipe não se diferia muito das histórias que ouvi dos demais rapazes que entrevistei em virtude de uma pesquisa sociológica da qual participava. Durante um tempo, conversei com homens que se encontravam em situação de rua, acolhidos em um albergue localizado no centro da cidade de São Paulo. Pedi a eles que me contassem o que havia acontecido em suas vidas para que chegassem até aquele lugar, o que me permitiu coletar diversas histórias, todas com seu valor singular e riqueza de detalhes, mas em grande medida orientadas por um roteiro muito similar: infância vivenciada em um contexto de desestrutura material e emocional do núcleo familiar, frequentemente marcada pela ausência do pai; errática trajetória escolar na rede pública precarizada; precoce envolvimento com substâncias entorpecentes; adolescência marcada por desorientação e revolta diante das privações e humilhações de toda ordem apresentadas pelo mundo; dificuldade de inserção formal no mercado de trabalho e, por fim, envolvimento com atividades ilícitas e passagens mais ou menos duradouras pelo cárcere.
Após as dezenas de mortes ocorridas em presídios desde o começo deste ano, ganhou novo fôlego a discussão em torno do problema do sistema carcerário brasileiro. Os dados mostram que somos o quarto país com maior população carcerária do mundo e que o contingente de presos ainda vem crescendo de forma vertiginosa. É notório que as prisões brasileiras não cumprem seu papel de promoção da ressocialização dos presos e que a estrutura do sistema prisional apenas contribui para o recrudescimento da raiva e do ressentimento dos indivíduos que ingressam nas penitenciárias. Enquanto membro da sociedade civil, creio que cabe perguntar qual a serventia da pena privativa de liberdade quando aplicada nessas condições. A ineficácia deste modelo de punição também é passível de ser inferida a partir das estatísticas da área da segurança pública: não é possível perceber qualquer retração nos índices de criminalidade.
Vários especialistas apontam soluções para reverter o estrangulamento desse sistema . Poucos são aqueles que propõem apenas a construção de novos presídios e muitos são os que apontam para a necessidade de atacarmos as raízes do problema. São várias as questões que permeiam o debate: o grande número de presos provisórios, a dureza da Lei de Drogas que foi responsável por aumentar em 480% o número de presos por tráfico de drogas nos últimos doze anos , a carência de investimentos públicos em educação, saúde e assistência social como medidas que possuem o poder de prevenir a criminalidade, bem como o poder de reinserir os indivíduos que estão pagando pelos crimes que cometeram, dentre outras.
Para evitar que novas barbáries aconteçam fora e dentro dos presídios, é preciso que tenhamos a coragem de debater temas espinhosos, que mobilizam enormemente os afetos de grande parte da população, para que possamos reconstruir as bases de nossa sociedade. As facções criminosas ocupam vácuos de poder criados pelo Estado. O fato de que inúmeros Felipes tenham nestas organizações suas fontes de segurança material e existencial escancara a gravidade de um problema que definitivamente não será solucionado com a mera construção de novos muros.

Salvar

Salvar

0

Manuela Cordeiro – Movimentos diários

 

Acorda e procura as primeiras luzes. O filme que deixou aceso, as luzes frias ainda por apagar do dia anterior, o celular pisca freneticamente recebendo os primeiros bits do horário comercial. Abre a janela da frente. Por sorte essa não tem chave, tem um só trinco e já consegue, sem tantos intermediários, enxergar o dia descortinando em vermelho e em canto. Do pássaro, do carrinho do vendedor de sorvete — interrompido pelo grito dos carros.
Começa a ronda na casa, a procura pelas chaves das portas, cada uma em um lugar previamente combinado com seu eu de ontem. Perturbado com os humores matinais, promete deixar tudo no mesmo lugar de hoje para amanhã. Mas, na realidade, sabe que a chave da porta de trás só pode estar em cima da ilha da cozinha, da geladeira ou em uma de suas várias cestarias de lembrança de queridos paradouros do passado. A chave da porta da frente também só tem outros dois cantos específicos para estar.
A porta que abre primeiro é a de trás. Não quer se abrir ao dia tão depressa. Vai ver as folhas caídas no chão, como o manjericão e a hortelã pimenta se comportam na luz tímida, o barulho dos vizinhos. Olha o céu e prevê o tempo do dia, mas se perde nos desenhos das nuvens.
Inicia o ritual do café da manhã ensaiado em perfeição — trocar as tomadas para a cafeteira e o liquidificador, ouvindo o tempo de terminar de passar o café, colocar as frutas do suco de hoje, ao mesmo tempo que liga o gás e inventa a tapioca do dia. Nisso, a chave do quarto já saiu da parte de dentro pra fora, junto com o computador, o livro que leu, as roupas para o dia de trabalho. Por um instante, tudo em harmonia e o maestro se dá ao luxo de apreciar o ritual em funcionamento. É interrompido pela espátula que cai e que ao buscar no chão, leva consigo o pano de prato e quase a garrafa de vidro. O susto do barulho interrompe a sequência do ato de fala e, no contexto da ação, a luz do dia e a do gás ficam por dois segundos turvas. Respira e consegue retomar o comando da polifonia. Porque já se aproxima o fim desse movimento da sinfonia. Nem ele gosta disso, mas sabe que deve preparar a próxima peça desse cenário, além de se regozijar ao ver a cena sempre pronta para novo ensaio.
O desfecho não é a simples ordem contrária do que foi feito anteriormente. Tem que ser sentido o tempo das coisas — o que esfria primeiro, enquanto lava o que já foi usado, preenche o finalizado. E novamente a porta de trás, a da frente, os esconderijos de sua mente para as chaves, a porta do quarto, a janela principal. Parado na porta da frente, novamente aberta, olha para mão que tilinta e se pergunta porque tantas chaves naquele molho — que incluem aquelas várias do trabalho, outras de casas de amigos.
Levanta o olhar e decifra o seu quebra-cabeça diário em um rápido olhar investigativo na sala e se pergunta — ficou tudo no seu lugar? E todo o dia sozinho responde, já que só ele domina o código de sua coreografia diária.

Salvar

Salvar

0

Ricardo André Vasconcelos – Um país à mercê das trapaças da sorte?

 

“Trapaças da sorte” ou “urdiduras do diabo”. Foi como dois ministros do Supremo Tribunal Federal reagiram à morte do colega de toga, horas antes num acidente aéreo no litoral de Paraty. O morto era Teori Zavascki, relator do processo que investiga um dos maiores escândalos de corrupção do mundo e a poucos dias de concluir a homologação de colaborações premiadas de 77 executivos da maior empreiteira nacional. Os processos podem redundar no indiciamento de duas centenas de políticos citados, incluindo 128 com mandato, entre eles os presidentes do Congresso e da República.
Ingredientes suficientes para alimentar teorias da conspiração de todos os tipos, à direita e à esquerda. Nas redes sociais o próprio filho de Zavascki levantou suspeita de algo poderia existir de “não acidental” na queda do avião. Em maio do ano passado, o mesmo filho registrou em rede social que se algo acontecesse a sua família, a Polícia saberia a quem procurar. Mais não disse e nem mais lhe foi perguntado.
Em quatro anos na Suprema Corte, Zavascki contrariou interesses diversos: suspendeu o mandato de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tirando-o da presidência da Câmara, cortando assim o suprimento de oxigênio político que o fazia manter em vergonhoso banho-maria o processo de cassação do próprio mandato. Algumas decisões favoreceram ao Lula e outras foram de encontro aos interesses dos ex-presidentes petistas. Com Renan Calheiros (PMDB), também deu uma no prego, outra na ferradura: determinou o indiciamento num processo que se arrastava quase há uma década, mas votou com a maioria para mantê-lo na presidência do Senado, mas fora da linha sucessória da Presidência da República. Um “puxadinho constitucional”.
Teori Zavascki já figura na extensa lista de personalidades brasileiras que saíram de cena de maneira que se tornaram suspeitas porque ocorridas em momentos de proeminência das vítimas e em circunstâncias limítrofes entre a fatalidade e o ardil humano. Acidentes acontecem, da mesma forma que sabotagens, envenenamentos ou homicídios. Ao longo das últimas décadas a história do Brasil está salpicada de casos que podem ser obras do puro e simples acaso ou de sórdidas conspirações. Trapaças da sorte?
Em outubro 1992, Ulysses Guimarães estava no auge da campanha pelo impeachment de Collor e o helicóptero que o levava de Angra para São Paulo, caiu no mar matando todos a bordo. Antes, em 1985, na véspera da posse como primeiro presidente civil após duas décadas de ditadura militar, Tancredo Neves foi internado às pressas no Hospital de Base de Brasília para uma cirurgia realizada num centro cirúrgico improvisado. Tancredo morreu 35 dias depois de uma sucessão de erros, farsas e egos inflados. O livro “O paciente – O Caso Tancredo” (1), do jornalista Luis Mir, é um dos mais completos trabalhos sobre a agonia e morte daquele que seria o presidente que faria a travessia do país de volta à democracia. A conclusão do livro não agrada aos adeptos das teorias conspiratórias. Para Mir, a partir da escolha do local da cirurgia (“território hostil do primeiro ao último minuto em que esteve lá”), o resumo é que houve uma “tragédia médica que colocou a transição democrática à beira do abismo…”. Só para ter um exemplo, na sala de cirurgia onde Tancredo foi operado, estavam 25 pessoas incluindo os profissionais, políticos como Antônio Carlos Magalhães, o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima e a família Neves: a mulher, o filho, duas filhas, dois irmãos, uma irmã, dois netos (um era Aécio Neves) e um sobrinho (Francisco Dornelles).
Nas eleições presidenciais de 30 anos depois, em 2014, o candidato apontado como opção para o rodízio entre petistas e tucanos, morreu, também num desastre aéreo. Eduardo Campos, neto do lendário Miguel Arraes, tinha 45 anos e foi substituído na chapa pela vice, Marina Silva. A eleição foi vencida pela petista Dilma Rousseff.
Ministro da Reforma Agrária no governo Sarney, o advogado e militante histórico do MDB, Marcos Freire era um dos políticos mais promissores naquele alvorecer na “Nova República”. Pernambucano do Recife, chegou ao Senado com pouco mais de 40 anos. Em 1987 era ministro da Reforma Agrária do Governo Sarney quando o avião em que viajava, visitando o conflagrado Sul do Pará, explodiu em pleno ar matando também o presidente do Incra e outros técnicos. A reforma agrária, ainda era (é) um tabu que contribuiu para a queda do presidente constitucional, João Goulart, em 1964.
Goulart, aliás, é outro personagem que protagoniza diversas teorias de conspiração. Jango morreu em dezembro de 1976. O que chama atenção, como é esmiuçado no livro “O Beijo da Morte” (2), de Carlos Heitor Cony e Ana Lee, é que num período de nove meses morreriam, em condições, digamos, inesperadas, os três principais líderes da oposição ao regime militar. Os três, potenciais candidatos ao Planalto, tinham fundado a “Frente Ampla” meses antes com objetivo de restabelecer a democracia no Brasil. Juscelino Kubitschek morreu num acidente de carro na Rio-São Paulo, próximo à cidade de Resende, já no Estado do Rio. O Opala em que estava, dirigido pelo fiel motorista Geraldo Ribeiro, atravessou o canteiro e colidiu com uma Scania que transportava 30 toneladas de gesso. Os dois morreram na hora. Uma semana antes, correu um boato que Juscelino teria morrido em acidente semelhante, próximo a Brasília. Era agosto de 1976. Em dezembro do mesmo ano, João Belchior Marques Goulart, o Jango, morreu no exílio na cidade de Mercedes, na Argentina, oficialmente de ataque cardíaco.
Meses antes, Jango encontrou-se em Montevidéu com o inimigo político Carlos Lacerda, o “corvo”, para fundar a Frente Ampla e andava espalhando que voltaria ao Brasil, de qualquer maneira. Só voltou morto. Era cardiopata em uso de medicamentos e há pouco havia passado por um check-up em Lyon, na França.
Carlos Lacerda — um dos líderes civis do movimento de 64 que passou a combater e, por isso, teve os direitos políticos cassados — deu entrada na Clínica São Vicente, na Gávea, em maio de 1977, com sintomas de febre que, em poucas horas evoluiu para uma septicemia que o matou. Era o terceiro integrante da Frente Ampla morto em nove meses. As mortes de Jango e JK foram investigadas na ditadura e posteriormente já no retorno à democracia. Jango teve o corpo exumado em 2001 e nenhuma tese conspiratória comprovada. Mas sobre as três mortes pairam as asas de certa Operação Condor, conspiração liderada pela CIA para eliminar opositores dos regimes ditatoriais que dominavam a América do Sul com apoio dos Estados Unidos na segunda metade do século passado.
Casos confirmados de tortura e assassinatos de presos políticos pelos agentes do Estado autorizam as teorias conspiratórias. Ora, se assassinaram o jornalista Wladimir Herzog, o operário Manoel Fiel Filho, a estilista Zuzu Angel e muitos outros por se opor ao governo, por que não calar os que eram ameaça real ao regime?
Outro ex-presidente morto em desastre de avião e quase nunca incluído na lista de mortes suspeitas é Castelo Branco. O Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, presidente militar entre 1964 e 1966, perdeu a batalha da própria sucessão para os militares da “linha dura” que impuseram Costa e Silva, que anos depois legaria ao país o famigerado AI-5. Castelo voltava de uma visita à escritora Rachel de Queiroz, sua prima, na fazenda “Não me Deixes”, no Ceará, quando o avião em que voava entrou numa área de exercício da Força Aérea Brasileira (FAB) e foi atingido por um jato.
Num andar mais abaixo, há outras mortes com características mais de “queima de arquivo” do que conspiração política. Paulo César Farias, o ex-tesoureiro e pivô do impeachment de Fernando Collor, foi encontrado morto a tiros ao lado da namorada, Suzana Marcolino, em junho de 1996. Crime passional, foi a versão oficial. Suzana teria matado o namorado e depois posto fim à própria vida. Mais misterioso ainda é o assassinato, em plena rua em São Paulo, em janeiro de 2002, do então prefeito de Santo André, Celso Daniel. Estrela do petismo em ascensão, Daniel estaria prestes a detonar um esquema de corrupção na prefeitura, do qual perdera o controle. Testemunhas e suspeitos foram morrendo como num dominó macabro e a história virou toneladas de papel dos processos judiciais sem conclusão.
De coincidências e conspirações vai-se tecendo a história do Brasil. Sabe lá Deus o que mais nos espera…
Referências:
1. – CONY – Carlos Heitor e LEE Anna. O Beijo da Morte. Rio de Janeiro. Editora Objetiva. 2003.
2. – MIR, Luis. O paciente – O Caso Tancredo Neves. São Paulo. Editora de Cultura. 2010

Salvar

Salvar

0

Ocinei Trindade – Darcy Ribeiro nu, a universidade e muitos lamentos

Eu não gostava de Darcy Ribeiro. Quando se é jovem, tolice e estupidez não nos faltam. Eu não gostava de Leonel Brizola, demorei compreendê-lo. Eu tinha 12 anos quando ouvi falar de ambos pela primeira vez. Brizola foi eleito governador do Rio de Janeiro em 1982, e teve Darcy como seu vice naquele mandato até 1986. Achava-os chatos e falastrões. Eu achava que eles preferiam o Ciep, quando minha escola estadual estava abandonada. Eu não gostava tanto da escola, nem da ideia de ficar o dia inteiro nela aprisionado sofrendo pressões, assédios e constrangimentos (o que chamamos hoje de bullying). Lembro de ter visto ambos pela primeira vez na Beira-Rio, em Campos, durante campanha eleitoral em carreata. Darcy era candidato ao governo estadual, mas perdeu para Moreira Franco. Eu ainda não tinha idade para votar, mas votaria em Fernando Gabeira, se pudesse.

Eu demorei um bocado para saber quem era de fato Darcy Ribeiro e sua importância valiosa para o Brasil. Ignorantes são assim, demoram compreender muitas coisas. Não sei exatamente se foi em 1991 ou 1992, em uma certa ocasião, fui parar no restaurante do Palace Hotel para um jantar com Darcy Ribeiro. Não me lembro se ele já era senador da República ou candidato ao cargo. O encontro reuniu diversas autoridades do governo municipal, políticos, intelectuais, educadores e professores universitários que ensaiavam a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense sob a égide de Darcy Ribeiro, o mentor genial de tudo que se tornaria a Uenf futuramente. Como fui parar naquele evento? Bem, eu namorava alguém muito importante da primeira gestão de Anthony Garotinho na Prefeitura de Campos, então, fui a reboque.

Lembro que Darcy Ribeiro demorou muito para aparecer, sendo assim, o jantar não podia ser servido enquanto ele não chegasse, e eu faminto. Quando finalmente surgiu, estava de banho tomado, cabelos molhados e escovados para trás e, para variar, a sua metralhadora falante defenestrada entrou em ação. O homem era o centro das atenções e não poderia ser diferente. Eu percebia uma certa bajulação dos convidados, além de um constrangimento dos mesmos ao se dirigirem a ele, ou de interrompê-lo naquela verborragia toda alucinante. À época, a ponte Barcelos Martins tinha sido pintada de verde, o que desagradou a muitos campistas, inclusive integrantes do governo. Porém, Darcy elogiou a pintura com a cor mais representativa da flora brasileira. Bastou Darcy elogiar a ponte verde para muitos mudarem de opinião e concordarem com ele. “Toda cidade que é cortada por um rio como este só pode ser bonita”, disse.

Confesso que eu estava achando um saco aquele jantar. Darcy Ribeiro ria de tudo que ele mesmo contava e eu não conseguia achar a menor graça. Até que relatou de um susto que levara ao se hospedar em um hotel de alguma cidade do mundo onde fora criar ou reformar o modelo de ensino de alguma universidade, talvez no Peru ou Venezuela, não sabia precisar. Darcy disse que, ao sair do banho, deu de cara com um homem pelado de bunda murcha e enrugada no meio do quarto. Custou alguns segundos compreender o que um velho nu, enrugado e de bunda murcha fazia dentro do seu quarto. Foi então que percebeu que o velho era ele mesmo. A bunda flácida e enrugada que via era a sua própria refletida em espelhos. Todos riram, até que eu, tolo, estúpido e mau-humorado o contestei dizendo: “Ah,essa história eu achei muito mal-contada, professor. Afinal, o senhor estava hospedado só ou acompanhado nesse quarto de hotel?”. Alguns segundos de silêncio, ele me olhou por um instante, arqueou as sobrancelhas enormes e alvoroçadas, me ignorou, e voltou a disparar suas histórias. Me dei conta de minha gafe e passei a rir de tudo que ele dizia a partir de então, mas na verdade eu ria de mim mesmo.

Dias depois, a professora Magdala França Vianna, que estava nesse jantar e que me dava aulas no curso de Comunicação Social à época, me abordou na faculdade e disse ter se surpreendido com meu atrevimento ao me dirigir daquela forma ao célebre Darcy Ribeiro. Ela se divertiu. Sinceramente, eu achei que falei algo tão insignificante, mas que de uma certa maneira eu quis, sim, pensando bem, chamar sua atenção. Levei tempo para aprender que quase todos ali queriam ser que nem Darcy Ribeiro, um gênio (com e sem dúvidas) diante da vida. Quando ele morreu de câncer, aos 74 anos, em Brasilia, em 1997, eu já era menos tolo. Contava com 27 anos e tinha um pouco mais de maturidade e informação para saber que Darcy Ribeiro era um homem raro, que defendia a educação e os índios com tamanha nobreza e com grande conhecimento de causas e lutas.

Em novembro último, visitei a conceituada Universidade de Brasília e seu campus gigantesco. A UnB foi concebida por Darcy Ribeiro quando era ministro da Educação durante o governo parlamentarista de João Goulart. Dentro daquele complexo de prédios modernistas com traços de outro gênio, Niemeyer, lembrei desse meu encontro com Darcy Ribeiro e sobre sua última criação, a Universidade Estadual do Norte Fluminense que leva o seu nome, em Campos dos Goytacazes, instituição esta que eu tenho a honra de estar concluindo o mestrado em Cognição e Linguagem. Lamento muito que a Universidade do Terceiro Milênio como ele idealizou, esteja atravessando um momento de abandono juntamente com outras instituições de ensino do estado do Rio de Janeiro, acometido por graves problemas financeiros e por uma gestão desastrosa por parte dos últimos governos que preferiram investir em isenções fiscais para empresas multinacionais, por exemplo, além de superfaturar obras faraônicas e desviar dinheiro público para enriquecimento ilícito, como bem sabemos pelas acusações e prisões de vários políticos fluminenses testemunhadas pelo povo.

Tantos anos de luta e investimento por parte de professores, servidores, pesquisadores e estudantes, mas os políticos ainda não sabem ou não aprenderam a importância da educação para o desenvolvimento de um país e de uma sociedade que parece retroceder a cada dia quando não tem acesso ao ensino de qualidade. Há muito o que lamentar, porém é preciso reagir. Quando a Uenf foi idealizada, muitos representantes de setores organizados se juntaram para sua elaboração e consolidação. Agora é hora de todos que acreditam em um Brasil melhor e mais digno por meio da educação voltarem a se unir em favor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Um país que abandona suas escolas e universidades condena a si próprio ao atraso, ao esquecimento, às trevas.

Conta-se que no leito de hospital, antes de morrer, Darcy Ribeiro, sedutor como de costume, pediu à médica que lhe tratava o câncer para que ela o autorizasse a dar aulas ali mesmo. Ele sentia uma vontade enorme de ensinar, Trouxeram-lhe um menino de nove anos de idade para que ele pudesse conversar e dar sua última aula. Dizem que por alguns instantes, Darcy contou várias histórias ao garoto sobre o Brasil, a importância dos índios, das florestas, das culturas todas, do sambódromo e das escolas, e que todas essas coisas deveriam ser respeitadas, Foi um testamento que ele quis deixar.

Na UnB, no prédio lindo em forma de oca indígena construído no local que Darcy Ribeiro apelidou de beijódromo (era um local de encontros amorosos no campus universitário), encontra-se todo o seu acervo pessoal de livros, documentos, discos, prêmios, honrarias e objetos relevantes. Ali, se concentram alguns elementos que ajudaram na formação intelectual do antropólogo, reitor e escritor Darcy Ribeiro. Ele deixou um legado precioso ao país, e esta herança não pode ser esquecida pelos brasileiros, povo que ele amou sem reservas. O homem que amou o Brasil e que se doou de tal maneira nos deu exemplos. A lição está dada.

Salvar

Salvar

Salvar

0

Marcelo Amoy – A saída é por ali! (?)

 

Mal enterramos os ossos da ceia de réveillon e fevereiro já se anuncia com recomeços de colocar os do ano novo no bolso e que ameaçam nos deixar de ressaca. Se a modernidade é líquida, os sustos no Brasil são sólidos e as expectativas, tantas vezes… se dissipam no ar como um avião caindo no mar de Paraty, para mim, para todos nós.
A segunda temporada de 2016 – também conhecida como 2017 – já começou massacrando nos presídios e na massiva cobertura midiática daquilo que, há décadas, não sabemos como fazer: oferecer segurança à sociedade via recuperação de infratores presos em locais que não sejam universidades do crime – mas jogamos todos lá indiscriminadamente desejando que se consertem sozinhos (quem sabe por obra e graça do Divino Espírito Santo?) e, se assim não acontecer: lavamos nossas mãos e pensamos como seria bom se todos se matassem para eliminar nosso problema. Para um liberal como eu, uma das (poucas) funções precípuas do Estado é a segurança pública. Resolver o problema da segurança é responsabilidade do Estado; mas o Estado, o fazemos nós – pelo menos assim deveria ser. De alguma forma, falhamos. Reconhecer isso, sem vitimismos vulgares, é o primeiro de muitos passos na busca de soluções efetivas para alcançarmos aquele bem estar típico da civilização: o incrível, mas eventualmente alcançável avanço de podermos andar tranquilos pela rua. Qualquer rua, mesmo sem iluminação adequada – viu ex-candidato?
O Brasil é um projeto que precisa entrar em obra; pra isso, tem que sair da prancheta – se fôssemos modernos, eu falaria em Autocad. Mas… vá lá que seja: entrar em reforma já adianta – desde que urgente! Existem algumas na fila de espera faz tempo e o retorno das atividades do Congresso Nacional agora no comecinho de fevereiro aguça expectativas – ainda que as decepções estejam garantidas. Sim, eu sei da baixa qualidade de nossos políticos, assim como de muitas de suas intenções duvidosas – o que leva muita gente a desejar expulsá-los da vida pública como se isso trouxesse solução. Mas estou convicto de que não há saída fora da política porque até pode haver ditadura com Congresso aberto, mas não há democracia com Congresso fechado. O que cabe a nós é a responsabilidade de melhorarmos a qualidade de nossos representantes – não a covardia de um dar de ombros nem a desculpa de que “eles nunca vão prestar”. Se nós prestamos, eles hão de prestar também. É nossa responsabilidade.
As reformas da previdência e do ensino médio; as tributária, trabalhista e política… independentemente da ordem, precisam ser levadas adiante. Já sabemos que nenhuma será feita de uma forma ideal até porque o ideal é inatingível por definição – quanto mais quando as partes mais afetadas por cada uma delas (tantas vezes antagônicas) sempre terão pleitos atendidos parcialmente e expectativas frustradas totalmente. Espero, contudo, que o saldo seja positivo na média. Sou favorável a todas, mas não sem críticas.
A da previdência, como proposta pelo governo, é draconiana demais: defendo uma idade mínima menor e regras de transição mais suaves e paulatinas, mas concordo com o fim de praticamente todas as aposentadorias especiais por uma questão de isonomia – e acho que o fim da aposentadoria especial dos políticos é questão de honra para o país. A reforma do ensino médio é urgente: seja para diminuir a evasão escolar e o desinteresse dos alunos pelos estudos; seja para habilitar as próximas gerações para os desafios de uma vida profissional cada vez mais exigente, especializada, difícil e longa – detalhes como qual disciplina fica ou sai é trabalho para os especialistas (mas a demanda é que o objetivo de modernizar o ensino suplante interesses particulares). Num país em que 2/3 dos cidadãos sonham em abrir seus próprios negócios (individuais ou com 2 ou 3 funcionários no máximo), as reformas tributária e trabalhista são evidentemente necessárias: não dá mais para esses microempresários (aquelas pessoas que geram a maioria dos empregos nacionais – só pra lembrar aos “distraídos”) gastarem horas a fio tentando decifrar códigos tributários impenetráveis; nem pode ser normal que alguém ainda ache “bacana” que leis septuagenárias vijam hoje como vicejaram no passado – flexibilizá-las é do interesse dos próprios trabalhadores, que ganharão oportunidades sem perder direitos. A reforma política – urgentíssima! – é a que nos dará o maior trabalho e trará as maiores decepções dada a atual composição pouco republicana de nosso Congresso. Torço pelo estabelecimento do voto distrital (puro ou misto: baratearia as campanhas, diminuindo a corrupção; e facilitaria a cobrança e o controle da atividade parlamentar), além do fim do sistema proporcional (que elege gente sem voto) e dessas esdrúxulas coligações contraditórias e mercantilistas. No entanto, não arrisco palpite sobre o que resultará dessas discussões.
Logo no começo de fevereiro, Câmara e Senado escolherão seus novos presidentes e mesas diretoras: os candidatos favoritos já chegam maculados por motivos diversos e seus concorrentes não animam ninguém. A velha política não larga o osso. É osso, pessoal! Enquanto isso, o suspense continua quanto à Lava Jato e se agrava com a morte de Teori – mesmo com (ou até por causa de) sua substituição. Delações se sobrepõem exigindo retratações e complementações nesse roteiro de intrigas que nem Fellini ousaria filmar. Com um pote imenso de pipoca no colo, assistiremos a cada dia mais gente dizendo: “Moro em Curitiba” (ou em Bangu). Além disso, o TSE vai julgar a chapa Dilma-Temer: aquela formada, segundo alguns dos que nela votaram, por uma “cabeça de chapa legítima” e um “vice golpista”. Abomino esse discurso tanto quanto a intolerância que ele cultiva desde sua gênese até suas presentes consequências: o aprofundamento das divisões nacionais. O fato de que o feitiço do “nós contra eles” tenha se virado contra o feiticeiro me apraz – mas não me basta nem deve se encerrar em si. Ao contrário: todos nós que o denunciamos como um feitiço populista altamente danoso aos interesses nacionais, temos a obrigação de não replicá-lo, mas de fazer o certo e continuar a combatê-lo – agora mais do que nunca.
Enquanto o diálogo com defensores de uma visão divergente estiver impossibilitado ou prejudicado, falemos aos flexíveis – essa é a maioria a conquistar: nos corações e nas urnas. Não nos esqueçamos, porém, de buscar o diálogo com a divergência: “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” – e isso vale tanto “para eles” quanto “para nós”. Há sempre algo a aprender com quem pensa diferente. Não falo aqui de dar a outra face, mas de assumir a postura correta de trabalhar para o fim da intolerância – aquela que tantos “deles” se esforçaram para exacerbar e muitos “de nós”, inadvertidamente, cultivam para o azar do futuro do país. Chega disso: esse “nós contra eles” não está com nada, nunca esteve. Façamos melhor: o Brasil agradece.
Aliás, sem que nos sirva de consolo, o crescimento da intolerância não é um demérito só brasileiro. Radicalismos de todas as espécies só crescem mundo afora – ameaçando, no meu entender, as liberdades individuais, o liberalismo econômico e, no final das contas, a própria democracia. Neste momento, para a maioria das pessoas, a figura que mais se associa a essa ameaça é Trump – mas não é meu objetivo entrar nesse mérito agora (falta até espaço). Ao contrário, o que me interessa é como fazer desse limão uma limonada docinha pro Brasil inteiro beber. Se Trump fizer metade do que prometeu, nosso país terá uma boa chance de se reposicionar no comércio internacional. Somos deficitários no comércio com os EUA e isso nos exclui do alvo preferencial de prováveis ataques protecionistas norte americanos (o NAFTA e a PTP) – com margem inclusive para aumentarmos nossas exportações pra lá via novos acordos comerciais bilaterais. Paralelamente, os países que perderão mercado nos EUA precisarão de novos destinos para seus produtos com uma urgência que talvez os force a fechar acordos com o Brasil em condições favoráveis para nós. Agora é a hora do Brasil flexibilizar certas regras do Mercosul para poder fechar esses acordos bilaterais sem a obrigatoriedade de fazê-lo em bloco. O próprio Brexit pode nos abrir mais uma bela porta. Não podemos deixar nenhuma dessas portas se fechar antes de passarmos.
Assim, que venha fevereiro: com a certeza do carnaval em seus últimos dias – mas com a esperança de que escolhamos caminhos que não nos façam continuar dançando depois que a folia de Momo terminar.

Salvar

Salvar

0

Fabio Bottrel – O Espinho da Rosa

“Como afirmou Lévi-Strauss, o encontro dos sexos é o terreno em que a natureza e cultura se deparam um com o outro pela primeira vez.”
Ao ler esse pensamento no livro Amor Líquido – Sobre a fragilidade das relações humanas, de ZygmuntBauman, unindo às palavras do autor no vídeo acima, foi inevitável a reflexão: eu sou de uma geração incapaz de amar.
Essa impotência amorosa talvez engane logo após algum certame, mas não dura nessa “sociedade do espetáculo”, título do livro de Guy Debord pensando essa inversão de mundo, onde o verdadeiro é um momento do falso. Nesse grande teatro os personagens são julgados pelos figurinos aquém dos textos, pelo cenário além dos mesmos, nunca pelo que és, mas pelo que conseguem carregar no corpo e no viés de seus destinos. Somos frutos de uma relação frágil, superficial, construímos nossas vidas à distância através de rede social, crescemos achando que um “delete” é a solução do nosso desgosto, tão simples e fácil como amanhã terá outro a preencher o posto de uma ponte pro vazio.
“E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço.” (Bauman)
Com a delicadeza desses laços humanos que aparentam solidez, constroem-se relacionamentos com o pensamento utópico baseado numa cultura que reprime a tristeza a ponto de negá-la a sua existência, criando uma imagem falsa da vida, vangloriando uma linha do tempo só de sucessos como se não houvesse uma contrapartida nem mesmo como parâmetro. Esquece-se que a felicidade são momentos e a maturidade é capacidade de aproveitar as oportunidades que a vida lhe proporciona ser feliz, apenas o idiota ou alienado é feliz o tempo inteiro. Mas o cinismo virtual não faz mal a ninguém, não é o mesmo do relacionamento, que fere a confiança e desrespeita o outro.
Nesse padrão há exceção, gosto de acreditar, talvez só os tolos amem ou talvez no amor seja onde os fracos de fato não tenham vez, pois apesar de tudo quem ainda acredita no amor foi feito para durar e não apenas passar pela vida, como os frios que não choram, não amam e não vivem.
O amor é belo tal como uma rosa, enquanto sente o doce perfume os espinhos sujam de sangue as mãos de quem a colhe.

Salvar

Salvar

0

Guilerme Carvalhal – Vergonha

 

Andando pela estrada de ladrilhos coberta pelo acúmulo de areia dos anos sem uso sedimentando um assoalho compactado e liso, o guia explicou:
“Por aqui saíram correndo em fuga. Pegaram os objetos mais simples e hábeis, as roupas, e partiram sem nenhuma plano. Evadiram e seus pertences de ouro, suas máquinas caras e tudo mais permaneceram para os salteadores futuros”.
Continuamos adiante. O ar pesado me causava calafrios. De alguma forma os espíritos do passado sussurravam em meu ouvido, cantando as lástimas de seus momentos de agonia. Por entre o alto matagal ladeando a passagem poderia surgir um não-sei-o-quê assustador e eu vasculhava por cada canto, vigilante.
Diante do pórtico, o guia detalhou:
“Os viajantes de antigamente logo se vislumbravam diante da opulência da cidade. Ali, ao lado, vocês veem as duas pernas que restaram do colosso que espantava os bandoleiros e impunha o respeito e a ordem. Os moradores queriam que quem nessas bandas pusesse um pé baixasse a cabeça diante de sua superioridade. Daí a pompa efusiva logo na entrada”.
Logo adiante das pernas de mármore revestidas por uma camada viscosa de limo predominava a decadência. Sobre o chafariz de azulejos descorados desfilavam filas de ratazanas. As antigas luminárias das ruas jaziam podres de ferrugem. Das casas restavam seus alicerces de madeira e pedras, umas poucas com as colunas, tetos e paredes preservados apesar do total aspecto de ruína. Andar dentro de uma deles consistia em atitude de grave perigo, pois os tremores de passos poderiam afetar os caibros e comprometer definitivamente a estrutura.
Virando à direita, uns bons metros em seguida, havia uma praça com coreto. A armação metálica havia se desprendido e as varas de ferro retorcido formavam um mosaico surreal apavorante. As folhas cobriam todo o piso cimentado da praça e qualquer pessoa com bom senso evitaria pisar ali, tão evidente a presença de animais peçonhentos camuflados no tapete ressecado.
“Aqui deram o anúncio. Diante das palavras apocalípticas do prefeito, a multidão debandou em prantos. Quem conseguiu carregar alguma coisa, carregou. Cuidaram dos detalhes derradeiros e sumiram para nunca mais retornar”.
A caminhada desenrolou um tanto quanto a esmo. Contemplávamos o esfacelamento em uma experiência extática. Contrariando a atmosfera fúnebre, certa alegria nos contagiou, empolgados com o espírito arqueológico da empreitada. Posávamos para fotos e apontávamos com vivacidade para os utensílios antigos como o ferro de passar a carvão.
Quando nos cansamos de rir, pedimos ao guia que nos acompanhasse até o ponto fundamental desse roteiro. Taciturno, ele caminhou batendo com uma vara ao chão, ao estilo de quem marca o ritmo tocando gado. O clima de enlevo dos últimos instantes se converteu em cumplicidade, mutuamente assumindo um risco consciente.
Ali, ao fundo da vila, avistamos o grande armazém sobre o qual tanto se comentava. Ao contrário do restante das construções locais, mantinha-se inteiro e resistente, corroído apenas pela voracidade dos cupins formando alguns buracos. Na lateral, em uma enorme pichação se lia a palavra “vergonha” em letras garrafais, obra de um bando de adolescentes revoltados.
À porta, paramos todos reticentes, amedrontados. A área externa já assustava o suficiente e muitos deram um passo atrás, negando-se a assistir o espetáculo que nos aguardava. Integrei o grupo dos ousados, daqueles que desejavam atravessar o corredor de martírio apesar da promessa de automutilação.
Entramos no armazém. Os pés vacilavam, as mãos tremiam. Fazíamos ideia do que encontrar, mas não imaginávamos o desespero e o arrependimento seguintes. Ali, as ossadas de dezenas de crianças, todas com menos de dez anos, jogadas pelos cantos, os crânios que sustentaram uma expressão de pavor quando a morte veio as ceifando, tão pequenas, tão inocentes e já encararam os infortúnios dignos dos velhos.
“Quando todos fugiram da peste, deixaram para trás as crianças, o principal vetor da doença. Elas foram a primeiras a apresentar os sintomas, e para que não os seguissem, trancafiaram-nas nesse armazém e as abandonaram para morrer”.
O impacto daquela cena abalou a todos os visitantes. As lágrimas saltaram aos olhos e vários perderam a força mediante tal quadro desolador. Apostamos e recebíamos a recompensa, nosso quinhão particular de sofrimento. Apenas o guia não se emocionava, já calejado de tantas e tantas visitas, com as quais se tornou imune.
Eu mesmo caí de joelhos durante meu testemunho da crueldade humana, da omissão, do egoísmo. Chorei com um clamor pelo meu jamais conhecido irmão, um daqueles esqueletos anônimos, e por minha sorte de ter chegado ao mundo muito depois, pois caso nascido antes jazeria naquela necrópole superficial sem uma sepultura cristã.

Salvar

Salvar

0

Carol Poesia – Inquérito Poético (parte 1)

 

Inspetora – Senhor Adalberto, o senhor pode me dizer o seu nome todo?
Suspeito – Adalberto Lemos da Costa Carvalho.
Inspetora – Lemos da Costa Carvalho… O senhor tem três sobrenomes, seu Adalberto?
Suspeito – Tenho.
Inspetora – E por quê?
Suspeito – Porque os meus pais quiseram assim.
Inspetora – Os seus pais. Lemos certamente da sua mãe e da Costa Carvalho do seu pai.
Suspeito – Não. Lemos da Costa é da minha mãe e Carvalho do meu pai.
Inspetora – Lemos da Costa da sua mãe e Carvalho do seu pai. Sua mãe não tem Carvalho no nome?
Suspeito – Não.
Inspetora – E por quê?
Suspeito – Porque ela quis assim.
Inspetora – E seu pai não se opôs?
Suspeito – Não.
Inspetora – Certamente uma família governada pela mulher. Me diga uma coisa, seu Adalberto… A senhora sua mãe trabalha fora de casa?
Suspeito – Sim.
Inspetora – E qual é a profissão dela?
Suspeito – Ela é professora.
Inspetora – Como eu imaginei… Professora de…
Suspeito – Literatura.
Inspetora – Obviamente.
Suspeito – Mas por que…
Inspetora – E quanto ao senhor, senhor Adalberto: qual é a sua relação com a literatura?
Suspeito – Eu? Nenhuma. Eu…
Inspetora – Então não gosta da Literatura?
Suspeito – Gosto, mas não é que…
Inspetora – Odeia Literatura!
Suspeito – Não! Eu gosto!
Inspetora – Gosta, mas diz que não tem nenhuma relação. Um tanto quanto contraditório, concorda senhor Adalberto?
Suspeito – Não, a senhora não entendeu! Eu não gosto nem desgosto, eu não tenho nada contra, só que também não ligo muito. Literatura é a vida da minha mãe!
Inspetora – “Literatura é a vida da minha mãe”, uma declaração um tanto quanto suspeita, senhor Adalberto? Eu não consigo acreditar que algo que, segundo o senhor, é a vida da tua mãe não tenha nenhuma relação com você. Das duas uma: ou a vida da tua mãe não tem a menor relevância para o senhor ou o senhor está mais envolvido com a Literatura do que me contou até agora. Ham?
Suspeito – Ham? Foi só maneira de dizer… Olha eu não estou entendendo por que a senhora está me perguntando isso tudo. Eu nem sei por que eu estou aqui. Eu trabalho numa empresa, eu me dou muito bem com a minha mãe e eu até tirava nota boa em português na escola.
Inspetora – Empresa?
Suspeito – É, empresa de finanças. Trabalho com contas, empréstimos, renda, cobranças, entendeu? Nada a ver com Literatura.
Inspetora – Entendi. O senhor se ocupa de contar dinheiro?
Suspeito – É, mais ou menos né.
Inspetora – O senhor é feliz nesse trabalho? Se sente realizado?
Suspeito – Ham? Sou, quer dizer, sinto, quer dizer, mais ou menos.
Inspetora – Não é feliz.
Suspeito – Sou sim, às vezes.
Inspetora – E o seu pai, senhor Adalberto?
Suspeito – O que que tem meu pai?
Inspetora – Também trabalha com finanças?
Suspeito – Meu pai foi militar, agora está aposentado. Posso ir embora?
Inspetora – Militar. Linha dura? Me diga uma coisa seu Adalberto, o seu pai foi duro com você na infância? Ele te privou de muitas coisas? Qual é o olhar do seu pai para a arte? O seu pai gosta de teatro, música ou pintura? Qual é a relação do seu pai com a literatura? Por acaso ele acha que arte é coisa de mulherzinha?
Suspeito – Que? Que história é essa?
Inspetora – Confessa!
Suspeito – Eu não estou entendo aonde a senhora quer chegar!
Inspetora – Confessa!
Suspeito – Mas confessar o que? Eu não estou entendo nada.
Inspetora – Confessa!
Suspeito – O meu pai queria que eu fosse militar e eu não quis. Isso é crime? O que que está acontecendo aqui hein? Eu tenho os meus direitos!
Inspetora – Ah o senhor não sabe o que está acontecendo?
Suspeito – Não.
Inspetora – Não faz idéia?
Suspeito – Não.
Inspetora – Então eu vou te lembrar: o fato, senhor Adalberto Lemos da Costa Carvalho, é que a poesia está morta! E eu tenho razões para acreditar que o senhor seja culpado.
Suspeito – Eu? Mas eu não fiz nada!
Inspetora – Filho de professora de literatura – provavelmente conhece o que é poesia! Filho de militar aposentado – provavelmente conhece o que não é poesia! No entanto, nega qualquer envolvimento com a lírica. Não sabe se gosta ou não gosta. Respostas imprecisas, indecisas, contraditórias… Não é feliz no trabalho.
Suspeito – Mas porque eu faria isso? Um atentado contra a poesia!
Inspetora – Eu disse que a poesia está morta!
Suspeito – Mas eu juro que não fui eu! Por que eu?
Inspetora – O senhor pode muito bem ser um poeta frustrado que resolveu se vingar.
(continua)

Salvar

Salvar

Salvar

0

Fernando Leite – O barqueiro fidelense e o Fórum de Davos

“Enquanto houver um oprimido no mundo, haverá o socialismo”
(Oscar Niemeyer)
O seu nome é José. É negro, está com 37 anos e sua compleição física me autoriza a imaginar que sua ancestralidade é da etnia bantu:alto, pernas longilíneas, magro, nação soberana na África subsaariana, até a chegada dos mercadores de escravos. Mas, ele cumprindo o destino atávico dos seus zilavôs, é um homem desatado de qualquer nó social, livre, solitário, meu vizinho na república autônoma da Bicuíba, às margens do rio do Colégio, nas cercanias de São Fidélis de Sigmaringa,mora embaixo de uma ponte e, de vez em quando, de acordo com rio Paraíba do Sul, “do calendário das águas que vêm de cima”, sai no rústico barco, a remo, para uma pescaria artesanal.
Casar não está nos seus planos. “Arranjar parceira para passar fome comigo? Larga isso!”. Avesso a fotografias, evita festas e aglomerações. Sobrevive com o mínimo e faz qualquer sacrifício para conseguir uma boa barganha. Às vezes, em menos de uma semana, apanha de volta o objeto que barganhou, que, em seguida, será, de novo, fruto de negociação. O prazer é o ato de barganhar. Pode ser uma bicicleta por 10 quilos de robalo; um fusca, de ano indeterminado, por uma vaca que dá 10 litros de leite por dia; um canivete suíço por uma gaita. E assim vai “gastando a vida, na humildade”, como gosta de dizer.
Trouxe meu amigo Zé aqui para falar do comunicado da Oxfam – uma organização não governamental – que divulgou um dado estarrecedor, durante o Encontro das maiores economias do mercado planetário, em Davos, na Suíça, na semana que passou: que, apenas e tão somente, 8 magnatas detêm o mesmo capital que 3 bilhões e 600 milhões de habitantes da Terra, metade do total da população economicamente pobre.
Este é o melhor dos mundos para os democratas que defendem o regime das liberdades individuais acima da harmonia coletiva. A Democracia seletiva, aquela que permite, rigorosamente, tudo que há de melhor, desde que você tenha dinheiro pra comprar. Pouco lhes importa que só há bilionários, quase trilhiardários, porque há bilhões de Zés espalhados pelos continentes, em moradias indignas, dependurados de cabeça pra baixo na linha da miséria. Estão se lixando para a verdade incontestável que a economia é uma só e que os abismos sociais são, neste sistema, absolutamente, “consequências naturais”.
Os capitalistas inveterados usam sempre o mesmo bordão, como auto-defesa do establishment:
— Se não estás satisfeito, vá para Cuba, China, Coréia do Norte ou à Puta que lhe pariu! Lá, não estarias escrevendo estas mal traçadas linhas. Estarias no paredão.
É esse argumento que sustenta sua estupidez; ignoram, por conveniência, a lição basilar do filósofo inglês Thomas Hobbes, no século 17, segundo a qual, “o homem é o lobo do homem”. E que, se não houver uma força concentradora capaz de arbitrar comportamentos sociais, restará impune a autofagia social. Ainda mais quando não há freios para as fortunas criminosas.
Fingem que não vêem os paredões das ruas das cidades conflagradas, dentro dos presídios, nos hospitais sucateados, no trânsito descontrolado, na infância violentada, na escola preparada para impedir a construção do homem novo. Carpem seus pecados capitais à sua maneira, socorrendo, nas datas santas, a miséria abjeta, que avistam pelos vidros dos carros ou pela tela curva da TV. Distribuem bolas de plástico e cestas de Natal, uma vez, por ano e acham que assim ficam quites com seu deus nômade.
Não me detenho no pensamento reles de esquerda e direita, do Estado que fuzila ou do Estado que se omite diante do fuzilamento diário, sobretudo, de crianças inocentes. Ao invés da ocupação de lados ideológicos, grandes causas.
Falo de alternativas para esta dicotomia anacrônica, este maniqueísmo conveniente. Sobre a ideia do socialismo fraterno, “pairam as sombras aterradoras de Fidel e do ouro de Moscou”, “a madame de Mao e a revolução cultural”, “Lênin e os assassinatos em massa”. Porca miséria. De outro lado, contamos os mortos e desaparecidos das ditaduras sul-americanas, as mães da Praça de Maio, a Revolução dos Cravos, a Comuna de Paris, o Holocausto. Há um prazer mórbido dos ideólogos de mensurarem as dores atrozes do mundo. E não aprender com elas e evita-las no futuro. Ficaremos até quando nessa masturbação intelectual, contando nossos mortos?
O planeta, Gaya, pede socorro “estamos maltratando, por dinheiro, a Terra, que é a nave, nossa irmã”
O futuro quer novidades, senhores. Os países que já resolveram suas aberrações políticas, encurtaram os fossos sociais e, como resultado, reduziram a violência, melhoraram o sistema de saúde e avançam para conquistas humanas e respeito às liberdades. O Brasil ainda é um país cafona. Porque a corrupção é cafona. É anacrônica, atrasada, demodê. Chique é ser honesto. O nosso parlamento é um antro, uma ilha próspera, cercada de lixo, inoperante, perdulária, uma caterva, um valhacouto de bandidos.
Aqui, em Pindorama, estamos a léguas do razoável.
Há que se instituir, com a urgência que a fome e a dor coletivas impõem, uma nova ordem mundial. Zé, sob a ponte, em sua “humílima residência” e seus iguais esperam esse gesto de nós.

Salvar

Salvar

0