Quem saiu um pouco da cidade alguns dias para curtir as Olimpíadas no Rio, evento único para uma ou mais gerações, pôde comprovar duas características que parecem atávicas. A primeira, o talento do brasileiro, sobretudo do carioca, para promover eventos festivos. E, ao voltar à planície goitacá, o tropeçar na segunda: a vocação autofágica da oposição política de Campos.
Nildo agressivo
Na terça (16), em vídeo nas redes sociais, o candidato a prefeito Nildo Cardoso (DEM), líder da oposição na Câmara Municipal, questionou publicamente (aqui) seus adversários “que nunca administraram nada”. “Nem foi presidente de bloco de Boi Pintadinho, nem foi síndico de prédio e nunca tocou uma quitanda, com todo respeito ao dono de quitanda. E quer administrar uma cidade com todos os problemas que nós temos?”.
Matoso também
Coincidência ou não, foi na mesma terça que, em outro vídeo nas redes sociais, o também candidato a prefeito Rogério Matoso (PPL) alfinetou (aqui) num nível ainda mais pessoal: “Meu pai nunca foi prefeito da cidade. Meu avô nunca foi prefeito da cidade. Mas eles me ensinaram a ter dignidade, ter respeito pelas pessoas”.
Ressentimento
Desde que foram definidos em convenção os seis candidatos a prefeito de Campos, só duas pesquisas à sucessão de Rosinha Garotinho (PR) foram registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). E a Folha noticiou ambas, dos institutos Pro4 (aqui) e iNovo (aqui), com exclusividade. Uma liderada nas intenções de voto por Dr. Chicão (PR), outra por Rafel Diniz (PPS), com o pelotão da frente composto ainda por Caio Vianna (PDT) e Geraldo Pudim (PMDB), nas duas Nildo e Matoso foram os últimos colocados na corrida.
Chicão olha e ri
Nildo e Matoso, com suas críticas públicas a outros candidatos da oposição, pensam conseguir comer um pouco da gordura acumulada por estes, para se aproximarem do bloco da frente. Mesmo que consigam, podem descobrir tarde demais que o fizeram à custa da canilabização, ainda no primeiro turno, de qualquer possibilidade de sucesso da oposição no provável (e decisivo) segundo round eleitoral contra o governo. Chicão só observa e ri sozinho.
Pista de corrida do Estádio Olímpico do Engenhão, Rio, noite de 16/08/16 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
A primeira pontada foi naquela manhã. Era o sinal de que seu menino, que já demonstrava ser bagunceiro, estava prestes a chegar. Lembrava-se da recomendação médica: “você pode me ligar quando começarem as contrações. A qualquer dia e hora”. Mas ela queria sentir mais um pouco a dor de ser quase mãe. Quase. Ansiava pelo momento de se dizer mãe. Palavra curta e forte. Desde que soubera que estava grávida, pensava muito no verdadeiro sentido da maternidade. Relativamente jovem, sabia que ainda não conhecia o significado da fase em que iria entrar.
Segunda pontada minutos depois. Não sabia exatamente o tempo entre uma e outra. “Ela vai ficando cada vez mais forte. Não hesite em me procurar”, recomendava o médico. “Eu sei, doutor. Pode ficar tranquilo. Eu sei como agir”, dizia, consciente de que não havia verdade em sua frase. Ela não sabia como agir. Para lidar com a gravidez, antes de contar à família, passou uns dias isolada. Precisava ficar em silêncio para aceitar que deixaria de ser filha para se tornar mãe. Responsável por um frágil ser, cuja única forma de contato com ela seria o choro. Ou o riso. Gritos. Sem verbalização de sentimentos, dores e emoções. Sem vozes. Só reações facilmente confundíveis.
“E agora?”, perguntou a si mesma nos dias de afastamento da realidade. Não havia respostas. Era hora de encarar-se como adulta.
Terceira pontada. Mas acostumou-se à ideia de ter um pequeno ser ao seu redor, com lágrimas, risos, cólicas e amor puro. Na verdade, estava ansiosa para conhecer o rosto do menino que habitava sua barriga há nove meses. Queria ver gestos, traços, expressões. Queria, acima de tudo, ver seu reflexo nele. Quarta pontada. O intervalo entre as contrações diminuía. Era hora de telefonar. Quinta pontada. O médico a recomendou que corresse ao hospital. Honesta, a mulher contou que demorara a entrar em contato por desejar sentir um pouco mais as dores de ser quase mãe. Quase. Faltava pouco.
Sexta pontada. Telefonou para o marido. Rapidamente, o homem chegou ao apartamento, organizou as malas da esposa e do filho e desceu. A tensão era grande. Ele sentia o corpo tremer. “Pai de primeira viagem, hein?”, ouvia dos amigos. E morria de medo da responsabilidade que se materializaria em breve. Ainda bem que tinha a companheira. Sétima pontada. Um líquido começou a escorrer pelas pernas da mulher. Era a tal bolsa estourada. Sim. O processo estava próximo ao fim. Sentia-se feliz e plena. Agora, seria mãe. O confronto com a maturidade. Ida para um tempo sempre temido. Ainda assim, prevalecia a alegria.
A intensidade do incômodo crescia. Deitada na maca, era encaminhada com rapidez para a sala de parto. Optara pela cesariana. Não queria sofrer mais do que o necessário. A família concordou. A expressão do médico era de preocupação. Ela não entendia. “Deve ser normal”, pensou. “Não é possível estar angustiado diante de um momento de tanta felicidade”. A conclusão a que chegou parecia ser diferente da dos demais. Havia urgência em todos os olhos que pousavam sobre ela.
Anestesia. Seu corpo adormecia vagarosamente. O tato perdia-se. Os pés já não balançavam. Ficaria acordada. Os primeiros cortes. Sentia um leve ardume na barriga. A dor de ser quase-quase mãe. Cada vez mais perto de seu menino. Seu garoto. Seu guri.
“Corra. Não temos muito tempo”, disse a enfermeira. A quem foi dirigido o alerta, ela não sabia. Todas as palavras tocavam seus ouvidos com certo atraso. Não conseguia compreender o significado do que era dito. A movimentação aumentava em seu entorno. Mãos, braços, dedos e instrumentos cirúrgicos confundiam-se diante dela. O decorrer dos minutos trazia afastamento da realidade. Longe, escutou os primeiros ruídos do que parecia um choro. Uma agulha foi enfiada em sua veia. “Ai”. Exclamação quase inaudível.
“Quase. Quase a perdemos”, comentou o médico, trêmulo. Havia um quê de alegria por tê-la trazido de volta.
A seu lado, havia um pequeno embrulho. Depois da injeção, ela o enxergava bem. Era tão pequeno. Tão indefeso. Tão amado.
“Meu menino. Meu querido. Meu curumim”, disse. Lágrimas embaçavam um pouco a visão da mulher.
Novamente, o corpo adormecido. Sentia incômodo, mas não sabia de onde vinha a sensação. Tentava chamar os médicos com as mãos, mas elas não respeitavam a sua vontade. O mal estar aumentava. Não conseguia pedir ajuda. Seus olhos estavam presos à criança recém-nascida. Queria dizer que logo estariam em casa, mas as palavras escorriam pela boca junto à saliva. O descontrole tomava conta da mulher. Tudo estava denso. Pesado. Respiração lenta.
O menino estava distante. Fugia de seus toques. Logo, seria homem. Antes, quase-quase homem. E bonito. Grande e forte, era assim que tentava imaginá-lo. E seria pai. Primeiro, um quase pai. Depois, seria avô. Seria pleno. Seria o reflexo dela em todos os rostos. Sua fiel representação e protetor de sua memória. Seria o que quisesse. Seria o que ela quase foi. Curumim.
“Fique em paz, meu filho. Cuide-se. Por ti. Cuide-se por mim.”
Para quem estivesse fora e chegasse hoje de manhã à planície goitacá, desinformado sobre os fatos políticos dos últimos três dias, bastaria uma olhada em alguns blogs da cidade para constatar que o maior adversário da oposição em Campos, ironicamente, não é o governo Rosinha Garotinho (PR)
É o que se pôde ver claramente aqui e aqui, respectivamente, nos blogs do Bastos e do Ralfe Reis, que repercutiram dois vídeos postados na democracia irrefreável das redes sociais, no último dia 16.
No primeiro, o vereador e empresário Nildo Cardoso, candidato a prefeito pelo DEM questionou aqui seus adversários “que nunca administraram nada”:
— Nem foi presidente de bloco de Boi Pintadinho, nem foi síndico de prédio e nunca tocou uma quitanda, com todo respeito ao dono de quitanda. E quer administrar uma cidade com todos os problemas que nós temos?
No segundo, Rogério Matoso (PPL), empresário, ex-vereador e também candidato a prefeito, alfinetou aqui ainda mais pessoalmente:
— Meu pai nunca foi prefeito da cidade. Meu avô nunca foi prefeito da cidade. Mas eles me ensinaram a ter dignidade, ter respeito pelas pessoas.
Segundo as últimas pesquisas dos institutos Pro4 (aqui) e iNovo (aqui), Nildo e Rogério estão, respectivamente, em penúltimo e último lugares nas intenções de voto à sucessão de Rosinha, atrás dos também oposicionistas Geraldo Pudim (PMDB), Caio Vianna (PDT) e Rafael Diniz (PPS) — além do governista Dr. Chicão (PR).
Como as duas pesquisas indicam uma eleição em dois turnos, onde a maior (e talvez única) chance da oposição estaria na união no segundo, algum desavisado poderia até tropeçar no óbvio: essa mesma oposição começa a campanha se opondo a si própria.
Depois do gozo, o que vem? Após a vitória, o que resta? Passada a euforia, para onde vai a plenitude? O vazio tem lá seus mistérios e necessidades. O sorriso tem também sua vontade de se fechar. E, para aqueles que não sabem dosar suas comemorações esfuziantes, sempre há um jeito do tédio entrar por alguma brecha. Pode ser mau isto, mas nem tanto. Tédio, vazio e tristeza também podem ser oportunidade de acionar a criatividade para reinventar a vida e reconhecer a importância que alegria tem em nossas breves e quase insignificantes existências. Uns, se sentem úteis ao dizer “Fora Temer”. Outros, fogem para o Rio de Janeiro e tentam ser olímpicos. Alguns, preferem ler apenas um bom livro e o silêncio. Destas três, prefiro a fuga para a capital e a leitura. Por enquanto. O tédio em Campos pode ser sinônimo de cabeça de porco enterrada no quintal. Detesto pessimismo e alguns pessimistas. Daí, por que não começar o desenterro?
No último domingo terminou a IX Bienal do Livro de Campos. Foi uma festa modesta aparentemente, diferente das outras, mas com seu valor e encanto, além da queima de estoque de livros que não faz mal a ninguém. O escritor campista já falecido Waldir Pinto de Carvalho foi o homenageado do ano. Tive a honra de entrevistá-lo algumas vezes. Um cavalheiro dedicado a preservar histórias e memórias. Um de seus livros, Gente que é nome de rua, está em minha coleção. No evento literário, entre as celebridades, creio, quem mais brilhou foi o historiador e filósofo gaúcho Leandro Karnal, sensação na Web e nos cafés filosóficos espalhados por aí. O professor da Unicamp atraiu um grande público e pessoas de todas as idades, entre elas, Nizia Bravo, de 84 anos, minha dublê de mãe, interessada em leitura, escritores e internet (ela é um exemplo de curiosidade pela vida).
Depois de assistir entrevistas e palestras de Leandro Karnal pela Internet, quando o escutamos ao vivo, talvez, já não há muitas novidades para nos surpreender. Em sua entrevista ao Roda Viva da TV Cultura, no dia 4 de julho último, o historiador não deixou de citar um dos fatos que mais incomoda os brasileiros atualmente: o suposto golpe na democracia desde o afastamento da presidente Dilma Rousseff e a interinidade do vice-presidente Michel Temer no comando do Brasil. Karnal afirma que a trajetória política do Brasil é marcada por golpes desde o Império. Ao todo, seriam cerca de dez golpes. O problema é que golpistas e golpeados se acham superiores ou livres de uma praga que está no gene da sociedade brasileira desde sempre. Algo que vulgarizamos chamar de “corrupção” e que não nos larga.
Em um país dividido por conceitos tão pobres e maniqueístas de direita e esquerda, de bem e mal, há uma certa omissão ao não admitirmos que os nossos corruptos não podem ser inferiores aos corruptos de partidos adversários. Os nossos corruptos são sempre melhores que os outros. Portanto, merecem e devem estar no poder, pois os corruptos da oposição são insuportáveis e representam o demônio que não pode ser aceito ou tolerado por nós, bons moços católicos e pais de família. Em um dos atos falhos (ou não) de Dilma em seus pronunciamentos, certa vez, em pleno tremor de escândalos de propinas acerca da quebradeira e desvios de dinheiro da Petrobras, além da suspeitíssima e superfaturada compra da refinaria de Pasadena, ela afirmou: “ninguém é incorruptível”. A frase é curta, não ganhou manchete de jornal, pode ter passado batido, mas para uma chefe de Estado à frente de um governo alvo de tantas denúncias de corrupção, fico em dúvida se ela foi infeliz ou muito honesta ao proferir a frase. Afinal, somos corruptos ou não?
Todo ativista é chato. Todo militante político é chato. Todo jornalista ou escritor também costumam ser chatos. Na plateia de Leandro Karnal durante a Bienal de Campos, perguntas ao historiador foram franqueadas ao público, e um jovem militante político-artístico ao tomar o microfone, disse: “Primeiramente, fora Temer, fora Patricia Cordeiro”. Ele criticou a gestora de cultura do município, ironizou os governantes Garotinhos, e aproveitou a presença da celebridade visitante para fazer uma espécie de denúncia, além de queixas domésticas. Ao meu ver, foi inconveniente e indelicado, mas há os que apoiam esse tipo de manifestação em eventos com aglomerações de gente que pode votar ou tomar partido deste ou daquele virtual candidato. O “Fora Temer” virou quase mantra, ideia fixa masturbatória, frase vã de modismo ou uma repetição vazia (ou cheia, ou de saco cheio de tanta coisa). Tem sido censurado nos Jogos Olímpicos, assim como qualquer manifestação política dentro dos estádios e competições.
Como brasileiro, considero nosso povo mal-educado e inconveniente. Adoramos uma gaiatice e sermos os “do contra” quase sempre. Nós e alguns outros povos presentes no megaevento do esporte mundial se esquecem que, historicamente, as Olimpíadas foram criadas na Antiguidade Grega, e que tradicionalmente era e continua a ser o momento de pausa e trégua para esquecer da política, das guerras e das diferenças das nações. Olimpíadas são para a celebração do esporte e da tolerância e não para vitrines de ganâncias e disputas políticas. Ainda não compreendo porque eleitores de Dilma rejeitam o Temer, já que eles foram eleitos juntos. Acredito que os crimes de Temer e do PMDB também virão a público, cedo ou tarde. Enquanto isso, em vez do “Fora Temer” ou do “Volta Dilma”, e também do “Fora Moro” ou “Volta Lula”, o tédio e o desemprego nos ameaçam diariamente, assim como nossaviolência extrema, caráter e moral seguem comprometidos com tapetes e peneiras que não dão conta de nos esconder e disfarçar.
Apesar de amá-lo, tenho que discordar de Gilberto Gil, autor de “Aquele abraço”. O Rio de Janeiro não continua lindo, e sim, mais lindo ainda. Estar na cidade em plenos Jogos Olímpicos é uma festa para celebrar pelo menos uma vez a esperança por união e fraternidade (além da tensão erótica e azaração pelas ruas, orlas e praias). O fato raro esportivo, talvez, nunca mais se repita entre nós. Com milhares de estrangeiros circulando pelo Rio, repito o que a cantora Preta Gil disse em seu show na Praça Mauá: “não dá para ter Olimpíadas para sempre no Rio?”. Aliás, o local do show, em pleno BoulevardOlimpíco, é uma redescoberta de um Rio de Janeiro que estava abandonado, feio e sujo. Atualmente, museus de arte moderníssimos, pavilhões e praças com lazer e cultura disponíveis, além de um bonde VLT circulando por construções lindas e históricas são um presente para qualquer morador e turista como eu. Claro que falta despoluir a Baía de Guanabara, mas estar na Cidade Maravilhosa (apesar de caótica, violenta, injusta e desigual) é motivo de encantamento e sonhos.
Constato que Jogos Olímpicos viciam. Não consigo ficar muito longe das transmissões da Sportv. Poder ver a terceira vitória do jamaicano UsainBolt, as conquistas e despedida do nadador americano Michael Phelps, a perfeição da ginasta americana Simone Biles e de tantos heróis que sobem ao pódio, conquistam medalhas, escutam a execução dos hinos de seus países, é muito emocionante. Até agora, só escutamos o Hino Nacional Brasileiro apenas uma vez com a vitória da judoca Rafaela Silva, nossa menina de ouro. Entretanto, ter bandeira e atleta brasileiros na cerimônia de premiação é um feito incrível. Foi o caso dos ginastas Diego Hypolito e Arthur Nary, prata e bronze, respectivamente. Sensacionais as duas conquistas. O argentino Juan Martin Del Potro e o britânico Andy Murray que disputaram a final de tênis por mais de quatro horas, deram exemplo que ouro, prata e bronze podem ter o mesmo valor. A vitória de Murray e o abraço apertado com Del Potro no fim servem para nossa vida diária de tantas rivalidades. Perder também é uma arte desafiadora e ser segundo colocado não é nenhuma vergonha. Reconhecer a vitória e a superioridade do adversário é um exercício para a vida. De fato, nas Olimpíadas não há espaço para Dilma ou Temer. Então, “Fora Ambos” das arenas.
Tudo isto é história que se conta e se vive. Ainda poderemos revivê-la em forma de literatura. Aliás, não consigo largar o livro Pedra encantada e outras histórias, da nossa autora brasileira de ouro, Rachel de Queiroz, adquirido por dez reais na última Bienal de Campos. Fica a dica para preencher os dias antes e depois que o tédio se instalar com o fim das Olimpíadas, o fim do processo de impeachmente o fim das eleições municipais. Ressaca e dias melhores virão, mas teremos maratonas diárias pela sobrevivência neste país lindo e miserável. Até lá, continue lendo e se exercitando. O corpo e a inteligência agradecem.
Apesar da pausa anunciada aqui por motivos pessoais, o jornalismo político parace amarrado profissionalmente ao pé deste “Opiniões”. Sobre a filiação do ex-prefeito Arnaldo Vianna hoje ao PMDB, anunciada aqui e aqui, respectivamente, pelos jornalistas Alexandre Bastos e Suzy Monteiro, a assessoria do partido presidido pelo deputado estadual Jorge Picciani enviou um ping-pong com seu novo filiado, que o blog reproduz abaixo:
Arnaldo em sua filiação hoje ao PMDB (divulgação)
PMDB — Qual a razão da sua filiação ao PMDB?
Arnaldo Vianna — Sempre tive grandes amigos no PMDB. Fiz campanha para o Cabral e para o Pezão e nesta última campanha de 2014 enfrentamos uma máquina muito poderosa em Campos. Mesmo assim, o Pezão foi o mais votado na cidade. Com isso, fui cada vez mais me aproximando do partido, além de eu ter sido deputado federal em Brasília com o Michel Temer, presidente da República em exercício, quando ele era presidente da Câmara. Além disso, conheci uma pessoa que é um ícone da política fluminense, uma pessoa que tem uma firmeza muito grande e um sério compromisso com o povo, que é o Jorge Picciani. Tudo isso me fez repensar a minha vida política e resolvi mudar para melhor, vindo para o PMDB.
PMDB — O seu apoio ao Geraldo Pudim, que já foi o seu vice. O que isso representa?
Arnaldo — O apoio ao Pudim é porque eu o conheço. Fomos vereadores juntos, depois o Pudim foi meu vice, em um momento muito difícil da minha vida, quando tive um aneurisma cerebral e o Pudim assumiu a Prefeitura durante os meses nos quais fiquei afastado. E ele foi de total correção comigo e com o povo de Campos. Ainda fomos deputados federais juntos e pude ver o desempenho dele e ter certeza de que ele está preparado para governar Campos nesse momento, no qual a cidade precisa de um político comprovadamente aprovado e experiente.
PMDB — Como o senhor avalia o cenário hoje em Campos?
Arnaldo — Vivemos um caos político/administrativo na cidade e só um político com pulso forte nós vamos poder reverter esse quadro. Um dos nós de Campos está na Saúde e, como ex-gestor e médico, e já disse ao Pudim que estou à disposição dele para ajuda-lo a reformular a Saúde. O Pudim enfrenta hoje um candidato que foi vice-prefeito, foi secretário de Saúde e foi avaliado como a pior gestão da Saúde de Campos. Campos não pode viver como está vivendo hoje. Falei da Saúde, mas se a gente for olhar a Educação também está uma lástima. Se olharmos para o comércio, são lojas e lojas fechadas. São indústrias fechando. Precisamos retomar o crescimento que, junto com o Pudim, fizemos em Campos. Naquela época, diziam que Campos não tinha prefeito e vice, tinha dois prefeitos! Esse modelo deu certo e tenho certeza de que vai continuar dando certo.
PMDB — A sua esposa, Edilene, vai ser a vice do Pudim (na verdade, como a jornalista Suzy Monteiro noticiou aqui, desde o último dia 5, o vice de Pudim será o professor Edmar Teixeira). Ela também está vindo para o PMDB?
Arnaldo — Ela está se filiando hoje ao partido e vai trazer uma enorme contribuição, porque é uma pessoa de uma psicopedagoga experiente, de extrema sensibilidade, que vai saber ajudar a humanizar o atendimento que hoje é dado às nossas crianças e jovens, especialmente aqueles com dificuldade de aprendizado.
PMDB — Como fica a história do PDT, que tem como candidato o seu filho?
Arnaldo — Por enquanto ele mantém a candidatura, mas acho que em alguns dias ele vai estar aqui preenchendo essa ficha de filiação ao PMDB. Amo meu filho, mas quero que ele termine o principal, que é a faculdade. Depois, terá meu apoio. Hoje, meu apoio é total ao Pudim. Meu filho pode esperar. Mas Campos não.
Atualização à 1h15 de 16/08 para correção e acréscimo de informação
Por motivo de ordem pessoal, salvo as atualizações dos colaboradores — no caso, amanhã (16), a do jornalista e poeta Ocinei Trindade — este “Opiniões” não terá novas postagens por dois dias. Peço sua compreensão e sua desculpa, leitor, no compromisso de retomarmos contato nesta lida blogueira a partir da próxima quarta-feira, dia 17.
Hoje a Folha divulga (aqui) a segunda pesquisa registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a corrida à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR), desde que foram oficializados em convenção seus seis candidatos. Por ordem alfabética: Caio Vianna (PDT), Dr. Chicão (PR), Geraldo Pudim (PMDB), Nildo Cardoso (DEM), Rafael Diniz (PPS) e Rogério Matoso (PPL).
Pouco conhecido em Campos, o instituto iNovo foi montado em Niterói por dois cientistas políticos da Universidade Federal Fluminense (UFF) , Bruno Leite e Pedro Ivo Mattos. E sua pesquisa, ouvindo 700 pessoas das sete zonas eleitorais do município, foi feita nos dois dias seguintes (7 e 8 de agosto) à ultima pesquisa do instituto Pro4.
Fundado e coordenado pelo empresário e colunista campista Murillo Dieguez, o Pro4 ouviu 620 pessoas das mesmas sete zonas eleitorais, no dia 6, em pesquisa encomendada pela Folha, que a divulgou (aqui) na última quinta (11). Já a do iNovo foi feita sob encomenda da Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic).
Comparadas as duas pesquisas, suas diferenças mais claras são a liderança de Chicão na espontânea e na estimulada do Pro4, posições que, segundo o iNovo, caberiam a Rafael. O que não dá para ter dúvida, pelos dois institutos, é que entre Chicão e Rafael, sempre no limite da margem de erro, está Caio, com Pudim na quarta posição. E, pelo menos por ora, esse bloco de vanguarda aparece descolado de Nildo e Rogério, respectivamente na quinta e sexta posições.
Outra diferença brusca entre as duas pesquisas é em relação à rejeição de Matoso entre o eleitorado campista. Enquanto para o Pro4 ele tem a segunda menor rejeição (apenas 3,9%), ele apareceu na vice-liderança no índice negativo para o iNovo, com 54,79%. Os números elevados de rejeição que todos os seis candidatos a prefeito de Campos receberam do instituto niteroiense, em relação aos do Pro4, decorrem da diferença de metodologia entre os dois institutos.
Ainda assim, comparando mais a ordem do que os números apresentados, não dá para ter dúvida que Pudim é mesmo o líder na rejeição entre o eleitorado campista: 28,1% no Pro4 e 62,01%, no iNovo. Na via inversa, tampouco se pode duvidar que a menor rejeição é de Rafael: 3,2% pelo primeiro instituto, elevados a 26,78% pela metodologia no segundo.
Como é a primeira pesquisa do iNovo que vem a público, na falta de contraste, não dá nem para confirmar se as posições de intenção de voto e rejeição que ele apresenta são uma tendência. Já se comparando as pesquisas de junho (entre 8 e 10) e agosto do Pro4, são nítidos os indicativos de crescimento de Chicão (8,4% para 17,6%) e de Pudim (5% para 11,1%), assim como um aparente declínio de Caio.
Se, em junho, o pedetista liderava (aqui) a corrida com 15,2% na estimulada, em agosto ele foi o único dos seis candidatos a diminuir suas intenções de voto (para 13,7%), mesmo levando o apoio do deputado estadual João Peixoto (PSDC) e Gil Vianna (PSB) como seu vice, após vencer uma queda de braço (aqui e aqui) com o marido e secretário de Governo de Rosinha, Anthony Garotinho (PR). Além de, aparentemente, não ter recebido nenhum dos 5,6% de eleitores que, dois meses antes, declararam voto para Peixoto, ou dos 3,4% que optaram por Gil, Caio ainda perdeu 1,5 ponto percentual das suas próprias intenções de voto.
Todavia, ontem o TSE não só aceitou (aqui) o registro da candidatura de Caio, como o fez contabilizando o apoio do PT, conforme determinado na convenção municipal do partido. Em outras palavras, o jovem pedetista parece ter imposto mais uma derrota de articulação política a Garotinho. Como a coluna “Ponto Final” revelou (aqui), desde julho o secretário de Rosinha vinha pressionando o presidente nacional do PT, Rui Falcão, para que o partido da estrela vermelha apoiasse o PR em Campos, ou lançasse candidatura própria.
Como o “Ponto Final” desta semana também analisou (aqui), é inegável que o crescimento de Chicão, atrelado à melhora da imagem do governo, ainda tenha no mínimo mais de 10 pontos percentuais a percorrer, antes de se igualar aos 28,7% que, segundo o Pro4, querem a continuidade do atual governo. Mas mesmo que Chicão conquistasse todos os votos dos 27,3% de indecisos, não seria suficiente para a vitória em turno único, como o governo parece apostar todas as suas fichas.
A não ser que…
Bem, a não ser que o movimento de Garotinho na tentativa de controlar o PSB, para o qual chegou a conseguir nomear um novo comando municipal, antes da direção nacional do partido devolvê-lo à base de apoio de Caio, tenha sido feito para tentar contaminar a chapa do PDT.
Em seus tempos de oposição a Garotinho, o deputado federal Paulo Feijó (PR) certa vez disse que, na política de Campos, “só faltava boi voar”. Em contrapartida, já como aliado do antigo adversário, chegou a louvar “as boas relações jurídicas de Garotinho”.
Se a última observação de Feijó será capaz de gerar, mais uma vez, a primeira, o tempo dirá.
Sobre as águas azuis do oceano, o “Paleta de Ouro” recebe visita (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona vista do mar barrento já próximo da foz (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Por Aluysio Abreu Barbosa
O pescador se chamava Nadinho. Alto, ombros largos, alourado, pele clara curtida de sol, era um muxuango descrito por Alberto Lamego em “O homem e a restinga”. Levava os genes de corsários holandeses e ingleses que, em passado remoto, teriam encalhado próximos à foz do rio Paraíba do Sul.
No vingar desse sangue europeu setentrional pelas gerações, mesmo misturado ao de portugueses, negros e índios, a Ilha da Convivência passaria a ser também conhecida como “Ilha dos Olhos Azuis”. Foi nela que Nadinho nasceu e aos 10 anos aprendeu a pescar com o pai, Arnaldo — que lhe deu nome, repetido depois no neto, e ofício.
Às 4 da manhã, na escuridão do inverno antes do sábado nascer, o pescador levava passageiro ao navegar mais uma vez pela foz do Paraíba rumo ao Atlântico, na lida à qual se acostumou com menos companhia:
— Só eu e Deus! E quem está com Deus, não está sozinho!
Nadinho conduzia com segurança a roda do leme do “Paleta de Ouro”, dentro da cabine do barco de madeira de 11,2 metros, homônimo a um barco antigo do pai — como o filho era deste. O passageiro, atrás da cabine, olhava sobre esta e a proa para o oceano enegrecido de noite. Sentia na face o vento frio e úmido, enquanto aferia a linha do horizonte pelas luzes dos barcos saídos antes.
Com mar muito mexido a partir da pororoca — gerúndio em tupi do verbo estrondar — na boca da foz, as ondas grandes eram literalmente surfadas, uma a uma, com habilidade, pelo condutor do barco. Com um passado de intimidade com Iemanjá, o passageiro foi salgado no presente pela onda que lhe molhou a face e a máquina fotográfica pendurada ao pescoço.
Sentou-se na entrada da cabine e abriu o casaco impermeável para expor a malha de algodão da blusa. Enquanto limpava com ela a câmera, seus olhos agora voltados à popa fotografavam as aparições do dorso negro das grandes ondas deixadas para trás. Eram desveladas por instantes no contraste com as luzes do continente, que se distanciavam lentamente no mesmo sentido.
Após uma hora e 10 minutos surfando ondas, chegaram num ponto para pesca de peroá (Balistes capriscus) conhecido de Nadinho, como se fosse qualquer outro lugar de terra em Atafona. Jogou a âncora de 20 kg, cuja corda revelou a profundidade de 10 metros.
Antes do dia nascer, lançadas da popa, já estavam nas águas ainda escuras três linhas de nylon 0,100 mm, cada uma com doze anzóis, seis de cada lado. Espetados neles eram intercalados metades de siris, como engodo para atrair os peroás, e camarões, aos quais os peixes morderiam para iniciar uma luta de vida e morte contra a fisga trespassada à própria boca.
Nos dois cantos extremos da popa, iam linhas cujas boias de garrafa pet, pela forma e função, lembravam os barris arpoados ao aterrorizante grande peixe do filme “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg. Do lado direito do “Paleta de Ouro”, na altura da porta traseira da sua cabine, ia mais uma linha de fundo.
Quando o sol nasceu, parido pelo mesmo horizonte em que pescador e seu passageiro balançavam como crianças impotentes no berço, se deram a ver, algumas centenas de metros adiante, dois grandes cargueiros dos mares do mundo. Ancorados, esperavam a vez para se abastecerem de minério de ferro no Porto do Açu.
Algumas centenas de metros adiante, após as aves marinhas, os cargueiros do mundo (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Com o dia, vieram os primeiros peroás negros, embora apresentem cor cinza. O pescador explica que, embora ele próprio goste mais do sabor da carne destes, não são tão valorizados quanto os azuis e geralmente mais graúdos peroás do leste.
A maioria dos peixes era puxada do mar pela linha com boia da esquerda:
— Nunca que vou entender isso. Como pode com a linha do lado da outra, uma pegar tanto peixe e a outra não? — questionou Nadinho.
— Vai ver os peroás gostam mais de guaraná Tobi do que de Coca-Cola! — brincou o passageiro, em referência ao rótulo que ainda sobrevivia na garrafa pet verde da sortuda linha canhota, em contraste com a similar de plástico transparente e tampa vermelha, sinalizando como boia o azar da direita.
Linha sortuda da esquerda com cinco peroás fisgados de vez (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Enquanto os peroás eram fisgados, às vezes cinco na mesma linha, o passageiro não pôde deixar de notar o constrangedor contraste entre sua própria movimentação dentro do barco e a do pescador. Enquanto o primeiro só conseguia caminhar, ao balanço das ondas, se apoiando com as mãos, Nadinho o fazia com tanta naturalidade dos passos, equilíbrio do tronco e liberdade dos punhos, que lembrava um pugilista de maturidade técnica dentro do ringue.
Embora os peróas compusessem a grande maioria do pescado que foi enchendo as caixas de frigorífico, dois baiacus arara (Lagocephalus laevigatus) também foram capturados. Um deles após cortar a tal linha esquerda e arrancar com suas poderosas mandíbulas o lombo de um xarelete (Caranx hippos) fisgado ao anzol.
Após limpar o baiacu arara, separando sua parte comestível da cabeça e vísceras, Nadinho exibe na mão esquerda a glândula venenosa de cor verde que, se cortada, envenena a carne do peixe (Foto : Aluysio Abreu Barbosa)
Por experiência própria, o passageiro já sabia que aquela espécie de baiacu era não só comestível, desde que corretamente limpo, como delicioso. Conhecimento que Nadinho acresceu da malandragem de pescador:
— Tem dono de peixaria que compra baiacu e vende em posta, dizendo ser garoupa (Epinephelus marginatus), porque têm a mesma carne branca. A nós, não conseguem enganar. Mas para quem não conhece direito…
Entre um peroá e outro, sobrou espaço para o pescador falar sobre sua experiência com outro tipo de vida marinha. Do peixe mais temido do mar, disse que nunca cruzou com um tubarão branco (Carcharodon carcharias), personagem do filme de Spielberg.
Mas, com malhão (rede de malha larga, para prender peixes maiores), já pescou outras espécies de tubarão bastante agressivas, como o cabeça chata (Carcharhinus leucas), responsável pelo maior número de ataques a seres humanos no litoral brasileiro, e o tigre ou tintureira (Galeocerdo cuvier).
Da última espécie, lembra já ter pescado um tubarão tigre que deu 198 kg depois de limpo:
— Mas foi até difícil de vender, porque o tintureira não tem a carne boa — ressalvou, ao esclarecer que a maior parte do cação vendido em Atafona vem daquele que ele e os demais pescadores chamam de “torce torce” (pelo hábito de rodar sobre seu eixo quando capturado, como todo tubarão), também conhecido como caçonete (Mustelus norrisi).
Com a mão na roda do leme e o corpo para fora da cabine, Nadinho conduz o “Paleta de Ouro” na reentrada pela foz do Paraíba (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Uma história violenta com tubarões foi vivida não por Nadinho, mas por um primo que é seu vizinho no Pontal de Atafona, para onde se mudou ao sair da Convivência, há quase 30 anos:
— Uns 10 anos depois, meu primo, o Genilto estava recolhendo uma rede mijuada (ancorada). Um cação marimbondo (Lamna nasus, conhecido como marracho), que eles já tinham recolhido, estava no chão do barco. Quando ele cruzou na frente, o cação deu o bote e arrancou a barriga da perna dele. Quando abriram o bicho, acharam o pedaço da perna dentro do seu bucho. E Genilto ficou com aquela roda pra dentro da perna.
Já com o maior de todos os peixes, o encontro foi pacífico. Apesar de atingir até 20 metros e 13 toneladas, o dócil tubarão baleia (Rhincodon typus) se alimenta só de plâncton (microorganismos) e outros invertebrados, que filtra na água com sua boca imensa, enquanto nada lentamente:
Nadinho limpa alguns dos peroás maiores ainda dentro do barco (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
— Estava no “Paleta de Ouro”, mais dois companheiros, pescando de caída (rede para peixes que fica flutuando ao sabor da corrente marinha), no mar de Quissamã. Ele era um pouco maior que o barco (11,2 m). Devia ter uns 12 metros. Nadava devagar, com as costas todas pintadas de branco (característica do dorso do animal). Um amigo encostou nele com o bicheiro (haste com um anzol grande na ponta, usado para ajudar a trazer os peixes ao barcos) e ele afundou.
Foi também no seu próprio barco que Nadinho encontrou os maiores seres do mar, as baleias de verdade, mamíferos, não peixes, que costumam aparecer no litoral de Atafona nos meses invernais de junho e julho. Um desses encontros, poderia ser narrado nas páginas de “Moby Dick” (1851), clássico romance de Herman Melville (1819/91):
— Estava com mais dois companheiros, pescando de malhão. De repente uma baleia se embolou na rede e começou a puxá-la, arrastando o “Paleta de Ouro” com se fosse um barco de papel. Durou cinco minutos, mas foi muita tensão. Acho que elas nem sabem a força que têm. Aí, quando íamos cortar a corda da rede, para nos soltar, a baleia pocou ela.
Entre histórias do mar, seus homens e outros seres, três caixas de frigorífico foram cheias, cada uma com 25 kg de pescado. Vendida por R$ 3 o quilo para os frigoríficos, chegam ao consumidor final, nas peixarias de Atafona, a R$ 9; ou R$ 10, no Mercado de Campos. R$ 225 pelas três caixas de peixe, menos R$ 100 do diesel e das iscas, dão um lucro líquido como o mar — mas bem menor — de R$ 125.
Cara-ventos de Gargaú florescem entre céu e mar, à direita da proa (Foto; Aluysio Abreu Barbosa)
Foi o que deu, até por volta das 14h, quando os peroás pararam de bater, mesmo na linha sortuda da esquerda, da boia verde de guaraná Tobi. Após Nadinho recolher linhas e âncora, com mar bem mais calmo, o retorno durou 40 minutos. Cada segundo deles na proa, a ver nascerem e crescerem lentamente no horizonte os cata-ventos da usina eólica de Gargaú, à direita, e Atafona, à esquerda, com suas ruínas e casuarinas.
Num cenário tão íntimo ao pescador, o passageiro viu pela primeira vez a foz do Paraíba e seu litoral de dentro do Atlântico. Era fisgada para desaguar a vida inteira.
No caminho de volta, Atafona nasce à esquerda do horizonte (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Sugestão para escutar enquanto lê: Noturno, Op.9 No.2 – Frédéric Chopin
Quando acordei tudo o que pude ver foi luz, um enorme clarão ofuscou meus olhos e a dúvida se estava cego ofuscou a minha mente, sentia águas calmas com sons de paz acariciando a minha pele por todo o corpo, percebi estar parcialmente imerso, pela textura dos dois ambientes. Metade do meu corpo era acariciado por vento e a outra metade repousava em água, apoiado sobre areia macia com pequenas pedras que não machucavam. O único som a entrar nos meus ouvidos eram as minúsculas ondas da água rasa com a correnteza a levando embora, talvez pelo meu ouvido estar imerso não conseguia escutar nenhum som afora o rio. O ar chegando no meu pulmão é tão puro quanto um mundo verde, inspirei fundo para sentir todo aquele sabor de ar primata. A temperatura tanto da água quanto do clima estava agradável como uma noite de sonhos tranquilos, senti tecidos encostando no meu corpo e notei que estava vestido com algo largo.
Aos poucos minha visão voltou, se é que posso chamar de minha, não sei onde estou e nem o que me pertence. As cores lentamente tomaram forma como uma obra pontilista, houve um fade verde de folhas, fotossínteses azuis. Aos poucos o pontilhismo tornou-se impressionista e os pontos se embaçaram, mas se unificaram, as formas ainda disformes tornaram-se pinceladas de tinta a óleo em tela grossa. Aos poucos as tintas foram se tornando imagens e fixando na fotografia do mundo que eu via: árvores com espessos galhos e folhas, formando uma mata fechada bem delineada em dois lados separados por um rio, onde eu estava imerso. A sensação era tão boa que eu não queria me levantar, nem mesmo me mexer.
Percebi longos fios de cabelos brancos levitando ao meu lado com o vento suave, girei a cabeça um pouco para a esquerda e vi um senhor de cabelos e barba grisalhos olhando para mim, vestia uma manta branca grande e seu aspecto medieval transpassava uma sabedoria milenar. Seu rosto tinha uma fisionomia agradável e não saberia responder se ele estava rindo, seus gestos e olhares eram tão discretos e calmos que aparentavam tudo e ao mesmo tempo nada.
– Olá, Vicente.
– Como sabe meu nome?
– Eu sei de tudo.
Sua voz era doce e grave, aparentava ter me analisado ou estava me esperando acordar por completo para proferir seu cumprimento, havia um esforço da minha mente para não entrar em curto-circuito, tudo estava muito confuso para mim e esse encontro me deixou ainda mais. Quem era o homem que me olhava como se soubesse cada detalhe do meu corpo e vida, como sabe meu nome, de onde me conhece e que história é essa de saber de tudo? Será que a morte, algo tão trágico e violento para nós em vida se transforma em algo tão calmo e maduro?
– Onde estou?
– Descobrirá por si mesmo… onde acha que deveria estar?
Era angustiante ele não responder minhas questões, o meu maior desejo naquele momento era um pouco de norte, levantei das águas rasas e sentei, olhei para o meu corpo envolto na mesma manta branca que o homem ao lado vestia. Será ele um morto, tal como eu? Um morto antigo talvez, com tempo suficiente para amadurecer na morte como precisamos para amadurecer na vida. A manta molhada rapidamente secou-se e me impressionei, somente a parte de baixo que continuou imersa no rio estava molhada, tal como minhas pernas. Ali, percebi, as leis naturais a reger aquele mundo não eram as mesmas leis que regem a Terra.
Continuava a pensar na pergunta do homem ao lado, “Onde acha que deveria estar?”, mas a minha cabeça estava um caos. Será que digo – devo estar onde os humanos de cada cultura acham que deveriam estar? Céu, inferno, purgatório, reencarnando, transformando, energizando etc. Tudo o que eu via não se assemelhava a nada do que a minha cultura me permitiu conhecer em vida, por isso não conseguia distinguir, a não ser que o ser ao meu lado fosse divino.
– Por que não responde as minhas perguntas?
– Você deseja que eu te dê respostas ou te torne a resposta?
Cada frase proferida por ele me demandava um tempo de reflexão.
-Acostume-se, Vicente, a única resposta da vida é a morte. E aqui você é a própria pergunta e sua própria resposta.
– Então… estou morto?
– Você acabou de nascer.
Não entendi o seu discurso e ele percebeu, formulou uma explicativa breve:
– Não se nasce para viver, se vive para nascer.
– Quem é você? – Perguntei.
Aquele homem estava confundindo a minha mente ainda mais com toda essa filosofia estranha de vida e morte, com toda a tranquilidade ele desviou o olhar de mim e olhou para o céu sem sol. Eu não entendia como havia tanta luz se não havia sol, a claridade aparentava vir de todos os cantos e logo reparei não ter sombras também, somente o som da natureza sem nenhum animal ou indício de um. Era estranho, pois em toda mata fechada havia uma orquestra de cantos dos pássaros e animais que nela habitam. Naquela, só havia luz.
Todos os meus pensamentos divagantes e toda a minha atenção ao ambiente fora cortada abruptamente quando o homem ao lado proferiu suas palavras:
– Eu sou você.
Trecho do livro Platônico quando Vicente acorda no Mundo das Ideias, lançado ontem na IX Bienal do Livro de Campos.
Sobremesa musical, após a degustar o texto: La Vieen Rose – letra de Edith Piaf interpretada por Cynthia M.
Amanhã a Folha trará a segunda pesquisa registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desde que foram oficializados em convenção os seis candidatos à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR) — em ordem alfabética: Caio Vianna (PDT), Dr. Chicão (PR), Geraldo Pudim (PMDB), Nildo Cardoso (DEM), Rafael Diniz (PPS) e Rogério Matoso (PPL).
Encomendada pela Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic), a pesquisa foi feita pelo instituto iNovo, fundado em Niterói por dois cientistas políticos da Universidade Federal Fluminense (UFF). E ouviu 700 pessoas das sete zonas eleitorais de Campos, nos dias 7 e 8 de agosto, para achar um quadro geral semelhante ao aferido pelo instituto Pro4 — cuja pesquisa, feita em 6 de agosto, foi encomendada e divulgada pela Folha.
A pesquisa do iNovo apresentou, no entanto, duas bruscas diferenças com o Pro4. Quer saber quais foram?
Então leia amanhã (14) na edição da Folha da Manhã.
Como era de se esperar, o expressivo crescimento da candidatura de Dr. Chicão a prefeito, comparadas as duas últimas pesquisas do instituto Pro4 feitas em junho (8 a 10) e 6 agosto, se deve à melhora da imagem do governo no qual é vice. Nos últimos dois meses, se Chicão ganhou 9,2 pontos ao passar de 8,4% nas intenções de votos para aos atuais 17,6%, este último percentual ainda ficou bem abaixo (11,1 pontos) dos 28,7% que responderam “sim” à pergunta: “O melhor é votar no candidato apoiado pela prefeita Rosinha, porque o trabalho dela precisa de continuidade?”.
Se esse índice positivo ao governo subiu (em junho, eram 24,3% os queriam sua continuidade), diminuíram os que responderam afirmativamente à indagação contrária: “O melhor é votar em outro candidato para que ele faça as mudanças que Campos precisa?”. Dos 70,8% de junho, foram 62,7% os que agora se manifestaram pela mudança — ainda uma maioria destacada dos campistas, mas que decresceu 8,1 pontos percentuais, número próximo ao conquistado por Chicão em intenções de voto, no mesmo período. Nele, aumentou a dúvida: os 4,4% que não souberam ou quiseram responder dois meses atrás, agora são 8,5% dos campistas.
Apesar do crescimento também destacado de Geraldo Pudim (PMDB), mais que dobrando os 5% na pesquisa de junho, para os atuais 11,1%, uma outra consulta estimulada feita em desdobramento aos que optaram pela mudança para Campos, revela que se trata de uma maioria com dois candidatos preferidos para encarná-la. Desses 62,7% que desejam mudar, 20,3% acham que Rafael Diniz (PPS) é o melhor nome para fazê-lo, em empate técnico com Caio Vianna (PDT), escolhido por outros 18,1% — a margem de erro da pesquisa é de 3,9 pontos percentuais para mais ou menos. Pudim vem em terceiro (9,7%), seguido de Chicão (5,2%). Mesmo governista, ele ficou à frente de Nildo Cardoso (DEM, 4,5%) e Rogério Matoso (PPL, 2,7%).
Ainda mal avaliado pela maioria, o governo começou a recuperar popularidade, aparentemente após o empréstimo de R$ 367 milhões da terceira “venda do futuro”, tomado (aqui) com a Caixa Econômica em 11 de maio deste ano, para ser pago até 2026. Se, em junho, 62,4% desaprovavam a maneira como a prefeita Rosinha vem administrando Campos, esse número em agosto baixou 52,1% — diferença percentual de 10,3 pontos, também bem próxima ao aumento de Chicão nas intenções de voto. A aprovação ao governo, no entanto, subiu pouco: de 33,9% para os atuais 36,3%. Foi um crescimento menor do que os que não souberam ou quiseram responder: dos 3,7% de dois meses atrás, aos 11,6% de agosto.
A diferença entre os percentuais das pesquisas de junho e agosto também se aproximam à do crescimento das intenções de voto de Chicão (9,2 pontos) no período, quando se trata das respostas às perguntas: “Você confia ou não confia na prefeita Rosinha?”. Evidenciando a melhora na imagem desgastada do governo, os 23,5% que há dois meses disseram confiar, hoje já são 31,8% — diferença de 8,3 pontos. Com números distintos, mas diferença semelhante entre eles, a coisa se repete na diminuição dos que não confiam na prefeita: os 73,2% de junho caíram para os atuais 60,2% — redução de 13 pontos percentuais.
Página 3 de hoje (12) da Folha
Publicado na edição de hoje (12) da Folha da Manhã
Nos últimos dois meses, o governo Rosinha Garotinho (PR) conseguiu melhorou sua imagem, bastante desgastada no segundo mandato. E isso puxou o crescimento de seu vice, Dr. Chicão (PR), nas intenções de voto pela sucessão da prefeita. Essa é a conclusão inequívoca da análise da segunda parte da pesquisa Pro4 — feita em 6 de agosto e publicada na página anterior desta edição — com os dados análogos colhidos pelo mesmo instituto entre 8 a 10 de junho. Ambas as consultas foram encomendadas pela Folha da Manhã e realizadas com 620 campistas das sete zonas eleitorais do município.
Relembrando
Ontem, na publicação da primeira parte da pesquisa pela Folha, foi revelada (aqui) a liderança que Chicão assumiu na corrida à Prefeitura, tanto na espontânea (4,8%), quanto na estimulada (17,6%) — nesta, empatado dentro da margem de erro (3,9% para mais ou menos) com Caio Vianna (PDT, 13,7%), Rafael Diniz (PPS, 13,2%) e Geraldo Pudim (PMDB, 11,1%). E na comparação com os números de junho, antes da definição (e redução) das candidaturas, o crescimento de Chicão foi o maior entre os seis que ficaram: 9,2 pontos percentuais a mais que os 8,4% que teve em junho.
Crescimento é fato
Se dúvida havia sobre esse crescimento expressivo de Chicão, ela se desvanece na sua confirmação por cruzamentos entre outros dados aferidos pelo Pro 4 entre junho e agosto. Por exemplo, aqueles que neste período responderam “sim” à pergunta “O melhor é votar em outro candidato para que ele faça as mudanças que Campos precisa?”, sofreram redução de 70,8% para 62,7% — ainda uma maioria destacada dos campistas, mas que decresceu 8,1 pontos percentuais.
Mais exemplos
Outros exemplos? Se, em junho, 62,4% desaprovavam a maneira como a prefeita Rosinha vinha administrando Campos, o número em agosto baixou a 52,1% — diferença percentual de 10,3. Com números distintos, mas bem próximos na diferença, pode se comparar quem disse confiar na prefeita: os 23,5% de dois meses atrás, hoje são 31,8% — 8,3 pontos. A mesma coisa na diminuição dos que disseram não confiar na prefeita: os 73,2% de junho caíram para os atuais 60,2% — diferença de 13 pontos percentuais.
Marco zero: 28,7%
Não é preciso entender de estatística, nem de margem de erro em pesquisa, para perceber que, num universo de 100%, 9,2 pontos percentuais de crescimento na intenção de voto de um candidato governista correspondem na média aos 8,1, aos 10,3, aos 8,3 e aos 13 pontos, respectivamente, de melhora na imagem do seu governo. Foi suficiente para dar a liderança a Chicão. Se o governo continuar a melhorar, seu candidato pode até ampliar a vantagem, já que os campistas que querem a continuidade do primeiro hoje são 28,7% — 11,1 pontos acima do que deveria ser, pela lógica, o “marco zero” das intenções de voto de Chicão.
Milagre eleitoral?
Todavia, mesmo que migrem para Chicão todos os 27,3% de indecisos que, na consulta estimulada, não souberam ou quiseram fazer nenhuma opção entre os seis candidatos a prefeito postos, isso não bastaria para que o atual líder vencesse em turno único — aposta na qual o governo parece empilhar todas as suas fichas. Ainda que, miraculosamente, ocorresse essa alta improbabilidade matemática e eleitoral, excetuados os 10% que disseram preferir votar branco ou nulo, Chicão não ultrapassaria os 49,9% dos votos válidos no primeiro turno.
Rejeição
Não custa lembrar de novo que, embora tenham diminuído, ainda são 62,7% — ou mais de seis entre cada 10 — os campistas que querem “votar em outro candidato para que ele faça as mudanças que Campos precisa”. E ainda que Chicão consiga a proeza de pontuar entre estes com 5,2%, a preferência acima da margem de erro para encarnar a mudança são os jovens Rafael (20,3%) e Caio (18,1%). No caso de segundo turno, ambos têm taxas de rejeição (respectivamente, 3,2% e 5,3%) bem inferiores aos 17,4% que Chicão também herdou do governo, no índice negativo em que só fica atrás — por motivos bem parecidos — de Pudim.