Ocupação do Teatro de Bolso na noite de ontem (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Os vereadores Marcão (Rede), Rafael Diniz (PPS) e Dayvison Miranda (PSDC) acabaram de chegar à ocupação do Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira pelos artistas de Campos, realizada (aqui) desde à tarde de ontem (09). Os três conversaram com o comandante da Guarda Civil Municipal Marcos Soares, que disse já ter liberado o acesso de entrada e saída do prédio, proibido durante a noite de ontem e madrugada de hoje. Os parlamentares se comprometeram a levar a pauta da ocupação à sessão de daqui a pouco, na Câmara, na qual Marcão e Dayvison integram a comissão de Educação e Cultura.
Logo depois dos vereadores, quem também chegou no local para averiguar a situação foi o presidente da OAB Campos, Humberto Nobre. Aguardada desde ontem, após sua presença solicitada desde o primeiro momento da ocupação, a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patrícia Cordeiro,ainda não apareceu para ouvir as reivindicações da classe artística, que passou a exigir a presença da prefeita Rosinha Garotinho (PR) nas negociações.
Aqui, na capa de hoje da Folha Dois, a jornalista Paula Vigneron narrou a ocupação dos artistas de Campos, ontem, ao Teatro de Bolso Procópio Ferreira, que acompanhou desde o início. Hoje, completa o relato, abaixo, a escritora:
(Foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Jornalista e escritora Paula Vigneron
Ocupa TB: resistência de quem faz
Por Paula Vigneron
No final da tarde da última segunda-feira, ouviu-se um grito: “não adianta/ tem que mudar/ o artista tem que trabalhar”. Pela principal avenida do Centro da cidade, artistas e imprensa caminhavam em direção a um dos mais aconchegantes espaços culturais, o Teatro de Bolso Procópio Ferreira. Ele, em seu esquecimento forçado, também gritava por socorro. Fechada há anos para reformas não concluídas, a “Casa do Artista Campista” representa o isolamento a que foi destinada a cultura local.
Na entrada lateral do teatro, a movimentação dos que sentem saudades de casa. Dos que buscaram, por anos, espaços alternativos que pudessem substitui-lo. Em vão. Por conta do fechamento, atores e atrizes se espalhavam por locais alternativos e ruas da cidade. Não queriam deixar morrer o sonho da arte. Não abriram, apesar das dificuldades, mão da criação. Transformaram em palco os jardins, as praças e as vias pelas quais trafegam aqueles que nem sempre compreendem o papel da arte, que existe porque a vida não basta, conforme afirma o escritor Ferreira Gullar.
Em sua luta, os criadores explicavam a quem passava pela Rua Gesteira Passos que desejavam apenas voltar para casa. Que buscavam o reencontro com o palco de tantas histórias contadas e vividas. Uma causa legítima. A todo momento, explicavam: “nós somos trabalhadores”; “precisamos ganhar dinheiro”. Nessas horas, o artista-cidadão dialogava com outros cidadãos, nem sempre dispostos a compreender suas razões.
Batidas na porta. Pedidos para que seus pedidos fossem ouvidos. Nenhuma resposta. Com a caixa de som, cantavam, bradavam e tornavam a explicar. Sem retorno. A ocupação, então, saiu da ficção para se transformar em realidade. O calor, causado pela falta de refrigeração — motivo pelo qual não houve a reabertura do Teatro de Bolso no tempo previsto —, não alterou os planos feitos ao ar livre. Deixando para trás a realidade pessoal, os artistas se mantiveram firmes na proposta inicial: ocupação para diálogo com o poder público, a entrega do teatro à classe e mudanças na administração. Para isso, esperariam a responsável por assuntos ligados à cultura. Esperaram a noite inteira. Ela ainda não chegou. E eles não vão desistir.
No meio do caminho, a imprensa. Do outro lado, o diretor do TB, com palavras escolhidas para controlar o movimento, e a Guarda Civil Municipal. Os ânimos dos agentes do órgão foram acalmados por um lúcido comandante. Houve discussões. Ameaça de prisão por desacato. Formação de um ambiente hostil enquanto os artistas explicavam que eram trabalhadores. Queriam seus direitos, assim como eles almejaram em diversas manifestações pela cidade. Mas, ali, lutavam por causas contrárias e não se entendiam.
Não havia baderna, conforme poderiam pensar os homens e mulheres fardados. Nenhuma palavra de agressão. Sem demonstrações de violência. O companheirismo contornando as expressões. Aqui, um rapaz se distrai com as cordas de um grande ioiô. Logo à frente, a um canto, uma moça posta informações em redes sociais. Ali, amigos conversam animadamente. Sorrisos espalhados. O clima era um misto de palavras de ordem e descontração, com um violão ecoando o ritmo dos artistas e de suas vozes. Afinal, eles voltaram para casa depois de tantos anos.
Movimento do Ocupa Teatro de Bolso (foto de Lívia Amorim – reprodução do Facebook)
Depois que a equipe de reportagem da Folha saiu, na noite de ontem, da ocupação do Teatro de Bolso pelos artistas de Campos (aqui), a Guarda Civil Municipal começou a endurecer o jogo psicológico: ninguém mais podia entrar, nem voltar quem saísse para pegar comida ou água. Durante a madrugada, foram muitas as ações de apoio ao movimento, que registraram de diferentes formas os momentos de tensão vivido pela classe artística da cidade.
Um desses testemunhos foi o vídeo gravado e reproduzido aqui, pelo presidente do PV em Campos, Gustavo Matheus. Outro, a opinião em prosa deitada aqui, pelo presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC), Vitor Menezes.
Abaixo, a reprodução de ambos, do vídeo de Gustavo e do texto de Vitor:
Por Vitor Menezes
Chegamos há pouco, eu e o professor Hélio Coelho, da ocupação no Teatro de Bolso. Fomos levar, em nome da AIC e da ACL, o nosso apoio à luta pela cultura e buscar contribuir na abertura do diálogo. Estávamos preocupados especialmente, nesta madrugada, com um possível tensionamento com a guarda municipal. Conseguimos fazer uma roda de conversa onde todos puderam se conhecer melhor, quebrando estereótipos de parte a parte, entre artistas e a guarda.
O que o movimento reivindica é muito razoável: que a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Patrícia Cordeiro, vá até à ocupação e dialogue com eles. Tenho convicção de que isso haverá de ser possível nesta terça-feira. Faço até mesmo um apelo neste sentido. Um gestor público precisa ser capaz desse gesto.
Não se pode negligenciar um grito sufocado. E a gestão municipal, formada em boa parte por ex-atores e militantes culturais que também ocuparam o TB quando eram jovens, não poderá mostrar-se insensível a este novo levante.
Teatro de Bolso de Campos (foto: coletivo Casinha)
Cerca de 30 artistas de Campos, com apoio do coletivo cultural Casinha (conheça-o aqui) ocuparam na tarde de hoje o Teatro de Bolso Procópio Ferreira, fechado há três anos para reforma no sistema de refrigeração, mas com os trabalhos parados e sem previsão de entrega. Preparados para ficar, os artistas reivindicam que lhes seja repassada pelo município a administração do teatro, assim como sua imediata liberação do teatro para ensaio e encenações.
Quem está no local tentando negociar com os artistas é o novo comandante da Guarda Civil Municipal, Marcos Soares. Era aguardada a presença da presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL), Patrícia Cordeiro, que teria sido avisada da ocupação pelo diretor do Teatro de Bolso, Adeilson Trindade. Na ausência de Patrícia, Marcos propôs a formação de um comissão para negociar, o que foi negado em votação pelos artistas, cuja proposta de organização é coletivista, sem liderança formal.
Teatro de Bolso já foi ocupado por Garotinho
Em 1982, durante o último governo municipal Zezé Barbosa (1982/88) e ainda sob a Ditadura Militar no Brasil (1964/85), o então vice-presidente da Associação Regional de Teatro Amador (Arta), Anthony Garotinho, também comandou uma ocupação do Teatro de Bolso. Historicamente, aquele ato do ex-governador foi considerado seu pontapé inicial na vida pública. O objetivo também era entregar o espaço aos artistas da cidade.
Segundo informou o professor João Vicente Alvarenga, autor do livro “Três Atos da História do Teatro em Campos” (1993), Zezé aceitou a mediação do poeta e jornalista Prata Tavares (1925/94), então diretor do departamento municipal de Cultura, e permitiu que a classe artística assumisse o Teatro de Bolso. O controle teria voltado ao município dois anos depois, em 1984, quando o espaço precisou passar por uma reforma.
Sem Patrícia Cordeiro, FCJOL gera nota
Sem a presença de Patrícia Cordeio, a ocupação do Teatro de Bolso pelos artistas gerou uma nota da FCJOL. Nela, a demora na reforma é atribuída à “crise econômica que atinge o país”. Mais uma vez sem prazo definido, foi feita a promessa de reabrir o espaço nas “próximas semanas”.
Confira abaixo:
O Teatro de Bolso Procópio Ferreira será reaberto nas próximas semanas. O espaço passou por readequação para acessibilidade e conta com plataforma vertical e banheiros adaptados para pessoas portadoras de necessidades especiais. Segundo a diretora do Teatro Trianon, Adriana Carneiro, o Teatro de Bolso passará por reparos no sistema de refrigeração:
— O cronograma de obras foi redimensionado devido à crise econômica que atinge o país. Na parte superior do prédio acontecem as aulas do Curso Livre de Teatro e workshops. O palco voltará a receber espetáculos em breve — disse Adriana.
Com a reabertura do Teatro de Bolso, as produções locais terão mais um espaço para apresentação, além do Teatro Municipal Trianon e do auditório do Museu Histórico de Campos.
As pratas da casa não ficaram sem espaço, pois utilizaram as dependências do Teatro Municipal Trianon, como o Curso Livre de Teatro, Cia Persona, Centro Cultura Musical de Campos e outras instituições culturais e grupos.
Confira abaixo o vídeo da ocupação do Teatro de Bolso pelos artistas, aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, e na sua reprodução abaixo:
Numa nota em que aparentemente subscreve a entrevista (aqui) do governador do Maranhão, Flavio Dino (PC do B), ao “Portal Vermelho”, o Sindipetro NF publicou aqui: “Anulação de Waldir é mais consistente que o impeachment”.
Em contrapartida, até a revista Carta Capital, cuja linha editorial é considerada de apoio ao governo Dilma Rousseff (PT), publicou aqui: “Decisão de Maranhão é juridicamente inexistente”.
Mesmo aliado do governo Dilma Rouseff (PT), o presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB/AL), vai ignorar (aqui) a decisão do presidente interino da Câmara, Waldir Maranhão (PP-MA), que acolheu recurso da advocacia geral da União para anular três sessões da Câmara Federal que resultaram na autorização da abertura do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Assim, no lugar de devolver o processo à Câmara, como pediu Maranhão, em decisão noticiada (aqui) em primeira mão pela Folha de São Paulo, Renan vai manter o calendário do impeachment no Senado, com a leitura do relatório favorável ao afastamento da presidente nesta tarde.
Investigado na operação Lava Jato, Waldir Maranhão viajou no último domingo (08) para São Luís (MA), tentando costurar apoio político para permanecer na presidência da Câmara. No domingo (08), o deputado retornou a Brasília no início da noite, no jatinho da FAB destinado ao deslocamento das autoridades federais. A bordo também estava o governador maranhense Flavio Dino (PCdoB), aliado do governo Dilma. A coluna do Lauro Jardim informou (aqui) que quem também estaria por trás da decisão seria o ex-presidente da Câmara e aliado de Maranhão, Eduardo Cunha (PMDB), afastado (aqui) em decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) da última quinta (05).
Depois da sua decisão, Maranhão (o deputado, não o Estado) já enfrenta ameaça de expulsão do PP e de ser derrubado da presidência pela bancada pró-impeachment na Câmara. A OAB nacional considerou a tentativa de anulação “um vale tudo à margem da Constituição”. Após ter sua posição oficial antecipada em algumas horas pela rádio CBN, o presidente do Senado confirmou a decisão de ignorar a tentativa de anulação do impeachment pelo presidente interino da Câmara:
— Essa decisão do presidente da Câmara agora é, portanto, absolutamente intempestiva. Aceitar essa brincadeira com a democracia seria ficar pessoalmente comprometido o atraso do processo. E não cabe, ao fim e ao cabo, ao presidente do Senado dizer se o processo é justo ou injusto, mas ao plenário do senado, ao conjunto dos senadores, foi essa a decisão do STF — garantiu Renan.
Atualização às 12h13:Aqui, a jornalista Suzy Monteiro foi a primeira na blogosfera goitacá a noticiar a decisão de Waldir Maranhão.
Atualização às 12h32: Deputados pró-impeachment, entre eles os integrantes da Mesa-Diretora, estão correndo para a Câmara. Vão se reunir e tentar encontrar uma maneira de derrubar a decisão de Waldir Maranhão. Os técnicos da Câmara já estão trabalhando numa solução e os integrantes da Mesa avaliam até mesmo a possibilidade de um ato da direção da Casa invalidar a decisão de Maranhão.
Atualização às 12h40: Técnicos da Câmara dizem que, como o processo de impeachment já está no Senado, o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB/AL), poderia simplesmente ignorar a decisão de Waldir Maranhão que cancelou a votação do impeachment. O corpo técnico disse ainda que o presidente da Câmara não pode, numa canetada, anular uma decisão soberana do plenário. Apesar da fragilidade da decisão de Maranhão, caso Renan diga que precisa esperar uma resolução da Câmara antes de tocar o impeachment, pode ser preciso que algum deputado levante uma questão de ordem em plenário para derrubar a canetada de Maranhão.
Atualização às 12h44: Antes mesmo de Waldir Maranhão anunciar a decisão de anular o impeachment de Dilma, aliados do governador maranhense Flavio Dino já ventilavam a possibilidade. Dino teve papel importante em obter o voto do então vice-presidente da Câmara contra o impeachment. O governador esteve em Brasília no domingo e se reuniu com o advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo. Depois, conversou com o presidente interino da Câmara.
Atualização às 12h50: O presidente da OAB nacional, Claudio Lamachia, divulgará nota à imprensa criticando a decisão de Waldir Maranhão que cancelou a votação do impeachment. Segundo ele, a votação que aprovou o envio do processo para o Senado foi legítima e a canetada de Maranhão “atende a interesses momentâneos de alguns grupos políticos” e representa um “vale-tudo à margem” da Constituição.
Atualização às 13h14: A assessoria jurídica da Câmara Federal prepara um parecer em que dirá que a sessão que aprovou a admissibilidade do impeachment de Dilma Rousseff foi um ato jurídico perfeito, não passível de anulação por decisão monocrática do presidente da Casa. Segundo os advogados da Casa, não existe previsão no regimento interno para o presidente responder a um recurso da Advocacia-Geral da União. O artigo 17 do regimento prevê apenas que ele responda a questões de ordem dos deputados, feitas em plenário. A assessoria jurídica da Câmara está reunida. O clima é de perplexidade com a decisão de Waldir Maranhão.
Atualização às 13h23: Como o jornalista Arnaldo Neto adiantou aqui na blogosfera goitacá, Waldir Maranhão emitiu nota oficial com seis motivos para anular três sessões da Câmara sobre o impeachment de Dilma:
“1. O Presidente da Comissão Especial do Impeachment do Senado Federal, Senador Raimundo Lira, no dia 27 de abril do corrente ano, encaminhou à Câmara dos Deputados, ofício em que indagava sobre o andamento de recurso apresentado pela Advocacia-Geral da União contra a decisão que autorizou a instauração de processo de impeachment contra a Sra. Presidente da República, Dilma Rousseff.
2.Ao tomar conhecimento desse ofício, tomei ciência da existência de petição dirigida pela Sra. Presidente da República, por meio da Advocacia-Geral da União, em que pleiteava a anulação da Sessão realizada pela Câmara dos Deputados, nos dias 15, 16 e 17 de abril. Nessa sessão, como todos sabem, o Plenário desta Casa aprovou parecer encaminhado pela Comissão Especial que propunha fosse encaminhada ao Senado Federal para a eventual abertura de processo contra a Sra. Presidente da República, Dilma Rousseff, por crime de responsabilidade.
3. Como a petição não havia ainda sido decidida, eu a examinei e decidi acolher em parte as ponderações nela contidas. Desacolhi a arguição de nulidade feita em relação aos motivos apresentados pelos Srs. Deputados no momento de votação, por entender que não ocorreram quaisquer vícios naquelas declarações de votos. Todavia, acolhi as demais arguições, por entender que efetivamente ocorreram vícios que tornaram nula de pleno direito a sessão em questão. Não poderiam os partidos políticos ter fechado questão ou firmado orientação para que os parlamentares votassem de um modo ou de outro, uma vez que, no caso deveriam votar de acordo com as suas convicções pessoais e livremente. Não poderiam os senhores parlamentares antes da conclusão da votação terem anunciado publicamente os seus votos, na medida em que isso caracteriza prejulgamento e clara ofensa ao amplo direito de defesa que está consagrado na Constituição. Do mesmo modo, não poderia a defesa da Sra. Presidente da República ter deixado de falar por último no momento da votação, como acabou ocorrendo.
4. Também considero que o resultado da votação deveria ter sido formalizado por Resolução, por ser o que dispõe o Regimento Interno da Câmara dos Deputados e o que estava originalmente previsto no processamento do impeachment do Presidente Collor, tomado como paradigma pelo STF para o processamento do presente pedido de impeachment.
5. Por estas razões, anulei a sessão realizada nos dias 15, 16 e 17 e determinei que uma nova sessão seja realizada para deliberar sobre a matéria no prazo de 5 sessões contados da data em que o processo for devolvido pelo Senado à Câmara dos Deputados.
6. Para cumprimento da minha decisão, encaminhei ofício ao Presidente do Senado para que os autos do processo de impeachment sejam devolvidos à Câmara dos Deputados.
Atenciosamente,
Deputado Waldir Maranhão
Presidente em exercício da Câmara dos Deputados”
Atualização às 13h33:Aqui o jornalista Guilherme Amado, divulgou que a decisão de Waldir Maranhão de anular a tramitação do impeachment de Dilma Rousseff foi uma orientação do seu aliado e antecessor na presidência da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB). Os dois se encontraram na última sexta-feira (06) em Brasília, quando Cunha tocou no assunto com ele. O objetivo de Cunha seria tentar retomar o controle do processo de impeachment, recuperando sua ascendência sobre o fim do governo Dilma e/ou o começo do governo Michel Temer (PMDB).
Atualização às 13h40:Aqui, o site “O Antagonista” denuncia que a anulação do processo de impeachment na Câmara foi redigido pelo advogado geral da União, José Eduardo Cardoso.
Atualização às 13h45: Após a decisão de anular a sessão que do impeachment da presidente Dilma na Câmara, o presidente em exercício da Casa, deputado Waldir Maranhão, deve ser expulso do PP. Um grupo de deputados do partido já acionou a executiva nacional para pedir sua imediata expulsão. Com isto, a legenda deve também pedir o afastamento de Maranhão da presidência da Câmara, já que a vaga de vice é de indicação do PP. O argumento é que ele já havia contrariado a decisão do partido de fechar questão a favor do impeachment e, agora, voltou a confrontar o partido:
— Ele é um incapaz e vamos ainda hoje pedir a expulsão dele do partido. Tem que saber como foi essa articulação, que é criminosa. Ele não tem nenhuma capacidade mental de um golpe dessa envergadura. Precisa apurar quem mais está envolvido nesse golpe — afirmou o deputado Júlio Lopes (PP-RJ).
Atualização às 13h50: Nos minutos seguintes à divulgação da decisão de Maranhão de anular o impeachment de Dilma, divulgada em primeira mão pela Folha de São Paulo (aqui) às 11h51, a Bolsa de Valores foi para a mínima do dia, aos 49.907 pontos, enquanto o contrato futuro do dólar, com vencimento para maio, saltou para sua máxima, a R$ 3,700. A decisão inesperada puxou as ações preferenciais da Petrobras para queda de 12,30%, a R$ 8,84, na mínima do dia. Os papéis ordinários chegaram a cair 9,98%, a R$ 11,64.
Atualização às 13h58: Renan Calheiros vai ignorar a decisão de Maranhão pela nulidade do processo e manterá calendário do impeachment de Dilma no Senado. Confira aqui no furo da rádio CBN.
Atualização às 17h41: Como informou aqui a jornalista Suzy Monteiro, Renan Calheiros confirmou que vai ignorar a tentativa de Waldir Maranhão de anular o impeachment, dando-lhe a sequência prevista no Senado. A informação foi adiantada por este “Opiniões” há quase quatro horas, com base na antecipação feita pela rádio CBN.
Nas edições desta segunda (09) dos principais jornais brasileiros, a Andrade Gutierrez publica um “pedido de desculpas ao povo brasileiro”. As escusas se referem aos crimes praticados pela segunda maior empreiteira do país, eviscerados na operação Lava Jato. Na última quinta (05), o juiz Sérgio Moro homologou um acordo de leniência — espécie de colaboração premiada para empresas — com a Andrade Gutierrez, que pagará uma indenização de R$ 1 bilhão.
O texto intitulado “Pedido de desculpas e manifesto por um Brasil melhor” será publicado no dia seguinte à edição de domingo (08) da Folha de São Paulo anunciar (aqui) em sua manchete de capa a aguardada delação de Marcelo Bahia Odebrecht. Nela, o ex-presidente da maior empreiteira do país sepultou de vez a propaganda da honestidade pessoal da atual presidente da República, Dilma Rousseff (PT).
Além de revelar a cobrança de propina a empresas via BNDES à campanha de reeleição da presidente em 2014, Odebrecht detalhou como a própria Dilma indicou e nomeou Marcelo Navarro Ribeiro Dantas ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), com a missão — tentada, mas fracassada — de libertar empreiteiros presos pela Lava Jato. A denúncia confirma a delação do senador Delcídio do Amaral (sem partido), pela qual o procurador geral da República, Rodrigo Janot, já havia solicitado a investigação de Dilma no Supremo Tribunal Federal (STF).
Preso desde 19 de junho de 2015 e condenado por Sérgio Moro a 19 anos e 4 meses de prisão, Marcelo Odebrecht agora tenta reduzir a pena. Assim como a Andrade Gutierrez vai pedir desculpas publicamente e pagar R$ 1 bilhão para não ser proibida de contratar com o poder público.
Do Planalto Central à Planície Goitacá
Em Campos, a Odebrecht ganhou as licitações para as duas etapas do programa “Morar Feliz”, nos dois governos Rosinha Garotinho (PR), no valor total de quase R$ 1 bilhão. Durante a 23ª fase da operação Lava Jato, na casa de Benedicto Barbosa da Silva Júnior, que substituiu Marcelo como presidente da Odebrecht, a Polícia Federal (PF) apreendeu (aqui) planilhas com repasses em dinheiro da empreiteira a cerca de 300 políticos, entre eles a prefeita Rosinha, a deputada federal Clarissa e o secretário municipal de Governo Anthony Garotinho. Benedicto assinou (aqui) o contrato da primeira etapa do “Morar Feliz” junto com Rosinha.
Na sessão do último dia 26, a oposição protocolou (aqui) na Câmara de Campos uma CPI para investigar as relações entre a Odebrecht e o governo Rosinha. Em intuito semelhante, o Ministério Público Estadual (MPE) ajuizou (aqui) ação na 4ª vara Cível de Campos.
Pedido nas passeatas de 13 de março anteviu a realidade imposta ao Brasil por suas ruas (foto de El País)
“Uma Revolução Francesa sem sangue”. Desde que ouvi pela primeira vez a definição do Gilberto Dimenstein sobre o atual momento brasileiro, tenho me deixado permear pelo otimismo emanado daquela conversa em vídeo (aqui) do conceituado jornalista com o historiador Leandro Karnal e os filósofos Mário Sérgio Cortella e Luiz Felipe Pondé.
Após o ministro Teori Zvascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), ter afastado (aqui) Eduardo Cunha (PMDB) do mandato e da presidência da Câmara Federal, na última quinta-feira (05), tudo indica que irão até o fim as responsabilizações dos crimes eviscerados na operação Lava Jato. Sobretudo porque, de quebra, Teori afastou não apenas Cunha, mas a tentativa de anular o processo do impeachment da presidente Dilma Rousarseff (PT). Segundo denunciou (aqui) a jornalista Eliane Catanhêde, a manobra seria tentada pelos também ministros do STF Marco Aurélio de Mello e Ricardo Lewandovski, a partir da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) impetrada pelo Rede Sustentabilidade de Marina Silva.
Apesar do julgamento das pedaladas fiscais de Dilma como crime de responsabilidade, no Senado, estar marcado para a próxima quarta (11), tudo indica que ela e Cunha, usando a expressão da primeira, já são “cartas fora do baralho”.
Quem questiona agora, o faz pelos mesmos motivos da “lógica” particular de quem primeiro pregou que os tribunais superiores anulariam as delações iniciais dos ex-diretores da Petrobras ao juiz Sérgio Moro; depois que a Lava Jato não chegaria a Odebrecht, por ser a empreiteira muito poderosa; depois não chegaria em Lula (PT), por conta de um acordo para blindar o ex-presidente; depois no senador Aécio Neves (PSDB), porque o Ministério Público protegeria os tucanos; depois que o procurador geral da República não investigaria Dilma, pois Rodrigo Janot protegeria o PT; depois que este mesmo PT costuraria um acordo com o STF para salvar a pele do senador Delcídio (sem partido) e impedi-lo de abrir o bico; depois que prevaleceria um suposto acordo para salvar Cunha em troca do impeachment.
Isso até que o último mi-mi-mi ecoado com força de arrasto nas redes sociais, dando conta que a Java Jato acabaria depois do impeachment, levasse o cala boca do afastamento de Cunha com Dilma ainda no poder.
Obsessão resumida (aqui) pelo comediante Fábio Porchat em artigo de palhaço sem aspas ou riso, o “Fora, Cunha!” deixou sem discurso quem antes já não tinha argumento para tentar defender o governo Dilma. Não foi o antagonista Cunha quem fez a Câmara aprovar o impeachment, assim como o processo não será barrado no Senado pelo aliado Renan Calheiros (PMDB), enquanto este não se torna a bola da vez da Lava Jato.
O que tirou Dilma e Cunha do poder foram as manifestações de 13 de março, maiores da história do país. Exatamente como foi Dilma quem acabou com a economia do Brasil — e o lulopetismo a reboque.
Se Michel Temer (PMDB) perder isso de vista por um único segundo após assumir o leme a partir do dia 12, será o próximo a naufragar.
Ex-aluno da Escola Nelson Pereira Rebel, o professor Adriano Moura levou oficina de criação literária aos estuantes que hoje ocupam a instituição estadual de ensino (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Ao lado da filha Safira e seus colegas que ocupam a escola, dona Vanusa deu apoio ao movimento: “não estão fazendo isso para ninguém, mas para eles mesmos” (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Por Aluysio Abreu Barbosa
“Eles estão bem, não tem alvoroço. Apoio o que eles estão fazendo porque não estão fazendo isso para ninguém, mas para eles mesmos”. Foi o que disse dona Vanusa, mãe da jovem estudante Safira, de 17, sobre a ocupação da Escola Estadual Nelson Pereira Rebel, em Travessão, uma das oito unidades estaduais de ensino ocupadas pelos alunos no município de Campos. Em apoio ao movimento de greve dos professores, mas também com uma pauta própria de reivindicações, já são mais de 70 unidades de ensino ocupadas pelos estudantes em todo o Estado do Rio, incluindo a sede da secretaria estadual de Educação (Seeduc).
Em contrapartida pelo apoio recebido, os professores têm se mobilizado numa rede de solidariedade aos alunos, não só na forma de doação de mantimentos e material de limpeza, mas na promoção de oficinas. Um deles é o professor, poeta e dramaturgo Adriano Moura, que tem visitado algumas escolas ocupadas em Campos para levar aos estudantes uma oficina de criação literária. Depois da experiência inicial na ocupação do Liceu de Humanidades de Campos, na última quarta foi a vez do Nelson Pereira Rebel, onde o hoje professor já foi aluno.
Adriano propõe sua oficina na divisão em cinco pontos, da situação inicial ao desfecho, passando pelo que chama de “nó”, alteração da situação inicial; “conflito”, problema que precisa ser resolvido; e “peripécias”, fatos criados para que a história evolua. Com a própria ocupação da escola como ponto de partida real da narrativa supostamente de ficção, a encenação improvisada pelos alunos acaba revelando a realidade enfrentada pelos estudantes.
Na didática da arte que imita a vida, em meio às tentativas da direção e alguns funcionários da escola, além de representantes da Seeduc, de impedir ou enfraquecer o movimento de ocupação, vão se revelando os personagens, cujos hábitos e posturas são realçados na representação dos jovens alunos. Líder do movimento no Nelson Pereira Rebel, o estudante Vinicius, de 16 anos, contou com seu grupo parte da história real da ocupação iniciada no último dia 29 de abril, mobilizada através do WhatsApp e com apoio da União dos Estudantes de Campos (UEC), movimento criado pelos alunos para promover as ocupações e debater as pautas de cada escola.
No abaixo assinado do “Ocupa Nelson”, estão reivindicações para a escola, como criação de grêmio estudantil, eleição de diretor, melhoria na merenda, Internet no laboratório de informática e reabertura do laboratório de ciência, mas também pautas de interesse da coletividade, como pagamento em dia dos servidores estaduais inativos. E, no último dos 13 itens, o esclarecimento: “todos nós queremos a volta às aulas e o fim da greve. Por isso precisamos de uma maior mobilização tanto de alunos como da comunidade. Esperamos que através disso o Estado se sensibilize e atenda nossas reivindicações”.
Página 6 da edição de hoje (08/05) da Folha da Manhã
Sugestão para escutar enquanto lê: Frédéric Chopin – Spring Waltz
Campos dos Goytacazes, janeiro de 1847.
Espelhada no cristal das águas do Paraíba a menina do passado vê o reflexo dos seus sonhos, desejando encontrar a menina do futuro.
Campos dos Goytacazes, janeiro de 2016.
Espelhada nos coliformes das águas do Paraíba a menina do futuro vê o reflexo dos seus sonhos, desejando encontrar a menina do passado.
Junho de 1883
Maria Helenagosta de perseguir o silêncio em dias de chuva, sujando o lenço de seu vestido branco enquanto corre pela estrada de terra molhada e retorna à casa com sua mãe quase tendo uma crise ao ver a filha já com quinze anos usando modos de uma criança levada. Todos os dias galopava da rua Direita à beira-rio, desviando dos cavalos e dos proprietários,debruçava sobre as águas do Paraíba e imaginava como seria a menina do futuro enquanto observava seu próprio reflexo.
Rua Direita passou a ser chamada de Rua Treze de Maio
Ficava a se olhar no espelho cristalino do rio até as estrelas começarem a pontilhar o infinito tapete negro no céu. A cidade se preparava há 23 dias para um grande evento com muitas festas e estripulias, seria a quarta visita do imperador Dom Pedro II a Campos dos Goytacazes. Ouvira que a primeira vez ele tinha apenas 7 anos de diferença dela, e se imaginou chegando à cidade como uma imperatriz, com longos vestidos e longas bajulações. Estava frio nessa tarde nublada, apesar desse mês ser quente de costume, sentia o vento forte avermelhando as bochechas,que parecia o rio ser praia. Passou a manhã escutando seu pai em polvorosa com outros fazendeiros devido a chegada do ilustre a inaugurar em Campos a primeira cidade de toda a América do Sul a ter energia elétrica. Coisa do futuro, dizia o pai, e ela ficava a imaginar mais ainda a menina do futuro.
O Imperador Dom Pedro II (foto: Mathew Brady e LevinCorbinHandyWikimediaCommons)
— Estamos caminhando para o progresso absoluto, meus companheiros! Nossa cidade disputará entre as mais evoluídas do mundo! – Brindou o pai de Maria Helena, na sala de sua mansão, antes de caminharem para a recepção do imperador.
Maria ficava a imaginar toda aquela história, a luz surgindo de um botão, as máquinas trabalhando sem um peão. Enquanto caminhava para o centro da cidade olhava os passarinhos dançando no céu e imaginava a menina do futuro voando para todos os lugares, com tanta tecnologia e o esboço de seu pai sobre a grandeza esperada por Campos, Maria Helena acredita: a tecnologia fará a menina do futuro livre em todas as formas. Imaginava:poderia se comunicar onde quisesse com qualquer pessoa onde ela estivesse, viajaria à velocidade impressionante e poderia tornar as madrugadas claras enquanto corria por elas. Teria tanta tecnologia, tanta, tanta que poderia curar sua mãe, seu pai mal sabia, achava a tristeza normal, mas a sensibilidade de Maria não mentia, sua mãe estava gravemente enferma. Maria Helena se desvencilhou da multidão esperando o imperador no centro da cidade, correu para a beira-rio e espelhada no cristal das águas do Paraíba a menina do passado vê o reflexo dos seus sonhos, desejando encontrar a menina do futuro.
(Fonte desconhecida)
Junho de 2016
Atrás das grades da janela, Laís observa as luzes dos carros enfeitando a noite e a selva de cimento. Enquanto escutava o assobio dos automóveis imaginava como seria no passado o sussurro da natureza além dos metais. Os olhares não duravam mais de dois minutos sem serem cortados pela atenção ao celular, estava o tempo todo atenta a tudo e a todos com os mais variados aplicativos. Há pouco se apaixonara perdidamente por um rapaz sem mal saber se o nome era verdadeiro, havia conhecido num aplicativo que serve pessoas como num cardápio, olhou a foto do rapaz e já sinalizou sua aceitação, nesses tempos não há tempo para encantamento e Laís fica a imaginar a menina do passado, com todos os seus reboliços juvenis e seus encantamentos inocentes. À noite não andava sozinha, via notícias diárias de assassinatos e crimes em seu bairro iguais às cidades das histórias em quadrinhos transformadas em seriados que assistia na TV. Seu tempo era dividido entre o Facebook, com as amizades que nunca viu, e os programas de televisão, com as pessoas que nunca encontrou. E ficava a imaginar a menina do passado, que vida difícil teria sem a tecnologia para unir as pessoas.
Numa manhã fria de domingo, o Whatsapp parou de funcionar, e assim ficaria por três dias. Laís sentiu um desespero correr seu corpo dos pés aos cabelos. Dentro das grades não havia com quem conversar, sua família era um produto da alienação oriund’a supérflua contemporaneidade e ela já havia lido e relido os poucos livros que tinha. Após se acostumar à ideia de não poder alimentar a vida virtual resolveu encarar a real, caminhou um pouco da rua Treze de Maio à beira-rio, estava deserto e conseguia escutar alguns pardais cantando sobre os fios de alta tensão. Ao chegar no pequeno muro de concreto cercando o Rio, não conseguia se aproximar mais que isso, mas viu-se nas águas mortas do rio Paraíba, imaginando como seria a menina do passado. Não se concentrava tão bem, a cada minuto olhava para o celular, mesmo sabendo que o aplicativo não funcionava, havia ainda outros para lhe tirar do sofrimento da vida real. Poucos minutos atrás seus amigos haviam ligado, estavam planejando um bom programa para esquentar aquela tarde ouvindo o arrocha ‘quero ver jogar a gata no fundo da Fiorino’ e beber cerveja feita de milho. Enquanto observa no espelho da cidade a distorção de seu próprio reflexo, pensava nos eventos contemporâneos e ficava a imaginar o que se perdeu do presente e ficou no passado, com a menina do passado.
De repente escutou dois grandes estouros atrás de si, antes de olhar já sabia que eram estalos de um revólver. Espelhada no metal sujo de pólvora a menina do futuro vê o reflexo dos seus sonhos, desejando encontrar a menina do passado.
Rua Treze de Maio, Maio de 2016 (foto: Fabio Bottrel)
Agosto de 1883
As lágrimas de Maria Helena escorrem pela face como escorre a tristeza pela vida, desmancham no vestido branco como se desmancha a esperança diante da morte. Sua sensibilidade não erra, sua mãe estava realmente doente enquanto seu pai cego pelo progresso esquecia-se de que era gente. O médico já havia tomado uma série de cuidados, informara que a humanidade ainda não havia evoluído a ponto de curar algumas doenças, nem mesmo sabia qual era aquela, mas num tempo não muito longe a tecnologia possibilitará a cura sem sofrimento, tal como num acender de lâmpada. Maria Helena segurava a mão mole e olhava os olhos sem brilho enquanto sua mãe deixava de ser pele para ser poesia que seu coração recitaria todos os dias e sonhou ser a menina do futuro, desejou o futuro, na sua ingenuidade de que este amenizaria a existência humana. Fechou os olhos e com a sua imaginação tornou-se a menina do futuro, que já não existe mais.
Agosto de 2016
Laís sorria à tempestade enquanto o tempo corria em sua veia, não tinha medo do trovão, encarava o relâmpago como um cão. Há dois meses presenciou um assassinato a sangue frio bem as suas costas na beira-rio, correu tanto que conseguiu escapar de ser uma queima de arquivo. Mas os jornais não param de noticiar mais e mais crimes, mortes e mortes na cidade sem lei, escutou o assassino gritando que a encontraria enquanto ela corria o máximo que podia. E o grito estava certo, marcou seu rosto, lembrou seu corpo e no mesmo lugar encontrou Laís dois meses depois, numa noite apática ela o olhou e reconheceu, viu seus pesadelos refletidos no metal com cheiro da morte e desejou ser a menina do passado, que já não existe mais.
Beira-rio, Maio 2016 (foto: Fabio Bottrel)
Futuro Passa|n|do
Após enterrar sua mãe, Maria Helena viu muita gente morrer, tecnologias surgindo para guerras, para dizimar qualquer forma de amar. Logo percebeu seu pensamento infantil, tão doce e agora tão triste, sabia, não existiria mais a menina do futuro.
Não há mais história de Laís para contar, morreu muito cedo, sem saber e sem ver, como morrem as vítimas do nosso tempo.
A cigana profetizou ao ler sua mão ainda na gravidez:
— Nunca andou por esse mundo pessoas tão sortudas igual a seus filhos.
Realmente, não se sabia explicar a fortuna a constantemente rodear Maurício e Joaquim. Desde quando nasceram os pais notaram como pequenas eventualidades passaram a receber sua estranha influência. O pequeno comércio de utilidades do lar prosperou e um tio desconhecido apareceu do nada e deixou para a família uma herança considerável. Quando começaram a andar, achavam objetos valiosos, até mesmo carteira com dinheiro. Os pais então se lembraram do presságio da cigana e se felicitaram pelo futuro promissor prometido aos dois.
O passar dos anos gerou diferenças peculiares entre os gêmeos. Ciente de sua sorte, Maurício resolveu se empenhar para exponenciá-la. Enfiou a cabeça nos estudos e obteve notas absurdamente altas em todos os exames, chamando a atenção de bancadas de professores diante do fenômeno. Formou-se com louvores em Economia e embarcou no mercado financeiro, onde cada aplicação sua rendia volumoso retorno. Iniciou com ativos de uma companhia de derivados de fruta e no primeiro mês sequente à compra de ações intempéries atingiram as plantações concorrentes e as produções se perderam. Daí inicou sua vitoriosa carreira.
Já Joaquim enveredou pelo caminho oposto. Se tudo caía facilmente em suas mãos, pouco se preocupava em se esforçar. Na escola nunca estudava, apenas marcava aleatoriamente as alternativas e gabaritava. Podia comprar algo e não se preocupar em pagar; alguma falha no sistema de computadores faria suas prestações sumirem e quando ficava sem dinheiro jogava na loteria e usufruia do que ganhasse. Bastava caminhar sem planejamento algum e tudo indubitavelmente se ajeitava.
Enquanto Maurício começou a auferir lucros cada vez mais altos e figurar entre as pessoas mais ricas do planeta, Joaquim se casou e mudou para uma casa simples e sem luxos, em cujo quintal plantava uma horta que sempre rendia frutos. Somente ouvia o barulho dos pássaros e curtiu sua ociosidade tranquila. Maurício conquistou renome internacional e viajou pelos continentes. Joaquim ergueu seu pequeno reino em um canto isolado e por lá permaneceu. Os caminhos distintos os afastaram e anos seguiram sem se ver.
Quando a mãe idosa faleceu, encontraram-se no velório. Demoraram a se reconhecer, Maurício em suas roupas caras e com seu anel dourado, Joaquim despojado. Um trazia os cabelos bem cortados e uma aparência obtida em academia e com gastos de estética, enquanto o outro ostentava um físico preguiçoso de quem só aproveita a desídia. Abraçaram-se e, assim como na infância, passaram longo tempo juntos.
Na antiga casa materna, relembraram o convívio familiar. À medida em que um contava para o outro de sua atual vida, emergiu o mútuo sentimento de inveja. Maurício desejou por um instante distanciar-se de seu cotidiano corrido e agitado e se entregar à pasmaceira. Joaquim pensou nas múltiplas possibilidades perdidas caso associasse sua sorte com doses de força de vontade.
Assim, presenciaram como muito havia a distanciá-los de sua plena completitude. Após dois dias juntos, cada um retornou para seu próprio refúgio, abismados pela constatação de que nem toda sorte seria capaz de provi-los com todos os seus desejos.